«A sua aparência não é atraente. São pedaços chatos de argila, geralmente de um cinzento baço, embora em alguns casos tivesse penetrado na placa, enquanto estava a ser queimada, oxigénio em quantidade suficiente para causar oxidação, o que lhe confere uma agradável cor de tijolo. As placas variam em tamanho desde pequenos selos e rótulos com pouco mais de 2,5 cm de altura, até blocos pesados, em forma de página, com 25 cm por 12,5 cm. Alguns foram encontrados a esboroar-se, e Evans teve uma experiência desagradável numa ocasião em que deixou numa arrecadação, durante a noite, um conjunto acabado de desenterrar: a chuva penetrou pelo tecto e de manhã nada restava a não ser pedaços disformes de argila lamacenta.» 1
os pedaços disformes de argila lamacenta a que a humidade reduz as placas micénicas parecem aqui figurar a fugacidade da escrita, da língua e da memória, a efemeridade da tentativa humana de compreender e modelar o mundo, a inutilidade do gesto, tarde ou cedo condenado ao esquecimento. mas esta é uma narrativa de permanência, perdurabilidade e projecção da história num futuro em absoluto impossível de antecipar pelos seus contemporâneos.
o livro A Decifração do Linear B, de Jonh Chadwick, é o relato academicamente rigoroso, mas narrativamente apelativo e intelectualmente muito sugestivo, do processo de decifração do linear b, a escrita desenterrada nas campanhas arqueológicas de exploração das ruínas minóicas e micénicas, conduzidas a partir de finais do século XIX, pelo arqueólogo Arthur Evans.
este livro é, sobretudo, o relato do espantoso percurso intelectual que permitiu a Michael Ventris e a Jonh Chadwick decifrar uma língua há vários milénios desaparecida. decifrar o código tornou possível penetrar num mundo de palavras e de representações da civilização micénica, demonstrando, contra as evidências científicas da época, que essa língua era um antepassado directo do grego clássico, e obrigando com isso a reescrever parte da história do nascimento da civilização grega e com ela daquilo a que chamamos europa.
o linear b é uma escrita palaciana e instrumental, e o resultado da sua decifração pouco mais permite do que a leitura de um inumerável conjunto de placas de cariz contabilístico, mas mesmo isso torna possível a identificação na língua de actividades pastoris e agrícolas, formas de organização do mundo, instrumentos de formalização do poder. o linear b da placas micénicas suporta um vislumbre do tempo enquanto história e humanidade, fá-lo na língua e na escrita. que um conjunto de signos signifique terra, outro ouro, outro mulher, dá-nos desse mundo erodido pelo tempo e pela história uma ilusão de memória e de perenidade. faz de nós seus herdeiros na escrita.
1. John Chadwick, A Decifração do Linear B, trad. de Maria de Fátima St. Aubyn, Edições Cotovia, 1996, (edição original inglesa de 1958) p. 28.
