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05 Abril 2011

"Mas por que não se pode queimar o Corão?"


Título deste novo e EXCELENTE texto que Luís Dolhnikoff acabou de me enviar "a quente":

No dia 11 de setembro de 2010, um pastor evangélico norte-americano anunciou que queimaria 200 exemplares do Corão, para lembrar a ligação do islã com a queima do World Trade Center em 2001, e a morte de 3000 inocentes. Houve reações planetárias. Da Casa Branca ao Vaticano, passando pela Interpol e o comandante norte-americano no Afeganistão, todos pediram ao pastor que recuasse, porque isso levaria a reações violentas de fanáticos muçulmanos e daria munição a terroristas islâmicos. De fato, houve inúmeras manifestações no mundo islâmico. Incomparavelmente maiores e mais contundentes, em sua quantidade e em sua indignação, do que aquelas registradas no próprio dia 11 de setembro de 2001. Para o mundo muçulmano, parece, queimar edifícios (ao menos edifícios ocidentais) é menos grave e ofensivo do que queimar livros, ou ao menos, exemplares do Corão.

Eis que agora o mesmo pastor volta à carga (ou às chamas) e, mais modesto, queima não 200, mas um exemplar do Corão. Em reação, fanáticos muçulmanos no Afeganistão invadem uma missão da ONU e matam por linchamento nove funcionários. Além dos assassinatos vis, há inúmeras manifestações de condenação violenta da queima do livro, tanto por autoridades políticas do mundo muçulmano quanto do Ocidente, além de autoridades religiosa islâmicas. As manifestações de repúdio à queima são maiores e mais frequentes, ou ao menos mais audíveis, do que a condenação aos assassinatos.

Qual o problema, porém, de se queimar o Corão?

Não se trata, em todo caso, de algo semelhante aos antecedentes mais célebres, os autos-de-fé medievais, em que a Igreja queimava livros proibidos, ou seus equivalentes nazistas: porque estes eram atos de exercício do poder político, no contexto da censura oficial a esses mesmos livros. Tampouco é semelhante a famosos e infames atos históricos de barbarismo, como o do

comandante árabe que no ano de 642, depois de ter entrado em Alexandria [até então uma cidade cristã], mandou que todos os livros da grande biblioteca fossem queimados. O que está nela e também no Corão, teria dito, não precisa ser conservado; o que está nela e não está no Corão, não serve para nada (D. J. Struik, “Por que estudar a história da matemática”, in Ruy Gama (org.), História da técnica e da tecnologia, São Paulo, Edusp, 1985, p. 191).

Qual é então, afinal, o problema de se queimar o Corão? Tenho um exemplar do Corão na minha biblioteca (Alcorão Sagrado, trad. Samir El Hayek, São Paulo, Marsam, 2001). Se um dia eu decidir me desfazer dele, não posso, portanto, jogá-lo no lixo? Principalmente se decidir queimar nesse dia o meu lixo? Ou seja, o que eu decidir fazer ou não com o exemplar do Corão de minha propriedade, que faz parte, com o resto dos meus livros, da minha biblioteca particular, diz respeito ao islã em geral e aos muçulmanos em particular?

Do ponto de vista islâmico, surpreendentemente, sim, porque o islã não conhece, ou não reconhece, a separação entre vida religiosa e vida civil, portanto, entre a esfera pública e a privada, marcas definidoras da modernidade ocidental. Por isso, preciso tomar cuidado com o que faço com meu próprio exemplar do Corão em minha casa, assim como uma mulher não pode fazer com o seu próprio corpo o que queira (inclusive escolher o modo de se vestir). Por isso, também, o islã se comporta, como regra, como um corpo estranho na sociedade aberta ao estilo ocidental: pois o fundamento dela é a lei civil, que além de laica, tem como objetivo primordial a defesa do indivíduo e de sua liberdade individual, inclusive contra ações do próprio Estado, que dirá das religiões.

Quando eu era mais jovem, vi muita gente enrolar cigarros de maconha em páginas da Bíblia. Porque o famoso papel-bíblia, por sua finura, servia como um substituto palatável ao papel de cigarro, quando este faltava. Mas além do aspecto pragmático, havia também no gesto uma clara dimensão cultural, ou melhor, contracultural: pois ao ato de se consumir uma substância ilícita que alterava a consciência se acrescentava a queima de páginas das Escrituras sagradas. A soma da cena era, em suma, a afirmação de que não há nada mais sagrado do que a própria liberdade individual.

A sacralidade da liberdade individual versus a sacralidade da religião: na história ocidental, a modernidade é, de certa forma, o resultado da vitória sócio-político-cultural da primeira sobre a segunda, a partir do fim da Idade Média, marcada pela predominância do poder da Igreja, limado e eliminado com a ascensão do laicismo republicano e da sociedade aberta. No mundo islâmico, a sacralidade da religião ainda não foi historicamente posta em xeque. Daí ela ser uma questão política e social, e não meramente da esfera privada. Daí a liberdade individual, como a de manifestação antirreligiosa, poder ser vista como afronta à religião, quando, na verdade, é a religião não-reformada, não-modernizada e não-privatizada que afronta a liberdade individual e a modernidade.

A destruição de um livro por um indivíduo (assim como de uma bandeira), como manifestação de opinião pessoal ou ato performático de qualquer tipo, é um direito individual inalienável, indiscutível. “Comprar” os argumentos religiosos, de que se trata de afronta à religião, e que por isso seria condenável, é questionar a liberdade de manifestação. Não por não se tratar de uma afronta à religião: mas porque se pode, sim, afrontar religiões, assim como se pode afrontar qualquer sistema de ideias, ou seja, questioná-las. Religiões não são indivíduos, são crenças, e crenças são objetos perfeitos de questionamento no embate das ideias. Daí decorre que o outro argumento, de que tais atos incitam o ódio religioso e mesmo racial, é falso. Em primeiro lugar, nada aí de “racial”. Muçulmanos não são uma “raça”. Em segundo lugar, o que na verdade incita o ódio religioso é a própria religião, não seus questionamentos. Ou seja, é a impermeabilidade das religiões e dos religiosos ao questionamento, manifestada por reações de ódio a esses mesmos questionamentos, o que alimenta e realimenta o ódio religioso, e esse ódio se volta afinal contra a liberdade expressão, que é a liberdade de questionamento.

O assassinato, por outro lado, principalmente o movido por ódio (no caso, o ódio religioso) é que se constituí aqui o único e verdadeiro crime – um crime vil, infame, indefensável, que deve ser condenado do modo mais claro e inquestionável possível.

04 Março 2011

02 Março 2011

Sem quaisquer considerações


A propósito deste e deste post, passo a transcrever integralmente a notícia seguinte:

Criminosos mataram nesta quarta-feira o ministro paquistanês das Minorias Religiosas, o cristão Shahbaz Bhatti, em Islamabad.

O assassinato deveu-se a uma polémica no país de maioria muçulmana provocada pela tentativa de reformar a lei que prevê pena de morte em casos de blasfémia.

No início de Janeiro, um polícia da tropa de elite matou, em plena rua, um governador que defendia publicamente uma cristã condenada à pena capital por ter insultado o profeta Maomé.

Nesta quarta-feira, homens armados abriram fogo contra o veículo do ministro num bairro de classe média alta da capital paquistanesa, informou à AFP o polícia Abdul Majid.

"Ele chegou morto ao hospital", declarou o médico Azmatullah Qureshi, porta-voz de um dos principais hospitais de Islamabad.

Uma tarde de sábado bem passada


Subitamente, a ONU descobre que, na Líbia, não se respeita os Direitos Humanos.
Convoca, num alvoroço acentuado pelo horror prodigamente espalhado no oficial semblante, uma Assembleia Extraordinária para demitir o país - presidido por essa mistura improvável de Michael Jackson com Augusto Pinochet conhecida por Kadhafi - do Conselho dos Direitos Humanos. Para o qual foi nomeado, como se sabe, na honrosa companhia de outros dignos colossos da especialidade, como Cuba e o Irão. Os quais, como também é sabido, se mantêm por mérito próprio nas funções que lhe foram atribuídas de zelarem pela limpeza do mundo, dada eficácia demonstrada dentro das suas próprias fronteiras. E que, como seria de esperar, se afadigam em inúmeras e veementes condenações ao arqui-inimigo da Humanidade, Israel; além de, evidentemente, haverem já condenado Israel e terem em vista, num futuro próximo, virem a condenar também Israel.
Claro que, como seria de prever, a Venezuela - à qual Hugo Chavez, a quem nem Juan Carlos fez calar, ensinou a falar - não se cala. E que Alice mergulha ainda um pouco mais profundamente no sono.

26 Fevereiro 2011

Resposta a um comentário


mourinho:

O facto de a actual violência contra os cristãos provir, como afirma, sobretudo dos islamistas não invalida, de qualquer forma, que o cristianismo apresente um enorme historial de perseguições contra ele. Repare que o cristianismo é, na sua essência bem como na sua raiz histórica, uma religião contra qualquer forma de totalitarismo estatal - é nisso, aliás, que radica o motivo das perseguições levadas a cabo pelo poder romano contra uma religião que negava a divindade do imperador e afirmava a igualdade entre os seres humanos e entre os sexos perante um único Deus, uma "religião de escravos", como diziam desprezivamente, na medida em que elevava o escravo à condição de pessoa que lhe era negada. Não é por acaso, aliás, que, ao contrário do que sucede a outras religiões, islão incluído, o cristianismo é visto e controlado como uma ameaça por regimes como os da China ou do Vietname.
Repare, além disso, que diferentemente do islão - empenhado, desde o seu início, num projecto político intolerante em relação tudo quanto não seja a verdade do que afirma, tanto pelo texto como pela prática - ou do budismo - que nada visa nem aspira ao nível da realidade terrena -, o cristianismo se afirma com uma visão de direito ao erro e ao perdão, incluindo o desrespeito à lei, patente na história da mulher adúltera, o que coloca o indivíduo acima do colectivo e a lei abaixo da pessoa ("Não é o homem que é feito para a lei, mas a lei que é feita para o homem", di-lo Cristo). Algo que os ditadores e os ideólogos só reconhecem como válido para si próprios. Nesse plano, o cristianismo é o fundamento de uma visão superior da dignidade humana e das actuais sociedades democráticas, uma religião de liberdade. Será por isso que não lhe será difícil encontrar, talvez, alguma outra tão perseguida ou tão utilizada, por deturpação, como escudo pelos diferentes poderes políticos. E é também por isso que adquire todo seu sentido e profundidade a frase de Chesterton: "Os cristãos não são melhores nem piores do que os outros; só são piores porque estão obrigados a serem melhores".
Escrevi isto no intuito de clarificar alguns aspectos ligados ao que diz no seu comentário, já que a montanha de conceitos fast-food em que se encontra atolada uma perspectiva equilibrada dos factos, mais do que meramente prejudicial, é alarmante e tem vindo, desde há muito, a conduzir as sociedades ocidentais a uma miopia mortal. Cristianismo, religião e religiões à parte.
Aproveito já agora para chamar a atenção, embora o tema não tenha directamente a ver com aquele de que aqui falei, para este texto.

25 Fevereiro 2011

"O novo fardo do homem, e cristão"

Cristãos paquistaneses, após um atentado de milícias muçulmanas, em 2009, do qual resultaram 7 mortos


O título é o de um artigo de opinião que o ex-director do PÚBLICO, José Manuel Fernandes, escreveu para esse mesmo jornal no último dia do ano passado e que o Fiel Inimigo transcreve integralmente. Transcrevo-o também eu, de seguida, pelo seu interesse, com tanto maior significado e peso quanto José Manuel Fernandes se assume como não-cristão:

«É um sinal dos tempos a indiferença perante o regresso das perseguições religiosas um pouco por todo o mundo

Bernard-Henri Levy defendeu esta semana, no El País, que "os cristãos formam hoje, à escala planetária, a comunidade perseguida de forma mais violenta e na maior impunidade". Mais: "enquanto o anti-semitismo é considerado um crime e os preconceitos anti-árabes ou anticiganos são estigmatizados, a violenta fobia anticristã que percorre o mundo não parece ter qualquer resposta".

Curiosas palavras vindas de um não-cristão, interessantes considerações proferidas por quem, em tempos, ajudou a fundar o SOS-Racismo. E singularmente coincidentes com as de Bento XVI, que, na sua mensagem a propósito do próximo Dia Mundial da Paz, também notou que "os cristãos são, actualmente, o grupo religioso que padece o maior número de perseguições devido à própria fé".

São raras as notícias sobre estas perseguições, mas isso não significa que elas não existam - apenas que não lhes é dada a importância que merecem. Parece mesmo existir uma espécie de sentimento de culpa que leva a que, ao mesmo tempo que se destacam os ataques aos crentes de outras religiões, se subvalorizam aqueles de que são vítimas os cristãos - católicos, ortodoxos, evangélicos, baptistas e por aí adiante.

Vejamos alguns exemplos recentes. Na Nigéria, o Natal foi marcado por uma série de atentados, de que resultaram 86 mortos, todos reivindicados por uma organização islamista. Em Hanói, as autoridades proibiram uma celebração protestante e a polícia carregou sobre os crentes que rezavam na rua. No Azerbaijão, foi aprovada legislação que aumenta as multas aplicáveis a todos os grupos que tenham actividade religiosa sem antes se terem registado oficialmente. No Paquistão, uma mulher cristã, Asia Bibi, foi condenada à morte por blasfémia. No Irão, foram muitos os cristãos que passaram o Natal na cadeia, alguns deles acusados de apostasia (terem trocado a fé muçulmana por outra). Pouco antes do Natal, um grupo de cristãos coptas foi morto no Egipto perto da sua igreja. Nas Filipinas, uma bomba feriu 11 pessoas durante uma missa no dia de Natal. Na cidade chinesa de Chendgu, a polícia invadiu uma igreja na véspera de Natal e levou presos 17 crentes, incluindo uma mulher grávida. Na Índia, ocorreram ataques contra comunidades cristãs conduzidos por fundamentalistas hindus. E, no Iraque, onde a intensidade do ataque às comunidades cristãs tem levado a um êxodo em massa, várias cerimónias natalícias foram canceladas após terem sido recebidas ameaças de grupos ligados à Al-Qaeda.

Bernard-Henry Levy acrescenta a estes muitos outros exemplos, incluindo a prisão de uma jovem internauta na Palestina de Mahmud Abbas, a tentativa de assassinato do arcebispo de Kartum, Gabriel Zubeir Wako, a perseguição aos cristãos evangélicos da Eritreia, ou a morte a tiro do padre Christian Bakulene na República Democrática do Congo. O terrível destino da comunidade de monges franceses que vivia num mosteiro católico na Argélia e foi assassinada por um grupo de fundamentalistas islâmicos, e que Xavier Beauvois nos conta no belíssimo filme Dos Homens e dos Deuses (ainda em exibição), está longe de ser um exemplo isolado de violência sectária.

Não faltará quem, como alerta o filósofo francês, esteja pronto a fechar os olhos perante estes crimes lembrando o antigo estatuto de religião dominante do Cristianismo. É um disparate imenso, sob todos os pontos de vista. Primeiro, porque todas as vidas humanas têm o mesmo valor, e nada nos permite diminuir a integralidade de qualquer ser humano, seja ele hindu, muçulmano, ateu ou cristão. Depois, porque se é verdade que os cristãos, como tantos outros, promoveram "guerras santas", não se pode ignorar que a emergência dos valores modernos da liberdade, da igualdade e da dignidade humana medrou em sociedades cristãs, nelas tendo ganho corpo e foros de cidadania muito antes de tal ocorrer noutras civilizações. É bom recordar, por exemplo, que na primeira república democrática moderna, os Estados Unidos, a liberdade religiosa antecedeu a liberdade política e, como justamente notou Tocqueville, a forte presença da religião na sociedade não impediu a criação de um Estado forte e separado das igrejas.

Bento XVI, que dedica precisamente a sua mensagem de 1 de Janeiro de 2011 à liberdade religiosa, nota que esta se radica "na própria dignidade da pessoa humana" e está "na origem da liberdade moral", pois se estabelece que "cada homem e cada grupo social estão moralmente obrigados, no exercício dos próprios direitos, a ter em conta os direitos alheios e os seus próprios deveres para com os outros e o bem comum", como proclamou o Concílio Vaticano II. Invocando a Declaração Universal dos Direitos do Homem, o Papa defende que excluir a religião da vida pública torna mais difícil "orientar as sociedades para princípios éticos universais" ou "estabelecer ordenamentos nacionais e internacionais nos quais os direitos e as liberdades fundamentais possam ser plenamente reconhecidos e realizados".

Na mira do chefe da Igreja Católica está um laicismo radical que se traduz na "hostilidade contra a religião" e numa limitação ao "papel público dos crentes na vida civil e política". É neste quadro que Bento XVI não se limita a desejar que terminem as perseguições sectárias aos cristãos na Ásia, em África ou no Médio Oriente, mas também faz votos para que "cessem no Ocidente, especialmente na Europa, a hostilidade e os preconceitos contra os cristãos pelo facto de estes pretenderem orientar a própria vida de modo coerente" com os seus valores.

Em causa não está a laicidade das instituições ou o direito de crítica, que no Ocidente é exercida com veemência sem que suscite apelos à censura por parte das igrejas cristãs (ao contrário do que sucede com os muçulmanos). Em causa está, isso sim, saber se é legítimo despedir uma enfermeira em Inglaterra porque esta insistiu em usar um crucifixo. Ou se, também em Inglaterra, é legítimo levantar um processo contra um psicólogo que distribuiu aos seus colegas de serviço um desdobrável sobre os efeitos negativos do aborto com base no argumento de que isso é "perturbador".

Entretanto, chega-nos de Espanha outro tipo de notícias perturbantes. Em Lérida, um imã radical criou uma milícia privada que anda pelas ruas a perseguir os muçulmanos que têm comportamentos não ortodoxos (na forma de vestir, por exemplo), perante a indiferença das autoridades. Enquanto isso, na província de Cádiz, um jovem muçulmano fez queixa na polícia do seu professor de Geografia por este ter falado, nas aulas, das condições em que fabricava presunto (o Ministério Público espanhol teve, neste caso, o bom senso de arquivar a queixa).

O contraste entre estas situações faz-nos regressar à ideia de que tendemos a olhar para a violência anticristã com critérios mais condescendentes ou mesmo com um espírito compreensivo. É como se entendêssemos que todos os cristãos devem carregar um novo "fardo do homem branco", sendo obrigados a penar, pelos cinco continentes, os pecados da colonização e, por isso, sendo sempre culpados de todos os males, mesmo quando estão inocentes...»

23 Fevereiro 2011

Leia-se...


... este outro excelente texto d'O Lidador, no Fiel Inimigo.

21 Fevereiro 2011

Um "islamofóbico" confessa-se


Alberto Gonçalves, no DN (via Fiel Inimigo). Segue-se o texto integral.

Em plena praça Tahrir, 200 cidadãos festejaram a queda de Mubarak violando ou, para usar o eufemismo em voga, agredindo sexualmente a jornalista americana Lara Logan (do 60 Minutes). Fonte da CBS, a estação de Logan, afirma que esses pacifistas sedentos de liberdade (e de senhoras, aparentemente) gritavam a palavra Jew! (Judia!) durante o acto, pormenor omitido na vasta maioria das notícias sobre o episódio.

Compreende-se a omissão. O optimismo face à evolução da situação egípcia é tal que qualquer nota dissonante arrisca-se a ser mal interpretada. Eu, por exemplo, estive quase a sugerir aos que comparam o levantamento no Cairo com o 25 de Abril ou com o fim do comunismo no Leste europeu que inventariassem o número de repórteres violadas, perdão, sexualmente agredidas por multidões na Lisboa de 1974 ou na Budapeste de 1989. Porém, depois desisti. A mais vaga reticência à pureza intrínseca dos muçulmanos em êxtase suscita logo insinuações de "islamofobia" e "racismo".

Por acaso, não vejo de que modo a opinião negativa sobre uma determinada crença religiosa pode indiciar racismo. Quanto à crença propriamente dita, parece-me confuso acusar-se os cépticos de aversão ao islão enquanto se garante que a revolta no Egipto é completamente secular. Entre parêntesis, convém notar que a presença de um tarado teocrático à frente da novíssima reforma constitucional garante uma secularização sem mácula.

Fora de parêntesis, confesso: chamo-me Alberto e sou um bocadinho "islamofóbico". Nem sei bem porquê. Talvez porque, no meu tempo de vida, nenhuma outra religião inspirou tantas chacinas (já repararam que há pouquíssimos atentados reivindicados por católicos, baptistas, judeus, budistas ou hindus?). Talvez porque nenhuma outra religião relevante pune os apóstatas com a pena de morte. Talvez porque não perceba que os países subjugados à palavra do Profeta consagrem na lei ou no costume o desprezo (e coisas piores) de mulheres, homossexuais, pretos, brancos e fiéis de outras religiões. Talvez porque não se possa dizer que a sharia trata as minorias abaixo de cão dado que, não satisfeitos com o enxovalho dos semelhantes, os muçulmanos também acreditam que os cães são uma emanação do demónio e sujeitam os bichos a crueldades inomináveis. Talvez porque alguns líderes espirituais do islão foram convictos aliados de Hitler na época do primeiro Holocausto e alguns dos seus sucessores ganham a vida a exigir o segundo. Talvez porque a presumível maioria de muçulmanos ditos "moderados" é discreta ou omissa na condenação dos muçulmanos imoderados. Talvez porque, nas raras oportunidades democráticas de que dispõem, os muçulmanos ditos "moderados" teimem em votar nos partidos menos moderados (na Argélia ou em Gaza, por exemplo). Talvez porque inúmeros muçulmanos se ofendam com as liberdades que o Ocidente demorou séculos a conquistar, incluindo o subvalorizado mas fundamental direito ao deboche. Talvez porque uma considerável quantidade de imigrantes muçulmanos no Ocidente rejeite qualquer esboço de integração e, pelo contrário, procure impor as respectivas (e admiráveis) tradições. Talvez porque, no Ocidente, o fervor islâmico colhe a simpatia dos espíritos totalitários à direita (já vi skinheads a desfilar lenços palestinianos e a manifestar-se em prol do Irão) e, hoje, sobretudo à esquerda.

E é isto. São minudências assim que determinam a minha fobia, no fundo uma cisma pouco fundamentada. Um preconceito, quase. Sucede que muitos dos que, do lado de cá de Bizâncio, acham intolerável tal intolerância, são pródigos na exibição impune de fobias ao cristianismo ou ao judaísmo (o popular "anti-sionismo"). E essa disparidade masoquista, receosa e ecuménica de pesos e medidas constitui, no fundo, o reconhecimento do confronto que nos opõe ao islão, mesmo o islão secular e cavalheiro da praça Tahrir, e o maior sintoma de que eles estão a ganhar por desistência. Adivinhem quem está a perder.

16 Fevereiro 2011

E o segundo post do dia...


... é para dizer que não tive tempo para escrever o que planeava, mas que recomendo a leitura disto.
Até amanhã.

13 Fevereiro 2011

A chuva trocou-me as voltas...



... e acabei por não sair. Aproveito para continuar o descanso. Mas o texto de Vasco Pulido Valente, que hoje li no PÚBLICO, pela sua sintonia com o artigo de Luís Dolhnikoff, sacudiu-me a lazeira. Transcrevo-o integralmente de seguida, chamando ainda a atenção para este e este outro textos do Lidador, no Fiel Inimigo, sobre o mesmo tema.

O Egipto

Não percebo porque razão os políticos divagam e os jornais se entusiasmam. Não chegou o delírio democrático depois da queda do muro e do colapso da URSS, para perceber que uma insurreição popular não leva forçosamente a uma democracia? Nem sequer chegou o exemplo português de que um pequeno partido, com influência ideológica e bem organizado, pode facilmente corromper os militares e tomar conta do Estado? Os manifestantes da praça Tahrir, um conjunto heterogéneo de descontentes, conseguiram de facto correr com Mubarak. Mas porque o Exército (nestas coisas, a Força Aérea e a Marinha não contam), que era o árbitro desde o primeiro momento, o abandonou. Foi o Exército que uniu a oposição e que, em última análise, tinha os meios de agir. Por muito que doa ao idealismo adolescente em moda, civis sem armas não derrubam ditaduras.

Barak Obama disse logo que “revolução”(?) do Egipto o inspirara. Também, segundo consta, inspirou a Liga Árabe, o Irão, o Hezbollah e o Hamas. Isto devia dar que pensar a Obama e à ”Europa”. Infelizmente não deu. Até a pobre Suíça, com a sua prudência, congelou as contas de Mubarak. Ninguém no Egipto vai agradecer à ingenuidade do Ocidente e, sobretudo, ninguém espera que eleições livres (a mezinha do costume) refaçam um regime e uma ordem civil tolerável. Em primeiro lugar, não há - e tão cedo não haverá - partidos democráticos. Em segundo lugar, há a Irmandade Muçulmana, cujo nome fala por si (apesar da mansidão que ultimamente exibiu). Em terceiro lugar, há 80 milhões de habitantes, na maioria miseráveis, dispersos por um país sem fim.

No meio disto, e presumindo a mais do que provável (se não inevitável) interferência do Irão, como imaginar que se resolveria fosse o que fosse com eleições? O único resultado seria quase com certeza o alargamento e o reforço da “Irmandade Muçulmana”. O Ocidente continua a persistir que a democracia (“a liberdade”) é uma fórmula política. O pior é que não é - é uma forma de civilização, que mesmo na Europa levou dois séculos de conflito, interno e externo, para se impor e que exige a existência prévia de uma cultura “iluminista” (de qualquer espécie: francesa, inglesa ou alemã…) e de um Estado decididamente secular (sublinhado meu). Se o Egipto, que nunca pertenceu, nem temporariamente, ao mundo democrático se sair deste aperto com uma ditadura militar, menos brutal e corrupta do que a de Mubarak, já é uma sorte. Uma grande sorte.

10 Fevereiro 2011

"Os riscos das revoltas árabes"

(Fotografia retirada daqui)

... é o título de um interessante artigo de Luís Dolhnikoff na revista on-line Sibila, cujo link me foi enviado pelo meu inestimável Nicolau Saião, antecedido das palavras seguintes:

"ENTREGAR OS PONTOS
Dizemo-lo com alguma tristeza: as revoltas da Tunísia e do Egipto, tenha-se a opinião que se tiver sobre elas, tem sido entre nós (com uma ou outra excepção) objecto de textos analíticos geralmente medíocres e "orientados" pela politiquice ou a partidarite de cepa lusa e muito rasteira.
É lamentável, mas isso diz bem da qualidade, muito deficiente, dos analistas lusos, que parece mais desejarem aparecer nos areópagos mediáticos para "brilharem" como o seu provincianismo lhes dita ao invés de buscarem ver claro e dar a ver bem clarinho.
Para contraponto - e para que eles sintam a face corar da vergonha que decerto ainda têm - aqui damos o texto que o ensaísta brasileiro Luis Dolhnikoff publicou na revista SIBILA, um trabalho lúcido e competente que devia fazer meditar a maior parte dos que têm o vezo de se querer analistas-comentaristas entre nós."


Os riscos das revoltas árabes


I. O caso tunisiano

Não há nos países árabes, como regra, forças democráticas atuantes. A exceção (que como tal, confirma a regra) era o Líbano, e são agora a Tunísia e o Egito. Ou talvez não.

O Líbano, em todo caso, é uma democracia, embora manca e ferida de morte, com um grupo terrorista islâmico, o Hizbolah (Partido de Deus), mantendo uma milícia mais poderosa do que o exército e fazendo o Estado de refém.

A Tunísia era, até a semana passada, uma ditadura oligárquica (ou seja, não-militar nem particularmente ideológica). Essa ditadura foi derrubada por uma revolta popular não liderada por grupos islâmicos. Na verdade, não liderada por ninguém.

A centelha [da revolta tunisiana] foi um desentendimento em 17 de dezembro de 2010. Ela envolveu um jovem vendedor de verduras chamado Mohamed Bouazizi e uma policial [...] chamada Faida Hamdy. O que exatamente ocorreu entre os dois – quem esbofeteou ou cuspiu em quem, que insultos foram usados – é algo que já entrou para o reino do mito revolucionário. Pouco depois – este fato pelo menos não é contestado – Bouazizi colocou fogo no próprio corpo em frente ao moderno prédio do governo, onde os manifestantes [passaram a se aglomerar] em torno de retratos do mártir. Naquele dia, 17 de dezembro, doze membros da furiosa família Bouazizi reuniram-se em frente ao prédio do governo. Eles sacudiram o portão e exigiram que o governador saísse para vê-los. “A nossa família é capaz de aceitar tudo, menos a humilhação”, me disse Samia Bouazizi, a irmã do rapaz morto [...]. Ele viveria ainda mais 18 dias. Àquela altura, uma ditadura árabe com um pedigree de 53 anos estava tremendo convulsivamente. Dentro de mais dez dias, ela desmoronou, naquela que talvez tenha sido a primeira revolução da história que não teve um líder (Sid Bouzid, “O Facebook e a dignidade árabe”, Herald Tribune, http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2011/01/25/o-facebook-e-a-dignidade-arabe.jhtm).



Se isso tira da revolução tunisiana a sombra do radicalismo islâmico, também demonstra a inexistência de forças democráticas organizadas. A democracia como a entendemos sequer apareceu na revolta tunisiana como conceito ideológico. A palavra-chave foi “humilhação”:

Humilhação é a palavra importante nessa história. Foi o hogra, ou o desdém, da cleptocracia do ditador que acabaria unindo no ciberespaço [a] população. [...] Quando Zine el-Abidine Ben Ali, o ditador que acaba de ser deposto, falou à nação, a fúria [...] foi a resposta. Assim como o xá do Irã em 1978, ele havia “entendido” – tarde demais. Ele sentiu a dor do povo. O preço do pão seria reduzido. “Ele não entendeu nada”, me disse Hisham Ben Khamsa [...]. “Tudo o que aconteceu dizia respeito a dignidade, e não a pão”.



Como na maioria dos países árabes, a baixa expectativa de vida e a grande natalidade, derivada do patriarcalismo e do islã, que reduzem a mulher à função de “mãe de família”, mantém a pirâmide demográfica na Tunísia com um perfil antigo, ou seja, muito larga na base e muito estreita no ápice. Há jovens demais para uma economia muito pouco dinâmica, gerando desemprego, frustração e “humilhação”. Esta é tanto maior porque a Tunísia é um dos países árabes menos arcaicos. De um lado, o pequeno país mediterrâneo tem no turismo europeu uma de suas principais fontes de renda, o que faz a população ficar constantemente exposta ao modo de vida ocidental. De outro, a ditadura recém-deposta de Ben Ali praticava certo “despotismo esclarecido”. Enquanto os grupos islâmicos eram feroz e eficientemente perseguidos, praticamente anulando o perigo do radicalismo religioso, eram garantidas às mulheres, por força de leis, liberdades maiores do que a média árabe, ao mesmo tempo em que as profissões liberais eram estimuladas, assim como a educação superior. Se isso gerou o exemplo mais próximo de uma sociedade civil árabe (ao lado do Líbano), incluindo a existência de uma classe média significativa, não eliminou nem o desemprego nem o estado policial. A revolta tunisiana resultante, em todo caso, não foi feita em nome da democracia. Nem liderada por forças democratizantes organizadas.

II. Tirania versus democracia?

Suponha-se que a Itália, nos anos 1920, tivesse como governo não uma monarquia constitucional fraca, mas uma ditadura militar do tipo da de Pinochet. Suponha-se, então, que começassem manifestações populares contra essa ditadura. Suponha-se, por fim, que tais protestos fossem liderados por um partido chamado Partido Fascista, e particularmente por seu jovem líder, Benito Mussolini. Os protestos contra essa hipotética ditadura militar italiana deveriam ser apoiados partindo-se do princípio de que seriam “democráticos”, apesar de liderados por fascistas?

Se o que se quer é acabar com a tirania, como pode ser apoiado um movimento que, na prática, leva a outra tirania? Se o que se quer é acabar com a tirania, como pode ser apoiada uma nova tirania? Se o que se quer é acabar com a tirania, como se pode apoiar uma tirania?

Essas questões não são colocadas com tal clareza em relação aos países árabes, mas deveriam sê-lo. Porque a construção de uma democracia não é o objetivo de nenhuma organização política importante ou verdadeiramente influente em qualquer dos países árabes. Incluindo o Egito, que sofre agora o “efeito dominó” da revolta tunisiana, com a população saindo às ruas para pedir o fim da ditadura de Hosni Mubarak.

Costuma-se dizer que a inexistência de forças democráticas árabes minimamente organizadas é culpa das próprias ditaduras árabes, pois as teriam sufocado. Mas por que as forças democráticas não foram totalmente sufocadas em países não-islâmicos que sofreram ditaduras ainda mais longas? Meio século de stalinismo não abateu as forças democráticas na Europa oriental. Stálin e seus sátrapas eram ditadores menos eficientes do que Mubarak? E ainda que fosse o caso, isto apenas confirmaria o fato de não haver forças democráticas na oposição às ditaduras árabes, incluindo a egípcia. Mas se não há forças democráticas, em nome do que apoiar essas oposições?

Na verdade, não há forças democráticas nos países árabes hoje porque não havia ontem. E não havia porque os países árabes historicamente não desenvolveram o que se chama de sociedade civil. Até o início do século XX, durante meio milênio, os que seriam os atuais Estados árabes faziam parte de províncias do Império Otomano. E não havia sociedade civil ou democracia no império turco. Com a sua queda tardia em 1920, surgiram os atuais países árabes, criados por outros dois impérios, o francês e o britânico. Enquanto foram províncias ou protetorados desses impérios, também não houve o desenvolvimento ali de verdadeiras sociedades civis ou de forças democráticas significativas. Após a Segunda Guerra, com a queda dos impérios europeus, esses novos países árabes criados dos despojos do Império Otomano passaram a ser governados ou por reis ou por ditadores militares, como o coronel Nasser no Egito. Não há forças democráticas nos países árabes porque elas jamais existiram.

Ninguém ali clama pela construção de repúblicas laicas e de democracias representativas guiadas pelo voto universal, incluindo necessariamente as mulheres. Não é disso que se trata. Se trata, como nas atuais manifestações no Egito, diretamente inspiradas pelo caso tunisiano, de repudiar a ditadura, mas sem que isso implique na defesa formal de uma democracia. E é aqui que a maioria dos comentaristas ocidentais se perde. Pois partem de certo raciocínio automático, segundo o qual se massas populares saem às ruas para combater uma tirania, elas o fazem por quererem em seu lugar erguer uma democracia. Mas simplesmente não é verdade – e a queda da ditadura do xá no Irã em 1979, para ser substituída pela tirania dos aiatolás, deveria ser exemplo suficiente.

Então, quando se reconhece isso, parte-se para o cinismo puro e duro: de fato, essas massas árabes não querem a democracia como a conhecemos, nem têm lideranças democráticas fortes; de fato, as principais lideranças da oposição aos regimes árabes são islâmicas (como a Irmandade Muçulmana egípcia), ou seja, defendem a tirania teocrática; mas como se trata de lideranças agora secundadas pelo povo nas ruas, uma eventual futura tirania teocrática seria “democrática”. Cria-se, assim, a absurda figura da tirania democrática para negar o óbvio, que tais lutas e protestos, apesar de populares, não são necessariamente democráticos.

Para o pensamento político ocidental moderno, essa é uma dicotomia impossível. O que é popular é sinônimo de democrático. Mesmo porque, popular é relativo a povo, e democracia é o próprio “governo do povo”. No entanto, a história ensina e reensina que não existem tais absolutos. Hitler foi eleito.

Mas não o seria hoje. Pois há na atual constituição alemã uma cláusula que proíbe partidos de ideologia nazista de governar. O mesmo acontece na Turquia, onde uma cláusula pétrea impede a ascensão ao poder, pela via eleitoral, de partidos declaradamente islâmicos, pois se entende que um partido islâmico extinguiria a república, para criar um Estado teocrático. Trata-se, assim, de uma cláusula em defesa da república contra a vontade da maioria, quando esta pretende destruir a primeira. Não há aqui nenhum antidemocratismo, ou qualquer contradição. Porque a democracia não é sinônimo de ditadura da maioria. Porque a minoria tem de ter seus direitos garantidos (os direitos fundamentais são universais). E porque a república não pertence à maioria, mas à totalidade da cidadania (res publica, “a coisa do povo” [publica deriva de publicum, que deriva de poplicus, que deriva de populus, povo]).

Os protestos das massas árabes deveriam, idealmente, também ser apoiados a partir de uma cláusula democrática: pois derrubar uma tirania para abrir caminho à outra tirania, e ainda pior, pois ideológica (a teocracia islâmica), não faz sentido, nem tem nada de verdadeiramente democrático.

Mas como impor tal cláusula de fora? E como ela poderia ser respeitada, ainda que se quisesse, na ausência de forças políticas democráticas minimamente organizadas?

O dilema não tem solução. Além disso, aponta para tempos perigosos. Pois se as atuais ditaduras árabes começarem de fato a cair para serem substituídas por regimes islâmicos, grupos fundamentalistas como a Irmandade Muçulmana egípcia chegarão ao poder. As consequências seriam terríveis. Pois haveria uma corrida armamentista nuclear na região, com Estados poderosos, como o próprio Egito (o maior país árabe), reivindicando o direito, à semelhança do Irã, de desenvolver tecnologia nuclear. Grupos como o Hamas e o Hizbolah, que querem a destruição de Israel, e não qualquer tipo de composição com o Estado judeu, ficariam necessariamente mais fortes, e mais fortes as possibilidades de uma nova e devastadora guerra árabe-israelense. Por fim, atentados terroristas de massa, como o 11 de Setembro, gestado num Estado islâmico, o Afeganistão dos talebans, por um grupo terrorista, a Al Qaeda, protegido pelo regime, se tornariam muito mais prováveis.

Aqueles que “entendem” ou apóiam as revoltas das massas árabes contra suas tiranias em nome de uma pretensa natureza necessariamente “democrática” de tais revoltas, ignorando, minimizando ou relativizando as verdadeiras características políticas locais e, portanto, suas possíveis ou prováveis consequências, são como loucos aplaudindo a beleza das chamas que estão a queimar sua própria casa. Neste caso, a casa é o mundo, que não sairia incólume da possível emergência de uma série de novas ditaduras islâmicas.

III. Os fatos imediatos

As manifestações no Egito não têm, por enquanto, sido impregnadas por demandas islâmicas.

A poderosa confraria dos Irmãos Muçulmanos, considerada a principal força de oposição do país, não participou [até agora], com exceção de seus membros mais jovens (Cécile Hennion, “Um movimento de contestação ganha o Egito”, Le Monde, http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2011/01/27/um-movimento-de-contestacao-ganha-o-egito.jhtm).



Na verdade, o movimento não apresenta demandas ideológicas de qualquer tipo (incluindo a implementação de uma democracia moderna), limitando-se a pedir a queda do ditador Hosni Bubarak. Se as manifestações continuarem, ou seja, se não puderem ser reprimidas pelo governo, o mais provável é que aconteça então uma transição interna, como aliás aconteceu na Tunísia, onde a troca de governo foi parcial. Saiu o ditador, mas seus próprios ex-ministros integram agora o governo de transição, até as eleições marcadas para daqui a seis meses – eleições que, considerando a fraqueza dos grupos islâmicos locais, por mérito da ditadura recém-deposta, não devem levar a uma teocracia tunisiana. No caso egípcio, como o aparato de segurança, incluindo polícia, exército e serviço secreto, é muito poderoso, ele pode e provavelmente deve decidir que o melhor a fazer é “entregar o anel”, ou seja, Mubarak, o ditador de plantão, para “preservar os dedos”, o controle branco do Estado. Neste caso, a ameaça de uma “solução iraniana” para a atual revolta popular egípcia, com a ascensão da poderosa Irmandade Muçulmana ao poder, ficaria também afastada. Mas não há garantia de nada. A não ser que, para o bem ou para o mal, não emergirá no Egito uma democracia como a reconhecemos.

Ameaça nuclear

Veja uma animação que mostra todas as cerca de duas mil bombas nucleares lançadas na terra desde 1945 até 1998 por EUA, Rússia, Inglaterra, França, China, Paquistão e Índia: (clicar aqui para ver a página onde o texto está inserido bem como o vídeo, no final).

08 Fevereiro 2011

Um e-mail seguido de um texto...


... de Nicolau Saião:

Caras/os confrades

É proverbial, é dos buques e da sabedoria das nações que as mais fortes e justificadas intenções se vêem, frequentemente, mal-feridas por fortuitos acontecimentos.

Assim se deu hoje comigo.

Acordei bem disposto, fresquinho como uma alface madura (ou será pêssego...?), com um ralozinho muito agradável no saco das migas que, depois da banhoca, coartei com duas robustas sandes de presunto mescladas com o sagaz "Monte Santos Café Tradicional" (há no Lidl, passe a publicidade) e no fim, para rebater pulcramente, uma meia dose em cálice de El Fundador 92.

Fiquei o que se diz repimpado!


Eu tinha tomado a decisão, forte e bem marcada, de não escrever hoje nada nadinha.

Tinha congeminado dedicar hoje o dia à leitura. Balzac, umas coisinhas do Fred Blanchard, pedacitos das memórias do Henry M. Stanley...

Poesia não, que faz mexer muito com o fígado e não só. Às terças é mau negócio.

Mas, como dizia...não me alembra agora quem...uma coisa é querer e outra é poder!

Vim à negregada da Net. Em estilo de viandante cliquei aqui e acolá, em jeito de epicurista.

E apanhei uma notícia que me entusiasmou, num espaço noticioso dos nuestros hermanos.

Havia lá mais coisas igualmente amáveis, mas esta, que partilho convosco, era das mais sugestivas.

Deixo-vo-la em anexo, com o abrqs e o bjh habituais. Sursum corda!

n.


Said Musa será ahorcado en Kabul por convertirse al cristianismo

7 feb 2011

Por Dazibao - En Afganistán, una trabajador social convertido al cristianismo, será ahorcado por rechazar regresar a la fe de Mahoma. Said Musa, desde hace 8 meses permanece en una prisión de…

(in Minuto Información – España)

Com uma saudação afectuosa de terror aos que justificam os “nossos irmãos islámicos”… para maior glória da Democracia do Cacete que almejam.

Afinal, eles no Al-Andalus tinham esgotos e jardins muito eficazes e bonitos, portanto justifica-se agora estrafegarem-nos e cortarem-nos se puderem a cabeça…a nós “cães cristãos” (nome afectuoso dado no norte de África cá aos manguelas).

E os homens deles são tão corajosos e morenaços! Ai!

(As mulheres vê-se mal a categoria porque andam muito cobertas, mas aqueles olhos…que espreitam por entre os panos da tola…Pena é que sejam tão imorais, de vez em quando lá se tem de lapidar uma ou outra…para dar o exemplo). Ai!

Salam aleikum do

n.

29 Janeiro 2011

Da paz do Corão

Testemunhando directamente o que se passa no Cairo, Manuel José, treinador, desde há alguns anos, do maior clube de futebol do Egipto, dizia há pouco, num dos telejornais da hora do almoço que, entre os diferentes factos que observara do quarto do hotel onde vive com a família, um lhe chamara particularmente a atenção. A certa altura, referiu, polícia e manifestantes acordaram em fazer um período de tréguas nos distúrbios, de modo a que todos pudessem rezar as orações que o Corão estabelece para aquela hora. Passado o qual, iluminadas as almas e reforçados os ânimos, voltou tudo à bofetada, com a bênção de Allah.
O Paraíso que o Médio Oriente não seria, não foram as Cruzadas e os porcos dos judeus, as democracias e essas coisas...! O quanto eles se amariam e nos amariam hoje...!

31 Dezembro 2010

Notícias que não surgem por cá


Mas que, seja qual for a posição de cada um de nós, deverão ser divulgadas e discutidas.

26 Dezembro 2010

Das transformações das pulsões de defesa em prisões ideológicas


Ontem ao final da noite, dando uma volta pelos blogues do meu Miradouro, encontrei, na República das Santas Bicicletas, um post em que se transcrevem alguns dos poemas - belos poemas! - feitos, no Al-Andaluz, por poetas que viveram no que depois veio a ser o território a que se chama Portugal. Post que começa com uma citação de Fernando Pessoa, retirada do texto Da Ibéria e do Iberismo:

“Nós Ibéricos, somos o cruzamento de duas civilizações – a romana e a árabe. Somos, por isso, mais complexos e fecundos… Vinguemos a derrota que os do Norte infligiram aos Árabes nossos maiores. Expiemos o crime que cometemos, ao expulsar da Península os árabes que a civilizaram”.

Após tê-los lido, deparei com este comentário, assinado por Nuno Alves Pereira:

"Um dos truques agora da propaganda islamita é tentar dar os que invadiram a Europa por duas vezes como grandes civilizadores. Os de cá seriam uns bárbaros e os de Mafoma uns tipos sensacionais, civilizados e artistas, etc.
Basta ler-se a Históia dos Árabes na Espanha para se ver que o seu domínio de moderado e bonzinho nada teve.
Pelos vistos, nem este blogue já escapa à insidiosa propaganda.
Água mole em pedra dura…Pois é.
Os que por laxismo vão dando o rabo aos do Islão têm feito um belo trabalho.
Que pena."

Ao qual contrapus o que se segue:

"Caro Nuno Alves Pereira:

Se por acaso tem passado pelo meu blog e lido os textos que escrevi até à data, penso que não lhe restará qualquer dúvida quanto à minha posição relativamente ao que o Islão representa no mundo actual e à ameaça que ele constitui para a humanidade. Porque é um texto susceptível de interpretações perigosas para todos nós, inclusive para os verdadeiros crentes. Ao contrário do cristianismo, que tem vindo a depurar-se, lentamente e aos solavancos em zig-zag, dos ferra-braz que o utilizaram e continuam a procurar utilizá-lo, o islamismo tem reforçado, com ou sem verdadeiras razões, o lado matarruano do mundo. E isto porque o próprio texto, repito, o permite, num grau superior ao que é possível fazê-lo com os Evangelhos, muito mais claros e taxativos na explicitação dos seus princípios, permitindo uma maior e livre contestação das posições das hierarquias superiores. Basta, para o comprovar, realizar um verdadeiro estudo comparado das histórias internas do Cristianismo e do Islamismo.

Deixando de lado estes assuntos, porém, julgo que o Nuno Alves Pereira comete um erro próximo do mesmo tipo que pretende repudiar com o seu comentário. Quando Fernando Pessoa afirma que os Árabes civilizaram a Península não quer com isso dizer mais do que aquilo que quer significar ao afirmar, noutro passo, que o grande inimigo de Portugal é a França. De outra maneira: a França, a cultura francesa, não possui a experiência interior profunda e a riqueza que foram trazidas à Península pela influência cultural e religiosa de povos do Médio Oriente que nela se integraram, passando a fazer parte de uma subtileza de alma que não se encontra nos povos do centro da Europa, de raiz românica e bárbara. Ao tornar-se dominante, por motivos de ordem histórica, essa cultura centro europeia aspira a abafar tudo o que não seja ela própria como forma de dominar efectivamente, o que só se consegue, como é sabido, moldando as mentalidades à medida do que é necessário ao dominador. A concepção de racionalidade que desembocará no Iluminismo do século XVIII tem como base ser a razão o instrumento e a medida do que deve ser considerado válido, verdadeiro: a razão interpretada desse modo auto-avalia-se como o único instrumento de descoberta e determinação do real; o que cai fora desse conceito de razão não pode ser considerado racional, logo, real. Trata-se de um argumento circular, popularmente conhecido como o argumento da "pescadinha de rabo na boca". Este cartesianismo, que extravasa o próprio Descartes, está na origem da autojustificação que a si mesmos deram as elites, regimes e sistemas políticos europeus dominantes desde os meados desse século até aos nossos dias (até ao século XVII, quando se falava em cultura, falava-se em Península Ibérica)

Pessoa compreendia isto muito bem, daí considerar a França como o inimigo por excelência do modo de estar português, resultante de uma vivência dispersa -frequentemente demasiado dispersa- e de carácter ecuménico, se assim podemos dizer, no sentido que Agostinho da Silva dá ao termo. E daí também que considerasse os Árabes como civilizadores dos portugueses, enquanto essa herança nos distingue dos restantes que connosco partilham e são provenientes do tronco comum romano. Com todas as consequências, positivas e negativas, que tal acarretou e acarreta -e aqui chamo de novo a atenção para Agostinho da Silva.

Falar de poesia islâmica ibérica, divulgá-la, não é, pois, fazer a apologia do que se passa no islamismo actual nem no Islão, mas simplesmente olharmos para nós mesmos e vermo-nos integral e dignamente. O resto é atraiçoarmo-nos e perdermo-nos nos meandros em que nos querem encerrar. Seria, isso sim, cedermos à tirania dos que atraiçoam toda e qualquer religião ou sistema de pensamento."

Deixo isto aqui como uma mera introdução, insuficiente e incompleta, a algo que, pouco a pouco, procurarei abordar mais explícita e profundamente no futuro.

25 Novembro 2010

E o Egipto ainda é dos melhorzinhos!


A culpa é, como se sabe dos malandros dos judeus...! Fossem eles tolerantes, como manda o Profeta, e todos poderíamos conviver em paz...!

03 Novembro 2010

Um excelente texto!


Este, de O Lidador, no Fiel Inimigo, que transcrevo integralmente de seguida:

Porque será?

Defino-me como agnóstico o que, para mim, significa que não acredito num Deus moral que ameaça assar-me a brasa se eu, por exemplo, deitar um olhar cobiçoso à mulher do próximo, ou que promete harpas, asinhas, túnicas e virgens, se eu fizer umas quantas orações rituais todos os dias e, por outro lado, não consigo olhar para a complexidade do Universo sem uma sensação de vertigem perante as suas causas.

Acontece que agnósticos, ateus e quejandos, são uma fauna específica das sociedades de matriz cristã como esta, onde vivo. Mas, sendo agnóstico, não sou cego, isto é, vejo com cartesiana evidência que nem todas as crenças e religiões são iguais. Que um tipo como eu pode nascer, viver e morrer com normalidade em certas sociedades e noutras não. Que um crente pode sê-lo nuns lugares e não noutros.

Sou epicurista. Carpe diem é um dos meus lemas. Careço em absoluto da pulsão masoquista e por isso não acho nenhuma piada a gente que olha para mim apenas como um peso a pendurar na ponta de um nó corrediço ou como objecto no qual treinar degolações rituais.

Neste tempo que me calhou viver, o privilégio de poder fazê-lo à minha vontade, é coisa de sociedades que se formaram no cadinho judaico-cristão. Não sei se tem alguma coisa a ver, mas à cautela, é melhor deixar essa explicação em aberto até porque quando se tentou ir mais além naquela coisa da religião como ópio do povo e nas políticas mata-frades, embrulhadas em positivismo, a coisa deu sempre para o torto.

Sei também que a probabilidade de estar vivo no exercício desta minha opção, seria infinitamente menor noutra terras. No dar al Islam sobretudo, não por que calha, mas por imperativo divino e legal firmemente ancorado naquela ideologia. Por dever sagrado, em síntese.

Ora eu recuso terminantemente ser tolerante com isso. Chateia-me que ignorantes enraba-cabras, como muito bem os definiu o Carmo da Rosa no magnífico poste anterior, me queiram converter ou matar, a bem ou a mal.

Ontem no Iraque os enraba-cabras mataram a sangue frio meia centena de católicos iraquianos numa igreja de Bagdad. Mataram o padre logo a começar, à facada, e completaram o trabalho sagrado com granadas e bombas. Com a mesma legitimidade com que o fariam a mim, ou a ateus. E ameaçam agora “matar todos os cristãos”. Porquê?

Porque o Corão manda matar todos aqueles que recusem a luminosa verdade transmitida por Alá ao seu profeta: “Matai os idólatras onde os encontrardes” (IX,5) e os comentaristas “mainstream” do Islão interpretam este comandamento divino tal como ele parece ser.

Estou pois no mesmo saco, na verdade estou num saco ainda mais fundo porque ao menos os cristãos e os judeus, sendo crentes em qualquer coisa, são “povos do livro” e têm um mais benevolente tratamento corânico, Maomé dixit. Como aliás se tem visto.

Assim sendo, não me parece irrazoável marcar as minhas alianças tácitas com aqueles que são extermináveis (agnósticos, ateus, cristãos, judeus, hindus, etc) contra aqueles que nos querem exterminar. Nós versus eles. Um “nós” que tem como importantíssimo ponto comum, não acharem bem ser exterminados. “Nós” que, contrariamente a “eles”, temos em comum aquilo que separa os homens dos bárbaros.

É maniqueísta, eu sei, mas no limite é tudo muito simples, se vem um camião contra nós, as opções resumem-se a fugir para a esquerda ou para a direita.

Há tempos umas simples caricaturas puseram a Europa a arder. Queimaram-se milhares de bandeiras, matou-se gente, líderes políticos apelaram à censura chamando-lhe “bom senso” (o bom senso, importa referir, é a coisa mais bem distribuída do universo, já que ninguém se queixa de ter pouco e não há bicho careta que não esteja convicto de que o seu senso é que é o bom, o verdadeiro, o da Bayer), e a imprensa verteu rios de tinta, pedindo desculpa, apelando à contenção, e condenando os “insensatos” que fazem desenhos, como os verdadeiros culpados das barbaridades cometidas por milhares de enraba-cabras em fúria, que é como eles andam sempre.

Dezenas de cadáveres em nome de Alá não provocam nem uma ínfima percentagem do cagaçal que se fez por esse mundo, à conta de uns desenhos engraçados, crime horrível que terá ofendido horrorosamente a muito sensível religiosidade de alguns enraba-cabras.

Os cristão mortos foram hoje notícia discreta, amanhã já ninguém se recordará deles, não haverá análises, debates, compreensões, apelos do Dr Freitas do Amaral e do Dr. Mário Soares, indignações, reuniões do Conselho de Segurança, da Aliança das Civilizações, do Conselho dos Direitos Humanos, da Dr.ª Ana Gomes, do Dr. Miguel Portas ( somos todos Hezbolah, recordam-se?)

Porque será?