Kheto no Camões, inaugurada ontem. Pela imagem que ilustra o convite [um quadro apresentado a um concurso MUSART em 2009?] presumo que seja o habitual mundo soturno das figuras do pintor.
A última edição sul-africana da revista National Geographic Traveler (a ligação permite a leitura total) dedicada a Moçambique, um extenso guia por estâncias turísticas, muito catapultado pelo Parque Nacional da Gorongosa, pelo Nkwichi Lodge no Lago Niassa, pelas ilhas proibidas das Quirimbas (caríssimas) e por uma mão-cheia de praias. Ou seja, divulgar o turismo no país assente na sua especificidade ecológica, na conservação – alguém compreenderá? Ou continuará o desbaste histriónico? Também um pequeno, sofrível, passar-por-Maputo. Vale mesmo a pena ver a revista. Para planear. Ou para sonhar.
Pensei que me tinha saído a sorte grande, em grande! Primeiro fizeram-me o upgrade para business e depois sentam-me ao lado de um homem lindo. Alto, louro, olho azul, tudo nos trinques, qb. E simpático, também; ainda não tínhamos levantado voo e já tínhamos começado na amena cavaqueira que nos trouxe até Lisboa. Disse-me que estava a viver há uns tempos em Portugal, gostava, mas não sabia ainda quanto tempo mais ia ficar. Perto do Natal, falámos das tradições dos respectivos países. As atenções das hospedeiras e os olhares do restantes passageiros deveriam ter-me alertado, mas com tanta beleza acreditei qualquer olhar justificado. Não liguei. Aterrámos e despede-se de mim – vêm buscar-me à porta, explica com um sorriso meio tímido, meio divertido. O CEO de alguma empresa, pensei.
Saímos nós depois, recolhi as bagagens. No átrio das chegadas uma imensa confusão de gente, fotógrafos, câmaras, aparatos de VIP. No meio de todo um entourage vislumbrei o cabelo louro do meu companheiro de viagem. Foi então que caí em mim – tinha vindo em amena cavaqueira com uma celebridade. Mas quem?, meu Deus, quem? Percorri todos os filmes de que me consegui lembrar, séries de televisão, bandas e músicos. Desconsegui.
Fui iluminada na segunda-feira seguinte mal chego ao escritório. Em cima da mesa do segurança um jornal; a primeira página ocupada com o sorriso do meu companheiro de viagem. O jornal era A Bola e ele, afinal, o Mats Magnusson!
Um amigo, o único tipo no mundo que um dia me meteu em karaokices (ainda que em regime “grupo coral”), acaba de me pedir (e a outros) uma lista das canções portuguesas “assim dos 80s/90s” que me tenham sido marcantes (e ainda sejam, acho), um projecto dele. E-mail respondido de rajada e fico-me a pensar “ora aqui está um bom post, ainda para mais na era do “partilhar” facebookiano”. Segue o impulso (nem encontro disponível a “Pandra-Bomba” dos Mler Ife, o que não surpreende, nem o “Saudade” dos Trovante, o que espanta). E, como concordámos na troca final de e-mails, “um tipo podia continuar …”
Lamento uma ausência, não encontro traço do Herman José a cantar “Tirem-me da garagem”. Algum gentil leitor me poderá ajudar?
Ontem andei pelo velho Herman José. E descobri esta pérola. Num país onde é o entretenimento televisivo, em versão pantomina política, que anuncia os futuros governantes fica este meu contributo para a reflexão sobre as futuras eleições presidenciais em Portugal
Há quem tenha “disto tudo” uma visão futebolística, época a época, ou melhor, campeonato a campeonato, daqueles de quatro em quatro anos. Mas pode-se ir mais longe. Tentar ver continuidades. Em Portugal depois do cavaquismo (Portugal como silicone valley, petróleo verde, “pai já sou ministro”, nuno delerue [esse que regressou com Luis Filipe Meneses] e as facturas falsas, e duarte lima pré-cancro, e tudo aquilo que foi), um modelo de desenvolvimento des-produtivo, banca emprestadora e gigantescos bazares, veio o populismo “socialista” de Guterres, que se veio a laicizar com um Sócrates brotado dos dez estádios novos, um constante “milagre das rosas” que os netos (poucos, que “não há condições para ter filhos”, que disso da reprodução só se ouviu falar foi de homoparentalidade) pagarão (se medrarem).
A história político-económica destes 25 anos de Europa foi (para mim, claro) marcada pelo momento do capotanço do sistema político. Quando o Presidente Jorge Sampaio deslizou na sua fragilidade política e abjurou a constituição que tinha, um dia, na sua tomada de posse, jurado defender. Então, ele que depois veio a demitir um governo porque o considerava pernicioso (tinha todo o direito para isso), teve dúvidas, hesitou, pensou em exigir um esclarecimento público dos contornos, mas acabou por aprovar um governo assente numa manobra obviamente fraudulenta, a rábula do “queijo limiano” onde Daniel Campelo foi o peão jogado pela parelha Portas e Pina Moura para continuar o consulado de Guterres. Um charco imediato que degenerou em pântano. E veio a provocar, ou pelo menos muito contribuíu para, o absoluto delírio da primeira década de XXI, terminada tarde e más horas o mês passado.
Daniel Campelo (que mantém uma boa visão sobre os defensores PS do queijo limiano) foi agora, uma década depois, chamado para o governo do CDS. E logo para secretário de Estado da Agricultura, área fulcral de interesse do partido e da sua base social de apoio. Nesta recuperação se mostrando bem a sua articulação no seio do seu partido. E o desrespeito que este teve, e pelos vistos manteve, pelo sistema político.
Como todos sabemos mais depressa se apanha um coxo do que um mentiroso. Mas agora, tardiamente explicitado o mentiroso, olhar para trás e ver isto hoje é absolutamente repugnante. Levou uma década a mostrar-se, preto no branco (“juro solenamente cumprir etc e tal”), a manipulação ilegítima, antidemocrática, do sistema político e que terrríveis efeitos veio a ter. Não foi uma pequena manobra de salão, um qualquer “passo perdido”. Foi a fundamental aldrabice política deste regime (a dita III República).
O país precisa, desesperadamente, de um bom governo. E não será com campelices ou campelismos que o terá. Nem com Campelo nem, fundamentalmente, com quem joga Campelos. Muito para além de Campelo.
Como é possível tanta desvergonha “centrista”? Mas acima de tudo como é possível que um primeiro-ministro que aparenta(ou) uma nova dinâmica no exercício da política se deixe poluir desta vil forma? Logo no início. Qual estado de graça? Isto está uma desgraçada desgraça. Que se cheira à vista desarmada.
Maldição, lá se foi a ténue esperança pia abaixo. O pântano continua.
A estreia de Sónia Sultuane como curadora de exposições, uma colectiva de fotografia dedicada à verdadeira materialidade da mulher. Cinco fotógrafos a partir da próxima quinta-feira, na Associação Kulungwana. A ver vamos.
Em 1977 Vergílio Ferreira sobre a “ideologia portuguesa”. Espantosa e dolorosamente actual.
“Decerto que não é o mando que está no nosso horizonte – e ainda bem; mas não deve estar também a submissão. E se tal submissão é evidente, quando ao nosso destino o detêm mãos alheias, é já menos evidente quando se obscurece a consciência de que o temos, o devemos ter, nas nossas mãos. Porque o não perdemos apenas quando de facto o perdemos, mas ainda quando nos perdemos dele e nele deixamos de nos reencontrar. Não deixa de ser nosso apenas quando ele é já de outrem, mas ainda quando não o reconhecemos para o assumir e continuar. Porque esquecermo-nos de nós é correr o risco de que outros nos encontrem … (…) O mínimo que de nós podemos exigir é assim a sensatez. Parecerá um pouco excessivo, talvez, misturar o nome puro do grande poeta [Camões] à perturbação por que passamos. Porque ela desenvolve-se não apenas ou não bem numa dimensão de idealidade ou de grandeza, mas numa esfera do elementar. É mesmo grave, decerto, ou um pouco despropositado que, esquecidos do elementar, pensemos apenas no que o transcende, que, esquecidos do mais urgente, nos fixemos no que o excede, ainda que a isso julguemos mais importante. É grave assim que a um problema imediatamente económico, nós sobreponhamos um problema de ideologia. Determinados por esquemas ideológicos, enquistados nos termos de uma doutrinação, valorizando acima de tudo a nossa paixão política, ou seja a paixão de nós – porque a política, ou certa política, contra o que possa parecer, é uma paixão solitária – nós recusamo-nos muitas vezes, ou quase sempre, a pensar no que lhe subjaz, nós recusamo-nos a considerar o que a excede, nós recusamo-nos sobretudo a admitir o seu erro, ainda que a realidade a desminta. Como os medievos em face de Aristóteles, se os factos põem em causa a nossa doutrina, tudo podemos admitir, excepto que esteja errada. Porque o que está em causa somos nós. E nós, obviamente, somos exactos como um axioma …” (15-16)
[Vergílio Ferreira "Da Ausência, Camões" (discurso nas comemorações oficiais do 10 de Junho, 1977), em Camões e a Identidade Nacional, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1983]
Assisti uma vez ao arriar da bandeira portuguesa para dar lugar à bandeira de uma nação que nascia. Foi em Timor Leste, em 20 Maio de 2002 e a emoção da cerimónia perdura ainda em mim. Arriou-se a nossa bandeira como um antepassado que parte, deixando a outros o seu legado. Lá longe e estrangeira, invadiu-me uma doce nostalgia por este país – o meu – tão pequeno e tão mal amado. Tocou o nosso hino e, também eu, sim, num nacionalismo bacoco, verti uma lágrima, indiferente ao belicismo da letra. Mas ver hastear a bandeira de uma nação que naquele momento (formalmente) nascia comoveu-me ainda mais, numa enorme alegria de esperança e num sentido de renascer difícil de articular. Multiplicou-se então a minha lágrima em mil.
Era ainda miúda quando Moçambique celebrou a sua independência, mas hoje ao ver estas imagens sinto exactamente o que senti em Dili naquele dia de Maio e marejam-me os olhos com igual emoção. Historicamente unidos, soberanamente diferentes e pares em igualdade. Finalmente!
É independente, profissional, livre, emancipada, responsável, vive a vida como pode e como quer. É bonita, alegre, desbocada e divertida – não passa facilmente despercebida. Teve a pouca sorte de se cruzar com um psicopata que não aceita um não como resposta. Invadiu-lhe o telefone, o email, a internet; violou-lhe as fotos, as amizades, a privacidade. Na era da comunicação baralhou-lhe as linhas e cortou-lhe os laços que a ligam a família e amigos. Está refém de um macho frouxo que alimenta a sua masculinidade no preconceito e de uma polícia incapaz de o conter a ele e de a proteger a ela. Por isso lhe deixo aqui este meu recado. Porque hoje foi ela mas, sei-o agora, podia ser qualquer um de nós.
Estamos juntas!
Há cerca de um ano o então machambeiro ABM (em boa hora) decidiu-se a apear um livro dedicado à demonização da sociedade colona [os meus textos de então estão aqui, os de ABM no seu blog]. Aquele disparate tinha sido muito bem acolhido no mundo literato-bloguístico português (e também no jornalístico, o Público anunciava-o como o início dos estudos pós-coloniais portugueses), e não só no gauchiste. Esse simpático acolhimento vinha muito por (procurado) desconhecimento das questões abordadas (em forma de retrato hiper-realista), muito por mero posicionamento excêntrico a literaturas ou sociologias históricas, mas acima de tudo por questões da sociologia da recepção textual – na realidade o meu co-bloguista (no defunto Olivesaria) jpn terá sido o único a botar como deve ser, qualquer coisa como “publico com a autora há mais de vinte anos, sou companheiro, amigo: gosto“, e isso assim eu aprecio, que o amiguismo não é corrupto, bem pelo contrário, quando explícito é companheirismo, húmus da vida. O resto que fui vendo a esse propósito, mascarado de objectividades, só mostrava da pequenez do contexto e do desinteresse dos locutores. Lembro uma recensão ao livro anunciando que aqueles que dele não gostavam eram do “outro lado da cidade“, assentando metáfora sobre a topografia/sociologia de Lourenço Marques/Maputo, com tudo o que de pejorativo (e de muros de Nicósia) isso implicaria. Turcos assim éramos, bárbaros infiéis. Ou seja, fachos, colonialistas. Enfim, confesso que então me diverti imenso a blogar sobre o caso, um verdadeiro torneio de tiro aos bonzos. Mas essa dimensão “comunitária” do apreço é interessante pois denota(va) a propensão para um particular olhar colectivo sobre a história recente de Portugal em África.
Vem esta memória, já estafada, a propósito da divulgação pela AL (no facebook) de Linha da Frente, um programa da RTP cujo último episódio foi dedicado aos deficientes das forças armadas de origem africana e de nacionalidade portuguesa – e de uma discussão que ali brotou (mais uma do género, que tende para o infinito). O meu interesse no tema vem de longe, em tempos até profissionalmente o acompanhei, nos finais de 1990s com o desenvolvimento da ADFA em Moçambique (lembro ainda a inauguração da sua sede, na Malhangalene), depois com a mais abrangente questão relativa às pensões aos antigos combatentes e sua aventada extensão às tropas africanas – que deu origem a um enorme boato, com milhares e milhares de petições. E, mais tarde, conhecendo os trabalhos do meu colega Elísio Jossias que fez uma tese de mestrado em Antropologia exactamente sobre os membros da ADFA de origem moçambicana (cá residentes e em Portugal). A questão dos deficientes é pungente, não só pelos óbvios dramas pessoais que a deficiência provoca como pela espantosa inércia das instituições portuguesas ao longo de longos anos.
A referência feita pela AL ao programa derivou quase de imediato em comentários apologistas do “sentir português” das tropas africanas recrutadas nas guerras coloniais (e, deduzo, nas obrigações que as instituições têm face a esse sentimento) – uma retórica recorrente, sempre apagando a pluralidade das causas e processos de integração dos africanos nas forças armadas portuguesas. E nisso, conscientemente, apagando os vincos e esquinas da sociedade colonial. Ou seja o desconforto, óbvio, com uma incúria inaceitável do Estado português, e da sociedade de que ele depende, face a responsabilidades históricas surgiu (como quase sempre surge nesta área) como motivo de enaltecimento daquela “nação” acima iconografada. E mais, de comentário em comentário, regressou o elogio do estatuto do indigenato e, intrinsecamente, da ideologia assimilacionista de então.
São estas as duas faces da moeda do desolhar nacional sobre o passado (ainda) recente em África. Certo que este recorrente elogio do colonial (mesmo que por vezes matizado por alguma distância crítica face ao “colonialismo real”) não vem embrulhado com o “capital cultural” da denúncia aplainadora da sociedade colonial de que acima falei, do mundo académico-literato sensível ao engajamento como turbo do pensamento. Mas é resiliente, talvez até mais divulgado, e defende-se, entranhado, numa reclamação empírica – “nós/eu estávamos lá, sabemos como realmente foi” – e continua, ainda que difusamente, a ter influência num olhar da sociedade sobre si, no passado e, se calhar, no agora mesmo. Certo que África, e o passado colonial, não são hoje muito importantes em Portugal, eurocentrado e globalizável. Mas nem é inexistente nem esta questão se prende apenas com as relações da sociedade com África.
Esta recuperação do assimilacionismo, e da sua forma particular de “estatuto de indigenato”, a afirmação da sua bondade (e até da sua contemporaneidade), não é mais nem menos do que a aceitação pública e assumida do estupro cultural, da violação religiosa, da apropriação económica, do politicocídio, que todo o sistema implicava. E até espanta pela sem-vergonha das declarações e pela sua constante repetição, algo que até poderia aparentar inconsciência (mas não a é). Quando refutadas essas (torpes) opiniões reclamam um feixe de considerações auto-validadoras. Reclama-se a experiência própria, uma legitimidade empírica (que, nada paradoxalmente, consiste exactamente em negar a empiria, a qual sempre é opaca, como é sabido), que surge desvalorizando quem não pensa assim. Que logo é metido de um “outro lado” qualquer, um “outro lado da cidade” outra vez. Pois de cada vez que me dá para afrontar esta ladaínha de novo “turco” me encontro dito.
Nestes apologistas uma das formas habituais de contestação é afirmarem meras “opiniões” as discordâncias. O que não deixa de surpreender, pois estes são discursos que habitam nos contextos menos simpáticos ao relativismo, esse tão falado hoje (o da aceitação das múltiplas seitas cristãs, da coranização, do curandeirismo; o das múltiplas formas familiares e conjugais; o das radicais liberdades de costumes, etc.). Mas nesta questão, particular, tudo desliza para o relativismo, como se fosse um mero confronto de opiniões. Um relativismo que se alastra até aos que não concordando com este “pensar colonial” o contextualizam, vendo-o (explicando-o) como fruto da peculiar sensibilidade daqueles que sofreram o fim do sistema colonial e que, devido a esse verdadeiro trauma, assim constroem as suas próprias visões do mundo. Ou seja, aceitando que uma identidade (multi)biográfica [qua "tribo"] elabora o mundo de forma diversa e sobre ele opina, assim legitimamente.
Outras vozes mais serenas face à contestação da sua visão colonial querem ensinar que a democracia é a aceitação de opiniões diversas. Ora aqui está mais uma falácia. A democracia consiste em aceitar o direito a expressar as opiniões, não em aceitar as opiniões. São repugnantes? Desprezíveis? Ainda que pouco importantes no mundo de hoje, e como tal menosprezadas no sentir global? Há que o afirmar. E não é falta de democraticidade fazê-lo, é um imperativo. Pois se o diálogo é democrático também o repúdio o é.
Uma outra questão que surge nas elaborações é a reclamação do não-enriquecimento próprio (ou familiar) colono. E é essa uma linha fundamental, pois abre caminho para quem não chega lá de outra forma, ao que realmente interessa. A sociedade colonial portuguesa era compósita, claro, e por isso mesmo atoardas denunciadoras como as que lá em cima lembrei são meros bibelots kitsch. O interessante é exactamente ver-se a multiplicidade dessa sociedade, não apagar a especificidade de contextos, de grupos diversos, das múltiplas formas de integração e das componentes que as terão influenciado, e também das formas de construção de alteridades. Não demonizar os seus agentes, colonos (ou colonizados), como se espantalhos. Nem mesmo os colonialistas. Mas nunca apagando os traços fundamentais da realidade que foi. Coisa que os denuncionistas não conseguem (nem se interessam), coisa que os apologistas não querem (há quem diga que não conseguem, o que é a pior das desvalorizações, e que refuto).
Neste contexto de invisualidade há um potencial de afecto, particular. Às vezes, e é dessas vezes que este texto fala, um afecto ciumento. Um olhar sobre as antigas colónias constantemente apontando os falhanços e as malevolências pós-independências, comparando-os com as práticas e realidades de antanho, estas vistas como benevolentes ou, pelo menos, até benevolentes. Os percursos dos estados africanos e em particular as diferenciações socioeconómicas neles existentes são reclamados como prova óbvia do bem anterior. Ou seja, as dinâmicas de exploração interna, enormes e terríveis, e que são o processo histórico actual, são transformadas em contraponto a uma bondade anterior.
Mas há um ponto fundamental, que nunca é referido neste feixe discursivo meu compatriota. É que o projecto de exploração, de apropriação, de transformação violenta e indesejada (não-requerida), o desígnio de poder, a realidade actual, não é já nosso. Um “nosso” de país, donde sociedade complexa, hierarquizada, diferenciada, onde tantos não eram (nem se sentiam) possidentes, e onde as acções e concepções eram múltiplas. Mas onde presidia uma identidade comum, que baseava direitos comuns subordinadores de outrem, e confrontada com uma realidade apropriada, assim subordinada.
Assim sendo é esta liberdade de não ser colono que quem ainda tece loas ao “indigenato” e ao assimilacionismo, até ao colonialismo, não preza. É esta democraticidade que estes reclamados democratas não sentem. Com tudo o que défice de cidadania, no próprio país, isso anuncia. E também por isso a indignação face a compatriotas que ainda hoje, tão anacronicamente, valorizam a opressão e o agenciar (de múltiplas formas e com diferentíssimos estatutos) desse malfadado desígnio de então.
Em 1971, em Lourenço Marques, António Quadros assinando João Pedro Grabato Dias escreveu:
Sei que são meus senhores, é quanto basta para saber-me escravo e infeliz. E ainda que os soubera forcejando unicamente por interesse meu e por meu bem, sem causas de malícia, eu lhes negara o gosto de o fazer e o direito de impor-me o que nem sei se desejo. E ainda que inocentes de propósito cru de magoar-me eu os negara porque são senhores.
[João Pedro Grabato Dias (António Quadros), A Arca. Ode Didáctica na Primeira Pessoa, cxcix, Lourenço Marques, edição do autor, 1971]
40 anos depois ainda soam os lamentos de que no “nosso tempo” não era assim. E os resmungos do que foi perdido, das feridas próprias ou alheias, da injustiça sofrida. Um ressentimento que reclama este futuro. E também por uma compensação. Moral. Quantas vezes por via do reconhecimento, atento, até quotidiano, da malevolência alheia, até da incompetência.
Na prática denuncionistas (invectivando os demónios próprios) e apologistas (carregando sobre os demónios alheios) continuam o seu conto de fadas colonial: “… a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação.” (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).
Democraticamente têm todo o direito de o narrarem, ao conto de fadas de cada um. Mas não podem exigir respeito. Intelectual.
No facebook há uma página agregando vários filmes sobre o Parque Nacional da Gorongosa – infelizmente sem disponibilizar os códigos para a sua transcrição em blog. Mas a página é aberta, e justifica a visita.
Isaac Newton, Philosophiae Naturalis Principia Mathematica (1687)
O The Guardian acaba de publicar uma lista dos 100 greatest non-fiction books. A lista é como todas ou seja, vale o que vale. O mais interessante é ver o que não integra. Decerto elaborada por gente subordinada a uma estreita perspectiva do que é “paradigma científico”, essa que vê os paradigmas nas “ciências naturais” radicalmente abandonados quando ultrapassados ao contrário do acontecido nas “humanidades”. Só por isso se poderá compreender um pouco a elaboração de uma lista, que se quer histórica, de 100 livros em que apenas 1 é de matemática e 5 de “ciências” (ciências naturais) – e o Newton não está, apesar de estar o Edward Gibbon (1776), por exemplo. E mesmo assim …
Mas uma lista é uma lista, apenas, mesmo que de um prestigiado jornal. O interessante disto é confrontá-la com a velha ladainha, em que sempre se invectiva o excessivo pendor “literato”, do peso das “humanidades” na intelligentsia em Portugal enquanto “lá-fora” será o contrário, com uma atenção redobrada na compreensão das ciências “duras”. Muito em particular no mundo anglófono … Vê-se.
Entretanto, e porque tem comentários, lá meti opinião. Já que metem o “Golden Bough” de James Frazer propus o “The Argonauts of the Western Pacific”, de Malinowski. Mas só aqui dá para ver o “datados” que são aqueles “especialistas” do jornal … Vitorianos, ainda? Talvez não, mas que o trabalho é muito fraquinho …
Há alguns dias, logo após as eleições portuguesas, no mural FB de um colega moçambicano comentavam-se os resultados. Aí surgiu alguém referindo as ligações do PS com a Renamo. Espantei-me. E na conversa lá tentei enquadrar historicamente essa velha e desactualizada ideia, a da ligação do PS com as oposições armadas de Angola e Moçambique, nisso recuando fundamentalmente aos anos 1980s. Com humor o principal interlocutor elevou-me a “elefante”, presumo que aquele da mítica memória. É isso, estou velho. E sem querer. Aconteceu-me. Percebo isso muitas vezes, nas aulas, e não só pelo ar viçoso daqueles que ali me enfrentam. Ao procurar enquadrar o que foi sendo dito reparo que acontecimentos fulcrais ocorridos na minha adultice são vistos com a estranheza que eu dedicava, em tempos, à Comuna de Paris ou, até, à Guerra dos 100 anos (quando foi mesmo?).
Raramente isso me acontece no bloguismo (e talvez por isso, pela ilusão do invelhecimento, eu tanto blogue). Mas veio hoje. Ao ler o Pedro Correia. Ecoa ele um grande blog comunista português, de farta audiência e basta prosa. E onde agora mesmo (presumo que mais uma vez) se gaba o regime cubano, pois naquele país se descobriu (ao que consta, e espero bem que sim) a vacina contra o cancro do pulmão. [E a gente a fumar os havanos, claro].
E nisso lá me senti envelhecido, logo me lembrei de já adulto ouvir e ler tantos elogios à Jarmila Kratochvílová, mais aos outros todos. E ao Sputnik, à Laica, à Valentina Tereshkova, tudo aquilo assente no grande Stakhanov, claro era. E como todos aqueles sucessos mostravam da bondade geral do qual tudo aquilo brotava. Da superioridade do “sistema”. E da sua “moral”. Repito, já eu era adulto e continuava aquela missa.
30 anos depois continuam. Não mudaram nada, nada largaram daquela ignorância. E da maldade. Apenas mais fel. Convém não esquecer o que fizeram durante décadas por todo o mundo, com o fel esperançoso que tinham. Convém para imaginar o que o actual fel desesperançoso (aliás, desesperado) poderia provocar. Se os ouvirmos.
Ou, realmente mais velho, reduzir a patético as apatetadas prosas. Malévolas, sempre. Mas patetas. “Inlinkáveis” …
Anda por blogo-aí um inquérito sobre leituras, daquelas correntes convivenciais tipo “passa ao outro e não ao mesmo“. Como a mim ninguém me liga, calimerizo, respondo por iniciativa própria. Moçambique faz 36 anos esta semana e por isso ficam (também) os meus (36) livros preferidos sobre Moçambique, (d)aqueles com os quais fiz o meu Moçambique.
1 – Existe um livro que leste e releste várias vezes?
“As Duas Sombras do Rio”, de João Paulo Borges Coelho.
2 – Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Só cá em casa tenho estantes desses. Um? “Moçambique“, de António Enes.
3 – Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Nunca faria tal coisa. Se estivesse moribundo ia morrer.
4 – Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
“A Sociedade Chope“, de David Webster (ainda).
5- Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
De sempre? “O Jogador“, de Dostoievski. Aqui?
“Nada nos é belo se for demasiadamente claro. Nada interessará.
Portanto, arrumo, aqui, as ferramentas deste trabalho, desta paixão que tenho pelas visões que encerro, pelo motor que as leva à minuciosa observação dos espaços. E ainda assim sinto que me pesa tanto inconhecimento, tanta denotada fragilidade. Eu nada sabia desta remota possibilidade, deste lírico fervor que guardo pela imaginação. Gostaria imenso de falar-me disto, destas alegrias pacientes de que sou um exímio fazedor. Como sucedo que olho para o que a pensar direi melhor.
Vou fechar a janela amarela que tenho virada para Oriente. Vou restabelecer outro milagre de sonhar.“
(Eduardo White, Janela Para Oriente)
6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Sim. Aventuras. [A pergunta está mal escrita ... o que lia? então segue-se:].
Questão: o que é ser criança? Emílio Salgari (preferia o “Corsário Negro”), Edgar Pierre Jacobs (Blake & Mortimore), Karl May, Condessa de Ségur, Julio Verne, Enid Blyton (mais “As Aventuras dos Cinco”), Uderzo e Goscinny (Asterix), Herge (Tintin), Jacques Martin (Alix), Jean Graton (Michel Vaillant), Major Alvega, revistas Tintin semanal, Colecção Apache, Colecção Combate, colecção Condor, Morris (Lucky Luke), Henrique Galvão, Paul Féval, colecção Fauna (Verbo Editora).
Resposta: é ler até chegar a Thor Heyerdhal (“A Expedição Rá“).
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Já li muitos assim mas ponho o “O Advogado de Inhassunge“, de Luís Loforte. Pois não só o li como ainda tive que ouvir o sarcasmo do autor, invectivando a minha falta de interesse na sua obra.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Por razões da efeméride desta semana ficam 36 livros, os livros que fizeram o meu Moçambique:
Anónimo, A Guerra dos Reis Vátuas …
João Paulo Borges Coelho,As Duas Sombras do Rio
João Paulo Borges Coelho, As Visitas do Dr. Valdez
João Paulo Borges Coelho, Índicos Indícios I. Setentrião / Índicos Indícios II. Meridião (dois livros que são um, dividido por razões editoriais)
Bernardo G. de Brito, O Naufrágio de Sepúlveda
José Capela, Donas, Senhores e Escravos
Júlio Carrilho, Luís Lage et al, Traditional Informal Settlements in Mozambique: from Lichinga to Maputo
Rafael da Conceição, Entre o Mar e a Terra. Situações Identitárias no Norte de Moçambique
José Craveirinha, Xigubo
Teresa Cruz e Silva, Igrejas Protestantes e Consciência Política no Sul de Moçambique: o caso da Missão Suíça (1930-1974)
Jorge Dias, Os Macondes de Moçambique (em particular a reedição do primeiro volume, 1999, com prefácio de Rui M. Pereira)
Fernando Florêncio, Ao Encontro dos Mambos. Autoridades Tradicionais vaNdau e Estado em Moçambique
Carlos Fortuna, O Fio da Meada : o algodão de Moçambique, Portugal e a economia-mundo, 1860-1960
Christian Geffray, Nem Pai Nem Mãe. Crítica do Parentesco: o caso Macua
Christian Geffray, A Causa das Armas. Antropologia da Guerra Contemporânea em Moçambique
Patrick Harries, Work, Culture and Identity. Migrant Laborers in Mozambique and South Africa, c. 1860-1910
Alcinda Honwana, Espíritos Vivos, Tradições Modernas. Possessão de Espíritos e Reintegração Social Pós-Guerra no Sul de Moçambique
Luís Bernardo Honwana, Nós Matámos o Cão Tinhoso
Allen Isaacman, Cotton is the Mother of Poverty. Peasants, Work, and Rural Struggle in Colonial Mozambique, 1938-1961
Henri Junod, Usos e Costumes dos Bantu
Ungulani Ba Ka Khossa, A Orgia dos Loucos
Rui Knopfli, Mangas Verdes Com Sal
Ana Loforte, Género e Poder Entre os Tsonga de Moçambique
Eduardo Medeiros, História do Cabo Delgado e do Niassa (c. 1836-1929)
A. J. Mello Machado, Entre os Macuas de Angoche
José Negrão, Cem Anos de Economia da Família Rural Africana
Diocleciano Fernandes das Neves, Das Terras do Império Vátua às Praças da República Boer
Francisco Noa, Império, Mito e Miopia
Eduardo Pitta, Persona
Ricardo Rangel, Pão Nosso de Cada Noite
Frei João dos Santos, Etiópia Oriental
Nelson Saúte e António Sopa (orgs.), Ilha de Moçambique Pela Voz dos Poetas
Nelson Saúte (org.), As Mãos dos Pretos. Antologia do Conto Moçambicano
Nelson Saúte (org.), Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana
Nelson Saúte, Os Narradores da Sobrevivência
Karl Weule, Resultados Científicos da Minha Viagem de Pesquisas Etnográficas no Sudeste da África Oriental
9. Que livro estás a ler neste momento?
Pouco daqui. Mas alguns a propósito daqui. “Mulheres de Atenas” de Ana Lúcia Curado, “A Fruição da Arte, Hoje” de Idalina Sardinha, “Judas, o Obscuro” de Thomas Hardy, “Sonetos” de Bocage, “Natural Symbols” de Mary Douglas, ” Camões e a Identidade Nacional” (colectânea de discursos de 10 de Junho de Vergílio Ferreira, Jorge de Sena, Fernando Namora, Vitorino Magalhães Godinho, David Mourão Ferreira, Eduardo Lourenço, Agustina Bessa-Luís, José Azeredo Perdigão), “Obras Completas II 1952-1974” de Jorge Luís Borges, “O Meu Cinzeiro Azul” de Henrique Fialho, “A Invenção das Ilhas” de Virgílio de Lemos.
Adenda: meter-me numa brincadeira destas de fazer uma lista dos livros que fizeram o meu Moçambique e não a encabeçar com o “Antropologia e Desenvolvimento. As Aldeias Comunais de Moçambique” de Adolfo Yañez Casal diz mais da minha desarrumação do que outra coisa qualquer. Fica então para a próxima lista, tipo “os 37 livros nos 73 anos” …
É nas mesmas águas lusas (mais charcos) em que há um mês se louvava o ignorante mas patriótico filme da Câmara Municipal de Cascais contra os malandros dos finlandeses que não queriam contribuir para as necessidades financeiras portuguesas, e logo as nossas que demos novos mundos ao mundo e que tanto continuamos a ronaldar, que agora brotam incomodadíssimas (e blogo-exaltadas) denúncias do estado do Estado daqueles helénicos (e respectivas orfãs e funcionários e clientelismos e corruptos e isso tudo), patifes a quererem o nosso dinheiro e o dos outros europeus, e tão escasso anda ele …
Deixo o grande El Aleph (aos mais temerosos, o castelhano lê-se tão facilmente como o português, apenas pede um pouco mais de atenção). E um programa sobre o escritor, que ainda não vi. A ver vou, e com toda a certeza que justificará um breve intervalo no mundo das redes sociais …
Voraz de veloz o tempo,por isso na semana passada a notícia do quarto de século após a morte de Borges. Só no fim-de-semana consegui andar até à estante, privada comemoração. A lembrar-me de ter 14 anos, umas breves férias em Salema com o Aleph da minha irmã, uma impressão que ficou.
Das milhares de linhas que podia aqui deixar, copiando mas não como se avatar do seu Pierre Menard, partilho este Tamerlão que mandou lançar “flechas de ferro contra o céu adverso (…) / Para que nem um só homem ignore / Que os deuses já morreram. Sou os deuses” (no O Ouro dos Tigres).
TAMERLAN (1336-1405)
Mi reino es de este mundo: Carceleros Y cárceles y espadas ejecutan La orden que no repito. Mi palabra Más ínfima es de hierro. Hasta el secreto Corazón de las gentes que no oyeron Nunca mi nombre en su confín lejano Es un instrumento dócil a mi arbitrio. Yo, que fui un rabadán de la llanura, He izado mis banderas en Persépolis Y he abrevado la sed de mis caballos En las aguas del Ganges y del Oxus. Cuando nací, cayó del firmamento Una espada con signos talismánicos; Yo soy, yo seré siempre aquella espada. He derrotado al griego y al egipcio, He devastado las infatigables Leguas de Rusia con mis duros tártaros, He elevado pirámides de cráneos, He uncido a mi carroza cuatro reyes Que no quisieron acatar mi cetro, He arrojado a las llamas en Alepo El Alcorán, El Libro de los Libros, Anterior a los días y a las noches. Yo, el rojo Tamerlán, tuve en mi abrazo A la blanca Zenócrate de Egipto, Casta como la nieve de las cumbres. Recuerdo las pesadas caravanas Y las nubes de polvo del desierto, Pero también una ciudad de humo Y mecheros de gas en las tabernas. Sé todo y puedo todo. Un ominoso Libro no escrito aún me ha revelado Que moriré como los otros mueren Y que, desde la pálida agonía, Ordenaré que mis arqueros lancen Flechas de hierro comotra el cielo adverso Y embanderen de negro el firmamento Para que no haya un hombre sólo que no sepa Que los dioses han muerto. Soy los dioses. Que otros acudan a la astrología Judiciaria, al compás y al astrolabio, Para saber qué son. Yo soy los astros. En las albas inciertas me pregunto Por qué no salgo nunca de esta cámara, Por qué no condesciendo al homenaje Del clamoroso oriente. Sueño a veces Con esclavos, con intrusos, que mancillan A Tamerlán con temeraria mano Y le dicen que duerma y que no deje De tomar cada noche las pastillas Mágicas de la paz y del silencio. Busco la cimitarra y no la encuentro. Busco mi cara en el espejo; es otra. Por eso lo rompí y me castigaron. ¿Por qué no asisto a las ejecuciones, Por qué no veo el hacha y la cabeza? Esas cosas me inquietan, pero nada Puede ocurrir si Tamerlán se opone Y Él, acaso, las quiere y no lo sabe. Y yo soy Tamerlán. Rijo el poniente Y el Oriente de oro, y sin embargo…
Via Paulo Pinto Mascarenhas, agora blogo-esmaecido no Cachimbo de Magritte chego a um texto de um médico dirigente do Bloco de Esquerda, chamado Bruno Maia, no qual se apela a um programa de continuidade de lutas dos direitos LGBT até a um futuro melhor, o qual será, entre outras coisas, “o dia em que não existirão homens ou mulheres...”.
E eu vou imaginando aqueles tantos colegas (e até alguns amigos) tão simpáticos para com estas trapalhadas, até entusiastas. Uns mamíferos (ou nem isso poderemos continuar a ser …?).
Julius Malema falou ontem e subiu o tom, ainda mais. O futuro da África do Sul passa por ele? Por mais Malema que Malema seja é impossível deixar de atentar no horizonte que ele constitui:
His closing address to the African National Congress Youth League conference in Johannesburg contained thinly veiled warnings to ruling party leaders, militant talk about land invasion and angry demands for better youth league representation in party ranks.
“We want a radical policy shift, we need courageous men and women to lead our people,” said Malema, throwing open the succession debate ahead of the ANC’s next elective conference in 2012.
“We must not be technical about our leaders. We need to be honest about them. Once you suppress that, the leaders will find that they have left the people behind – exactly what happened in Polokwane.”
The same rule should be applied during the election of leaders, said Malema, who has been pushing for his predecessor, Fikile Mbalula, to replace ANC secretary general Gwede Mantashe.
[Virgílio de Lemos, A Invenção das Ilhas, Escola Portuguesa de Moçambique]
Uma antologia de Virgílio de Lemos (nascido no Ibo em 1929), há longas décadas vivendo em França, organizada e posfaciada pelo António Cabrita (ficha mais extensa aqui). Vou andando, de heterónimo em ortónimo, curiosidade também pelo mapeamento cultural de um já antigo Moçambique que aqui se encontra, um caminho reforçado por ter conhecido o poeta nos anos 1990s, em Lisboa e depois aqui, quando veio lançar dois livros em Abril de 1999, que mostrei aqui.
Mas de repente tudo isso se suspende, desvanece, e volto bem atrás. Nisto, na memória do Nuno. Longínqua, quase trinta anos passaram desde que partiu.
7. Fotografia
Para o Nuno T. de Lemos
O pescador era seu filho. Belo. Sua imagem autêntica, de torso nu.
Cena de um filme? A mãe sorria: na praia, o linguajar das redes.
Um breve, muito breve, olhar pela blogosfera que se agita, pelos comentos dos murais do Facebook e pela imprensa nacional mostram-me críticas, apoios, dúvidas e insinuações sobre as diferentes personalidades à mistura com cegueiras ideológicas: não pode prestar porque é de direira ou então é muito bom exactamente por isso; é inexperiente? Não vai conseguir fazer nada ou por isso mesmo é que vai fazer bem; não é da área? Não sabe nada ou vai trazer um ar fresco aos problemas. Depois temos os teóricos da conspiração – maçónica, do imperialismo americano (ainda?), europeia (ah os malvados dos alemães), ou das grandes corporações, coadjuvados pelos histéricos do mau perder que apelam à agitação social como estratégia eficaz de resolução dos problemas económicos que nos afligem. Pois! Engraçados os biqueiranços entre os apontadores de dedos: quando-lá-estavam-os-da-tua-cor-calaste versus já-te-estás-a-alinhar-a-pores-te-a-jeito. Comum a todos a mentalidadezinha da dança das cadeiras, das corporações instituídas a cerrarem fileiras; sinto que já se vai juntando lama para o arremesso e lenha para alimentar as piras E eu? Eu para já felicito os membros do governo novo pela coragem de assim se lançarem às feras e a tão ingrata tarefa; aguardo com mente aberta o que deles virá. Mas algo me diz, perante o que tenho lido, que vamos continuar a ser um país de indigentes. A todos os níveis. Porque quem está não quer mudar e quem quer mudar não consegue estar.