Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

O realizador que gosta de falar e de cinema mudo

Sangue Frio, de Patrick Mendes
(vencedor da Melhor Curta Portuguesa no motelX)



No princípio foi a degradação do décor. Aquela terra inóspita e ventosa. A casa decrépita com um silo coberto de ferrugem. Depois surgiu-lhe o filme que tem tanto de anémico na história quanto na paisagem. Patrick Mendes pegou na sua equipa do costume (com quem já realizou duas curtas): um director de fotografia daltónico, uma actriz que tem uma irmã gémea bailarina, um amigo inventor de máquinas estrambólicas e rodou em super 8, Sangue Frio, que, de entre 14 candidatos, conquistou o prémio da Melhor Curta de Terror Portuguesa, no recente festival Motel X. E criou esta mulher, personagem vampírica invertida, porque em vez de tirar sangue, ela dá… sangue. Até à última gota. E aqui entra em cena Aníbal Santos, o tal amigo inventor, artista plástico, que congeminou com o autor está máquina diabólica de transfusão, com um aspecto muito arcaico e nada asséptico. Filmar com sangue real (quatro litros e meio adquiridos no talho) foi, já de si, um filme de terror. «O sangue artificial é caríssimo, um litro a 80 euros, e além disso a cor não me convenceu». O problema é que o sangue coagula e atrai todos os milhares de moscas das redondezas. Dos 14 minutos de filme, seis são dedicados à transfusão, há como que «uma suspensão do tempo, que cria um desconforto, ainda por cima a máquina sugere algo super sexual, quase maturbatório». Além disso Patrick fez questão de confirmar com a irmã enfermeira, de que aquela era a velocidade correcta com que o sangue brota nos tubos, depois da picada. Quando anunciaram o prémio, foi outro filme de terror. Não o tinham avisado antecipadamente, não estava nada à espera, «de repente vi-me no palco, a ser olhado por um monstro de mil olhos [a plateia]». Mas ficou contente por o levarem a sério. Tirou o curso superior de cinema, trabalhou com João Canijo e Pedro Costa, vai raramente ao cinema, porque raramente tem dinheiro - e também porque o cinema que se faz agora pouco o interessa. Acha o cinema clássico enfadonho, na verdade ps seus gostos ficaram retidos na fase do cinema mudo – o seu português preferido é O Táxi nº9297, uma média metragem dos anos 20, de Reinaldo Ferreira, o célebre Repórter X. Não lê, o seu cinema não tem carga social nenhuma, faz tudo por intuição, não quer compromissos com o público, desfia imensas referências de cinema underground com que se identifica. Mas no fundo, refere, a grande responsável pelo cineasta em que se tornou é a mãe, que até nem gosta nada de filmes de terror.

Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

O gosto de Miguel Ángel Barroso

Bilbao, de Bigas Luna

Numa altura em que decorre o X Imago, no Fundão (até dia 4), pedimos ao curador do programa dedicada ao sexo, o espanhol Miguel Ángel Barroso, que escolhesse e comentasse uma cena de um filme presente no festival. O crítico de cinema espanhol, autor de uma extensa bibliografia dedicada aos mais variados géneros, optou por uma sequência de Bilbao, considerado para muitos a obra-prima de Bigas Luna. Mas atenção: as imagens reproduzidas poderão ferir a sensibilidade de alguns visitantes

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Deste fascinante filme espanhol, a segunda longa-metragem do inclassificável cineasta Bigas Luna, escolho a larga sequência em que Leo, o protagonista, prepara minuciosamente a sua noite de amor com Bilbao, uma bela prostituta do bairro chinês de Barcelona: dá-se finalmente a resolução com seu objecto de desejo. Para Leo, significa a esperada noite de núpcias com aquela mulher que se torna a sua companheira sentimental. Depois do sequestro, Leo convive com ela à sua maneira: uma mente insana e obsessiva (a mania da higiene oral leva-o a lavar os dentes constantemente), que se concretiza atando-lhe os pés e as mãos em cruz e suspendendo-a no ar com a ajuda de cordas. Bilbao está sempre sob os efeitos do cloroformo. De seguida, sentam-se juntos a ver filmes pornográficos, num projector Super 8. Para Leo está tudo bem, está em ordem o seu mundo particular, já se sente isolado do resto mundo. Leo dá-lhe a mão, olha-a com ternura, acaricia-he o cabelo: é a sua Bilbao, a mulher que ama com uma loucura quase adolescente, sentindo-se (na sua mente perturbada) totalmente correspondido.

Bilbao deve considerar-se assim uma história de amor trágica. Uma história de amor diferente e original. Contudo também se deve ver de uma perspectiva romântica e terna devido ao carácter tímido do protagonista. A prova disso está na desolação de Leo quando descobre que Bilbao está morta por um descuido seu. Não se perdoa e chora amargamente, desesperadamente, infantilmente. Mas Bigas Luna sente pena dele e oferece-lhe o prazer de continuar a recordá-la para sempre, como a coisa mais importante da sua existência. Porventura Leo aprendeu assim a amar pela primeira vez na vida...

Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Despedimento sumário

Adeus, Até Amanhã, de António Escudeiro



E um dia ao angolano António Escudeiro disseram: «Vai-te embora!». Corria o ano de 1975, trabalhava com imagem, para o governo de transição do MPLA. «Vai-te embora mas não amanhã, vai hoje, agora!». A 16 de Setembro, sem malas, sem resgatar o depósito bancário, só com a t-shirt e os calções que trazia vestidos, o realizador, fotógrafo e director de fotografia aterrou noutros horizontes (exíguos), noutras temperaturas (amenas), noutro continente (branco), noutro mundo (também amotinado). Há trinta e dois anos, António Escudeiro disse «Adeus». Hoje diz apenas «Até Amanhã». Um documentário (acabado de sair em DVD) on the road, quatro mil quilómetros em 25 dias, de Angola, ao Lobito, Huambo, Huíla... Um roteiro sentimental, sem nostalgias estéreis, nem saudosismos serôdios. Em que cada plano, captado quase sempre com tripé, tem a força de uma fotografia, de enquadramentos avaliados, e pontos de fuga e luz calculados ao pormenor. Escudeiro percorre aquela geografia que sempre considerou tão sua, desde o nascimento, infância, adolescência e idade adulta: «Sou angolano, sempre fui. Nunca me considerei outra coisa». E desce (ou seria melhor dizer, sobe) àquele «estranho paraíso». Entra nas suas velhas casas de infância, hoje pele e osso, descarnadas daquilo que foram. Passa por fachadas cravejadas de balas. Atravessa cidades fantasmas, onde os governantes vestem Armani, e o povo ainda agora renasce, na pujança dos mercados, cinco anos passados da guerra. Tira sangue («um gesto simbólico») no velho e desertificado hospital – para depois se cruzar com a enfermeira, por acaso, na rua, que o alerta para os valores baixos de hemoglobina. Viaja nos obsoletos comboios, que de vagões de mercadorias se fizeram carruagens de passageiros. Demora dois dias nas crateras lunares do alcatrão, quando dantes o percorria em meia dezena de horas. Passa por colunas de 40 atascados e resignados camiões. Percebe em Luanda que as maiores inseguranças são os seguranças, as extorsões e «o dinheiro para a gasoza». No Huambo, detém-se no arruinado cinema Ruacaná, corroído por dentro como uma cárie dentária. Senta-se na plateia, espectador de coisa nenhuma. Era ali que haveria de começar o filme. Assim foi. «Este filme é um olhar, apenas isso, não foco o lado subjectivo, não critico nem elogio. Deixo que quem vê pense por si». E apesar de ter ficado «chocantemente sensibilizado com o acolhimento das pessoas», Escudeiro nunca se deixa contagiar pela emoção, e mantém uma notável e rara equidistância nos comentários em off, «mas lá que foi muito comovente foi»: «Este não é um filme sobre mim, é um filme a partir de mim». E sobre o recado subliminar contido nas palavras de Ondjaki: «Quantas noites são precisas para fazer uma madrugada em Angola?»

Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

De volta à Arena

Reportagem em Marvila

Arena, de João Salaviza, a curta portuguesa que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, chega agora às salas, na primeira parte de Woodstock, de Ang Lee. Fomos à Quinta da Flamenga, bairro social onde o filme decorre, e assistiu ao público que assistia a uma ante-estreia muito especial. Saiba a história deste filme







No Rio de Janeiro há excursões que se organizam a favelas. O turista de gostos exóticos enfia-se numa carripana e deslumbra-se com as vistas, em perfeita segurança, porque a organização assim o diz. Comenta «How typical» e logo passa ao próximo spot, talvez o Corcovado, talvez o Pão de Açúcar. Também por umas horas o bairro da Flamenga se enche de ‘turistas atrasados para o Verão’, como alguém lhes chamou, que aproveitaram a oportunidade, não só de ver o filme, como de conhecer o décor. Alguns ainda para fazer campanha, política ou de outro género. Tudo ali se junta e se confunde, perante um público, apesar de tudo, maioritariamente de moradores da Flamenga, ao qual o realizador João Salaviza faz questão de dedicar a exibição.

Público este que se divide, prudentemente, entre a tolerância e a desconfiança, não vá o diabo tecê-las. Já sabem que um dia não são dias. E que no dia seguinte ficará tudo na mesma e nenhum dos visitantes voltará a beber um copo na Pastelaria da Bela Vista, apesar da cerveja ser bastante em conta: 80 cêntimos a imperial. Mas por momentos, ainda que por breves momentos, a coisa parece bonita. Aquele cocktail social, insolúvel, por mais que se mexa, toma ares de harmonioso, faz-nos acreditar, por segundos, num mundo melhor. Ou talvez não seja para tanto. Apenas saber que o mundo do fim do mundo também é mundo. E que, visto ao longe, toda a gente é apenas gente. E ao perto também.

O pretexto para a festa são os 15 minutos do filme de João Salaviza, Arena, o tal que, feito inédito para o cinema português, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, cidade balnear coquete, tão distante da Bela Vista como Nova Iorque de Bagdad. O filme passa-se ali mesmo, no bairro, mais concretamente na malha H, que não são mais do que dois blocos de apartamentos unidos por três pares de passadiços, trancados sobre si próprios.

Em baixo, onde agora está montada a tela, e se distribuem cadeiras (400 no total) em tempos passaram carros, mas o ambiente era tão ruim, que resolveram cortar o trânsito. Ficou assim a malha H entregue a si própria, em jeito de gueto, lá para os lados de Marvila, na zona oriental de Lisboa. Ainda agora, à noite. a coisa torna-se difícil, e os moradores têm medo de outros moradores, e preferem refugiar-se das ruas. «Ninguém faz mal a ninguém, mas as pessoas têm medo», diz-nos o senhor Carlos, presidente da associação de Moradores, depois de explicar, ao telemóvel, o caminho a Helena Roseta.

Hoje é uma noite diferente e ninguém diria que esses problemas existem. Não fosse o vento frio que galopa pelo corredor entre os passadiços e se entranha nos ossos, seria uma noite perfeita para cinema ao ar livre. A rua até é ligeiramente inclinada, dando a ideia de anfiteatro. Na antiga Roma, era nos anfiteatros que se digladiavam os homens e os leões. Mas o chão que pisamos não se parece com uma arena. Tal como no filme, a arena fica lá para cima, nas bancadas, fechadas e misteriosas que escondem mundos e histórias. Olhando bem, tudo aquilo lembra um estabelecimento prisional, a prisão-hospital de Caxias ou coisa assim, com passadiços entre celas e até torres de vigia. É incrível que morem ali pessoas livres, tão reféns de si próprias. Que arquitecto se terá lembrado de tal desenho? As intenções são sempre as melhores.

Foi esse aspecto de cárcere que levou João Salaviza a escolher a malha H como cenário. O protagonista está em prisão domiciliária, com pulseira electrónica no pé e sai para perseguir uns gandulos, que não são mais do que miúdos. O bairro é a própria prisão. A sociedade prende-os fora da vista. Já estiveram pior, é certo. Os que ali moram foram realojados do bairro do Relógio. Ao contrário do que é típico em alguns guetos suburbanos, como a Cova da Moura, a maioria da população é portuguesa. Na Flamenga habitam cerca de 2500 pessoas, mil só naquela malha H.

A Flamenga não se terá propriamente vestido a rigor para a ante-estreia do filme, e consequente visita de políticos, artistas, jornalistas e televisão. Mas aperaltou-se à sua maneira. Há uma tranquilidade aparente, enquanto a festa se monta. Está a passar futebol na TV e diz o bom senso que não vale a pena escolher a bola como adversário. Um repórter de imagem hesita em abandonar o tripé enquanto sobe a escada, para filmar o local. A jornalista diz que ninguém rouba. E ninguém rouba mesmo.

Aos poucos as janelas vão ficando povoadas: é privilégio raro fazer da varanda de sua própria casa um segundo balcão. Outros descem. E à hora do arranque o pátio da Flamenga está a abarrotar. Antes, porém, uma primeira parte peculiar, um grupo de crianças dançarinas, apresenta o seu número no palco.

A curiosidade é grande. Durante uma temporada a equipa de João Salaviza invadiu pacificamente o bairro, com o seu aparato técnico e humano. Serviram-se de uma casa vazia no segundo andar, que habitaram diariamente. Primeiro, sem câmaras, para ganhar a confiança da população. «As pessoas desconfiaram porque estão habituadas a ser notícia apenas pelos piores motivos». Desta vez o motivo é grande. Dos maiores: uma obra artística.

Essa convivência com a população é notável no à-vontade de todos. Principalmente dos actores. Carloto perde-se entre a gente, como se estivesse em casa. E o jovem Rodrigo Madeira, que se estreia aqui, circula com natural destreza, é morador de um bairro vizinho, e joga na equipa de futebol que é treinada pelo sr. Carlos. A história do filme poderia ter acontecido lá para as tuas bandas, Rodrigo? «isto e muito pior». O seu maior sonho é prosseguir a carreira de actor. Mas não é fácil.

A emoção vem ao de cima, enquanto o projector aquece: «Prefiro muito mais estar aqui do que em Cannes. É muito mais genuíno» Diz Carloto Cotta, o actor que viajou com Salaviza para ir buscar a Palma d’Ouro. E acrescenta: «Isto de actuar é como jogar à bola, depois de fazer o clique tudo corre bem». E o seu clique mereceu os mais variados elogios. Só que, infelizmente, de momento não tem nenhum filme em rodagem.

Não é a primeira vez que a Flamenga é cenário de filme. Por ali passou o Crime do Padre Amaro e vários spots publicitários. «Somos Hollywood de Marvila», diz, brincando, o sr. Carlos, com o seu equipamento vermelho de futebolista. Não esconde uma felicidade imensa por ter tantas visitas no bairro e desdobra-se em conversas e entrevistas, sempre diplomata, sempre bem-falante.

Muitos outros mantêm uma distância prudente. Mas chegada a hora do filme, ninguém, mil olhos espreitam por todas as janelas, portas, passadiços. Um clima que lembra um neo-realismo à italiana. Ali cabe mais gente do que no São Jorge.

À medida que a fita roda, avolumam-se os comentários: isto é aqui, isto é acolá, isto já não sei onde é. Não sabem porque, uma parte do filme foi filmada numa fábrica abandonada lá para a Portela de Sacavém, onde o JL acompanhou o João, numa sessão fotográfica. Ao ar livre, o cinema é à antiga, com comentários, assobios, gargalhadas. Tudo no extremo da vivência genuína. As pessoas gostam, porque vêem-se a si próprias, garante o sr. Carlos. Uma senhora, gorda, de avental, com ar de mãe de todos, comenta: «Ficam a pensar que aqui no bairro são todos gatunos»… talvez não fiquem, talvez não fiquem. Uma outra mulher reclama com Carloto, dando-lhe palmadas no braço, «então filmaram a minha mãe!?». O actor não tem culpa.

E o filme acaba, pouco depois de começar, afinal é uma curta-metragem, de apenas 15 minutos. As pessoas verificam, desoladas, já acabou? Tanto aparato para tão curto. Curto mas intenso, como o café que bebemos. Todos sabem que, rapidamente, tudo volta ao normal. Os políticos vão para a campanha, os jornalistas para as redacções e a Flamenga volta a ser a Flamenga de sempre, entalada entre o Parque da Bela Vista e o Feira Nova. «Estamos a organizarmo-nos para ter actividades de três em três meses», garante o Sr. Carlos. Quanto ao filme: «Eu tenho dito aos jornalistas que as pessoas gostaram». E ninguém tem dúvida que poderia ter acontecido ali, esta ou outra história.

O cinema foi até à Flamenga, com a pompa de visita de estado. Agora é a Flamenga que vai aos cinemas, com a exibição de Arena, na primeira parte de Woodstock, de Ang Lee, em 16 salas pelo país. No bairro, ouve-se o reboliço, os comentários animados e ainda dá tempo para mais uma cerveja. O assistente da produtora apressa-se a guardar a cópia do filme, enquanto outros vão desmontando as telas. No estacionamento, os carros arrancam em direcção a pontos mais visíveis da cidade. Arena despede-se da Flamenga. Na esperança de uma segunda sessão.


LER ESPECIAL ARENA NO FINAL CUT

Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Glóbulos negros

O Sangue, de Pedro Costa






Tarefa redundante esta de escrever sobre O Sangue e Pedro Costa, quando acaba de chegar ao mercado uma extensa monografia sobre o cineasta, com textos dos mais dedicados especialistas, nacionais e internacionais, que acompanharam o realizador desde a sua génese. E sabem olhar para os seus filmes como quem vê para além dos olhos. A este nível, recomendo vivamente o texto de Bénard da Costa (que o JL pré-publicou no seu último número), assim como as suas observações sobre cinco cenas de O Sangue, editadas como extra do
DVD.

Nota fundamental é observar que em O Sangue todo e qualquer frame merecia ser emoldurado e exibido numa exposição, como aquela agora patente na Tate Galley, de Londres. Há um cuidado fotográfico extremo, em jogos de negros, onde, não raras vezes, a sombra se sobrepõe à luz, sugerindo que uma vela apagada emana escuridão. Nada disto é gratuito. A imagem é tão soturna como a história que se conta ou que se sonha. Mesmo no único momento de deslumbre, ou catarse, a ida para a feira, ao som da música dos The The (This is the Day), é envolta num clima contraditório, de traição, pecado, premonição de desgraça. A personagem de Vicente, negra e sombria, o papel da vida de Pedro Hestnes, é de uma dureza implacável. Uma determinação transformada em abismo. O mais solar dos filmes de Pedro Costa é negríssimo.

Em O Sangue encontramos um Pedro Costa perfeitamente maduro, mas ainda sem cimentar a sua linguagem, o que veio a acontecer mais à frente, com uma radicalização do discurso e das opções. É um filme de actores (Inês de Medeiros, Luís Miguel Cintra, Canto e Castro), que Costa dirige com uma mestria exemplar, tornando-os enormes, prevalecendo sempre uma apurada concepção estética, de beleza invulgar. Torna-se assim clara que esta maravilha do cinema português ultrapassa a sua condição de filme e ganha justamente o título de obra de arte. Não deve ser desperdiçada esta oportunidade rara de a ver no grande ecrã (em exibição no El Corte Inglés). E depois rever e rever na televisão lá de casa.

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Fora de jogo


A Esperança Está Onde Menos Se Espera, de Joaquim Leitão

Quando um árbitro se deixa enganar pela simulação de um jogador e marca um penálti inexistente é logo chamado de mil nomes, de larápio para cima. Ao jogador nada acontece, não é condenado, nem sequer moralmente, e com um pouco de sorte ainda é erguido em ombros, como herói: o artista do ano, a mão de Deus… A culpa não é do ladrão, mas sim do polícia Que o deixou roubar. Assim se passa no decrépito futebol português, que não mereceria estas linhas se não viesse a propósito do último filme de Joaquim Leitão, A esperança está onde menos se espera.

É que a personagem central, Francisco (Virgílio Castelo) é um treinador da bola, tema pantanoso no cinema português, depois de Corrupção (producer’s cut) e do inenarrável Star Crossed, um Romeu e Julieta da bola (parece que o melhorzinho é mesmo O Leão da Estrela).

Claro que Francisco não é um treinador da bola qualquer, a sua figura não pode ser inspirada em nenhum exemplo vivo, apesar de em determinada altura lhe chamarem O Mourinho da Cova (da Moura). É que se trata de um treinador que leva os preceitos de honestidade a um extremo risível. A sua equipa, de escalão inferior, chega ao final da Taça de Portugal, após ter eliminado o Porto no Dragão. Feito notável que torna o seu treinador cobiçado pelo Benfica. Só que nesse encontro decisivo dá-se um lance polémico. A falta é sofrida fora da área, mas o árbitro marca penálti. Através de um papel, o treinador ordena ao seu jogador: «Falha!». A equipa perde e o treinador não só é despedido como a sua «integridade» o impede de ser contratado por qualquer outro clube. Assiste-se assim a uma queda social, sua e da família, da vivenda do Restelo para a Cova da Moura, do colégio particular para a escola pública (no caso do filho), de Lisboa para Luanda (no caso da mulher). Toda a família fica fora-de-jogo.

Este não é um filme sobre futebol. O tema é demasiado curto. É um filme sobre o desemprego e o empobrecimento, sobre mobilidade social, sobre a aceitação do outro, sobre o desespero e a esperança. Poderia ser uma telenovela da TVI, daquelas que dão ao mesmo tempo que a RTP transmite o jogo. Porque se o argumento não promete, a concretização piora um pouco. Há uma demagogia elevada ao extremo, com os mais básicos truques telenovelísticos, percorrendo os clichés um por um. Virgílio Castelo, como está triste, está sempre à chuva. E na noite de Natal, por absurdo que possa parecer, senta-se à neve (?!), marcando assim o momento de viragem. Há uma constante busca da lamechice através dos elementos mais banais. E, na sua base, não passa de um filme para adolescentes, uma espécie de Morangos com pretensões moralistas. Que a conclusão a que se chega é: «Tá-se bem na Cova da Moura». Porque é ali, onde menos se espera, que é encontrada a felicidade… Citando o fadinho de Amália: «A alegria da pobreza/ está nesta grande riqueza/ de dar e ficar contente».

Curta valia do filme é a qualidade de alguns diálogos, sobretudo as deixas de José Carlos Cardoso (Mané), um actor bem achado no bairro, que se revela superior a todo o elenco. Mas não deixa de ser um passo em falso de Joaquim Leitão, realizador capaz do melhor e do pior, mas que já nos ofereceu grandes filmes, como Duma vez por Todas.

E se aqui se diz A esperança está onde menos se espera, de Joaquim Leitão, é por vício europeu de considerar os filmes dos realizadores. Este é um daqueles casos em que paira a dúvida sobre a autoria, embora o realizador nunca a tenha renegado (como aconteceu com João Botelho). É que aqui o produtor assume um protagonismo pouco habitual. Foi Tino Navarro que escreveu o argumento. E, para cúmulo, o filme é dedicado ao seu (de Tino Navarro) filho e ao seu pai. É como se uma equipa de futebol fosse treinada pelo presidente. Nunca deu bom resultado…

Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

ETs: Vão Para Casa!

District 9, de Neil Blomkamp




Ou pensando melhor: deixem-se estar mais um bocadinho. District 9, o filme mais OVNI, de entre os filmes sobre OVNIs

District 9 não é um filme futurista. Apesar de ter naves espaciais, seres de outros planetas com imensos tentáculos, pinças e antenas, ou de haver dispositivos activados através de hologramas e de fluidos alienígenas. A primeira e tão inventiva longa do sul-africano, Neil Blomkamp, residente no Canadá, é um filme profundamente actualista. Só dos tempos que correm podia sair algo assim. Durante décadas (sobretudo durante as de 50 a 70, os anos loucos das corridas espaciais), o cinema passou-nos a versão dos extra-terrestres indesejáveis – ou porque queriam colonizar o planeta e submeter a humanidade, ou simplesmente exterminá-la porque sim, ou então possuíam a hábil manigância de se infiltrar sob as nossas peles, como se nós fossemos invólucros recicláveis. É claro que cada alien invasor trazia em apêndice a metáfora dos terríveis (embora menos tentaculares) russos, e finda a guerra fria, chegaram os ETs de Spielberg, muito mais amistosos e benévolos. Agora, em pleno século XXI, aterra-nos este filme (estreia-se hoje, 24), cheio de aliens lá dentro. São refugiados, não invasores. Ou seja: outra vez indesejados.

O filme utiliza um expediente narrativo muito inteligente, e que resolve, de vez, a questão da incredulidade. Todo ele é construído em registo de falso documentário televisivo, com câmaras à mão, imagens de vídeo-vigilância, com planos esquinados, depoimentos e entrevistas de rua reais, com muito grão e uma reprodução do look low budget (o que até aconteceu, tendo e, conta os padrões do super-produtor Peter Jackson). O que não é propriamente original. Basta pensarmos que foi recorrendo a um falso documentário que Michael Curtiz convenceu toda a gente de que Casablanca era uma plataforma giratória de espiões e foragidos da Segunda Guerra...

Mal-vindos
E então temos uma nave gigantesca que, um belo dia, aparece a pairar sobres os céus de Joanesburgo. Atenção, que não é em Manhattan ou Chicago, como costuma acontecer nos filmes. Estes aliens escolhem fazer a sua aparição na África do Sul. Vêm subnutridos e desgovernados, e o Estado cheio de boas intenções, realoja-os em campos de refugiados. Só que os anos passam, eles reproduzem-se, já são mais de um milhão, nunca mais se vão embora, e ainda por cima têm um aspecto algo viscoso (uma mistura entre os homens-alforreca dos Piratas das Caraíbas e a silhueta angulosa das criaturas do Alien) e o desagradável hábito de chafurdar nas lixeiras com as suas tenazes. O ex-país do Apartheid cobre-se outra vez de placas de acesso interdito - a única diferença é que já não dizem «whites only», mas «human only». O campo torna-se guetto, e os ETs já não são bichos raros, mas uma praga. Aliás, a espécie residente trata-os depreciativamente pelo nome de uma espécie infestante: «camarões» (gafanhotos, na tradução portuguesa).

Há uma multinacional de armamento privada que faz raides de helicópteros e blindados neste imensa favela,o distrito, entretanto, dominado por gangs de nigerianos que controlam o mercado negro e gostam de comer braços de alien. O filme entra numa estética muito hiperactiva e energética ao estilo Slumdog Millionaire (a última tendência de Hollywood, embora aqui num registo muito menos sofisticado). Aparece em cena uma fantástica personagem, Wikus (o estreante Sharito Copley), operacional recém-promovido da empresa que toma a cargo o realojamento dos aliens para um campo mais afastado de Joanesburgo.

Todo o desconcerto e originalidade da premissa inicial e da provocação do sub-texto na primeira parte do filme descarrila lamentavelmente na segunda. Resta-nos seguir na trepidação habitual de tiros, explosões e efeitos especiais, no percurso previsível, de tão palmilhado pelas produções americanas. De cenas bastantes infantilizantes, à Tranformers, deixamo-nos cair algures, entre a Mosca de Cronenberg (também a Vicus começam a cair as unhas, os dentes e a crescer-lhe uma tenaz no lugar do braço), ou, num outro registo, a Metamorfose de Kafka e Focus, de Arthur Miller, quando o homem que passa a usar óculos é tomado pela comunidade por um judeu. Ele já é «um deles», e sente-o na pele, caçado pelas entidades oficiais e cobiçado pelas não oficiais (os nigerianos insistem neste apetite de devorar-lhe o braço mutante). Um dos elementos mais bem conseguidos é a linguagem falada pelos aliens, um misto de interferência de rádio com scratch no vinil. Fica por explicar porque é que eles são vorazes por comida enlatada para felinos, e não preferem os gatos- eles mesmo- como outro ET famoso.

Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Nunca a América foi tão livre

Taking Woodstock, de Ang Lee






Será que é possível fazer um filme sobre Woodstock sem mostrar Jimi Hendrix a esgaravatar a guitarra eléctrica enquanto toca o hino dos Estados Unidos? Nem Joan Baez? Nem Neil Young? Nem os Creedence Clearwater Revival? Será possível fazer um filme sobre o mar sem água? É como assistir a um jogo de futebol de costas viradas para o campo: quase sempre o espectáculo é melhor nas bancadas.

O que de mais importante se passou em Woodstock, o lendário festival de 1969, não foram as bandas que actuaram em palco. Ali se celebrou o auge do movimento hippie, quando centenas de milhar de jovens experimentaram a liberdade de forma extrema e ilimitada. Sexo, drogas e rock’n’roll. Perante a tríade Ang Lee, no seu filme, fez a opção certa: que se lixe o rock’n’roll. Ou melhor, a música está lá, mas apenas em pano de fundo, no seu papel de pretexto.

É brilhante a construção do argumento por James Schamus, a partir da autobiografia de Elliot Tiber, a subtileza como nos conta a história partindo dos aspectos mais laterais. Não é por acaso que em França o filme recebeu o título Hotel Woodstock. É que o ponto de partido é mesmo esse: uma família judia que administra um motel numa vila perdida da província de Nova Iorque. Começa por ser uma comédia, graças à rigidez judia da mãe (Imelda Stauton), a fragilidade do pai (Henry Goodman) e a o tino do filho (Demetri Martin, conhecido na stand-up commedy americana). Mas, de certa forma, é verdade que foi ali que tudo começou.

Para Ang Lee conta explicar, a propósito de Woodstock, o vendaval de mudança. Não só as grandes mudanças, como o fim da guerra do Vietname, apregoado pelos hippies, ou o susto de morte que a América conservadora apanhou. Conta a mudança de mentalidades, a mudança interior. E também a paz, simbolizada na personagem de Michael Lang, o célebre rapaz dos caracóis dourados, que organizou Woodstock, ali pintado com a serenidade e beleza de um anjo.

Taking Woodstock parte do particular para o geral. E é assim que melhor se contam as histórias. O Woodstock de Ang Lee faz-se de histórias, pequenas ou grandes, de libertação. E essa voragem, a partida para o novo ego, é feita ao sabor de sexo, drogas e rock’n’roll. Há um polícia com uma flor no chapéu, um grupo de freiras que ergue os dois dedos de ‘paz e amor’, trips de LSD reveladoras de novos mundos, ex-soldados do Vietname que se curam pela loucura, hilariantes festins que encontram segredos de família, beijos espontâneos que abanam as tendências sexuais. No final já ninguém é o mesmo. E o que foi Woodstock se não isso? Mais importante que o festival é tudo aquilo que representa.

Ang Lee atreve-se ainda a ousadias formais, num filme de concepção complexa, com centenas de figurantes. Em certos casos, resulta muito bem o ecrã dividido; e é brilhante o uso da animação na cena da trip. Taking Woodstock é um grande filme de Lee, com todos os ingredientes para se tornar uma obra de culto. Mas não é sobre música. Quem queria mais música, que compre os discos.

Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Imago XXX ou o sexo do cinema




Erotismo? Sensualidade? Não vale a pena andar com rodeios, eufemismos ou falinhas mansas: o tema do X Imago, o festival de cinema jovem que decorre no Fundão, de 26 de Setembro a 5 de Outubro, é mesmo o sexo. O programa, que inclui 15 sessões, todas elas interditas a menores de 18 anos, é da responsabilidade do crítico e ensaísta Miguel Ángel Barroso. Vai haver de tudo. Exibem-se clássicos, como Garganta Funda, Behind the Green (este último numa cópia rara de 35 mm), a saga Emannuelle ou O Império dos Sentidos. Na noite de abertura, filmes pornográficos dos primórdios do cinema vão ser musicados por Luís Cipriano e o Coro Misto da Beira Interior. Em X Femmes, o circuito Off do Festival de Veneza, com duas sessões dedicadas ao orgasmo feminino. E em Destricted, curtas de autores consagrados dedicadas à interacção entre o sexo e a arte.

No Imago são exibidos 140 filmes, 46 dos quais nas sessões competitivas (internacional e under 25), seleccionados de 1700 candidatos, provenientes de 72 países. Fora de competição, a warp Films apresenta 16 das melhores curtas da década. Há uma secção de documentários musicais, com destaque para a participação do Festival All Tomorrow’s Parties. Como é habitual, o Imago dá destaque à música, levando grandes nomes à Cova da Beira. Este ano a Moagem recebe os alemães The Notwist, que se estreiam assim em Portugal, os ingleses Alexander Tucker e DJ Yoda, o grupo Mr. Francis e ainda o filme-concerto do brasileiro Che, inspirado em filmes de «Sacanagem» brasileiros da década de 70.


Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

De olhos bem abertos


OFERTA DE CONVITES DUPLOS PARA WELCOME

O FINAL CUT tem convites duplos para oferecer para WELCOME, o último e muito aclamado filme de Philippe Lioret. Será uma ante-estreia, na terça-feira, no dia 22 de Setembro, às 21 e 45, no Cinema Monumental, em Lisboa, que contará com a presença do próprio realizador.



Para ganhar convites para as sessões só terão de indicar a resposta certa, acompanhada do vosso nome completo, e enviar para finalcutvisao@gmail.com

WELCOME conta a história de um emigrante que desafia a morte para atravessar uma fronteira, e de um autóctone que é ameaçado pela polícia por querer auxiliá-lo.

Em que país se passa esta história?

a) Na Coreia do Norte

b) Em Cuba

c) Em França

d) No México (na fronteira com os EUA)

e) Portugal, antes do 25 de Abril

Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Palavra de produtor

Pânico em Hollywood, de Barry Levinson







No guião de Sacanas sem Lei, como factor de persuasão, de forma a obrigar o veterinário a tratar da perna da actriz alemã, Aldo desata a matar cães à pistola. Tarantino que, melhor que ninguém, conhece os truques do cinema, optou por não utilizar a violência sobre os animais no filme. Ele sabe que matar um cão no cinema é dos actos mais chocantes para o espectador. Pior do que matar ou torturar uma pessoa. Se o Tenente Aldo matasse os bichos tornar-se-ia a personagem mais odiosa, por mais popular que seja a face de Brad Pitt.
Em Pânico em Hollywood, de Barry Levinson, o ‘assassinato de um cão’ é o fio da ironia de um subtil retrato de Hollywood. Nenhum produtor em perfeito juízo aceita um filme em que um cão é cruelmente abatido, a sangue frio. E o público do screen test não tem estômago para o digerir. Que os assassinos matem Sean Penn, tudo bem, agora o cão…
Há uma certa tradição europeia de fazer filmes sobre o próprio cinema. O exemplo maior é mesmo 8 ½ (1963) de Fellinii, mas encontram-se muitos outros, em autores como Jean-Luc Godard, Nanni Moretti ou até Pedro Almodóvar. Quando os americanos o fazem é de forma distinta: o poder e os contornos financeiros da sua indústria tornam o seu mundo único. Robert Altman realizou um excelente filme sobre os meandros de Holywood, O Jogador (1992), com Tim Robbins como protagonista, e Bruce Willis a fazer de Bruce Willis. Barry Levinson segue-lhe os passos num acutilante retrato em que Sean Penn faz de Sean Penn e Bruce Willis de… Bruce Willis. Robert Di Niro é um ocupadíssimo produtor de Hollywood, que vive mais rápido que o Touareg que conduz. Ao longo de uma semana, acompanhamos o seu dia-a-dia em estado de emergência, a uma velocidade alucinante. E há uma deixa forte, na voz de Bruce Willis. «Tu és apenas um produtor. Tu és apenas a maionese numa sandes ranhosa»..
Em Hollywood os produtores têm a mania que são donos dos filmes. E o final cut é um direito que regularmente escapa das mãos dos realizadores. É o que torna ainda mais irónico este Pânico em Hollywood (péssima tradução de What Just Happened). A escolha de um realizador inglês, com sensibilidade artística, que se vê atirado à mercê deste monstros negociantes, com olhos de cifrões, pouco preocupados com autorias e opções artísticas. Constrói-se uma sátira forte, onde ninguém escapa ileso, dos caprichos dos actores à fome negocial. Quem fica melhor na fotografia é Sean Penn, um negligé assumido que acredita em causas.
Há uma intenção de denúncia de um sistema industrial que prejudica a criatividade artística. E assim se explica a inclusão no elenco de alguns dos mais contestatário actores de Hollywood, como De Niro e Sean Penn. Curiosamente, o argumento é de um famoso produtor, Art Linsom, responsável pelo Clube de Combate, Dick Tracy, Dália Negra, entre outros. Adaptou ao cinema o seu próprio livro, como quem diz, Hollywood é assim mesmo, palavra de produtor.

Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

De pintor e de louco...

Séraphine, de Martin Provost

Entrevista com o realizador do filme que arrebatou os Césares deste ano.





Uma força bruta. E uma motricidade fina apuradíssima. Séraphine a mulher de limpezas que, no princípio do século, se tornou numa pintora conhecida tinha ambas. Uma mulher do campo, que torturava a roupa dos outros no rio, que esfregava o chão ajoelhada com as suas mãos grossas, mas que, de repente, parava para contemplar as árvores e os campos.

Depois das tarefas domésticas mais braçais ia para casa e despejava toda a sua delocadeza nas telas. O magnífico filme de Martin Provost, a terceira longa daquele que é também actor e encenador, conquistou sete césares nesta edição, entre eles o de melhor filme e o de melhor actriz. E é sobretudo ela, a actriz belga Yolande Moreau que confere uma aura inesquecível a este filme.



FINAL CUT: Filmou a vida duma personagem poderosa da história da pintura, mas criou, ao mesmo tempo, uma personagem ainda mais poderosa da cinematografia francesa. A forma como a actriz Yolande Moreau se mexe, caminha e olha as árvores e os seus quadros é memorável ...
Como construiu esta figura?


MARTIN PROVOST: Yolande e eu, passámos um ano a construir a personagem. Falávamos muito dela e partimos no seu rasto em Senlis, por exemplo, até subimos as escadas do seu prédio, andámos nas ruas que ela tinha calcorreado, vimos os quadros, tentando encontrar os seus gestos. Yolande também aprendeu canto, teve cursos de pintura com pintores que refaziam as telas. Levei-a aos décors, para ver as árvores que eu encontrava. Foi uma grande caminhada em conjunto, e quando a rodagem começou estávamos prontos: Seraphine estava lá.

Ás vezes , ela lembra uma feiticeira ou uma alquimista que fabrica secretamente as suas poções mágicas...Quer comentar?

Temos poucos elementos sobre o mistério que envolve o fabrico das cores tão particulares dos quadros de Séraphine. Eu próprio pintei , sem ter um tostão, quando era muito novo e lembro-me de que me servia de tudo o que me caía nas mãos. Penso que Séraphine fazia a mesma coisa. Há algum mistério no próprio fabrico das cores.

É necessário ser um pouco louco para ser um génio?

Questão difícil, quando se sabe que o génio ultrapassa o humano. Mas será loucura ou clarividência? A vida em sociedade impõe regras que não são viáveis para todos.

O seu filme conta também a história de duas pessoas outsider que se encontram... Como a mulher a dias desprezada e esse coleccionador homossexual ?

Sim, é um dado fundamental. É isso que me interessa muito nesta história, o facto destes dois marginais se encontrarem graças à arte. Socialmente não têm nada em comum e no entanto ...

É muito interessante o modo como faz a ligação entre os planos espiritual e religioso e o plano plástico. Porque é que ela contava música sacra enquanto pintava?

É a verdade! Seraphine cantava sempre quando pintava, o que enlouquecia os vizinhos!

«As flores como insectos que voam...» Ou «como rugas em redor dos olhos»..., diz-nos uma personagem a propósito das pinturas de Séraphine... É assim que definiria a arte daquela pintora?

Sabe que quando houve uma exposição no museu Maillol, encerrei-me sozinho com os quadros durante um momento. E constatei o que já sabia, mas tê-los em grande número, defronte a mim, tornava a coisa ainda mais surpreendente, os planos de fundo dos quadros de Seraphine não são pacíficos. Há uma grande força, mas também um mundo interior bastante terrífico.

Qual o aspecto que lhe interessou mais no filme? A mulher a dias que se torna artista? A sua vida oculta? A sua relação com o coleccionador? A vida de uma pobre mulher na França rural, entre a guerra e a depressão económica? Encontrar esse ponto onde acaba a loucura e começa o génio?

Um pouco de todos esses pontos ao mesmo tempo. Mas lembro-me de que o que mais me tinha tocado logo de início, era que uma mulher, ainda por cima mulher a dias, com mais de 40 anos, ousa afirmar-se como artista numa época em que isso estava reservada aos homens.

Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Cadê a esperança?

A Esperança Está Onde Menos se Espera, de Joaquim Leitão



Em A Esperança Está Onde Menos se Espera (estreia-se dia 17), o realizador filma a história de um "mister" tão honesto, tão honesto que não há lugar para ele no mundo do futebol e passa a servir às mesas. E de uma família de novos-ricos brancos que ficam pobres - a mãe tem de emigrar para Luanda e o filho de abandonar o colégio particular e ingressar no (ó desgraça, ó martírio) ensino oficial e multi-étnico. E de outra família de cabo-verdianos pobres… que continuam "pobretes". Mas "alegretes".

VISÃO/FINAL CUT: Depois de Até Amanhã Camaradas (2005) e de 20:13 (2006), O Joaquim Leitão também aparece onde menos se espera: num filme com personagens do futebol e namoricos de liceu…

JOAQUIM LEITÃO: Tomo isso como um elogio. Eu tento sempre não me repetir. O que me dá prazer é experimentar outro género de filmes. Há um lado espontâneo que eu não controlo que é a minha vontade de fazer um não determinado filme.

Apeteceu-lhe fazer um filme para adolescentes?
Sinceramente não consigo definir as coisas nesses termos. Este filme toca a toda a gente. Mas não me sinto ofendido com essa classificação. Claro que a parte dominante da história reflecte o mundo dos adolescentes, mas toda a parte da relação pai-filho é capaz de suscitar emoções. No final da ante-estreia muitas mulheres vieram ter comigo, comovidas…

Este filme foca um aspecto pouco abordado no cinema português: que são as casas de luxo com frigoríficos vazios…
Sobretudo interessou-me dramaticamente a mudança… O facto de uma pessoa habituada a ter tudo passar a não ter nada. Há quem tente, apesar disso, manter as aparências, mas não se vive eternamente do cartão de crédito.

É problemático realizar um filme em que o produtor (Tino Navarro) também é co-autor do guião (com Manuel Arouca)?
Não. Assim com aceito as suas sugestões também as rejeito. A partir do momento em que estou a filmar há uma autoridade final que sou eu

Gostou de rodar na Cova da Moura?
Foi óptimo, tive mesmo muito prazer em filmar lá. Fomos muito bem recebidos. Os moradores perceberam que não estávamos com intenção de denegrir, mas também de não iludir que lá existe tráfico de droga. O problema é que só esse lado negativo pode anular tudo o resto… Mas não tivemos nenhuma contingência. Seria mais difícil filmar no Rossio do que na Cova da Moura. Neste vinte anos de filmagens nas ruas de Lisboa, é raro as pessoas não se intrometem, há sempre um bêbado aos gritos em fundo, faz parte… Aqui não tivemos nada desse género.

Terça-feira, 15 de Setembro de 2009

Queer Lisboa começa na sexta


A ante-estreia de Morrer como um Homem, de João Pedro Rodrigues, na noite de abertura, é motivo de orgulho para o Queer Lisboa, cuja 13ª edição decorre de 18 a 26 de Setembro, no São Jorge. É um regresso já que João Pedro Rodrigues havia apresentado no Queer a sua primeira longa, O Fantasma. O director, João Ferreira, não tem dúvidas em afirmar: «O filme é muito bom, mais um passo em frente para o realizador». De resto, a programação é extensa e variada. Sessões competitivas de longas, documentários e de curta-metragem, esta última apenas com prémio do júri. Uma das grandes apostas deste ano é o Espaço Memória, que funciona, na Sala 2 do São Jorge, e faz a ligação entre o cinema e as outras artes. «Para haver uma continuidade depois das sessões de cinema», explica o director. Vai funcionar como um espaço de exposições, conversas ou leituras. Haverá homenagens a Julie Garland, Amália, António Boto e António Variações. Richard Zimler, que integra o júri, vai estar à conversa sobre a sua passagem por São Francisco, onde conheceu Harvey Milk. Numa secção de panorama, procuraram focar o tema da descoberta da sexualidade e, em Queer Art, filmes mais experimentais. Há ainda espaço para vídeos musicais e alguns convidados especiais.

Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

O ciúme é o amor dos fracos

O Outro Homem, de Richard Eyre






O potencial fílmico da obra do escritor alemão Bernhard Schlink é uma constatação recente dos realizadores anglófonos. Depois da excelente adaptação de O Leitor, por Stephen Daldry, com várias nomeações para os Óscares, em que Kate Winslet faz um dos melhores papéis da sua vida, chega-nos O Outro Homem, de Richard Eyre, a partir de um conto do escritor alemão. Claro que a história não é tão rica como a de O Leitor, nem os objectivos tão ambiciosos: não se passa pela História da Alemanha, não se expõem as suas feridas nem os seus fantasmas. Aliás, igualar o romance tão forte, marcante e bem construído como O Leitor é uma dificuldade séria do próprio Schlink, que aqui se repercute, de forma evidente, no cinema. O Outro Homem aborda um tema nada ligeiro, mas bastante mais corriqueiro: as pessoas e as suas relações.
Tal como o romance, o filme vive da densidade das personagens e da sua obstinação. Estando assim particularmente dependente da capacidade interpretativa dos actores. Bem conseguida, no caso de Liam Nelon; um pouco mais óbvia, no de António Banderas.
Na sua essência, O Outro Homem é um dramalhão, depressivo e doentio, daqueles que nos põem logo de início um caroço na garganta e não nos deixam cuspir no fim. Indicado para quem está afim de verter umas boas lágrimas. É uma obra de fantasmas sentimentais, resgate de memórias e de vidas. Depois da morte da sua mulher por cancro, Peter (Liam Neeson), director de uma próspera firma de software, ao remexer as coisas da falecida, vai descobrindo segredos insuspeitos, e toda uma vida oculta, em alto contraste com a imagem deificada que deixou na família. Descobre-lhe mesmo um amante, em Milão, e numa raiva insana, numa brutal mistura de sentimentos, parte ao seu encontro, não só para o conhecer como para o matar. No entretanto, vai descobrindo os pormenores mais sórdidos e picantes da relação da esposa com aquele playboy de meia tigela (António Banderas).
No centro está a questão do ciúme, visto como argumento dos fracos, na complexa tarefa de compreender a personagem ausente (tão protagonista como o Alex do filme de Kasdan), sem nunca tomar partido. Quem tem razão quando ninguém tem razão.
Peter faz uma viagem exorcizante, espanta-espíritos, que culmina num elaborado plano de vingança do amante. Mas o que realmente o faz regressar não é a vingança, mas sim a redenção. O Outro Homem é uma poderosa reflexão sobre o amor numa situação limite, que se aproxima de thriller psicológico, mas não chega lá. Richar Eyre (Diário de um Escândalo) construiu a sua carreira sobretudo à base de séries televisivas inglesas. Aqui mostra o seu apreço pelo melodrama. O Outro Homem é um filme típico inglês, à antiga, pintado em tons de cinzento, reflectindo a obsessão de dois homens, ambos retratos de insanidade, numa exposição crua da condição humana.

Domingo, 13 de Setembro de 2009

O cinema vinga-se da História


Sacanas sem Lei, de Quentin Tarantino








Sacanas sem Lei é o mais tarantiniano filme de Quentin Tarantino, e nenhum mal vem ao mundo por causa disso. Significa apenas que desiludiu quem esperava aqui encontrar um novo paradigma para o seu cinema, como aconteceu no final dos anos 80, com Cães Danados (1992) e Pulp Fiction (1994) – este último uma das obras mais marcantes das últimas décadas. Aqui há uma reciclagem de alguns elementos, em alguns casos de forma gratuita, como as setinhas à BD que indicam os nomes das personagens.
Simultaneamente, também é o filme com a maior capacidade de atrair e convencer cépticos do universo Tarantino. Pela dimensão do tema, argumento e realização. Assim, de certa forma, é o maior e mais ambicioso Tarantino de sempre. Porque, se em outros filmes fez de histórias pequenas algo maior, aqui fez de uma coisa grande (a II Guerra Mundial) algo à… Tarantino.
Curiosamente, o realizador, apesar de se ter mostrado desapontado por não ganhar nada em Cannes com Sacanas Sem Lei, declarou que continua a considerar a saga Kill Bill (2003-2004) do melhor que já fez. E se por aqui se fala tanto de Pulp Fiction é por essa sugestão de novo paradigma do seu cinema: foi o realizador que disse que queria fazer um grande filme ainda nesta década. Só que os quatro filmes que ficam pelo caminho, apesar de pequenos, são demasiado bons para serem olhados com desdém. Jackie Brown (1997), convencional e inteligente; Kill Bill, um hilariante exercício de género; e À Prova de Morte (2007), uma das maiores descargas de adrenalina da história recente do cinema, construído a partir de uma estética de série B. A arte de Tarantino é exactamente essa, fazer do pequeno, do banal, do menor, algo de sublime. E se o americano não sabe fazer filmes maus, mesmo quando se esforça e reúne todas as condições para isso, não seria agora, num filme de época, que iria estragar tudo. Sacanas sem Lei não é, seguramente, «a sua obra-prima», mas não deixa de ser um grande filme.
Ao contrário de todos os outros, Sacanas Sem Lei parte de um tema maior: a II Grande Guerra. Já não são histórias de gangsters, mestres de artes marciais ou carros vingadores. Trata-se de História, com personagens históricas à séria, como Hitler, Goebbels e até Churchill. Aliás, é o seu primeiro filme de época e é daí que parte toda essa expectativa. É por isso que de Sacanas sem Lei se espera mais do que de À Prova de Morte.
Tarantino é um Deus das pequenas coisas, dos fait-divers, da extrema ironia entre texto e subtexto. Tal como no famoso diálogo do hambúrguer, em Pulp Fiction, aqui coloca figuras históricas em conversas e situações, tão banais, como um infantil jogo de cartas. No filme, falado em quatro idiomas (inglês, francês, alemão e italiano), cria situações brilhantes, que fazem brilhar até Brad Pitt (e, acima de tudo, Christoph Waltz).
Tal como em À Prova de Morte, Sacanas Sem Lei é um filme sobre a vingança, estruturada de forma mais abrangente e menos geométrica (aqueloutro divide-se rigorosamente entre crime e vingança). Aquele que é, provavelmente, o mais cinéfilo realizador da sua geração vinga os judeus através do próprio cinema. Duplamente. No argumento, é no cinema que acaba com o regime nazi. Mas ao refazer a História com a sua história, produz a mais sublime vingança, tal como havia feito Chaplin em O Grande Ditador (1941, no caso de Chaplin tratou-se de idealizar um futuro feliz).
Só que desta feita, em vez de sonhar com uma conversão esquerdista, um golpe colectivo de lucidez do povo alemão, Tarantino engendra uma vingança sádica e extremamente violenta bem ao seu estilo de Cães Danados, mas, tal como em À Prova de Morte, politicamente correcta. E, sejamos francos, é um imaginário prato frio que nos sabe tão bem…

Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

"Vou onde as histórias me levarem"

Entrevista com Milos Forman



É um convidado de luxo. Milos Forman vai estar no Douro Film Harvest, até 13 de Setembro, para apresentar um ciclo. Receberá uma pequena estatueta para juntar à sua farta colecção de prémio que inclui dois Óscares (Voando sobre um Ninho de Cucos, 1975; e Amadeus, 1984). O realizador checo-americano, de 77 anos, fala sobre o seu cinema e os seus projectos, que incluem um filme com guião de Vaclav Havel.

Em Os Fantasmas de Goya, refere-se ao Vinho do Porto, explicando que sabe melhor por ir embalado pela ondulação nos navios. Curiosamente, agora vai ser homenageado na terra do vinho...
Não serei propriamente um especialista em Vinho do Porto, mas bebo de vez em quando e gosto muito. Por isso, estou muito satisfeito por ter a oportunidade de conhecer a terra onde se cultiva. É a minha primeira viagem a Portugal. Atravessei uma vez o país de carro, mas não parei em lado nenhum, por isso não conta.

Quem escolheu os filmes que vão ser apresentados no Festival?
Prefiro sempre confiar no critério dos organizadores. Eles sabem, melhor do que ninguém, os filmes que lhes interessam mostrar, atendendo às características do público e do próprio país. Além disso, seria muito penoso para mim fazer a selecção: gosto de todos os meus filmes por igual, como se fossem filhos.

Tem um percurso extenso, com filmes marcantes e muitos prémios, será que ainda tem espaço para mais distinções? O que lhe resta fazer?
Há sempre espaço. O meu objectivo não é superar-me sucessivamente. Quero fazer o que me apetece da melhor forma possível. Descubro um tema que me entusiasma, uma história, uma personagem e depois, simplesmente, faço o filme.

E o próximo será O Fantasma de Munique…
Ainda não é certo, porque o financiamento não está garantido. Estão a tentar mas ainda não se sabe se vão conseguir.

O guião foi escrito a meias com o Vaclav Havel...
Somos amigos de infância e fomos mantendo o contacto. Estando este trabalho ligado à História da República Checa, achei que seria a pessoa indicada para me ajudar. Não só é um grande escritor como percebe muito de política – foi Presidente da Checoslováquia durante uma década.

É um luxo ter um ex-Presidente como guionista. Como é que um filme destes não consegue financiamento. É muito caro?
Não é assim tão caro. Mas o tema é delicado, mexe com a sensibilidade de muitas pessoas, em França e na Alemanha… Receiam que as pessoas não o queiram ir ver.

O Pacto de Munique determinou a invasão nazi da Checoslováquia, é um momento histórico de grande importância para os checos…
É importante para todos. Mostra algo na História da Europa que é muito significativo. O que aconteceu em Munique deve ser recordado. Por isso é que quis fazer este filme, que será filmado sobretudo na França e na Alemanha.

Em muitos dos seus filmes, prefere rodar em cenários reais, como em Espanha e em Praga, apesar de tal poder criar enormes obstáculos. Porquê?
Gosto de filmar nos sítios onde a história realmente aconteceu. Se a história se passa em Espanha, é para lá que eu vou. Dificuldades há em qualquer lado. Por vezes é muito difícil filmar em estúdio.

Ao longo da sua vida passou pelo nazismo, democracia, comunismo, o estilo de vida americano com diferentes presidentes. É algo que deve influenciar a sua forma de ver o mundo. Tal reflecte-se nos seus filmes?
Espero bem que sim, porque a malograda oportunidade que tive de viver em diferentes tipos de sociedades, fazem-me aperceber de tantas contradições nas nossas vidas e nos nossos mundos. Quanto mais experiência se tiver, melhor se entende o que se passa no mundo que nos rodeia.

Hoje em dia, sente-se mais checo ou americano?
Não consigo saber ao certo. A minha história na Checoslováquia está guardada profundamente no meu coração e na minha memoria. Contudo, da mesma forma está presente a minha experiência americana. O que me ocorre dizer é que somos todos cidadãos do mundo.

Alguma vez pensou em voltar a filmar em checo?
Nem por isso. Saí da República Checa há tanto tempo que se agora fosse para lá trabalhar sentir-me-ia um estrangeiro. No entanto, há dois anos fui a Praga fazer um pequeno filme na Ópera. Vou onde as histórias me levarem. Se uma história me levar para lá, eu vou. Se me levar para Portugal, vou para aí. Porque não?

Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

Aquele Abraço

Abraços Desfeitos, de Pedro Almodóvar





Só Almodóvar coloria assim um melodrama negro. Em Abraços Desfeitos, o realizador abraça o cinema e as suas musas

«Dona Sangre». O apelo à doação voluntária de sangue num cartaz das ruas de Madrid assalta, de súbito, a imaginação de uma personagem do novo filme de Pedro Almodóvar (Abraços Desfeitos estreia-se hoje, dia 10). E se a Dona Sangre fosse o nome de uma mulher, uma vampira empresária que dominasse este sistema de colectas, armazenamentos e transfusões sanguíneas? Dava um filme, pensa essa personagem... Um filme de vampiros, mas de vampiros diferentes, civilizados, rendidos ao capitalismo e ao século XXI. Que não andassem para aí, em sofreguidões desenfreadas, a atacar vítimas incautas. Estes vampiros do filme dentro do filme seriam mais empreendedores, não só colectariam assepticamente o sangue dos cidadãos, como dominariam o mercado das melhores marcas de óculos escuros e dos mais infalíveis protectores solares.

O que pode parecer um momento episódico, diluído em todos aqueles abraços que se fazem e desfazem do enredo, talvez não tenha sido convocado para o 17º filme de Almodóvar por acaso.

Talvez nos últimos tempos o realizador, atormentado por misteriosas enxaquecas, tenha sentido alguma afinidade com as sanguinárias criaturas, impedidas de apanhar luz solar. Pedro Almodóvar, o homem que tem medo da luz. Ele é um realizador como fotofobia – um paradoxo para quem luz é matéria de trabalho. Tem de andar sempre de óculos escuros, protege-se com chapéus, a única coisa que pacifica as suas enxaquecas é encerrar-se dentro de um quarto na obscuridade, sem uma fresta de luz, nem aquela que emite o computador ou a televisão.

Nesses momentos, fica completamente dominado pela dor. O sofrimento impede-o de trabalhar mas não lhe anula a imaginação. Por isso, diz que este filme nasceu de uma «dor obscura». Aí nasceu o protagonista do seu filme, tal como ele, tocado pelo paradoxo, ou pela ironia sarcástica do destino: um cineasta que vive na escuridão, porque cegou.

Este realizador cego (Lluís Homar) parece ter-se adaptado à sua desventurada condição. Continua a escrever guiões, seduz as mulheres que o ajudam a atravessar a rua, os amigos e a sua fiel produtora entram-lhe jovialmente pelo seu apartamento nas alturas mais inoportunas. É assim que começa o filme, num registo solar. Quase como uma comédia almodovariana de outros tempos. Só que depois se vai obscurecendo, enegrecendo, até o melodrama sombrio se instalar. Porque este homem tem um segredo – como todas as personagens de Almodóvar. E esse segredo envolve uma mulher – como todos os guiões de Almodóvar.

Abraços Desfeitos é um filme negro. Há um doente terminal, uma mulher fatal, um amor desafortunado, um magnata poderoso, uma paternidade que se rejeita, outra que se revela, alguém que fica cego, alguém que se sacrifica por amor, alguém que se vinga, alguém que sangra... Até há alguém a rolar dramaticamente por uma escadaria, como acontecia tantas vezes, nos filmes da era dourada de Hollywood. Só que até neste mundo de «dor obscura» o realizador consegue estampar o seu carimbo technicolor. Momentos disruptivos, salpicos de humor que interrompem a mancha sombria que adensa o filme. Como aquela lembrança inventiva de escrever um guião sobre vampiros modernos, ou a de pôr uma mulher a fazer leitura labial de um vídeo indiscreto, só para o magnata saber o que sussurra a sua amante quando está com... o outro amante. Tudo isto com a mestria exemplar de um realizador, que faz avançar e recuar no tempo a narrativa, catorze anos para a frente e para trás, com uma extraordinária fluidez.

Muito muito distante da obra-prima que produziu com Fala com Ela (2002), Abraços Desfeitos pode não ser «o» grande filme, mas continua a ser «um» filme grande. Tem a grandeza de um realizador que, por menos que se esmere, nunca conseguirá diminuir-se, aquém da mediania. Além disso, o trailer do filme é maravilhoso, quase mais do que o próprio filme: uma sequência à Cinema Paraíso, de Tornattore, só que em vez de beijos acompanhados pela música de Morricone, Almodóvar alinha todos os abraços que vão sendo dados ao longo do filme.

Na carreira do realizador este é um filme de fim de ciclo, como se ele quisesse abraçar toda a sétima arte e as suas musas – corporizadas por uma camaleónica Penélope Cruz (ver caixa) É o cinema que tudo incorpora, cura e regenera. É no cinema que o amor permanece e os abraços se eternizam, como o dos amantes carbonizados pela lava de Pompeia, em Viagem a Itália, de Rosselini – cena que também comparece no filme. Almodóvar abraça o cinema. O que viu e o que fez. Estão aqui os seus velhos temas de sempre, o amor, a morte, as relações parentais não resolvidas (há uma referência explícita ao filho renegado de Arthur Miller e outra implícita ao de Ernest Hemimgway), a homosseuxalidade e as chicas, claro… Aliás, o filme dentro do filme, aquele a que o protagonista se dedica, é uma óbvia citação a Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, as mesmas cores, o mesmo décor, o mesmo gaspacho com soporíferos, e a sempre tão picassiana Rossy de Palma.

4ª colaboração com Penélope Cruz
Penélope Cruz na sua versão Audrey Hepburn ou na sua versão mais platinado à Marylin. Num look mais pop, mais chicas de Almodôvar na comédia que se roda dentro do drama, mais veraneante nas praias de Lanzarotte, ou mais executivo dentro de um tailler. Ou mais novo-rico no seu Channel cheio de correntes douradas. As mesmas que a amarram àquele empresário milionário. Ela é uma Rita Wayworth em Gilda. O amante rico, que produz um filme só para favorecer a namorada actriz é um Marlon Brando à Citizen Kane. No fundo, Almodóvar «abraça» tudo isto. Abraça os velhos temas do cinema de sempre, o amor, a vingança, a morte, as relações paternais não resolvidas... E até abraça aquilo que ele próprio inventou.

Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Sociedade limitada

Sujidade & Sabedoria, de Madonna






Falar dos talentos cinematográficos de Madonna seria tão monótono e extenso como fazer um inventário de tudo o que escasseia num hospital da Serra Leoa. Faltam pensos rápidos para a paciência, desinfectante para o mau gosto, ligaduras para o lugar comum, etc, etc…

No que respeita ao marketing do título, Madonna exibe todo um know-how de programa eleitoral. Apenas cumpre 50% do prometido. E entre a sabedoria e a sujidade nem vale a pena referir qual a porção que mais abunda naquele que é o primeiro filme realizado pela cantora.
Não há nada de estranho no facto de Madonna decidir realizar um filme. Na verdade, há para aí umas três décadas que a cantora trabalha com a imagem.

Além disso é a cantora mais rica do mundo, pode muito bem permitir-se a uma incursão em território alheio. A questão é que se não fosse o seu nome na ficha técnica do filme, ele nunca estrearia numa sala de cinema. Não por ser chocantemente mau – há realizadores profissionais que produzem objectos muito mais embaraçosos do que este. Mas por ser um filme completamente irrelevante, que não teria interesse nem sequer no mais pindérico festival de terceira categoria.

Noutro escalão etário, este até podia ser considerado um filme promissor, embora um tanto imaturo, mesmo para os teenagers que tanto se dedicam a home-movies.

Da sabedoria de Madonna não se esperava grandes considerações filosóficas, mas no que toca a sujidade, regista-se o esforço escatológico. Sujidade & Sabedoria limitada.


O que Madonna tem para apresentar, neste sector, é um líder de uma banda punk cigana (Eugene Hutz faz de si próprio, líder dos Gogol Bordello) que ganha a vida a fazer serviços de macho ou fêmea (varia...) dominadores. Uma bailarina clássica que ganha a vida a fazer streap-tease agarrada ao varão. E uma filantropa (gostava era de ir para África vacinar crianças) que ganha a vida como farmacêutica. Tudo isto num ambiente londrino, completamente datado e déjà vu.

Alguém tem de avisar Madonna que se ela quer chocar, isso já não vai lá com chicotes, nem correntes, nem unhas pintadas de preto, nem danças no varão, nem cenas sado-masoquistas, nem donas de casa gordas vestidas de colegial…
Não se elevando num altar de bom gosto, o filme salva-se não tanto pelo sotaque ucraniano e pelo bigode de Eugene Hutz, que vai tecendo umas pretensiosas considerações sobre a vida. Mas por uma outra cena: Aquela em que a actriz que faz de bailarina mata uma barata com a sapatilha cor-de-rosa de ballet. Para metáfora não está nada mal. Para uma principiante também não…

Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Milos Forman em Terras do Douro

Em Terras do Douro (Santa Marta de Penaguião, Vila Real e Torre de Moncorvo) Milos Forman é convidado de honra do Douro Film Harvest, que começa amanhã, 9, e decorre até dia 13. É a primeira visita ‘oficial’ do realizador checo-americano a Portugal. Apresenta uma retrospectiva, com os sues filmes mais comerciais (e não as obras checas do princípio de carreira), incluindo Voando sobre um Ninho de Cucos e Amadeus, pelas quais recebeu o Oscar. Ana Padrão e Ricardo Trêpa são os anfitriões de um festival que conta ainda com um concerto da banda de jazz de Kyle Eastwood, filho de Clint, para o qual compôs já várias bandas sonoras. O concerto decorre, no dia 12, num barco atracado no Rio Douro.

Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Teste os seus conhecimentos sobre Quentin Tarantino!

Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

A última saída



35 shots de Rum, de Claire Denis








O principal mérito de 35 Shots de Rum, da experiente realizadora Claire Denis, é o afastamento dos estereótipos do novo cinema francês: não é mais um filme sobre a burguesia, nem sobre os subúrbios de Paris ou Marselha, nem os actores são brancos ou árabes. 35 Shots de Rum espelha uma França negra, há décadas enraizada, sem sombra de problema social ou de minoria étnica. A França de Lionel, que é maquinista do metro (Alex Descas, que grande actor!), e da sua filha. Acaba, assim, por ser um filme banal sobre pessoas normais, e como diz Laurence Ferreira-Barbosa (outra realizadora francesa), as pessoas normais não têm nada de especial, o que tanto pode resultar em virtude como em tédio.
O filme centra-se numa família atípica, mínima e excessivamente coesa, assente num equilíbrio peculiar da relação pai-filha (a filha já adulta), que funciona como um casal. Este eixo, tão forte e intenso, desequilibra-se com a entrada de novas personagens, sobretudo com o namorado da filha, mas também com as amigas do pai. A dependência é enorme e o corte do cordão umbilical inconveniente, pelo que a jornada de libertação, amadurecimento, se revela estranhamente infrutífera, e a única felicidade possível está no retorno a casa e ao estranho código binário, que tanto os liberta como os aprisiona. Uma saída sem saída.

Quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

De olhos bem abertos




Quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Quem não tem medo do MotelX?

«Filmes que vão fazer as pessoas sair da sala», é a promessa da organização. E assim se mede o sucesso de um festival de cinema de terror, como o MOTELx, que decorre de 2 a 6 de Setembro, no São Jorge, em Lisboa. O cinema de terror ora provoca sustos ora vontade de rir. Quem tem medo mais vale não sair de casa. A programação promete: 35 longas-metragens e 27 curtas, incluindo, pela primeira vez, uma sessão competitivas, para apurar a melhor curta de terror portuguesa. O grande destaque vai para Viva la Muerte! Autopsie du Nouveau Cinema Fantástique Espagnol (dia 4, às 19 e 30), de Yves Montmayeur, com a presença do realizador. Em Lisboa, também vai estar o norte-americano Stuart Gordon, homenageado na secção Culto dos Mestres Vivos, com a exibição do seu clássico gore Re-Animator (dia 4, às 21 e 45). No programa Serviço de Quarto, filmes dos quatro continentes. Entre outros, Vinyan (dia 5, às 17), do belga Fabrice du Welz; Martyrs (dia 3, às 24), de Pascal Laugier; Mum & Dad (dia 4, às 0 e 15), de Steven Sheil; Deadgirl (dia 5, às 19), de Gadi Harel e Marcel Sarmiento; Pontypool (dia 5, às 22), de Bruce McDonald; e Macabre (dia 5, às 24), dos Mo Brother. Decorrem ainda masterclasses de Stuart Gordon e John Landis. Na secção Quarto Perdido, salienta-se A Dança dos Paroxismos, com música ao vivo de Legendary Tigerman e Rita Redshoes (dia 3, às 21 e 45), um filme realizador põe Jorge Brum do Canto com 80 anos.