Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Dusk in Winter

The sun sets in the cold without friends
Without reproaches after all it has done for us
It goes down believing in nothing
When it has gone I hear die stream running after it
It has brought its flute it is a long way


1967

W.S.Merwin

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

HAVIA UM HOMEM QUE CORRIA PELO ORVALHO DENTRO




Herberto Helder - "Havia um Homem que Corria pelo Orvalho Dentro" (Elegia Múltipla III) in «A Colher na Boca» (1961). Dito pelo próprio num disco Vinyl, editado pela Philips para a série Poesia Portuguesa. A remoção dos "cliques" do vinyl diminuiu a qualidade da voz. Alinhamento musical: Gustavo Santaolalla - Thomas Newman. Respigado aqui.

RUI COSTA (1972-2012)



A MÚSICA

A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.

Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)

Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.

A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?

Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.

Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti


Rui Costa (também aqui)


Adenda: O funeral do Rui será no cemitério de Santa Marinha (mapa; coordenadas: 41 07' 43,83''N, 8º 37' 37,64''O) pela 10h30 da manhã do dia 20 de Janeiro. O corpo estará numa das capelas mortuárias do cemitério a partir das 9h00 da manhã do mesmo dia. Após uma breve cerimónia o corpo do Rui seguirá para o cemitério de Macieira de Cambra, Vale de Cambra (mapa; coordenadas GPS: 40º 51' 31,39''N, 8º 22' 28,36''O). Informa António Aguiar Costa, irmão do Rui.

Russell Edson no Gato Vadio



Leitura de textos de Russell Edson, por Jorge Palinhos e Rui Manuel Amaral, no Gato Vadio, dia 21 de Janeiro de 2011, pelas 17h00.
Gato Vadio: Rua do Rosário, 281, Porto.

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

É COMO SE AQUI EU GRITASSE.

Para o RC.


Esta força não tem dono, ao pé dela qualquer material humano facilmente claudicaria. Repara no que resta do farol, uma construção em ruínas como qualquer um de nós, erguida para orientar e proteger aqueles que o mar engoliria fosse essa a sua vontade. Aqui dei os primeiros beijos dignos de memória, desse tempo pouco mais me resta do que uma mensagem gravada no barro que, de ano para ano, se vem desprendendo do corpo: amo-te, Sandra. (Era mentira. Muito mentimos nós às mulheres que nos amam com os namorados em casa.) E no entanto o mar persiste, obstinadamente como uma mão que escreve, as marés mantêm sua matemática indecifrável, tu dás às bruxas, aos anjos, às fadas a voz inaudível, os barcos atravessam as rotas quais rolhas de cortiça guiadas por bússolas, cartas, mapas, astrolábios, instrumentos inventados para nos libertarmos desta fraqueza essencial. Andamos agasalhados no medo e na tristeza, já nem a vertigem dos versos simula uma réstia de salvação, mas esta força não tem dono. Os promontórios que a travam podem passar-nos a mensagem de uma vida resistindo à morte, e em cada vaga que rebenta, em cada pingo de espuma cuspido com estrondo contra as barbas do vento, nós sentimos ser bem mais frágil do que aparenta o rochedo corroído pelo tempo. Sobre ele, amigo, fazemos nós e as gaivotas o ninho. Elas voando, nós sonhando. Até ao limite da possibilidade de sonhar.


São Martinho do Porto, 18 de Janeiro de 2012.

…UM DIA PARA ENTERRAR






Foi a enterrar no cemitério da Guia.
Fizemos uma pedincha para as flores do costume,
e com cartão que dizia saudades das tuas manas da vida.
O padre veio com as sagradas banalidades
num discurso apressado e tosco
que uma pá de terra enterrou.

Agora que estás a salvo,
protegida das bestas como uma princesa,
a festa continua azeda para o nosso lado.
O luto é coisa de um abrir e fechar de pernas,
e aos poucos a tua memória é vela escura.

Assim voltamos ao mesmo com este corpo
que é o nosso estabelecimento,
para cumprir o horário do sacrifício e da necessidade.
Tudo obrigações que se pagam com urina, herpes e diarreia.

Mas tu sabias, meu anjo, desde o princípio,
que a factura já vinha discriminada
.



Fernando Esteves Pinto, in O Tempo que Falta, Temas Originais, Coimbra, 2011, p. 18. Coimbra também não consta no mapa. O que se compreende, o mapa é restrito e tem a sua própria escala.

Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

BARCO NEGRO




Meti uma semana de férias para descansar da vida, mas a vida persegue-me e não me deixa em paz. Ontem foi um remanso, passar o dia em reunião com a cabeça concentrada em assuntos que me distraem da dor. Agradeço aos meus colegas de trabalho, gosto muito deles e raramente o digo, talvez nunca o tenha dito publicamente, sinto-os, de facto, como se fossem parte da minha família, até porque passo mais tempo com eles do que com a minha mulher e as minhas filhas. A mais velha está doente, tem febre, nada de grave, um pouco de greve. E as lágrimas vêm-me aos olhos quando ouço a mais nova cantar o Barco Negro, num português exemplar e com uma sensibilidade musical invejável, para conforto da irmã. O mundo devia ser sempre assim, mas não é, a vida persegue-nos e não nos deixa em paz com a distracção do trabalho e a serenidade de um canto fraterno, o mundo tem as suas crises e puxa-nos para dentro delas, ao mesmo tempo que nos impele na direcção de um fosso cheio de nada, incógnitas, dúvidas, vazio. E lá dentro estão os amigos, com suas distâncias e silêncios, lá dentro está a lírica dos amigos, um torpor zurzindo dentro da cabeça como se os miolos fossem colmeias e cada um dos neurónios uma abelha incansável. O manuel a. domingos deve saber do que estou a falar, é poeta e visita-me com um sereno e reconfortante minimalismo nas mãos. Fomos comer uma alheira, depois passámos pelos Correios e acabámos em São Martinho do Porto a beber uma cerveja, a fumar cigarros e a deixar o silêncio entrar na conversa enquanto o Sol caía atrás das enseadas, transformando o céu numa tela de tons quentes amansados pelo gelo da neblina. Recordei os primeiros versos, os primeiros amores, o que ficou de vida por viver, e a vida a perseguir-me de cada vez que trazia o copo aos lábios sabendo, por antecipação, que o álcool mais não pode fazer do que disparar sobre algumas células a solução recomendável. A gente aguenta-se, manda a lei, vamos buscar força aos amigos, ao canto sereno e fraterno das filhas, ao sono, aos poemas, à música, a música salva-nos, vamos buscar paz à paisagem efémera, porque sobre o sol a pôr-se logo o ruído agreste das famílias em trabalhos e dos telejornais e da puta da vida a perseguir-nos. Esquemas, filmes de um péssimo gosto, manigâncias, um canil de vigaristas e malfeitores à solta, o mundo dominado por uma indisfarçável hipocrisia, a hipocrisia alimentada pelo feno da submissão, o medo, a angústia, o pânico de ficar sem tapete sob solas carregadas de lama. E a gente aplica-se a limpar a lama das solas, mas quanto mais raspa os veios mais sente desfazer-se o couro, e ficamos com as unhas manchadas de uma terra onde nenhuma semente vingaria e todas as plantas quedam infrutíferas. O mundo: terrível paisagem suspensa na brevidade de um momento reconfortante, enquanto a vida nos persegue sem dar descanso.

ENQUANTO O RAPAZ VAI DE PATINS





Enquanto o rapaz vai de patins
em sua velocidade delirante
claramente tudo
rima aparentemente

tem um olho aqui
outro já noutra cidade e
sua velocidade de cometa
parece-me absorver um poema
que li por aí de
João Miguel Fernandes Jorge

a soma da velocidade do mundo é o limite
quando este rapaz vai de patins

enquanto o rapaz vai de patins
o poema deve ser um passo de cada
vez ........pois o trânsito



Rui Dias Simão, in os animais da cabeça — 21 desenhos/21 poemas, 4 Águas Editora, Tavira, Dezembro de 2008, p. 8. E Tavira, alguém viu Tavira no mapa?

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #40





Entre a coisa musical vinda às mãos deste que vos escreve nos últimos anos, a Akron/Family foi provavelmente a mais apaixonantes de todas. Akron parece nome de planeta desconhecido, mas é o nome de várias localidades na América do Norte. É provável que provenha, como tantas vezes acontece, da toponomástica índia. Não admiraria. Muito da música produzida pela Akron/Family remete para os rituais indígenas, com suas melodias guturais e ritmos hipnóticos. Em certo sentido recuperam o espírito psicadélico dos setentas e a filosofia libertária vinda dos sessentas, promovendo a paz e o amor universais, com doses consideráveis de sexo e drogas recreativas quanto baste a servirem de rede a uma realidade decadente e a um mundo em vertiginoso declínio. Amai-vos uns aos outros, até porque Love Is Simple (2007). Por entre a paisagem intrometem-se guitarras eléctricas a marcar o balanço à desbunda lírica e, por vezes, alucinada, e a gente imagina um grupo de gente nua aos pulos na praia, em torno de uma fogueira, com charro no canto da boca e garrafa de vinho na mão. Terapia agradável para os dias correntes, com instrumentos acústicos embalando grilos na noite estrelada: «September nights, when the dusk calls us outside / Crickets sing songs to bury the sunshine / And all we see is made of moonlight». Que mais pode pedir um homem? Contra a corrente urbana e depressiva em vigor há mais tempo do que seria desejável, a Akron/Family relativiza e adopta uma postura mais ecléctica que nunca ao quarto álbum. Ouço-o muitas vezes, mais que não seja para me esquecer de que existo.

O CARRO







Se aí guardasse a travessia,
a cidade engolida pelo olhar vago
e fundo;

Se nada, além do silêncio,
amasse o corpo da marginal
que se despia com a correnteza
do vento e o incentivo do promontório;

Se os dias fossem
essa viagem, e as mãos
as mesmas que, junto ao rádio,
ligavam o mundo e a sua insignificância;

talvez nunca tivesse saído do carro
para morrer lentamente
no que em nós pára e é a paisagem
que os outros tratam pelo mesmo nome

e onde morreremos, estranhamente unidos
com essa natural e abominável compreensão
pelo que há na vida, não de igual,
mas de repetido
.


Pompeu Miguel Martins, in Do Intangível, com desenhos de César Taíbo, versões em francês e prefácio de Victor Oliveira Mateus, Labirinto, Fafe, 2008, p. 54. Mais uma que não conta, até porque Fafe é no outro lado do mundo.

Domingo, 15 de Janeiro de 2012

PEDRO E INÊS: DOLCE STIL NUOVO





Com sede em Águas Santas (concelho da Maia), por certo território extracomunitário, as Edições Sempre-Em-Pé vêm fazendo um trabalho meritório que continua a passar despercebido às vistas curtas dos cartógrafos dos “mapas em expansão da edição de poesia em Portugal”, mais não seja pela insistência na publicação de uma das melhores revistas de poesia e tradução editadas neste país. Chama-se DiVersos e vai em quinze números publicados, desde 1996. Como é óbvio, isto não interessa para nada, assim como não interessa para nada que a mesma editora tenha dado a conhecer um dos mais sólidos poetas portugueses da actualidade, com a arriscada edição do volume Dispersão – Poesia Reunida (Novembro de 2008), e tenha voltado a albergar os versos do mesmo autor com a impressão, no ano que passou, do livro Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo (Setembro de 2011). Pelo meio ficaram os títulos Londres e K3, ambos editados na &etc, respectivamente em Janeiro de 2010 e Janeiro de 2011. Em três anos, Nuno Dempster (Ponta Delgada, 1944) ajudou a baralhar as coordenadas da “nova” poesia portuguesa e impôs-se, por mérito próprio e sem parangonas, como uma voz única num meio onde a singularidade merece sempre a desconfiança redobrada dos membros da “comunidade”. O subtítulo deste livro não pode ser, pois, ingénuo, sendo possível ver nele alguma ironia que os versos do seu autor não enjeitam. É certo que Dempster vai buscar aos poetas italianos de outrora o gosto pelo decassílabo, sabendo, porém, que os aspectos formais na poesia de hoje são de relevância bastante discutível. Importará mais o ritmo imposto pela escolha das palavras e a sensibilidade no recorte dos versos (neste domínio, Dempster raramente perde o pé). Aqui e acolá poderíamos discordar de algumas opções, as quais não maculam minimamente o poder rítmico e a extrema sensibilidade colocada no tratamento da língua. No entanto, aquele Dolce Stil Nuovo associado à história de amor entre D. Pedro e D. Inês de Castro remete directamente para uma reconstrução do mito. Não é correcto falar-se em actualização, sendo preferível, talvez, aceitarmos as palavras do poeta e falarmos em transporte: «Transportemos do século XIV / a lenda de Pedro e Inês, para a filmarmos / na paisagem urbana deste século» (p. 35). Neste sentido, o poeta serve-se de um mito amoroso para desmistificar o sentimentalismo que contaminou, e persiste em contaminar, a lírica portuguesa. A preocupação, neste e noutros livros do mesmo autor, é a verdade, mas não a verdade num sentido absoluto, até porque essa não está às mãos de ninguém. O trabalho do poeta, aqui, é imaginar um mito passado num tempo presente, retratando assim o seu tempo e reflectindo a natureza da História: «A História só escreve equações, / da vida interior nada se lê» (p. 10). Há, por isso, um movimento paradoxal no método utilizado. A investigação levada a cabo parte de dúvidas intransponíveis sobre as suas próprias fontes, devendo por isso a verdade impor-se como uma construção onde operam diversos elementos por vezes antagónicos. O poema surge como uma espécie de fuga sempre resgatada, no final, pela inexorável realidade: rotina, trânsito, prédios, vizinhos, a vida vulgar. O resultado é esclarecedor: «Hoje vemos Inês cuidar das flores / do jardim, os seus três filhos na escola, / e fingimos que o príncipe D. Pedro / foi trabalhar no banco e volta à noite, / para jantar e logo adormecer / diante da TV, enquanto Inês / aconchega as crianças em seu sono / e a máquina ronrona e lava a louça. / Ainda não clareia, já D. Pedro / sai para a montaria que é o banco / e apanha o autocarro e o metro, / vítima de um destino tão vulgar. / Por isso, ninguém pode garantir / que Pedro seja a luz da própria lenda. / A luz só pode ser Inês, que deu / ao mundo os filhos de ambos e que segue, / serena, com as flores e com Pedro, / como ícone do mito, e permanece» (p. 28). Poesia culta, intensamente trabalhada, contida onde seria fácil resvalar, cuidadosa no tratamento dos vários elementos que a tornam, de facto, doce e nova quando comparada com a imensa maioria do que a “comunidade” foi dando à estampa nas últimas décadas.

INOCÊNCIA

Eles escarneciam do que eu amava —
A colina triangular suspensa
Por baixo do Big Forth. Diziam
Que eu estava cativo das sebes de acácias
Da pequena quinta e que desconhecia o mundo.
Mas eu sabia que a entrada do amor para a vida
É a mesma entrada em qualquer lugar.

Envergonhado com o que amava
Afastei-a de mim e chamei-lhe vala
Embora ela continuasse a sorrir-me com violetas.

Mas agora regressado aos seus braços agrestes
O orvalho de uma manhã de Verão Indiano jaz
No talo branquejado das batatas —
Que idade tenho eu?

Não sei que idade tenho,
Não sou eterno;
Nada sei de mulheres,
Nem de cidades,
Não posso morrer
A não ser caminhando fora destas sebes de acácias
.


Patrick Kavanagh

Sábado, 14 de Janeiro de 2012

MOMENTO CRÍTICO

«...é praticamente impossível não ler um parágrafo em que o idioma de Shakespeare não seja esquartejado e, da terminologia musical ("compassos", por exemplo, é traduzido por "beats") a descobertas como a "marine origin" (no original, "marítima"), a "umbigada" convertida em "encounter of belly-buttons", as cantigas de amigo em "friend's songs", a magnífica explicação da sedução da aristocracia pelo fado "attracted by the women and the lust and sin nectar", a inigualável descrição da voz "of lyrical tune" de António Menano ou a utilíssima informação de que "fado has attended assiduously in Portuguese cinema", é um festival. Suspeito que os consumidores anglófonos irão imaginar o fado como um género humorístico».

João Lisboa, sobre Fado Portugal/200 Anos de Fado, in Atual, 14 de Janeiro de 2012, p. 26.

MEMÓRIA DO CONFRADE MICHAEL*





Jamais será manhã, sempre noite,
Pôr-do-sol dourado, idade de ouro —
Quando Shakespeare, Marlowe e Jonson escreviam **
O futuro da Inglaterra página a página
Uma vala de urtigas selvagens foi o palco da Irlanda.

Jamais será Primavera, sempre Outono
Após uma colheita sempre perdida,
Quando Drake conquistava mares para a Inglaterra ***
Nós navegávamos em charcos do passado
Perseguindo o fantasma do mastro de Brendan. ****

As sementes entre o pó foram menos que poeira,
Poeira procurámos, ruína,
O jovem rebento erguendo-se nela asfixiado,
Amaldiçoado por estar no caminho —
E o mesmo ainda hoje é verdade.

A cultura é sempre qualquer coisa que foi,
Qualquer coisa que os pedantes podem avaliar,
Caveira de vate, fémur de chefe,
Profundidade de um rio seco.
Teremos de ser assim para sempre?
Teremos de ser assim para sempre?



Patrick Kavanagh



* Mícheál Ó Cléirigh (1590-1643): cronista irlandês, autor de Annals of the Kingdom of Ireland.
** William Shakespeare (1564-1616), Christopher Marlowe (1564-1593) e Benjamin Jonson (1572–637): dramaturgos ingleses.
*** Sir Francis Drake: (1540–1596): navegador inglês.
**** Saint Brendan of Clonfert (484–577): chamado de O Navegador, é um dos primeiros santos monásticos irlandeses.

UM MAPA EM EXPANSÃO

Qualquer coisa não bate certo no artigo de Maria da Conceição Caleiro, dedicado à edição de poesia, publicado ontem no Ípsilon. Reparamos que a “comunidade” se mantém praticamente a mesma desde há quatro anos, quando foi publicado um artigo de Luís Miguel Queirós sobre a nova poesia portuguesa no mesmo suplemento. Ora, como é possível falar de expansão em comunidades ensimesmadas? Ainda que demorem muito a escolher o papel e andem “feitos mulas nos seus carros” (sic) , os pequenos e médios e nano editores continuam a expandir-se na modesta ordem dos 100 (ou menos) a 300 exemplares com direito a devolução ou sem direito a reedição (salvo raríssimas excepções). Feitas as contas, podemos afirmar, não sem pesar, que a expansão se resume a isto: num universo de 300 almas podemos encontrar 30 espíritos empreendedores que permutam edições, recensões e elogios em espírito comunitário deveras saudável e amistoso com direito a paróquia lisboeta. Portanto, um micro retrato do estado expansivo, mas deveras centralizado, da nação.

SOLUÇÕES PARA O PAÍS

Primeira: ler o Tempo Contado:
«só perde quem tem. Nós, os onze milhões, pouco temos para perder».

Segunda: ler o Tolan:

«homens puramente livres estão condenados a vaguear como fantasmas entre os escravos que são mais ferozes e violentos do que eles».

COMO FAZIA...

Leio gente que não sabe escrever sem um como dizia, ouço outros que não sabem falar sem as mesmas muletas. Desdobram-se, empolgam-se, perdem-se e encontram-se em citações múltiplas, por vezes ligeiramente deturpadas pela memória, outras vezes meticulosamente copiadas da caderneta das frases predilectas. Com propósito ou sem propósito, o que me intriga é saber como vivem essas pessoas. Será que vivem como falam e escrevem? Ou seja, será que vivem socorrendo-se constantemente de um como fazia?