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18 Outubro 2008

A prova da infinita misericórdia de Deus


Pois, se assim não fosse, como poderia suportar que na Sua Criação houvesse alguém que, num arroubo de supino parolismo pretensioso, baptizasse o que quer que fosse como Clube dos Pensadores ou aceitasse sequer participar em algo de tal espírito?!

01 Outubro 2008

Disso da apagada e vil tristeza

Quadro de Chirico

Diz-me um professor do ensino secundário:
Começo a aula a falar do Fernando Pessoa e pergunto aos alunos se já ouviram falar dele. A maioria diz que sim. Pergunto em seguida se já leram qualquer coisa que ele tivesse escrito. A maioria diz agora que sim, na aula, mas que já não se lembra do que foi. Pergunto depois se gostaram. A maioria dos que guardam alguma vaga recordação diz que não percebeu lá muito bem, outros baixam a cabeça e fazem aaeh...!, os restantes articulam um sim hesitante.
Digo-lhes que Fernando Pessoa foi um dos grandes poetas mundiais do século XX. Manifesta-se algum entusiasmo e exclamações do tipo "Claro, tinha que ser! Era português!", seguidas de arremessos mútuos de papelinhos e de frases jocoso-insultuosas de boa camaradagem. Informo-os a seguir de que morreu quase ignorado, de que tinha toda a sua vida trabalhado num escritório e ouve-se expressões de incredulidade. O pouco entusiasmo esmorece e faz-se comentários às injustiças sociais. "Não ganhou o prémio Nobel?!", "Não." - e o já quase inexistente interesse apaga-se um pouco mais.
Digo-lhe que vamos ler um poema de Fernando Pessoa. As expressões e suspiros de enfado sobem já a um nível superior aos das cinzas do entusiasmo: afinal é mesmo uma aula, não é um espectáculo...! À leitura inexpressiva segue-se a perplexidade, ninguém percebe nada, ninguém sabe o que significa grande parte das palavras, alguns, muito instados, avançam com interpretações quase sempre "ao lado", ouve-se os Oh stôr, pra que é que ele escreveu isto? Pra que é que isto contribui para a minha felicidade? Só nos dão pra ler coisas destas...!
Diz-me ainda o professor: Eu só lhes dei "O menino de sua mãe", para os reiniciar na leitura! Afinal temos aí a guerra...!.
O que ele me diz traz-me à memória o que li num jornal no ano seguinte àquele em que Saramago recebeu o prémio Nobel. No encontro do "nosso laureado" com alunos de uma escola alentejana do interior, pouco tempo após a apresentação e "ter visto o homem" já o pessoal passava o tempo de olhos baixos a enviar sms's e a bufar para se ir embora, que aquilo era uma "seca". Pois se havia mostrado a "medalha", pronto, o que é que havia mais que valesse a pena?!
E, a propósito de medalhas, outras coisas, mais recentes: o alarido acerca das que os atletas olímpicos "deveriam ter trazido, que para isso é que os contribuintes lhes pagaram", sem ninguém querer saber de coisas tão elementares como a relação entre a dimensão da população de um país, o número de atletas que pode apresentar, o consequente aumento da possibilidade de ocorrência de casos de sobredotados para a prática desportiva, os recursos efectivamente envolvidos, etc., etc.. Além da comparação com países com dimensão semelhante à nossa e com grandes investimentos nessa área, como seja uma parte dos países europeus. Esquecendo, no meio disto tudo o espírito olímpico, que nem sequer entrou uma única vez em linha de conta.
Recordo-me também, desta vez a propósito desse espírito, das palavras de anteontem, num telejornal, de um jogador do Sporting, depois de um jogo em que, ao que parece, não terão jogado grande coisa na primeira parte mas que acabaram por ganhar: na Suíça, nós estávamos a ganhar-lhes por 3-0 e a massa associativa deles fazia uma festa a apoiá-los, nós aqui... bem, temos que nos habituar... Isto depois de a equipa ter já um excelente começo de época, ganhando troféus e ainda ter disputado poucos jogos.
A mediocridade é mesmo assim: grande por delegação, exigente com quem a alimenta, cruel para quem não ajuda a disfarçá-la, mesquinha e ingrata sempre. Vaidosa, é por isso ignorante e labrega; preguiçosa, passa o tempo a reinvindicar justiça e trabalho alheio; invejosa, está sempre à espreita do que o vizinho possa ter, para lho cobiçar. Quando se atreve a ser generosa, rapidamente se amedronta e se refugia na "sabedoria" da descrença. Não é uma questão de nível de educação, mas de estado de espírito de um povo, desde as bases aos dirigentes.
Byron definiu-o assim no início do século XIX, quando viveu algum tempo na sua querida e inspiradora Sintra: os portugueses são um povo de escravos.
(Nota: a propósito de José Saramago...)

25 Setembro 2008

Igualdade na diferença ou diferença na igualdade?


Enquanto prossegue a tourada da lei do divórcio, os homossexuais ensaiam a do casamento.
Pela minha parte, convido desde já à militância no sentido de legalizar o casamento poligâmico (poligínico ou poliândrico) e o casamento colectivo.
Ou bem que há direitos ou bem que não há!
Nisto tudo há uma coisa que nunca percebi: para que serve um casamento.

20 Setembro 2008

O estado da Nação

Ilustração de Maria Keil

Ontem ficámos todos a saber, pelos telejornais, que os deputados voltaram a poder usar os seus telemóveis, depois da Assembleia da República ter pago o que devia à Vodafone e de esta haver restabelecido o serviço.
Ah! E também soubemos disto (via Fundação Velocipédica).

18 Setembro 2008

Do merecimento, da justiça e do resto


Há pouco, alguém ao meu lado dizia a outrem o seguinte:
Em Moçambique, país que pretende sair da situação económica e cultural em que se encontra, a quase totalidade dos alunos percorre diariamente a pé muitos quilómetros, para poder frequentar a escola, onde frequentemente os lápis e as canetas são substituídas por pauzinhos com que escrevem na areia ou na terra que lhes serve de papel.
O papel que os alunos portugueses, num dos países menos desenvolvidos da Europa, fazem displicentemente voar pelas salas de aula, muitas vezes com o auxílio dos tubos das esferográficas, bocejando, enfadados por terem que aprender seja o que for e vozeando de maneira a que nada mais se ouça. Os alunos para quem a escola é o impedimento ao tempo que poderiam dedicar aos jogos de computador ou ao chat, através do qual espraiam o vazio de uma conversa sobre coisa nenhuma, enquanto esperam por uma saída ao shopping mais próximo para comprarem o mais recente modelo de telemóvel que a possa perpetuar. Os alunos, que têm que ser ensinados a consentir em aprender seja o que for, como se consente em assistir a um espectáculo (sempre divertido, dizem os pedagogos, que, assim, o peso da responsabilidade não se faz sentir).
Os alunos que, com a criminosa conivência da inconsciência generalizada, pessoal e cívica, dos seus progenitores, que reclamam a educação gratuita como um direito, e da acção "humanista" dos politicamente mandatados, vão proporcionando a visão do afundamento, até à indigência que, inevitavelmente, fatalmente, (n)os espera a todo o nível.
Disse. E depois todos nós nos calámos durante bastante tempo.

17 Setembro 2008

A todos os que ainda têm pachorra...


... de passar por aqui:
Tenciono recomeçar no domingo. Até lá, procurarei deixar aqui, diariamente, um texto que julgue oportuno ou, por qualquer razão, interessante. Assim, fiquem hoje em companhia de Eça e do Portugal que não mudou desde então nem parece querer mudar.

O amável Correio da Manhã, fazendo hoje o retrato social de «Os vencidos da vida», um por um, para lhes contestar este título acabrunhante, continua e engrossa o ruído de publicidade que a imprensa tem erguido ultimamente em torno deste grupo jantante, com considerável desgosto dos homens simples que o compõem. Pode parecer talvez estranho que esta ressoante publicidade assim magoe os derrotados. Não permitem eles que hebdomadariamente as gazetas anunciem a sua reunião em torno da mesa festiva? É verdade. Mas se o fazem é para que a opinião se não possa, de modo algum, equivocar sobre o motivo íntimo que todas as semanas os arranca dos seus buracos, para o jantar num gabinete de restaurante, ao lusco‑fusco, no isolamento sumptuoso de quatro cortinas de repes.
Homens que assim se reúnem poderiam logo, neste nosso bem amado país, ser suspeitados de constituir um sindicato, uma filarmónica ou um partido. Tais suposições seriam desagradáveis a quem se honra de costumes comedidos; o respeito próprio obriga-os a especificar bem claramente, em locais, que se em certo dia se congregam é para destapar a terrina da sopa e trocar algumas considerações amargas sobre o Colares. De resto, o sussurro atónito que de cada vez levantam estas refeições periódicas não é obra sua – mas da sociedade que, com tanto interesse, os espreita. Eles comem – a sociedade, estupefacta, murmura. O que é, portanto, estranho não é o grupo de «Os Vencidos» - o que é estranho é uma sociedade de tal modo constituída que, no seu seio, assume as proporções de um escândalo histórico o delírio de onze sujeitos que uma vez por semana se alimentam.
O que de resto parece irritar o nosso caro Correio da Manhã é que se chamem «Vencidos» àqueles que, para todos efeitos públicos, parecem ser realmente vencedores. Mas que o querido órgão, nosso colega, reflicta que, para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal mínimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência for a com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina e uma tesoura para a tosquiar, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos 20 anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se, apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho – ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação. Dito isto, só podemos juntar que «Os Vencidos» oferecem o mais alto exemplo moral e social de que se pode orgulhar neste país. Onze sujeitos que há mais de um ano formam um grupo, sem nunca terem partido a cara uns aos outros; sem se dividirem em pequenos grupos de direita e esquerda; sem terem durante todo esse tempo nomeado entre si um presidente e um secretário perpétuo; sem se haverem dotado com uma denominação oficial de «reais vencidos da vida» ou «vencidos da vida real» ou «nacional»; sem arranjar estatutos aprovados no Governo Civil, sem emitirem acções; sem possuírem hino nem bandeiras bordadas por um grupo de senhoras «tão anónimas quanto dedicadas»; sem iluminarem no primeiro de Dezembro; sem serem elogiados no Diário de Notícias – estes homens constituem uma tal maravilha social que certamente para o futuro, na ordem das coisas morais, se falará dos «onze do Bragança», como na ordem das coisas heróicas se fala dos «doze de Inglaterra».
Dissemos.
Entretanto, aconselho a leitura dos posts publicados no passado dia 13 em A Voz Portalegrense (via Fiel Inimigo/Último Reduto). A partir de hoje, o link ficou disponível aí ao lado.

10 Setembro 2008

Triste ou vergonhoso?


Reparem bem no modo sofístico como esta "informação" é dada, nas contradições que encerra a forma de exposição e de tratamento de dados, o que é sugerido nas entrelinhas.
Só me lembrei da minha cunhada, que aqui há uns tempos, no auge da campanha dos candidatos, pensava, de boa fé, que se estava a escolher entre Obama e Hillary Clinton para a presidência dos Estados Unidos e que desconhecia por completo a existência de McCain, porque nunca tinha ouvido falar dele na "comunicação social". E que achava Obama "muito querido" e gostava da mulher dele porque o chamava para a verdadeira realidade, que é a dos filhos para criar e dos problemas que uma mãe enfrenta.
E olhem que ela até nem é das piores...! Conheço muitos portugueses que estavam convencidos, pelo alarido, que Obama já tinha sido eleito como próximo presidente. E que nem sabiam que existe um Partido Republicano, só aquele gajo, o Bush.
O provincianismo dos nossos jornalistas e da "esmagadora maioria" dos nossos intelectuais corresponde ao nível cultural do povo por eles "in-formado" e é, de facto, acabrunhante.
Triste e vergonhoso.

23 Agosto 2008

Na continuação...


... do post que referi, Jacinto Bettencourt escreve ainda este outro, para o qual chamo de novo a atenção.

22 Agosto 2008

Um bom trabalho...


... sobre as eleições nos Estados Unidos é este que RB vem fazendo no Fiel Inimigo, contrastando com o provincianismo da generalidade dos órgãos de "comunicação" portugueses.

21 Agosto 2008

Bravo!!!


Eu tencionava (e tenciono, logo que a "crise" me passe) escrever algo sobre o assunto. Mas recomendo que leiam desde já este post de Jacinto Bettencourt, no 31 da Armada.

18 Agosto 2008

Provincianismo...


... esforçado (há quem diga o contrário) - via 31 da Armada.

06 Agosto 2008

07 Fevereiro 2008

Minutos atrás...


... no telejornal das 20, ouviu-se o padre Amadeu Pinto, director do Colégio S. João de Brito, de onde saiu tanta boa (e má) gente das elites culturais e políticas deste país, fazer uma crítica duríssima ao Ministério da Educação durante uma cerimónia em que Cavaco Silva participou.
Amadeu Pinto referiu-se às consequências catastróficas para o país das medidas determinadas por esta equipa ministerial, em termos daquilo que, afinal, é comum ouvir a qualquer docente. Na peça jornalística que se seguiu, porém, o secretário de Estado, Jorge Pedreira, falava de rigorosamente nada, fingindo esclarecer tudo o que diz respeito à avaliação dos professores, num exemplar exercício de escamoteação aparolada.
A incompetência é mesmo uma coisa muito triste...! E quando se junta à demagogia manipulatória...

22 Janeiro 2008

Discreta vigilância na fronteira


Na raia alentejana:
- Compadre, tá vendo aléim aqueli?
- Qual? O que tá cagando atrás da azinhêra?
- Sim... Consegue ver-lhe daí a cor das nalgas?
- Nã é fácil, compadre, mas...
- Sã brancas ou escuras?
- Daqui parecem escuras...
- Oh, diabo! Mas pode ser que tenha andado ca pêda ao léu na praia... E a merda, consegue vê-la?
- É assim amarela...
- Mau! Deve ser do caril e do açafrão...
- Dêxe estar o compadre, que ê vô lá e pergunto-lhe onde é que se almoça bem...
- Boa, compadre! Talvez no restaurante a gente consiga informações... Mas temos que ser discretos...!
- Pois, compadre, sempre munto discretos...!

18 Janeiro 2008

Pó! Pó!, Iô! Iô! / Sócrates já ganhô!


José Sócrates acabou de ganhar hoje as eleições legislativas de 2009 ao anunciar, em conjunto com Zapatero, a próxima constituição de uma unidade industrial destinada à produção de automóveis "amigos do ambiente". Nada poderia lisonjear tanto o portuga e curar-lhe o orgulho ferido como o também ele poder vir a fabricar automóveis! O português, detentor dos segredos da mais alta tecnologia dos transportes cinco séculos atrás, a que lhe permitia pôr-se a andar da miséria para fora (julgava ele!), tem atravessada na alma a superioridade que os gringos conseguiram sobre ele nesse campo. A esperança da grandeza renova-se-lhe desta maneira, com a possibilidade de passear pelos caminhos do seu país, da sua propriedade histórica salazarenta, modernizados pelo espírito visionário do actual presidente, enquanto profetiza, nos longes, a Vivenda O nosso Sonho, ou indo agora finalmente à conquista da Europa, de nariz empinado pela dignidade readquirida e, se for caso disso, que ele não é para se ficar!, amandando uma subtil escarreta de desprezo pela janela do veículo na direcção do do louro ex-patrão.
Atão não o queriam lá ver?!

21 Outubro 2007

Não há... quem aguente tanta comunicação!

Título maaaaaiiior dos três que compõem a página 7 da edição do PÚBLICO de hoje:

Forma de lidar com pilinhas dos bebés não reúne consenso entre a classe médica

Eu não tenho tempo para comentar devidamente.
Abobrinha, cumpre o teu dever!

14 Outubro 2007

06 Outubro 2007

Corroborando o que o Alf...

... diz no comentário ao post anterior, hoje Medina Carreira afirmava, em entrevista à SIC Notícias, que o problema do ensino em Portugal era que muito poucos entendem o que é a escola. Os pais não estão empenhados em que os filhos aprendam seja o que for, de facto estão é interessados em que eles tenham um papel - um canudo, um certificado - que lhes dê acesso a um emprego, de preferência um tacho (não o disse por estas palavras, mas o sentido era esse). E os alunos, por tabela, têm a mesma atitude.
É a visão da escola enquanto viveiro de funcionários, públicos ou privados, em busca da pastagenzinha de cada dia.
O problema, Alf, é que os tipos que mandam não tiveram pré-primária nem imaginam o que ela pode significar. E a escola, dela para a frente, também não. E agora?!
Mas não pense que os franceses que cita estão neste momento muito melhor do que nós...! Se não estiverem pior...! Mas isso é conversa para outro dia.

20 Setembro 2007

O divino, os carnavais e coisas que tais 1


Uma troca de ideias em que me tenho vindo a envolver desde há algum tempo no Que Treta!, com o seu “proprietário”, Ludwig Krippahl, e os restantes “frequentadores”, leva-me a iniciar a abordagem dos temas em foco nessa discussão (amigável), através da publicação sucessiva de pequenos textos que, no seu conjunto, procurarão esclarecer, com a sistematização possível, alguns aspectos que, inevitavelmente, não cabem, se dispersam ou ficam por referir num comentário. Dito de outro modo, procurarei fazer aquilo que me parece ser um indispensável “acerto do dicionário” em que se têm cruzado as diferentes perspectivas e pontos de vista, de modo a evitar os equívocos e o consequente “diálogo de surdos” que, a meu ver, se gerou, prejudicando a compreensão do que está em causa. E isto, sem recorrer sempre e necessariamente a elaborações teóricas complexas, mas também, como hoje, a pequenos casos e histórias, omitindo, como é natural, os nomes de quem nelas esteve envolvido.

Anos atrás, um amigo emprestou-me um livro de poemas de um seu avô já falecido, com quem tivera uma relação muito funda e terna. Pediu-me para ter um enorme cuidado com ele, uma vez que não só fora ele próprio que lho oferecera como era também o único exemplar que restava.
O avô fora um dos grandes cientistas portugueses do século XX (omito aqui também aqui em que área desenvolveu a sua actividade) e Einstein enviara-lhe uma carta extremamente elogiosa, convidando-o a trabalhar com ele nos Estados Unidos. Tal nunca veio a acontecer, por motivo de obrigações diversas, mas a família guardou sempre, com orgulho compreensível, a carta de Einstein.
Os poemas que encontrei no livro eram de uma beleza extraordinária. Toda uma concepção do cosmos era ali dada, numa visão de grandeza e maravilha, a que se juntava uma emoção profundíssima assente na experiência vivencial de um intimismo que provinha da busca de si mesmo e da raiz, lugar e significado da vida no universo. Lendo-os, veio-me à memória uma frase não me lembro de quem (Isadora Duncan?) que dizia que nenhum compositor americano conseguira, como a poesia de Whitman, traduzir o espírito e a intensidade emocional da América miticamente pioneira.
Os poemas do avô do meu amigo tinham exactamente essa música dentro de si, impregnando-nos de uma dimensão cósmica e libertadora, de um longe que se encontrava mesmo ali, dentro de nós. Quem quisesse, podia encontrar neles a síntese do que, segundo o neto, constava e era a inspiração dos trabalhos teóricos que fez ao longo da sua vida. Neles estava, em estado puro, a intuição que, posteriormente, procurara testar e explicitar de uma forma matemática e discursiva. E a visão do universo presente nessa intuição exigia, de uma maneira apenas poeticamente exprimível, admitir a existência do divino.
Voltei a entregar o livro e, estranhando nunca ter ouvido falar daquele nome, perguntei ao meu amigo que explicação dava para que ele fosse tão pouco conhecido. Respondeu-me que o avô nunca se preocupara com isso e que a sua avó, mal ele morrera, decidira destruir todos os exemplares, por considerar que ser crente e, além disso, poeta, era, num cientista, indício de qualquer problema do foro psicológico, uma das lamentáveis “maluquices” indiciadoras de uma excentricidade socialmente embaraçosa e comprometedora. Apenas aquele escapara, porque nunca soubera da sua existência.
A avó do meu amigo ignorava que, tempos antes, Openheimmer afirmara publicamente, provocando incredulidade, espanto, engulhos ou escândalo de muitos bem-pensantes, que os melhores livros de física que lera haviam sido os Vedas, os quais, com os Upanishades, formam o conjunto dos livros sagrados do hinduísmo. E duvido que isso sequer lhe interessasse.
A mim, porém, que nunca liguei a morte do meu pai à consumação da minha autonomia, antes sempre lamentei as incompreensões mútuas que impediram a nossa maior aproximação e amizade, não me fez impressão a presença de um deus pessoal nesses poemas; aceitei-o, enquanto parte essencial de uma visão profunda do Todo, embora o meu conceito de qualquer divino não inclua a relação paternal. E passados demasiados anos, a herança poética e a visão do mundo do avô do meu amigo, de quem desconheço o presente paradeiro, continua desconhecida e os meus compatriotas, por isso mesmo, mais pobres.
Nota: o link está disponível aí ao lado, a partir de hoje.