Estávamos em 1990. Os Stones Roses tinham lançado o seu primeiro álbum um ano antes. Na Hacienda de Madchester dançava-se ao ritmo de pastilhas e ao som de New Order e de Happy Mondays, de Shamen e de Inspiral Carpets, de Primal Scream pré-Screamadelica. No resto do mundo, ouvia-se Nirvana como se fosse a última esperança de uma geração - e eram, e foram, mas ainda andamos por cá. O grunge era o digestivo de um juventude consumista em fúria; o house, o tecno e o som de Madchester a refeição pantagruélica do hedonismo de quem preferia esquecer a raiva e a fúria. A Inglaterra precisava de uma Terceira Via. Os herdeiros da melancolia indie dos anos 80, das bandas da 4AD, dos sons etéreos (o cliché) dos Cocteau Twins ou dos This Mortal Coil. Os que recusavam olhar o mundo deferente, preferindo fixar o olhar nos sapatos que calçavam durante os concertos. A onda shoegazer surgia, subterrânea, com muita pretensão existencial e algum lirismo sonoro. As guitarras planando sobre vozes sussurradas, bateria em fundo quase silencioso, alguns sintetizadores. Uma pose que era uma atitude, uma atmosfera que aspirava a ser um sonho musical de adolescentes perdidos à entrada para a vida adulta. My Bloody Valentine, Ride, Slowdive. Mas também Swervedriver, Moose, Drop Nineteens (criadores do fabuloso Winona, homenagem ao ícone indie do filme Reality Bites). Os 4Adianos Lush. Mais tarde, os herdeiros Spiritualized. Quem conseguisse ouvir estas bandas fora de Inglaterra poderia considerar-se um afortunado. Eu fui. Havia um tipo na minha faculdade que usava uma t-shirt com a imagem do palhaço da capa de Going Blank Again. Seria difícil ser mais cool do que aquilo, achava eu (por onde andará?).
Os anos passaram. Deixei de ouvir shoegazing. No final dos anos 90, uma banda de Leiria (o antro alternativo daquela década), os Phase, tentaram recriar este som. Niguém na altura soube quem eram (entretanto o guitarrista, Ricardo Fiel, está na banda de David Fonseca). Voltei, e o mundo comigo, a ouvir falar deste som Sofia Copolla. Depois de ter convidado outra banda etérea, os Air, para comporem a banda-sonora de Virgens Suicidas, pediu a Kevin Shields, o mentor dos My Bloody Valentine, para criar o som de Lost in Translation. Renascia o gosto pela melancolia, um desencanto juvenil desembocando uma vida adulta. Um estilo. Nesse ano, 2003, é editada uma compilação com bandas shoegazing, de 1990 a 1992 (a brevidade é a chave do movimento). Feedback to the Future é o nome da compilação. O feedback das guitarras mais um futuro que parecia não poder existir. Sem os My Bloody Valentine (porque não quiseram particpiar), sem os Verve, que na sua primeira versão eram shoegazers, mas com todos os outros. Depois, fogachos daquele som, numa ou noutra banda - os Sigúr Ros são os mais conhecidos. E para quando um regresso ao futuro?
Feedback to the Future - a Compilation fof eleven shoegazing songs from 1990-1992. Edição Mobilé.
A música dos Slowdive é, quem sabe, a melhor do álbum. O esplendor da melancolia em forma musical.
O brilhante texto do futuro prémio Nobel da Literatura pode ser lido aqui. No blogue Antologia do Esquecimento, a resposta a tão patriótica (que rima com idiótica) exortação:
"Camarada Van Zeller, apesar dos meus 485€ de base, estou numa de classe média à la Saraiva. Esta opção acarreta uma clara intenção filantrópica. Quero ajudar a pagar a factura da crise. A minha postura, neste momento, é a do guerreiro samurai contra ventos e tempestades. Sangue, suor e lágrimas, caro Van Zeller. É isso que sinto nos meus concidadãos, e é esse sentimento que pretendo trazer ao meu coração. Se for para pagar a factura da crise, até um patrão gordo e ignóbil eu aguento. Que remédio! Aceite-me ele a mim, explorado ou não. O que importa é ajudar o país, pois mais importante que a felicidade dos indivíduos é a alegria da nação. Não só deixarei de viajar em executiva como deixarei de viajar "tout court", que é uma forma de viajar muito mais económica e igualmente espiritual. Tal como o bom mestre Saraiva, também eu julgo que os patrões de hoje «são quase sempre pessoas que subiram a pulso, que trabalharam no duro, que tiveram a coragem de arriscar e investir, que criam emprego, que sofrem quando se aproxima o dia de pagar aos trabalhadores e aos fornecedores». Não sei se o Rui Pedro Soares, o Jorge Coelho, o Armando Vara, o Valentim Loureiro, a Fátima Felgueiras, o Dias Loureiro, o Ângelo Correia, o Santana, o Pereira Coelho, o próprio Saraiva, o Abel Pinheiro, o sucateiro, o Diogo Vaz Guedes, o Ferreira do Amaral, o Pina Moura, o Júdice das advocacias, o Teixeira Pinto, o Oliveira do BPN, enfim, todo esse rol de goodfellas, são patrões ou não, mas encaixam no perfil como o parafuso na porca. É tudo gente que cria riqueza, diria mesmo gente que gera a riqueza que serve para pagar aos inúteis energúmenos dos juízes, polícias e militares. De resto, estou convencido de que um governo só poderá ser levado a sério quando começar a pensar a sério na privatização da justiça. Entregue-se a justiça a quem gera riqueza, ilibem-se os bons criminosos, os bons vigaristas, os bons aldrabões em prol da saúde económica da nação. Por mim, estou preparado para aguentar todos os esforços. Se for preciso, torturem-me. O que eu quero, o que eu desejo, aquilo porque anseio é apenas uma só coisa: a estabilidade dos mercados, a pacificação da especulação financeira, a boa saúde da economia. Que se esfolem, torturem, matem, que se escravizem, que trabalhe até ao último pingo de suor essa canalha, esse gado a que alguns, por clara ingenuidade, insistem em classificar de povo. Essa gente mais não é do que o vírus da nação enquanto a frugalidade não os tornar na aspirina dos mercados. Já eu, no meu palanque de classe média, estou disposto a não desperdiçar nem mais uma espinha quando for comer a restaurantes, ainda que já muito raramente o faça. O bom Saraiva diz tudo quando revela a tragédia dos números: «numa empresa como o SOL, por cada empregado que leva para casa 1.390 euros, a empresa tem de desembolsar 2.300». A pergunta é simples: sendo assim, como sobrevive o Sol? Eis a resposta: tem ao volante um Saraiva que ao beber café não desperdiça o açúcar branco, o açúcar escuro, o adoçante e o pau de canela. Mistura tudo numa perfeita simbiose de cafeína, emborca a mistela e arrota para o ar a prosa da semana. Só gostávamos de saber onde vai o bom homem beber café? E não necessariamente para aí desperdiçarmos parte dos nossos 485€ de base, mas para sacar do lixo, mais que não fosse, o pauzito de canela. Mas eu vou mais longe, não me limito a substituir a água Vittel pela do Luso. Recorro directamente a boa água del Cano. Entre Heineken e Sagres, há sempre uma Cergal a sorrir para mim. Quanto a vinhos, o Chandon do Cartaxo é a mais justa das opções. Em nome da crise e das suas facturas. Tabaquinho, só de enrolar. Ou barba de milho. Fatos não visto, mas já substituí toda a indumentária. Limito-me à farda fornecida pelo bom patrão. Aos domingos, lá ponho uma camisita comprada nos ciganos e a boa ganga do mercado de Santana. Tenho um par de sapatos para o ano inteiro. Compro-os sempre no Inverno. Chegados ao verão, têm buracos. Mas não importa, faz de conta que é ar condicionado. Os pés respiram melhor. Há muito que optei por férias cá dentro. Tão dentro, tão dentro, tão dentro, que raramente saio de casa. Os aeroportos são, sem dúvida, um risco desnecessário e um incómodo evitável. Sobretudo para quem lhes pode sentir o cheiro. Nunca tive, nem sei o que é, um Mercedes E, um Mercedes C, Audi 6 ou um Audi 4, mas desde 1999 que tenho o mesmo e bom velho Ibiza. Não me incomodam os seus soluços nem a falta de ar condicionado. É para isso que servem os vidros e, em nome da crise, não há cá calores que justifiquem luxos. Aos hotéis, prefiro a tenda de campismo. Enfim, sigo, na linha do bom Saraiva, os meus próprios princípios de frugalidade. Diga-se também que só uma vez na vida comprei o Sol. Seria um desperdício inconcebível gastar dinheiro com as merdas que o Saraiva escreve."
Tinha curiosidade em saber onde vai ser aplicada a metade confiscada do seu subsídio de Natal? Descubra aqui*. E, vá lá, é por uma boa causa. Os senhores banqueiros do BPN (aquele banco onde o nosso Presidente da República depositou as poupanças de uma vida, lembra-se?) andam pelas ruas da amargura há tanto, tanto tempo, que até dava pena. E o povo não quer isso. O povo quer que o sistema financeiro arribe para que lhe continue a cobrar juros e a ganhar milhões pagando menos impostos do que qualquer empresa ou contribuinte individual. Viva nós!
*Via 5 Dias.
No Jornal de Notícias, via Vias de Facto.
"Há um provérbio popular que, devidamente adaptado, se pode aplicar com proveito a governos: "Pelo andar da política fiscal se vê quem vai lá dentro". Porque, sendo a política fiscal um instrumento de redistribuição da riqueza e do rendimento, ela espelha, mais do que nenhuma outra, o rosto de uma governação.
Como se propõe um governo obter recursos?; como se propõe redistribui-los?, são questões cujas respostas dizem quase tudo o que quisermos saber sobre esse governo mas tivermos vergonha de perguntar.
Com o corte de 50% dos subsídios de Natal, o novo Governo tenciona obter 800 milhões de euros, saídos (na verdade nem lá chegarão a entrar) dos bolsos de trabalhadores e reformados.
E para onde irá tanto dinheiro? Com mais 800 milhões poupados em "acomodações" na despesa do Estado que "o senhor ministro das Finanças detalhará nas próximas semanas" (preparemo-nos para o pior, designadamente para mais cortes nos apoios sociais e na saúde), servirá para compensar os 1 600 milhões que o Estado deixará de cobrar com a redução de 4% da TSU das empresas. O que é o mesmo que dizer que 50% dos subsídios de Natal dos trabalhadores e reformados, mais as "acomodações" ainda a anunciar, irão parar às contas bancárias dos empresários. Será reconfortante ver passar um Ferrari (pelo menos em regiões deprimidas como a do Vale do Ave) e imaginar que talvez uma porca de um daqueles pneus seja o nosso subsídio de Natal."
No mesmo momento em que promete retirar aos cidadãos todos os direitos essenciais, Pedro Passos Coelho assalta-lhes a carteira sem qualquer pudor. Mas faz muito mais do que isso: todos os que, por o Estado nunca os ter defendido, não recebem subsídio de Natal, vão pagar impostos como se recebessem. Ou seja: para os direitos, não existem; para os deveres, lá estão eles. Para receber, não são trabalhadores por conta de outrem e por isso não recebem subsidio de Natal; para pagar, vamos todos fingir que o recebem.
A minha pergunta, neste momento, é simples: se Passos Coelho promete reduzir o Estado ao mínimo, privatizar tudo o que mexe, que argumento moral pode usar para pedir aos portugueses para pagarem impostos? Quando uma parte razoável do empréstimo que pedimos vai direito para o reforço da banca, como se convencem os contribuintes a serem cumpridores? Se vai privatizar empresas que dão lucro, que argumento tem na manga para nos pedir sacrifícios? Se o seu papel se resume a leiloar o Estado e a cobrar impostos, como espera pedir sacrifícios aos portugueses.
Publicado no Expresso Online
Passos Coelho disse em de Abril que cortar subsídios era um disparate.*
*Sugestão do comentador LAM.
Aqui:
"A concorrência é sempre bem-vinda, excepto no nosso sector* II
Ora, porque é que o Paes do Amaral e o Pinto Balsemão são contra a privatização da RTP? Fácil de explicar:
- o valor do subsídio que o Estado paga à RTP é de cerca de 250 milhões de euros/ano
- como contrapartida a RTP abdica de uma receita potencial em publicidade de cerca de 100 milhões de euros/ano
Na prática, o subsídio público à televisão divide-se assim: 150 milhões para a RTP, 50 milhões para a TVI e 50 milhões para a SIC. Paes do Amaral e o Pinto Balsemão querem manter o subsídio que indirectamente recebem. Só isso."
Este texto foi escrito por José Luís Peixoto para o MayDay Lisboa. Recentemente, foi lido na assembleia do Movimento dos Indignados na Praça Syntagma, em Atenas.
«Se te quiserem convencer que é impossível, diz-lhes que impossível é ficares calado, impossível é não teres voz. Temos direito a viver. Acreditamos nessa certeza com todas as forças do nosso corpo e, mais ainda, com todas as forças da nossa vontade. Viver é um verbo enorme, longo. Acreditamos em todo o seu tamanho, não prescindimos de um único passo do seu/nosso caminho.
Sabemos bem que é inútil resmungar contra o ecrã do telejornal. O vidro não responde. Por isso, temos outros planos. Temos voz, tantas vozes; temos rosto, tantos rostos. As ruas hão-de receber-nos, serão pequenas para nós. Sabemos formar marés, correntes. Sabemos também que nunca nos foi oferecido nada. Cada conquista foi ganha milímetro a milímetro. Antes de estar à vista de toda a gente, prática e concreta, era sempre impossível, mas viver é acreditar. Temos direito à esperança. Esta vida pertence-nos.
Além disso, é magnífico estragar a festa aos poderosos. É divertido, saudável, faz bem à pele. Quando eles pensam que já nos distribuíram um lugar, que já está tudo decidido, que nos compraram com falinhas mansas e autocolantes, mostramos-lhes que sabemos gritar. Envergonhamo-los como as crianças de cinco anos envergonham os pais na fila do supermercado. Com a diferença grande de não sermos crianças de cinco anos e com a diferença imensa de eles não serem nossos pais porque os nossos pais, há quase quatro décadas atrás, tiveram de livrar-se dos pais deles. Ou, pelo menos, tentaram.
O único impossível é o que julgarmos que não somos capazes de construir. Temos mãos e um número sem fim de habilidades que podemos fazer com elas. Nenhum desses truques é deixá-las cair ao longo do corpo, guardá-las nos bolsos, estendê-las à caridade. Por isso, não vamos pedir, vamos exigir. Havemos de repetir as vezes que forem necessárias: temos direito a viver. Nunca duvidámos de que somos muito maiores do que o nosso currículo, o nosso tempo não é um contrato a prazo, não há recibos verdes capazes de contabilizar aquilo que valemos.
Vida, se nos estás a ouvir, sabe que caminhamos na tua direcção. A nossa liberdade cresce ao acreditarmos e nós crescemos com ela e tu, vida, cresces também. Se te quiserem convencer, vida, de que é impossível, diz-lhe que vamos todos em teu resgate, faremos o que for preciso e diz-lhes que impossível é negarem-te, camuflarem-te com números, diz-lhes que impossível é não teres voz».
O governo quer privatizar os CTT. Os CTT dão lucro ao Estado. O que ganhará agora vai perder em muito mais no futuro. O governo ainda não vai privatizar a RTP. A RTP dá imenso prejuízo.
Que fique claro: não sou a favor da privatização parcial ou total da televisão pública. Posso explicar porquê um dia destes. Mas o que queria perceber é a razão da fúria privatizadora de Passos Coelho, que vai a monopólios naturais (como a REN) ou a empresas que, prestando um bom serviço público e garantido a coesão territorial, ainda dão dinheiro ao Estado (como os CTT), se acalmar quando chega à televisão do Estado.
Não é porque os novos governantes sejam estúpidos. Nem porque precisem de um canal que lhes trate da propaganda - não lhes faltam representantes nos media. É que a RTP tem concorrência. Só isso bastaria para diminuir os interessados, com os olhos postos no que não venha com qualquer risco. Mas mais importantes: os concorrentes não querem mais um canal privado, que, com menores limitações na publicidade, poderia levar à falência de um dos canais privados. Ou canal deixa de ter publicidade, ou deixa de existir, ou divide-se a coisa pelos dois que existem. Mais um no mercado? Nem pensar.
A redução do preço da publicidade, a que mais um privado no mercado televisivo levaria, é uma boa razão (mas não é a mais importante) para não privatizar o canal público. Mas encontro trezentas melhores razões económicas para não privatizar a REN, a ANA, a CP ou os CTT. Só que a timidez do governo deve-se apenas a um pormenor: os privados não querem.
E assim fica claro o que move tantos ministros e secretários de Estado, com um pé na política e outro nos negócios. Não é o nosso interesse. Não são as finanças públicas. Ou mesmo que sejam, isso conta apenas na medida em que as suas propostas tenham a simpatia da sua verdadeira base social de apoio: os que vão lucrar com o desmantelamento do Estado. Se não tem concorrência, privatiza-se e alimenta-se uma elite económica que gosta de ter uma renda sem esforço. Se incomoda quem já está no mercado, deixa-se para mais tarde.
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Belo exemplo do capitalismo que temos: um empreendedor de loga data (e uma das figuras fundadoras deste regime), Pinto Balsemão, tremendo com a concorrência que poderá ter se a RTP for privatizada. Sabemos porquê: apesar da privatização de muitas empresas públicas que asseguravam a prestação do serviço público em sectores fundamentais da nossa economia - falo da Galp e da Petrogal, da PT e da EDP -, as leis do mercado e da concorrência nunca funcionaram. Continua a haver concertação de preços na área dos combustíveis e das comunicações e somos dos países da UE onde os consumidores mais pagam pela electricidade - e não esqueçamos que a EDP é, na prática, uma empresa privada que existe em regime de monopólio. Mas a televisão, lamentavelmente para Balsemão, é diferente: precisa da publicidade para dar lucro; o mercado, no meio audiovisual, funciona mesmo. São estes os empresários que temos, a nossa elite económica que domina indirectamente o poder político: saudosistas do Portugal corporativista que durante quarenta anos Salazar foi construindo.
*A questão em si, da privatização da RTP, é outra história; parece-me que o mais racional será privatizar apenas um dos canais, neste caso a RTP1, que não é carne, nem é peixe, não é serviço público nem dá lucro.
O plano de destruição da Grécia que está ser levado a cabo pela UE e pelo FMI está a ter a merecida resposta do povo grego. Como a nossa imprensa continua a tentar manter-nos amestrados, pouco se vai sabendo por cá. O novo pacote de austeridade - segundo o Público, aplaudido e saudado por dois dos tenebrosos asseclas da sra. Merkel e do sr. Sarkozy (os carrascos da União Europeia), o sr. José Manuel Barroso e o sr. Rompuy - está ser fortemente contestado nas ruas de Atenas. Para quem quer saber o que se passa (contornando a vaga cortina de silêncio que cobre o nosso país), pode acompanhar em directo no Guardian, no El País, no Libération, ou até no longínquo New York Times. Esquecendo a vergonha que tem sido (desde a primeira revolta grega, há um ano) a cobertura jornalística do tema, só nos resta esperar que as coisas, quando por cá começarem a apertar ainda mais, mudem. Teremos ainda força e coragem para tanto?
Nas diversas discussões análises à liderança autocrática de Estaline, um dos interessantes aspectos frequentemente referido é o modo como as suas prerrogativas de lealdade criaram um entorno de mostro torcionários a ponto de o líder ficar amiúde na posição de dizer "menos". Mantidas as distâncias, o poder de uma ideologia para criar fiéis seguidores, industriados no clássico fervor dos convertidos, encontra em Passos Coelho uma aparição tão expectável como anedótica. No momento em que os mais sensatos dos neoliberais começam a questionar o haraquiri do Euro através do credo da austeridade, Passos Coelho, vagamente salivante, diz "mais". Não vá o bom do Passos Coelho dar má imagem ao regime da austeridade, Senhora Merkel, como quem diz "menos", fique à vontade para o fuzilar. Não ouvirá daqui uma palavra.
O programa do governo está cheio de intenções bondosas. Quer "promover", "incentivar", "desenvolver", "melhorar", racionalizar". Mas eu, que sou desconfiado, prefiro olhar para o que é objetivo. E o que é objetivo diz-nos isto: privatizar e sacar aos contribuintes.
O que me interessam a mim as boas intenções para promover o uso do transporte coletivo se se privatiza grande parte da CP e a totalidade da TAP e da ANA; se se concessionam as rotas do Metropolitano de Lisboa, Carris e STCP e se se promete aumentar ainda mais as tarifas e reduzir o apoio do Estado? Vão "promover" o transporte público com que instrumentos? Com palavras? Com entidades reguladoras? Como se fez com a EDP e a GALP, que nos garantem, sem que ninguém mexa uma palha, das mais altas tarifas energéticas da Europa?
O que interessa toda a retórica pela concorrência quando se privatiza um monopólio natural como a REN? O que me interessa toda a conversa sobre a saúde das finanças públicas se vão privatizar a preço de saldo os CTT, uma empresa que dá lucro todos os anos?
O que me interessa o que prometem fazer pela indústria exportadora, e em especial pelo turismo (com uma conversa de chacha sobre a "marca Portugal") quando vão aumentar, na prática, o IVA, para poderem reduzir a Taxa Social Única?
O que me interessam as lágrimas de crocodilo sobre a sustentabilidade da segurança social se para garantir esta redução a vão pôr em causa de forma irremediável? O que me interessa toda a conversa vazia sobre a solidariedade social quando se avança, de forma mais declarada do que nunca, para o plafonamento dos descontos para a segurança social? É com a lenta entrega da segurança social aos fundos de pensões que esperam garantir as reformas dos mais pobres? E quem a pagará, se a parte de leão vai para os bancos?
O que me interessa o ar muito moderno deste governo quando a obrigação de todos em proteger os mais desfavorecidos passa a ser tratada como uma ação de caridade salazarenta? Que Estado Social é este em que um governo defende que a sua prioridade é entregar às famílias "alimentação, vestuário e medicamentos"? Em que os mais pobres são tratados pelo seu Estado como pedintes?
O que me interessa toda a conversa sobre o "acesso universal" à saúde quando se abre a porta, com o eufemismo da "liberdade de escolha", a um serviço de saúde para ricos e remediados e outro para pobres, quando se aumentam as tarifas e quando a garantia constitucional da gratuitidade da saúde passa a resumir-se a meia dúzia de doenças? O que me interessa que me falem da racionalização dos custos na saúde quando se avança com a ideia de mais concessões a privados da gestão dos hospitais públicos, que tão desastrosos efeitos teve nos cofres do Estado?
O que me interessa toda a retórica sobre a escola como garantia de mobilidade social quando se vão usar os recursos públicos para financiar o privado, estratificando, de uma vez por todas, e desta vez com o dinheiro dos impostos, o sistema escolar? Ou julgam que a famosa "liberdade de escolha" vai ser realmente para todos? Onde é que isso aconteceu em qualquer um dos poucos países que escolheu este caminho?
De que vale continuar a falar do papel social do Estado quando o único setor onde o governo promete mais Estado é na cobrança de impostos? De cidadãos passamos a contribuintes. Do Estado Social passamos ao Estado cobrador.
Uma coisa é certa: todos os que acreditaram que deste governo vinha rigor rapidamente perceberão que estamos perante uma comissão liquidatária. Mas não sem antes garantir que há quem ganhe dinheiro com a liquidação geral. Na saúde - esse negócio sem fim protegido da concorrência externa -, na educação, nos monopólios naturais, nos transportes, em empresas públicas que dão lucro, e na segurança social, que os fundos de pensões querem ver desmantelada. Ou seja, em tudo o que não podemos dispensar.
Confesso: do programa de governo, li sem grande interesse a parte dos "objetivos" para cada setor. Não liguei a todos os eufemismos para alindar o saque que se prepara. Fiquei-me pelas medidas. Aquilo que interessa. O programa deste governo tem apenas um objetivo: aproveitar esta crise para privatizar o Estado e garantir bons negócios. E por-nos a pagar o roubo. Tudo o resto é conversa.
Publicado no Expresso Online
Nova secretária da Igualdade foi contra o casamento gay. Só fico com pena - e surpreendido - por não terem escolhido um secretário de estado do Desporto que defendesse o fim do desporto escolar e dos apoios a associações desportivas; ou, sei lá, um secretário de estado das comunicações que lutasse pelo regresso aos tempos em que se comunicava recorrendo a sinais de fumo e pombos-correio; ou quem sabe até um secretário de estado da Justiça que instituísse a lei de Talião em alguns julgamentos, assim como o saudável hábito das execuções públicas, com ou sem fogueira anti-herege. Ou quem sabe até um secretário de estado das Finanças que bravamente quisesse aplicar medidas de austeridade orçamental semelhantes às que foram aplicadas na Grécia e que levaram este país à bancarrota... ah, esperai, temos um Ministro para isso. Nesse caso, está tudo bem, é este o caminho.
O PS prepara a sucessão de José Sócrates. Depois de seis anos no poder, com muitos lugares para distribuir, sempre - em todos os partidos - mais acessíveis a quem prescinda do seu sentido critico, reaprender o debate exige uma fisioterapia política sempre dolorosa. Depois de alguns anos com um secretário-geral ideologicamente vazio e com um estilo de liderança autocrático não é fácil encontrar o seu caminho. Amarrado a um memorando trágico para Portugal e em tudo contrário aos valores fundamentais da esquerda, não será fácil, para o PS, resolver a sua profunda crise de identidade - que, sendo justo, não lhe é exclusiva.
Neste momento, há dois candidatos à liderança.
Francisco Assis é um homem que, não galvanizando, está preparado para os serviços mínimos. Garantir um bloco central informal, deixar passar tudo, fazer de pequenas questões simbólicas cavalo de batalha e esperar que o PSD se estampe para lhe suceder na mesma tarefa. Assis tem um posicionamento ideológico claro: a terceira via que enterrou as social-democracias europeias por muitos e bons anos. Ninguém pode dizer que não sabe o que quer. Mas o que quer apenas aprofundará a crise de representação à esquerda.
António José Seguro é um homem que, não galvanizando, está preparado para surfar na indefinição absoluta. Garantir um bloco central informal, deixar passar tudo, fazer de coisas um pouco maiores cavalo de batalha e esperar que o PSD se estampe para suceder não se sabe bem para quê. Ninguém sabe o que Seguro pensa. Representa o mesmo vazio que enterrou o País por muitos e bons anos. Desde que nunca chegasse ao poder, seria um bom intervalo para o PS procurar uma alternativa um pouco melhor.
Entre um e o outro, se me perguntassem a mim, que nada tenho a ver com o assunto, escolheria o segundo. Porque quanto pior melhor? Pelo contrário. Porque, num momento em que a esquerda terá de encontrar novos caminhos para a defesa do Estado Social, mais vale um intervalo do que uma escolha errada. Porque Assis pode formatar o partido às suas convicções. E as suas convicções levam o PS para um beco sem saída. Porque Seguro adia o erro e permite que o PS se dedique a uma reflexão difícil antes de fazer um disparate de que se arrependerá por muitos anos.
Às vezes é preciso parar para pensar. E Seguro será esse compasso de espera.
O debate, organizado pelo CES-Lisboa, terá lugar na próxima 5ª feira, dia 30 de Junho, no Centro de Informação Urbana de Lisboa (Picoas Plaza, Rua Viriato nº13, Lisboa).
10h00 | Abertura : Boaventura de Sousa Santos
10h30 – 11h30 | Éric Toussaint : O que é a auditoria da dívida e como se faz?
12h00 – 13h00 | Debate
14h30 – 16h00 | Intervenções de Eugénia Pires, José Gusmão, José Reis, Manuela Silva e Octávio Teixeira.
16h30 – 17h30 | Debate e encerramento por Éric Toussaint
Éric Toussaint é historiador e politólogo, presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, membro do conselho científico da Attac França, da rede científica da Attac Bélgica e do conselho internacional do Fórum Social Mundial. Participou no Comité de Auditoria nomeado pelo Presidente do Equador Rafael Correa e acompanhou a par e passo a experiência de reestruturação desse país.
Via José M. Castro Caldas, um dos organizadores desta oportuna iniciativa. Entretanto, relembro o texto que Luís Bernardo, Mariana Avelãs e Nuno Teles escreveram para o Portugal Uncut: Auditoria Cidadã à Dívida Pública - O que é?
É por esta, e por outras (muitas outras mais) que não faz sentido nenhum, neste momento, deixar de pensar numa alternativa de esquerda que exclua o PS, este PS tutelado por Mário Soares. O problema não está no ziguezague do fundador do partido - ainda nem há dois meses apoiava medidas para Portugal tão gravosas como as que Grécia tem sofrido; está na atitude, que no fundo é a essência do PS: quando governa, embarca num capitalismo corporativista vergonhoso, e apenas quando está na oposição se lembra do Marx a ganhar bicho na gaveta lá de casa. Com um PS assim, não! Obrigado.
... vale a pena reler este texto de opinião do Nuno Serra.
Se a associação não fosse tão desmiolada, ainda me daria ao trabalho de explicar à sra. helenafmatos a diferença entre educar para a tolerância, contra a homofobia e os preconceitos de género, e a brutalidade que as crianças sofriam nos tempos da União Soviética. Aliás, lembro-me agora de que a sra. helenafmatos saberá muito melhor do que eu como funcionava a reeducação no grande império soviético - em tempos, bebeu dessa água, agora, para ela, tão nefasta. Como alguém escreve na caixa de comentários do imbecilóide post: liberal, liberal, sim, mas pouco. O dinheiro deve circular livremente; já quanto aos costumes dos outros...
Parece que a elite política europeia ficou indignada com a falta de convicção do novo ministro das finanças grego no programa medidas que a Europa tem imposto ao seu país. O que é extraordinário. Como pode o senhor Evangelos Venizelos ter dúvidas sobre um programa com tantas provas dadas na sua eficácia? Não é que agora há ministros nos países "mal comportados" que acham que estão no lugar para pensar? A União Europeia devia fazer já uma nova remodelação governamental na sua delegação em Atenas.
Pelo contrário, Pedro Passos Coelho, apresentado pelo saudoso e competente Durão Barroso à elite política europeia, causou excelente impressão no baile de debutantes em Bruxelas. Nos vários jornais portugueses os colunistas sociais em que se transformaram os correspondentes na capital belga contavam, embevecidos, da simpatia com que o novo primeiro-ministro foi recebido pela senhora Merkel, o senhor Sarkozy e demais correlegionários do PPE. E como Barroso o apresentava a pessoas bem relacionadas. E como sorriam todos. E como ele sabia estar. E como contrastou com os gregos, maltrapilhos e indisciplinados, que não sabem qual é o seu lugar. Passos Coelho, ao contrário do senhor Evangelos, acredita nos efeitos redentores da austeridade. Acredita de tal forma que prometeu, para gáudio da assistência, aumentar a dose. Lindo menino.
De "bom aluno europeu", que destruiu toda a sua capacidade produtiva para seguir as diretivas comunitárias e que aceitou sem contestar regras de uma moeda única pensadas para a economia alemã, a "obediente aluno europeu", que aumentou o investimento, no princípio desta crise, quando recebeu ordens para o fazer, passámos a "cábula arrependido", que se roja no chão à espera de uma festa na cabeça. Talvez fosse altura de deixarmos de nos comportar como "aluno" e sermos uma parte na construção europeia. Talvez começando por nos sentarmos com os renegados gregos e irlandeses para termos uma estratégia coordenada. Mas para isso teríamos de abandonar este complexo de inferioridade que já faz parte da nossa identidade nacional.
Estamos mais próximos da bancarrota e pagamos mais por o que pedimos, mas a semana de Passos Coelho foi excelente e a sua viagem em económica a Bruxelas não podia ter corrido melhor. Agradou à mais incompetente das elites políticas que a Europa conheceu nas últimas décadas. Os homens e mulheres que ficarão na história por ter afundado o projeto político e económico europeu gostaram da docilidade do rapaz. E a província festeja a boa imagem que o miúdo causou entre os senhores importantes de Bruxelas. Porque Passos acredita naquilo em que já ninguém acredita. Porque Passos não vê o nosso futuro em Atenas. Porque Passos têm a agenda ideológica que está na moda. E se os outros gostarem de nós, correrá tudo pelo melhor.
Parece que ainda ninguém percebeu porque falhámos na Europa: porque nunca achámos que éramos europeus. Porque vivemos de mão estendida, sem ideias nossas e vontade de fazer valer os nossos interesses. Porque nunca deixámos de ser alunos. Até ser tarde demais para nos darmos ao respeito. Não, o problemas não é de Passos, que ainda nem aqueceu o lugar. O problema é mesmo nosso. Se somos subserviente, os nossos governantes também o serão. Mas é mesmo assim que as coisas são: manda quem pode, obedece quem deve. Não é?
Publicado no Expresso Online
Fernanda Câncio juntou-se à multidão que tem explicado ao Bloco de Esquerda porque é que se devia juntar a um governo do PS, ou morrer. Alguns argumentam, todos invectivam e muitos vaticinam: ou no PS ou com o PS, não há lugar nem destino para uma esquerda independente e com um programa próprio senão como ajudante do PS e da sua política.
Esta análise de Fernanda Câncio suscita-me três objecções.
Primeira:
Fernanda Câncio argumenta que só pode haver uma esquerda de governo (o PS) e uma esquerda de protesto (o PCP), e nada mais. O protesto quer-se pequeno e controlado – diz Rui Machete, do PSD, que conta com o PCP para controlar a revolta das ruas porque é um partido confiável. Ora, o PCP é sem dúvida um partido da oposição social à austeridade. Mas é também o partido que falhou a missão histórica de construir uma cultura de convergência e de diálogo com a maioria dos trabalhadores que vota no PS e de os mobilizar para uma alternativa de esquerda contra a economia do desemprego e da precariedade. Foi precisamente por isso que a esquerda se foi transformando e abrindo. A criação e o crescimento do Bloco de Esquerda demonstrou não somente que essa nova esquerda tinha espaço como era absolutamente necessária.
O Bloco venceu onde apresentou e concretizou propostas unitárias adequadas: venceu quando propôs e ajudou a ganhar o referendo sobre o aborto, venceu quando juntou Freitas do Amaral a Mário Soares e Carvalho da Silva na luta contra a guerra do Iraque, vence quando defende a abertura e democracia dos sindicatos ou dos movimentos de jovens precários. Em cada um desses momentos teve melhores ou piores resultados eleitorais, mas tinha razão e essa razão faz o caminho bloquista.
Não, a esquerda da luta social não é só o PCP, é muito mais do que o PCP e, se quer ser vencedora, tem de ser muito mais forte do que o PCP. Pensar que a esquerda não vai hoje muito para além do PCP é ignorar a realidade. E dou um conselho aos críticos: não é pelo facto de ignorarem a realidade que ela deixa de existir.
Segunda:
Escreve Fernanda Câncio que o Bloco tinha espaço político enquanto havia mulheres julgadas por aborto e enquanto era proibido o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Então, diz, podia ser necessário empurrar o PS; mas, uma vez resolvidas essas questões, só resta ir para o PS ou apoiar o governo do PS, uma vez que o Bloco deixou de ter espaço próprio, estando condenado à asfixia.
O que Fernanda Câncio diz é pura ficção: se conhecesse a base activista do Bloco ou os seus eleitores, que são de sectores sociais muito distintos, aprenderia que esta diversidade tem um ponto de união: a força de uma política para a justiça social. E esse é o espaço da esquerda. Enquanto houver desemprego massivo, pobreza, precariedade, corrupção, desigualdade social extrema, exploração do trabalho, discriminação, a esquerda tem uma agenda forte.
Terceira:
Só existe o PS, argumenta Câncio. Só pode existir o governo do PS. A esquerda só pode apoiar o PS e o seu governo. Muito bem, o argumento é claro, mas não sei de que mundo está a falar.
No mundo em que vivemos, o PS propôs e aprovou a subida das taxas moderadoras e a redução das isenções, entregou os hospitais públicos ao BES e aos Mello, reduziu os salários, cortou os abonos de família, diminuiu as pensões, retalhou os subsídios de desemprego e facilitou os despedimentos, nacionalizou os prejuízos do BPN. Foi assim que governou. Importar-se-ia a Fernanda Câncio de nos dizer quais destas medidas deviam ser apoiadas pela esquerda? Todas em pacote? Todas uma a uma? Algumas, para fingir que não apoia as outras? Estas medidas criam desemprego, empobrecem as pessoas, aumentam as rendas da finança, garantem a desigualdade e a corrupção, destroem o Estado social. Serão governo, mas não governo de esquerda.
Há por isso uma imensa candura, ou um imenso cinismo, neste argumento: o Bloco deve deixar de lutar pelos interesses concretos dos pobres e dos trabalhadores porque deve ir para o governo ou apoiar o governo de quem os castiga, mas deve fazê-lo em nome dos pobres e dos trabalhadores. Pode-se propor que o Bloco rompa com o seu programa político, mude de natureza, abandone as suas causas. Mas o que não se pode sugerir é que esse caminho garanta o sucesso porque ele garante apenas o fracasso.
Abandonar o programa socialista é o fracasso. Aceitar medidas anti-populares é trair a base política do Bloco. Isso terá sempre um preço, incluindo um preço eleitoral, porque conduz necessariamente ao desaparecimento: se é para apoiar o PS, mais vale o PS, se é para defender as medidas da economia da bancarrota, mais vale quem as inventou.
A estratégia da multidão dos comentadores, e Câncio enuncia-a com particular ingenuidade, é acabar com o Bloco de Esquerda como partido da esquerda socialista. Depois disto sobraria alguma coisa, mas essa coisa suicidada seria coisa nenhuma.
Aqui fica o meu texto sobre o passado recente e o futuro necessário do Bloco, publicado no espaço de discussão lançado pelo esquerda.net.
E assim vamos andando. E este estatuto editorial, terá sido redigido antes ou depois da chegada da troika? Antes ou depois das legislativas? "Interesse nacional", não é? Pois.
A Ana de Amesterdam sobre o cheque-ensino:
"Não percebo o entusiasmo à volta da ideia do cheque ensino. Quem põe os filhos num colégio, não procura apenas a excelência do ensino, o rigor e a exigência. Procura, sobretudo, a segurança da segregação social. É a segregação social que dá garantias de sucesso. Quem opta por certos e determinados colégios fica sossegado por saber que deixa os filhos numa espécie de condomínio privado, onde se ensina a caridade, se cultiva comedidamente a piedade, enobrece sempre o carácter, mas longe de pretos, ciganos, brancos que são como pretos, demais proscritos. É por essa razão, sobretudo por essa, que sujeitam os filhos a avaliações psicológicas, que se sujeitam eles próprios a entrevistas, onde explicam o que fazem e onde moram. Esmiúçam, ansiosos, detalhes e valores familiares, para se enquadrarem no perfil pretendido. O cheque ensino, em abstracto, elimina constrangimentos financeiros, permitindo que famílias mais pobres possam optar por estabelecimentos de ensino privados, mas não apaga o resto. Quem é da Brandoa, da Buraca, de Unhos, do Catujal, será sempre desses lugares. Os pais que escolhem o ensino privado, se, de repente, vissem a prole acompanhada pela prole das suas empregadas, procurariam rapidamente outro colégio onde a selecção se continuasse a fazer. Não condeno as preocupações dos pais que assim agissem. Percebo-os perfeitamente. Se a escola dos meus filhos fosse, assim de repente, por imposição do governo, inundada por camafeus pequenos, tratando-se por você, armados ao pingarelho, também eu correria a tirá-los de lá. Gosto pouco de misturas."
Basicamente, é isto.
Along Came Polly, que levou o título em português de Romance Arriscado, é uma discreta comédia de 2004, escrita e realizada por um John Hamburg de quem não ouvimos falar nem quando o filme estreou (mas é primo de Doug Liman, o que, como sabemos, é uma trivilidade que interessa a cerca de dois nerds americanos amantes de buddy movies - Liman, já agora, é realizador da obra onde o sr. e a sra. Brad Pitt se conheceram, Mr. and Mrs. Smith, e de um razoável primeiro tomo da trilogia Bourne). A história é banal: Ben Stiller é um avaliador de risco para uma empresa de seguros e Jennifer Aniston uma empregada de mesa desmiolada que é, para todos os efeitos, um risco na vida de Stiller, a longo prazo. Mas isso não interessa nada, e na história deles há apenas a destacar as cenas com o instrutor de mergulho e um ou outro gag escatológico envolvendo as fobias obsessivo-compulsivas da personagem interpretada por Stiller.
O que interessa no filme é o sidekick de Stiller, o seu melhor amigo, Philip Seymour Hoffman. Hoffman ganhou mais tarde um Óscar por um papel em overacting, Capote, e tem mais dois ou três grandes desempenhos, todos (ou quase) em papéis cómicos. Mas neste filme, criou um monstro, que eu arriscaria (para fazer juz ao tema) dizer que se aproxima do Big Lebowsky de Jeff Bridges. Sandy Lyle é um antigo menino-actor, de quem todos se recordam de uma série antiga. E é um perfeito falhado. Um retrato da vida paralela de Hollywood, ou do mundo do espectáculo, anda a ensaiar para uma versão off-off-off-off-Broadway de Jesus Cristo Superstar e a rodar um suposto documentário sobre ele próprio. Lyle é o amigo obeso e gabarolas, idiota útil no momento de clímax do filme, e perdeu o comboio do sucesso, algures a meio do caminho. Ele é alguém que poderia ter sido, no meio de pessoas que são. O cinema americano, mesmo quando não se eleva acima de uma confortável mediania, consegue criar estas personagens comuns que, quando entra em cena um grande actor como Hoffman, se tornam maiores do que a vida.
O filme é mau? Sem dúvida. Diverti-me a vê-lo? Ideal para tardes de Domingo perdidas - acho que já o vi duas vezes, sempre com proveito. E Sandy Lyle é um daqueles cromos que não se devem perder. Há uma lição a tirar, de tudo isto? Lembrem-se: always watch good movies.
*Obrigado ao Ricardo Gross por me ter lembrado deste extraordinário actor.
Pedro Passos Coelho vai voar sempre em económica na Europa. O primeiro-ministro garante que não foi o seu gabinete que anunciou a coisa. E eu, lamento, não acredito. Confesso uma coisa: não me interessa para nada se Passos Coelho viaja em executiva, económica ou de trotinete. Interessa-me se governa bem ou mal. Dirão que a decisão é simbólica e que isso é sempre importante. E eu respondo: depende.
De que me serve um governo que viaja todo em económica se depois privatiza a preço de saldo o património do Estado, causando um rombo sem remédio nos cofres públicos? De que me serve um governo com poucos ministros que implementa uma política de austeridade tal que transformará Portugal numa segunda Grécia? Resumindo: o que me interessa o simbolismo dos pequenos gestos se se os grandes gestos forem irresponsáveis?
Este governo ainda não governou e ainda não pode ser julgado por nenhuma decisão. Mas há uma coisa que sei: que o simbolismo das pequenas decisões pode servir para iluminar um caminho ou para nos distrair do que é importante. Pode ser um exemplo ou pode ser demagogia.
Se Passos Coelho obrigar a banca a pagar tantos impostos como as outras empresas, se garantir que os trabalhadores são protegidos de quem se aproveita da crise para o abuso, se não entregar a Escola Pública e o Serviço Nacional de Saúde, que é de nós todos, aos apetites privados, se não vender ao desbarato o que pertence ao Estado, até pode viajar de Falcon que terá o meu aplauso. Se fizer o oposto, até pode ir a pé para Bruxelas que nem por isso merece o meu elogio. Se a esta decisão simbólica for acompanhada por uma verdadeira distribuição de sacrifícios, só pode merecer o meu respeito. Se não, é uma aldrabice.
Publicado no Expresso Online
"(...) a esquerda, na origem, é uma aliança. Mais do que uma doutrina ou uma ideologia, a esquerda é a aliança daqueles que não são ricos nem poderosos. A esquerda é uma aliança de pessoas livres e iguais, fraternas entre si na mesma dignidade. Sendo os ricos e poderosos naturalmente poucos, a esquerda terá de ser, para ter força, a união dos muitos. E esses muitos são — como é evidente — muito diferentes uns dos outros. Não são, não podem ser, todos da mesma seita. Não têm, e não podem ter, todos os mesmos objetivos de futuro, a mesma visão do mundo, ou o mesmo estilo de vida. Isso é impossível, e a esquerda que é esquerda luta para que isso seja impossível, e para que ainda assim haja unidade entre os muitos, os que não são ricos nem poderosos, os que se arriscam a ser lixados se não souberem fazer uma aliança." Rui Tavares (9 de Junho, 2011)
Aceitar a crítica, evitar a pessoalização do debate, evitar acusações especulativas, guardar o sentido das proporções, manter o vínculo ao programa os eleitores sufragaram. A todo o custo tentar a tentar a aliança, a todo o custo tentar a reconciliação contra os testes de stress que a realidade impõe aos ideários de esquerda.
Conheça aqui o manifesto.
Apelo a Iniciativa Unitária por uma Auditoria à Dívida Portuguesa
A austeridade e as medidas de privatização pressionam em primeiro lugar os mais pobres, enquanto as “ajudas” são para quem está na origem da crise. Se as medidas de austeridade anti-popular não forem postas em causa, terão um impacte considerável na Europa durante muitos anos, modificando de forma drástica a relação de forças em favor do capital e em prejuízo do trabalho.
A auditoria da dívida é um passo concreto em direcção à justiça em matéria de endividamento. As auditorias da dívida com participação da sociedade civil e do movimento dos trabalhadores permitem determinar que partes da dívida são ilegais, ilegítimas, odiosas ou simplesmente insustentáveis; oferecem aos trabalhadores o conhecimento e a autoridade necessários para a definição democrática de políticas nacionais perante a dívida; incentivam igualmente a responsabilidade, a prestação de contas e a transparência da administração do Estado.
É urgente, neste contexto, a constituição de uma Comissão Popular, aberta e de convergência unitária, para uma Auditoria à Dívida portuguesa.
Subscritores/as:
Manuel Carvalho da Silva (secretário geral da CGTP-IN, Lisboa), António Avelãs (presidente do SPGL), Pedro Ferreira (economista, Coimbra), Guadalupe Simões (Enfermeira, Faro), Elísio Estanque (universidade, Coimbra), Rui Maia (Precários Inflexíveis, Lisboa), Adriano Campos (FERVE, Porto), Paulo Granjo (universidade, Lisboa), José Rodrigues (sindicalista), José Castro Caldas (universidade Coimbra), Jorge Bateira (economista, Porto), Francisco Alves (sindicalista, Lisboa), Maria da Paz Campos Lima (socióloga, Lisboa), António José Vitorino (bancário, Almada), Joaquim Piló (sindicalista), Viriato Jordão (Lisboa), José Almeida (sindicalista, Lisboa), Guilherme da Fonseca Statter (sociólogo do trabalho), José Rebelo (universidade, Lisboa), Manuel Carlos Silva (professor, sindicalista), Isabel Frutas Carvalho Ascenção (SERAM-Madeira), Janine Rodrigues (enfermeira, SERAM Madeira), Artur Oliveira Baptista (sindicalista, Lisboa), Carlos Valdez Vasconcelos (professor, Lisboa), Carolina Fonseca (trabalhadora, Lisboa), Lídia Fernandes (feminista, Lisboa), Cristina Oliveira Nunes (socióloga, Lisboa), Marco Marques (Precários Inflexíveis, Lisboa), Almerinda Bento (professora, Amora), Manuel Zebral (desempregado, Galiza), Dora Fonseca (Universidade, Porto), Maria da Conceição Sousa (enfermeiro, C. Branco), António Pedro Dores (universidade, Lisboa), Assunção Bacanhim (sindicalista, Funchal), Manuel Martins (CT Autoeuropa, Palmela), Bruno Semeano (CT Faurécia, Palmela), Deolinda Martin (professora, Amadora).
"É possível e até provável que não consigamos evitar uma reestruturação das nossas dívidas. (…) perante o terrível leque de opções que enfrentamos, (…) a solução menos má parece ser a da reestruturação das nossas dívidas."
“Portugal na hora da verdade”, Álvaro Santos Pereira (roubado daqui)
O Bloco de Esquerda entendeu promover espaços de reflexão sobre a sua intervenção recente, a nova situação política e os caminhos de convergência com outros protagonismos políticos e sociais. É um bom sinal de humildade e um terreno que terá tanto maior densidade quanto maior e mais plural for a participação de militantes, simpatizantes e gente comprometida com a esquerda. Este diálogo interno e externo será materializado em algumas iniciativas públicas a decorrer nos próximos tempos mas passa também pela disponibilização de plataformas mais imediatas, como é o caso do Debate Aberto, agora lançado. E passa também pela expressão de opiniões sem medo de reconhecer erros, limitações e questões para as quais ainda não se tem resposta. É o que faz Miguel Portas nesta excelente entrevista que concedeu a Nuno Ramos de Almeida e que o jornal i hoje publica.
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