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08 Maio 2011

"Qual, afinal, a legalidade da morte de bin Laden?"


É este o título de um outro texto de Luís Dolhnikoff, que transcrevo neste segundo post de hoje:

1.

Meu pai nasceu em 1932. Próximo de completar 80 anos, parece ter muito menos, e fora um recente susto que afinal não passou de um susto, está perfeitamente saudável, mais ágil do que eu, fisicamente (ele nada com regularidade), e provavelmente mais lúcido. A relevância disto está no fato de que ele chegou à idade adulta em 1950, início da Guerra Fria. E a consequência foi que adotou, então, uma posição político-ideológica clara num mundo claramente polarizado em termos político-ideológicos: tornou-se um “homem de esquerda”, como se dizia. Tornou-se e se manteve. Eu não. Tendo sido (bem)educado por ele, fui, ao contrário, “de esquerda” até chegar à idade adulta. Pois a minha maioridade foi marcada por um evento político-ideológico diferente: a chegada ao poder, em 1979, pela primeira vez na história recente, do islamismo político, através da instauração da teocracia no Irã.

O motivo de a retrovolução iraniana abalar meu esquerdismo juvenil foi que acreditei, nos anos precedentes, no resumo segundo o qual o xá representava o mal, pois ele era aliado dos EUA, o Mal. Obviamente, a posição “oficial” da esquerda afirmava ser contra o xá porque ele era um ditador, mas isso sempre fora um tanto cínico, porque a mesma esquerda apoiava então, com entusiasmo igual ao repúdio pelo xá, as piores ditaduras de esquerda. A questão portanto não era, na verdade, ditadura versus democracia, mesmo porque a esquerda desprezava a democracia “burguesa” (e ainda despreza), mas sim ditaduras boas versus ditaduras ruins. E entre as piores estava a do xá. Daí o grande regozijo quando foi derrubado por uma revolução popular.

Popular e antiamericanista. Popular, antiamericanista... e islâmica. No verdor dos meus 18 anos esquerdistas, achei surpreendente e estranho. Afinal, ser de esquerda, ao menos da esquerda “de verdade”, podia ser resumido em acreditar e esperar que a felicidade da humanidade seria alcançada quando “o último burguês fosse enforcado nas tripas do último padre”. E padre, aqui, era apenas uma metonímia para religioso, não a manifestação de uma “preferência” por sacerdotes católicos, o que não excluía, portanto, as demais religiões. Como explicar, então, a continuidade do entusiasmo pela “revolução” iraniana apesar de afinal liderada por um homem de turbante chamado aiatolá Kohmeini?

Eu ainda não tinha idade bastante para me manifestar com segurança, mas ao menos meu cérebro era suficiente para notar que alguma coisa estava errada. Não demorei a perceber que o fascismo religioso resultante da “revolução” iraniana era “aceitável”, e era “aceitável” porque antiamericanista. Havia, então, além de ditaduras boas e ditaduras más, também fascismos maus e fascismos bons (os antiamericanos)? Fiquei, afinal, tão desconfiado quanto confuso. E voltei à biblioteca. Segundo meu pai, quando reemergi depois de uns poucos anos, era um jovem adulto completamente “de direita”.

É por isso que hoje recebo no meu e-mail os Boletins Carta Maior, com as últimas do site do mesmo nome, ligado à Carta Capital, publicação brasileira de esquerda mais notória. Meu pai me adicionou à lista do site, com a intenção expressa de, mais uma vez, tentar me emendar. Não funcionou. A culpa não é dele se, desde antes de 1979, o pensamento de esquerda não para de descer ladeira abaixo em termos de inteligência, numa queda surpreendente porque, ao contrário de tudo o mais no universo, parece não ter fim.

O mais recente Boletim Carta Maior é dedicado, obviamente, à morte de Bin Laden. Também obviamente, traz os resumos e os links de vários artigos perfeitamente idiotas (com a licença de Vargas Llosa).

São perfeitamente idiotas porque não conseguem ou não tentam mais disfarçar que o único instrumento mental com o qual contam para “compreender” o mundo, e explicar tudo e todos, é tão somente o antiamericanismo. O exemplo mais ridículo da última edição é o do “escritor” paquistanês Tariq Ali, para quem não sabe, um dos atuais heróis intelectuais da esquerda mundial (pensar que esse lugar já foi ocupado por Marx, Gramsci, Lúkacs, deveria ser o bastante para dar a medida da irresistível decadência da esquerda, mas nada é o bastante). Seu título, em todo caso, é suficiente: “O que interessa agora é saber quem denunciou Bin Laden” (http://www.cartamaior.com.br). Sério? E eu que imaginava ser de grande interesse, por exemplo, tentar compreender a situação política interna instável e perigosa do Paquistão, o que poderia explicar tanto as causas quanto as consequências de Bin Laden ter sido encontrado ali, a poucos metros do principal quartel do exército paquistanês. Mesmo porque, entre outras coisas, trata-se de uma equação envolvendo o maior terrorista de massa da história, militares paquistaneses e bombas atômicas (que estes possuem). Nada disso: o que interessa agora é saber quem denunciou Bin Laden. Pois, obviamente, ele foi denunciado. Caso contrário, ter-se-ia de dar crédito à eficiência dos serviços de inteligência norte-americanos. O fato de a frase e o ponto de vista trazerem uma quase indisfarçada simpatia pelo personagem naturalmente não preocupa seu autor. Afinal, tudo o que há para se ocupar e se preocupar é descobrir quem denunciou Bin Laden...

Mas se a desinteligência da esquerda é tão pouco surpreendente quanto a inteligência militar paquistanesa (notoriamente islamista), a posição de analistas menos comprometidos ainda o é. Pois eis que me deparo – e me surpreendo –, em vários sites e em muitos jornais “burgueses”, digo, da “grande imprensa”, com analistas se revelando, em sua grande maioria, idiotas da objetividade.

2.

O resumo é simples: não há por que aceitar e muito menos louvar a morte de Bin Laden, pois ela foi ilegal. Aceitá-la e louvá-la é então louvar e aceitar a ilegalidade, logo, a injustiça. Ao contrário do que afirmou Barak Obama, a justiça foi desservida.

Primeiro, porque se invadiu um país, desrespeitando sua soberania. Segundo, e principalmente, porque a justiça implicaria na captura e no julgamento de Bin Laden, e na sua eventual condenação, e não em sua execução sumária, que não passa, portanto, de um crime, pois um assassinato.

Houve quem se assomasse em super-humanista, ou supercristão, afirmando que não se pode aceitar ou louvar a morte de nenhum ser humano. A maioria, porém, insistiu mesmo em certa objetividade formalista-legalista. A justiça foi desservida. Além do fato em si, abre-se um precedente perigoso... Ou seria: escancara-se mais um presidente (americano) belicoso?

Os argumentos nesse sentido se tornaram mais ousados com o passar dos dias e com as novas notícias, depois das informações iniciais, de que Bin Laden não usou sua mulher como escudo e não estava armado. Portanto, assassinato.

A objetividade idiota de tais argumentos omite, em primeiro lugar, que foram as mesmas fontes do governo norte-americano que forneceram ambas as versões. Pois a esses analistas interessa dar, porque de fato dão, um tom de “armação” para a primeira versão, e de “revelação” para a segunda. Bin laden, “na verdade”, não estava armado. Logo, assassinato.

Mas isso é mentira. Ou seja, que ele não estava armado. Em primeiro lugar, não há uma só imagem do sujeito desarmado, ao longo das duas últimas décadas. Em segundo lugar, estando escondido e fugindo da maior caçada da história, e estando sempre armado, ele obviamente era o tipo do sujeito que dormia com um revólver sob o travesseiro (o ataque foi pouco depois da meia-noite, no horário local). Em terceiro lugar, não apenas havia uma arma na cena como sei inclusive seu tipo e sua marca: uma pistola Makarov de fabricação russa. E o sei pelas mesmas fontes que os tais analistas idiotamente objetivos usam para “suspeitar” de quem querem suspeitar: o governo norte-americano. Basta ler os informes com certa atenção – e alguma honestidade. Ora, se até a marca da pistola que ele tentou alcançar durante a investida dos marines foi divulgada, como usar parcialmente (e portanto de forma inteiramente desonesta) tais informações para afirmar que se tratou de um assassinato, pois ele “não estava armado”? Não estava, como divulgaram os próprios norte-americanos. Mas apenas porque sua pistola Makarov não estava afinal sob o travesseiro, mas em um móvel qualquer.

Havia dezenas de pessoas no complexo habitacional de Bin Laden, incluindo muitas mulheres (o sujeito era polígamo) e muitas crianças. Todas estão vivas e inteiras. A tal mulher que Bin Laden teria usado como escudo afinal se lançara sobre ele para protegê-lo, e foi por isso acuradamente atingida na perna por um soldado americano, recebendo, portanto, um tiro não-letal. Enfim, está viva como a quase totalidade das pessoas na casa. Uma análise realmente objetiva conclui, então, que não houve nenhuma fuzilaria. Na verdade, apenas quatro pessoas foram mortas, e todas eram homens adultos: Bin Laden, um de seus filhos e dois mensageiros-guarda-costas. Imaginar que esses homens não tenham resistido ou tentado resistir aos marines é na verdade mais do que idiota: é ridículo, risível, estúpido e a soma de tudo isso.

Mas então de onde vem toda essa confusão? Meus instintos de ex-esquerdista e ex-antimericanista treinado e devotado me dizem que grande parte dos analistas da “grande imprensa” também é, assim como seus colegas oficialmente de esquerda, devidamente antiamericanista, anti-imperialista etc., porém se apresenta travestida de humanista, legalista e objetivista. Talvez não se apresente apenas, mas acredite realmente nisso. A autoilusão, porém, não é mais verdadeira do que a mitomania.

Eu deveria, agora, demonstrar por que o objetivismo legalista de tais analistas (com o perdão da rima) é na verdade idiota, não sendo, portanto, de fato nem objetivista nem legalista. Mas me poupo de fazê-lo, e poupo assim o leitor de ler-me, não por preguiça, muito menos por falta de argumentos, mas porque os melhores argumentos sobre isso foram há pouco redigidos e publicados por um profissional, Jon Silverman, professor de Justiça Criminal da Universidade de Bedfordshire. Seu artigo se intitula simplesmente: “Osama Bin Laden deveria ter sido julgado?”, e pode ser lido em http://noticias.uol.com.br/bbc/2011/05/05/analise-osama-bin-laden-deveria-ter-sido-julgado.jhtm. Os verdadeiros motivos por que Bin Laden não poderia ser julgado, na prática, ou seja, na realidade, estão todos ali. Quem não o ler, é porque não está interessado nos fatos, mas nos (próprios) argumentos. Concluo, então, com duas citações. José Mindlin: “Contra argumentos, não há fatos”. T. S. Eliot: “After such knowledge, what forgiviness?”.


Noutro registo, leia-se ainda este texto publicado no Fiel Inimigo.

09 Abril 2011

Ainda antes de voltar, à noite


Não resisto a contar esta, passada meia hora atrás, perto de Lisboa:
Um tipo já com alguma idade, ao volante de um jeep, faz uma ultrapassagem a um carro ligeiro, obrigando-o a desviar-se e ensanduichando-o, em seguida, contra um muro. Não contente com isso, não pára para ver o que aconteceu e foge, perseguido por um automobilista que assistira a tudo. Este consegue apanhá-lo metros à frente e exige que ele volte ao local do acidente. Como o tipo se recusa, agarra-o por um braço e tenta forçá-lo a sair do jeep. Ao fazê-lo, rebenta involuntariamente uma ferida que o culpado tinha no braço, abrindo-a e provocando uma hemorragia.
Algumas pessoas que estavam no local, telefonam de imediato, umas, para a GNR, outras, para o 112. Chegada ao local, a GNR faz os inevitáveis testes de alcoolémia, cujos resultados revelam que... o condutor do automóvel apresenta uma taxa muito ligeiramente superior ao permitido, embora seja evidente a sua sobriedade, enquanto que o culpado não acusa nada!
Por tudo isto, adivinhem lá quem é que, pela lei portuguesa, será responsabilizado pelo acidente e quem é que o verdadeiro responsável prometeu desde logo, aos gritos, processar!

19 Outubro 2009

Do obscurantismo ambientalista


Excerto de um entrevista de Vítor Hugo Cardinali, proprietário do circo com o mesmo nome, ao jornal I, a propósito da proibição de utilizar animais nos espectáculos circenses, bem como a respectiva reprodução em cativeiro. Para ler a totalidade da entrevista, cliquem aqui.

Que crítica faz a esta nova portaria?
Vivemos num país de touradas. Acho que estamos a ser discriminados porque somos o elo mais fraco. Depois, também há muita portaria que sai e não é aplicada. Vai-se a Jardim Zoológico de Lisboa ou ao Zoo Marine e vêem-se lá golfinhos, focas. Qual é a diferença entre eu ter um elefante e o Zoo Marine ter um golfinho ou uma foca? Estão todos em cativeiro... os golfinhos também deviam andar no mar. Os passarinhos também deviam andar soltos e estão em gaiolas. Já perguntei a um biólogo do Instituto de Conservação da Natureza e disseram-me que era a mesma coisa.
É um preconceito?
É um preconceito, mas não acho que seja só contra o circo. As associações de defesa dos direitos dos animais são contra as touradas, contra os animais domésticos. Os animais têm de ser tratados como animais: com dignidade, bem tratados, mas como animais. Deviam preocupar-se com os 25 mil idosos que este país tem em lares, com as 10 mil crianças em instituições sem que ninguém as adopte e com dois milhões de pobres no nosso pais. Os animais que eu tenho vivem melhor do que os dois milhões de pobres deste país. Têm comida a horas, são lavados e desinfectados.
Quanto custa mantê-los?
Por mês gasto 50 mil euros com alimentação. Os frangos vêm sempre de um aviário no Cadaval, que vai levar a carne onde estamos. Desde que proibiram a carne de vaca rejeitada, os animais comem a mesma que nós. Um leão come cinco frangos por dia. O feno vem de Braga - vão ao Algarve, a Trás-os-Montes, a Lisboa. Vou buscar sempre a ração à Malveira, para os animais não terem cólicas. Chego a fazer 500 quilómetros para ir buscar serradura de pinho. Tenho um camião só para o feno, um camião só para a ração, um camião frigorifico.
Mas essa não é a realidade de todos os circos...
Claro, mas não foi por isso que escreveram a nova lei. Nesse caso acabavam com os circos que não tinham condições para ter animais.

07 Junho 2009

Bastonadas (2)

António Pires de Lima

Com papas e bolos se enganam os tolos
Provérbio popular
Nem de propósito, assisti, na semana passada, a um debate de qualidade excepcional conduzido pela jornalista Ana Moura no programa Edição da Noite, da SICNotícias, em que participaram o ex-bastonário dos advogados, dr. Pires de Lima, a professora Ana Prata, da Universidade Nova de Lisboa, e um outro docente universitário da área do Direito, mais ligado aos problemas da justiça criminal, de cujo nome não me recordo de momento.
Com a ironia elegantemente contundente que lhe é própria, António Pires de Lima, referiu o enxame de leis recentemente publicadas, com carácter “experimental e provisório”. O espantoso absurdo de se poder conceber o termo "experimental" como sendo aplicável a uma lei, a que se acrescenta, logicamente e de imediato, as tremendas consequências de se pôr em vigor, no plano da justiça, normas “provisórias”, lembrou o antigo bastonário, são de tal dimensão e profundidade nas suas repercussões, que apenas uma enorme inconsciência e irresponsabilidade lhes pode ter dado origem. Passou depois à leitura de alguns excertos dessas mesmas leis, onde, na melhor tradição dos irmãos Marx, se encontravam desde pérolas de português ao nível das Novas Oportunidades até coisas como “esta lei deve aplicar-se-á aos casos a que directamente respeita bem como aos seus contrários” (mais ou menos isto).
Ana Prata, pelo seu lado, falou do ritmo frenético da publicação de legislação e do carácter caótico e contraditório da mesma, tornando o Código Civil num emaranhado de duas orientações opostas e, por isso, susceptível de o seu conteúdo ser objecto das mais diversas interpretações. Para ilustrar a situação, contou uma anedota em tempo real: tendo ido em meados de Maio, à livraria da Faculdade, pediu, por ironia, ao empregado que lhe desse a versão da semana anterior do Código Civil, ao que o rapaz, atrapalhado, lhe respondeu: “Desculpe, professora, só temos a de Abril”.
Ainda outro aspecto em que todos estiveram de acordo, foi o total desconhecimento demonstrado pelos legisladores no que respeita ao actual estado da sociedade portuguesa e das alterações que nela (e em todo o mundo) tiveram e têm lugar a cada momento. Legisladores esses (muito bem pagos) que acabam por criar leis para uma realidade existente apenas no plano teórico - ou nem isso. Sendo o Estado justificável somente pelos benefícios que possa trazer, desde logo quanto à manutenção da justiça, todo este panorama acarreta consigo, inevitavelmente, a degradação e o desrespeito pelas instituições públicas de governação, por inúteis e mesmo prejudiciais à vida de cada um.
Fico-me por aqui na transcrição do que foi dito pelos três intervenientes, mas recomendo a quem encontrar o vídeo que o veja até ao fim, dada a justeza e a oportunidade das apreciações de todos eles aos problemas da justiça em Portugal.
Ligando, porém, agora este post ao anterior: não é que encontrei no Sapo, poucos dias depois (clicar aqui para ler a totalidade da notícia), um belo naco de oratória do tipo uma-no-cravo-outra-na-ferradura do actual bastonário que, como se diz na última página do PÚBLICO de hoje, “quando sai à rua, é abraçado, elogiado, incentivado e até leva palmadinhas nas costas” (o povão gosta de sangue e está muito farto)? Ao mesmo tempo que reconhece a inadequação da actual legislação aos tempos actuais, afirma Marinho Pinto, no entanto, que «Não é nas leis que estão os problemas da Justiça, é nos magistrados. Com bons magistrados faz-se boa justiça, nem que as leis sejam más».
Onde é que todos ouvimos já ferrar desta maneira…?

25 Setembro 2008

Igualdade na diferença ou diferença na igualdade?


Enquanto prossegue a tourada da lei do divórcio, os homossexuais ensaiam a do casamento.
Pela minha parte, convido desde já à militância no sentido de legalizar o casamento poligâmico (poligínico ou poliândrico) e o casamento colectivo.
Ou bem que há direitos ou bem que não há!
Nisto tudo há uma coisa que nunca percebi: para que serve um casamento.

16 Julho 2008

Os gloriosos herdeiros de Monthy Python


Dias atrás, no noticiário de um canal de televisão, incluiram a seguinte notícia:
Quatro tipos resolveram assaltar uma estância já não me lembro de quê. Três ficaram dentro da carrinha, à espera do outro, que entrou para abrir caminho. O proprietário, homem aí pelos sessenta, que mora ao lado, ouvindo barulho, desconfiou, pegou na caçadeira e, dando com o assaltante de costas, intimou-o a sair. Porém, ao vê-lo virar-se, numa atitude agressiva e empunhando um pé-de-cabra, receando pela segurança da criança (neto?) que o acompanhara, alvejou-o nas pernas. O assaltante, ferido, conseguiu fugir, mas acabou por ser apanhado, juntamente com os amigalhaços, pela GNR, tendo sido assistido no hospital.
Este seria uma história de happy end à americana, com a inevitável piada final dos protagonistas e risos dos mesmos a condizer, não fora os juristas portugueses, vanguardistas eméritos e dos quatro costados, decidirem dar uma amostra da real dimensão da sua criatividade invertendo os dados do episódio, subvertendo-o na sua essência e mostrando assim que outros valores mais altos se alevantam na lei da nossa grei para além de Dada, dos irmãos Marx e dos Monthy Python, alcandorando-nos às alturas de vero primeiríssimo farol da contemporaneidade e até da aventura da Humanidade. Connosco, é assim mesmo, não fazemos por menos, porque tudo vale a pena se o esprito não é minorca.
Oh! golpe de génio inigualável e altíssimo do legislador! Oh! visão incomparável e sublime do problema da culpa e do perdão na perspectiva do burlesco pós-moderno! Com um golpe súbito e decisivo de uma trivela do espírito, eis que a arma do vil agressor é confiscada para compensação devida à desgraçada e inocente vítima assaltante. Confisque-se a caçadeira e obrigue-se quem a usou a apresentar-se duas vezes por semana no quartel do exército de anjos que garantem a segurança do local por excelência do remanso da Europa, assim decreta a Lei, no texto sagrado fixado pelo génio da lâmpada civilizacional! Pois quê!? Como poderá admitir-se que um sinistro cidadão, apoiado por uma maquiavélica criança, possa defender-se impunemente de um pobre meliante?!
Hollywood arrepela os cabelos, ao ver o seu império comprometido pela falta de visão dos produtores cinematográficos depreciadores de tal filão do grotesco! Os juristas portugueses ameaçam seriamente as coroas de Cristiano Ronaldo e de José Mourinho, não na futeboleira arte mas na do non-sense. Em conjunto com as determinações já conhecidas, como as de abater os cães que molestem assaltantes ou agressores, e de os polícias terem que pagar as balas e os danos ocorridos nas viaturas que conduzam, para além de lhes serem descontados os dias em que tenham que comparecer em tribunal para testemunharem, o português é convidado a não resistir sob qualquer pretexto e de chamar as forças policiais para o defenderem, mesmo que só depois de morto!
Gostaria de contribuir somente com uma sugestão para a eterna glória lusa: a de que todo aquele que o não faça após o falecimento, venha a ser sujeito à medida de residência fixa e veja o seu caixão confiscado. Que é para ver se aprendem a trabalhar por um país moderno, justo e solidário!
Tenho dito!