a avozinha na cozinha faz bolos

Quando eu e o meu irmão éramos miúdos formamos uma banda, os Craque. Nao há muito a dizer sobre o repertório deste agrupamento musical e sobre a música em si creio que seja suficiente referir que a maioria dos instrumentos utilizados para marcar o ritmo à nossa rockalhada eram da marca Fischer Price.
Adiante: o primeiro single do segundo álbum era uma canção sobre uma avozinha que fazia bolos na cozinha, como se nada fosse, enquanto a guerra estalava à sua volta (ou se calhar só no Médio Oriente, já não me lembro). Suponho que na altura isso fosse uma mistura de consciência social precoce, uma certa distância que desejava mais curta desse mundo em que se faziam bolos, uma versão da alquimia que sempre me fascinou e que só podia exercer com a minha avó e uma crítica velada à existência apolítica dessa mesma avó, que isto o mundo não é justo e as crianças muito menos.
Desde as onze da noite de ontem que não tenho chave, telefone, dinheiro, cartões, documentos, nada. Fui agora buscar a chave do meu apartamento à vizinha maravilhosa com quem a deixo, pousei o casaco e comecei devagarinho a fazer bagels.
Parte da coisa é, claro, o facto de não ter nem pão para o pequeno almoço nem dinheiro para o comprar (para matar a fome, comi um rissol de bacalhau, a la Ferra&Zé Marques - estão óptimos, mas continuo a achar que rissóis e pequenos-almoços não são uma combinação muito feliz).
Mas o outro lado é a ligação entre o alívio de conseguir entrar em casa e descobrir que ainda está tudo aqui, a segurança das minhas quatro paredes, a concentração nalgo distinto que não a minha miséria, o cheiro que brevemente encherá a casa e o conforto quase uterino do calor do forno. Geborgenheit, chamam-lhe os alemães, que são cheios de palavras bonitas para estas coisas importantes.
Em resumo: a avozinha na cozinha era eu.
(roubei a imagem aqui, se por acaso passar em Oregon prestar-lhes-ei tributo)
Desde as onze da noite de ontem que não tenho chave, telefone, dinheiro, cartões, documentos, nada. Fui agora buscar a chave do meu apartamento à vizinha maravilhosa com quem a deixo, pousei o casaco e comecei devagarinho a fazer bagels.
Parte da coisa é, claro, o facto de não ter nem pão para o pequeno almoço nem dinheiro para o comprar (para matar a fome, comi um rissol de bacalhau, a la Ferra&Zé Marques - estão óptimos, mas continuo a achar que rissóis e pequenos-almoços não são uma combinação muito feliz).
Mas o outro lado é a ligação entre o alívio de conseguir entrar em casa e descobrir que ainda está tudo aqui, a segurança das minhas quatro paredes, a concentração nalgo distinto que não a minha miséria, o cheiro que brevemente encherá a casa e o conforto quase uterino do calor do forno. Geborgenheit, chamam-lhe os alemães, que são cheios de palavras bonitas para estas coisas importantes.
Em resumo: a avozinha na cozinha era eu.
(roubei a imagem aqui, se por acaso passar em Oregon prestar-lhes-ei tributo)

