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13 Maio 2011

O Blogger esteve em obras, entre ontem e hoje


Não pude, portanto, vir até aqui. Mas regresso em grande: com um belíssimo poema de Nicolau Saião, a propósito da comemoração dos 500 anos passados sobre o nascimento de João Rodrigues de Castelo Branco, o Amato Lusitano. Este poema integra, em companhia dos de muitos outros autores bem como de diversas obras fotográficas, um catálogo-livro, O Corpo do Coração, lançado no passado dia 7, na capital da Beira Baixa, numa Mostra internacional de fotografia organizada por Pedro Salvado.

AMATUS


Também ele conhecia como tu o sangue

o perímetro das veias, a primitiva viagem

nessa terra de desertos e de rios ao alvorecer

Também ele fugia não apenas dos caminhos que se perdiam

entre bosques de pinheirais e macieiras, nesses lugares

de pequenos animais ao crepúsculo, de casas

perto das grandes pedras de granito ou de xisto multiplicado

mas igualmente das válvulas incrustadas no corpo da noite

de rostos desirmanados nas grandes praças onde era irreal permanecer

onde o mar não achava horizonte de homens ou de fantasmas


Também ele

erguia contra o céu, o sol, a silhueta das árvores

um vidro facetado, a página de um livro, o perfil recortado de um fruto

e por um momento sentia correr a linfa pelos sítios ignotos junto ao esqueleto

e por um instante sabia que a Terra ficara parada

e que tudo o que pensara era agora matéria de júbilo ou de pavor


Posso imaginar os teus passos na sombria rota através de um bosque em Itália

nos outros recantos que te acolhiam

o rosto grave, um olhar contemplando a neve que caía

e um silêncio como se nada existisse na manhã

como num país perdido donde os teus vestígios se afastavam.

Posso ver-te sobre a mula ou num carro tirado a éguas, ofertado

por um paciente a quem devolveras a alegria

imagino-te talvez partilhando um repasto

numa sala abobadada de um companheiro de exílio

os aprazíveis frutos do tempo desses minutos sequiosos

Tal como ele, juntavas a serenidade ao porvir

ainda que por vezes a amargura fosse o teu seguro quinhão.


Anos e séculos se desbravaram, anos e séculos se dissolveram

e a música que cobre tudo

e a chuva que tudo envolve

e as mãos que se iniciam no que a sabedoria traz de imutável

e a fresca esperança do tempo e o que é uno, puro e não acaba


Quinhentos anos passam tão depressa

21 Março 2011

No Dia Mundial da Poesia - 3


A poesia é como as moedas: há-as verdadeiras e há-as falsas. Torna-se fácil distingui-las: é contrário à natureza da autêntica poesia pôr-se em bicos de pés. Mas quem não está atento confunde-as facilmente. O que não acontece com a nossa amiga Abobrinha. Ora leiam.

No Dia Mundial da Poesia - 2


Segue-se a transcrição de um texto de Manuel Grangeio Crespo, hoje quase completamente esquecido e com a grande maioria da sua obra por publicar. Este texto foi publicado quatro anos antes do seu falecimento, ocorrido em Março de 1983, como prefácio a um livro de um outro autor.

A poesia (senhores) está a dar as últimas. O universo tornou-se inabitável. Deus já não se governa com palavras. Tudo o que havia a dizer já foi dito - e, no entanto, quando acontece na prática, continua sempre por dizer. Está no século de passar das palavras aos actos. Para quando a Desforra dos Poetas?

A desforra dos poetas é a Revolução. Uma revolução que institua uma Idade em que a Acção não seja menor que a Sabedoria, uma sociedade em que o poeta não tenha tempo para se queixar porque está distraído a «experimentar» com a realidade. A única revolução que pode calar um poeta.

Em vez disso, as revoluções que propõem aos poetas nunca são feitas em nome da Carne, que é a dimensão poética da realidade humana. Mudará a Economia e a Cultura - mas o quotidiano, que é onde a economia e a cultura (com minúsculas) assumem uma forma capaz de ser absorvida por seres humanos, permanece inalteravelmente descarnado. Próprio talvez para computadores, mas inconcebível para animais. A poesia é a voz da metade animal que nenhum ser pode perder sem deixar automaticamente de pertencer à Espécie humana.

Os poetas não se esqueceram ainda de que o Anjo é o limite do ser humano, não a sua negação. Negar a carne aos anjos é negar a cada homem a sua humanidade. Os poetas já não se satisfazem com fórmulas. Vêde-os: todas as suas lindas palavras se revelam impotentes para curar a sua doença…

E eles, os principais interessados, os próprios doentes - não haviam de sabê-lo? Nenhum poeta genuíno escreve por gosto (quando muito por menor desgosto, ou por trabalho como método para atingir o gosto).

Um poema é sempre um queixume. E o espírito só chora quando a carne sofre. Chorar alivia, mas não alimenta. O alimento procura-se no quotidiano. É nele que se curte a experiência (o namoro, o trabalho, o negócio) de cada dia. O poeta, por definição, é um esfomeado da experiência. E só os bem-nutridos têm fome de palavras.

Mas, isolado, como pode o poeta passar à acção? Mesmo que trabalhe por mil, como combater o veneno da solidão que, corroendo lentamente a carne, vai alienar todos os gestos? Um poeta quer-se com outro poeta. É preciso juntar os poetas que estão dispersos, cada um por seu partido, por seu sindicato. Juntos, seremos os operários da Revolução.

Daí nasce um segundo trabalho, o trabalho curativo, a literatura. Toda a poesia escrita (sob qualquer forma: palavras, imagens, notas) é os poetas a chamarem-se uns aos outros. Ouvidos atentos, camaradas: todos não somos demais.

No dia Mundial da Poesia - 1

Nicolau Saião, hoje por hoje

Aqui fica um texto de Meurice Pons, traduzido por Nicolau Saião:

ALGUMAS PALAVRAS

A poesia depende de nós tal como nós dependemos da poesia. Vaso comunicante da existência transfigurada, o poeta está simultaneamente muito abaixo e muito acima da vida que lhe foi dado cumprir e que percorre ora em alegria ora em absoluta angústia. Isso é devido não só à sua particular constituição genética que lhe permite comunicar com o sagrado e o profano em termos específicos, mas também às condições da maré social que o incitam, constrangem, limitam e sustentam.

As armas do poeta, “armas miraculosas”, são apenas as palavras. Mas as palavras, por seu turno, são tanto sinais mágicos como vias de participação secular. Por isso as palavras do poeta têm um peso peculiar, são entidades estranhas cuja entrada no mundo dos homens carece de decantação. É no corpo do poeta que essa decantação se efectua, o poeta funciona como cadinho e athanor a um tempo. Pode então estranhar-se que em dados casos existam na voz do poeta linhas de fractura e lugares desertos que o separam da vida quotidiana e da via societária limitada e vaga?

Porque o poeta é, na verdade, encarnação de tudo o que pode subverter; e, aqui, estamos muito para além da acção primária que se realiza na intervenção política. Sendo participante e muitas vezes participante constrangido do dia-a-dia, porque como ser humano é um semelhante dos seus companheiros de existência e nesse campo não há privilegiados, o poeta tem nas mãos a posse dum segredo estelar: através da sua acção a possibilidade de modificação dos signos comuns, forjando unidades cuja maior ou menor perfeição possam escapar ao indefinido: os poemas.

No plano da escrita o poeta é o Adepto. Porque tudo depende de tudo, como no princípio e no fim da Obra, a matéria – sendo embora a mesma – é já diferente e ilumina o vazio.

19 Março 2011

Depois de amanhã é o Dia Mundial da Poesia

Matisse, Lição de música

Pelo que, a propósito, aqui fica já o seguinte texto de Nicolau Saião, com a promessa de que, no próprio dia, haverá ainda mais:

Durante muitos anos, num trabalho de sapa a que certos fideístas deram larga cobertura, os membros do Poder tentaram - ainda que em democracia formal - usar para com os que criticavam o estado de coisas com princípio, meio e fim um truque muito conhecido: essas pessoas eram gente que com nada se contentava.

Assim agiu no passado o salazarismo. Assim depois, de forma mais arteira, hipócrita e mitigada (pois começavam as barbas a arder-lhes) o tentaram os partidários do chamado marcelismo, usando a célebre frase feita (recordam-se?) "Aceitamos críticas desde que sejam construtivas", ou seja, as críticas que lhes convinham por nada porem em causa e nada modificarem. E ainda, por vezes, a alguns incautos, lhes aproveitavam as ideias ingenuamente dispensadas, como se fossem deles...

Mais atrás, nos tempos de subida ao poder, também assim procederam os nazis, que logo transmutaram, assim que se apanharam no poleiro, as falsas proposições em algo mais consistente, ou seja prisões e campos de concentração.

Outros, mais "progressistas", usavam os "campos de reeducação".

O que se visava era, claro, extinguir o senso crítico. Se não resultava, numa primeira fase, passava-se à segunda: campanhas de difamação, calabouço para os sectores mais renitentes.

Neste momento, de há uns tempos a esta parte, o truque sofreu nuances: privilegia-se, nos locais expressos em que ainda se consente nos exprimamos, as "críticas" ora de cariz pseudo-humorístico (roçando o desbocamento e o desabafo reles), ora o discurso estapafúrdio que, por si mesmo, se desbanque por apalhaçado e permita, depois, que o tratante de serviço venha neutralizar as parlengas pelo tom ora pseudo-académico, ora de estatuto "consciente" e "ponderado".

E é assim que, em determinados fóruns que foram surgindo um pouco por todos os mídias, se censuram textos críticos racionais e informados, deixando vir a lume ora a "macacada", ora o desconchavo, ora o insulto até de cariz pornográfico.

Mas como o espaço interactivo tem mais que um compartimento, para além do dominado por esses cavalheiros, a pouco e pouco isso sabe-se com soma de pormenores.

Nos últimos dias, vindos da parte de sectores que em geral apoiam o governo ainda em exercício, claramente assustados pela consciencialização que a juventude e os mais velhos parece estarem a ganhar, têm-se multiplicado os ataques, em tom calhordas ou de "guerra de gerações" contra os que se reivindicam de ter uma palavra a dizer no meio da ruína a que os mandantes têm levado o país.

Ora são, os apelidam de gaiatos, ora potenciais fazedores de distúrbios, ora se calhar - como nos bons tempos da outra senhora - tipos a soldo do estrangeiro...

Em suma: o papel que lhes destinavam, como no livro de Bradbury, Fahrenheit 451, era de pequenotes cantaroladores de brinco na orelha. Ou, como alguns sem pudor disseram mesmo expressamente "moços que deviam emigrar".

A crise acentuada veio modificar os dados da questão. E se muitos dos que se queixam o fazem porque lhes estão a rarear oportunidades, a maioria age porque este estado de coisas, seja para novos ou para velhos - não pode de facto suportar-se!E sentem-no, sentimo-lo todos, na pele.

No dia mundial da poesia, que como outros dias serve frequentemente para deitar poeira nos olhos dos muitos inocentes que, recebendo esse tostão, ficam gratificados, entendi que o mais adequado acto poético da minha parte era trazer à colação isto que aqui vos deixei escrito. Porque, hoje como ontem, o poeta não é um "entertainer" ou um "crooner", mas sim alguém que concebe que deve tentar iluminar o negrume que muitos buscam nos caia em cima da cabeça, enquanto não podem fazer cair algo de mais material e doloroso...

Com estima e o proverbial abraqson fica o

n.

20 Fevereiro 2011

Para terminar, por hoje...

... de novo África vivida por Nicolau Saião:


ÁFRICA (GUINÉ), FEVEREIRO DE 70


Entre mim e as janelas há o rio e as árvores

e milhões de anos feitos para a gazela e a marabunta.

Dionísio teria percorrido a savana e a montanha

quando ainda não havia rastos de camião

nem o mar sepultava pensamentos e memórias

entre um olhar e um silêncio.

Serena era a madrugada, subitamente despertando

um vôo de coruja sobre os ombros de quem velava

- pastor e aguadeiro -

homem que na terra colocava a semente do tempo

ou do milho fremente para os sonhos e os minutos.

Algures, junto a uma parede devastada

onde a cal cristalizara a inocência e a perfídia

as abelhas eram a equivalência perfeita

do universo gerando a carne negra e branca

que dos livros guardara a misericórdia e o temor

de anos e anos a vir.

Há um grande e perpétuo rumor que faz pensar

em Orion e no Cruzeiro do Sul

mesmo quando o sol ainda risca a figura

incontusa dos sete pontos cardeais.

Qual o fulgor

que viaja entre oriente e ocidente

- os campos do mamute e da zebra primaveril -

mesmo quando a época das gramíneas refloresce

entre lua e penumbra?

Na terra

marco os dedos e os vestígios

de avós e bisavós

mas o contorno das palavras que escrevo e que despertam

as sombras do passado e do futuro

hei-de lembrá-las sempre

impolutas sobre o rio, sobre as casas, sobre os homens

que vi e que inventei.

in “Poemas perdidos”, com fotos de Almeida e Sousa

QUARTA ENTRADA

Avançavam cautelosamente à roda da vinha. Por precaução retirou e depois voltou a meter o carregador da automática. O tremor passara-lhe. Lembrou-se de quando brincava aos índios e cóbois na courela da Quinta Ferreira, antes do bosquezinho de castanheiros e um pouco para além da eira e da saibreira como um deserto em miniatura.

A rajada apanhou o companheiro da frente à altura dos rins e fê-lo rodopiar. Ao estender-se no chão, estranhamente calmo e fazendo pontaria como se estivesse na carreira de tiro, viu os olhos do outro muito abertos e fixos na cara suada.

Olhos esverdeados como uvas ainda não plenamente amadurecidas.

in “As estações da vinha”

LEVANTAMENTO DE RANCHO

O meu sargento desculpe mas ali não havia sonhos

Nem sequer daquele arroz que a prima maria fazia

Doce como os sonhos o meu sargento desculpe

Mas é tão estúpido tão escalabitano tão

A norte de bafatá ou mesmo

Castelo branco o meu sargento é um nabo

Sonhos de ovos em castelo misturados na farinha

O meu coronel desculpe mas tive de o abater

O gajo não entendia que os sonhos eram os outros

Eu não ia gastar na tropa recordações de noites várias

E já agora também lhe digo que na bolanha entre as árvores

Há um ar em silêncio extremamente melancólico

O meu capitão desculpe mas não chamei a amargura

De quando conheci a domingas uma vez encontrei-a

Já havia muitos meses que me lavava a roupa

Junto ao mercado do Pixiguiti chorava

Era sofrida como uma mulher

Doce e tão calada como um objecto partido

O meu capitão desculpe mas tive que o abater

É uma coisa que me chateia entrarem-me nos afectos

O que é que você sua besta sabia da ternura em comissão

De serviço o senhor que olhava de alto os taratas e os mancarras

O meu major desculpe mas era chegada a hora

Tantos anos depois ficaram todos em fila

A vingança é o que mais mora numa cabeça de soldado

Pensa-se nisso sempre quando se passa à peluda

De modo que foi assim fiz levantamento de memórias

E o melhor de tudo foi que já não me podiam tocar

Eram nabos frios como o esparguete o arroz sensaborão

Ficaram todos em fila pois então

Mesmo que em sonhos e agora estes não são

De ovos e farinha como almejava nesse tempo

Quando aguardava sem chegar uma encomenda familiar

Os olhos antigos tão fundos como o pego do rio Geba

E já agora que estamos com a mão na outra massa

Que é como quem diz com a pata na G3

O meu general vá à fava palavra de civil tão sem galões

O meu general é um nabo como na caserna se dizia.

in “O armário de Midas”

27 Janeiro 2011

Ainda na continuação da recuperação da gripe...


... faço, agora, uma referência a uma colecção, Frente&Costas, iniciada, em Outubro do ano passado, com um pequeno volume de Manuel de Almeida e Sousa.
O livro inclui, de um lado poemas visuais, feitos da combinação entre fotografias e o resultado da acção autónoma de um velho MacIntosh, conhecedor, de há muitos anos, como qualquer animal doméstico, dos caminhos de quem o conduz. Do outro, um texto teatral desconstrutor do discurso resultante do conjunto formado pelas pulsões e pela lógica, libertando a voz para uma expressão mais próxima do que poderia designar-se como música primeira a que o corpo se molda, moldando-a. A ordem da leitura do conjunto é, naturalmente, arbitrária.
Na República das Santas Bicicletas (ver o Miradouro) poderá ser encontrada mais informação.
Na badana, encontrarão um texto que me foi pedido, referente à colecção, o qual transcrevo de seguida (porque, por hoje, não consigo melhor do que isto):

«O visível surge do invisível e existe neste e por este. O invisível, por seu turno, existe no visível, alimenta-se dele. Se tudo fosse visível, não poderíamos falar em visível; se tudo fosse invisível, nada haveria que fosse algo para si.
O visível é a forma de consciência do Todo, que, por isso, não é visível nem invisível. Assim, o visível procura encontrar-se no invisível; o invisível, esse é a própria vida do visível. O Universo anima-se pelo que está para além dele.
Uma escultura vive na consciência de quem, vendo-a, a constrói pelas partes visíveis do seu todo, que lhe é invisível. A escultura existe do visível no invisível da consciência. A escultura vive em nós, que, de uns para os outros e com os outros, nos tornamos visíveis, aos poucos, do invisível de que nos formamos.
A linguagem fala pelo silêncio e do silêncio que a permite. Aponta, une, relaciona, descreve, desdobra-se e aponta para si mesma no não-dito.
As costas sugerem a frente, exigem-na; a frente faz suspeitar das costas, procurá-las. No perfil está e não está tudo, vê-se e não se vê tudo.
Esta colecção faz-se perfil na sua orientação gráfica. No resto é Frente e Costas, Frente e Costas, Frente e Costas… Como todos nós.»


17 Janeiro 2011

Ars Magna, segundo Nicolau Saião

Ars Magna

ARS MAGNA

A arte

contemporânea – ou seja, a que com independência

de espírito se estabelece como tal - tem

o selo de quem ama de facto os traços, as cores e as

inflexões matéricas que nela se contêm

e, por isso, os cria fogosa ou serenamente.

(Aqui um esboço

de Beckman ou

de Lyle Carbajal ou mesmo

uma aguarela incompleta de Cézanne

ou até uma folha semi-queimada

semi-rasgada de Wolfli, o que no seu

quarto do manicómio onde residiu uma vintena

de anos, acendia velas de estearina a Santa Realidade

que para ele

era a enfermeira que o amparava no seu desgosto).

Esses que a fazem

por um imperativo da força que lhes sai do corpo

e da sua organização em ossos e pele,

músculos, cartilagens e sentimentos – e que depois

cristaliza em quadros, peças escultóricas

e elementos mistos - sabem que isso em seguida

se repercute em nós e faz nascer

outras cores e traços e substâncias

vitais rodeados de palavras e de realidades

por vezes raras e acrescentadas. Coisas

que umas vezes em cima outra vezes em baixo

do mundo que as fundamenta

são como um rosto convulso

ou inteiramente apaziguado

entre as mãos de quem rememora

o tempo vivo e desfeito.

in Escrita e o seu contrário

26 Dezembro 2010

Três poemas a propósito do Natal

São três belíssimos poemas de Nicolau Saião, do seu Escrita e o seu contrário, que ontem tencionava publicar conjuntamente com os dois trabalhos plásticos, mas dos quais, no meio da azáfama do costume, me esqueci. Deliciem-se.


Dali, Cristo de São João em Pathmos


RECEITA PARA UM NATAL

Primeiro, ficar parado

durante um momento, de pé

ou sentado, numa sala ou mesmo

noutra dependência do lar.

Depois preparar

os olhos, as mãos, a memória

e outros utensílios indispensáveis. A seguir

começar a reunir

coisas, por ordem bem do interior

do coração e do pensamento:

a ternura dos avós, uma mancheia;

rostos de primos distantes, uma pitada;

sons de sinos ao longe, quanto baste;

a recordação duma rua, uns bocadinhos

um velho livro de quadradinhos

duas angústias mais tardias, alguns restos de azevias,

a lembrança de vizinhos ainda vivos mas ausentes

e de uns já passados.

Quatro beijos de seres amados ou de parentes

um cachecol de boa lã cinzenta aos quadrados

e um pouco de azeite puro e fresco

igual ao que a mãe usava noutro tempo saudoso.

Mexe-se bem, leva-se ao forno

e fica pronto e saboroso

- mesmo que, nostálgica, se solte uma pequena lágrima.


UM NATAL ÀS CORES

Em geral estava frio. Um frio límpido e seco

com um tom de cobalto muito escuro no horizonte, quando

surgiam no céu os primeiros luzeiros de Orion ou da

Ursa Maior. Para os lados de Ocidente, a seguir à noitinha, um clarão

débil propagava-se sobre o bosque de castanheiros: e eram as luzes

da cidade acocorada no princípio da aba da Serra, estendida

no pequeno vale para lá das colinas e dos pinhais.

Às vezes

chegava alguém até ao muro da azinhaga – primeiro sinal

de casas e de gente: e eram vizinhos das quintas em volta, alguns bufarinheiros

com a sua mala de corre-mundos, um que outro mendigo mais afeito

aos campos e à sua generosidade em que as Estações

se sucediam com figos, castanhas, laranjas ardentes de sumo e de cor, o bom pão dormido e coberto de toucinho rechinante ou rescendente de frescura

com o queijo duro e a manteiga entre duas capas de presunto. Porque à gente

de boa paz nunca se negava, por vontade do Pai e da Mãe,

o aconchego do estômago e uma que outra placa desviada ao serviço

de domésticas, económicas utilizações. E havia o tio Noitinhas

que, contava-se, fora rico e decaíra; o tio Chico do Mel (esse levava sempre, porque tinha o meu nome, um pedaço de chouriço ou de paio, de reforço);

a ti’ Ana Grila, que corria Ceca e Meca desbastando por dentro

a saudade de um filho e de um marido que lhe haviam morrido de desastre

lá para as lisboas da construção civil; e o tio Martinho,

sempre com um canito à ilharga: figura e retrato escarrapachado

do homem-do-saco que tantas vezes me faria

comer o prato sem tardança, ele que era manso e sereno

como um irmão de Heliópolis e cuja voz,

tirante as barbaças de monge, era suave posto que rouca e mais afeita

a dialogar com o rafeiro que a assustar fosse quem fosse.

Mas as crianças, já se sabe, vêem o tempo

com olhos maravilhados e sobre a sua imaginação corre uma brisa

deslumbrante e divina que lhes permite ver um emissário de mistérios e segredos

num pobre pedinte alentejano.

E depois, quase de repente, era Natal. Com todas as suas

maravilhas incógnitas: o grão cozido e pisado para o recheio

das azevias largas como uma palma de mão

ou diminutas

como um ninho de andorinha-do-mar; o bacalhau que o Pai trouxera

da cidade de juntura com misteriosos embrulhos

encaminhados à socapa para as secretas geografias das gavetas

da cómoda grande; a Tia cortando o pão

para a sopa de cação apaladado de alho

e demais ervas próprias, a Mãe estendendo o manto

das filhós depois fritas com cuidados e saberes de alquimista, a Mana

que ajudava neste e naquele trabalho para depois saber

quando crescesse com filhos e responsabilidades por dentro

e nas mãos operosas. E, pela noite,

vinham então a vizinha Mari'José, o vizinho Manuel Planeta, as filhas

Jacinta e Júlia e, às vezes, a minha Avó das histórias

com seu saquinho de malhas, lá de longe das Arronches,

e no meio duma conversa, dum riso, duma garfada, dling dlong

e era já meia-noite? Já, a missa do galo sentida por cima dos pinheiros, chegada

da capela de S. Cristóvão ainda não havido o Atalaião?

Sinal de fraternidade na noite subitamente silenciosa.

Um Natal às cores. Com as cores do passado. Fotografado

pela memória da infância e da recordação agradecida.


NATAL ZERO OITO

Quem fala de Natal perde palavras

à entrada do Inverno, na secura dos dias

no vasto frio das noites, tão lúcidas e antigas

tão de infância e de Agosto. O fogo

misturado: árvores, luzes, fantasmas

e as doces mãos das Avós. E ainda

um postal velho velho cheio de vento e de memórias.

Quem fala de Natal perde palavras, ganha

e perde as demais coisas que as palavras edificam.

Quem grita no Natal? E Deus

não os fulmina? “. Quem mergulha os seus pulsos

na fria água do rio? Com seus chapéus à banda

em barcos engalanados

os anjos vão passando, dizendo amores esquecidos

dizendo estranhas frases, assombrando as moradas

onde afinal não nasce o tal de Nazareth. O sal e o

pão terrenal dos que ainda não foram

pelo ar, pela vida, pelos túmulos vazios.

Sim, pelo Natal as pobres casas em ruínas.

Para ser do Natal é preciso possuir

uma lembrança ardente, um brinquedo estripado

e muita tristeza feita nos anos em leilão

dos retratos tombando com um nó na garganta.

Para ser do Natal é preciso morrer

e viver de seguida com o sangue nos braços

esperando a estrela fixa do brusco espanto nocturno

junto à porta perdida dum milagre adiado.

Ah falar de Natal! Quem o consente?

O pão e o sal

talvez

de toda a gente. E um olho de animal

pairando no poente. Decisivo, visceral. E Deus, pobre dele

abrindo a água lustral (no bem, no mal)

frente ao horror da morte

terrena e inocente.

Por isso, no Natal

os segredos demoram

e tudo muda e tudo se envolve num pano branco barato

para que ninguém esqueça um corpo ferido que por debaixo jaz

uma nova e desconhecida espécie de cadáver achado na ilha

dos animais inominados

e outras diversas coisas que por desespero se não apontam.

No Natal treme a casa, a casa

sempre caiada, como um sepulcro sem número e sem nome.

E o inventário dá, se estiver certo:

um coração ardido todo azul

uma recordação minúscula que se guardou num bolso

um riso salutar ensanguentado

uma pequena ironia desenhada a tinta de colegial

uma apenas esboçada mão posta sobre um antebraço

o lenço de cabeça duma tia que desapareceu na manhã

um gato tranquilamente dormindo ao cimo das escadas

uma rosa e uma palavra que a si mesmas se julgaram

duas mãos de pedra tremendo atravessadas por uma ferida

numa cruz de pólo a pólo

um hálito que soprado no peito nos enlouquece

um arrepio, uma agonia

uma tarde a fechar-se repleta de amargura e de alegria.

Talvez o Natal seja um rosto

ou uma madrugada de outono

ou um avião nocturno

ou um verão por detrás das coisas aparentes

ou um combatente jazendo de borco numa pia baptismal

ou os bramidos de dois seres abandonados encarando-se de súbito

numa rua da cidade

no escuro muito escuro de uma cidade do universo

quer dizer – luminosa e aterrada. E talvez

que tudo afinal esteja a mais, que tudo afinal

se resuma a filhós e azevias de um outrora

a canecas de café familiar

algures num horizonte, numa idade, num momento

no imenso murmúrio de uma voz sulcando o tempo.

E a chuva que diabo irá cobrindo tudo

no infinito Natal dos mundos desaparecidos.



Dali, A persistência da memória

Das transformações das pulsões de defesa em prisões ideológicas


Ontem ao final da noite, dando uma volta pelos blogues do meu Miradouro, encontrei, na República das Santas Bicicletas, um post em que se transcrevem alguns dos poemas - belos poemas! - feitos, no Al-Andaluz, por poetas que viveram no que depois veio a ser o território a que se chama Portugal. Post que começa com uma citação de Fernando Pessoa, retirada do texto Da Ibéria e do Iberismo:

“Nós Ibéricos, somos o cruzamento de duas civilizações – a romana e a árabe. Somos, por isso, mais complexos e fecundos… Vinguemos a derrota que os do Norte infligiram aos Árabes nossos maiores. Expiemos o crime que cometemos, ao expulsar da Península os árabes que a civilizaram”.

Após tê-los lido, deparei com este comentário, assinado por Nuno Alves Pereira:

"Um dos truques agora da propaganda islamita é tentar dar os que invadiram a Europa por duas vezes como grandes civilizadores. Os de cá seriam uns bárbaros e os de Mafoma uns tipos sensacionais, civilizados e artistas, etc.
Basta ler-se a Históia dos Árabes na Espanha para se ver que o seu domínio de moderado e bonzinho nada teve.
Pelos vistos, nem este blogue já escapa à insidiosa propaganda.
Água mole em pedra dura…Pois é.
Os que por laxismo vão dando o rabo aos do Islão têm feito um belo trabalho.
Que pena."

Ao qual contrapus o que se segue:

"Caro Nuno Alves Pereira:

Se por acaso tem passado pelo meu blog e lido os textos que escrevi até à data, penso que não lhe restará qualquer dúvida quanto à minha posição relativamente ao que o Islão representa no mundo actual e à ameaça que ele constitui para a humanidade. Porque é um texto susceptível de interpretações perigosas para todos nós, inclusive para os verdadeiros crentes. Ao contrário do cristianismo, que tem vindo a depurar-se, lentamente e aos solavancos em zig-zag, dos ferra-braz que o utilizaram e continuam a procurar utilizá-lo, o islamismo tem reforçado, com ou sem verdadeiras razões, o lado matarruano do mundo. E isto porque o próprio texto, repito, o permite, num grau superior ao que é possível fazê-lo com os Evangelhos, muito mais claros e taxativos na explicitação dos seus princípios, permitindo uma maior e livre contestação das posições das hierarquias superiores. Basta, para o comprovar, realizar um verdadeiro estudo comparado das histórias internas do Cristianismo e do Islamismo.

Deixando de lado estes assuntos, porém, julgo que o Nuno Alves Pereira comete um erro próximo do mesmo tipo que pretende repudiar com o seu comentário. Quando Fernando Pessoa afirma que os Árabes civilizaram a Península não quer com isso dizer mais do que aquilo que quer significar ao afirmar, noutro passo, que o grande inimigo de Portugal é a França. De outra maneira: a França, a cultura francesa, não possui a experiência interior profunda e a riqueza que foram trazidas à Península pela influência cultural e religiosa de povos do Médio Oriente que nela se integraram, passando a fazer parte de uma subtileza de alma que não se encontra nos povos do centro da Europa, de raiz românica e bárbara. Ao tornar-se dominante, por motivos de ordem histórica, essa cultura centro europeia aspira a abafar tudo o que não seja ela própria como forma de dominar efectivamente, o que só se consegue, como é sabido, moldando as mentalidades à medida do que é necessário ao dominador. A concepção de racionalidade que desembocará no Iluminismo do século XVIII tem como base ser a razão o instrumento e a medida do que deve ser considerado válido, verdadeiro: a razão interpretada desse modo auto-avalia-se como o único instrumento de descoberta e determinação do real; o que cai fora desse conceito de razão não pode ser considerado racional, logo, real. Trata-se de um argumento circular, popularmente conhecido como o argumento da "pescadinha de rabo na boca". Este cartesianismo, que extravasa o próprio Descartes, está na origem da autojustificação que a si mesmos deram as elites, regimes e sistemas políticos europeus dominantes desde os meados desse século até aos nossos dias (até ao século XVII, quando se falava em cultura, falava-se em Península Ibérica)

Pessoa compreendia isto muito bem, daí considerar a França como o inimigo por excelência do modo de estar português, resultante de uma vivência dispersa -frequentemente demasiado dispersa- e de carácter ecuménico, se assim podemos dizer, no sentido que Agostinho da Silva dá ao termo. E daí também que considerasse os Árabes como civilizadores dos portugueses, enquanto essa herança nos distingue dos restantes que connosco partilham e são provenientes do tronco comum romano. Com todas as consequências, positivas e negativas, que tal acarretou e acarreta -e aqui chamo de novo a atenção para Agostinho da Silva.

Falar de poesia islâmica ibérica, divulgá-la, não é, pois, fazer a apologia do que se passa no islamismo actual nem no Islão, mas simplesmente olharmos para nós mesmos e vermo-nos integral e dignamente. O resto é atraiçoarmo-nos e perdermo-nos nos meandros em que nos querem encerrar. Seria, isso sim, cedermos à tirania dos que atraiçoam toda e qualquer religião ou sistema de pensamento."

Deixo isto aqui como uma mera introdução, insuficiente e incompleta, a algo que, pouco a pouco, procurarei abordar mais explícita e profundamente no futuro.

24 Novembro 2010

Este blog tem um só escravo


E quando ele chega à cama, estafado, adormece sem mais conversa.
Amanhã, dizem por aí, será um pouco melhor.
É esperar para ver.
Deixa aqui, entretanto, este poema (delicioso pela subtil ironia) de José Régio.

Em cima da minha mesa
Da minha mesa de estudo
Mesa da minha tristeza -
Em que de noite e de dia
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo
A mim
Também
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro de um caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora,
Que se parece contigo,
E que tem ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que Tenho,
De menino pequenino!...
No fundo da minha mala,

Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços - e nada leves! -
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta.

20 Novembro 2010

Parabéns, Mandrágora!!!


Saúda-se aqui, hoje, os 31 anos de existência de uma Associação cultural que, para vergonha das entidades públicas, mais interessadas em apoiar o que enche (ou vaza?) o olho do eleitor, continua sem um vão de escada que lhe permita desenvolver regularmente as actividades para que foi formada.
Conhecida e reconhecida internacionalmente, contou com a colaboração dos surrealistas portugueses, com destaque para Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas. Da sua acção artística e formação pedagógica resultou, além dos espectáculos e exposições multimedia realizados, todo um trabalho de iniciação às artes na área de Lisboa, de que beneficiaram não somente muitas instituições populares como também algumas figuras de relevo da actual vida cultural portuguesa.
Ao Manuel de Almeida e Sousa, alma primeira de muito do que os mandragorianos levaram avante nestes 31 anos, o meu abraço.