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25 Maio 2011

Correio em atraso - Uma carta de Nicolau Saião

Nuno Rebocho

Caros/as confrades e amigos

Em meados de Abril recebi uma notícia entristecedora: o radialista e poeta Nuno Rebocho, que foi o director de informação da RDP Antena 2 antes de ir dirigir o diário "Liberal" de Cabo Verde, sendo também assessor do presidente da câmara da Praia, sofrera um AVC.
Naturalmente constrangido - longos anos, desde que ambos começámos a escrever no "Diário de Lisboa-Juvenil", entretivemos uma fecunda amizade e colaboração intermitente - procurei saber da evolução do seu acidente vascular.

E, há um par de dias, recebi um telefonema: com alegria, ouvi o amigo Nuno que, ainda com alguma dificuldade, mas mostrando a sua lucidez e o proverbial senso de humor, me comunicava que o pior já passara.

Neste momento está em recuperação no Alcoitão, preparando-se para a breve trecho regressar às Ilhas e à labuta que lhe é própria.

Pude dar-lhe uma notícia positiva: se nada se meter de permeio - é uma maneira de falar - a seu tempo sairá no Brasil o seu livro de crónicas e viagens "Estravagários", que tive o gosto de prefaciar.


Nuno RebochoUm convivente goliardo moderno *


“Muitos são os benefícios de viajar: a frescura que nos traz ao espírito, ver e ouvir coisas maravilhosas, a delícia de contemplar novos lugares, o encontro com novos amigos e o aprender finas maneiras”

Muslih-din-Saadi, poeta persa

1.

Dizia Samuel Clemens (Mark Twain), também ele viajante e cronista devido a decisão própria e, durante algum tempo, viajeiro por profissão, que viajar era passear um sonho.

E acrescentou que a escrita que daí resulta passa a ser o sonho transfigurado, com o seu território de realidades e de quimeras, de minutos que se abriram para novas visões e novos pensamentos e doravante perduram como relatos que nos ensinam e nos maravilham.

Andar pelo mundo e pela vida e escrever sobre isso – pessoas, coisas, sucessos da mais diversa ordem – não é fácil tarefa, é preciso manter simultaneamente a inocência (temperada por alguma malícia), a perspicácia e um enorme sangue-frio, pois sem aviso as recordações apoderam-se de nós e como que nos obrigam a passar para outra realidade, em geral extremamente sedutora mas que nos enfeitiça com inexactidões involuntárias, filhas do nosso mistério pessoal. Por isso Benjamin Disraeli dizia avisadamente que “vi mais coisas do que as que recordo e recordo mais coisas do que as que vi”. Todavia, a grande solução consiste sempre em entrarmos generosamente na viagem, sem temermos a multiplicação de experiências, até mesmo de acasos, pois sabe-se que no final a escrita e seus interiores meandros – se dispomos da adequada dose de sensatez criadora – acabam por depurar, resolver e transfigurar aquilo que se viu, se sentiu e se viveu, como que por uma brusca mutação que vem não se sabe muito bem donde.

E depois há a memória que se convoca nos grandes momentos de fecunda solidão, de fulgurante isolamento criativo em que somos simultaneamente objecto e sujeito porque é por nós que passa a organização do que significam realmente as lembranças, do que foram efectivamente os perfis das gentes que nos rodearam, os tempos reencontrados em que revivemos uma conversa, um ritmo vital, um passeio, em que de repente ressuscitam perplexidades e encantamentos, fragmentos de tempo em que a nostalgia nos visitou sem que nos pudéssemos esquivar e que logo a seguir assumimos peremptoriamente como um dos nossos maiores bens.

A isto, creio, chama-se compreender. Porque por detrás de toda a alegria difusa transportada numa evocação, ou em todo o pequeno tremor que nos assalta ao termos a sensação de que qualquer coisa nos abandonou, há sempre um rosto ou a ideia de que por ali paira algo de humanizado e aonde se chegou através de um olhar mais exacto, mais treinado pelos mundos onde se esteve por destino e pelos universos que as deambulações nos propiciaram.

2.

Já se sabe que a arte da crónica não é nem nunca foi uma arte menor ou muito menos mero preâmbulo para qualquer coisa de maior envergadura. Trata-se, com efeito, de um corpo inteiro que se joga ali mesmo, nesse continente de luzes e sombras onde crescem deuses e demónios inteiramente nascidos da realidade que se forja com os factos arrolados e sua representação palpável. Ou seja, uma poesia muito própria e sem sujeições a outras escritas aparentemente de maior porte no arsenal do autor.

Cronista e ser convivente, o viajeiro de “Estravagários” – estas crónicas sobre o Alentejo real que os sonhos perduráveis do autor encenaram – tem parentes perfeitamente reconhecíveis, ainda que seja seu e muito próprio o estilo que arrola entre o alinhavo jornalístico e o desalinhavo livresco. São os amantes dos prazeres do espírito – e dos outros que gostosamente passam pelo corpo e a que alguns, com certa dose de leviandade, apelidam de transitórios ou baixamente materiais. Em todas as evocações de NR se sente perpassar uma clara alegria de viver, ainda que cifrada por alguma melancolia; donde o gosto pela boa mesa, por exemplo, não se ausenta nunca – e repare-se que aquela expressão vai no sentido lato. O espírito do lugar, que é o das pessoas que o habitam, é bem palpável com todo o seu manancial de coisas essenciais que vivem intensamente se tivermos olhos para cheirar, ouvidos para ver e alma para saborear. Nas crónicas de Nuno Rebocho, colega evidente de Goldoni, Hazlitt, Cela ou Saroyan, sente-se que as pessoas que recorda e os acontecimentos a que dá relevo não estão ali como pretextos fantasmais para umas tantas laudas literatas, mas para habitarem o quotidiano deste seduzido sedutor. Caldeados pelo pormenor argutamente observado, pelo trecho recortado com ironia, pela frase incisiva e mediada quantas vezes por uma indisfarçável comoção, cobram vida relatos donde pode extrair-se um perfume de passados finalmente refigurados e limpos da escória que o tempo lhes fez adquirir, de coisas e de momentos que se vão esquecendo e de outros que, embora existindo ainda na hora que passa, irão ser pasto para esquecimentos futuros.

Com estas crónicas, onde freme um tom pessoal e que possuem aquele sabor coloquial que a profissão do autor certifica e esclarece, mediante a maneira peculiar onde se desenha a sua aposta e o nosso privilégio Nuno Rebocho presta inquestionável serviço à nossa convivencialidade humana e cultural, à nossa memória específica de povo e ao nosso aprumo de pessoas que querem lembrar o melhor e o mais alto.

Casa do Atalaião, em Dezembro

* Prefácio do livro “Estravagários”, Ed. Apenas Livros.

18 Junho 2010

Nicolau Saião, hoje, no TriploV



Da hipocrisia como uma das Belas Artes

Morreu Saramago e, como sempre, os habituais hipócritas ou interesseiros, vêm-lhe festejar o cadáver. Nunca o apreciaram, mas dizem-se pesarosos. É o habitual. Eu também nunca o apreciei - quer como escritor, quer como pessoa. Como escritor, a despeito dos galardões, achei-o sempre limitado. Como pessoa era envinagrado e pedante (leiam-se as memórias do comunista, mas consistente, Orlando Neves, um dos melhores poetas lusos, e ficar-se-á esclarecido sobre a personagem). Mas nunca o ofendi, como muitos que agora fingem desgosto. Outros, por dever militante, tentam forçá-lo a prestar um último serviço... à "causa". Chamam-lhe homem livre. De facto, foi um estalinista, um apreciador de ditadores (quem esqueceu o elogio a Fidel e a Stalin, que segundo ele foi um homem de pulso?) e um homem de obediências cegas.
Mas era um ser humano, que merecia que não lhe babujassem o cadáver com fingimentos.

10 Junho 2010

Volto na segunda-feira, mas...


... deixo aqui, entretanto, um pequeno texto de Chesterton, numa tradução do meu caro Nicolau Saião.

O que achei nas algibeiras

Uma única vez, no decorrer da minha vida, fui ao bolso de um fulano e, de certezinha por distracção, acontece que esse bolso era o meu…
Com propriedade o acto pode descrever-se dessa forma, no mínimo, porque ao tirar coisas das algibeiras fui sentindo as emoções do gatuno: a total ignorância sobre o que ia achar e uma curiosa excitação pelo que ia encontrando…
Estava bem fechadinho num autocarro de terceira e a viagem ia ser longa. Caía a tarde e, no exterior, a terra e o céu eram tão monótonos como uma tela na qual o pincel molhado da chuva houvesse imprimido uma descolorida melancolia. Não levava comigo nem jornais nem livros. Nas paredes do veículo não havia nenhum cartaz de publicidade sobre o qual pudesse efectuar um estudo apurado – isto porque qualquer acervo de palavras impressas é suficiente para me sugerir as infindáveis complexidades do humano engenho mental. Assim, por exemplo, quando me encontro frente às palavras “Sabão Sol” fico capaz de esgotar todos os aspectos do culto solar, de Apolo e da poesia do verão, antes de entrar no assunto propriamente dito e menos transcendente do sabão…
Mas no compartimento que ocupava não se viam nem imagens nem palavras em que pudesse deter o olhar, nada havia para além da inexpressiva madeira, no interior e, lá fora, a paisagem coberta de humidade
Ora, sempre me tenho negado com energia a admitir que haja coisas que não possuam qualquer interesse. Assim sendo, pus-me a olhar os encaixes das tábuas das paredes e dos assentos, meditando profundamente no empolgante tema que é a madeira. E no exacto momento em que começava a entender porque é que Jesus Cristo fora carpinteiro e não pedreiro ou mesmo padeiro, vieram-me de repente à ideia as minhas algibeiras. Sem disso ter consciência, carregava comigo um tesouro desconhecido! Aquelas ninharias que sempre se trazem distribuídas por todo o corpo, por aqui e por ali. E comecei a tirar coisas dos bolsos.
O que primeiro de lá saiu foram uns quantos bilhetes de eléctrico da carreira de Battersea, os quais me deram de imediato o material impresso de que estava a precisar: no verso de cada um deles lia-se um curto mas incisivo ensaio científico sobre certas pílulas medicinais. Dada a minha modesta condição económica desse tempo, os ditos bilhetes de eléctrico podiam considerar-se como uma minúscula mas selecta biblioteca científica. Continuasse eu a viajar daquela forma mais alguns meses – o que, na época, era muito de admitir – e estaria dentro em breve mergulhado com empenho numa polémica sobre os defeitos e as virtudes das pílulas, armando réplicas e tréplicas ora contra ora a favor, baseado nos dados que os bilhetes me facultavam.
Depois tirei do bolso um canivete. Um canivete, digamo-lo desde já, é objecto que só por si faz jus a um volume considerável de meditações morais. Pois a faca é um elemento típico de uma das primaciais origens práticas em que assenta, como sobre curtos e grossos pilares, a civilização humana. Os metais, o mistério daquilo a que chamamos ferro e aço, levaram-me a uma espécie de sonho arrebatado. Mediante a fantasia penetrei no âmago de bosques húmidos e escuros onde o homem primitivo topou, entre outras pedras, com esse estranho calhau. Vi-me no meio de uma escaramuça violenta e vaga, na qual os machados e os facalhões de sílex se quebravam, se estilhaçavam contra algo de novo que reluzia e que um dos furiosos combatentes empunhava. Escutei todos os martelos malhando em todas as bigornas do mundo; vi todas as espadas das guerras feudais e todas as engrenagens da batalha industrial.
Porque a faca é apenas uma espada curta; e o canivete é uma espada oculta. Abri-o – e pus-me a contemplar essa língua luzente e temível a que se dá o nome de lâmina; e concebi que talvez ela fosse o símbolo da mais antiga necessidade do homem…Mas no momento seguinte percebi que me enganara., pois o objecto que logo após me saiu do bolso era uma caixa de fósforos. Visionei então o fogo, que ainda é mais poderoso do que o aço; a chama, essa antiga coisa feminina e feroz, que todos amamos mas em que não ousamos tocar…
Veio a seguir um bocado de giz; e vi nele a arte toda, os murais de todos os tempos e de todos os lugares. Depois extraí do bolso uma moedinha de parco valor; e nela vi não só a efígie do nosso próprio imperador mas também a soma de todos os governos e da ordem, desde que o mundo é mundo.
Mas falta-me espaço para arrolar agora a lista completa de objectos que, num longo e esplêndido corrupio de símbolos poéticos, continuou a escorrer-me das algibeiras.
Uma coisa, contudo, posso assegurar-vos: nelas não consegui achar o bilhete do autocarro…

01 Novembro 2009

Então, vá!


Folheando o PÚBLICO de ontem, pus-me a ler um texto de Eduardo Cintra Torres que me deixou em estado criativo de verdadeira graça. Dispôs-se Cintra Torres, com ele, temerariamente, a arrostar com o provável anátema dos mentores de uma nova moda literária, adoptada por um grupo de letrados portugueses que vozeiam num blog, os quais, em apoio ao que é dito por Pedro Mexia num ou dois de textos seus sobre o assunto, decidiram excluir da respectiva prosa os pontos de exclamação, afirmando que continuará a usá-lo como sempre o tem feito, dada a inquestionável utilidade desse sinal de pontuação.
Não se pense, todavia, confidencia-nos, que ele próprio está isento de manias igualmente questionáveis e susceptíveis de serem postas em causa, exemplificando com a sua natural tendência a excluir liminarmente da vista os romances em cujo título figure um verbo. Algo assaz singular, sem dúvida, mas que é nele irreprimível. E lança-se, em seguida, numa aventura da memória em direcção ao tempo em que vivia com a sua família parental, durante o qual se deu conta dessa sua idiossincrasia, de que só se tornou consciente mais tarde, quando, por influência de Lídia Jorge, leu As Velas Ardem Até ao Fim, de Sandór Márai, Lídia Jorge que, apesar de possuir «uma folha de serviço impecável, apenas com romances sem verbos nos títulos, perdeu as estribeiras» e publicou Combateremos a Sombra. Disparando, depois, para a vastidão das viagens literárias que a existência lhe proporcionou já, registando o exemplo dos inúmeros e consagrados autores, nacionais e estrangeiros, que, no decorrer dos séculos XIX e XX, não caíram nesse pecadilho, desastroso para a aspiração a serem lidos. Camilo, nota, soçobrou somente três vezes, entre dezenas de títulos que publicou, Aquilino, outras tantas. Quanto a Dinis Machado, é certo que, cito uma vez mais, «escreveu O que Diz Molero, mas quando a forma verbal se segue a uma conjunção subordinativa “que” ou “quando” aceita-se melhor». A condenação de Miguel Sousa Tavares é, porém, irremediável, ao escrever «qualquer coisa com David Crockett que dá vontade de deixar morrer a personagem sem mesmo começar a leitura».
Termina Cintra Torres com o seguinte passo, onde é possível escutar subliminarmente uma inflexão e uma ênfase de voz que como que pretendem despertar a nossa atenção para a indesmentível cientificidade das razões que determinam a sua intuitiva aversão: «Que títulos com verbos são próprios de certa literatura não é um preconceito meu. Um título com verbo promete xarope. Consultei na Wikipédia os 145 títulos da espanhola Corín Tellado editados em 1972 e 1973 (sim, em apenas dois anos). Desses, 105 têm um verbo no título (72%). Em Barbara Cartland a percentagem é menor, mas facilmente encontrei dezenas.». E remata: «Contudo, até agora nunca tinha visto um título com dois verbos, ainda por cima com ponto de interrogação. Ia morrendo ao ler o título do novo António Lobo Antunes: Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?. Eu não sei que cavalos, nem nunca saberei.».
Devo confessar que, até chegar a esta última parte, me senti literalmente assaltado pela sensação do jornal PÚBLICO me procurar enganar no que toca à qualidade intelectual daqueles a quem proporciona guarida. Lembrei-me, até, da frase rude proferida por José Mourinho, a propósito do seu colega de profissão Jaime Pacheco: “O cérebro dele só tem um neurónio e, mesmo esse, funciona mal”. Aos poucos, contudo, foi-me cedendo a resistência da mente face à luminosidade singularmente persuasiva do que lera. Mea culpa!, digo agora. É que a genialidade intrínseca ao funcionamento holístico de Eduardo Cintra Torres, através do qual o corpo se sintoniza tão perfeitamente com o acto de desvendar cerebralmente os mistérios da estrutura inerente ao real que nos sustenta e no qual nos cumprimos, deslumbrou-me a um ponto tal que somente a poesia poderia exprimir o que sinto agora. Mas quando o génio é pouco e o talento não ajuda, o que fazer? O que fui incapaz, também eu, de reprimir.
Um modesto poema, um singelíssimo poema, de um só verso composto, coincidente, inclusive, com o título, que se me afigurou adequado, no qual, porém, não fui capaz de evitar a inclusão não de duas, mas de quatro formas verbais e mesmo da presença de um ponto de interrogação e outro, de exclamação, associados. Com os meus maiores pedidos de desculpas, pela forma, mas sabendo-o eventualmente desculpável porque eivado de total sinceridade, aqui lho deixo:
Oh, filho! E se fosses c… ao Bilhar Grande, a ver se isso te passa?!

24 Outubro 2009

20 Outubro 2009

Referência gostosa


Ao dar uma voltinha pelo Fiel Inimigo, encontrei aqui uma chamada para este post (já agora, vejam também este).
Pelo que, a partir de hoje, o Imprensa Falsa, ficará incluído nos links de referência deste blog.
A bem de todos os portugueses.

18 Setembro 2008

Um velho conto

Chirico, Trovatore
O frade e o salteador
Era uma vez um virtuoso frade, que morava num ermo. Um dia chegou junto dele um salteador dos caminhos, que lhe disse:
- Vós rogais a Deus por todos; rogai-lhe que me tire deste mau ofício; se não hei-de matar-vos.
E, indo-se dali, tornava a fazer o mesmo que de antes.
E outra vez tornava a procurar o frade, dizendo:
- Vós não quereis rogar a Deus por mim? Pois hei-de matar-vos.
Tantas vezes fez isto, que uma veio determinado para matar o padre, o qual lhe pediu:
- Já que me queres matar, tiremos primeiro ambos uma laje que tenho sobre a sepultura onde hei-de ficar. Lançar-me-ás assim lá dentro, sem muito trabalho.
O salteador concordou com a proposta do frade, e ambos foram erguer a laje. Porém, ao passo que o mau homem trabalhava quanto podia por erguê-la, assim o ermitão se esforçava para que ela não se erguesse. E, desta maneira, nunca mais a laje saía do seu lugar.
Atentou o salteador no caso e disse:
- Se vós não me ajudais, como posso eu erguê-la? Ainda que eu queira da minha parte, não o consigo, pois vós fazeis, da vossa, com que não aproveite o que faço...
Antes que passasse adiante, disse-lhe o bom frade:
- Vês, irmão? Que me presta a mim rogar a Deus por ti, pedindo que te afaste do pecado e do mau ofício que exerces, se tu não te queres afastar e estás, muito de propósito, perseverante nele?
Gonçalo Fernandes Trancoso

17 Setembro 2008

A todos os que ainda têm pachorra...


... de passar por aqui:
Tenciono recomeçar no domingo. Até lá, procurarei deixar aqui, diariamente, um texto que julgue oportuno ou, por qualquer razão, interessante. Assim, fiquem hoje em companhia de Eça e do Portugal que não mudou desde então nem parece querer mudar.

O amável Correio da Manhã, fazendo hoje o retrato social de «Os vencidos da vida», um por um, para lhes contestar este título acabrunhante, continua e engrossa o ruído de publicidade que a imprensa tem erguido ultimamente em torno deste grupo jantante, com considerável desgosto dos homens simples que o compõem. Pode parecer talvez estranho que esta ressoante publicidade assim magoe os derrotados. Não permitem eles que hebdomadariamente as gazetas anunciem a sua reunião em torno da mesa festiva? É verdade. Mas se o fazem é para que a opinião se não possa, de modo algum, equivocar sobre o motivo íntimo que todas as semanas os arranca dos seus buracos, para o jantar num gabinete de restaurante, ao lusco‑fusco, no isolamento sumptuoso de quatro cortinas de repes.
Homens que assim se reúnem poderiam logo, neste nosso bem amado país, ser suspeitados de constituir um sindicato, uma filarmónica ou um partido. Tais suposições seriam desagradáveis a quem se honra de costumes comedidos; o respeito próprio obriga-os a especificar bem claramente, em locais, que se em certo dia se congregam é para destapar a terrina da sopa e trocar algumas considerações amargas sobre o Colares. De resto, o sussurro atónito que de cada vez levantam estas refeições periódicas não é obra sua – mas da sociedade que, com tanto interesse, os espreita. Eles comem – a sociedade, estupefacta, murmura. O que é, portanto, estranho não é o grupo de «Os Vencidos» - o que é estranho é uma sociedade de tal modo constituída que, no seu seio, assume as proporções de um escândalo histórico o delírio de onze sujeitos que uma vez por semana se alimentam.
O que de resto parece irritar o nosso caro Correio da Manhã é que se chamem «Vencidos» àqueles que, para todos efeitos públicos, parecem ser realmente vencedores. Mas que o querido órgão, nosso colega, reflicta que, para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal mínimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência for a com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina e uma tesoura para a tosquiar, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos 20 anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se, apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho – ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação. Dito isto, só podemos juntar que «Os Vencidos» oferecem o mais alto exemplo moral e social de que se pode orgulhar neste país. Onze sujeitos que há mais de um ano formam um grupo, sem nunca terem partido a cara uns aos outros; sem se dividirem em pequenos grupos de direita e esquerda; sem terem durante todo esse tempo nomeado entre si um presidente e um secretário perpétuo; sem se haverem dotado com uma denominação oficial de «reais vencidos da vida» ou «vencidos da vida real» ou «nacional»; sem arranjar estatutos aprovados no Governo Civil, sem emitirem acções; sem possuírem hino nem bandeiras bordadas por um grupo de senhoras «tão anónimas quanto dedicadas»; sem iluminarem no primeiro de Dezembro; sem serem elogiados no Diário de Notícias – estes homens constituem uma tal maravilha social que certamente para o futuro, na ordem das coisas morais, se falará dos «onze do Bragança», como na ordem das coisas heróicas se fala dos «doze de Inglaterra».
Dissemos.
Entretanto, aconselho a leitura dos posts publicados no passado dia 13 em A Voz Portalegrense (via Fiel Inimigo/Último Reduto). A partir de hoje, o link ficou disponível aí ao lado.

27 Maio 2008

E esta outra...

Chirico, Interior Metafísico com Biscoitos

... do Médio Oriente (Samarra fica no actual Iraque), contada por Somerset Maugham.
A fala da Morte
Um dia, um mercador, em Bagdad, enviou o seu servo ao mercado, para comprar mantimentos e o servo regressou quase a seguir, lívido e a tremer, e disse:
- Senhor, estava agora mesmo no mercado e uma mulher no meio da multidão chocou comigo e quando me virei vi que era com a Morte que tinha acabado de chocar. Ela olhou para mim e fez um gesto ameaçador. Empreste-me, pois, o seu cavalo e eu fugirei da cidade para evitar o meu destino. Irei para Samarra e, aí, a Morte não me encontrará.
O mercador emprestou-lhe o cavalo, o servo montou-o, cravou-lhe as esporas nos flancos e lá foi ele, tão rápido quanto o cavalo podia galopar. Então, o mercador desceu ao mercado e viu-me entre a multidão, e chegou ao pé de mim e disse-me:
- Porque é que fizeste um gesto ameaçador ao meu servo, quando o viste esta manhã?
- Não era um gesto ameaçador, retorqui, era apenas um sobressalto de surpresa. Estava espantada de o ver em Bagdad, quando tinha combinado um encontro com ele para esta noite, em Samarra.

25 Maio 2008

Estou cheio de trabalho!

Henri Rousseau, O Sonho

Limito-me hoje, por isso, a lembrar uma história zen de que muito gosto a quem eventualmente por aqui passe. Cá vai:
Um grande guerreiro japonês, chamado Nobunaga, decidiu atacar o inimigo, muito embora tivesse apenas um décimo das forças que o seu opositor comandava.
No caminho, parou junto a um santuário xinto e disse aos seus homens:
- Depois de visitar o santuário, lançarei ao ar uma moeda. Se sair cara, venceremos; se sair coroa, seremos derrotados. Estamos nas mãos do destino.
Nobunaga entrou no santuário e recolheu-se em silenciosa oração. Depois, saiu e lançou a moeda. Saiu cara. Os soldados ficaram tão animados para o combate que facilmente o venceram.
- Ninguém pode forçar a mão do destino – disse o lugar-tenente de Nobunaga depois da batalha.
- Realmente, ninguém pode - assentiu Nobunaga. E mostrou-lhe duas moedas coladas uma à outra e com as caras voltadas para fora.

06 Setembro 2007

Para terminar por hoje em beleza...

Luiz Pacheco

... aqui fica uma referência a um texto erótico-satírico de Luiz Pacheco, pescado no recém-adicionado (aí ao lado) Confraria da Alfarroba.
Deliciem-se e até amanhã.

27 Julho 2007

Efemérides confrangedoras


Neste país
em diminutivo
juizinho
é que é preciso.
Alexandre O'Neill escreveu este poema há cerca de quarenta anos.