Não Miguelito, este texto não é sobre si, nem sobre a Analfabeta. Poderia ser sobre todos nós, mas o que aqui pretendo é esclarecer algumas ideias. Não me demorar com pessoas.
Condimentado com um sarcasmo que visava o perigo da ignorância e da incapacidade crítica, as minhas linhas repescaram algo de repulsivamante putrefacto e de um fedor tal que nem eu, exímia nas palavras, consigo descrever.
Entre o cocó diarreico, o pus de um amarelo quase laranja, o rasto de pensos higiénicos enegrecidos, o azedo espalhado por golfadas esverdeadas e outros fluidos nauseabundos de natureza excrementícia, encontro alguma tralha passível de reciclagem.
Aos interessados, apenas uma recomendação: sentem-se confortavelmente. É que isto vai demorar um bocadinho...
Ponto um – Da suposta ofensa pessoal e da importância de saber ler
A atenção com que releio as linhas que subscrevo neste tasco e o rasto que vou deixando na blogosfera confirma-me que as palavras eventualmente mais contundentes, como “nojo”, “indecente”, “preconceituoso” ou “preconceitualidadismo” (neologismo meu e não erro, Miguelito) recaem sobre um texto e não uma pessoa.
“Ignorância”, “atrevimento” e “pseudointelectualidade”, assim como a expressão “rebanho mal parido” metaforiza o grupo de pessoas que se deixa conduzir cegamente por um qualquer pastor... ou líder. É um grupo onde cabemos todos e, num ou noutro caso, a carapuça servirá a qualquer um de nós. Ponham-me a falar de carros, de futebol, de electricidade, de Empédocles…. A etiqueta assentar-me-á que nem uma luva. No caso em análise não consigo deixar de associar o pensamento homofóbico e qualquer tipo de preconceito (pois que o preconceito ultrapassa a mera opinião) à ignorância do ser pensante.
“Falta de lubrificação” não é ofensivo e “estupidez”, no contexto, sinonimiza iliteracia, ou seja, isso mesmo, analfabetismo: a incapacidade de ler e escrever.
Há ainda uma passagem que se socorre do discurso indirecto livre. É uma estratégia que me permite desconstruir, pelo efeito de ridículo, o argumento alheio em viva voz.
É aí que entra o calão que enfeita o meu registo, sendo que o seu uso cria efeitos muito diferentes consoante o contexto em que se move, seja ele irónico, orgásmico ou puramente ordinário e ofensivo.
Talvez tenha uma escrita caprina. Reconheço. Mas sei para onde vou e da qualidade dos meus benévelos leitores que me têm acompanhado incansavelmente.
Conseguir explicar a quem não quer ver que a minha crítica recaiu sobre texto e ideias e não sobre pessoas é uma tarefa demasiado hercúlea para esta pobre massa cinzenta que reconhece os seus limites e as suas limitações....
Ponto dois – Da homofobia, dos preconceitos e das falsas liberdades
Ora, a verdade é que o que motivou a escrever sobre o assunto resulta da minha mais profunda intolerância a qualquer tipo discriminação. Os textos que vou publicando no RG não me deixam mentir.
Poderia optar por redigir um texto mais geral sem concretizações, mesmo que elas ilustrem o mundo real, como constatou a Tia na caixa da confusão. Ainda verde nalgumas cousas da vida (empírica e virtual), sofro de ímpetos e de, como sugeriu o Marco, muito pouca sensatez. O tempo e a idade encarregar-se-ão de me moderar as cabriolices. Mas houve um pretexto. E, em conformidade com a minha consciência de agora, não houve como o não mencionar como caso exemplificativo. Com o link aportou também uma grosseria a que não estou habituada. Consequências contornáveis mas que aceito porque o direito ao contraditório só veio consolidar os meus argumentos, porque cartuxos sem pólvora só atingem quem se deixa atingir, porque vozes de burro não chegam ao céu. Assim justifico a não moderação dos comentários.
Qualquer pessoa tem direito à sua opinião. Falíveis, como somos, temos, também, as nossas pedrinhas. Aponto o dedo a mim mesma: piercings, tatuagens, minissaias com botas de cano alto, depilação púbica, mesquinhices dessa ordem… faço um esforço em identificar as causas das minhas recusas e atinjo os resíduos de modas e manadas. Estarei a ser injusta, eu sei. Até porque também eu, noutras coisas, me encarneiro sem pestanejar. E fico-me por aí.
Quando a opinião permite a cultura do micróbio do preconceito, a conversa é outra. O preconceito não é defensável com o argumento da liberdade de opinião e expressão, porque o preconceito viola a liberdade de se ser e os mais consagrados direitos do ser humano. O preconceito não é opinião; é uma forma de agressão altamente condenável à qual não se pode condescender qualquer margem de liberdade.
A opinião é uma baba insignificante, tolerável, inócua. Ou não. Há babas que incomodam porque, quando se juntam, se ameaçam rios de leito turbulento. Accionam a urgência da denúncia. Ignorar faz-me sentir cúmplice, pelo silêncio, do que se pode infiltrar, sorrateiro, na camada conduzível da nossa sociedade. E, porque há palavras que são sementes, eu lanço-as ao vento. Podem não germinar. Mas resta a possibilidade, por mais ínfima que seja, de um dia florirem.
Ponto três - Da educação. Do saber pensar. Da responsabilidade de cada um de nós.
Advoga-se a liberdade de expressão sempre que se procura justificar uma qualquer opinião criticada ou criticável.
Do que poucos se consciencializam, porém, é que a liberdade é irmã do conhecimento. Se ao conhecimento total das coisas nos é (ainda) impossível chegar, a verdadeira liberdade é um conceito apenas tangível pelo pensamento.
Uma das mais estimadas armas do despotismo travestido de democracia reside, precisamente, na formatação de mentalidades e (re)programação de condutas.
Estratégia subtil, pois que aos indivíduos é forjado um conjunto de situações que lhes assegura uma auto-confiança inabalável. Atiram-lhes, depois, dados, estatísticas, estudos científicos, nomes sonantes que sustentam uma tese que, por tudo isso, só pode ser inabalável. Arado está o campo para associações perigosas como a que se faz entre a homossexualidade e a pedofilia.
Afinal James Watson é um dótor e até recebe um Nobel, imagine-se! Sim, o mesmo que considerou que, ao se provar a localização da homossexualidade nos genes, as grávidas deveriam ter o direito a abortar, assegura que os negros são menos inteligentes que os brancos. Tudo em nome da ciência pura.
A função do educador é determinante para o combate à massificação da sociedade. Comparável ao moscardo socrático, não se compadece com a justificações da babuja nem encerra um debate porque as opiniões são diferentes e tal e coiso e plim. O educador procura despertar consciências e, por isso e para isso, alerta, pica, incomoda, obriga a uma restrospectiva e a uma introspectiva. Faz compreender que é perigoso aceitar tudo o que nos é ofertado de bandeja com a validação da asae. Mostra a possibilidade da manipulação de opiniões, da fomentação de preconceitos. A História e a Ciência são dois exemplos inegáveis. Aponta para a ignorância que ignoramos e que nos vitimiza silenciosamente.
Relacionar os comentários racistas, homofóbicos, etaístas, sexistas, de intolerância religiosa e por aí adiante com estados de perfeita ignorância, poderá ter sido o abanão inicial de que muito(a)s aluno(a)s e formando(a)s, adolescentes, jovens e adulto(a)s precisaram durante esta minha primeira década de experiência em vários graus de ensino, do básico e superior. Acusá-los de descuido, desleixo e crime perante os maus-tratos à língua portuguesa também. Um educador não se cala. Confronta. Estimula. Espicaça o sentido crítico. Vai para além do programazinho com que os governantes procuram moldar as cabeças.
É que não é só a eles que devemos endereçar as cartas de protesto e reclamação. É a cada um de nós, que vota, que referenda, que decide a vida do vizinho do lado de acordo com as suas convicções mais ou menos iluminadas pelo conhecimento das cousas. O mundo é feito por cada um de nós, que recicla, que fecha a torneira quando se ensaboa, que resiste à tentação de um Magalhães desorientado, que pugna pelo direito à adopção, ao casamento e à dádiva do sangue sem os habituais impedimentos da flatulência mal contida.
De cada um de nós depende a felicidade alheia. A nossa também.
Ponto quatro - Aos meus leitores
Uma palavra de apreço pela firmeza, umas vezes silenciosa, outras exagerada, dos amigos e das amigas que comigo partilham a voz e as ideias que aqui têm lugar.
Cegos os que não querem ver, os que confundem discurso indirecto livre com o dircurso directo, os que confundem anti-homofobia ou homofilia como homossexualidade, e homossexualidade com paneleirice, e ideias com pessoas e que fogem ganindo com o rabo cortado entre as pernas quando confrontados extra-tela, de tal forma que forjam
vídeos muito parolos e repetitivos ad nauseam, e trocam barlavento com sotavento para fugirem a um café cara-a-cara, e nem em Almancil ousam dançar o corridinho e ameaçam privar os esfomeados de milho, e ploc... já fede.
Tenho orgulho dos leitores do RG e a eles lanço o convite ao silêncio perante os impropérios que já nem têm por onde se lhes pegue. Argumentos. Ideias. Pessoinhas não.
Ponto cinco - Tiro ao alvo. Nhé nhé
Caso o fel precise de ser exorcizado, mártir me oferendo do cimo deste castelo andante.
Sendo eu a autora deste blogue, rainha, imperatriz e ditadora, o meu umbiguismo reclama que seria de bom tom que as ofensas migelalfabéticas se dirigissem à minha personagem e alimentassem o meu lado masoquista ainda por explorar.
Motivos que gente mentecapta possa considerar:
1. Sou fêa; mais fêa que uma manta de retalhos: dentes postiços por falta de cálcio, um olho à Camões e um buço de estimação de que me orgulho particularmente;
2. Ando sem provimento sexual há mais tempo que as boas maneiras me permitem aqui confessar;
3. A tez morena trai-me as origens de um país onde se fala de Kama e de Sutra;
4. Sou professora (aproveitem que está na moda achincalhar os professores deste país);
5. O último ponto deixo sempre em aberto para que o preencham com o que vos aprouver inventar.
A ilha dos tropos é uma casa de portas abertas.
Quando a coisa começa a cheirar mal, a gente afasta-se e deixa a estrumeira para as varejeiras.
(... é que já me aborrece isto de ter a burra nas couves)