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22 de Dezembro de 2005

”The Corpse Bride” por Nuno Reis


A vasta maioria dos realizadores de renome teve uma fase em que se dedicou ao cinema fantástico. Com o passar dos anos acabaram por o abandonar e abraçar vertentes mais lucrativas e argumentos menos complicados. Mas nem todos! Tim Burton tem já 30 anos de carreira dedicados ao fantástico e apesar de alguns filmes menos conseguidos é um mestre incontestável do género.
Uma só pessoa não faz muito, mas Burton tem a sorte de ter um magnífico leque de amigos disponíveis. Desde “Vincent” em 1982 até este Verão em “Charlie and the Chocolate Factory” foi criado amizades e cativando talentos. Para esta animação pôde contar com as vozes de Johnny Depp, Albert Finney, Helena Bonham Carter, Michael Gough e Cristopher Lee entre muitos outros. A música, como não poderia deixar de ser, é de Danny Elfman, um dos maiores artistas musicais que o cinema já teve.

The Corpse Bride” conta a história do jovem Victor, filho de novos-ricos, na véspera do seu casamento com a filha de uns pobres nobres. Victor depois de um acidentado ensaio de casamento, foge para o bosque onde, por distracção, coloca a aliança numa noiva já morta. Transportado para o mundo dos mortos irá tentar voltar para a sua noiva original, enquanto a sua actual noiva o quer manter para sempre onde a morte já não os pode separar. Entretanto a noiva viva está preocupada com o sucedido e, para complicar mais a sua situação, quando começava a gostar do noivo é forçada a casar com um (outro) estranho e Victor volta com todos os mortos para celebrar oficialmente o seu casamento! Bem, com tanta confusão ou o filme é impossível de perceber, ou é imperdoável perder. Aqui aplica-se claramente o segundo caso.
Personagens deliciosas, músicas espectaculares, animação de qualidade assombrosa, resumindo, uma maravilha! Depois de “The Nightmare Before Christmas” poucos foram os filmes com esqueletos que me impressionaram. Este regresso de Burton ao mundo subterrâneo não lhe é superior, mas também não deve nada ao antecessor.






Título Original: “The Corpse Bride" (EUA, Reino Unido, 2005)
Realização: Mike Johnson, Tim Burton
Intérpretes (vozes): Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Emily Watson, Tracey Ullman, Albert Finney, Christopher Lee, Michael Gough
Argumento: John August, Pamela Pettler, Caroline Thompson
Fotografia: Pete Kozachik
Música: Danny Elfman
Género: Animação, Comédia, Drama, Fantasia, Musical, Romance
Duração: 76 min.
Sítio Oficial: http://www.corpsebridemovie.com/

20 de Dezembro de 2005

"King Kong" por António Reis


O fim da macacada

Rui Veloso cantava “nunca voltes ao lugar onde já foste feliz ainda que o coração mande não faças o que ele diz”. Peter Jackson quis voltar a esse ligar mítico que é o cinema da Universal dos gloriosos anos 30 ou eventualmente à remake de Dino de Laurentis. O resultado está aquém das expectativas que um fã declarado de Jackson como sou teria. Isto porque a remake é uma mera transposição literal desse original embrulhado em tecnologia digital de alta qualidade mas que sabe a pouco. O mesmo não se pode dizer do filme que com a sua duração exagerada reafirma que Jackson não tem noção da contenção temporal nem do efeito das elipses na narrativa.
Esperava-se talvez que a obsessão por esse sonho de criança finalmente concretizado não eliminasse a capacidade do realizador de fazer alguma inovação na narrativa. Não é o caso. Faz uma brilhante reconstituição da Grande Maçã dos anos 30, delicia-se com efeitos especiais de enorme impacto visual, mas oscila num humor moralista e às vezes cínico e numa exposição de Naomi Watts que parece ter deixado o realizador pelo beicinho. Assim sendo este “King Kong” pouco acrescenta ao imaginário do fantástico em que se inspira, apesar de, nesse vale perdido, o gorila coabitar com dino e outros sáurios, aranhas gigantes e demais bicharada em tamanho gigante para satisfação de públicos mais adolescentes. Apesar da duração o filme apresenta lapsos incompreensíveis no argumento e soluções nem sempre ajustadas. Jackson não está no seu melhor, o macaco já teve melhores dias, as remakes já não são tão apelativas como os originais e o fantástico está a precisar de guionistas inspirados. Perdoa-se a Jackson este desvario para agradar aos americanos, mas espera-se que o genuíno cineasta de “Braindead” ou “Forgotten Silver” regresse na próxima produção. Este “King Kong” foi apenas um sorvedouro de dinheiro e mesmo que o box-office (como parece ser o caso) esteja a compensar, para a história do cinema este Kong não vai ser King.






Título Original: “King Kong” (Nova Zelândia, EUA, 2005)
Realização: Peter Jackson
Intérpretes: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Andy Serkis
Argumento: Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson (baseados na história de Merian C. Cooper e Edgar Wallace)
Fotografia: Andrew Lesnie
Música: James Newton Howard e Mel Wesson
Género: Acção, Aventura, Drama, Fantasia, Ficção-Científica, Thriller
Duração: 187 min.
Sítio Oficial: http://www.kingkongmovie.com/

3 de Novembro de 2005

"Doom" por Nuno Reis

Entre todos os first-person shooter Doom pode não ser o melhor nem o mais jogado nem o mais vendido, mas mesmo assim é ainda a referência do género. Após tantas conversões de jogos para filmes eis que chega às salas portuguesas Doom.
Em 2026 foi descoberta uma passagem entre Nevada, EUA e Oldubai, Marte. Ao fim de alguns anos, com essa ligação já bastante mais estável, o planeta vermelho ainda não está colonizado mas já tem uma grande equipa de cientistas a estudar o seu passado. Esse campo experimental a milhares de quilómetros da Terra é também utilizado para testes mais perigosos, como engenharia genética e tecnologia bélica. Quando uma equipa de Marines é enviada para o planeta para descobrir o que atacou um grupo de cientistas, esses três ramos da ciência serão necessários.
Sarge e Reaper são os heróis da história, os nomes sem dúvida que são familiares para os fãs de videojogos. Juntamente com mais meia dúzia de soldados irão partir para uma missão que se revela bastante mais complicada do que esperavam. Inicialmente era suposto averiguarem o que tinha acontecido aos cientistas e ajudarem Samantha, a irmã de Reaper, a recuperar os dados das experiências, mas os homens desse pelotão estão a ser rapidamente dizimados e nada do que já viram ou imaginaram os preparou para o que iriam enfrentar.
O filme deveria ser caracterizado pelos movimentos rápidos e disparos constantes, em vez disso consegue ser até bastante calmo. O ângulo de visão do monstro não é usado em momento nenhum do filme e esse lapso torna-o ainda mais monótono. Os tiros são menos frequentes que em filmes de guerra, as mortes são muito previsíveis e nem sequer as criaturas assustam. Jogar Doom numa sala às escuras é bastante mais interessante que ver este filme. Como pontos positivos destaco os cenários que recriam na perfeição locais familiares para todos os jogadores, o mesmo se aplica às armas. Então os minutos finais do filme são totalmente fiéis ao espírito do jogo.
Quem não for fã do jogo não vai gostar do filme, quem for fã é melhor que não jogue antes de ver o filme pois o jogo está bem melhor.









Título original:Doom” (EUA, República Checa, 2005)
Realizador: Andrzej Bartkowiak
Intérpretes: Karl Urban, The Rock, Rosamund Pike
Argumento: Dave Callaham e Wesley Strick
Fotografia: Tony Pierce-Roberts
Música: Clint Mansell
Género: Acção, Ficção Científica, Terror
Duração: 100 min.
Sítio oficial: http://www.doommovie.com/

22 de Outubro de 2005

"Serenity" por Nuno Reis

Num futuro distante a Humanidade abandona a Terra e parte para novos sistemas solares. Num deles encontrará dezenas de planetas e luas que tornará habitáveis e colonizará criando um império. É aí que se desenrola a acção da série “Firefly” que em 2002 e 2003 gerou um culto ao nível dos maiores da ficção científica.

Em 2005 estreou o filme baseado nessa série: "Serenity". Serenity é o nome da nave de Mal, um combatente que depois da guerra se tornou um aventureiro, por outras palavras, um criminoso. Para prevenir os espectadores menos atentos, Mal é o novo Han Solo, fisicamente parecido, com uma mentalidade idêntica, e um sentido de humor tão inoportuno como o gosto de partir em aventuras. A sua tripulação é bem mais completa que a do Millenium Falcon: Wash (alan Tudik) é o piloto, Zoe é a mulher dele e combateu com Mal na Guerra, Jayne é o típico mercenário resmungão, Kaylee é a mecânica de serviço (e bastante cheia de trabalho) e Simon é o médico de bordo. O seu mentor é o Pastor Book, um sábio idoso com um passado sangrento, como Ben escondia Obi-Wan. Juntos executam arriscadas missões por todos os cantos do sistema em busca de recompensas, e tudo corre bem até Simon salvar a irmã.

Neste sistema não existem outras raças, por isso o papel de vilões cabe a seres humanos. No eterno confronto contra os rebeldes o governo está a treinar um grupo de médiuns que serão a arma derradeira. River, a irmã de Simon, é a melhor deles mas sabe que algo de mal se passa e por isso é afastada. Quando Simon a resgata e leva para bordo da nave, Mal tenta usá-la como vidente, mas, ao ver toda a destruição que a rapariga indefesa causa, começa a encará-la como uma ameaça que terá de ser afastada. Uma chamada de Inara, a eterna paixão de Mal, leva a Serenity a partir para um confronto contra o agente da Aliança. Um combate sem tréguas que acabará com a destruição de um dos lados e que revelará a verdade sobre os Reavers, psicopatas de origem desconhecida que lançam o pânico por todo o sistema.

Visualmente estimulante mas sem se perder em detalhes desnecessários, cruza humor e terror medianos num filme que acaba por ser bastante razoável. Não sendo uma obra-prima é um regresso dos filmes de aventura espacial, com um toque de “Star Wars” mas essencialmente um cruzamento de “Pitch Black” com “Ghost of Mars”. Em destaque o pequeno papel de Sarah Paulson que consegue reanimar o filme quando se começa a tornar enfadonho. Apesar de os seguidores da série irem apreciar mais este ponto final, a súmula inicial é bastante boa e qualquer um fica imediatamente a par do que se passa.











Título original:Serenity” (EUA, 2005)
Realizador: Josh Whedon
Intérpretes: Nathan Fillion, Gina Torres, AlanTudik, Morena Baccarin, Adam Baldwin, Jewel Staite, Sean Maher, Summer Glau
Argumento: Josh Whedon
Fotografia: Jack N. Green
Música: David Newman
Género: Ficção Científica, Acção
Duração: 119 min.
Sítio oficial:http://www.serenitymovie.com/

20 de Outubro de 2005

"Les Poupées Russes" por Nuno Reis

Há alguns anos, em Barcelona, um grupo de estudantes partilhava uma casa. Ingleses, franceses, espanhóis, alemães e italianos, rapazes e raparigas, cada um com a sua personalidade e problemas, cada um com a sua magia. “L’Auberge Espagnole” foi um grande filme para falar da vida de estudantes mas só sabemos se as lições ficaram sabidas se virmos os adultos em que se tornaram. Cinco anos depois encontramos Xavier. O jovem escritor ainda não conseguiu completar o seu romance e vai fazendo alguns trabalhos menores para sobreviver. A sua amizade com Martine e Isabelle manteve-se, com os restantes foi perdendo o contacto. Quando William lhe aparece e diz que vai para a Rússia atrás do seu amor, Xavier fica radiante. Por sugestão de William começa a escrever em Londres um guião com Wendy, a irmã de William, enquanto continua em Paris a fazer entrevistas a gente conhecida para quem escreve as biografias. Percorrendo estações e países, cruzando idiomas e culturas, este InterRail cinematográfico é uma comédia que despoleta muitas e sonoras gargalhadas.
A história de Xavier é a história de um jovem com as preocupações usuais. As relações que ele tem são as relações que qualquer um poderia ter, as situações que atravessa são situações que poderiam acontecer a qualquer um. Nos diálogos, multilingues, utilizam palavras normais, são conversas realistas que poderiam ser ouvidas em qualquer café ou estação de comboios. Pessoas jovens que ainda acreditam em sonhos e ideais. Muitas interpretações de luxo, uma realização excelente, e alguns toques de génio quando necessários.
Esta é sem dúvida uma história sobre amor e está tão bem feita que posso afirmar que este ano não haverá melhor filme sobre o tema. Que tipo de amor? Há para quase todos os gostos: uma mãe solteira que não encontra o príncipe encantado; um homem que não se contenta com o amor verdadeiro; uma mulher que procura a parceira ideal; uma mulher que se apaixona por demasiada gente; e um homem capaz de tudo por amor. As paixões de cada um são de todos os tipos que existem. Há amantes tímidos e amantes desinibidos, há pessoas que se apaixonam ao primeiro olhar, outras só depois de olhar profundamente, umas relações surgem por impulso, outras surgem depois do convívio com alguém que sempre conhecemos e que desconhecíamos amar. Quem ama ou já amou acabará por se identificar com alguma das personagens ou das situações.
Muitos filmes sobre o Amor tornam-se geniais pela mensagem que fica implícita, pelas palavras que não são ditas, mas neste filme não ficam palavras por dizer. Os discursos entre amantes são espontâneos e com simplicidade transmitem sentimentos verdadeiros.
No primeiro filme provaram que a amizade não dependia da língua, cultura ou religião. Neste segundo filme provam que o Amor é igualmente poderoso e leva as pessoas a fazer mesmo qualquer coisa. Até quem ainda não viu “L’Auberge Espagnole” pode ver “Les Poupées Russes”, aliás, deve!







Título Original: “Les Poupées Russes” (França, Reino Unido, 2005)
Realizador: Cédric Klapisch
Intérpretes: Romain Duris, Kelly Reilly, Audrey Tautou, Cécile De France, Kevin Bishop, Evguenya Obraztsova
Argumento: Cédric Klapisch
Fotografia: Dominique Colin
Música:Loïc Dury, Laurent Levesque
Género: Comédia Romântica
Duração: 125 min
Sítio Oficial: http://www.marsdistribution.com/site/poupeesrusses/

13 de Outubro de 2005

"El Séptimo Día" por Nuno Reis

Em 1992, enquanto Barcelona hospedava os Jogos Olímpicos, uma pequena aldeia testemunhou um crime terrível. Em 2004 o mais experiente realizador espanhol, Carlos Saura, dirigiu a adaptação para cinema da história que abalou o país.
Na aldeia de Puerto Hurraco, Badajoz, um namoro terminado lança o ódio entre duas famílias. Para vingar a afronta feita à sua irmã Luciana, Jerónimo Fuentes mata o ex-namorado dela sendo por isso condenado à prisão. Pouco depois um misterioso incêndio deflagra na casa dos Fuentes que mata a matriarca e obriga a família a abandonar a aldeia e a recomeçar a vida. Trinta anos depois Jerónimo sai da prisão e esfaqueia Juan Giménez no domingo em que as suas filhas comungam. Também os outros irmãos Fuentes sofrem de loucura, convictos de que a aldeia é culpada da morte da mãe e que os Giménez são os culpados do ódio da aldeia, tudo farão para se vingarem. A história é-nos contada pela mais velha das meninas Giménez, narra-nos o seu Verão livre de preocupações em que parte à descoberta do passado para descobrir um terror que não poderia imaginar.
Vários aspectos humanos são focados como a vontade de ir para a cidade, as grandes superfícies que ameaçam o comércio, o emigrante de regresso, o anão cantor, o louco viciado em drogas, tudo aquilo que simultaneamente torna a aldeia típica mas única. A grande vantagem do filme é que não se apresenta como um documentário mas sim como o feliz Verão de uma jovem que brinca e dança com as irmãs, que começa a namorar e que tem uma vida cheia de sonhos. Até que decide saber mais sobre o morto de quem todos falam e porque ficou a aldeia aliviada com a notícia. Só que investigar a razão que o levou a tentar matar o pai dela poderá levar a descobrir algumas coisas sobre o pai que não são agradáveis. A beleza da paisagem e o realismo do filme são magníficos.
Infelizmente o filme não é só sobre coisas boas por isso chegará o dia em os Fuentes consumarão a vingança final. Os minutos finais passados na aldeia têm uma aparência simples mas de enorme complexidade de realização, são de uma enorme beleza mas de uma violência brutal. Saber que é tudo real torna ainda mais macabro. Nas interpretações o destaque vai para Yohana Cobo, a narradora, e para os irmãos Fuentes que, com mais ou menos tempo de cena, são excepcionais. O ponto fraco do filme são alguns efeitos especiais pois apesar de cenas como a avaria eléctrica ficarem perfeitas, outras teoricamente mais simples (como as facadas) são feitas de forma muito rudimentar.







Título Original: “El Séptimo Día” (Espanha, 2004)
Realizador: Carlos Saura
Intérpretes: Yohana Cobo, José Garcia, José Luís Gomez, Juan Diego e Victoria Abril
Argumento: Ray Loriga
Fotografia: François Lartigue
Música: Roque Baños
Género: Drama
Duração: 103 min
Sítio Oficial: Lolafilms Apesar de a Lolafilms indicar http://elseptimodia.com como sendo o sítio oficial, o endereço não tem dono.

6 de Outubro de 2005

"Sky High" por Nuno Reis

Desde sempre que a Disney tem feito filmes para crianças e muitos deles sobre crianças. Muitos dos actores e actrizes mais célebres da actualidade estão rotulados como miúdos Disney, uma escola que vem formando gerações de talentosos actores. Se entre as actuais estrelas adolescentes se encontram nomes como Hillary Duff e Lindsay Lohan, já em tempos Joshua Jackson, Jodie Foster e Sean Astin entre muitos outros foram jovens protagonistas de filmes Disney.
Chegou a hora de uma nova fornada ser lançada e a forma escolhida foi com super-poderes. Se em “Up, Up, and Away!” e “The Incredibles” já havia famílias de super-heróis, porque não criar uma escola onde os filhos deles sejam ensinados? Não é Hogwarts mas quase, é “Sky High”, a escola onde se formam os heróis. Matt é o filho dos dois maiores heróis de sempre e vai entrar para a escola dos heróis onde o ensinarão a maximizar os seus poderes e a usá-los para o bem. O único problema é que Matt não tem nenhum poder. Relegado para a turma dos adjuntos, aqueles que não têm poderes suficientes para serem heróis, irá enfrentar todos os problemas que um adolescente normal tem numa escola normal. Mas quando temos por inimigo alguém que lança fogo com as mãos e não temos poderes para enfrentá-lo… convém saber escondermo-nos ou, pelo menos, fugir muito depressa.
Não sendo uma nova perspectiva sobre os heróis, é acima de tudo um filme que discute comportamentos e atitudes no liceu através de metáforas: os heróis são os alunos populares, os adjuntos de herói são empecilhos que muitos gostam de massacrar ou fazer sentir como inferiores. Matt é o clássico adolescente problemático, alguém de quem os pais esperam muito e que não se sente capaz de nada, que tenta ser aceite pelos heróis para finalmente descobrir que os adjuntos são tão importantes como os heróis e que deve sentir-se orgulhoso por ter amigos verdadeiros, independentemente do que os outros pensem.
Os actores adultos são conhecidos, Kurt Russell, Kelly Preston e Bruce Campbell. Os alunos incluem diversos rostos de séries e tele-filmes Disney. Os efeitos especiais são suficientemente bons para não criticar. O argumento é exactamente o que seria de esperar de um filme passado numa escola. Como todos os bons filmes Disney consegue prender o público, é fácil de perceber e acompanhar, é divertido e transmite bem a moral. Mesmo sendo previsível tem dois detalhes que não são bem explicados mas no meio de tanta acção não interessam. Pelos actores nota-se que foi um filme divertido de fazer e, ainda mais importante, é divertido de ver. É um filme para crianças? É daqueles filmes feitos especificamente para um público infanto-juvenil mas que qualquer pessoa pode ir ver e gostar. Filmes para toda a família é a definição da magia Disney e felizmente ainda conseguem (de vez em quando) fazer um filme assim.




Título Original: "Sky High" (EUA, 2005)
Realizador: Mike Mitchell
Intérpretes: Michael Angaramo, Danielle Panabaker, Kurt Russell, Kelly Preston, Bruce Campbell
Argumento: Paul Hernandez, Robert Schooley, Mark McCorkle
Fotografia: Shelly Johnson
Música: Michael Giacchino
Género: Acção, Aventura, Comédia
Duração: 100 min
Sítio Oficial: http://disney.go.com/disneypictures/skyhigh/

8 de Setembro de 2005

”The Final Cut” por Nuno Reis


Num futuro não muito distante será possível associar o sistema óptico de um indivíduo a um circuito interno que grave tudo que os olhos viram. Esse filme seria um perfeito relato da vida do seu proprietário, pode não gravar pensamentos mas de resto é mais fiável que um diário. Depois de ter visto Freeze Frame esperava que fosse o derradeiro álibi, um ficheiro secreto que serviria de álibi a cada indivíduo de forma inabalável, mas afinal, a utilização dada a esse filme é algo mais inacreditável do que seria esperado

Alan Hakman (Robin Williams) é um editor, aliás, é o melhor dos editores. O seu trabalho e manipular as milhares de horas de gravação de cada recém-falecido de forma a criar o filme da vida de uma pessoa, uma pequena peça que será exibida em simultâneo com o funeral. Esses filmes são desejados por um ex-editor, interpretado por Jim Caviezel, para provar a culpabilidade de alguns dos homens influentes que em vida estavam acima de qualquer acusação. Cabe a Alan esquivar-se dessas tentativas e tentar fazer o seu trabalho o melhor possível, enquanto a mulher que ama lhe causa enormes problemas e um pequeno detalhe do passado lhe destrói o presente e coloca o futuro em risco.

Partindo de uma boa ideia-base, com uma temática suficientemente delicada para ser apelativa sem ser polémica, e com uma das maiores estrelas da actualidade tinha tudo para suceder. Infelizmente pouco mais no filme merece tantos elogios e portanto este trabalho, como muito anteriores, é um one man show de Robin Williams. O actor desta vez não está ao seu melhor mas é suficientemente brilhante para ofuscar os restantes actores e esconder os detalhes menos bons do filme.


Título Original: "The Final Cut" (Alemanha, Canadá, 2004)
Realizador: Omar Naim
Intérpretes: Robin Williams, Jim Caviezel, Mira Sorvino e Mimi Kuzik
Argumento: Omar Naim
Fotografia: Tak Fujimoto
Música: Brian Tyler
Género: Ficção Científica, Thriller
Duração: 95 min
Sítio Oficial: http://www.finalcutfilm.com/

5 de Agosto de 2005

"Herbie: Fully Loaded" por Nuno Reis

Em 1968 foram filmados muitos filmes incontornáveis da história do cinema, “C'era una volta il West”, “2001: A Space Odyssey”, “The Lion In Winter” e “Bullitt” são clássicos, “The Odd Couple” e “The Party” são ainda referências na comédia. Na área do fantástico surgiram “Planet of the Apes”, “Rosemary’s Baby”, “Night of the Living Dead” e “Barbarella”, sem dúvida que foi um grande ano para o cinema mas, quantos destes foram feitos para os mais novos? Numa era em que o cinema era passatempo para os adultos os filmes para crianças eram raros, neste ano surgiram dois que não só eram próprios para crianças como tinham outra coisa em comum: um carro no título. Se “Chitty Chitty Bang Bang” era um modelo estranho que conseguia voar “The Love Bug” era um carro perfeitamente vulgar e apreciado por todos que, apesar de não voar, corria como nenhum outro. Os filmes seguiram-se, Herbie venceu sem parar durante quatro filmes - 1974, 1977, 1980 foram os anos das sequelas - tendo depois desaparecido dos cinemas. Entre os filmes o elenco mudou bastante, Dean Jones, o seu primeiro dono, volta a surgir em 1982 numa série em que dirigia uma escola de condução onde, obviamente, Herbie está sempre presente. Finalmente em 1997 Peyton Reed (“Bring It On”, “Down With Love”) dirigiu Bruce Campbell numa versão televisiva, seria o destino de Herbie ficar-se pela televisão? Não, ergueu-se uma última vez para provar que ainda está pronto para as curvas.

Com a certeza de ter alguns dos seus antigos fãs de novo na sala para ver Herbie, o filme começa por recordar através de jornais os grandes momentos do carocha - arrasando a concorrência, cruzando a meta, sendo notícia – e os maus momentos – perdendo, sofrendo, caindo no esquecimento. Nas primeiras cenas está Herbie a ser levado para o ferro-velho onde terminará a sua existência, qualquer espectador que goste minimamente do Herbie ficaria chocado mas esses ainda estavam nostálgicos e nem se apercebem. Em seguida o filme começa a centrar-se nas pessoas, mostra-nos a família Peyton, lendas do automobilismo. A filha mais nova, Maggie, acabou o curso e irá passar um último mês em casa antes de partir para New York para trabalhar em televisão. Como prenda o pai oferece-lhe um carro e, apesar de a escolha inicialmente ter sido outra, o 53 cai-lhe dos céus. A partir daí Herbie dá espectáculo de forma tão convincente como antes, na pista e fora dela, e Maggie voltará ao volante contrariando a vontade do pai.

Um filme com este carro não precisaria de mais nada mas a Disney apostou em grande e juntou um lote de estrelas. Michael Keaton é o pai, Matt Dillon o vilão e Lindsay Lohan a estrela. Keaton tem uma interpretação de fugir, tanto ele como Dillon levaram o filme na brincadeira e não são mais do que nomes sonantes em personagens secundárias. Lohan é um pouco mais complexa. Sendo uma das muitas crianças-prodígio Disney desde cedo que criou uma legião de fãs, a pausa que fez para os estudos não os afastou e no regresso ao cinema arrebatou diversos prémios. O talento que tem demonstrado nas comédias não é totalmente usado aqui e além disso faz imensas cenas em mini-saia, o que não é prático para conduzir e distrai os espectadores. Estando os actores abaixo do bom… resta o carro. Herbie faz tudo o que aprendeu nos outros filmes e demonstra quase tanta teimosia. Como defeito aponto apenas fazer um som de mogwai (gremlin) e estarem sempre a tentar mostrar-lhe a “cara”. Por muito que tenham tentado não há aquela simbiose a que Herbie nos habituou com os seus condutores. Não é uma comédia brilhante e não é um filme de culto, é o carocha que todos lembram num filme que deve ser esquecido o mais depressa possível.




Título Original: "Herbie: Fully Loaded" (EUA, 2005)
Realizador: Angela Robinson
Intérpretes: Herbie, Lindsay Lohan, Justin Long, Michael Keaton, Matt Dillon, Breckin Meyer
Argumento: Thomas Lennon, Robert Ben Garant, Alfred Gough, Miles Millar baseados na personagem de Gordon Buford
Fotografia: Greg Gardiner
Música: The Blacksmoke Organisation, Mark Mothersbaugh
Género: Comédia/Família/Fantasia
Duração: 101 min
Sítio Oficial: http://disney.go.com/disneypictures/herbie/

4 de Agosto de 2005

"Alone in the Dark" por Nuno Reis

Quando fui ver o filme tinha suspeitas, quando acabei tinha certezas. Apresento-vos o pior filme do ano até à data! Uwe Boll, o realizador de “House of the Dead” continua a atacar o cinema com as suas tentativas de filmes. Desta vez até reuniu alguns nomes conhecidos: Tara Reid (quando parecia ter talento só tinha papeis pequenos agora que não tem talento só tem maus filmes), Christian Slater (aparece em bons filmes como figurante, em filmes médios como secundário e como protagonista em fiascos), e Stephen Dorff que ultimamente tem feito muitos filmes de terror, terríveis mas nada aterrorizadores.

Alguns anos atrás um grupo de órfãos desapareceram do orfanato sem deixar rasto, todos eles foram sujeitos a uma estranha experiência que pretendia fundi-los com uma poderosa criatura. A tentativa foi bem sucedida em todos excepto numa, um dos rapazes ficou escondido durante uma das etapas por isso a fusão não ficou completa. Anos depois, já um homem feito, é perseguido por um homem demasiado poderoso para ser normal mas, no fundo, ele também não é pois consegue vencê-lo. Enquanto isso um velho num navio é aprisionado e o valioso sarcófago que pretendia levar é violado o que causa a morte a todos os restantes seres a bordo… Percebe-se que estava uma criatura no caixão e que isso juntamente com a manipulação genética das crianças era uma tentativa desse velho de dominar o mundo, o problema é que um bando de criaturas, como a que estava no caixão, se prepara para tomar o controlo do planeta, exterminando os humanos.

O resto do tempo do filme é um gigantesco combate entre os humanos e as criaturas, com muitas balas e explosivos mas nenhuma emoção e nenhum arrepio. A nível visual só gostei de uma cena, no meio da escuridão o herói dispara rajadas que dão a única iluminação, como a luz dos disparos é intermitente dá um efeito diferente, invulgar em cinema mas muito utilizado em jogos de computador (a origem deste filme é o jogo homónimo). Tirando esta cena quase não há escuridão nos combates o que retira todo o terror que um filme destes poderia ter. Convém dizer que essas criaturas ganham ainda mais poder quando escurece, daí o título. Resumindo numa frase o filme: se o “AVP” tivesse sido pior, teria sido assim. Considerando como sendo um filme de acção ir vê-lo é apenas um desperdício de tempo, considerando como filme de terror ir ver um filme destes é um desrespeito pelo género e uma desilusão. E continua a ser desperdício de tempo.



Título Original: "Alone in the Dark" (Alemanha,Canadá e EUA, 2005)
Realizador: Uwe Boll
Intérpretes: Christian Slater, Tara Reid, Stephen Dorff, Mathew Walker
Argumento: Elan Mastai, Michael Roesch, Peter Scheerer
Fotografia: Mathias Neumann
Música:Reinhard Besser, Oliver Lieb, Bernd Wendlandt, Peter Zweier
Género: Acção/”Terror”
Duração: 96 min
Sítio Oficial: http://www.aloneinthedarkthemovie.com/

"Millions" por Nuno Reis

"The French have said ‘au revoir’ to the franc. The Germans have said ‘auf wiedersehen’ to the deutsch marc. And the Portuguese have said… whatever to their thing."


O jovem Damian aprendeu com o irmão que se disser às pessoas que a mãe morreu, uma trágica verdade, recebe sempre algo. Quando está sozinho no abrigo que construiu em cartão cai-lhe vindo do céu um saco desportivo cheio de libras, como ele tinha acabado de falar com Deus sobre a mãe é óbvio que foi Ele quem lhe deu o dinheiro. Deus é mesmo muito simpático. Damian imediatamente conta essa novidade ao irmão Anthony que o aconselha a guardar segredo, juntos conseguirão tirar um bom proveito dessa fortuna.

Enquanto Anthony acha que o dinheiro deve ser gasto, Damian acha que deve ser dado. E de ambas as formas as dezenas de libras vão desaparecendo mas os milhares não desaparecem assim tão facilmente. Com a mudança de ano muda a moeda e todo o país tenta trocar as últimas notas.
O jovem Damian sabe tudo sobre os santos e a sua imaginação faz com que eles lhe surjam sempre que necessários. Por conselho destes - afinal, os santos são modelos que todos deveriam seguir – vai alimentando os esfomeados e ajudando os necessitados. Até ao dia em que coloca mil libras num caixote que pretendia apenas recolher uns xelins. A responsável pelo peditório chama o pai deles à escola e a partir daí vai-se tornando parte da família para raiva de Anthony.
Os verdadeiros problemas surgem quando o legítimo dono do dinheiro começa a rondar e quando descobrem que é parte do saque de um dos maiores roubos já feitos em Inglaterra. Os planos para o gastarem, os nervos para o esconderem, a correria para o trocarem, tudo se sucede de forma fluída e coerente.

A parte de gastar dinheiro está bastante divertida, a parte de o trocarem foi muito bem conseguida, o criminoso a rondar poderia ser mais assustador ou mais despachado mas dessa forma não seria um filme tão juvenil. Retrata de forma ligeira vários problemas sociais e éticos, tem personagens divertidas e centra-se em crianças naturais (mais que os adultos). Foi um bom regresso de Danny Boyle à comédia depois de uma bem sucedida passagem pelo terror. James Nesbitt actua bem nos momentos em que tinha de intervir e a quase desconhecida Daisy Donovan consegue ter um papel memorável. Os dois miúdos realmente dominam o filme com destaque para Alexander Etel que poderia ter feito o filme todo sem ajuda. Os meus parabéns para o argumentista por ter tornado algo tão global como um país mudar de moeda em algo tão íntimo, por ter revelado aquilo que todos conhecemos como os maiores defeitos da humanidade e por ter mostrado que o dinheiro só serve para dar felicidade.




Título Original: "Millions" (EUA e Reino Unido, 2004)
Realizador: Danny Boyle
Intérpretes: Alex Nathan Etel, Lewis Owen McGibbon, James Nesbbit, Daisy Donovan
Argumento: Frank Cottrell Boyce
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Música: John Murphy
Género: Comédia/Crime/Drama
Duração: 98 min
Sítio Oficial: http://www.foxsearchlight.com/millions/

"Monster-in-Law" por Nuno Reis

Quinze anos depois da reforma antecipada Jane Fonda voltou a representar. O filme escolhido foi este “Monster-in-Law” onde interpreta a bem sucedida apresentadora de televisão Viola Fields. Apesar de não lidar muito bem com a geração seguinte conseguiu ignorá-la até ao dia em que é despedida. Ela até lidaria bem com a situação, se não tivesse sido trocada por uma jovem. No seu último programa cabe-lhe entrevistar uma jovem revelação da música não muito perspicaz que considera “Legally Blonde” (também realizado por Robert Luketic) um filme antigo. Essa estrela pouco mais faz até ser agredida causando o internamento de Viola por alguns meses.
Quando Viola volta à liberdade descobre que o filho, um eminente cirurgião, namora uma mulher que, do seu ponto de vista, não é a ideal para ele. Durante meia hora o filme resume-se a agressões unidireccionais com Viola como atacante e Charlie como a vítima, na meia hora seguinte os ataques passam a ser bidireccionais. No meio disso não está o filho/noivo pois convenientemente ausentou-se mas está a sempre atenta Ruby. A assistente de Viola contenta-se em apreciar a situação e aconselhar Charlie.
Falando dos actores terei de começar por Fonda pois um regresso de alguém tão conhecido merece sempre o destaque. Mostrou que o talento não desaparece com a idade e, apesar de não ter voltado tão bem como Barbra Streisand, veio ensinar a muita gente como se representa. Jennifer Lopez parece ter aproveitado as lições pois esteve melhor que o habitual. Por diversas vezes as expressões faciais e os trejeitos que fez neste filme fizeram-me lembrar Kate Hudson mas pode ter sido apenas coincidência. Michael Vartan não se sai mal o pouco tempo que passa no filme, um pouco despassarado mas obviamente que não poderia ter muito mais destaque num filme que é sobre o conflito de gerações mas acima de tudo é sobre mulheres. Deixei para o fim a estrela do filme, um filme apenas sobre o conflito não teria interesse por mais de meia hora, a pérola que o torna merecedor de ser visto é Wanda Sykes. Surgindo sempre que o filme começava a perder a piada para mandar um comentário cáustico, esta actriz televisiva saiu-se muito bem no seu primeiro grande filme.
Pouco mais há a dizer sobre o filme, o final era o mais previsível mas por Lopez se ter saído tão bem correu melhor do que alguma vez esperei. Se do resto do filme esperava mais, no final não esperava que se safasse tão bem. Especialmente pela entrada em cena de Elaine Stritch para inverter a situação e quase destruir o casamento. De referir que será o realizador deste filme a realizar a adaptação para filme da série “Dallas” e portanto o filme ganha mais uma razão de interesse por ser também sobre problemas em famílias poderosas e conflito de gerações.




Título Original: "Monter-in-Law" (EUA, 2005)
Realizador: Robert Luketic
Intérpretes: Jane Fonda, Jennifer Lopez, Wanda Sykes, Michael Vartan
Argumento: Anya Kochoff
Fotografia: Russell Carpenter
Música: David Newman, Rosey
Género: Comédia/Romance
Duração: 101 min
Sítio Oficial: http://www.monsterinlaw.com/

6 de Julho de 2005

"Madagascar" por Nuno Reis


Meses depois de “Robots” e meses antes de “The Curse of the Wererabbit” e “Chicken Little”, num ano em que não há “Ice Age”s nem “Shrek”s, “Madagascar” era o blockbuster de animação deste verão. Mas esta animação da Dreamworks consegue falhar em grande escala e pegando em características de imensos outros filmes de animação consegue ser um desperdício que não vale o dinheiro do bilhete excepto para o público alvo, as crianças.
Vários animais de diferentes espécies vivem em harmonia no zoo de Central Park. Um deles, a zebra, deseja ser livre e na noite do seu décimo aniversário decide partir de comboio para o Connecticut. Os seus amigos leão, hipopótamo e girafa vão atrás dele e, após vários problemas com os humanos, são todos enviados para o Quénia. A bordo desse barco estão clandestinos os seus companheiros de zoológico, um quarteto de pinguins com treino militar. Depois de um pequeno motim os pinguins dominam o barco, desviam-no para a Antárctica e os caixotes em que os quatro protagonistas eram transportados caem à água indo parar a Madagáscar.
Nessa ilha paradisíaca que pensavam ser San Diego, vivem imensos lémures que, vendo um leão, decidem usá-lo para se protegerem dos carnívoros (como Timon e Pumba fizeram com Simba). Algumas zangas entre o leão e a zebra (esqueci-me de dizer que a zebra é uma imitação do Donkey) originam divisões no território (como em “Shrek”). Um dos lémures tenta fazer aquela expressão que tornou o Puss in Boots célebre. Os lémures estão sempre ao ritmo de “I Like to Move It” e o seu rei é um pouco louco (a fazer lembrar o rei dos macacos do “The Jungle Book”). No final há um grande dilema para Alex que tem de escolher entre a amizade e o apetite e, como Simba, prefere o isolamento a magoar alguém mas terá de voltar para os proteger.
Resumindo, pouco vi no filme que não tivesse sido feito antes. Quase tudo que foi copiado foi piorado e o que é original não tem muita qualidade.
Os macacos ingleses são as melhores personagens por não terem sido aproveitadas até ao limite e os pinguins, apesar de já em “Ice Age” haver aves guerreiras, conseguem ser divertidos por serem sérios.
As vozes nada têm de especial, as estrelas Ben Stiller, Chris Rock e Jada Pinkett-Smith e o menos conhecido David Schwimmer formam o quarteto, Sacha Baron Cohen e Cédric the Entertainer são lémures. Como em “Shrek” tentaram moldar as personagens às vozes mas falham. Os realizadores, um vindo do “The Ren and Stimpy Show” e o outro de “Antz”, conseguiram causar-me uma das maiores desilusões vindas dos estúdios Dreamworks. Espero bem que “Shrek 3” (2007) , o spin-offPuss in Boots” (2008) e o projecto original “Bee Movie” (com vozes de Jerry Seinfeld, Renée Zellweger, Robert Duvall e Uma Thurman entre muitos) recuperem a mística que os estúdios começavam a formar.






Título Original: "Madagascar" (EUA, 2005)
Realizadores: Eric Darnell, Tom McGrath


Intérpretes: vozes de Ben Stiller, Chris Rock, Jada Pikett-Smith, David Schwimmer
Argumento: Mark Burton, Billy Frolick, Eric Darnell, Tom McGrath
Fotografia: Clare De Chenu, Mark A. Hester e H. Lee Peterson
Música: Hans Zimmer
Género: Animação/Infantil/Aventura
Duração: 86 min
Sítio oficial:http://www.madagascar-themovie.com/

26 de Junho de 2005

"Crash" por Nuno Reis

Até à semana passada se me pedissem para dizer quem é Paul Haggis com apenas um filme a resposta seria inevitavelmente “argumentista do “Million Dolar Baby””. Mas agora a resposta é diferente, pois escreveu, realizou e ainda compôs para “Crash” e este filme é simplesmente um dos melhores do ano.
Os Estados Unidos sempre se apresentaram como a terra das oportunidades, onde os sonhos de todos se tornam realidade. O melting pot em que as raças se cruzam é uma das características fundamentais do país, inicialmente eram os ingleses e os seus escravos negros, os chineses, os irlandeses, os judeus e os mexicanos foram surgindo. Actualmente a América é uma amálgama de povos fechados nas suas comunidades com medo de se encontrarem, um medo despoletado pelos ataques terroristas que lançaram o ódio sobre os árabes no geral - inclusive os que são de nacionalidade americana há mais de uma geração – e espalharam um medo com fundamentos mas irracional.
Esta história apresenta-nos americanos brancos, negros, latinos, asiáticos e do médio oriente. As suas profissões são as mais variadas, governadores, polícias, criminosos, realizadores, lojistas, há de quase tudo. Essas pessoas além disso ainda são maridos, esposas, filhos, filhas, pais, mães e irmãos que nos tempos livres cuidam da família. E todas essas pessoas com problemas correm um enorme risco de terem o futuro destruído por serem acusados de racismo, algo que evitam e de que são vítimas. Novamente o medo escondido.
Todas as personagens revelam ser algo diferente do que a primeira impressão mostra, provam que os estereótipos são errados, cada ideia preconcebida sobre eles pode estar errada pois são indivíduos, não seguem os exemplos daqueles que dão a má fama aos demais.
O filme atinge os seus objectivos por nos apresentar pessoas perfeitamente normais, cada um de nós poderia ter uma daquelas profissões, cada um de nós poderia ter alguém assim na família, cada um de nós poderia ter um problema semelhante, cada um de nós...
A história resume-se a alguns dias, duas noites bastam para que tudo aconteça. A linha temporal é contínua mas vai mostrando diferentes pontos de vista sobre o país, a vista dos ricos e a dos pobres, a dos oprimidos e a sociedade opressora que é composta por cada um deles. Há pouco fiz uma comparação, este filme é um cruzamento de “The 25th Hour” com “Magnolia”, através do indivíduo mostra como o 11 de Setembro destruiu a vida das pessoas, através das vidas cruzadas mostra a simplicidade da vida, os sonhos de cada um podem ser desfeitos na terra dos sonhos, só os milagres podem salvar vidas.
É daqueles filmes capazes de prender o espectador, de o fazer torcer pelo que é justo, de o fazer vibrar, de o fazer sofrer e de o fazer desejar que as fadas existam.
Com um elenco de luxo composto por estrelas de Hollywood e vários dos secundários habituais, um argumento genial e uma moral que não deverá ser esquecida, este é um dos títulos a não perder de 2005.






Título Original: "Crash" (EUA, 2004)
Realizador: Paul Haggis
Intérpretes: Don Cheadle, Jennifer Esposito, Sandra Bullock, Brendan Fraser, Matt Dillon, Ryan Phillipe, Thandie Newton, Terence Howard, William Fichtner, Ludacris
Argumento: Paul Haggis e Robert Morisco
Fotografia: James Muro
Música:Mark Isham, Kathleen York
Género: Drama /Thriller
Duração: 113 min
Sítio Oficial: http://www.crashfilm.com/

23 de Junho de 2005

"Batman Begins" por Ricardo Clara

Bruce Wayne, jovem milionário, encarna um alter-ego que patrulha as ruas da cidade de Gotham. Mas, como é que tudo começou? Onde é que Wayne, ou Batman, desenvolveu todas as suas habilidades e gadgets que o auxiliam na luta contra o crime?
A história, sobejamente conhecida, e adaptada da BD, teve um primeiro episódio em 1989, numa realização de Tim Burton. Aí, Michael Keaton encarnava a personagem principal, num filme que colocaria a fasquia muito alta na abordagem a esta personagem. Em 1992, os mesmos protagonistas, vilões diferentes: surge Danny DeVito enquanto pérfido Pinguim, e Michelle Pfeiffer enquanto Catwoman. Em 1995, nova abordagem (e que abordagem): um tenebroso Joel Shumacher realiza "Batman Forever", e apresenta Val Kilmer enquanto o homem-morcego. Num filme de terrível qualidade, nem Jim Carrey nem Nicole Kidman abrilhantaram uma fita já de si muito fraca. Mas só em 1997 se atinge o fundo: "Batman & Robin", ou "como dois heróis se vestem de couro e protagonizam uma imensa fábula gay". Nem será necessário avançar mais. Daí até abrandar o ritmo, foi um passo. Oito anos volvidos, e as espectativas eram elevadíssimas. Vamos então por partes: o realizador é Christopher Nolan, um londrino que espantou o mundo cinematográfico em 2000 com "Memento"; o elenco, de enorme luxo: Michael Caine, Liam Neeson, Katie Holmes, Cillian Murphy, Ken Watanabe, Morgan Freeman e, para terminar, um novo actor na pele do herói: Christian Bale ("American Psycho" - 2000; "The Machinist" - 2004). Mas, infelizmente, parece que os ingredientes não foram todos bem misturados. Ok, há um ambiente noir que regressa a este filme, numa toada já apresentada por Tim Burton; bem como Christian Bale, que consegue aproximar-se de Keaton no inicial de 1989; tal como a banda sonora, de um senhor que nunca desilude - Hans Zimmer. Mas não passa de um grupo de planos desorganizados, com constantes avanços e recuos temporais debilmente montados, e que termina com acção fraca e explosões quanto baste. É, de facto, um flop este primeiro blockbuster de verão, que acaba por ser isso mesmo, um filme... de verão. Pedia-se mais. Numa fase importante, pois a narração do que levou um homem comum tornar-se um personagem assustador e desconcertante, bastante ligado ao "mundo das trevas" (o próprio Nolan havia colocado como objectivo a devolução do herói às trevas), acabamos por ter uma película que não aguenta a pressão de desenvolver uma base de sustentação suficientemente forte para justificar e amparar tão magnânime personagem, por vezes herói, outras anti-herói. O filme termina com a deixa para uma continuação (algo já previamente anunciado), e o regresso do Joker (um vilão a sério, não um Ducard qualquer que quer levar Gotham City à implosão). Mas, de facto, nem a introdução de um verdadeiro vilão nos garante que melhorará... Um conselho: chamem o Guillermo del Toro, ele ensina como se faz.



Título Original: "Batman Begins" (EUA, 2005)
Realizador: Christopher Nolan
Intérpretes: Christian Bale, Michael Caine, Liam Neeson, Katie Holmes, Cillian Murphy, Ken Watanabe e Morgan Freeman
Argumento: Bob Kane e David S. Goyer
Fotografia: Wally Pfister
Música: Hans Zimmer
Género: Fantástico / Aventura / Acção
Duração: 141 min
Sítio Oficial: http://www2.warnerbros.com/batmanbegins

9 de Junho de 2005

"Sin City" por Nuno Reis

O nome indicado na tabuleta limítrofe era Basin City mas diversas balas nas primeiras letras tornam mais fácil ler apenas Sin City, assim será esse o nome usado para referir a cidade em que apenas os mais duros sobrevivem e onde a corrupção é a moeda. Na parte velha as regras são diferentes, as prostitutas governam-se sem ajuda e a única coisa que os homens podem lá ir fazer é comprar prazer, mas essa trégua está restes a ser quebrada.
Três histórias cruzam-se em tons de cinzento, um polícia tenta salvar uma criança de um assassino perverso, um monstro tenta vingar uma morte e um assassino tenta evitar uma guerra no meio da cidade. Numa homenagem aos velhos filmes de detectives a narração é feita pelo protagonista e apenas o sangue vermelho, um cabelo dourado, uns olhos azuis e um diabo amarelo destacam no cinzento. Ocasionalmente alguns faróis brilham nessa escuridão. Não há diferença entre a noite e o dia.
Um filme fiel à banda desenhada como forma de expressão que utiliza a animação em alguns momentos breves. Algo de diferente numa arte que cada vez é mais igual a si própria e onde ser diferente costuma ser um risco. Esse risco foi assumido por pessoas poderosas, Frank Miller é um dos mestres da BD, Rodriguez (apesar da asneira que foi prosseguir com a saga “Spy-Kids”) é um realizador aclamado e Tarantino, depois de tudo que deu ao cinema, pode fazer os filmes como lhe apetecer que ninguém tem coragem de dizer mal. Obra conjunta de três realizadores e com um dos melhores elencos que o dinheiro pode comprar não se poderia esperar nada abaixo da obra-prima. Depois de ver todo o filme e encaixar os pedaços é isso que sobra.
O filme pretende atrair um público masculino, os heróis são duros e impiedosos, as mulheres andam muito despidas, tem mortes e explosões quanto bastem. Para Mickey Rourke foi o melhor papel da vida e para Nick Stahl foi mais um passo para a fama, para Clive Owen foi mais uma confirmação de talento e para Bruce Willis foi mais um convite para estar entre os grandes actores da década. Benicio del Toro está genial, tanto vivo como morto. Outras estrelas têm um papel mais reduzido (Elijah Wood, Michael Madsen e Josh Hartnett por exemplo) num filme de duas horas não poderiam dar tempo a todos. O elenco feminino é bastante prejudicado, Rosário Dawson tem um bom papel e o mesmo digo de quase todas as suas colegas mas se Jaime King desapareceu demasiado cedo, Carla Gugino quase só aparece nua e Brittany Murphy, mesmo não aparecendo nua, merecia mais tempo de ecrã. Alexis Bledel volta a mostrar os seus belos olhos e Devon Aoki volta a ter como personagem uma asiática implacável mas bem melhor que em “2 Fast 2 Furious”.
O humor negro implícito torna-se explícito nos momentos que o drama ameaça tornar-se cansativo, um homem atravessado por uma seta totalmente calmo a perguntar o que deve fazer é um dos exemplos. Também tive um bom momento de diversão quando apareceu Elijah Wood que pela forma como estava vestido me fez lembrar Harry Potter. No género de humor nota-se semelhanças com “Hellboy” e a série animada “Hellsing” outras das obras Dark Horse que saíram do papel. Destaco ainda os momentos de glória das personagens sobreviventes e as sublimes saídas de cena dos menos felizardos, o filme consegue transmitir violência de forma convincente e gratuita mas com arte.








Título Original: "Sin City" (EUA 2005)
Realizador: Frank Miller, Robert Rodriguez, Quentin Tarantino
Intérpretes: Bruce Willis, Mickey Rourke, Jessica Alba, Clive Owen, Nick Stahl, Rosario Dawson, Benicio Del Toro, Jaime King, Devon Aoki, Alexis Bledel e muitos outros
Argumento: Frank Miller
Fotografia: Robert Rodriguez
Música: John Debney, Graeme Revell, Robert Rodriguez
Género: Acção/Crime/Drama/Thriller
Duração: 124 min.
Sítio Oficial: http://www.sincitythemovie.com

5 de Maio de 2005

"Kingdom of Heaven" por César Nóbrega

REINO DA SECA

É com muita pena que escrevo estas palavras! Sou um fã de Ridley Scott. Começando no brutal "Blade Runner" (1982), passando "Black Rain" (1989) e "Gladiador" (2000), entre outros, o britânico tem uma maneira de contar histórias e filmar que desde sempre me causou arrepios. Em "Reino dos Céus" tudo é pensado ao milímetro, mas falta uma coisa: EMOÇÃO! Nunca a história nos envolve.

E, sobre a história em si, basta ler o texto do Nuno Reis (em baixo), para a perceber ao pormenor. Debruço-me, apenas, na minha opinião sobre o filme. Os sentimentos que me transmitiu (ou que não me transmitiu).

A cidade de Jerusalém foi construída do nada. Tudo o que ali se vê é um cenário real. Talvez o maior feito até hoje em cinema. É verdadeiramente fabuloso. Os actores são do melhor que se arranja actualmente. Orlando Bloom está "no sítio certo à hora certa". Eva Green é maravilhosa, um grande obrigado a Bernardo Bertolucci por lhe ter dado a hipótese em 2003 de desempenhar o papel de Isabelle no filme "The Dreamers". Não há como descrever o olhar que a jovem lança a Balian, quando, pela primeira vez, o vê! Todos os actores estão perfeitos. O problema é esse: o filme é tão perfeito que enjoa. A seca é a dobrar, porque no filme o novo barão de Ibelin vai arranjar uma forma de contornar a falta de água, nas suas áridas terras. E nós, sentados na cadeira da sala de cinema, temos de contornar a falta de comoção. O espectador tem de se identificar com alguma coisa, mas ali, os sentimentos são todos dos outros. Numa analogia provocante, "Reino dos Céus" é uma bela e formosa mulher… insossa, incapaz de nos perturbar, a não ser pelo apelo visual.

Uma palavra final para a banda sonora. O trabalho de Harry-Gregson Williams ("Shrek 2", "Fuga das Galinhas") é brilhante. A voz e letra do tema principal são da belga com ascendências do Médio Oriente, Natacha Atlas. A ouvir!

"Kingdom of Heaven" por Nuno Reis

No final do século XII o cavaleiro Geoffrey percorre França. Quando pára para ferrar o seu cavalo descobre que o ferreiro é o filho que procura e convida-o a viajar para Jerusalém com ele. Apesar de ao início recusar rapidamente Balian rapidamente descobre que será melhor ir para a cidade santa como remissão dos seus pecados.
A morte prematura do pai deixa-o com uma pesada missão, lutar pelo rei e pelo povo, se necessário contra aqueles que lutam em nome de Deus, aceitar ordens apenas do rei Balduíno e da consciência.
A história começa muitos anos antes, quando os cristãos conquistam a cidade aos muçulmanos. Durante anos viveram em tréguas, pois como antigamente todos os povos podiam visitar os locais sagrados. Alguns cavaleiros cristãos famintos de honras e conquistas lançam ataques arrasadores contra muçulmanos afirmando que é a vontade de Deus mas não o admitindo perante o rei. Isso desperta a cólera de Saladino, o líder muçulmano avança com duzentos mil homens para vingar essas mortes e só a palavra de Balduíno o impede de dizimar uma cidade que foi defendida até ao fim por Balian. Balian, cumprindo a vontade do pai, reconstruiu a terra, ajuda o povo e é um homem bom, assim como um valente guerreiro mas Guy de Lusignan, herdeiro do trono, é um dos homens que pretende a guerra e vê nele um adversário perigoso pelo que tentará afastá-lo.
Dois povos, duas religiões, dois grandes reis que querem harmonia. Uma gigantesca guerra causada por cavaleiros sedentos de terras e poder. Numa guerra ganham sempre os bons porque são os vencedores que escrevem a História, os vencidos sujeitam-se ao que for dito. Como pode ser lido nos jornais esta luta ainda está longe de acabar (é a mesma guerra há mil anos) por isso não pode ser dito quem são os bons. O filme consegue cumprir a sua missão por mostrar que nenhum dos povos tem culpa, ambos os reis queriam a paz e, se não fosse a ambição dos homens, esses homens de palavra teriam chegado a um entendimento. No filme é o ódio de anos antes que leva à morte centenas de milhares, na vida real é esse mesmo ódio que ainda mata. Outra das citações do filme é que há um mundo melhor à espera no final das cruzadas, um mundo onde a paz e o amor reinam entre os homens. Não é dito que o final das cruzadas seria com a vitória de um dos lados…
Eva Green é a irmã do rei, Jeremy Irons é um dos homens de confiança do rei, Edward Norton (disfarçado) é o rei, Liam Nesson é o pai do herói como em “Gangs of New York” e Orlando Bloom é o filho perdido/ferreiro como em “Pirates of the Caribbean”. Brendam Gleeson e Marton Csokas (o seu papel mais conhecido é como Celeborn) são os vilões, sendo o primeiro bastante mais convincente, o segundo parece o clássico menino mimado. A nível visual e sonoro nada há a criticar. Em termos históricos o filme está bastante fiel, tem personagens convincentes e centra-se mais na honra que nos indivíduos. Peca pelo excesso de violência, as cenas de batalha estão fortes e impressionarão alguns espectadores, um filme que pretende censurar e mostrar o caminho correcto deveria permitir o visionamento por um público mais vasto.




Título Original: "Kingdom of Heaven" (Espanha, EUA, Reino Unido, 2005)
Realizador: Ridley Scott
Intérpretes: Orlando Bloom, Jeremy Irons, Liam Nesson, Eva Green, Ghassan Massoud
Argumento: William Monahan
Fotografia: John Mathieson
Música: Stephen Barton e Harry Gregson-Williams
Género: Drama/Guerra/Romance
Duração: 145 min
Sítio Oficial:http://www.kingdomofheavenmovie.com/

"The Jacket" por Nuno Reis

Algumas imagens caóticas transportam a acção para a Guerra do Golfo em 1991. Entre os soldados está um homem que não sabe bem o que faz lá, a sua confiança na natureza humana faz com que, desprotegido, seja baleado mortalmente. Surpreendentemente descobrem na morgue que ele ainda vive, é salvo e volta para o seu país, lá é acusado de um crime que não se lembra de ter cometido e é imediatamente internado. O tratamento de choque que lhe é dado no hospital psiquiátrico abre-lhe as portas do futuro onde, com a ajuda de uma jovem, tem uma semana para descobrir como pode salvar-se de uma morte que desconfia ter sido provocada. O clássico paradoxo temporal é revisto e transformado, por lhes revelarem no futuro algo que ele disse ou fez ele vai dizê-lo ou fazê-lo, irá descobrir os seus últimos passos e tragicamente repeti-los no passado de forma a descobrir quem o matou e porquê.

O filme está acima da média, tendo um grande argumento contra: não imagino porque está classificado como sendo de terror (excepto pelo primeiro minuto que se passa na guerra e onde há um tiro), nada no filme o faz ser desse género. É um thriller e pertence ao género fantástico. A gaveta mortuária onde é feito o tratamento para ser metáfora da morte deveria ser um pouco mais claustrofóbico, assim é apenas uma porta de ligação com uma época melhor. É um daqueles filmes que é visto para passar o tempo, não obriga a pensar muito, o desenlace surpreende, foi bem feito e faz com que o espectador saia contente com a vida que leva.

Quanto aos actores posso dizer bem e mal. O protagonista é um homem mentalmente são no meio de loucos, em sofrimento no passado, preocupado no futuro, duas vidas separadas por uma gaveta na parede precisavam de duas interpretações totalmente diferentes e é isso que Adrien Brody faz. Apesar de ter achado o sucesso de “The Pianist” como injustificado e não concordar com a vitória de Brody nos Oscares, desta vez ele está excelente. A sua companheira de aventuras é interpretada por Keira Knightley, a jovem estrela tem feito muitos papeis e este acaba por ser diferente dos demais por haver uma profunda mudança na personagem com o desenrolar da acção. Com mais dois “Pirates of the Caribbean” a serem filmados neste momento é bom que faça mais alguns filmes ocasionalmente para escapar à personagem. Em relação aos secundários dois nomes são conhecidos. Kris Kristofferson, que tem sempre o papel de velho rabugento, aqui é um médico convencido que sabe o que é melhor para os pacientes, não é uma grande diferença. Jennifer Jason Leigh é outra das médicas, de convicções firmes e que tudo faz para ajudar pacientes dentro e fora do hospital. Muito distante da actriz que vimos em “eXistenZ” mas tem a personagem mais simpática do filme.




Título Original: "The Jacket" (Alemanha, EUA, Reino Unido, 2005)
Realizador: John Maybury
Intérpretes: Adrien Brody, Keira Knightley, Kris Kristopherson, Jennifer Jason Leigh
Argumento: Tom Bleecker, Marc Rocco, Massy Tadjedin
Fotografia: Peter Deming
Música: Brian Eno
Género: Thriller
Duração: 102 min
Sítio Oficial:http://wip.warnerbros.com/index.html?site=thejacket

29 de Abril de 2005

"Der Untergang" por César Nóbrega

EXORCIZAR DEMÓNIOS

Há alturas em que não queremos acreditar no que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial. Um louco, que tinha a certeza de ser um visionário, quis reconstruir o Mundo à imagem de um esboço que tinha na sua cabeça, nem sequer era à sua imagem. Adolf Hitler, o maior carrasco da humanidade, partiu da Alemanha para uma conquista que se viria a mostrar impossível. Desde sempre, a Sétima Arte tratou o Fuhrer como um chefe militar impiedoso e maníaco-depressivo. Apesar de Hitler ter sido isso mesmo, era um ser humano. Por muito que nos custe, o comandante do III Reich era um homem e não o Diabo (será?).
"A Queda: Hitler e o Fim do Terceiro Reich" é o retrato de Adolf Hitler nos últimos doze dias de cativeiro, no "bunker" por baixo da chancelaria do Reich. Em Abril de 1945, só o Fuhrer acreditava na vitória da segunda Guerra Mundial. À sua volta, mexiam-se as habituais influências da política. Homens como Heinrich Himmler ou Joseph Goebbels moviam as suas influências para o estado germânico pós-Hitler. Um abandona o "bunker" e o Fuhrer, e vai tentar capitular perante as forças aliadas, mas Hitler descobre. O outro fica ao pé do chefe militar até ao fim e só desobedece a uma ordem do seu mentor, para que o abandone . Enquanto isso, Adolf Hitler estava cada vez mais doente, louco e sozinho. A doença de parkinson revelava, cada vez mais, os seus sintomas e as batalhas imaginárias foram tomando conta da cabeça do Fuhrer, inventando unidades onde elas não estavam e planeando ganhar uma guerra, que há muito estava perdida.
É a primeira vez que a Alemanha encara os seus demónios e mostra ao mundo que quer virar a página. "Der Untergang", no original, é realizado por Olivier Hirschbiegel, de quem vimos em 2002, "A Experiência", premiado no Festival Intenacional de Cinema do Porto, com o Prémio de Melhor Argumento, além de alguns episódios da série televisiva, exibida pela SIC, "Rex - O Cão Polícia". O ambiente claustrofóbico de "A Experiência" é, completamente, adoptado a "A Queda". O bunker é um lugar frio e cinzento, mas ao mesmo tempo abafado e demoníaco. Hitler vagueia pelos corredores à espera de um milagre, mas só encontra traições.
O filme coloca um ponto final no destino do ditador alemão, graças aos testemunhos reais de Traudl Junge, a última secretária de Hitler, e de Joachim Fest, o biógrafo mais importante de Fuhrer. Além da impressionante prestação da romena Alexandra Maria Lara (Traudl Junge), que vimos, igualmente, no Fantasporto 2002, no filme "O Túnel" de Roland Suso Richter, destaque para Bruno Ganz, o actor suiço que faz de Hitler. Quando em 1987, o vimos como anjo Damiel, no filme "As Asas do Desejo" de Wim Wenders, nunca poderíamos pensar que vinte anos mais tarde seria o Diabo. Cordial com as mulheres, doce com as crianças, Adolf Hitler é o mais maquiavélico dos seres, porque consegue convencer os seus mais directors seguidores, que a morte é o caminho certo para o fracasso.
É óbvio que, "A Queda: Hitler e o Fim do Terceiro Reich" não é um filme para todos. Ou porque não podem acreditar que Hitler fosse um homem, ou porque não podem ver mais atrocidades, como aquelas que são ali retratadas. Mas, de uma coisa devemos ficar conscientes, este é o testemunho final da segunda Guerra Mundial. Daqui em diante, quando alguém quiser completar a história de Adolf Hitler, vai citar o filme de Hirschbiegel. Depois deste, mais nenhum filme sobre o Holocausto vai fazer sentido!