debate REBELDES CONTRA O FUTURO? 200 ANOS DEPOIS DO LUDISMO



Casa da Achada # sexta-feira, 20 de maio # 21h30 # entrada livre

organização UNIPOP e revista imprópria

(ver localização aqui)


com a participação de:

José Luís Garcia
Gualter Baptista
José Neves

Há duzentos anos atrás, durante o período da primeira Revolução Industrial em Inglaterra, emergia um movimento de artesãos têxteis que se opunha à
introdução de maquinaria nos processos de trabalho. No âmbito de processos de industrialização que introduziriam alterações profundas nos seus modos de
vida e deixariam sem trabalho os artesãos mais qualificados, o termo ludita cunhou um movimento que se inspirava em Ned Ludd, também conhecido por General Ludd. Embora não se saiba ainda hoje se Ludd foi ou não mais do que uma personagem mítica, a sua figura ficou associada à destruição de duas máquinas de tricotar na fábrica onde trabalharia, em resposta a uma repreensão patronal. Não obstante o movimento ludita ter sido desencadeado por artesãos, o termo «ludita» foi desde então retomado na crítica ao culto da tecnologia, do trabalho e do progresso. A Unipop e a revista Imprópria organizam um debate que discutirá a história do movimento ludita, os movimentos contemporâneos de acção directa contra a modernização capitalista – entre outros, movimentos antinuclear, de oposição à agricultura transgénica ou à patenteação de sementes – e os limites da ideia de progresso.

Ciclo AGÊNCIA - Algumas formas ao alcance de todas as mãos | A arte do trabalho (sessão UNIPOP, 30 Abril, 18h30)

Sábados, 30 de Abril e 7 de Maio | 17H e 18H30
The Barber Shop (Rua Rosa Araújo, n.º 5, Lisboa - metro Avenida)

Entrada livre



Agência é uma entidade abstracta, simultaneamente estrutura e impulso que gera actividade, identificada como intermediária na gestão de negócios pessoais. Mas aqui, o que nos deveria interessar é a própria definição daquilo que é negócio alheio: serão a precariedade, a subsistência, das finanças aos rendimentos, como a própria representação artística, parte dos negócios que não nos concernem como autores e produtores? Ou é esta a componente do negócio da qual nos alheamos voluntariamente, por não a considerar trabalho ou tópico propriamente dito? Deixemos então cair nas nossas mãos, nas suas variadas qualificações e inqualificações, estes negócios alheios, possibilitando a discussão colectiva das vantagens e opções individuais de trabalho para lá do trabalho autoral.

Se a crítica institucional pressupunha a instituição como campo de acção e poder, é possível que esta tenha de se reestruturar e dirigir à vida em si mesma de modo a responder à biopolítica que define o capitalismo actual. Isto porque se por um lado esta dissolução de esferas de competência é tradição do modernismo artístico, por outro lado é para as condições de vida dos artistas que um mercado flexível olha hoje como modelo empreendedor e neo-liberal.

Assim, pedimos emprestado ao falecido pintor Ângelo de Sousa, o título que atribuiu aos desenhos feitos de gestos simples, gramáticas para linguagens entre corpos, capazes de serem feitos por qualquer um, no seu imaginário de equivalência e acessibilidade. Com Ângelo de Sousa, pressupomos então que uma tal passagem da arte às condições e opções de vida podem somente dar-se por um princípio de empatia e agenciamento.

Em quatro sessões abordar-se-ão questões sobre a noção de trabalho em Arte Contemporânea. Estas sessões percorrerão uma reflexão sociológica da área em Portugal (Vera Borges), a análise teórica e filosófica do trabalho precário no capitalismo actual (José Neves/ Miguel Castro Caldas), alguns exemplos de associativismo e activismo laboral (Scottish Artists Union), bem como de quando a arte e direitos de autor se imiscuem na área do Direito (Daniel McClean). Em paralelo serão disponibilizados conteúdos online, que amplificam a área de reflexão do programa, tais como como uma entrevista com os Temporary Services e o seu jornal Art Work, contribuições da Agency de Kobe Matthys, bem como os resultados do inquérito a trabalhadores em Arte Contemporânea circulado online em Portugal em Abril de 2011.

Agência: algumas formas ao alcance de todas as mãos é um projecto concebido por The Barber Shop com Mariana Silva e Pedro Neves Marques.


(sessões)

30 ABRIL 17h

Vera Borges:
Em conversa com Vera Borges, serão abordados alguns dos resultados do inquérito a trabalhadores no campo da Arte Contemporânea em Portugal, circulado on-line em Abril de 2011. A partir destes, será tida uma conversa em torno da sociologia do campo das artes visuais, condições de trabalho, direitos, remuneração e representação.


30 ABRIL 18h30

José Neves e Miguel Castro Caldas - Sessão organizada por Unipop:
Conhecemos bem os efeitos dos processos de mercadorização em curso. Tendem a submeter as mais diversas actividades humanas ao princípio mercantil. Faz-se o que se vende. Nos últimos anos a cultura em geral e a arte em específico têm sido áreas particularmente influenciadas por este princípio. A situação tem gerado inúmeros debates em torno do estatuto do artista e da própria obra de arte, bem como acerca das relações da arte e da cultura com o Estado e com o Mercado.

Ao mesmo tempo, embora, porventura, com menor repercussão a nível dos debates públicos, as actividades mais convencionais de produção de mercadorias - desde logo, as actividades industriais - têm igualmente passado por transformações importantes, redefinindo o estatuto do produtor e do próprio produto. Há quem fale de cidades que se tornam criativas, apoiando-se em processos de gentrificação, e quem refira a emergência de um novo proletariado, um proletariado imaterial, para quem a precariedade é a ordem dos dias e das noites que correm, e o tempo de trabalho e o tempo de vida se tornam indissociáveis: tudo o que se faz é e não é trabalho. É da intersecção destes dois processos - mercadorização da vida, "criativização" do trabalho - que surge o título deste debate: a arte do trabalho.


7 Maio 17h

Peter McCaughey:
Como membro executivo da Scottish Artists Union, a contribuição do artista e professor Peter McCaughey focar-se-á em questões práticas sobre diversas abordagens que poderão guiar os artistas em tempos de acrescida precariedade.


7 Maio 18h30

Daniel McClean:
Dada a sua prática enquanto advogado e curador, Daniel Maclean examinará dois pontos a partir dos quais a Lei interpreta a Arte. Primeiro, a classificação e definição de obras de arte; segundo, a articulação e defesa dos direitos dos artistas. Algumas consequências destas interpretações para a arte e para os artistas serão debatidas, bem como o uso por artistas da Lei em Arte e o que este processo propõe em relação à Lei.


(bios)

Vera Borges é doutorada em Sociologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales e pela Universidade Nova de Lisboa. É autor de vários livros sociológicos sobre o teatro em Portugal, por exemplo Teatro, Prazer e Risco (Roma Editora, 2008), sendo de momento investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

José Neves é professor no Departamento de História da FCSH-UNL e é investigador do Instituto de História Contemporânea da mesma faculdade.

Miguel Castro Caldas escreve para teatro, faz traduções, dá aulas. Co-traduziu o «O Governo das Desigualdades», de Maurizio Lazzarato.

Peter McCaughey é membro executivo da Scottish Artists Union. Em paralelo à sua prática artística, faz investigação e lecciona no departamento de Escultura e Environmental Art da Glasgow School of Art. Tem contribuido frequentemente para comissões, colaborando com arquitectos, urbanistas, engenheiros e designers em think tanks sobre arte pública. Recentemente, contribuiu para o livro Cultural Hijack sobre direitos de artista e preparou uma campanha da Scottish Artists Union que visa desafiar os partidos políticos perante as políticas culturais e artísticas vigentes.

Daniel McClean é curador, escritor e consultor em questões legais ligadas à arte. É advogado na Finers Stephens Innocent, tendo trabalhado com vários artistas em questões de direitos de autor e condições legais, incluindo mais recentemente o projecto dos Superflex Free Sol Lewitt no Van Abbenmuseum, Eindhoven. É o editor do livro The Trials of Art (2008). É formado em Filosofia, Política e Economia pela Universidade de Oxford e em Lei e Propriedade Intelectual pela Universidade de Londres.

Temporary Services é constituído por Brett Bloom, Salem Collo-Julin and Marc Fischer. Tendo começado na cidade de Chicago, está no activo deste 1998, produzindo exposições, eventos e publicações com foco em direitos de artista e questões relacionadas, nos EUA e internacionalmente, incluindo o jornal Art Work: A National Conversation About Art, Labor and Economics (2009).

Agency foi fundada pelo artista Kobe Matthys em 1992 e é baseada em Bruxelas. Tem participado em várias exposições e eventos, incluindo Animism (Extra City - Kunsthal Antwerpen/ Museum of Contemporary Art, Antuérpia), Un-Scene (Wiels, Bruxelas) ou When Things Cast no Shadows: 5th Berlin Biennial (Berlim).


+ info: http://www.thisisthebarbershop.blogspot.com/

mesa-redonda DOS MOTINS ÀS REVOLUÇÕES, E VICE-VERSA


Casa da Achada # sábado, 19 de fevereiro # 15h # entrada livre

organização UNIPOP e revista imprópria

(ver localização aqui)


com a participação de:

Miguel Cardoso
Pedro Rita
José Soeiro
Manuel Loff
Paulo Granjo
Ricardo Noronha

A partir dos mais diversos pontos, de Roma a Tunes, do Cairo a Oakland, de Londres a Beirute, de Buenos Aires a Atenas, de Maputo a Sana, um conjunto muito significativo de lutas, manifestações, greves, ocupações tem vindo a ter lugar. Um elemento comum, além da assinalável capacidade de mobilização, parece ser o facto de muitas destas acções assumirem, formal e substancialmente, o questionamento não só da ordem estabelecida, mas também do padrão normalizado da luta política legal e confinada aos limites do poder de Estado. Num contexto de crise do capitalismo global, a ordem pública é confrontada com uma desordem comum que toma as ruas como o seu espaço, resgatando palavras como «revolução», «revolta», «motim». O debate que propõe a UNIPOP passa por procurar identificar que outros pontos de contacto têm estes diversos focos de luta, bem como quais são os seus limites, e perceber em que medida é que um certo efeito de arrastamento pode ou não ter como consequência a constituição de uma resposta emancipadora à crise do capitalismo global, ou seja, que articulação têm estes movimentos com o paradigma da «revolução» e de que modo o reconfiguram.

mesa-redonda O ESPECTRO DA ANARQUIA

Casa da Achada # sábado, 8 de Janeiro # 15h # entrada livre

organização UNIPOP

(ver localização aqui)

com a participação de:

António Cunha
# membro do colectivo Casa Viva #

António Pedro Dores
# sociólogo e prof. no ISCTE #

José Carvalho Ferreira
# economista e prof. no ISEG #

José Neves

# historiador e prof. na FCSH #

Miguel Madeira
# economista #

Miguel Serras Pereira

# tradutor #

Ricardo Noronha
# doutorando em História #

O recurso a etiquetas ideológicas é uma prática recorrente, quer por parte de correntes de pensamento e movimentos sociais e políticos quer por parte dos poderes instituídos. Se para os primeiros uma lógica de fixação identitária parece impô-lo, para o segundo trata-se de uma técnica de definição de um inimigo, interno ou externo, identificável, de um processo de naturalização do recurso à violência autorizada. «Comunismo», «terrorismo», «antiglobalização», «anarquismo» têm sido algumas dessas etiquetas. Mais recentemente, o «anarquismo» – ou mais sofisticadamente as «ideias anarquistas» – instalou-se no espaço mediático a propósito de um conjunto de movimentações sociais contra os poderes instituídos. Detenções, condenações judiciais, cordões policiais em manifestações, a coberto da defesa da democracia contra as «ideias anarquistas», têm, na verdade, sustentado a criminalização de todas as lutas que procuram situar-se para lá da intervenção política e social institucionalizada. Partindo do reconhecimento de que por detrás da designação «anarquismo» se esconde uma enorme pluralidade teórica e prática, a UNIPOP propõe uma discussão acerca do percurso histórico das «ideias anarquistas» em Portugal, bem como uma abordagem cruzada de algumas das tradições teóricas que se colocam sob essa etiqueta.

COMMONIVERSITY, Barcelona 25 de Novembro

Encontro de universidades anómalas em Barcelona nos dias 25, 26 e 27 de Barcelona. A unipop estará por lá. Mais info, aqui.

Ciclo de debates PRIVADO, PÚBLICO e COMUM

LOCAL: TEATRO MARIA MATOS, Lisboa

# entrada livre #

Há mais vida além do Estado e do mercado? Ao longo dos últimos anos, a oposição entre público e privado tem ocupado um lugar fundamental em grande parte dos debates políticos e com a crise económico-financeira esta tendência acentuou-se de modo ainda mais nítido. Neste ciclo de debates, a UNIPOP propõe partir das contraposições entre público e privado e entre Estado e mercado, discutindo-as em diferentes dimensões do quotidiano, da organização do trabalho à construção das cidades, passando pelos processos educativos, pelo espaço mediático e pelas políticas de saúde. Procuraremos analisar as transformações das últimas décadas, tanto à escala nacional como à escala global, e apontar novos caminhos, num debate que vai além da simples contraposição entre público e privado ou Estado e mercado, contraposição cuja rigidez tende muitas vezes a confinar o combate aos processos de privatização à defesa do controlo estatal. Se por um lado queremos mapear claramente o que separa privado e público, por outro trata-
se de questionar a possibilidade de questionar formas de poder transversais ao espaço público e à esfera privada.

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11 de Outubro 18h30 (data actualizada)
O que é o Comum?
Debate com Michael Hardt e a UNIPOP

Com a publicação de Império, em 2000, Michael Hardt e Toni Negri renovaram de modo significativo os termos do debate político à esquerda. O livro, entre muitos utros pontos de debate, procurou repensar a política além da alternativa entre o capitalismo e o socialismo, assumindo como tarefa a renovação de um imaginário radical igualmente crítico do Estado e do mercado, retomando as tradições autónomas do movimento operário, assumindo-se como herdeiro de Maio de 68 e acompanhando os novos movimentos alterglobais. Em Multidão, primeiro, e, mais recentemente, em Commonwealth, Hardt e Negri continuaram a reflexão iniciada em 2000, nomeadamente em torno dos temas da propriedade, da produção e do rendimento, articulando alguns dos principais debates marxistas em torno da economia com os estudos foucauldianos acerca da biopolítica e da governamentalidade. Sublinharam, em particular, a necessidade de construir uma política assente no comum, entendido como condição essencial do comunismo, tal como o privado será condição do capitalismo e o público do socialismo. Dez anos depois de Império, Michael Hardt discute em Lisboa, com a UNIPOP, alguns dos aspectos mais importantes do trabalho político da dupla Hardt e Negri.

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13 de Outubro 18h30
Economia, Comunismo e Pirataria
Conversa com José Maria Castro Caldas e Miguel Serras Pereira

Nos últimos anos tem sido frequentemente debatido o maior peso do Estado ou do mercado na vida económica. Ao culto da livre iniciativa empresarial contrapõe-se a necessidade de maior regulação estatal, num debate a que não são de todo indiferentes as transformações ideológicas do liberalismo e do socialismo no século XX e as dinâmicas de globalização nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, a partir de experiências como as que caracterizaram a crise argentina do início deste século, retomaram a sua actualidade debates acerca do próprio modo de organização do poder no seio da empresa, reavivando-se tradições conselhistas ou de autogestão, assim como colocando na ordem do dia novas práticas comunais, de que se encontra exemplo na questão dos direitos de autor e de propriedade intelectual.

José Maria Castro Caldas é economista do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Miguel Serras Pereira é tradutor.

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20 de Outubro 18h30
Cidades, Centros Comerciais e Praças Públicas
Conversa com João Pedro Nunes, Manuel Graça Dias
e Miguel Silva Graça

A cidade tem sido palco de conflito entre interesses privados e públicos, conflito em que a questão imobiliária e os debates em torno do planeamento, colocando em causa a sacralidade do direito à propriedade privada, têm assumido particular destaque. Entretanto, a fronteira entre público e privado nem sempre resulta clara, seja porque a questão da privacidade tem sido colocada no âmbito do próprio espaço público (veja-se os debates em torno da videovigilância) seja porque existem determinados espaços privados, como os centros comerciais, que parecem assumir funções de encontro e reunião que antes eram apanágio da rua ou da praça. Ao mesmo tempo, os problemas específicos da habitação, dos chamados bairros de lata aos novos bairros sociais, mas também passando pelos condomínios fechados, pelos processos de gentrificação ou pelos movimentos de ocupação de casas, têm colocado as fronteiras entre público e privado em transformação, nuns casos, consolidando-as, noutros, atenuando-as.

João Pedro Nunes é sociólogo e investigador do CIES-ISCTE, Manuel Graça Dias é arquitecto e professor de arquitectura na Universidade do Porto e Miguel Graça é arquitecto e doutorando na Universidade de Valladolid.

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27 de Outubro 18h30
Media, Propriedade e Liberdade
Conversa com Daniel Oliveira, Nuno Ramos de Almeida e Rui Pereira

De que falamos quando falamos de liberdade de expressão? Nos últimos anos, os grandes meios de comunicação social fazem alarde da liberdade de expressão contra alegadas interferências do Estado, mas poderemos falar de liberdade de expressão no quadro de uma economia dos media em que a concentração impera? Neste contexto, importa atender a novas formas de comunicação que, à margem do controlo directo do Estado e dos grandes grupos privados, têm vindo a tecer redes muito vastas em que a fronteira entre emissor e receptor parece fragilizar-se. É o caso de uma série de meios suportados pela Internet, que, aliados aos novos desenvolvimentos tecnológicos, permitem igualmente colocar em cima da mesa novas possibilidades de estender o direito de emissão televisiva ou radiofónica além das empresas públicas e das empresas privadas de comunicação.

Daniel Oliveira, Nuno Ramos de Almeida e Rui Pereira são jornalistas.

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3 de Novembro 18h30
Medicina, Ciência e Saberes
Conversa com António Fernando Cascais e Isabel do Carmo

Em tempo de guerra ou em tempo de paz, o sistema estatal de saúde constitui um dos elos mais importantes da relação entre os Estados e as populações e durante a segunda metade do século XX os sistemas estatais de saúde têm sido considerados, na Europa mas não só, como uma das áreas primordiais de intervenção estatal, entre outras coisas visando impedir que as desigualdades económicas entre pessoas e classes se reflictam de modo ainda mais marcante no direito universal à saúde. Durante o mesmo período, contudo, as relações entre médico e doente têm vindo a ser cada vez mais objecto de debate, no quadro do questionamento das lógicas de poder subjacentes ao conhecimento científico, daqui resultando importantes discussões acerca da importância do «atendimento» em meio hospitalar (questão particularmente valorizada por gentes privados do sector da saúde), por um lado, e, por outro, da necessidade dos sistemas úblicos integrarem saberes e conhecimentos heterodoxos face às correntes dominantes na medicina (questão com implicações a nível nacional mas também no quadro dos debates em torno das valências de diferentes práticas culturais).

António Fernando Cascais é professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Isabel do Carmo é médica no Hospital de Santa Maria.

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10 de Novembro 18h30
Escola, Ordem e Emancipação
Conversa com António Avelãs e Jorge Ramos do Ó

A disputa pelo método de educar atravessa a história e é motivo de concórdia e discórdia entre professores, ministros, pais, psicólogos, alunos. Entre o ensino público e o ensino privado, o primeiro financiado pelo Estado e o segundo suportado pelas famílias, têm-se travado muitos destes debates, que se cruzam com outros tantos, à volta do ideal iluminista da educação como emancipação, e do seu potencial para corrigir as desigualdades ou, pelo contrário, para as eproduzir. Entretanto, a disputa pelo método de educar coloca igualmente em campo professores e alunos. As relações de poder que entre eles se estabelecem, das reiteradas críticas à falta de utoridade dos docentes à tentativa de levar a cabo experiências pedagógicas emancipatórias da condição estudantil, têm suscitado um debate pouco informado, mas nem por isso menos cirrado, e que constitui o ponto de partida para esta conversa.

António Avelãs é professor e presidente do Sindicato de Professores da Grande Lisboa e Jorge Ramos do Ó é historiador e professor do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.


Curso Pensamento Crítico Contemporâneo ESTÉTICA & POLÍTICA

Organização: UNIPOP / Fábrica Braço de Prata
Inscrições (no valor de 25 €) através de pccestetica@gmail.com

De 10 de Abril a 05 de Junho de 2010
Aos sábados, das 18h00 às 20h00

na Fábrica Braço de Prata
Rua da Fábrica do Material de Guerra, n.º 1
1950 LISBOA

Entre política e estética, há uma longa história de mútuas suspeitas, denúncias e incompreensões, que têm coexistido com uma intensa e fértil, ainda que por vezes clandestina, interdependência. Tomamos a ambivalência que marca esta relação como testemunho de um terreno comum que importa revisitar, longe das caricaturas habituais, mas igualmente sem elidir as tensões que o constituem. O espaço para que esta discussão seja pensável de forma simultaneamente esclarecedora e crítica permanece em construção: o objectivo primordial deste curso é, por isso mesmo, o de contribuir para a sua criação, visibilidade e alargamento.

PROGRAMA

10 de Abril
Apresentação do curso por Manuel Deniz Silva e Miguel Cardoso
Kant por Adriana Veríssimo Serrão

17 de Abril
Hegel por Miguel Cardoso
Marx por José Bragança de Miranda

24 de Abril
Nietzsche por Nuno Nabais
Freud por João Peneda

8 de Maio
Oficina de leitura: “O inconsciente político do sublime. Em torno de Lyotard e Rancière”. Orientação: Manuel Deniz Silva

15 de Maio
Walter Benjamin por Pedro Boléo
Theodor W. Adorno por João Pedro Cachopo

22 de Maio
Gilles Deleuze por Catarina Pombo
Guy Debord por Ricardo Noronha

29 de Maio
Jacques Rancière por Vanessa Brito
Giorgio Agamben por António Guerreiro

05 de Junho
Debate de encerramento: “Estética e Política”
Silvina Rodrigues Lopes
Manuel Gusmão
Mário Vieira de Carvalho


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Apresentação do curso:

Entre política e estética, há uma longa história de mútuas suspeitas, denúncias e incompreensões, que têm coexistido com uma intensa e fértil, ainda que por vezes clandestina, interdependência. Tomamos a ambivalência que marca esta relação como testemunho de um terreno comum que importa revisitar, longe das caricaturas habituais, mas igualmente sem elidir as tensões que o constituem.

O espaço para que esta discussão seja pensável de forma simultaneamente esclarecedora e crítica permanece em construção: o objectivo primordial deste curso é, por isso mesmo, o de contribuir para a sua criação, visibilidade e alargamento. Tal trabalho preparatório implica reinscrever a estética na trajectória da nossa modernidade histórica e filosófica, com todas as contradições que isso acarreta, perceber o quanto as categorias políticas que marcam a nossa contemporaneidade devem a conceptualizações estéticas, bem como submeter o campo estético a uma análise crítica, confrontando-o com as suas exclusões e ângulos cegos.

Partimos para estas interrogações com a premissa de que a sociedade em que vivemos é atravessada por divisões e conflitos a que o estético não é imune, mas a que também não pode ser reduzido. Isto implica uma dupla rejeição: da inflação do potencial crítico da obra de arte, assente na ideia de que o estético é por si só emancipador, por um lado; e, por outro, da redução do estético ao ideológico e do recurso à sua explicação sociológica que neutraliza o seu potencial crítico.

De um ponto de vista político, a estética tem sido simultaneamente subestimada e sobrestimada. Sendo plural, contraditória – e inseparável das práticas artísticas a cujo perímetro, porém, não se restringe –, é muitas vezes reduzida ora à apreciação de obras de arte, ora a uma forma de consumo cultural privatizada que constituiria um abrigo imune às intrusões da história, aos constrangimentos do social e à vulgaridade dos interesses. Devemos entender as razões desta cristalização, trazer à luz a forma como um certo discurso filosófico estético institui tais divisões e não meramente as reflecte, e submetê-la a uma crítica feroz.

Contudo, entender a estética a partir desta versão redutora é deixar pelo caminho muitas outras definições e, desse modo, excluir as tensões que a atravessam. O estético é também o espaço que questiona os limites e esquadrias da razão, que confronta uma visão idealista do mundo com o seu substrato material e a sua imanência sensível, que trabalha nas zonas cinzentas em que a nossa experiência e a nossa praxis são ainda órfãs de um conceito que as balize. É ainda o espaço daquilo a que Rancière chamou a ‘partilha do sensível’, ou seja, da ordem que estrutura a nossa inclusão e exclusão num mundo comum, os modos de percepção, os lugares, os limites e os horizontes da nossa visibilidade e participação nele. O espaço, em suma, da nossa mundanidade.
Porque compreender o presente implica perceber a sua densidade histórica, propomos, na primeira parte do curso, um percurso arqueológico através de Kant, Hegel e Marx, Freud e Nietzsche. Partir destas figuras permitirá mapear a emergência de uma campo de reflexão sobre o estético, reconfigurar criticamente a própria noção de estética, bem como procurar pontos de contacto entre o estético e o político em lugares menos habituais. Destes autores emergirá uma constelação de problemáticas que têm estado na base de importantes debates contemporâneas. Pretendemos interrogá-los enveredando, na segunda parte do curso, pelos pensamentos de Benjamin e Adorno, Debord e Deleuze, Agamben e Rancière.