Houve tempo em que fui saudosista, daquele tipo lamecha que entristece porque o que era já não é, a juventude se perde, os mortos não ressuscitam, as amizades fenecem e a vida não tem marcha atrás.
Não dei conta de como sucedeu, mas quase de um momento para o outro deixei de ter saudades, foi assim a modos de um cortinado que, ao descer, me separasse do passado.
Tal como outros por dieta diminuem o sal e o açúcar, corto eu nas recordações, desligando o ecrã onde, as mais das vezes a ensombrar-me, projectava momentos e memórias.
Já oiço o fado sem que se me humedeçam os olhos, leio a Mensagem com desprendimento, passo indiferente pelas ruas em que vivi, sinto-me constrangido se alguém, conversando, refere um episódio meu.
Corto-me do passado, mas não acho consolação no presente, nem tenho certezas para o futuro. Vou assistindo, mero espectador da minha vida, descontente com o personagem e desinteressado do enredo.
Sexta-feira, Janeiro 20
Quinta-feira, Janeiro 19
"Blogues do ano 2012"
Por iniciativa desconhecida Tempo Contado aparece inscrito no concurso "Blogues do ano 2011". Sem ofensa, mas quem me conhece sabe que desde 1940, ao sair da primária, deixei de participar em corridas de sacos.
Joelhos
(Clique para aumentar)
Um fascínio. Joelhos, e aqueles trinta centímetros de coxa que as saias curtas deixam ver, os olhos passam num relâmpago, elas nem dão conta, mas mulher sentada à sua frente é avaliada por esse particular.
Galanteios, apartes bem doseados, conhece de sobra a arte e em geral vence. Agora se ela tem joelhos redondos e lisos, coxas prometedoras, a fantasia dispara, custa-lhe seguir a conversa, imagina-se amante submisso a despi-la com delicadezas de pajem, refinando carícias, deleitado de vê-la rebolar os olhos, suspiros prolongados em roncos, lábios entreabertos, as mãos inquietas a arrepanhar o lençol.Tinham combinado na esplanada, às oito, mas Manuela não é de pontualidades nem avisos. Quando finalmente aparece nada de desculpas ou beijos, acena olá e deixa-se cair na cadeira com uma afogação de teatro.
- Ao sair do táxi dei um tombo!
Senta-se de lado, repuxa a saia a mostrar os joelhos, ele aproximando-se, debruçado, a fingir atenção, só arranhadelas, tão leves que nem sangram.
- Dói? Queres ir à farmácia?
- Não. Isto não é nada.
Manuela, a afilhada, o bebé que levou ao baptismo, a miúda que viu crescer, a bela rapariga de vinte e poucos anos que agora tapa a boca às mãos ambas e não consegue parar o riso.
- O que é?
- Não digo.
- Não sejas criança - e voltando-se para o empregado: - Outro café, um sumo de laranja - Diz lá.
- O meu pai!.. – o riso sufoca-a, das outras mesas há quem se volte num modo entre a simpatia e o incómodo, supondo talvez uma inconveniência do cinquentão.
- O meu pai!... Não, não, a minha mãe também! Lá em casa estão sempre a dizer que tens uma coisa com joelhos, assim como um fetichismo, e quando te vi a olhar!...
Abana a cabeça, que tolice é essa, sobressaltado pela lentidão com que a afilhada cruza as pernas, surpreso do pensamento que lhe ocorre e nunca tinha tido.
………..
Doutzen Kroes só ilustra a história, a fotografia foi tirada daqui.
Quarta-feira, Janeiro 18
Gatos e gentes
(Clique para aumentar)
Foi apenas coincidência. Pense o que quiser, ou não pense, olhe ou não olhe. Passe adiante. Mas se tem curiosidade de saber, aconteceu sábado passado em Breda, no sul da Holanda.
O gatinho tinha subido a uma árvore e, como não conseguia descer, a vizinhança chamou os bombeiros. Ao ver a escada e o homem que vinha salvá-lo, o bichano, amedrontado, atirou-se ao canal.
O bom samaritano que se vê na fotografia, não hesitou: despiu-se, esqueceu a água quase gelada, dando ao caso um happy end .
Acontece agora que no momento em que a imagem e a notícia apareceram no computador, estava eu a folhear A Capital, o romance de Eça de Queiroz, em busca de um episódio que particularmente me interessa. Encontrada a página continuei a ler:
"- Grandíssimo burro! Se nós lhe apanhássemos o dinheiro, hem? Era logo comboio para Lisboa, e bater para o Dafundo, com um par de pequenas.
(Artur) Enterrou as mãos nos bolsos e tornou-se sombrio.
A chuva cessara; um vento frio ia rolando espessuras de nuvens, espaços azuis estrelavam-se.
- Pois tivemos uma bela cavaqueira – disse o Rabecaz, quando Artur parou à porta de casa. - Eu gosto de conversar com quem me entenda e cá o amigo é dos meus. Apareça pela Corcovada. Não se passa mal.
E avistando um gato atirou-lhe uma bengalada."
Terça-feira, Janeiro 17
Voltas da nora
Sobre a literatura (ciência do literato), a arte da escrita, escolas, estilos, épocas, tendências e enredos, personagens e autores, são incontáveis os tratados. Tenho lido bom número deles, com alguns aprendi, alguns safaram certezas, outros mandaram-me por veredas de que depois tive de arrepiar.
Se faço o balanço constato que não encontrei o que procurava e, porque estava acima do meu entendimento ou me faltava sensibilidade, foi escasso o proveito. Mantenho, sim, as incertezas do começo, tropeço nos mesmos obstáculos, desaponta-me, sobretudo, a impossibilidade de mudar.
Agora é tarde, mas como deveria ter feito para ser outro? Por que razão não vi o melhor caminho? Quem me algemou? Que força, vício, defeito, me obriga a este rodar de animal puxando a nora, o chão por horizonte?
Se faço o balanço constato que não encontrei o que procurava e, porque estava acima do meu entendimento ou me faltava sensibilidade, foi escasso o proveito. Mantenho, sim, as incertezas do começo, tropeço nos mesmos obstáculos, desaponta-me, sobretudo, a impossibilidade de mudar.
Agora é tarde, mas como deveria ter feito para ser outro? Por que razão não vi o melhor caminho? Quem me algemou? Que força, vício, defeito, me obriga a este rodar de animal puxando a nora, o chão por horizonte?
Segunda-feira, Janeiro 16
Coisas de Macau
(Clique para aumentar)
Alguma coisa se aprende com elas, e bem divertidas são as estatísticas. Assim ando eu a informar-me sobre Macau. Ao que parece, se decidir ficar por aqueles lados ainda me restam 2.37 anos de vida, pois a média é lá a mais elevada do mundo: 84.37. Curiosa também, a dos nascimentos: 0.91 bébé por mulher, como que a sugerir que os miúdos nascem incompletos, com menos dedos ou sem tringalha.
E em Macau passeiam-se as simpáticas da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) que, em sorridente contradição, exibem tentadoramente a carne para nos convencer a deixar de comê-la.
...........
© fotografias: Barbosa Briosa.
Domingo, Janeiro 15
Segunda visita a Macau
Por Macau já andei, noutra vida, no tempo em que Camões vivia e eu, rapaz aventureiro, me tinha alistado na esquadra de paraus de Sandokan, o Tigre da Malásia. Ancorámos lá para fazer aguada, e recordo vivamente a tarde em que, num largo com igreja, um colega malaio me apontou um sujeito alto e zarolho, dizendo que, morresse eu ali, era o cargo daquele homem assentar-me no Livro dos Ausentes e Defuntos. E mau grado o não ter melenas nem ar de tuberculoso, diziam-no poeta.
Foi isso noutra reincarnação – desde aí tive duas – e quer o acaso que, a actual prestes a terminar, me convidem agora para retornar a Macau.
Sei o que vou encontrar, o Google ajuda, sei também mais ou menos que de mim esperam, e durante uns dias tentarei desempenhar o papel que me propõem, o do escritor a dizer seriamente coisas sérias sobre a literatura, a inspiração e a dificuldade de existir.
Problemático, se se der, será o momento em que, ao passar por um largo com igreja, me escape no tempo, aperceba Camões e, esquecendo ao que vim, deite a correr atrás dele.
Foi isso noutra reincarnação – desde aí tive duas – e quer o acaso que, a actual prestes a terminar, me convidem agora para retornar a Macau.
Sei o que vou encontrar, o Google ajuda, sei também mais ou menos que de mim esperam, e durante uns dias tentarei desempenhar o papel que me propõem, o do escritor a dizer seriamente coisas sérias sobre a literatura, a inspiração e a dificuldade de existir.
Problemático, se se der, será o momento em que, ao passar por um largo com igreja, me escape no tempo, aperceba Camões e, esquecendo ao que vim, deite a correr atrás dele.
Sábado, Janeiro 14
Um que deixou marca
Tirante a família, na minha longa vida são bastantes os que recordo, poucos, meia dúzia se tanto, os que até agora deixaram marca perene. Tivesse eu de fazer deles uma lista, Joaquim Novais Teixeira (1899-1972) ocuparia o primeiro lugar. Trinta anos nos separavam e, contudo, mau grado o fosso entre as suas extraordinárias vivências e a ingenuidade do rapaz que começava na vida, logo no primeiro encontro criámos um genuíno laço de amizade.
Foi para mim o mais dedicado dos mestres, guiando, explicando, aconselhando, avisando, mas sempre cuidadoso em esconder a cátedra e o seu saber, deixando-me na ilusão de que quase aprendia por mim próprio. Ensinou-me mais de Literatura do que aprenderia na universidade; por sua mão fiz como que um curso superior de Cinema; introduziu-me em meios e providenciou contactos que transtornariam a minha visão da Política e da História, e fariam envergonhar da tosca singeleza das minhas convicções.
Foi honra o convidar-me para a intimidade familiar, nomeando-me sobrinho, honra maior fazer-me seu confidente. Porque era generoso e tinha gosto em partilhar amizades, mais de uma vez comi a fabada asturiana que mandava cozinhar quando o seu amigo Luís Buñuel vinha de visita. Comi, mas confesso, assustado com a fama do homem de quem conhecia os filmes, e maravilhado de me ver em tal companhia.- Este é o Gabo.
Como ia eu saber que, tendo lido uns textos do rapaz, Novais o entusiasmava para que escrevesse, detectando o Gabriel García Marquez que chegaria ao Nobel?
Um fim de tarde estamos no La Rhumerie do Boulevard Saint-Germain a beber cerveja. Vêm cumprimentá-lo e sentam-se connosco dois conhecidos seus, Brigitte Bardot e Roger Vadim . Estonteante momento para um jovem transmontano.
Levo-o a visitar uma amiga num prédio do Quai des Grands-Augustins e, numa jactância tola, digo-lhe que no andar de cima vive Picasso. A vergonha viria de saber que ao pintor já ele desde os anos 20, quando vivera em Madrid, tratava por Pablo.
Sempre me confundiu, e continua a surpreender, que o jovem vimaranense que foi secretário de Manuel Azaña, o presidente da República espanhola; o jornalista brilhante; o intelectual que tão alta consideração gozou nos meios políticos, literários, artísticos e cinematográficos, em Espanha, França e no Brasil; o português que conheceram e frequentaram todos os "grandes" opositores políticos, escritores, artistas e cineastas portugueses que nas décadas de 50 a 70 viveram em Paris; o homem que tantas portas abriu e tantos compatriotas ajudou; continua a surpreender, sim, que toda essa gente se tenha calado e cale.
Apenas duas excepções conheço: os pintores António Dacosta (1914-1990) e Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992). E o bom António Alçada-Baptista (1927-2008), que algumas vezes o visitara, nada lhe devia, e se pasmava da ingratidão duns e da ignorância dos mais, ensoberbados por terem fama no Chiado.
Satisfeito o pedido, dada a ajuda ou concedido o favor, essa gente distanciava-se a seguir quanto podia, pois sentiam que com a sua experiência de muitas vidas, e talento para "radiografar" comportamentos, Novais Teixeira lhes punha a alma e a sabujice a nu.
Ainda andam por aí velhotes importantes que, quando se lhes fala de Novais Teixeira, tomam o ar nebuloso dos primeiros sintomas de Alzheimer e acenam vagamente que sim, acho que me lembro, era um jornalista, não era? A vontade que então dá é de fazer coisas incompatíveis com a minha idade e as boas maneiras.
Não era de queixas, mas amargurava-o o sentimento de quanto lhe doía Portugal, e que nos vissem manhosos, pequenotes, fanfarrões sem jeito, e por vezes tão canalhas.
A fazer contrapeso, refugiava-se ele numa idealização da pátria, com outra gente e recordações de um Minho de As Pupilas do Senhor Reitor. Mas era teatro, e a sua inteligência não lhe deixava continuar por muito tempo a comédia. Voltava então à cena o verdadeiro Novais Teixeira, o homem que de tão modesto parecia ser o avesso de brilhante, mas cujas qualidades intelectuais cintilavam mesmo na mais anódina das conversas.
…………………..
in Jornal de Letras – 11.01.2012
Quinta-feira, Janeiro 12
A batalha de Aljubarrota
(Clique para aumentar
Só quero mal a dois ou três sujeitos, talvez quatro, mas mesmo a esses desejo boa saúde. Não rezarei para que quebrem as pernas, mas se lhes puder pagar em dobrado a tratantice não perdem pela demora. Isto a modo de aviso de que sou homem de paz, comigo nada de revoluções nem violências, o que não impede que, sonhando acordado, me imagine a conceber estratégias para solucionar as desgraças do país.
Foi assim que me perguntei quantos serão os senhores que verdadeiramente detêm o poder em Portugal. Quinhentos? Mil? Mais do que isso parece-me excessivo, e creio que talvez nem a mil cheguem. Se numa tarde de Verão se agrupassem no Terreiro do Paço, junto da estátua, com os turistas que ali andam nem se daria por eles. Compare-se agora esse punhado de gente poderosa com os quase onze milhões que somos, e a conclusão impõe-se: não se trata de desequilíbrio, mas de um absurdo, que não é saudável para eles, nem proveitoso para nós.
Não sei por que vias travessas me ocorreu a batalha de Aljubarrota, onde trinta mil deitaram a fugir diante de sete mil, mas a comparação é trôpega, pois nem nós temos mentalidade de castelhanos, nem os senhores do poder possuem o génio do Condestável. Por conseguinte, a solução terá de vir por outros meios, mas é bom que não demore, e eles se dêem conta de que, se assim não for, só perde quem tem. Nós, os onze milhões, pouco temos para perder.
Foi assim que me perguntei quantos serão os senhores que verdadeiramente detêm o poder em Portugal. Quinhentos? Mil? Mais do que isso parece-me excessivo, e creio que talvez nem a mil cheguem. Se numa tarde de Verão se agrupassem no Terreiro do Paço, junto da estátua, com os turistas que ali andam nem se daria por eles. Compare-se agora esse punhado de gente poderosa com os quase onze milhões que somos, e a conclusão impõe-se: não se trata de desequilíbrio, mas de um absurdo, que não é saudável para eles, nem proveitoso para nós.
Não sei por que vias travessas me ocorreu a batalha de Aljubarrota, onde trinta mil deitaram a fugir diante de sete mil, mas a comparação é trôpega, pois nem nós temos mentalidade de castelhanos, nem os senhores do poder possuem o génio do Condestável. Por conseguinte, a solução terá de vir por outros meios, mas é bom que não demore, e eles se dêem conta de que, se assim não for, só perde quem tem. Nós, os onze milhões, pouco temos para perder.
Quarta-feira, Janeiro 11
Um gesto
Vai para trinta anos tiveram uma coisa de pouca dura, ambos arrependidos da traição e temerosos do risco. Depois a vida mandou cada um para seu lado, nunca mais se viram ou procuraram, conta ele agora que mesmo a recordação se fora esvaindo aos poucos. Grande surpresa, pois, quando dias atrás o acaso os juntou numa festa de aniversário. Viu-a sentada, a conversar, diz que se aproximou, mas não pôde mais que tocar-lhe no ombro.
Ela sorriu-lhe, continuou a conversa, só muito depois se viram frente a frente, a memória a acordar em ambos os jovens que tinham sido.
Tinham evitado as banalidades, felizmente não se deram cumprimentos, emocionados demais para a mentira de que o tempo os tinha poupado, ou estás cada vez mais bonita, e tu não mudaste.
- Conversa tola, a falar verdade. O que me surpreendeu, quando chegámos a casa, foi a minha mulher perguntar se tínhamos tido… Neguei, claro. E diz ela assim: não deste conta, mas eu vi como lhe puseste a mão no ombro.
Terça-feira, Janeiro 10
Almôndegas
Gosto de ver, aprecio o resultado, leio receitas com o entusiasmo de um concorrente ao Master Chef, mas as minhas habilitações de cozinheiro ficam abaixo das de aprendiz. Consigo, todavia, que uma meia dúzia de receitas me eleve acima dos analfabetos da culinária, e por elas receba modesto aplauso.
Como é possível que, à minha semelhança, também outros detestam esforço, mas saboreiam os cumprimentos, esta receita de almôndegas é rápida na confecção e de sucesso garantido. Fi-la pela enésima vez a semana passada, e pela enésima vez também os comensais bateram palmas e comeram tudo.
Para a massa:
- picar meio quilo de carne de vaca e meio quilo de carne de porco;
- cerca de 100 g. de pão ralado;
- 3 dente de alho esmagados;
- 2 ovos;
- 1 cálice de Vinho do Porto;
- 2 colheres de chá de cominhos em pó;
- um ramo de salsa picada;
- sal, pimenta e piri-piri a gosto.
Amassar até obter consistência. Com a massa – humedecendo ligeiramente as mãos em água - fazer almôndegas, polvilhá-las com farinha e fritar em azeite. Depois de fritas reservá-las numa assadeira.
Para o molho:
- 1 cebola grande, picada;
- 4 dentes de alho, esmagados;
- 1 copo de vinho branco;
- 1 litro de caldo de galinha;
- 1 ramo de coentros, picado;
- 1 colher de sopa de farinha;
- piri-piri a gosto.
No azeite que ficou de fritar as almôndegas, alourar a cebola e de seguida os alhos, evitando que esturrem. Estando a cebola e os alhos alourados o suficiente, acrescentar o vinho e o caldo de galinha. Deixe ferver cerca de 5 min.
Deite o molho sobre as almôndegas na assadeira, leve ao forno (200 graus) cerca de meia hora.
Como é possível que, à minha semelhança, também outros detestam esforço, mas saboreiam os cumprimentos, esta receita de almôndegas é rápida na confecção e de sucesso garantido. Fi-la pela enésima vez a semana passada, e pela enésima vez também os comensais bateram palmas e comeram tudo.
Para a massa:
- picar meio quilo de carne de vaca e meio quilo de carne de porco;
- cerca de 100 g. de pão ralado;
- 3 dente de alho esmagados;
- 2 ovos;
- 1 cálice de Vinho do Porto;
- 2 colheres de chá de cominhos em pó;
- um ramo de salsa picada;
- sal, pimenta e piri-piri a gosto.
Amassar até obter consistência. Com a massa – humedecendo ligeiramente as mãos em água - fazer almôndegas, polvilhá-las com farinha e fritar em azeite. Depois de fritas reservá-las numa assadeira.
Para o molho:
- 1 cebola grande, picada;
- 4 dentes de alho, esmagados;
- 1 copo de vinho branco;
- 1 litro de caldo de galinha;
- 1 ramo de coentros, picado;
- 1 colher de sopa de farinha;
- piri-piri a gosto.
No azeite que ficou de fritar as almôndegas, alourar a cebola e de seguida os alhos, evitando que esturrem. Estando a cebola e os alhos alourados o suficiente, acrescentar o vinho e o caldo de galinha. Deixe ferver cerca de 5 min.
Deite o molho sobre as almôndegas na assadeira, leve ao forno (200 graus) cerca de meia hora.
Segunda-feira, Janeiro 9
O espírito de Maria Antonieta
Dentro do possível esforço-me por evitar a avalanche de informações, opiniões e discussões sobre o estado da nação. É que mais do que aborrecer, desgosta-me a abundância de certezas, ideias justas, soluções, pontos de vista correctos, acusações definitivas, o deitar culpas, o apontar nos outros defeitos e injustiças.
Entristece pela inutilidade, o vazio. É divertimento dos senhores e senhoras das classes médias: classe média baixa, classe média média, classe média alta. Nem tido nem achado, o Zé Povinho fica de fora, que para ele não há lugar no divertimento, nem sequer é assunto do mesmo, a pontos que me pergunto de que ilusões se alimenta essa gente. Em que país vive? Que país quer? Que país constrói?
Será preciso repetir que Portugal é de todos nós? E o que sempre acontece quando alguns se julgam mais iguais do que os outros?
Domingo, Janeiro 8
Sábado, Janeiro 7
Madeleine
A correcção das nossas relações não bastava para disfarçar a antipatia mútua. Doentiamente ciumento, sempre a temer que lhe cobiçassem a mulher, Luigi suportava mal a minha presença. Eu era o predecessor - um dos predecessores! - no conhecimento íntimo daquele belo e apaixonado corpo, que já nos tempos de estudante valera à sua dona o apelido de Mad Madeleine. Apelido que, diga-se de passagem, só lhe davam os invejosos. Os que suportavam mal a sua inteligência e os que, julgando-se capazes de poder domá-la, tinham saído amachucados do que aos seus próprios olhos passavam por batalhas eróticas, mas de que ela desdenhava, referindo-se-lhes como simples escaramuças.
Nos anos em que tinha cursado Direito já a sua fama era grande, e dizia-se que a qualificação cum laude no diploma de licenciatura a devia tanto ao saber e ao talento, como às lições particulares que tinha dado aos professores mais influentes, revelando-lhes estímulos dos sentidos que alguns deles, ingénuos e menosprezando as consequências, tinham depois tentado repetir com as próprias mulheres.
Excepcionalmente jovem quando se formou, vinte e três anos, em vez de aceitar as óptimas ofertas de carreira surpreendeu os que lhe conheciam a ambição ao ir matricular-se em História da Arte.
Nos anos em que tinha cursado Direito já a sua fama era grande, e dizia-se que a qualificação cum laude no diploma de licenciatura a devia tanto ao saber e ao talento, como às lições particulares que tinha dado aos professores mais influentes, revelando-lhes estímulos dos sentidos que alguns deles, ingénuos e menosprezando as consequências, tinham depois tentado repetir com as próprias mulheres.
Excepcionalmente jovem quando se formou, vinte e três anos, em vez de aceitar as óptimas ofertas de carreira surpreendeu os que lhe conheciam a ambição ao ir matricular-se em História da Arte.
Aí o catedrático, femeeiro, conhecido por retribuir com recomendações e empregos os favores da cama, sucumbiu de pronto àquela excepcional combinação de great tits, great brains. A ligação que mantiveram nos três anos que ela demorou a formar-se, de novo cum laude, tomou proporções míticas no meio académico e fora dele.
Tinham-nos visto num prado, correndo nus a incomodar as vacas com ademanes de toureiros. E uma tarde Madeleine, Mad Madeleine, apresentara-se numa aula vestida apenas com um casaco de peles e sapatos de tacão agulha, recusando ceder ao cio do amante que, dando-se em espectáculo, primeiro implorante, depois transtornado e violento, a queria obrigar a que entrasse no seu gabinete.
Numa festa de abertura do ano lectivo tinha feito sufocar o idoso deão da faculdade, seduzindo o pobre homem com palavras suaves, olhares meigos, o esplendoroso decote, perguntando-lhe depois em voz alta, à queima-roupa, se nos seus tempos de estudante o sexo oral já era apreciado como substituto prático da biologicamente arriscada cópula.
Terminado o curso quebrara com o catedrático e tinha-se então estabelecido com um escritório especializado em casos que, directa ou indirectamente, se relacionavam com a Arte: transacções, contratos, seguros, conflitos entre galerias e artistas, representação de museus, e assim por diante. Uma mina de ouro que, num abrir e fechar de olhos, não somente lhe trouxera a riqueza, mas aos trinta e dois anos lhe criara uma sólida reputação internacional.
Quando se associou com John Moss e Hans Leibnitz para formar Hogden, Moss & Leibnitz, não foi surpresa para ninguém que a nova firma fosse ocupar no Herengracht um prestigioso edifício setecentista que, pelos séculos fora, tinha sido residência de aristocratas milionários, e cujos aposentos eram famosas pela requintada elegância.
Madeleine Hogden. Mad Madeleine. Como provavelmente todos os colegas, eu tinha ouvido falar dela, conhecia-lhe a história, lia de vez em quando nos jornais mais um episódio da sua vertiginosa ascensão profissional e social.
Madeleine Hogden a jantar em Paris com Henry Kissinger. Madeleine Hogden em tête-à- tête com o ministro das Finanças. Madeleine Hogden debruçada a beijar Kokoschka no dia dos seus dos noventa anos, uma das raras visitas que o pintor nesse dia recebera na sua casa de Villeneuve.
E mau grado a luz crua dos flashes, o que mais sobressaía nas fotografias não era a sua beleza, mas a aura que parecia envolvê-la, o carisma de que seria difícil dizer se irradiava do êxito, da confiança em si própria, ou de uma fogosa alegria de viver.
Numa festa de abertura do ano lectivo tinha feito sufocar o idoso deão da faculdade, seduzindo o pobre homem com palavras suaves, olhares meigos, o esplendoroso decote, perguntando-lhe depois em voz alta, à queima-roupa, se nos seus tempos de estudante o sexo oral já era apreciado como substituto prático da biologicamente arriscada cópula.
Terminado o curso quebrara com o catedrático e tinha-se então estabelecido com um escritório especializado em casos que, directa ou indirectamente, se relacionavam com a Arte: transacções, contratos, seguros, conflitos entre galerias e artistas, representação de museus, e assim por diante. Uma mina de ouro que, num abrir e fechar de olhos, não somente lhe trouxera a riqueza, mas aos trinta e dois anos lhe criara uma sólida reputação internacional.
Quando se associou com John Moss e Hans Leibnitz para formar Hogden, Moss & Leibnitz, não foi surpresa para ninguém que a nova firma fosse ocupar no Herengracht um prestigioso edifício setecentista que, pelos séculos fora, tinha sido residência de aristocratas milionários, e cujos aposentos eram famosas pela requintada elegância.
Madeleine Hogden. Mad Madeleine. Como provavelmente todos os colegas, eu tinha ouvido falar dela, conhecia-lhe a história, lia de vez em quando nos jornais mais um episódio da sua vertiginosa ascensão profissional e social.
Madeleine Hogden a jantar em Paris com Henry Kissinger. Madeleine Hogden em tête-à- tête com o ministro das Finanças. Madeleine Hogden debruçada a beijar Kokoschka no dia dos seus dos noventa anos, uma das raras visitas que o pintor nesse dia recebera na sua casa de Villeneuve.
E mau grado a luz crua dos flashes, o que mais sobressaía nas fotografias não era a sua beleza, mas a aura que parecia envolvê-la, o carisma de que seria difícil dizer se irradiava do êxito, da confiança em si própria, ou de uma fogosa alegria de viver.
Sexta-feira, Janeiro 6
Sarah
Sarah foi terminante ao vê-lo tirar a chave do bolso. Nada de carro. Era um passeio lindo, no máximo meia hora, saudável, boa oportunidade para estender as pernas. Iriam a pé. Parecia-lhe ridículo aquele hábito de não querer dar um passo.
- É atavismo. Vício dos meus antepassados. Mas não esqueça que durante anos andei no deserto, dias a fio. E acredite: caminhar sobre a areia não se compara ao luxo de uma calçada como esta.
Fizeram o caminho quase em silêncio. Num gesto casual, pouco depois de saírem do portão Jorge tinha-lhe tomado o braço, só o soltando ao entrarem no largo.
- Medo das más-línguas?
- Nenhum. Mais para resguardar a sua reputação.
A penumbra do cubículo onde o cesteiro tinha a loja obrigou-os a deter-se à entrada, o ancião a levantar-se com esforço da esteira onde trabalhava, todo salamaleques.
- Ah! Vem para a cestinha. Muito boas-tardes, senhor conde. Minha senhora. Ora veja! Acabei-a ontem e ficou bonita, não ficou? Se é para dar, é um lindo presente.
Sarah pegou-lhe e aproximou-se da porta para ver melhor, ia mostrar-lha, parou surpresa ao vê-lo já no largo, apressado em direcção ao ajuntamento que se fizera à porta do café, uns aos gritos e empurrões, outros a meter-se de permeio a apaziguar.
- Com licença! - o cesteiro também queria ver, pôs-lhe a mão no braço para que se afastasse.
- De vez em quando é isto! Vêm esses estrangeiros!…Embebedam-se, metem-se com as pessoas!...
Jorge segurava um rapaz loiro, a falar-lhe de modo calmo, enquanto outros continham um aldeão de meia idade, que esperneava aos gritos de “Parto-te os cornos, paneleiro de merda! Filho duma puta! Parto-te os cornos!”
A custo iam-no empurrando para dentro do café, enquanto Jorge acompanhava o rapaz. O outro estrangeiro, um gorducho, óculos pequeninos no rosto balofo, o cabelo ralo a cair-lhe na gola do casaco, caminhava devagar atrás eles, olhando em redor com um modo vago, como que a mostrar que aquilo lhe não dizia respeito.
O rapaz apertou a mão de Jorge e abriu a porta do pequeno Fiat vermelho, o outro fez-lhe um aceno, entrou com o modo fingido de um idoso que se dobra a custo. O carro deu a volta ao largo e quando passou diante da porta do cesteiro riam ambos às gargalhadas.
- Nada! - respondeu Jorge ao olhar interrogador de Sarah. - Holandeses. Bebem demais e dá-lhes para a asneira. Fora isso têm um humor muito próprio, mas as pessoas são pouco de graças. Pelos jeitos o mais novo queria apostar com o Artur que beijava na boca o primeiro homem que entrasse no café, e o Artur disse-lhe que não apostava, tivesse juízo, ia dar encrenca...
Deteve-se brusco, ao dar conta que o cesteiro escutava, e apontou a cesta que Sarah enfiara no braço:
- Está pronta?
- Falta pagar.
- São só dezoito euros.
O cesteiro fez uma pequena vénia ao receber o dinheiro, seguiu-os com olhar, mordeu os beiços ao ver Sarah passar a porta:
- Grande foda!
Quinta-feira, Janeiro 5
"My country, right or wrong"
Tanta acusação, tanto insulto, tanta bruteza e ódio, inveja, falta de cabeça. Vistas curtas. Desprezo do semelhante. Tanta ilusão, vaidade, bacoquice. E aparências, sempre as aparências a tapar o desespero.
Oito décadas já fiz, passadas em dois séculos, e nunca o meu povo vi assim. Até à revolução consegui sonhar, tive esperança. Depois, a contragosto, tentei convencer-me de que o meu pessimismo era miopia. Então não tinham os pais da Zeferina, que trabalham nas limpezas, gasto sessenta mil euros no casamento da rapariga? Teria eu inveja do Mercedes do Abel? Cegava-me a alegria com que o João fora às Seychelles, e a Beatriz, aos fins-de-semana, voava Europa fora no sério intento de visitar todas as capitais? Que birra era essa de não querer ver?
O negrume, contudo, nunca parou de crescer em mim. E agora que o edifício lentamente desmorona, e ninguém sabe como serão as ruínas, ou se alguma obra se poderá fazer com elas, balanço eu entre os sentimentos contraditórios da pena e da raiva, de me querer longe e sentir preso. Esbarrando sempre contra o mesmo muro. Pobreza? Tontice? Inconsciência? Desleixo? Assim será, mas esta é a minha pátria, esta é a minha gente.
Oito décadas já fiz, passadas em dois séculos, e nunca o meu povo vi assim. Até à revolução consegui sonhar, tive esperança. Depois, a contragosto, tentei convencer-me de que o meu pessimismo era miopia. Então não tinham os pais da Zeferina, que trabalham nas limpezas, gasto sessenta mil euros no casamento da rapariga? Teria eu inveja do Mercedes do Abel? Cegava-me a alegria com que o João fora às Seychelles, e a Beatriz, aos fins-de-semana, voava Europa fora no sério intento de visitar todas as capitais? Que birra era essa de não querer ver?
O negrume, contudo, nunca parou de crescer em mim. E agora que o edifício lentamente desmorona, e ninguém sabe como serão as ruínas, ou se alguma obra se poderá fazer com elas, balanço eu entre os sentimentos contraditórios da pena e da raiva, de me querer longe e sentir preso. Esbarrando sempre contra o mesmo muro. Pobreza? Tontice? Inconsciência? Desleixo? Assim será, mas esta é a minha pátria, esta é a minha gente.
Quarta-feira, Janeiro 4
"Parece-me"
Diz-se por vezes que fulano veio do nada. Este daí veio, nascido numa facha, entre a palha e o corpo da mãe um lençol que alma caridosa tinha ofertado quando rebentaram as águas. Tal nascimento, e uma infância mais que atormentada, devem ter contado para a sua formidável vontade de viver e vencer.
Do que viveu pouco fala, e ainda menos de por onde andou, uma vez por outra lá deixa cair o nome de uma cidade, um país, por vezes fingindo que se embaralha, trocando assim as voltas a quem o ouve. Pouco importa. Gosta de dizer I am a winner, mas não explica se aprendeu aquilo na América, na África do Sul, se andou embarcado ou é basófia tirada de algum filme que viu. Venceu, isso é o que conta.
A discrição e reticência facilmente se compreendem. Fortuna assim não se ganha do dia para a noite, nem pode vir só de trabalho. Murmuram-se vagas histórias de assaltos e contrabando, casas de alterne, droga, alianças com ciganada. Provas ninguém tem, e o seu modo de vida, o luxo da casa, o Jaguar, a deferência com que o tratam nas repartições e no banco, dão-lhe a respeitabilidade que dificulta a coscuvilhice.
Tempos atrás pediu-me conselho. O seu rapaz, filho único, mimado, vai entrar para a universidade, mas não sabe o quer, não escolhe.
- Hoje é Medicina, amanhã é Gestão, Cinema… Que lhe hei-de fazer?
- Francamente, não sei.
- Às vezes também diz que quer ser escritor, mas a mim parece-me…
Gostei daquele "parece-me", de como ele hesitou em terminar a frase e, sobretudo, do modo como se lhe descaíram os cantos da boca.
Do que viveu pouco fala, e ainda menos de por onde andou, uma vez por outra lá deixa cair o nome de uma cidade, um país, por vezes fingindo que se embaralha, trocando assim as voltas a quem o ouve. Pouco importa. Gosta de dizer I am a winner, mas não explica se aprendeu aquilo na América, na África do Sul, se andou embarcado ou é basófia tirada de algum filme que viu. Venceu, isso é o que conta.
A discrição e reticência facilmente se compreendem. Fortuna assim não se ganha do dia para a noite, nem pode vir só de trabalho. Murmuram-se vagas histórias de assaltos e contrabando, casas de alterne, droga, alianças com ciganada. Provas ninguém tem, e o seu modo de vida, o luxo da casa, o Jaguar, a deferência com que o tratam nas repartições e no banco, dão-lhe a respeitabilidade que dificulta a coscuvilhice.
Tempos atrás pediu-me conselho. O seu rapaz, filho único, mimado, vai entrar para a universidade, mas não sabe o quer, não escolhe.
- Hoje é Medicina, amanhã é Gestão, Cinema… Que lhe hei-de fazer?
- Francamente, não sei.
- Às vezes também diz que quer ser escritor, mas a mim parece-me…
Gostei daquele "parece-me", de como ele hesitou em terminar a frase e, sobretudo, do modo como se lhe descaíram os cantos da boca.
Terça-feira, Janeiro 3
Rabanada natalícia
Acontece uma ou outra vez, mas nada que se compare a esta rabanada que, quando a li, logo disse comigo que era de vitrina.
Ao contrário de alguns, o senhor assinou o e-mail, pelo que merece louvor. A tradução fi-la o mais literalmente possível.
No Natal, em Portugal, na Bertrand, chamou-me a atenção o livro Com os Holandeses. Eu próprio há 25 anos que vivo e trabalho Com os Portugueses.
Depois de ter lido algumas páginas perguntei-me sobre quem era o livro. Os holandeses, ou o luso-holandês Rentes de Carvalho, (isto) porque reconheço aí o português, mas pouco do holandês. Conhecemos o português como um materialista absoluto, um sórdido avarento da melhor água, sempre alerta para o proveito próprio, (alguém) com quem é impossível cooperar, alguém que contra toda a evidência da experiência e da ciência insiste em descobrir a roda. O português tem um desinteresse total pela beleza e a qualidade. Não serão eles que vão plantar uma árvore, porque isso de nada adianta. Aqui não há amizades. Amigos são aqueles de quem se tira proveito. Adeus amigo se isso vai contra os interesses da família.
E então agora, com o país em crise, nada mais fazem senão queixar-se. Queixam-se até cair redondos. Queixam-se em todas as esquinas. Liga-se o rádio e lá estão eles a queixar-se. De seguida ficam todos à espera até que as coisas melhorem ou vão emigrar. Que fado miserável é este povo. Muito bem descrito e analisado por José Gil em Portugal Hoje, o Medo de Existir.
Cordialmente,"
Na enige paginas te hebben gelezen vroeg ik mij af over wie dit boek gaat. De nederlander(s) of over de nederlandse portugees Rentes de Carvalho omdat ik er wel de Portugees in herken maar nauwelijks de Nederlander. Wij kennen generaliserend de portugees als een ultima materialist, een schraper van de eerste orde, altijd wachtend op een kans tot persoonlijk gewin, onmogelijk om mee samen te werken, iemand die tegen alle kennis en wetenschap in het wiel opnieuw gaat uit te vinden. Een portugees geeft niets om kwaliteit en schoonheid. Een boom zullen ze niet planten, daar heb je niets aan. Vriendschap bestaat hier niet. Vrienden zijn mensen waaraan je verdient. Deze laten ze als een baksteen vallen als het gaat om familiebelang.
En dan nu, met het land in crisis gaan ze allemaal een potje zitten klagen. Klagen tot ze er bij neer vallen. Op iedere hoek van de straat wordt geklaagd. Je kunt geen radio aanzetten of er wordt geklaagd. Vervolgens gaat iedereen wachten tot het beter wordt of emigreren. Wat een miserabele fado is dit volk. Goed beschreven en genaliseerd door José Gil in Portugal Hoje, o medo de existir!
Hartelijke groet,"
Ao contrário de alguns, o senhor assinou o e-mail, pelo que merece louvor. A tradução fi-la o mais literalmente possível.
---------------
"Prezado senhor, No Natal, em Portugal, na Bertrand, chamou-me a atenção o livro Com os Holandeses. Eu próprio há 25 anos que vivo e trabalho Com os Portugueses.
Depois de ter lido algumas páginas perguntei-me sobre quem era o livro. Os holandeses, ou o luso-holandês Rentes de Carvalho, (isto) porque reconheço aí o português, mas pouco do holandês. Conhecemos o português como um materialista absoluto, um sórdido avarento da melhor água, sempre alerta para o proveito próprio, (alguém) com quem é impossível cooperar, alguém que contra toda a evidência da experiência e da ciência insiste em descobrir a roda. O português tem um desinteresse total pela beleza e a qualidade. Não serão eles que vão plantar uma árvore, porque isso de nada adianta. Aqui não há amizades. Amigos são aqueles de quem se tira proveito. Adeus amigo se isso vai contra os interesses da família.
E então agora, com o país em crise, nada mais fazem senão queixar-se. Queixam-se até cair redondos. Queixam-se em todas as esquinas. Liga-se o rádio e lá estão eles a queixar-se. De seguida ficam todos à espera até que as coisas melhorem ou vão emigrar. Que fado miserável é este povo. Muito bem descrito e analisado por José Gil em Portugal Hoje, o Medo de Existir.
Cordialmente,"
-----------------
O original holandês:"Geachte heer,
Voor de kerst had ik in Portugal bij Bertrand het boek Com os Holandesas in handen waar mijn oog op viel. Zelf leef, woon en werk ik nu 25 jaar Com os Portugueses.Na enige paginas te hebben gelezen vroeg ik mij af over wie dit boek gaat. De nederlander(s) of over de nederlandse portugees Rentes de Carvalho omdat ik er wel de Portugees in herken maar nauwelijks de Nederlander. Wij kennen generaliserend de portugees als een ultima materialist, een schraper van de eerste orde, altijd wachtend op een kans tot persoonlijk gewin, onmogelijk om mee samen te werken, iemand die tegen alle kennis en wetenschap in het wiel opnieuw gaat uit te vinden. Een portugees geeft niets om kwaliteit en schoonheid. Een boom zullen ze niet planten, daar heb je niets aan. Vriendschap bestaat hier niet. Vrienden zijn mensen waaraan je verdient. Deze laten ze als een baksteen vallen als het gaat om familiebelang.
En dan nu, met het land in crisis gaan ze allemaal een potje zitten klagen. Klagen tot ze er bij neer vallen. Op iedere hoek van de straat wordt geklaagd. Je kunt geen radio aanzetten of er wordt geklaagd. Vervolgens gaat iedereen wachten tot het beter wordt of emigreren. Wat een miserabele fado is dit volk. Goed beschreven en genaliseerd door José Gil in Portugal Hoje, o medo de existir!
Hartelijke groet,"
Segunda-feira, Janeiro 2
Diário de Notícias
É pena, mas facto: o DN não chega aqui e não gosto de champanhe. Como raio vou brindar? http://quetzal.blogs.sapo.pt/
A agenda
Quantos irão ser os momentos felizes, os dias de espera, as horas de sobressalto e cansaço?
A agenda para o novo ano vejo-a eu como objecto misterioso, dá-me ideia de que nas folhas ainda em branco se acha já inscrito o que vão ser os meus dias, tenho a impressão que aquilo não é apenas papel, antes instrumento de bruxaria.
Folheio-a com respeito, olho assustado as datas, pergunto-me quantos dos que, por amor, carinho e amizade contam na minha vida, estarão vivos quando chegar o 31 de Dezembro. Estarei eu?
O mundo não vai acabar, o que talvez fosse a solução para tanta tragédia e desigualdade, mas guerras vai haver, que não podemos passar sem elas e a muitos dão proveito.
Na desgraça alheia voltaremos a encontrar o alívio de não ter sido a da nossa vez e, como até agora, os verdadeiros grandes desastres, os tsunamis, os terramotos de milhares de mortos, acontecerão sempre longe. A não ser…
Abro ao acaso. 23 de Abril, segunda-feira. Que irá acontecer até lá? E depois?
A agenda para o novo ano vejo-a eu como objecto misterioso, dá-me ideia de que nas folhas ainda em branco se acha já inscrito o que vão ser os meus dias, tenho a impressão que aquilo não é apenas papel, antes instrumento de bruxaria.
Folheio-a com respeito, olho assustado as datas, pergunto-me quantos dos que, por amor, carinho e amizade contam na minha vida, estarão vivos quando chegar o 31 de Dezembro. Estarei eu?
O mundo não vai acabar, o que talvez fosse a solução para tanta tragédia e desigualdade, mas guerras vai haver, que não podemos passar sem elas e a muitos dão proveito.
Na desgraça alheia voltaremos a encontrar o alívio de não ter sido a da nossa vez e, como até agora, os verdadeiros grandes desastres, os tsunamis, os terramotos de milhares de mortos, acontecerão sempre longe. A não ser…
Abro ao acaso. 23 de Abril, segunda-feira. Que irá acontecer até lá? E depois?
Domingo, Janeiro 1
O primeiro dia
Cá estamos então, sem vidente, bola de cristal, bússola ou mapa que mostre para onde vai ser a viagem. Mas viajar iremos de certeza, seja ele apenas em pensamento, pedindo ajuda à imaginação, nossa ou alheia. Esquecendo o que passou, esperançados no que vai ser, fingindo destinos, sabendo que são muitas as perguntas e as respostas só de longe a longe se ouvem.
A todos desejo boa viagem.
A todos desejo boa viagem.
Sábado, Dezembro 31
Na quadra do ano
Raro surgem os pensamentos em sintonia com a quadra, pelo que esta manhã, em vez de fazer balanços do ano que passa e sonhar coisas boas para o que entra, dei uma volta pela blogosfera.
Muita beleza feminina nua e semi-nua há por ali! Terabytes dela, que neste particular, dizer às carradas, além de expressão arcaica nada indicaria da excessiva quantidade. Mas assim seja. Divirtam-se, alegrem-se, excitem-se, sonhem acordados e a dormir.
O voto que faço é que todo esse mostruário não resulte de desespero, desilusão ou, pior, de momentos como o que Charles Aznavour canta em Tu t' laisses aller. E porque a vida a dois sempre será um exercício na corda bamba, exigindo dos parceiros apurado sentido de equilíbrio, passada a adolescência é brincar com fogo o querer sobrepor a ilusão à realidade doméstica. Cuidado, pois, que essa pólvora facilmente explode.
Lotte Verbeek (29), a actriz holandesa que contracena com Jeremy Irons no papel de Giulia Farnese em The Borgias, disse há dias numa entrevista que de momento não tem namorado e, terminando as filmagens dessa série, que decorrem na Hungria, irá durante um mês percorrer a Tailândia, de mochila às costas e sozinha.
Imagine-se jovem e aventureiro, a encontrá-la por acaso num bar em Banguecoque, irem dali para Pattaya ou Phuket.
Esqueça as garotas do Photoshop. No ano que entra, e depois, dê preferência às de carne e osso.
Muita beleza feminina nua e semi-nua há por ali! Terabytes dela, que neste particular, dizer às carradas, além de expressão arcaica nada indicaria da excessiva quantidade. Mas assim seja. Divirtam-se, alegrem-se, excitem-se, sonhem acordados e a dormir.
O voto que faço é que todo esse mostruário não resulte de desespero, desilusão ou, pior, de momentos como o que Charles Aznavour canta em Tu t' laisses aller. E porque a vida a dois sempre será um exercício na corda bamba, exigindo dos parceiros apurado sentido de equilíbrio, passada a adolescência é brincar com fogo o querer sobrepor a ilusão à realidade doméstica. Cuidado, pois, que essa pólvora facilmente explode.
Lotte Verbeek (29), a actriz holandesa que contracena com Jeremy Irons no papel de Giulia Farnese em The Borgias, disse há dias numa entrevista que de momento não tem namorado e, terminando as filmagens dessa série, que decorrem na Hungria, irá durante um mês percorrer a Tailândia, de mochila às costas e sozinha.
Imagine-se jovem e aventureiro, a encontrá-la por acaso num bar em Banguecoque, irem dali para Pattaya ou Phuket.
Esqueça as garotas do Photoshop. No ano que entra, e depois, dê preferência às de carne e osso.
Sexta-feira, Dezembro 30
Mark Rutte
(Clique para aumentar)
O semanário Elsevier escolheu o primeiro-ministro Mark Rutte (44) como "Holandês do Ano".Em funções desde Outubro de 2010, tem dado boa conta do recado, trouxe o que se chama uma lufada de ar fresco aos mores políticos, mesmo os seus adversários lhe reconhecem as qualidades.
Contudo, a razão porque aparece aqui nada tem a ver com simpatia, ou apreço pelas suas qualidades de estadista, sim com certa atitude e um modo pouco corrente de estar na sociedade.
Há anos que Mark Rutte, voluntariamente, dá às quintas-feiras duas horas de aula de Ciências Sociais num secundário de Haia. A sua nomeação para chefe do governo não alterou essa rotina e, para surpresa de muitos, mesmo se volta de uma conferência em Bruxelas às três da madrugada, o que é frequente, das oito às dez da manhã não falta à aula.
Fosse eu dado a elogios, poderia isto cheirar a hagiografia, felizmente não conheço o homem nem a sua política me encanta. Quis apontar, sim, uma diferença de mentalidade, se bem que de modo algum espere ver muitos estadistas a trocar, por uma modesta docência, as horas prazenteiras dos almoços e jantares de confraternização.
Quarta-feira, Dezembro 28
Perturbação
Que uns se tenham abismado, o tenham lido de uma só vez, que este o devorou e aquela sinta pena de não ser mais grosso o volume, eu sinceramente acredito nesses entusiasmos. Depois há o galardão do Booker Prize , e serei o último a duvidar da competência dos que o atribuem. Junte-se a isso a antiga, e ainda presente, admiração que me merece o autor de Flaubert's Parrot.
Assim me fui à leitura de The Sense of an Ending, e passado umas quatro horas tinha chegado à última frase das 150 páginas: "There is great unrest".
Em grande perturbação fiquei eu, porque não descobri o que tantos outros acham motivo de enlevo. E vendo-me sozinho no meu juízo, resta-me concluir que já não leio como se deve ler, e a idade me tornou míope para aquilo que aos mais parece um superior relato dos arcanos da alma e das tragédias da existência.
Terça-feira, Dezembro 27
Saber da vida
(Clique para aumentar)
Nesta época de gentileza e bondade, escreveu alguém a felicitar-me, afirmando que sei muito da vida.
Assim fosse, assim não é. A muita idade e as várias andanças, incluindo nestas um ou outro momento de euforia, os pontapés do Destino, os dos semelhantes, e os trambolhões que por descuido ou tolice se dão, nada ajudam a compreender da vida. Impedem que se repita um ou outro transtorno, mas a vida, feliz ou infelizmente, é caminho para o qual não há mapa nem bússola.
Vamos andando, paramos aqui e ali, derrapamos nas curvas, caímos na valeta, fazemos o possível por ir direitos e a direito. Depois, cansaço ou susto de ver a meta perto, abrandamos o passo, criando nos que ainda vêm longe a ilusão de que conseguimos chegar até ali por sabedoria e esperteza.
Na verdade, porém, não escolhemos a rota, nem sequer caminhamos pelo próprio pé. Somos empurrados. A uns leva-nos a aragem, a outros o suão, muitos aproveitam o vento içando velas, os desatinados enfrentam o ciclone.
Saber da vida? Nem sequer sabemos donde vem o vento ou quem o sopra.
Segunda-feira, Dezembro 26
A Terra
A semana passada houve aqui alguma agitação, pois pela segunda vez foi "disparado" da Rússia para a International Space Station o astronauta André Kuypers, que por lá vai ficar um longo meio ano.
Tivemos então uma sobredose de imagens de foguetões, cápsulas, ausência da gravidade e, o que sempre me aflige, a vista do nosso planeta a boiar na escuridão, minúsculo e solitário. Aflige-me e desgosta.
Quero de volta o mundo em que fui criado. Dispenso informações, deixem de repisar que giramos a 1.675 km/h (será?). Quero a Terra em que havia longes, monstros marinhos, índios selvagens, reis e rainhas de verdade, fadas, bruxas, a Branca de Neve e os anões em quem eu mandava. Estou farto da ideia que me dá a televisão, de que me encontro nas alturas e, como se espreitasse de uma janela, distingo lá longe a pequenina, azulada, frágil bola onde nos apinhamos.
Quero de volta o mundo em que fui criado. Dispenso informações, deixem de repisar que giramos a 1.675 km/h (será?). Quero a Terra em que havia longes, monstros marinhos, índios selvagens, reis e rainhas de verdade, fadas, bruxas, a Branca de Neve e os anões em quem eu mandava. Estou farto da ideia que me dá a televisão, de que me encontro nas alturas e, como se espreitasse de uma janela, distingo lá longe a pequenina, azulada, frágil bola onde nos apinhamos.
Distingo, mas custa a acreditar. Por isso me agradam aqueles sábios árabes que um dia apresentarão provas irrefutáveis de que a Terra é plana e imensa. Então, sim, então ficarei sossegado, e direi com eles que o que nos mostram são americanices que nos mantêm submissos e assustados.
Sábado, Dezembro 24
Boas-Festas
Mandei postais e mails, juntei abraços, xi-corações, beijos, beijinhos grandes, votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo, saudades, umas quantas palavras de sentida simpatia. Cumpri o hábito, o ritual, e em vez do sentimento de satisfação cai sobre mim uma névoa de melancolia
Logo à noite a nossa consoada vai ser feliz, harmoniosa, a família inteira à mesa (só já somos nove), mas neste começo do dia ensombra-me a memória de Natais tristes, pesados de infortúnio e desespero. Tento, mas não consigo, afastar de mim o pensamento dos que não vão ter Natal, nem consoada, e se sentem abandonados num mundo em que para os outros tudo é festa.
De nada adianta, bem sei, mas quanto mais seguro é o meu conforto, mais consciência tenho da dor alheia e me aflige a injustiça.
Sexta-feira, Dezembro 23
Ilha dos Bem-Aventurados
(Clique para aumentar)
As ilhas de Brissago. Duas pequenas ilhas na parte suíça do Lago Maggiore que os guias referem de vegetação luxuriante, bichinhos e plantas vivendo ali como mandou o Senhor, antes de criar Adão. O que os guias esquecem é que, nos fins do séc. XIX e começo do seguinte, já na ilha maior, a de San Pancrazio, havia o Paraíso. Era propriedade de um comerciante de Hamburgo, de seu nome Max Emden, e merecia o título que lhe davam de Insel der Selingen (Ilha dos Bem-Aventurados), pois deixaram fama as orgias que nela se realizavam.
Por lá passou também James Joyce, se bem que, mau grado o final do seu Ulysses – "… and I thought well as well him as another and then I asked him with my eyes to ask again yes to say yes my mountain flower and first I put my arms around him and drew him down to me so he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes" – mas conhecendo o feitio do homem, é provável que tenha sido apenas espectador.
A fotografia, tirada no local, é de 1937.
Quarta-feira, Dezembro 21
Sal na ferida
Precoce na leitura, cedo comecei a sonhar e a ter pena do meu país. Aprendi que lá longe havia outros sem medo nem miséria, de leis justas, menos desigualdade, menos desespero, os seus cidadãos e governantes mais interessados no futuro do que em glórias passadas.
Parti, quando a minha hora soou. Ingénuo bastante para me maravilhar, mas cedo consciente do fosso entre a realidade que observava e os sonhos que tivera. Além fronteiras não havia paraísos, mas sociedades onde a esperança de melhoria era um facto, a desigualdade menos gritante, a repressão inexistente, a liberdade um direito sagrado. Fui vendo, estudando, comparando, e continuei a ter pena da terra onde nasci.
Não me entusiasmou depois o florescer dos cravos, e espero o investigador de hombridade que faça a barrela desse momento histórico, mostre os interesses que a ele levaram, ponha nome nos fantoches e em quem segurava os cordéis.
Passaram os anos. Sentindo mais funda a pena, vi o meu país de mão estendida. Com espanto vi-o depois a esbanjar o que não tinha, governantes e governados dando o espectáculo da mais incrível pelintrice, de uma inconsciência que só dos pobres de espírito se espera, tomando por realidade o país de cocanha.
Vivendo no conforto de uma sociedade rica, justa, bem organizada, materialmente não sofro com a desgraça daquela em que nasci, mas nem por isso me dói menos o esfregar sal na ferida.
Curioso povo, o meu, onde gente supostamente séria e competente enrouquece a gritar que as dívidas dos países não se pagam. Para que fingem? Com que fim iludem? Pagam, e com língua de palmo, que quem dita os termos não é o caloteiro, mas aquele que tem numa mão a faca e o queijo, e na outra a corda com que o enforca.
Com tristeza o digo e consolo não sinto: na minha idade é nula a esperança que tenho de ver Portugal sair do atoleiro e da miséria. Resta-me o sonho de que os que agora são jovens, e os que vierem, construam um país de que se possam orgulhar e não lhes doa como este a mim dói.
Terça-feira, Dezembro 20
Lavinia Meijer
Nasceu na Coreia do Sul em 1983, foi adoptada por pais holandeses, aos onze anos entrou no Conservatório de Utrecht, em 2005 diplomou-se cum laude no de Amsterdam. Já tocou no Carnegie Hall. Oiça-a aqui, e mesmo que não aprecie a harpa, retenha o nome, porque esta menina vai longe.
Segunda-feira, Dezembro 19
Tolos e tolices
Grande honra seria se o tivesse recebido, forte irritação me causou ao ver esta manhã, pela primeira vez, a pequena entrevista que domingo passado me fizeram no Bom dia, Portugal. Nas legendas, invisíveis para o entrevistado, aparece lá "Recebeu o Prémio Erasmus em 1997".
Que se lhes terá metido na cabeça? Sabem, os que fizeram a asneira, o que é o Prémio Erasmus? Nem sequer foram ao Google? Ou à minha biografia?
Leram de olhos fechados que eu tinha escrito um texto para um livro oferecido a Jacques Delors, quando este recebeu esse prémio em 1997, e meteram tola e preguiçosamente os pés pelas mãos.
Leram de olhos fechados que eu tinha escrito um texto para um livro oferecido a Jacques Delors, quando este recebeu esse prémio em 1997, e meteram tola e preguiçosamente os pés pelas mãos.
Saibam, de uma vez para sempre, senhores e senhoras jornalistas, que em toda a vida só recebi um prémio: ao findar a quarta classe da primária deram-me um livro infantil da Condessa de Ségur e uma caderneta da Caixa com 50 escudos.
Sábado, Dezembro 17
Jean Harlow
(1911-1937)
É hotel em que há quase duas décadas pernoito pelo menos quatro vezes por ano, e a chegada acompanha-se sempre de suspense. Estará? Não estará? Se for sexta-feira provavelmente está, nos mais dias é questão de roleta.
Com o tempo deixou de ser choque, mas mantém-se a surpresa. Os franceses diriam dela que é petite, pois mesmo com tacões agulha mal passará do metro e meio, mas vê-se e mal se crê, obriga-se o hóspede a fingir que não repara numa perfeição que se espera em estátua de excepcional feitura, mas deixa de boca aberta o encontrá-la de carne e osso.
A opinião logo da primeria vez foi consensual: JeanHarlow! Mas Jean Harlow do séc. XXI, uma extraordinária síntese da beleza dos anos da minha meninice, do que foi e há muito não é, com a desenvoltura e o à-vontade do tempo de agora.
Sorri na recepção. À outra chamavam The Blonde Bomshell, esta é simplesmente Jean Harlow.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



















