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Os ilustradores estão a transformar o livro infantilMais do que criar imagens para acompanhar ideias, muito mais do que desenhar com propósitos decorativos, os ilustradores de hoje pensam o livro para lá do espaço a preencher da capa à contracapa. Inventam novos formatos e arriscam abordagens alternativas. Como as crianças, os livros estão a ficar diferentes.
Estas foram algumas das conclusões do
Farol de Sonhos 2006, 1.º Encontro sobre o Livro e o Imaginário Infantil, que em Outubro reuniu em Cascais especialistas internacionais e nacionais da edição de livros para a infância, autores, ilustradores, designers, bibliotecários e professores. "Cinco dias de festa à volta dos livros", sintetizou o ilustrador
André Letria, um dos organizadores do encontro, que aconteceu na Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana e teve como convidado o ilustrador japonês
Katsumi Komagata.
Por ali passaram responsáveis pelas principais mostras de ilustração na Europa e, entre outros, a directora da maior biblioteca do mundo destinada ao livro infantil e juvenil (
Biblioteca Internacional para a Infância de Munique), Barbara Scharioth. "Os livros que me vão chegando são cada vez mais experimentais e com melhor qualidade. A partir do final dos anos 80, os ilustradores começaram a arriscar mais e há livros que são verdadeiras obras de arte", disse a bibliotecária alemã ao Mil Folhas, depois de apresentar uma comunicação sobre a evolução da ilustração nos últimos 150 anos.
O conceito de livro "como jogo e desafio" começa a tornar-se prática comum numa geração de ilustradores mais jovens, que criam obras em que assinam também o texto. Barbara Scharioth acredita que o investimento nessas novas abordagens se deve "às academias e universidades já olharem para os trabalhos dos ilustradores como formas de arte livre que conjugam texto e imagem".
João Paulo Cotrim, jornalista e escritor, mostraria alguns exemplos destes novos álbuns - que não estão "presos ao estilo nem ao formato" - numa conferência a que daria o sugestivo título "Casos da vida selvagem". Livros em forma de caracol ou tipo fole, com trela, sem palavras, com pedaços que "saltam" das páginas, com texturas diferentes e escalas que surpreendem ou livros-mapas - foram alguns dos exemplos vistos em Cascais.
Desenhos por todo o lado
Para a transformação do papel dos ilustradores nas obras para a infância, têm contribuído muito as exposições internacionais de ilustração, acreditam os seus organizadores, não apenas porque os dão a conhecer, mas porque tornam os editores e os leitores mais exigentes.
Eis algumas das principais mostras de ilustração na Europa: o
Salão Montreuil de (22 a 27 de Novembro), a
bienal de Bratislava (Eslováquia, Setembro e Outubro, anos ímpares), a
mostra de Sàrmede (Itália, 21 de Outubro a 17 de Dezembro), a de
Bolonha (Itália, que acompanha a Feira Internacional do Livro Infantil) e a
Ilustrarte, em Portugal (Barreiro, bienal no final dos anos ímpares).
Leo Pizzol, director da exposição de Sàrmede (que está a decorrer), explicou como toda aquela região italiana se mobiliza para organizar a mostra, que acontece há 24 anos. A 70 quilómetros de Veneza, Sàrmede tem cerca de 3000 habitantes e tornou-se conhecida como "a vila das fábulas". Em paralelo, há sempre um festival de teatro de rua, muitos concertos e uma série de actividades para adultos e crianças.
José Manuel Saraiva tem trabalhos expostos nesta edição, cujo tema é "Lei voci dei tamtam, storie dall" Africa" e até os restaurantes da vila participam, criando ementas inspiradas na mostra.
Da Eslováquia, veio Barbara Brathová, que dirige a Bienal de Ilustração de Bratislava, que começou em 1967 e que já expôs 45 mil trabalhos de cinco mil ilustradores de cem países. Nestas exposições, há sempre a oportunidade de se participar em "workshops", experimentando-se novas técnicas e aperfeiçoando-se métodos. "A ilustração entrou no negócio dos livros e isso é bom", diz a directora, "mas é importante que existam iniciativas não comerciais centradas na ilustração como trabalho artístico para crianças, porque é também importante que elas cresçam com a possibilidade de fruição estética diversificada e de qualidade". À semelhança de Sàrmede, Bratislava ganha, pelo menos durante dois meses, o nome de "cidade dos ilustradores".
Para Sylvie Vassalo, directora do Centro de Promoção do Livro Infantil (que organiza o Salão de Montreuil e do concurso Figures Futur, para jovens ilustradores), ficou a tarefa de mostrar como um salão pode promover os livros ilustrados, encarando-os também como produto comercial, que deve ser bom, mas precisa de "consumidores".
A representar a Ilustrarte, os comissários Ju Godinho e Eduardo Filipe lembraram que "o livro ilustrado é a primeira galeria de arte que uma criança visita", lema que os norteia na preparação das exposições que organizam no Barreiro. "O livro infantil ilustrado é um múltiplo de arte com a grande vantagem de ser democrático", disseram, convidando os participantes para a exposição dos trabalhos de Beatrice Alemagna, que amanhã se inaugura no Auditório Municipal Augusto Cabrita (Barreiro), às 18h, com a presença da ilustradora.
Embora centrando o encontro na ilustração, os organizadores do Farol de Sonhos optaram por "dar voz à palavra" logo na abertura dos trabalhos, convidando a comissária do
Plano Nacional de Leitura e escritora, Isabel Alçada, que falou na leitura como "competência essencial e factor de cidadania", não se cansando de repetir o "slogan" do plano: "Ler mais." Onde quer que se esteja.". As hiperligações foram acrescentadas.