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Sunday, May 30, 2010

a avozinha na cozinha faz bolos



Quando eu e o meu irmão éramos miúdos formamos uma banda, os Craque. Nao há muito a dizer sobre o repertório deste agrupamento musical e sobre a música em si creio que seja suficiente referir que a maioria dos instrumentos utilizados para marcar o ritmo à nossa rockalhada eram da marca Fischer Price.

Adiante: o primeiro single do segundo álbum era uma canção sobre uma avozinha que fazia bolos na cozinha, como se nada fosse, enquanto a guerra estalava à sua volta (ou se calhar só no Médio Oriente, já não me lembro). Suponho que na altura isso fosse uma mistura de consciência social precoce, uma certa distância que desejava mais curta desse mundo em que se faziam bolos, uma versão da alquimia que sempre me fascinou e que só podia exercer com a minha avó e uma crítica velada à existência apolítica dessa mesma avó, que isto o mundo não é justo e as crianças muito menos.

Desde as onze da noite de ontem que não tenho chave, telefone, dinheiro, cartões, documentos, nada. Fui agora buscar a chave do meu apartamento à vizinha maravilhosa com quem a deixo, pousei o casaco e comecei devagarinho a fazer bagels.

Parte da coisa é, claro, o facto de não ter nem pão para o pequeno almoço nem dinheiro para o comprar (para matar a fome, comi um rissol de bacalhau, a la Ferra&Zé Marques - estão óptimos, mas continuo a achar que rissóis e pequenos-almoços não são uma combinação muito feliz).
Mas o outro lado é a ligação entre o alívio de conseguir entrar em casa e descobrir que ainda está tudo aqui, a segurança das minhas quatro paredes, a concentração nalgo distinto que não a minha miséria, o cheiro que brevemente encherá a casa e o conforto quase uterino do calor do forno. Geborgenheit, chamam-lhe os alemães, que são cheios de palavras bonitas para estas coisas importantes.

Em resumo: a avozinha na cozinha era eu.



(roubei a imagem aqui, se por acaso passar em Oregon prestar-lhes-ei tributo)

Friday, May 21, 2010

manual para assaltos a jovens donzelas despistadas (II)

A segunda vez



Já eu era uma habitué da esplanada da FCSH e das conspirações no Continental, i.e., uma estudante universitária, fui assistir a uma aula aberta já não sei de quem na Universidade Lusófona. No fim da conferência, começo a atravessar o Jardim do Campo Grande para ir apanhar o autocarro do outro lado e penso de mim para comigo: "Este jardim é tão bonito, é uma pena perdê-lo só por causa de uma má experiência há seis anos atrás, tenho de cá voltar e vir descobri-lo".

Mas era chegado o momento wild wild west: tinha eu acabado de subir as escadas da passagem superior de peões sob a luz do entardecer quando vejo do outro lado da ponte um senhor que imediatamente me vê também e pensa "bingo!" (e não era o amor eterno) . E cada passo que demos a partir daquele primeiro olhar foi sentido pelos dois como um preliminar, um prenúncio do decisivo "não tens uns trocos?".

Eu tinha, mesmo se poucos, mas era no fim da minha bagagem intelectual, pelo que abri a mala, e disse:

- Segura aqui - e comecei a passar-lhe livros, apontamentos, fotocópias, até ele ter pelo menos três quilos nos braços e eu ter encontrado a carteira (se calhar dei-lhe um bocado mais do que o que seria estritamente necessário, mas estava a achar aquilo tão engraçado).

Dei-lhe os dois euros, deixei-o ver a carteira para mostrar que não tinha mesmo mais dinheiro, suspirei de alívio ao reparar que ele não me ficou com o único módulo que tinha para chegar a casa e fui arrumando, um a um, os livros e apontamentos que ele me foi passando, um pouco perplexo mas cooperante e cortês.

E depois cada um de nós foi à sua vida e eu nunca mais voltei ao Jardim do Campo Grande. E como sou uma rapariga de instintos maternais, sugiro-vos desde já que façam o mesmo.

(imagem daqui)

manual para assaltos a jovens donzelas despistadas (I)


Estava eu a ler o Bandeira ao Vento quando me dei conta de que ainda não tinha um blog quando fui assaltada e qe portanto vos escapam duas das minhas histórias favoritas - sim, que eu fui assaltada duas vezes.

Compreendo os cenários que estão a imaginar, Rita Maria, rapariga que nao se importa de ir sozinha para casa a meio da madrugada e faz disto prática corrente em quatro países, três capitais e uma vilória encantadora mas não: eu só fui assaltada a meio da tarde, só em Lisboa e sempre no mesmo sítio. Com o que avançamos para:

A primeira vez

Quando eu tinha aí uns treze ou catorze anos, tinha um jornal de produção caseira, a Jorna. Quando tinha a mesma idade, também queria saber tudo sobre o que pensavam os outros rapazes e raparigas da minha idade e fazia com alguma regularidade inquéritos anónimos da Universidade Católica sobre a influência da revolução sexual dos anos 60 na educação dos filhos dessa geração (sic), a que alguns dos meus colegas responderam com a maior boa vontade (em minha defesa e das minhas amigas: nesses casos ficávamos na posse de segredos tais que prometemos nunca os revelar - e não revelámos, mesmo quando percebemos que só podiam ser mentira - as mentiras que contamos sobre nós são tão verdadeiras como as nossas verdades). Vais chegar ao assalto, ó Rita Maria? Vou).

Ora, de uma coisa e da outra nasceu o primeiro grande inquérito à juventude da Jorna, que distribuí por todos os endereços que procuravam um correspondente nas revistas para adolescentes. E uma das respostas foi de um rapaz de Pedernais que concordou em responder se eu me tornasse correspondente dele. Eu concordei, para depois receber uma resposta cheia daquelas frases "eu sou um rapaz muito romântico" versão pudim de pacote em pó. No meio disto tudo, quando o rapaz se quis encontrar comigo já era conhecido lá em casa como o Pedernento e motivo da maior chacota (riam-se de mim, nao comigo, entenda-se).

Se imaginarem um rapaz chamado Pedernento, que mora nos subúrbios de Odivelas e diz que gosta de tocar "as músicas calminhas de Metallica" na guitarra, já lhe tiraram a pinta. Juntem umas botas horríveis e borbulhas e estão já a ver que muito antes de ele me ter perguntado "és sempre assim tao difícil?" já eu era para lá de impossível.

Mas enfim, por sugestão do dito cujo fomos ao jardim do Campo Grande, onde a minha mãe já me tinha sugerido que não era grande ideia ir (apontem: as mães têm sempre razão). Mais ou menos cinco minutos depois de nos sentarmos, vieram-nos perguntar se não teríamos uns trocos, uma daquelas perguntas em que a autoridade nao deixa lugar a dúvidas. E é agora, para quem estava à espera deste momento, em que isto passa a ter alguma coisa a ver com o post do José Bandeira: o meu casaco, onde estava a minha carteira, tinha o bolso furado. Devagarinho eu, de maos nos bolsos, livrei-me do relógio, do passe e da nota de quinhentos escudos (uma fortuna!) para dentro do forro, de forma a que me ficaram apenas com as moedas.

A coisa nao ficou por ali: como o Pedernento (acho que talvez se chamasse Tiago) já tinha um cartao de multibanco, mandaram-no levantar dinheiro e em vez de lhe ficarem com a rapariga ou com a carteira toda como garantia do seu regresso, contentaram-se com o BI e o cartao da escola. Ele ainda tinha dúvidas (tão tonto, minha virgem Maria), mas para mim era claro que não íamos levantar dinheiro, íamos mas era à procura de um polícia. Encontramos um que, estando na conversa, aceitou uma breve interrupção, ouviu a descrição dos malfeitores e continuou depois a sua conversa, longe de sequer considerar ir connosco ter com os ladroes que estavam à nossa espera.

Com os quinhentos escudos comemos um hambúrguer e fomos para casa, eu completamente parva com o polícia mas convencida, para sempre, da utilidade dos furos no forro do casaco.