Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

Etta James (1938 - 2012)

Nome grande da soul, cumpriu uma extraordinária carreira repartida por mais de quatro décadas: Etta James faleceu no dia 20 de Janeiro, no Riverside Community Hospital, em Riverside, California — contava 73 anos (completaria 74 no dia 25).
Dance With Me, Henry, At Last e Tell Mama são alguns dos títulos emblemáticos de Etta James, senhora de uma voz invulgar, e invulgarmente dramática, capaz de integrar referências muito variadas, do blues ao jazz, do rock'n'roll ao gospel. Com 28 álbuns de estúdio — o derradeiro dos quais, The Dreamer, saíu em Novembro de 2011 —, foi vencedora de seis Grammys e dezassete Blues Music Awards. Desde 1993, integrava o Rock and Roll Hall of Fame.

>>> O clássico At Last, por Etta James, e na homenagem que lhe prestou Beyoncé (na tomada de posse do Presidente Obama).




>>> Obituário de Etta James no New York Times.

Num encontro com Mathew Dear

De o alinhamento do novo EP Headcage, de Mathew Dear, chega um teledisco que acompanha o tema In The Middle (I Met You There). A realização é de Morgan Beringer. O tema conta com a colaboração vocal de Jonathan Pierce, dos The Drums.

Sound + Vision Magazine
segunda-feira na Fnac Chiado


Na próxima segunda-feira a primeira edição de 2012 do Sound + Vision Magazine apresenta um balanço do que de melhor aconteceu em 2011. E lança ideias para o que nos espera em 2012. O encontro fica marcado para as 18.30 de dia 23, como sempre na Fnac Chiado. Nomes como os de James Blake, Terrence Malick ou os Tune Yards constam da lista de autores que destacaremos.

Novas edições:
Vários artistas,
Rough Trade - Electronic 11


Vários artistas
“Rough Trade Electronic 11” 
Rough Trade 
3 / 5

A história conta-se todos os dias. Até mesmo à medida que vai acontecendo. É certo que o tempo e o distanciamento que estre traz nos permitem depois uma afinação dos pontos de vista. Mas podemos ir relatando o que vai sucedendo a par e passo com o que o mundo nos dá a conhecer. É talvez coisa mais parecida com uma ideia de jornalismo que de um relato segundo as regras de quem redige a história. Mas esta proposta de guardar um retrato do passado recente logo no instante depois dele acontecer tem a função acrescida de divulgação daquilo que eventualmente escapou até aos mais atentos. Falamos em concreto de uma antologia esta semana lançada pela Rough Trade e que nos coloca perante um retrato do que 2011 escutou no departamento das electrónicas. Se, à partida, a sugestão pareceria sempre ter o seu interesse, num ano de tão magra dieta de ideias nos campos das guitarras (raras sendo as propostas que vale a pena reter entre exemplos maiores da banda sonora do ano que agora acabou), o retrato apresentado ganha ainda mais sentido de oportunidade. O retrato faz-se em 22 temas. E desde logo podemos ora comentar os escolhidos como referir os que ficaram de fora. E se é notória a ausência de um James Blake (queira-se ou não, goste-se ou nem por isso, foi uma das figuras centrais do mapa da música – electrónica e não só – ao longo do ano), as não representações de nomes como os de Jai Paul, Jamie Woon, Washed Out, ou Son Lux podem explicar-se das mais variadas razões, uma delas o simples facto de não andarmos todos a ouvir (e a gostar) do mesmo. Ou seja, nada contra. Na verdade, e apesar da presença (incontornável, assinale-se) de John Maus ou Nicolas Jaar, a compilação através da qual a Rough Trade faz o retrato electrónico de 2011 vive mais da sugestão de nomes em afirmação ou figuras experientes algo afastadas do gume das atenções mediáticas. Da house revisitada pelos já reconhecidos Hercules & Love Affair às texturas criadas pelo ilustre Alva Noto aos pólos no gume da invenção que juntam nomes como Ford & Lopatin, Rene Hell ou Flying Lotus, o panorama revela um ano de visões com horizontes largos que lançam bases para que 2012 leve ainda mais adiante as ideias. O disco talvez falhe na vontade de alargar tanto o leque de escolhas ao ponto de desfocar (e diluir) uma eventual sugestão dos caminhos essenciais que 2011 trilhou. O mergulho pelas estéticas industriais na reta final do alinhamento ou o dispersar de atenções em propostas mais experimentais por um lado garante verdade ao retrato, por outro transforma o alinhamento num menu com excesso de sabores... Mesmo assim, uma boa ideia.

Viver a história (quando ela contece)


É no mínimo um privilégio podermos assistir à história quando ela acontece frente aos nossos olhos. E se tantas vezes imaginamos como seria ver Mahler a dirigir as suas obras em inícios do século XX ou estar numa plateia quando Liszt nos começou a habituar à ideia de ver um pianista como centro das atenções num serão de música, em janeiro de 2012 temos a oportunidade de contar, pela nossa frente, e ao vivo, com um dos maiores talentos na composição do nosso tempo. Com apenas 31 anos (e no currículo já uma multidão de obras, discos gravados, prémios e elogios), o britânico Thomas Adès é lisboeta ao longo desta e da próxima semana, num pequeno ciclo que a Gulbenkian nos propõe e que culminará com a apresentação de Polaris: Voyage For Orchestra, uma obra co-encomendada pela fundação que o compositor apresentará à frente da Orquestra Gulbenkian nos dias 27 e 28.

Ontem o primeiro concerto com obras e direção de Adès teve (como os demais deste ciclo) o mérito de juntar a sua música à de outros compositores (e outros tempos), mostrando como a história, mesmo quando a aponta noutros sentidos, vive de uma soma de factos que habitam, inevitavelmente, na memória do que acontece hoje e se projeta adiante. Foi por isso curioso que o concerto começasse com três estudos que Adès criou em 2006 tendo por base uma admiração maior pela música de François Couperin (1668-1733), cuja memória visitara já, nos anos 90, em Les Barricades Mystérieuses. Da música de Couperin (cujas marcas são reconhecíveis) Adès parte em busca de novos caminhos que ora descobre em abordagens mais centradas na textura ou na cor, o balanço entre o antigo e o presente, o visitante e o visitado, diluindo-se entre a orquestra (a Chamber Orchestra of Europe) frente aos nossos olhos.

Mais intenso ainda foi o momento em que Adès, já na segunda parte do concerto, deu voz ao seu absolutamente magnífico Concerto para Violino (de 2005). Herança direta das ideias desenvolvidas na sua segunda ópera (The Tempest, que a Gulbenkian apresenta em versão filmada esta segunda-feira), o concerto faz do violino uma voz que caminha o seu trajeto ao lado de uma orquestra que desenha motivos que ganham forma numa dinâmica circular, umas vezes afastando-se noutras aproximando-se da turba que se desenvolve ao seu redor. Há um jogo de contrastes nos sons, na energia, na fragilidade da voz do solista (que contou em cena com um soberbo Pekka Kuusisto) e um sentido de arrumação que é expressão do rigor técnico e da expressão de uma individualidade na composição de Adès.

Um Nuits d’Eté de Berlioz (com segura presença do tenor Toby Spence) e uma viçosa Sinfonia Nº 6 de Sibelius completaram o programa de uma noite que brilhou sobretudo pela oportunidade de nos colocar frente à música do século XXI.

Uma sinfonia pelo milénio

Mês Philip Glass - 20 


Se as primeiras obras de Philip Glass apontavam essencialmente no sentido da busca (e, depois, afirmação) de uma ideia formal, com o tempo a sua identidade filosófica começou a marcar presença em composições que foram assim aprofundando as características da sua personalidade e o seu mundo de opiniões e preocupações. Cedo ficou clara uma ideia de existência humanista e um interesse transversal pela exploração de misticismos de várias origens e das afirmações de diferença entre culturas que, no fundo, e depois de somadas, mais não são senão os tijolos que constroem a nossa identidade comum.

Ao pensar numa obra maior para o assinalar da viragem, do milénio Glass procurou expressar estra imensa variedade de expressão de ideias e crenças num mesmo espaço comum. Sob a forma de uma sinfonia vocal (mais próxima portanto do gume central da sua obra para os teatros de ópera), elaborou uma visão grandiosa que cruza textos de origens tão distintas como o grego, chinês, japonês, hebraico, sânscrito e diversas línguas indígenas, traduzidos para inglês. A Sinfonia Nº 5, até hoje a sua maior e mais interessante obra para orquestra (além, claro está, do trabalho para o mundo da ópera) junta assim as culturas e crenças do mundo sob uma voz comum expressando um canto de confiança e fé da humanidade sobre si mesma.

A sinfonia teve gravação pela Vienna Radio Symphony Orchestra e vários solistas, sob direção de Dennis Russel Davies. A edição, pela Nonesuch, surgiu na forma de CD duplo acompanhado por um packaging que reforça a ideia de recolha de textos antigos, cada qual impresso em folhas separadas, com cores diferentes, da soma do que os distingue surgindo uma vez mais essa mesma noção de identidade que vive da junção das diferenças e não da sua diluição.

Bruce Springsteen: álbum em Março

Anuncia-se um objecto de intensa carga política e influências de... percussão eletrónica e hip-hop: o 17º álbum de estúdio de Bruce Springsteen chama-se Wrecking Ball e tem lançamento marcado para 6 de Março. De acordo com notícia publicada pela Rolling Stone, a produção é partilhada por Springsteen, o velho aliado Jon Landau e Ron Aniello (que já trabalhou com Patti Scialfa, mulher de Bruce). Este é o primeiro tema divulgado: We Take Care Of Our Own.

Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

No regresso de Santigold

Com produção de Switch e dos Buraka Som Sistema, Santigold está de regresso com Big Mouth. aqui fica o teledisco.

Discos pe(r)didos:
Beloved, Happiness


Beloved
“Happiness” 
EastWest
(1990)

É ao escutar os sinais dos tempos que muitas vezes as bandas encontram o seu caminho. Os Beloved tinham já lançado alguns singles e mesmo um álbum de estreia (lançado em 1989, e então quase invisível ) quando deixaram que o clima que semana após semana conquistava adeptos nas noites dançantes de Londres (e Ibiza, em tempo de férias) sugerisse novos caminhos. Jon Marsh tinha já passado por outras aventuras e, depois de uma cisão de um núcleo original em 1987, manteve ativos os Beloved como um duo (com Steven Waddington). É ao sexto single, Your Love Takes Me Higher, editado em inícios de 1989, que surgem claramente animados por uma ideia pop iluminada por ideias escutadas na house e acid house (adiante revelando ainda sinais de interesse pelas emergentes formas de um novo techno). A aparente fragilidade da voz de Marsh, o melodismo seguro da composição e a solidez insistente da arquitetura rítmica da canção cativou atenções e não deixou dúvidas quanto ao caminho que deviam seguir. Tanto que, meses depois, em Outubro de 1989, apresentavam em The Sun Rising uma ainda mais expressiva assimilação das novas vitaminas libertadas pela club scene na forma de um tema que, no fundo, não deixava de ser uma canção de alma pop. Seguiu-se, já em 1990, Hello, o trio de singles servindo então de cartão de visita para um álbum que confirmou em pleno a solidez da visão abraçada pelos Beloved. O disco mostrava uma filiação atenta às novas revelações lançadas pela música de dança do seu tempo, mantinha firme uma identidade pop (ciente da canção como forma central a trabalhar), abria espaço a soluções se arranjos que sugeriam uma certa elegância (devidamente suportada por uma produção polida e eficaz). Juntamente com álbuns como World Clique, o primeiro dos Deee Lite ou Behaviour, dos Pet Shop Boys, Happiness é um disco quer marca o momento em que a pop escuta e integra na matriz das suas canções os ecos da revolução que a globalização do fenómeno house lançou em finais dos oitentas. Não repetiram nunca o encontro feliz de argumentos e ingredientes que aqui mostraram e, com o tempo, perderam viço e visibilidade. Mas em Happiness os Beloved assinaram um dos primeiros grandes discos da pop dos anos 90.

Thomas Adès em Lisboa


É algo avesso a grandes mediatismos, não é muito dado a entrevistas e, depois de erradamente citado, sendo-lhe atribuídas declarações que nem eram suas, não admira que Thomas Adès não seja uma figura com maior visibilidade no panorama atual da música. Ele é, contudo, um dos mais interessantes compositores do nosso tempo e, sem dúvida, o melhor exemplo de como o trabalho é chave para a definição de um rumo e o talhar de uma identidade entre os músicos da sua geração.

Com apenas 31 anos Thomas Adès é um compositor já com uma considerável obra gravada, sendo mesmo um nome central do catálogo atual da EMI Classics. A Fundação Gulbenkian inicia esta semana um ciclo dedicado à sua música que conta com a sua presença em Lisboa para dirigir uma série de concertos e, inclusivamente, estrear uma obra co-encomendada pela própria Fundação.

O primeiro concerto tem lugar já hoje pelas 21.00 horas. À frente da Chamber Orchestra of Europe, Thomas Adès vai dirigir os seus Three Studies from Couperin e o Concerto para Violino (com Pekka Kuusistu como solista). A noite inclui ainda Nuits d’Eté de Berlioz (contando com a voz de Toby Spence) e a Sinfonia Nº 6 de Sibelius.

A solo, ao piano

Mês Philip Glass - 18


Se numa primeira etapa da sua carreira Philip Glass compôs essencialmente para teclados eléctricos e electrónicos, a partir de certa altura o piano começou a entrar aos poucos no seu espaço. Em Glassworks apresentou um momento para piano solo. E em finais dos anos 80 dava por si a editar um primeiro disco reunindo uma série de peças originalmente compostas para piano (uma delas, Wichita  Sutra Vortex na verdade tendo na origem uma leitura de poemas com Allen Ginsberg).

O disco, que além de Wichita Sutra Vortex inclui Mad Rush (originalmente composta para órgão) e o ciclo Metamorphosis, surgiu numa altura em que, com menos obras (e menos solicitações) para o seu ensemble, o compositor começava a correr o mundo em recitais para piano, nestas peças encontrando algumas das obras que habitualmente apresentava a sós, frente a um piano e com plateia a seu lado, assumindo assim uma herança que remonta aos dias de Liszt. Glass afirmava então que fazer recitais era uma tarefa bem mais simples. Porque, em suma, não precisava nem de mais músicos, nem de equipamento, nem mesmo de um agente na estrada a seu lado. “Levava tudo na minha cabeça”, recorda em palavras que encontramos no booklet de Solo Piano.

Muitas destas obras ainda hoje integram os recitais a solo de Philip Glass e conheceram entretanto gravações por outros pianistas em diversas editoras. Com o tempo Philip Glass aprofundou o seu trabalho solista a piano e compôs novos estudos, que entretanto gravou já pela sua Orange Mountain Music.

'Cerro Negro' em Roterdão


O realizador português João Salaviza, que venceu uma Palma de Ouro em Cannes em 2009 com Arena, tem uma curta-metragem sua, com cerca de 20 minutos de duração, no programa da edição deste ano do festival de Roterdão. Com o título Cerro Negro, e resultado de uma encomenda do Programa Gulbenkian Próximo Futuro, o filme integra a secção Spectrum Shorts e será projetado nos dias 28 e 29. Cerro Negro centra atenções na vida de um casal brasileiro em Lisboa que luta contra uma separação forçada.

Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

O melodrama segundo Téchiné

Francês, herdeiro de Max Ophuls, Jean Renoir e François Truffaut, André Téchiné persiste (e bem) no labor melodramático — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Janeiro), com o título 'A arte perdida do melodrama'.

A degradação “telenovelesca” do espaço audiovisual exprime-se através de um contínuo desrespeito pelo classicismo cinematográfico. Assim, por exemplo, desde o mais banal senso comum até alguns discursos jornalísticos, a palavra melodrama passou a ser associada a um convencionalismo superficial e anedótico. Como todos os preconceitos, também este se alimenta de uma imensa ignorância histórica: como fazer a história do cinema sem considerar a beleza e a inteligência dos seus melodramas? De David W. Griffith a Woody Allen, passando por Max Ophuls, Vincente Minnelli ou François Truffaut, a escrita melodramática constitui um património de fascinante riqueza e complexidade, continuando a questionar-nos e, em particular, a questionar a nossa relação com o presente.
A estreia do mais recente filme de André Téchiné, Imperdoáveis, mesmo não sendo das suas obras mais perfeitas, confirma-nos a filiação do cineasta nesse espaço do melodrama, quer dizer, num sistema de narrativas em que as componentes afectivas se expõem sempre como elementos de uma complexa dinâmica social. Ao mesmo tempo, não há aqui nenhuma cedência a uma certa sociologia de bolso que tudo reduz a determinismos típicos de debate televisivo: as relações sociais apresentam-se indissociáveis das emoções das personagens, abrindo-se aos enigmas do inconsciente.
O filme é tanto mais interessante quanto consegue também contrariar o cinismo “romântico” que reduz as histórias de amor a um privilégio narrativo da juventude (chega a ser assustador o que, nas nossas sociedades, se faz em nome da “juventude”...). As personagens principais de Imperdoáveis são mesmo dois adultos já para além dos 50 anos: ele (André Dussolier), um escritor que decide instalar-se em Veneza, ela (Carole Bouquet), uma agente imobiliária que tenta arranjar-lhe uma casa. O seu envolvimento vai desenvolver-se num duplo sentido: lidando com a surpresa do seu amor, enfrentando as dúvidas sociais ou familiares que a sua ligação suscita. Mais do que uma “descrição” sentimental, Téchiné procura esses momentos em que as personagens deparam com uma diferença visceral: a que se revela entre os seus desejos e a percepção pública da sua relação.
A existência do melodrama está também condicionada pelas opções dominantes do mercado. E não apenas pelos títulos exibidos. Também pela visibilidade promocional que lhes é conferida. No caso de Téchiné, por exemplo, desde Os Tempos que Mudam (2004) que os seus filmes não chegavam às salas portuguesas, mantendo-se inéditos Les Témoins (2007), crónica vibrante dos anos 80 marcada pela descoberta da sida, e La Fille du RER (2009), subtil recriação de um fait divers parisiense. Agora, pelo menos, com Imperdoáveis, podemos reencontrar um dos mais importantes autores do cinema francês das últimas quatro décadas.

Oscar de melhor filme estrangeiro: 9 títulos

No processo que conduzirá às nomeações para os Oscars (24 Janeiro), a Academia de Hollywood acaba de divulgar a short list, de nove títulos, a partir da qual serão encontrados os cinco nomeados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. São eles:

* BÉLGICA, Bullhead, de Michael R. Roskam
* CANADÁ, Monsieur Lazhar, de Philippe Falardeau
* DINAMARCA, Superclásico, de Ole Christian Madsen
* ALEMANHA, Pina, de Wim Wenders
* IRÃO, A Separation, de Asghar Farhadi
* ISRAEL, Footnote, de Joseph Cedar
* MARROCOS, Omar Killed Me, de Roschdy Zem
* POLÓNIA, In Darkness, de Agnieszka Holland
* TAIWAN, Warriors of the Rainbow: Seediq Bale, de Wei Te-sheng

Distinguido em Berlim/2011 com o Urso de Ouro, e mais dois prémios de interpretação (para Leila Hatami e Peyman Moaadi), o filme iraniano Uma Separação parece perfilar-se como o candidato mais forte ao Oscar; recorde-se que, há dias, lhe foi atribuído o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.

Um mundo sem Wikipedia

Durante 24 horas, a Wikipedia impôs a si mesma um bloqueio: a versão original (inglesa) do site está em blackout, protestando contra dois projectos de lei em discussão nos EUA, na Câmara dos Representantes e no Senado. Segundo os responsáveis pela enciclopédia virtual, a nova legislação — genericamente, sobre as questões de copyright na Internet — poderá produzir exactamente o contrário do que pretende defender, ou seja, crescentes limitações à livre expressão dos cidadãos.
Escusado será dizer que este é um problema que nos envolve numa complexa teia de temas, dúvidas e reivindicações (já aqui referida num post do Nuno). Ao mesmo tempo, a sua simples manifestação leva-nos a experimentar, durante 24 horas, o real/irreal de um mundo sem Wikipedia... Dir-se-ia que vislumbramos, assim, a inelutável secundarização do valor enciclopédico tradicionalmente atribuído à impressão em papel. Daí a pergunta estranhamente marginal: por que é que, para além dos muitos méritos da Wikipedia, já nem falamos de um possível retorno ao livro?

St. Vincent (citando Elvis Costello)

Annie Clark, aliás, St. Vincent surgiu no dia 16 de Janeiro, no programa de Conan O'Brien, citando uma lendária passagem de Elvis Costello pelo Saturday Night Live, quando ele começou uma canção, interrompendo pouco depois e lançando-se noutra, dizendo: "I'm sorry, ladies and gentlemen, there's no reason to play that song" (a canção que Costello acabou por cantar, Radio Radio, é a mesma que, agora, St. Vincent interrompeu). A notícia está na Rolling Stone e o video fica aqui — canção finalmente escolhida: Cheerlader (do álbum Strange Mercy).

Pelas ruas (e a cores)

Os portugueses You Can't Win Charlie Brown têm um novo teledisco para um dos temas do seu álbum Chromatic, editado no ano passado. Aqui fica I've Been Lost, co-assinado por Pedro Gaspar, Vasco Gaspar, Nuno Sousa Dias e Francisco Nogueira.



Entretanto, no site da banda decorre uma petição para recolha de fundos com vista ao assegurar da sua presença no SXSW, no Texas. Vejam aqui como contribuir.

O silêncio como protesto


A Wikipedia fechou hoje os seus serviços em protesto contra duas propostas de lei em discussão no Senado e no Congresso dos EUA. Jimmy Wales, o fundador da Wikipedia, explica que estas leis, apesar de visarem o combate à pirataria e a defesa da propriedade intelectual, “estão tão mal escritas” que acabarão por ter consequências em outros serviços online, podendo ferir fatalmente a noção de internet livre e gratuita que hoje conhecemos.

Aqui podem ler mais sobre este protesto que representa, como alguns media já descreveram, uma primeira tentativa de luta organizada da jovem industria da Internet contra o poder estabelecido dos grandes grupos.

Numa nota pessoal posso afirmar que não sou adepto da pirataria. Nunca fui. Não concordo com a ideia de alguém usar, sem pagar, aquilo que é no fundo o resultado do esforço e trabalho de outros. Mas não consigo mais ouvir o discurso já estafado de alguns editores que continuam a achar que a pirataria é a causa única para a sua progressiva queda de vendas. É-o, de facto, e em parte significativa até. Têm parte da razão. Mas a pirataria não explica tudo.

E que tal se apontassem também a mira aos Governos da UE pelo facto de o IVA aplicado aos discos ser excessivo?

E que tal se lutassem também junto dos Governos por uma educação musical ao nível curricular que ajudasse a estabelecer mais cedo uma relação com a música que não lhe desse o ar de coisa descartável com a qual os mais novos hoje convivem dia a dia, juntando e apagando ficheiros áudio nos seus telemóveis e leitores mp3?

E que tal se tivessem uma política de preços mais justa que traduzisse o real valor de um CD?

E que tal se voltassem a ver a música como (também) uma arte que convém dignificar e não apenas um produto para vender até que a moda seguinte dite a tendência da estação seguinte?

E que tal se editassem melhores discos (e os promovessem de facto para eventualmente transformar em casos que chamam atenções) e não apenas assegurassem os lançamentos daqueles que sabem que garantidamente (ou quase garantidamente) fazem números?

Podíamos ficar aqui horas a fio a argumentar.

Que se legisle o direito à propriedade intelectual. Os criadores têm direito a ver o que é seu defendido. Mas que não se tome o braço quando se pede a mão, que pode bem ser o que estas propostas legislativas pedem.

Lana del Rey no SNL: a polémica...


É a “polémica” do momento... Ou, pelo menos, há quem queira que o seja. Mas o certo é que a atuação recente no Saturday Night Live em nada ajudou os argumentos dos que defendem (como é o caso dos dois autores deste blogue) a carreira de Lana del Rey.



A atuação é, no mínimo, coisa constrangedora. A voz é insegura (ou estava naquele momento insegura e, claramente, nervosa). A pose é de alguma tensão... Foi azar? Ou a expressão de uma fragilidade performativa que, defendida em estúdio, ao vivo ainda não está capaz de enfrentar uma plateia (e esta era de milhões de espectadores)?...
Nem todos têm de ser artistas de palco. Os Beatles deixaram de o ser depois de 1966 conscientes de que o que procuravam em estúdio era impossível de recriar ao vivo (mas deram, naturalmente, conta do recado quando subiram ao telhado em 1969 num regresso a um rock’n’roll mais direto).
Não vamos comparar situações, é claro. Mas que Lana del Rey não parece ainda preparada para enfrentar os palcos é verdade. Não embarquemos contudo na ideia, que alguns agora querem clamar, de que a cantora é coisa fabricada e falsa. Onde é verdadeira a voz de um contratenor? É fruto de um esforço que contraria o timbre natural... Mas ninguém diz que o canto de Andreas Scholl é coisa falsa e fabricada... Claro que não.
Se Lana del Rey resolveu (ou aqueles com quem ela trabalha resolveram) encontrar nesta voz, nesta pose, nesta música, o caminho para a cantora, que o façam com cuidado e trabalho. Em estúdio a coisa trabalha-se com rede (e acrescente-se que todas as canções que já escutámos são magníficas). Mas enquanto a voz não adquire a segurança para se expor ao vivo, resguarde-se. Os Heaven 17 nunca deram concertos nos anos 80 e foram uma das mais interessantes bandas da pop electrónica de então. Seriam falsos e fabricados? Nah...



Só para baralhar ainda mais a coisa, esta é uma atuação em Novembro na TV alemã... E correu bem melhor. O nervosismo explica assim parte do desaire no SNL. Mas há fragilidades que exigem trabalho com um professor de canto. E tempo. Porque temos sempre tanta pressa em tudo?

Novas edições:
Millagres, Glowing Mouth


Millagres 
“Glowing Mouth” 
Memphis Industries
2 / 5

Olhando para as listas semanais de lançamentos de discos uma primeira conclusão é imediata: há edições a mais. E da bíblica (não por ser grande, mas antiga) tarefa de separar o trigo do joio, a quantidade de títulos inconsequentes que vão surgindo supera de longe os que valem a pena reter (ou por serem musicalmente estimulantes ou por encontrarem entusiasmo no mercado). À partida o álbum de estreia dos Millagres (sim, com dois “eles”) poderia parecer coisa a ficar de fora desta lista reduzida de discos que o filtro salva e, portanto, candidato a morar entre a dose mais vasta que o tempo diluirá rapidamente entre a multidão dos esquecidos. Mas o grupo de Brooklyn pode guardar-nos surpresas. Não que o seu álbum seja coisa que valha a pena escutar e registar entre as peças que fazem a história da música do nosso tempo. Basta correr entre o que sobre eles se tem escrito para desde logo reparar na quantidade de vezes que são referidos nomes como os Grizzly Bear e Coldplay, pontualmente surgindo ainda comparações com uns Elbow ou British Sea Power. Reparando com mais atenção, verificamos que raramente o que se escreve sobre o álbum de estreia dos Millagres pouco vai além da citação de referencias e comparações. E não é preciso escutar muitas vezes o disco para compreender porquê. De fio a pavio, o que escutamos em Glowing Mouth é uma sucessão de canções cuidadosamente construídas, gravadas e produzidas, talhadas à imagem de modelos, raramente revelando quem, afinal, são os Millagres. Não se trata exatamente de uma coleção de pastiches, mas de tão encostadas aos modelos, as canções acabam por não trazer nada de profundamente novo ou de, pelo menos, verdadeiramente estimulante, o que não é contudo sinónimo de má escrita ou desfocagem de ideias (de resto, o tema-título até é um momento bem agradável). O disco nasceu depois de uma pausa de convalescença do vocalista, as canções refletindo a busca de um olhar amadurecido sobre a vida e o mundo ao seu redor. Revela uma lógica de arrumação que, não exigindo grande esforço ao ouvinte, poderá agradar aos que não são clientes da música mais talhada ao gosto do momento. De resto, entre a familiaridade com os modelos a quem as canções piscam o olho e esta ideia de casa limpinha e arrumadinha, com ocasional hino pronto a servir, mora um sério candidato a correr mundo pelos palcos dos festivais, com fiéis adoradores de gosto alternativo ma non troppo a cantarolar as mais conhecidas. O disco, convenhamos, não é uma desgraça. Nada disso! É profissionalmente competente (nada preguiçoso, antes apenas pouco imaginativo). Revela um trabalho de composição e de produção que parece certo do caminho que quer tomar (e nada contra isso, que o gosto de cada um é livre de seguir onde entenda ir). Mas no fim o que fica da audição de Glowing Mouth é quase nada... Retomando a ideia do início, o álbum seria daqueles que seguiria direitinho para o montão dos candidatos a ser esquecido. Mas se alguns promotores de concertos reconhecerem aqui o potencial para o sucesso em palco festivaleiro, o milagre acontecerá e os Millagres acabarão a dar que falar.

Ginsberg, segundo Philip Glass

Mês Philip Glass - 18


A ideia começou num encontro com Allen Ginsberg numa livraria em Nova Iorque. Glass desafiou-o para um trabalho comum e, com Wichita Vortex Sutra na mão, Ginsberg anuiu. O poema, que refletia sobre um certo clima anti-guerra que era partilhado por muitos na América de meados dos sessentas, ganhou assim nova vida numa leitura no Schubert Theatre, na Broadway. Em tempo de campanha para as presidenciais de 1988, Glass sentia que nenhum dos candidatos falava dos assuntos do mundo presente. Pelo que desafiou Ginsberg a alargar a ideia para um programa maior. Juntos encontraram uma série de visões sobre a América dos anos 50 a 80 através de poemas de Ginsberg (entre os quais um excerto do mítico Uivo) para os quais compôs música nova para um pequeno ensemble.

Hydrogen Jukebox surge assim como uma pequena ópera de câmara. Junta 15 canções, divididas entre seis vozes, às quais se junta a do próprio Allen Ginsberg, que toma o papel de narrador. A música, para teclados, instrumentos de sopro e percussão, traduz ecos de um tempo de abertura da música de Philip Glass a outros estímulos rítmicos e tímbricos (que a música para o filme Powaqqatsi aprofundaria). Philip Glass junta-se ao ensemble, tomando o piano. Os poemas de Ginsberg são arrumados em volta de seis figuras que representam arquétipos da sociedade norte-americana: uma empregada de mesa, uma mulher polícia, um homem de negócios, um padre, um mecânico e uma cheerleader.

Hydrogen Jukebox teve edição em disco pela Nonesuch em 1993, num lançamento em um único CD cujo booklet apresenta uma contextualização assinada pelo próprio Philip Glass e inclui os poemas de Ginsberg que servem de base ao trabalho. Mais recentemente Glass regressaria à poesia de Allen Ginsberg na sua Sinfonia nº 6 que toma como ponto de partida o poema Plutonian Ode.

Gustav Leonhardt (1928 - 2012)

Cité de la Musique (Setembro 2008)
Foi um dos génios do cravo e do órgão, maestro e pedagogo, intérprete essencial de J. S. Bach: o holandês Gustav Leonhardt faleceu, em Amsterdão, no dia 16 de Janeiro — contava 83 anos.
As primeiras gravações de Bach por Leonhardt são do começo da década de 1950. Variações Goldberg e A Arte da Fuga ficaram como padrões de excelência: desde então, o seu rigor e austeridade definiram uma forma radical de interpretação. Tocou e gravou peças da Renascença, dos períodos barroco e clássico. Como professor na Academia de Música de Viena e, depois, no Conservatório de Amsterdão, deu aulas, entre muitos outros, a Ton Koopman, Martin Pearlman e Andreas Staier. Surgiu a interpretar a personagem de Bach no filme Crónica de Ana Magdalena Bach (1968), de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet [video]. No princípio dos anos 70, iniciou com o maestro austríaco Nikolaus Harnoncourt o projecto de registo de todas as cantatas de Bach em instrumentos de época — as gravações estenderam-se até 1990. A sua derradeira performance pública ocorreu no dia 12 de Dezembro de 2011, no Théâtre des Bouffes du Nord, em Paris.

>>> Um fotograma do filme Crónica de Ana Magdalena Bach e, em baixo, um video do YouTube com os minutos iniciais.


>>> Obituário no jornal The Guardian.
>>> Biografias de Gustav Leonhardt nos sites Bach Cantatas e Gulbenkian/Música.

Terça-feira, Janeiro 17, 2012

Muhammad Ali fotografado por Thomas Hoepker

Nos 70 anos de Muhammad Ali (nasceu a 17 de Janeiro de 1942, em Louisville, Kentucky), a agência Magnum edita um livro, Champ, com fotos do lendário campeão de boxe, assinadas pelo alemão Thomas Hoepker. São memórias do período 1960/1970, desde a consagração nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960 (ainda com o nome de Cassius Clay), passando pela conquista do título mundial e, por fim, o regresso após alguns anos de afastamento dos ringues — espantosas imagens, sintomáticas do sentido de reportagem e da vocação icónica dos trabalhos da mais lendária agência do mundo da fotografia.
>>> Sobre Thomas Hoepker.

"Belle de Jour" pela Criterion

Se há filme capaz de nos fazer ver que a noção de real envolve sempre um misto de nomenclatura e acaso, esse filme é Belle de Jour (1967), de Luis Buñuel — nunca como aí a gélida geometria de Catherine Deneuve se revelou na cumplicidade entre irrisão e sublime, transparência e assombramento. Pois bem, Belle de Jour está de volta com uma edição Blu-ray da Criterion Collection que se anuncia histórica. Eis alguns dados:
- nova transcrição digital, alta definição
- video com diálogo entre Susie Bright (escritora e activista de temas da política e da sexualidade) e Linda Williams (professora de cinema da Universidade de Berkeley, autora de Porn Studies)
- nova entrevista com o argumentista Jean-Claude Carrière
- livro com um ensaio de Melissa Anderson e uma entrevista, de 1970, com Buñuel
Este video integra a promoção do filme no site da Criterion.

"O Artista", o simulacro e a cinefilia

Não terá sido preciso possuir dons de adivinhação para compreender que, desde a sua descoberta no Festival de Cannes de 2011, O Artista [estreia portuguesa: 2 Fevereiro] surgia como um daqueles filmes capaz de suscitar algumas clivagens muito nítidas e também muito interessantes (excluindo, claro, a tradicional proliferação de insultos que se adivinha em alguns "debates" na Net). Harvey Weinstein percebeu isso muito bem, adquirindo de imediato o filme de Michael Hazanavicius, para o ir consagrando através de um look muito bem trabalhado pelo marketing da Weinstein Company.
Assim, para alguns, a história da vedeta do cinema mudo e da sua dificuldade de adaptação ao sonoro, emerge como uma homenagem a uma certa ideia mítica de pureza; para outros, entre os quais me incluo, estamos antes perante um desenvolvimento sintomático de toda uma prática generalizada do simulacro ou, para usarmos um termo relançado pela dinâmica da Net, do fake.
A continuada ascensão do filme — com prémios vários, incluindo o Globo de Ouro para melhor filme (comédia/musical) — possui um valor inevitavelmente revelador e, de alguma maneira, incontornável: O Artista condensa toda uma noção da memória cinematográfica em que as convulsões da história se redimem sempre no brilho mais ou menos sedutor do kitsch.
Nesta perspectiva, estamos perante um sintoma da decomposição, porventura irreversível, da noção clássica de cinefilia: a herança das narrativas deu lugar ao jogo superficial das citações. É uma estética do simulacro que está a nascer.

>>> Site oficial de O Artista.

Luís Lopes: jazz luso-alemão

Luís Lopes (guitarra eléctrica) reaparece na companhia de Robert Landfermann (contrabaixo) e Christian Lillinger (bateria). Que é como quem diz: numa aliança Portugal/Alemanha, devidamente celebrada pelo título Lisbon Berlin Trio. Com chancela da Clean Feed, este é mais um exemplo de uma trajectória que integra uma memória, difusa mas visceral, de sonoridades rock, conjugada com um gosto experimental que caminha, pacientemente, para estruturas de insólita sedução — uma expressão modelar de uma pesquisa de contínua inquietude. Faixa emblemática: She Is, deambulação quase romântica. Quase.

O trabalho (segundo os dois ursos)

Eles são Joe Godard (dos Hot Chip) e Ralf Rundell. Juntos apresentam-se como The 2 Bears e prometem um álbum para edição, via DFA Records, agendada para dia 30 deste mês. Aqui fica um aperitivo, ao som de Work. A realização é de Zaiba Jabbar.

Novas edições:
Lanterns on the Lake, Gracious Tide, Take Me Home


Lanterns On The Lake
"Gracious Tide, Take Me Home"
Bella Union
3 / 5

Os caminhos da folk de berço britânico talham meandros entre os tempos e de vez em quando revelam focos que chamam atenções. É o que parece estar a acontecer pelos lados de Newcastle-upon-tyne (cidade lá para o nordeste inglês, perto da Escócia) com um sexteto que se apresenta como Lanterns on The Lake que, depois de alguns EPs editados desde 2008 e de terem andado pela estrada com o bretão Yann Tiersen, se estrearam em álbum em 2011. Com lançamento em Setembro do ano passado (ainda vamos a tempo), Gracious Tide, Take Me Home é um discreto e cativante cartão de visita. As canções sugerem o bucolismo de quem conhece as paisagens onde impera o verde e o betão não mora nas vizinhanças. Guitarras (sob ecos menos densos da memória de uns Mazzy Star e outros heróis indie da electricidade tranquila e gourmet) cruzam-se com a presença de um piano, um violino, um glockepnspiel, discretas electrónicas. As vozes, apesar do protagonismo maior de Hazel Wilde, contam ainda com a participação (contrastada) de Adam Sykes... E em conjunto, e por onze temas, Gracious Tide, Take Me Home, convida-nos a entrar num mundo feito de pequenos (e acessíveis) encantos que se revela em canções atravessadas por um marcante sentido de melancolia e nostalgia. Diz quem conhece Newcastle que ali os ecos da memória de outros dias fazem parte das formas e ruas que são a cidade do presente. Há por ali toda uma herança de bardos e poetas, de paisagens pintadas e histórias contadas, que de certa forma podem morar, tal como o farão as naturais fontes de inspiração da banda e as paisagens locais (o título do disco sugere os movimentos das marés), na alma que gera estas canções. Apesar da filiação em genéticas da folk, a música dos Lanterns on the Lake não procura uma simples revisitação de modelos e formas. Antes, e tal como o fizeram uns This Mortal Coil nos oitentas ou Belle and Sebastian nos noventas, ensaia expressões contemporâneas que, mesmo carregando todas as marcas de um passado, revelam acima de tudo uma vivência do presente. De resto, o fulgor de pontuais tempestades que brotam aqui e ali (como escutamos, por exemplo, em Tricks) devem mais a uma relação dos tempos de hoje com uns Sigur Rós que a uma vontade de revisitar os velhos heróis da folk britânica.

Os melhores filmes de 2011


Lançámos há uma semana o desafio aos leitores do Sound + Vison, pedindo que votassem nos melhores filmes do ano. As votações nãom deixam dúvidas, com A Árvore da Vida de Terrence Malick e Sangue do Meu Sangue, de João Canijo, a destacar-se claramente na votação, abrindo inclusivamente um largo fosso face à votação nos segundos classificados. Aqui ficam as listas finais da votação.

INTERNACIONAL:
1º – A Árvore da Vida – 90 votos
2º – O Cisne Negro – 21
3º – Super 8 - 18
4º - Melancolia - 16
5º - Drive – 14
6º - Um Método Perigoso – 8
7º - O Tio Bonomee que se Recordava das Suas Vidas Anetriores – 7
8º - Essential Killing e A Melhor Despedida de Solteira - 6

Com 5 votos: As Quatro Voltas, Filme Socialismo, Inquietos, Mel, O Discurso do Rei, Submarino, Uma Separação
Com 4 votos: A Pele Onde Eu Vivo, Crazy Horse, Habemus Papam, Indomável, O Deus da Carnificina,
Com 3 votos: A Autobiografia de Nicolae Ceausescu, Hereafter, Nos Idos de Março,
Com 2 votos: A Conspiradora, As Aventuras de Tintin – O Segredo do Licorne, A Toupeira, Carlos, Isto Não é Um Filme, O Miúdo da Bicicleta, Pina, Planeta dos Macacos – A Origem,
Com 1 voto: A Dívida, Amores Imaginários, A Nossa Vida, As Serviçais, O Atalho, Rubber – Pneu, Sem Destino,
Sem votos ficaram os filmes Aurora, Contágio, Copacabana, Despojos de Inverno, Hadewijch, Histórias de Shangai, O Código Base, Potiche, Uivo, Um Dia, Vénus Negra.

Outra escolha: 14 votos
Não vi nenhum destes filmes: 3


NACIONAL:
1º - Sangue do Meu Sangue - 73
2º - Efeitos Secundários – 30
3º - É na Terra não é na Lua – 11
4º - O Estranho Caso de Angélica - 7
5º - 48 – 6
6º - Alvorada Vermelha – 5
7º - Cisne - 4

Com 2 votos: A Cidade dos Mortos, Quinze Pontos na Alma, O Barão,
Com 1 voto: A Espada e a Rosa, Águas Mil, América, A Morte de Carlos Gardel, E o Tempo Passa, Com Que Voz, Complexo Universo Paralelo, Quem Vai à Guerra, Viagem a Portugal
Sem votos ficaram os filmes: Durante o Fim, Palácios de Pena, O Inferno, O Meu Raúl, Trabalho de Actriz Trabalho de Actor, Voodoo

Não vi nenhum destes filmes: 35
Outra escolha – 4

N.G.: Não há dúvidas. A Árvore da Vida é o filme que mais votos soma (nas duas listas). Foi o grande filme de 2011, é um grande filme do nosso tempo e será recordado um dia como um marco deste tempo... Apesar de ter vencido a Palma de Ouro em Cannes, não deixa contudo de ser estranha a sua ausência nas premiações mais mediatizadas. Zero nomeações nos Globos de Ouro... E vamos ver se nos Oscares soma mais que categorias técnicas como Montagem e Direção de Fotografia. Além de ser o Melhor Filme do Ano e Terrence Malick o mais justo ganhador de um qualquer prémio para Melhor Realizador, o filme justificaria por tudo um prémio de interpretação para Jessica Chastain, mas enfim... Verão mais que os êxitozinhos de multiplex os senhores jornalistas que escrevem sobre cinema em Hollywood (que decidem os Globos de Ouro) e os demais profissionais da indústria local (que votam nos Oscares)?... Adiante...
Sangue do Meu Sangue é também claro (e justo) vencedor na tabela local. Curioso é ver ainda os filmes de Gonçalo Tocha e da dupla João Pedro Rodrigues/João Rui Guerra da Mata – respetivamente É na Terra não é na Lua e Alvorada Vermelha) – que só tiveram ainda passagem em festivais, a chamar considerável atenção. Preocupante é, depois, a votação em massa (18% dos votos) na opção “não vi nenhum destes filmes” quando se fala do cinema português...é na L

J.L.: É um facto: entre os espectadores de cinema português, há um lote significativo (mais de um terço nesta votação) que não vê... filmes portugueses. A avaliação do problema (porque de um problema se trata, ao mesmo tempo comercial e cultural) está viciada pelos mais agressivos maniqueísmos, conforme o gosto de quem os manipula: os filmes são "maus", os espectadores são "estúpidos", etc., etc., etc... Talvez valha a pena relembrar o mais evidente. A saber: há mais de três décadas que o audiovisual português deixou triunfar um modelo asfixiante — a telenovela — e só por insuperável inocência ou incorrigível cinismo se pensará que tal dominação (estética e financeira) é indiferente para a simples existência do cinema português. Há muitos anos também, muito para além (ou aquém) do melhor ou do pior que os cineastas vão fazendo, faltam decisões políticas — e de política cultural — que apostem em superar este estado de coisas. That is the question.

Para evocar a guerra civil americana

Mês Philip Glass - 17


Era na origem um projeto de dimensão algo megalómana. Com o título completo The Civil Wars: A Tree Is Best Measured When It Is Dow, a ideia de partida sonhava com uma ópera de larga escala com encenação assinada por Robert Wilson e que envolveria o trabalho de vários compositores, entre os quais David Byrne, Gavin Bryars e Philip Glass. O projeto previa a estreia individual de cinco partes, a reunir depois numa apresentação comum que aconteceria ao longo de um dia, em tempo de assinalar as olimpíadas de 1984. As partes separadas tiveram de facto, estreia individual, mas a visão conjunta nunca se materializou. E hoje, a quase 30 anos de distância, da memória de Civil Wars pouco mais há senão um disco com os Knee Plays criados por David Byrne para a Minneapolis Section e a chamada Rome Session, de Philip Glass.

A Rome Section de Philip Glass é uma pequena ópera. E acabou por ter vida independente. A música reflete claramente um maior domínio da escrita para orquestra e vozes (reflexo dos bons resultados alcançados com as óperas-retrato) e a composição antecipa um modelo de trabalho que mais tarde seria aplicado em La Belle et La Bête e que parte de uma vontade do compositor em seguir (tal e qual quando se compõe para cinema) o curso e o ritmo de uma narrativa que não é definida por si. Com base na guerra civil americana (o tema central a toda a ópera), a Rome Section de Glass junta a figuras como as de Abraham Lincoln e a sua mulher as do italiano Garibaldi (que também no século XIX lutou pela unidade no seu país) e de personagens da mitologia grega.

Civil Wars: Rome Section teve gravação em disco em 1999 pela American Composers Orchestra, dirigida por Dennis Russel Davies. Entre as vozes do elenco que encontramos no disco (lançado pela Nonesuch) conta-se a de Laurie Anderson (figura cuja obra musical tem em Glass uma das referencias e que com ele colaborou também em Songs From Liquid Days).

West Side Story: 3 vezes 3


Ao longo desta semana, e aproveitando a edição em Blu Ray de West Side Story, evocamos memórias desse clássico maior do cinema musical norte-americano. Hoje recordamos capas de discos que, gravação após gravação, têm perpetuado e reinventado a música de Leonard Bernstein e as letras de Stephen Sondheim. As três primeiras capas recordam (a primeira) a gravação do elenco da produção original na Broadway em 1957 e (segunda e terceira) o registo da banda sonora original do filme de 1961.

Este segundo lote recorda algumas investidas do mundo do jazz pela música que Bernstein criou para a peça e filme. Recorde-se que não só há uma pulsão jazzística na medula de muita desta música, como a presença de ritmos latino-americanos em vários instantes é igualmente cara a algum jazz. Num dos discos note-se a ideia de abordagem, via bossa nova, aos temas de Bernstein.

A fechar três abordagens, com orquestra, à música de Leonard Bernstein, em alguns casos com o próprio maestro a dirigir as operações. Por todas as capas nota-se a presença quer da arquitectura urbana que o filme representa (e que assinala o cenário urbano, em bairro popular, da narrativa) e da própria cidade de Nova Iorque.