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Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

Errata esférica

A comunicação social tem vindo a divulgar que a fragata Sporting CP foi ontem abalroada por uns marujos catalães. Nada de mais errado, senão vejamos: 2 dos tiros foram dados por defesas do Sporting que estavam em manobras ofensivas, e um outro tiro catalão não valeu porque estava tudo em amena cavaqueira a combinar o bar de logo à noite.
Por isso, em nome da verdade desportiva, venho aqui solicitar a correcção dum erro clamoroso: o resultado foi 5-2, sim, mas a favor do Sporting CP. Assim é que é!
Por fim, os Monty Python estão já em condições de disponibilizar o antológico filme do jogo, no seu novo site, que fará parelha com um outro não menos memorável com os filósofos de Atenas.

Quarta-feira, 5 de Setembro de 2007

Barcelona e a Utopia

Não conhecia ainda Barcelona, e suponho que após uma mísera meia-dúzia de dias continuo a não conhecer. Ainda assim no meu desconhecimento fiquei com muito boa impressão, mesmo se as expectativas já eram altas. Uma cidade onde a boa arquitectura está por toda a parte, não apenas Gaudí (mas também, obviamente). São tantos os palacetes que parece ser um direito fundamental de qualquer cidadão viver num, é a democratização da habitação em estilo. Mais ainda, é uma cidade onde o povo mora dentro da cidade e o interior da cidade é habitado. Nem há prédios devolutos a cada esquina nem as classes média e baixa são corridas para os subúrbios. No Raval convivem imigrantes com alternativos, uns e outros são parte da cidade, não uma pitoresca excepção, apenas simples residentes normais. Sem grande surpresa é onde se encontram mais movimentos criativos. E como cenário Grafittis que pintam as paredes dos prédios antigos de bairro popular, são também parte agora normal da paisagem. Ao lado as Ramblas descem até ao mar, onde a docas estão feitas para os peões, e para os vendedores clandestinos que passam a vida a fugir à frente da polícia (têm até umas trouxas já preparadas para pegar e fugir a todo o instante). A Barceloneta, que foi bairro de pescadores, acaba no areal, em plena cidade. Não é preciso ir longe para pegar uma praia. O metro parece feito para optimizar ao máximo o aproveitamento do espaço, um lanço de escadas e está-se no cais, um túnel e está feita a correspondência. Simples e eficaz, e cobre a cidade toda. Também já há bicicletas de aluguer. O porto - que é grande - não está à frente da cidade a tapar a vista para o mar, está ao lado. Está assim como quem se desvia de propósito para não incomodar.
E como seria de espera (digo eu...) numa cidade destas há gente, muita gente, há vida, há movimento. Qual Lisboa, qual Paris... Ainda alguém tem dúvidas sobre o porquê de Barcelona ser a cidada da moda?

Segunda-feira, 18 de Junho de 2007

Grandes clubes

O Real lá se sagrou campeão, conforme previsto. Em Barcelona, como em Lisboa, espera-se com ansiedade a próxima época. O Barça, como o Sporting e o Benfica (mais o Sporting, por muito que me custe..), teve o campeonato na mão e deixou-o fugir num jogo que não assisti, mas que fui ouvindo, vislumbrando e sentindo pelas ruas de Barcelona. Primeiro, e em antecipação, os adeptos do Barcelona e do Espanhol, misturavam-se pela cidade, entre milhares de turistas e habitantes anónimos. Depois, e enquanto, procurava um local simpático para jantar, as ruas despovoaram-se aos poucos, restando apenas alguns turistas. Ao passar por um restaurante, espreitei pelo vidro e vi na televisão a repetição de um golo do Barcelona. Queria ficar ali, mas não havia mesa e as minhas companheiras de viagem suspiravam por um jantar sem televisão, sem futebol. Fomos andando, e encontrámos um sítio com esplanada. Comemos e conversámos. Segui a conversa, enquanto olhava em redor, tentando analisar as expressões faciais de quem passavam, ao mesmo tempo que ouvia os gritos de golo entoados nos apartamentos de janelas escancaradas. Não sabia o resultado. Quando olhei para o relógio e percebi que o jogo teria acabado, percebi, então, que o Barça não tinha vencido. A cidade estava em silêncio. Sepulcral.
Embora me fosse indiferente o resultado, gosto de futebol. E, afinal, estava ali, e o Figo até tinha ali jogado no seu expoente máximo. Aí reside a grande diferença. Quem não gosta perde algo da vida, pode até parecer pouco. Mas não. Porque quem não gosta de futebol, tem pena de não gostar, e sabe, no seu âmago, que está em perda.

Terça-feira, 12 de Junho de 2007

atmosferas

Há cidades incriveis e há maneiras incriveis de representar as cidades. Uma cidade é o espaço, mas também é o tempo. São indestrinçaveis. Ao estar em Barcelona, lembrei-me vezes sem conta do filme Lost in translation (2003) de Sofia Coppola. Não que Barcelona tenha algo que ver com Tóquio, nem que me tivesse sentido em perda, ou que me fosse difícil entender o "outro". Rigorosamente nada disso. Também não senti a leveza das imagens do filme de Sofia Coppola, nem parti para o aeroporto ao som dos The Jesus and Mary Chain. Porque é que, então, os associei? Esta dúvida persistiu uns dias, pois não estava a fazer sentido. Até que hoje, no combóio para Coimbra, entre o embalar da velocidade do Alfa, a leitura que interrompi, e o olhar lá para fora pela janela, fez clique. O primeiro clique foi o óbvio: o facto de eu ir num combóio e ter olhado pela janela, qual Scarlett Johanson (com um ar, todavia, menos melancólico e muito menos estiloso). O segundo clique é que já me convenceu. A forma como as sensações se sobrepõem à narração, ou melhor, como as sensações criam a narração. Sofia Coppola é magistral no modo como representa essas sensações e da forma como as cria. Toda a atmosfera do seu filme (e dos outros também) é intrinsecamente sensorial. As suas imagens autorais possuem essa marca da sensorialidade, e também da sensualidade, embora não seja isso que me interesse neste momento. O clique fez com que me apercebesse que o importante ali era o facto de as sensações terem um poder dominante sobre tudo o resto. O Palau de la música e as casas do Gaudi, no seu expoente modernista, são isso mesmo: quem olha para ele(a)s derrete-se em sensações várias. Ou seja, as formas da arquitectura modernista de uma cidade burguesa que é Barcelona, provocam no espectador (aquele que olha embasbacado) momentos de sensorialidade extrema perante o objecto impossível. (Há uma impossíbilidade intuída na arquitectura modernista, uma vez que aquilo que criaram não parece, de facto, possível. O Palau é exemplo disso)