Pelo seu manifesto interesse didáctico cito Helena Carvalhão Buescu, numa "Carta ao Director" editada no
Público de hoje: "Ainda o Plano de Leitura - I
Publicou Vasco Pulido Valente (V. P. V.) no PÚBLICO de sábado passado uma crónica em que produz algumas afirmações curiosas em torno da leitura e da sua eficácia, bem como dos "clássicos" que (pouco) teríamos. Enquanto pessoa ligada, por gosto, entusiasmo e profissão, a estas questões, quero aqui deixar algumas reflexões, que eventualmente possam levar a esboçar um quadro menos a preto e branco (podemos fazer um quadro a preto e branco, mas depois de trabalharmos a cor).
1. Diz V. P. V.: "Ler o quê? Os "clássicos", dizem. Mas que espécie de "clássicos"? [...] Infelizmente não há "clássicos" que se possam ler." Não é verdade, V. P. V. Há-os, e bem para lá da lista dos nove nomes inquestionáveis que alinha (Gil Vicente, Camões, Vieira, Garrett, Camilo, Eça, Oliveira Martins, Cesário, Pessoa), e do outro que parcialmente lhes agrega para logo o afastar (Júlio Dinis). Bem sei que afasta a poesia (mas não Camões, Cesário e Pessoa?) por a considerar "um caso complicado". Complicado é, a meu ver, este afastamento, além de simbólica e sociologicamente curioso. Sem querer entrar em demasia no século XX (ainda no outro dia ouvi alguém defender, com a habitual arrogância, que a noção de "clássico" acaba no século XIX, e essa pessoa justamente não estuda nem muito lê a literatura do século XX, menos ainda a do XXI...), que faz V. P. V. de nomes como Camilo Pessanha, Teixeira-Gomes, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Alexandre O"Neill, Carlos de Oliveira, Luiza Neto Jorge (e não venho aos vivos, que os há!)? Então para trás: que tal Fernão Lopes, a espantosa lírica medieval, Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda (com poemas, os tais complicados, que valem por toda uma literatura!), Francisco Manuel de Melo, muita da poesia maneirista e barroca (que fomos aprendendo a amar apesar de dantes no-la ensinarem como "descartável" pela sua ligeireza), a poesia burguesa do século XVIII, sem a qual Cesário e Pessoa são bem amputadamente incompreensíveis, o desconhecido conto romântico, Alexandre Herculano, até mesmo, sim, Júlio Dinis? É bom evitar reduzir os clássicos (que não escrevo entre aspas, note-se) a um cânone pessoal, embora seja legítimo que cada um de nós encontre, neles, um conjunto de afinidades electivas que são, justamente, aquelas que levam à leitura. Mas sem conhecimento não pode haver compreensão, nem mesmo daqueles pontos negros de incompreensão de que o mundo e a literatura são feitos.
2. Diz V. P. V.: "Pegue, por exemplo, um dos promotores do "plano" em, por exemplo, Viagens na Minha Terra ou A Relíquia e explique o que lá está (um centésimo basta). Gostava de assistir." Também isto não é verdade, V. P. V. O que sim é verdade é que nem todas as pessoas poderão pegar nessas (e outras) obras com o mesmo grau de alegria e exigência de pensamento que outras. Também o reconheço. Mas nem todos os médicos têm a mesma "iluminação" de diagnóstico, pois não? E isso não nos leva a considerar que é o diagnóstico ele mesmo que se torna impossível e até indesejável... Conheço momentos de pura emoção de descoberta com as obras que V. P. V. refere e, felizmente, muitas outras que não refere. Poderia ainda responder a V. P. V.: "Pegue ele, por exemplo, em obras como Guernica, de Picasso, ou Las Meninas, de Velásquez" (um pouco ao acaso, entre tantas outras). Conseguirão muitos "explicar" (não gosto da palavra, mas ela é a de V. P. V.) "um centésimo do que lá está"? E uma resposta negativa invalidará que elas sejam e devam continuar a ser-nos apresentadas como outros tantos clássicos? Não julgo que seja nisso que V. P. V. acredita, aquilo que quer, ou até mesmo faz. Não é certamente aquilo em que eu acredito, o que quero e o que faço.
3. Para que conste: faço parte da Comissão de Honra do famigerado Plano Nacional de Leitura, e absolutamente ninguém me encomendou (nem eu o aceitaria) nenhuma das observações que, a título estritamente pessoal, acima entendi fazer.
Helena Carvalhão Buescu
Faculdade de Letras de Lisboa"