Mostrar mensagens com a etiqueta Fajão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fajão. Mostrar todas as mensagens

31/07/2011

especialmente para os amantes de gadgets

durante muitos anos tive uma espécie de paixão pelos cintos que os carpinteiros americanos usavam nos filmes e nas séries.
aquilo parecia que a sua colocação na cintura dava logo uma espécie de super-poderes.
há uns anos, pelo natal, e quando repetia que o meu sonho era um daqueles cintos maravilha, foi presenteado com o exemplar abaixo mostrado:





(claro que à primeira utilização, e quando ao ajoelhar-me o martelo raspava pelo chão, deixei-me de coisas e voltei a usar todos os bolsos disponíveis para alicates, chaves de parafusos e martelos, deixando a boca para preços e parafusos)

esta semana, olhando para a inutilidade sob a influência do ar de fajão, encontrei a sua nova utilização, que pode vir a ter imenso futuro:
suporte de gadgets

hoje, qualquer adolescente a jovem adulto anda carregado de tablets vários (i-pads e semelhantes), i-phones e outros 'smart phones), i-pods e outros leitores de mp3/4, pens várias, discos externos, bandas largas e menos largas, etc..
este cinto maravilha, que é mafifestamente pouco útil para as bricolages caseiras, tem o seu futuro garantido com suporte de gadgets para os amantes dos ditos.
o conselho é gratuito, que em fajão somos todos muito generosos...

o mundo visto de fajão

em fajão, uma ruína não é apenas uma ruína

para um urbano como eu, geralmente, uma ruina é apenas isso: uma ruína.
mesmo que para mim ‘esta’ ruína seja a casa do ‘marechal’ e que antes tenha sido a casa do ‘tabaínha’ ou ‘antónio grande’, como era conhecido o seu pai.
não são para aqui chamadas as histórias do tabaínha, homem enorme, bom cantador de fado serrano e um moiro de trabalho ou do seu filho, o ‘general’, coisa um pouco menos saudável, principalmente para o próprio que morreu cedo e doente.
a casa ardeu, por razões que não são para aqui chamadas, pelo menos por agora.




passo nesta ruína muitas vezes ao dia, porque fica no caminho para a minha casa.
para mim é uma ruína, cheia de lixo e com umas ervas já a crescer lá dentro.

para um fajaense (no caso, uma fajanese) o assunto é muito mais rico.
estávamos no passadiço a fazer misturas experimentais em aguardentes e licores e veio à conversa as ervas que os de fajão usavam para os seus tratamentos e uma fajanese presente, preciosa em muitas coisas e também no conhecimento das ervas, diz que a ‘erva tal’ até havia ali ao lado na casa do marechal.
fala-se de outra, e também havia ali na ruína.
proponho uma visita guiada à ruina e, tirada a foto vem a explicação:

nesta foto pode ver-se, entre chão e paredes, o seguinte (para além do lixo e madeiras ardidas):
sabugueiro, avenca, erva de s. roberto, freixo, hera, erva terrestre, concelhos, alfavaca da cobra, abrunheiro.
quanto às suas utilidades:
sabugueiro (flores): constipações, gripe, tosse, dor de barriga, estômago, infecções externas.
para todas (excepto para as infecções externas, em que se coze a rama e se lava a zona infectada com a infusão) faz-se e bebe-se o chá resultante da infusão das folhas.
avenca: tosse, constipações, gripes, rouquidão: fazer chá com as folhas e beber.
erva de s. roberto (a mais generalistas das ervas, porque faz bem´’a tudo’): dores de estômago, intestinos, fígado, má disposição, barriga, bexiga, diabetes, inflamações internas.
para todas, beber o chá da infusão das partes aéreas da planta.
freixo: a casca e as sementes são adstringentes e febrífugas. as sementes contêm um óleo semelhante ao do girassol. o freixo é laxativo e sudorífico, utilizado para problemas de gota e para emagrecer. as folhas são usadas para baixar o ácido úrico no sangue, fazendo uma infusão numa proposrção de 30gr para 1 lt de água.
hera: desinfectar a boca, frieiras, queimaduras.
para as frieiras e queimaduras, fervem-se as folhas e banha-se a zona afectada com a infusão e colocam-se as folhas cozidas em cataplasma.
para desinfectar a boca, bochecha-se com a infusão.
erva terrestre: febre, gripes, garganta, tosse, coração.
faz-se infusão com a folha, rama com folhas e flores e bebe-se.
concelhos (ou concilhos): feridas, queimaduras, frieiras, furúnculos.
a utilização é muito varias, mas a mais comum é com aplicação directa sobre a zona afectada (directamente, esfregada, esmagada e aplicada, aquecida e untada com azeite. etc..)
alfavaca da cobra:rins, bexiga, diabetes, fígado, infecções internas, infecções ou irritações genitais, inchaços, hemorroidas, infecções externas, feridas.
para as questões internas, bebe-se o chá; para as externas, o valor resultante da cozedura sobre a zona afectada.
abrunheiro: comem-se os abrunhos que são muito bons (outras aplicações as minhas fontes não mencionam)

não respondo pela eficácia destes tratamentos e não pretendo convencer ninguém que são eficazes, mesmo que por vezes utilize alguns dos que vou aprendendo.

mas a verdade é que, em fajão, uma ruína não é apenas uma ruína: pode ser um local cheio de vida

fontes:
‘plantas medicinais da serra do açor’, editado pelo instituto de conservação da natureza e da autoria de joana salomé camejo rodrigues, com base nos testemunhos locais
‘plantas aromáticas e medicinais do parque natural da serra da estrela’, também do icn, da autoria de ana sofia baptista oliveira e rafael ferrão neiva
‘plantas aromáticas e medicinais da reserva natural da serra da malcata’, edição do icn e de autores vários com coordenação de paula gonçalves e fernanda mesquita

28/07/2011

o mundo visto de fajão




há muitos anos, na minha primeira viagem adulta a fajão, antes de vir para os 12 dias de férias a que se tinha direito nos primeiros anos de trabalho numa empresa (creio que era uma semana nos primeiros dois anos e duas semanas até aos 5 ou 6 anos de trabalho), decidi passar pelo ‘república’ para fazer uma ‘assinatura’ do jornal, já que as notícias aqui eram inexistentes.
e vim carregado de livros que ao tempo achava indispensáveis (um deles, a arteriosclerose ainda me deixa lembrar, era sobre as divergências entre a china e a união soviética, visto pelo lado chinês, obviamente).
chegar a fajão tinha sido um longo calvário de comboio de queluz para lisboa, caminho a pé até santa apolónia, comboio até coimbra, automotora até à lousã, camioneta até ao rolão e os últimos 15 quilómetros na estrada de ‘borralho’ no táxi do zé maria, a figura mais merecidamente carismática de toda a beira interior.
fajão era no fim do mundo.
e demorávamos um dia a lá chegar.
percebi porque quem lá estava queria fugir e quem de lá tinha fugido tinha pouca vontade de regressar (excepto no dia da festa senhora da guia, que não é a padroeira, mas funciona como tal. uma espécie de padroeira ‘honoris causa’, se é que existe honoris na causa das padroeiras.
alguém me dizia quando lhe perguntava porque não gostava de ir a fajão: ‘porque a tua memória de fajão é de férias e a minha é de fome e frio’.
o mundo visto de fajão era como se mudássemos de fuso horário, mas em vez de mudar uma hora, mudássemos muitos anos.


há uns dias, pelo lusco-fusco, estavam num banco corrido na minha frente 4 dos jovens que ajudam a que fajão esteja vivo o ano inteiro com 3 ‘tablets’ (um era partilhado) e o pai de um deles a navegar na net pelo telefone.
agora o jornal é lido como eu leio os meus todos os dias quando estou aqui, online. na hora.
por vezes sabem mais rapidamente coisas dos meus filhos do que eu, que raramente vou ao facebook.
um pouco mais tarde, no fresco do passadiço, oiço a melodia irritante que anuncia um dos melhores ‘curtos’ de animação que passam na televisão (na fox fx): ‘the happy tree friends’ e soa um despertador na minha cabeça!!!
'quem está a ver aqui esta maravilha??' e logo oiço a voz do presidente da junta:
-'carlos!, anda aqui ver estes bonecos!', enquanto ria generosamente.

já tinha estado nos meus planos escrever sobre esta delicia que passa quase clandestinamente no fox fx.
foi preciso fajão me despertar para o fazer..


vejam aqui os videos (são curtos e grossos, como se costuma dizer, e não aconselháveis a mentes sensíveis:

27/07/2011

400 passos

‘too much information’
é o que parece que temos nas nossas cabeças.



hoje, ao sentar-me no bar da piscina de fajão, dei conta (olhando para o telefone que conta passos antes de fazer com ele esta foto) que de minha casa à entrada da piscina são 400 passos (475 até ao bar).
não 100, como a distância entre a casa de peppino impastato e a de gaetano badalamenti no filme de marco tullio giordana
entre a casa do jovem que se recusava a viver sob a tirania da mafia e a de um dos seus padrinhos mais poderosos.
lembrei-me das perguntas de peppino ao seu irmão: ‘sabes contar? sabes caminhar?’
e revi o filme. e lembrei-me da canção dos modena city ramblers.
se a nossa cabeça não andasse tão cheia de informação (até a inutilidade de ter um telefone que conta, no nosso bolso, os passos que damos), estaria no bar da piscina de fajão, numa quente manhã de julho simplesmente a saborear o café, ainda molhado do banho recentemente tomado, olhando a água que me refrescou a as montanhas que o testemunharam.
a felicidade são pequenos momentos, que demasiada informação pode complicar.

14/05/2011

o centro do mundo



conta uma das muitas lendas da terra que um dia, ao chegar ao cimo da rocha (a serra em frente à aldeia), um dos de fajão exclamou:

- o mundo é tão grande !!!

hoje, se por acaso soubesse ler, diria ao olhar para este marco:

- o mundo é tão alto !!!

mas a verdade é que fajão, para os seus, continua no centro do mundo

07/04/2011

fajão county choppers




as oficinas de transformação de carros, motos e outros veículos motorizados nas suas diversas formas e feitios estão muito na moda nos canais por cabo.
que eu saiba, começou nos famosos orange county choppers, no estado de new york.
de uma pequena oficina acessória ao seu principal negócio de aço na primeira série, transformou-se numa enormíssima ‘fábrica’ e agora dividida em dois para o peixe render melhor.

os ‘choppers’ de fajão são mais ecológicos.
utilizam materiais reciclados de velhos frigoríficos, fogões, tubos abandonados e, claro, rolamentos que já tiveram melhores dias e outras utilizações.
os choppers de fajão funcionam na antiga ‘tele-escola’. na mesma onde em putos andaram a aprender, andam agora a fazer.
a última novidade é uma carro que, acionada a ‘mudança’, vira com os 4 rolamentos ao mesmo tempo.
estará pronto para a descida programada para o mês de maio.
até lá, muita solda, muito martelo e muito parafuso vai correr com os fajão county choppers...

17/01/2011

surrealismo no vale pardieiro


este sábado regressei ao vale pardieiro.

já aqui escrevi algumas vezes sobre o vale pardieiro e, nomeadamente, sobre a minha admiração pelos antepassados dos seus actuais naturais.
a tenacidade que demonstraram ao rasgar o monte sobre o qual assentam as suas casas para fazer passar a corrente do rio ceira sem inundar as margens da curva apertadíssima que debrua a aldeia é sinónimo de um povo que sabe que consegue os seus objectivos se se unir.
estranhamente pouca gente que normalmente vai a fajão conhece o túnel do vale pardieiro e, talvez por isso, eu passe a vida a recomendar que o visitem.
no sábado à tarde regressei mais uma vez ao vale pardieiro para mostrar o tunel.
ao descer pelo lado oposto ao que normalmente desço, perguntei a uma pessoa que ali estava, qual o acesso, porque nunca tinha descido por aquele lado.
o bafo que veio com as perguntas sobre quem eu era, de onde vinha e ao que vinha deixaram-me um pouco atordoado, tal a quantidade de vapores etílicos que jorravam a cada frase.
mas lá se disponibilizou a descer connosco enquanto voltava a perguntar sobre e mim e, mesmo respondendo-lhe eu a tudo, insistia que eu não lhe dizia quem era.
se esse fosse um diálogo em lisboa eu teria mandado o senhor meter-se na sua vida. mas estando numa aldeia e sendo natural a curiosidade e os receios sobre estranhos, fui respondendo a todas as parguntas.
e lá fui dizendo de quem era filho, onde tinha casa, como me chamava, quantas vezes costumava ir a fajão, o que fazia.
tudo, literalmente tudo.
mas toda a informação parecia que não chegava ao cérebro do questionador, talvez obnubilado pelos vapores etílicos.
pelo meio ia-se queixando da junta de freguesia que nada fazia, que teve que 'abrir' a estrada para a sua casa (coisa que verificar ser mentira, porque foi 'aberta' pela câmara municipal), mais o caminho que descia para o vale que estava nos seus terrenos (coisa que também fui informado tratar-se de caminhos públicos).
tudo dito e explicado, com mais e mais perguntas sobre mim e, não obstante as respostas, a obnubilação cerebral não lhe permitir processar a informação, chega-se a hora e dizer adeus, ao que vem um estranho e inusitado convite para lanchar em sua casa, que recuso agradecido por ter à minha espera uma festa de aniversário em fajão, com porco assado no espeto,
mas prometi, logo que chegasse a fajão, fazer eco junto do presidente da junta, de todas as queixas e lamentos.
quando estava meia aldeia no passadiço a jantar o porco e o arroz de feijão, chegam dois militares da gnr com ar de quem tem um serviço sério para tratar e todos brincámos sobre a falta de licença para jantar na via pública...
eis senão quando o presidente da junta, pessoa pela qual pergutaram os militares da gnr, me chama e me pergunta se eu tinha ido naquela tarde ao vale pardieiro.
claro que tinha ido.
mas qual era o motivo que tinha feito dois militares da gnr andarem 50 quilómetros à procura de quem tinha ido naquela tarde ao vale pardieiro?
apenas que o tal senhor com quem tinha falado durante a tarde e me tinha confessado ser agente principal da psp, tinha telefonado para a gnr da pampilhosa da serra e dizer-e com medo de um casal que tinha andado a passear pelo vale pardieiro e deu todas as indicações que eu lhe tinha dado, mais o facto de achar que eu teria '40 e poucos anos' e que, só por si é demonstrativo do mal que o vinho pode fazer ao cérebro...
os militares da gnr, após falarem comigo, desculparam-se e pediram-me desculpa pelo incómodo e quando questionados sobre se queria juntar-se a todos e comer alguma coisa, responderam educadamente que tinham mais coisas que fazer.
eu pedi desculpa pelo incómodo e lamentei que um agente principal da psp, que tem todo o direito a beber todo o vinho que quiser nos períodos em que não está a trabalhar, tenha obrigado dois elementos da gnr da pampilhosa da serra a conduzirem 50 quilómetros por causa de alguém que, obviamente, naquele dia nao estava com todas as suas capacidades cerebrais a funcionar.
eu acharia normal que um qualquer casal com 90 anos a viver isoladamente numa aldeia se assuste por ver um estranho na sua terra... mas um polícia vai telefonar para a gnr ????? se tinha dúvidas e medos porque não mo disse directamente?
tal como alguém lhe perguntou à noite quando ele foi a fajão e se justificava que me tinha perguntado 30 vezes quem eu era e eu me tinha recusado a identificar (primeiro porque ninguém me pediu, segundo porque não o costumo fazer a pessoas em chinelos e a tresandar a vinho): se eu não tinha dito quem era, como é que ele sabia onde era a minha casa ou quantas vezes ia a fajão e mais todas as informações pessoais que passou para a gnr?
o que me preocupa nisto, é que gente desta anda armada legalmente...
e o que eu gostava, era que após o dito agente principal ter saído à noite de fajão, ninguém tivesse telefonado para a gnr para o fazer soprar no balão...
o que me chateia mesmo muito, é que não sei se tenho coragem de aconselhar mais alguma pessoa a visitar o vale pardieiro...

29/12/2010

o mundo visto de fajão, ou o que dava conto das abelhas e não das colmeias





um dia o pascoal foi ao vale da cal contar as suas 23 colmeias.

contava, recontava e voltava a contar e não lhes dava conto.
como não dava conto das colmeias decidiu contar as abelhas.
tantas abelhas contou e recontou que lhe faltava uma.
saiu à cata dela pela serra e encontrou-a nas pedras d’hera com 7 lobos de volta dela a comer-lhe os bocados.
agarrou no cajado e atirou-o aos lobos que fugiram e deixaram os restos da abelha mais morta que viva no meio do mato.
o pascoal apanhou os restos da abelha e espremeu-os tão bem que deitaram 7 canadas de mel.
como não tinha onde colocar o mel, tirou 2 piolhos das costas e, com a pele dos piolhos, fez dois odres para guardar o mel.
o pascoal tentou colocar os odres de mel às costas mas, cansado da busca pela abelha, não lhes pode com o peso.
olhou em volta para ver o que lhe podia acudir, apanhou uma carriça e colocou-lhe os odres com as 7 canadas de mel em cima para os transportar para fajão.
quando sentiu a carga em cima, a carriça vou para cima dum carvalho.
o pascoal, ao mel a voar no lombo da carriça, atirou-lhe com uma machada que desapareceu no mato.
sem mel nem machada, o pascoal deitou fogo ao mato.

a carriça voou com o mel.
ardeu o mato, o carvalho e a machada e o pascoal ficou com o cabo.

18/08/2010

meu querido mês de agosto, parte 2: a piscina de fajão

a piscina de fajão em agosto é uma espécie de inferno, sem ser no sentido metafórico da teologia religiosa.
é um inferno mesmo.
dos imaginados pelo dante alighieri.

por uma razão estranha que a minha capacidade de discernimento não consegue descortinar, alguns dos utentes de agosto da piscina de fajão comportam-se como uma espécie de porcos em pocilga, ou têm aquele atitude parva dos meninos cujos pais babados acham que são hiperactivos, mas que são apenas muito mal educados.
e como estão de férias, tudo lhes é permitido e exigível.
e têm alguns defeitos de fabrico:
o principal defeito de fabrico é a falta do botão do controlo do volume de som: falam aos berros para pessoas que estão a dois metros deles e contam a sua (deles) vida, como se aquela coisa interessasse a mais alguém para além deles mesmos, ou para gritarem que vão fazer mais uma 'bomba', ou para berrarem 'olha para mim', como se o mundo existisse apenas num raio de 1mt em volta do seu umbigo.
como gostam de dar nas vistas, fazem campeonatos de 'bombas', que é uma espécie de campeonato de saltos para a água para deficientes mentais.
não lhes passa pela cabeça que a água que salta para as lajes em volta da piscina as torna demasiado perigosas para quem anda por elas (especialmente as crianças que correm mais do que andam), e até para eles próprios, que saltam mais do que pensam.
tomam banho (com shampoo, claro) nos chuveiros da piscina para que todos vejam que são limpinhos (outra hipótese é pouparem água e gás em casa), mesmo que a espuma que cai para as lajes seja demasiado perigosa (a questão da estética do banho em público é coisa que não lhe cabe naquelas cabecinhas pequeninas..), e mesmo existindo balneários com chuveiro a uns 30 metros de distância onde podem fazer exactamente o mesmo, com a porta fechada.

a piscina de fajão tem o grande defeito de ser gratuita, estar limpa, ter balneários limpos, duche de entrada com água quente e de ter as suas regras de utilização escritas em português, que é uma língua não falada pelos invasores de agosto.
falta o tradutor em forma de cacete para os analfabetos funcionais.

felizmente que existem todos os outros meses entre maio e setembro para a piscina de fajão ser... uma piscina excepcionalmente bonita.

os aduf de volta à terra dos adufes




no último sábado os aduf deram um concerto em monsanto.
uma espécie de regresso ao local da influência.
depois de terem trabalhado na expo 98 com algumas adufeiras de monsanto, os aduf regressaram agora para um concerto na terra dos ditos.

um concerto preparado ao pormenor, seguramente para posterior edição em video, e com um alinhamento diferente do que seria o normal num outro concerto dos aduf.
aqui, o aproveitamento das gravações feitas com a população de monsanto, mais a participação das adufeiras de monsanto, deram ao concerto uma unidade formal que o tornou numa espécie de marco para a fase seguinte do projecto: mais coeso e com mais esperança que realmente continue.
a música de influência da tradição popular, está em portugal numa fase excelente, quer de qualidade quer de diversidade.
os aduf são uma prova disso.

aduf, monsanto 14 agosto 2010

pena é que para chegar de fajão a monsanto (uns 100km, pouco mais) tenha que demorar mais de 2 horas (sim. para cada lado).
a grande vantagem é que num sabado de agosto há sempre uma festa à nossa espera para alimentar o estômago, mesmo que sejam 2 e meia da manhã. e lavacolhos acolheu-me com umas deliciosas bifanas acabadas de grelhar...

meu querido mês de agosto, parte 1: os incêndios de fajão




o ano em fajão divide-se em duas grandes épocas:
agosto e o resto do ano.
o 'resto' do ano é tão bom que lhe 'desculpo' o agosto.

o agosto em fajão são os incêndios ou os medos deles;
a 'tradição' diz-nos que os grandes fogos em fajão são um assunto de década.
com uma pontualidade quase absoluta, as chamas chegam junto à aldeia a cada década, no ano 5º.
o último teve o seu pico mais intenso a 15 de agosto de 2005.
pelo meio são incêndios mais pequenos, como uma espécie de pré-aviso de catástrofe.
depois de 2005, principalmente com os sapadores, tem havido uma imensa preocupação com a abertura de corta-fogos, limpeza de bermas e de matos junto às aldeias da freguesia.
provavelmente evitará males maiores que seguramente virão.
este fim de semana o incêndio atacou na encosta em frente, na cota superior das gralhas, onde há uns 15 dias dias tinha havido um outro provocado por um 'incidente acidental': uma fagulhas duma serra a cortar madeira.
a rapidez do ataque foi assombrosa e a eficácia também: uns rápidos jactos vindos de um avião apagaram o fogo com uma velocidade que parecia ficcionado para material de propaganda.
em menos de meia hora estavam no local 2 helis, 1 avião, os sapadores e o fogo apagado.
desta vez, pelo menos por uns dias, o medo dum grande fogo está adiado.
mas a questão em fajão parece ser sempre essa:
está adiado.
apenas.

23/07/2010

o juiz não morreu...

...mas viva o pascoal !!!



(quadro de guilherme filipe, no ´pascoal')

o juiz de fajão e pascoal fernandes são as figuras centrais dos contos de fajão.
o humor do juiz é muito do humor das pessoas de fajão (dizem-no de mim).
arrevesado e com voltas e travessas.
o pascoal era mais o homem da luta popular. pelo menos a atestar a sua fama de ter encabeçado a luta pela aplicação dos privilégios de isenções aquando da passagem do domínio de fajão do mosteiro de folques para o de santa cruz, em coimbra pouco condizente com o que lhe é igualmente atribuído séculos mais tarde.
mal ao pascoal são-lhe atribuídos todos os feitos dos da terra.
é uma espécie de alter-ego colectivo dos fajaenses.

'fechou' o juiz de fajão, seguramente o restaurante mais famoso da serra do açor.
fechou, ou melhor dito, passou a, como dizem os anglófonos, ter o papel de 'supporting actor' na restauração fajaense.
e o papel principal passou, a partir de ontem para o 'pascoal', mesmo na esquina em frente.
se o pascoal já servia para quando o juiz estava cheio, agora vai passar a servir o juiz para quando o pascoal estiver a rebentar pelas costuras.

és estranho passar pela porta do juiz e vê-la fechada.
existe uma espécie de sentimento de orfandade na terra.
na verdade, desde os tempos do zé maria (uma 'personagem' completamente ao nível do pascoal) que aquele era o centro de fajão.
agora passa a ser o passadiço, bem mais perto da minha casa...


'morreu' o juiz?
viva o pascoal !!

06/07/2010

tempo de recolectar em fajão

este tempo de canícula encerra um período de recolectagem em fajão.
as últimas semanas foram de cerejas.
a quantidade de cerejas em fajão nos últimos anos não pára de crescer. as árvores inundam as margens das estradas e os campos. e o tempo parece que as tem ajudado a crescer (por vezes de de formas pouco convencionais).


mas esta também é a época dos sabugueiros darem flores (as flores secas em chá são excelentes, entre outras coisas, para o estômago (o que, a seguir às toneladas de cerejas comidas, é sempre aconselhável) e da lucia-lima estar com as folhas prontas a serem apanhadas.



os próximos tempos serão de peras (já com razoável tamanho no caminho para a piscina), das ameixas (excelentes as primeiras amostras numa pequena árvore na escola) e uns abrunhos a mostrarem-se já para o próximo mês que, com este tempo de chuva e a canícula antecipa umas amoras de criar baba ao estilo cavaco a comer bolo-rei....
uma das grandes vantagens de fajão é que, seja em que época do ano for, existe sempre alguma coisa a jeito de ser apanhada

30/06/2010

os novos caminhos de fajão

já em tempos aqui falei dos antigos caminhos que levavam a fajão.
eram os únicos, os que tinham mesmo que se percorrer para fugir do isolamento quase total em estavam aquelas aldeias no meio da serra do açor.
hoje, a recuperação desses antigos caminhos é feita para aqueles que querem sentir, por nostalgia ou pela experimentação do novo, as veias por onde circulava a vida dos que habitavam a serra.
a semana passada foram inaugurados 'novos' caminhos (na verdade estavam completamente tapados por mato e silvas) a prometer muitas caminhadas nos próximos tempos.
a recuperação das aldeias faz-se também de pequenas coisas.
dar vida àquelas aldeias é também permitir que a vida as percorra e as calcorreie.



24/05/2010

SE POR JUNHO O VIAJANTE...






















Comove-o aquelas entradas de enchidos, aquela sopa serrana, o convite dirigido aos tocadores de concertina e acordeão para alegrarem a festa...

03/02/2010

o mundo visto de fajão



fajão é surreal.

isto estão vocês carecas de saber (ou, pelo menos, fartos de me ouvir dizer isso)
sendo uma aldeia com menos de 100 residentes, numa freguesia com cerca de 300 habitantes em 14 aldeias, fajão tem alguns equipamentos absolutamente inusitados, mas utilíssimos, de que a caixa multibanco, a excelente piscina com vista sobre a serra, ou o edificio do 'fajão cultura' são apenas exemplos.
e tem um presidente da junta inteligente que me confidenciava no fim de semana que 'eu nem devia dizer isto, mas fajão não precisa de mais obras'.
de facto não precisa.
quando eu era adolescente tremia de cada vez que ia a fajão e via os lençóis de cimento que cobriam um muro de pedras ou uma calçada.
hoje, quando lá vou (e vou muitas vezes), são mais as boas notícias que recebo..

este fim de semana andava meia aldeia a falar de velocidades de acesso à internet, de bandas largas, de antenas de wireless e outros temas comuns numa aldeia da serra do açor.
e a razão era o facto de fajão ter, desde a semana passada, acesso à internet por wireless, gratuita para toda a aldeia...

a diferença entre este fajão e o fajão da minha adolescência, é que passou a apostar mais no fornecimento de instrumentos aos seus habitantes para que tenham lá qualidade de vida, e menos no acimentar de uma rua ou num muro por alturas da festa da senhora da guia (mesmo que hoje reconheça que os que o faziam daquele modo, naquela altura, o faziam por puro amor à sua terra, mesmo que este amor se manifestasse de um modo diferente do meu).

mas afinal, retomando o fim à meada, o importante deste meu regresso à postagem é a informação:
fajão tem wireless gratuito para todos os que lá estiverem (sejam ou não de lá...)

06/12/2009

o mundo visto de fajão

retirado textualmente de 'o varzeense', quinzenário católico e regionalista de vila nova do ceira, com o devido respeito e agradecimento:

Até quando resiste o corpo humano

Adriano Baeta Garcia, Eng.º

Tive ocasião de verificar na minha última doença, que derivou de uma ligeira queda que dei quando aparava uma árvore no meu quintal, tendo caído desamparado do segundo degrau de um escadote ultra-leve, de que as coisas não são assim tão fáceis como parecem.
Verifiquei que atendendo às teorias de que os órgãos do corpo humano e não só, estão ainda num grau de aperfeiçoamento e que por conseguinte ainda não atingiram a perfeição, a qual atingida, ou permanecem nesta por tempo mais ou menos longo, ou se tornam estáveis ou se extinguem.
O homem passou a andar na vertical (homo erectus) e isto terá ocorrido por volta de 1.500.000-300.000 anos a.C., pelo qual temos que pagar essa ousadia de ser o único animal a andar na vertical.
A partir deste momento, momento até aí dos quadrúpedes, passamos a andar na vertical (bípedes) cujo corpo humano não estava preparado para isso.
O rol das frequentes fracturas dos membros inferiores, o casos da coluna vertebral, são disso prova, muito embora haja outros que também interferem nestas estatísticas.
Estas mudanças operaram-se ao longo de milhares de anos sem que nos apercebamos disso, mas a história e a natureza a ela ligada, são implacáveis nestas modificações.

Vila Nova do Ceira, Outubro de 2009.


estamos sempre a aprender.
na ciência e no português....

16/11/2009

tempo de recolectar em fajão

5ª estação.
ou, de como a caminho dum objectivo se encontra um mundo


Image Hosted by ImageShack.us

no sábado, depois duma apanha de avelãs, fui novamente a caminho de arranjar um medronheiro decente para crescer num vaso.
e voltar à demanda das trufas.

a meio da descida de fajão para a ponte, decidi parar na assentada para procurar por um terreno que era dos meus pais.
como estava alguém a apanhar umas castanhas naquela zona, lá perguntei ao que ia.
no estilo de humor muito fajaense, antes de obter a resposta, tive eu que responder quem era e ao que vinha.
inquérito respondido, lá vem a resposta:
'isso é ali a seguir aquele terreno. mas está impossivel de lá chegar. é tudo silvas... '
perante o meu ar entre o desconsolado e o 'lá terei que ir para o meio das silvas', indica-me o pedaço de terra mesmo abaixo de mim:
'é este aqui, que eu tenho tratado ainda do tempo do seu pai. são estas 3 filas de oliveiras'.

Image Hosted by ImageShack.us

começo a ajudá-lo a apanhar castanhas (pelo gozo de as apanhar), e logo me diz que 'ali aquele castanheiro também é seu. até aquelas pedras'.
digo-lhe que queria apanhar uma azeitonas naquelas oliveiras para fazer a experiência de as curar (coisa de que não existe tradição em fajão, já que ali todas as azeitonas eram para azeite, embora hoje sejam mais para os pássaros...).
indica-me umas oliveiras com azeitonas em bom estado e colho uma imensidade duns 200 gramas de azeitonas para a experiência.
para começar a entrar na fase do 'mudar a água às azeitonas'...
e passa a mostrar-me o jardim, as culturas, a adega e a jeropiga ali feita que bebo... e uns lindísimos pimentos:

Image Hosted by ImageShack.us
'leve, deixe secar e depois ponha as sementes na terra...'

depois dum pequeno saco com uns feijões, ovos, pimentos, malaguetas, uvas, azeitonas, castanhas e serpão para semear e secar, tudo em doses reduzidas mas suficientemente úteis, uma conversa longa sobre as memórias dos meus pais e das memórias deles, ainda tempo para mostrar um outro terreno que andava à procura de saber onde era.
'aquele pinheiro ali está a mais. devia deitá-lo abaixo para aquelas oliveiras crescerem melhor. e este castanheiro aqui devia ser desbastado....'

lá voltarei brevemente. prometo.
fajão tem uma mística especial, de facto.
um fim de semana é sempre muito mais que dois dias.




02/11/2009

se o mundo te dá limões,

faz um limoncello

Image Hosted by ImageShack.us

como imaginam, o limoncello é tão tradicional em fajão como os pastéis de bacalhau em vanuatu...
esta é a receita tradicional (algum dia há-de começar uma tradição...) do verdadeiro limoncello de fajão:

matéria prima:
8 limões
todos os limoeiros em fajão são de cultura biológica, por isso não é necessário aquelas indicações especiais sobre estes terem um sabor mais intenso)
1 garrafa de vodka
eu uso a skyy, não apenas por ser uma marca muito hype (fica sempre bem este toque de modernidade numa receita tradicional), mas fundamentalmente por ter o sabor mais suave e não afectar assim o sabor final do limoncello. não usando esta, podem, por oposição, usar a mais barata do mercado (normalmente só sabem a álcool, que é o que necessitamos)
500ml de água
em fajão a água do abastecimento público vem directamente da nascente na serra da rocha...
500gr de açúcar
amarelo ou branco, de acordo com o gosto

trabalho laboratorial:
retira-se a película da casca dos limões, com cuidado para que não venha a parte branca, que tem um sabor mais ácido e sabe pouco a limão.
coloca-se dentro duma garrafa junto com o vodka (normalmente noutra garrafa, porque as de vodka tem protecção de inviolabilidade)

guarda-se esta mistura durante 40 dias em local escuro, revolvendo de quando em vez (uma vez por semana é uma boa média).

após esta cura de escuridão,
aquece-se a água até levantar fervura, e deita-se o açúcar.
mistura-se bem, reduzindo o lume.
logo que esteja bem dissolvido, antes de qualquer 'ponto de açúcar', retira-se e deixa-se arrefecer.
mistura-se ao preparado alcoólico e guarda-se mais 40 dias em local escuro.
ao fim deste período filtra-se e coloca-se na parte mais fria do frigorífico.

considerações adicionais:
como este licor fica com cerca de 17º de álcool, não pode ser colocado no congelador.
se, em vez de vodka, usarem álcool puro (se tiverem a sorte de encontrar uma farmácia que o venda sem terem que apresentar a declaração das finanças dos últimos 3 anos e o certificado de registo criminal da família toda...), o teor alcoólico duplica e podem, e devem, colocar o licor no congelador...
o escolha entre o açúcar branco e amarelo, para além da cor final no licor, está no sabor mais forte que fica quando a escolha vai para o mais escuro.

na foto, o café é mesmo só para dar alento ao descascador de limões.