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1 de Dezembro de 2011

Destaques do MOTELx 2011


Com apenas mês e meio de atraso, eis a reportagem vídeo do MotelX 2011.


Entrevista a Christian Hallman (Festival de Lund)

A propósito do MotelX o Antestreia entrevistou um dos elementos do júri. A escolha recaiu sobre Christian Hallman, não só por ser o único estrangeiro e por isso ser naturalmente mais imparcial perante a nossa cinematografia, mas especialmente porque é aquele que conheço há mais anos. O seu festival é dos mais conceituados do género fantástico e Christian é uma pessoa que não só vive no mundo do cinema como viaja pelo mundo vendo cinema.

Christian Hallman é cineasta e programador/organizador do Festival de Cinema Fantástico de Lund. É um dos dois coordenadores da Federação Europeia dos Festivais de Filmes Fantásticos EFFFF ( www.melies.org ) composta por 22 festivais e 12 países que promovem o cinema fantástico europeu e mundial. Na Suécia é um dos responsáveis pela organização do festival de Lund, o maior da Escandinávia dedicado ao género. Tem também uma produtora de longas-metragens e por vezes trabalha como produtor, realizador, assistente de realização ou assistente de produção em anúncios e longas-metragens.

Antestreia: Estiveste no júri para melhor curta fantástica portuguesa. Costumas ver filmes portugueses de género ou foi um primeiro contacto?
Christian Hallman: Já me deparei com filme portugueses anteriormente. Nunca tantos, mas não me são estranhos.

A: Doze filmes portugueses em três dias é dose! Com que impressão ficaste do nosso cinema?
CH: Estou acostumado a ser júri em festivais, por vezes temos de ver mais de 30 filmes… doze curtas não é assim tão mau. Gostei muito de ver apenas curtas portuguesas, deu-me uma perspectiva do estado do cinema português e do futuro da produção de filmes fantásticos em Portugal. Como sempre houve filmes que gostei mais do que outros, mas no geral não havia nenhum filme mesmo mau.

A: Alguma curta em particular que te tenha chamado a atenção? (Levarás para o teu festival?)
CH: O filme que nós no júri decidimos como vencedor “Conto do Vento” era muito bom, “Sombras” também era bom. E sim, estou a pensar na possibilidade de focar o meu festival no cinema português no próximo ano, mas depende de muitos factores, por enquanto é apenas uma ideia.

A: Como representante do Méliès nesta primeira edição do MotelX como membro aderente, qual foi a tua opinião sobre o evento?
CH: O MOTELx pareceu-me muito bem organizado, a localização é muito boa e o público entusiasta. A selecção de filmes foi boa, apesar de já conhecer a maioria. A minha impressão geral foi muito boa, e os organizadores têm muita paixão pelo que fazem o que para mim é fundamental.

A: Este teatro alberga uma dezena de diferentes festivais ao longo do ano e a nossa Cinemateca é literalmente ao virar da esquina. Conseguiste sentir a atmosfera cinéfila?
CH: Não sei se respirei uma atmosfera cinéfila, mas senti que estava num local que tinha eventos culturais. Gosto desta velhas casas europeias do cinema.

A: Esta foi apenas a quinta edição do MotelX. Foi um enorme feito fazer tão grande festival em tão pouco tempo. Este sucesso significa que um festival do género não era suficiente para Portugal, ou foi devido ao trabalho aqui feito?
CH: Esta pergunta é difícil… Já que referes o Fantasporto penso que há espaço para ambos visto que são em cidades diferentes. Não faço ideia de quantas pessoas viajam de Lisboa ao Porto para o festival, nem do Porto para Lisboa, nem se esse número aumentou ou diminuiu ao longo dos cinco anos. Mas são em épocas diferentes, Fantasporto é no Inverno/Primavera e MOTELx em Setembro… Penso que foi uma combinação. Lisboa precisava do seu festival de género e também todos os que estão por trás do MOTELx têm muita paixão pelo que fazem.

Mais uma vez agradeço ao Christian a sua disponibilidade para a entrevista.

20 de Outubro de 2011

Entrevista a Edgar Pêra - "O Barão"


Entrevistamos Edgar Pêra no MotelX a propósito do seu projcto em exibição, a longa-metragem "O Barão".


Como houve uns problemas na captação de som devido ao inesperado ruído ambiente aqui fica uma transcrição da entrevista.

Antestreia: De que trata o filme?
Edgar Pêra: “O Barão” tanto pode ser considerado como uma história de amor como de terror e sobretudo vive dessa relação ambígua entre um Barão que é um marialva e um vampiro decadente, e aquilo que resta do poder que tem sobre os outros, sobre a região da serra do Barroso. Mas também é uma personagem contemporânea, apesar de ser baseado numa obra dos anos quarenta é o típico caciqueiro ou o chefe de família sentado à espera que lhe sirvam o jantar.

A: O Barão é uma personagem ambiciosa pela características draculeanas. O interior de Portugal tem potencial para albergar monstros clássicos ou mesmo para inventar os seus?
EP: Os limites somos nós que os impomos, pelo menos em termos de imaginação, depois há a questão dos meios. Se falarmos de fazer cinema de efeitos especiais hoje em dia é mais fácil, mas não deixa de ser complexo.

Antestreia: Foi o seu filme com mais apoios, mas tem parte propositadamente amadoras, a fazer lembrar teatro, para dar um toque mais intimista ao filme.
EP: O filme tem uma relação com a montanha apesar de ser totalmente de estúdio, mas há alturas em que a representação se aproxima mais daquilo que é o teatro popular, mas noutras alturas é exactamente o contrário, é o teatro mais contemporâneo que pode haver em termos de representação, sobretudo se falamos do Nuno Melo, ele nunca entra nesse registo. Só deixo que a personagem espectador – que é uma espécie de não-profissional, o inspector – pode entrar nesse registo, uma certa distância relativamente ao seu próprio papel, porque a personagem é assim mesmo.

Antestreia: O filme tem também um tom desafiador como tinha o livro quando foi publicado e como a peça de teatro que não foi encenada. As críticas são as mesmas de então?
EP: O Branquinho da Fonseca era um desalinhado. Nesse sentido identifico-me com ele. Ele não tem um programa político entre uma espécie de realismo e surrealismo. O que faz é tentar pôr o leitor no papel do observador e fá-lo viajar de cenário para cenário quase sem que o leitor se dê conta disso. Tentei fazer isso com o filme também.

Antestreia: O filme é assumidamente 2D de um pioneiro do 3D em Portugal. Tenta ser clássico e numa fase em que o cinema está a evoluir - cor e 3D - tenta ser o oposto. É por uma questão de respeito ao original?
EP: Cada problema tem a sua solução. Para mim era fundamental pôr-me dentro do espírito de um cineasta dos anos 40 que trabalhasse dentro de um esquema série B, com poucos dias de rodagem. O filme foi feito em 25 dias, não é muito para um filme destes, com tantos planos e movimentos de câmara sofisticados enfim, há ali todo um trabalho de iluminação e cenários que realmente é difícil poder conjugar tudo simultaneamente, fazer em pouco tempo.

Antestreia: Outra questão técnica é o formato das legendas em inglês.
EP: Nós somos obrigados em Portugal a ter legendas. Para mim é uma vantagem porque pelo menos não destrói a banda sonora do filme. Por outro lado é também um obstáculo ao visionamento. O que tentei foi conjugar graficamente as legendas com a imagem do filme.

Antestreia: Este filme está a ser feito para o mercado internacional?
EP: Eu não faço filmes para mercados. A única área que tem de se preocupar com o mercado é a promoção do filme e não o próprio filme em si. Tem de haver uma promoção bastante agressiva e uma estatégia de marketing que permita que os filmes apareçam nas televisões, nos programas, etc. Aí é que tem de se fazer um investimento muito grande e às vezes não é possível. Aquilo que se pode dizer é que o filme apela a uma certa cinefilia e os espectadores projectam a sua própria cinefilia naquelas imagens. Vão buscar referências.

Antestreia: A maioria dos espectadors não espera pelo final dos créditos para sair e o Barão não gosta disso. Quem abandonar a sala antes do tempo vai-se arrepender?
EP: Um dos problemas das ficas técnicas é que ou são mutiladas na televisão ou muitas vezes acendem logo as luzes na sala de cinema e aquilo que eu tentei fazer foi, ao incluir um bónus depois dos créditos, fizesse com que as pessoas ficassem até ao fim e ao mesmo tempo houvesse uma descompressão de toda aquela história. Porque o filme tem muitos registos mas tem um final grave e sombrio e eu quis desconstruir essa impressão. Que as pessoas saíssem do cinema com um estado de espírito mais alegre, mais divertido.

Antestreia: Algo mais que queira dizer aos espectadores?
EP: Vão ver o filme. Às vezes os filmes em Portugal têm boas críticas, fala-se bastante, mas depois as pessoas parece que têm dificuldade em chegar à sala, há umas forças magnéticas que as impedem de lá chegar. Espero que ultrapassem essa barreira.

19 de Outubro de 2011

Conto do Vento em Sitges 2011


O "Conto do Vento" tem percorrido os festivais com relativo sucesso. Vencedor em Avanca 2010, seleccionado para Annecy, Fantasporto, Porto7 e diversos outros festivais, ainda em Setembro foi o vencedor do MotelX. Agora que chegaram a Sitges (de onde saíram sem prémio) nós fomos entrevistá-los.



30 de Setembro de 2011

Cinema de Terror Português - MotelX 2011


Apesar de ter passado algum tempo ainda temos material do MotelX para divulgar. Começo por divulgar o debate sobre cinema português na íntegra! Está dividido em 3 partes para facilitar a pesquisa.

O primeiro com quarenta minutos tem a conversa planeada. O segundo, de cinquenta minutos, tem apenas perguntas dos espectadores. Finalmente há um pequeno vídeo de sete minutos e meio - que se espalhou viralmente a pedido de alguns espectadores - com o discurso de Filipe Melo.

Espero que quem não esteve lá aproveite e que quem lá esteve reveja os momentos divertidos. São muitos.









Nas mesas estavam (da esquerda para a direita):
Paulo Leite (produtor)
José Vieira Mendes (moderador)
Edgar Pêra (rrealizador)

João Alves (Bats in the Belfry)
Patrick Mendes (Sangue Frio)
Francisco Carvalho (Nocturno)
Fernando Alle (Papa Wrestling)


O zoom está mau (primeira utilização da câmara e tentar fazer com uma o trabalho de duas), mas quanto a qualidade de imagem e som que tal vos pareceu? Trocariam algum actor?

13 de Setembro de 2011

"The Walking Dead - Season 1" por Nuno Reis

Don’t Open Dead Inside


A propósito da maratona Walking Dead e da eminente estreia da segunda temporada (dia 18 na FOX), que tal uma review à série?

“The Walking Dead” podia ser um filme. Em primeiro porque foi levemente baseada numa graphic novel, em segundo porque a duração de toda a primeira season se limita a quatro horas e meia, em terceiro porque fala de zombies e ninguém faz séries sobre zombies. Daqui a pouco falarei sobre isso, agora falemos da série.

Há dois estilos de filmes sobre zombies. Nuns os humanos assistem ao erguer do morto-vivo e fazem os possíveis por o controlar. Nos outros acordam para um mundo pós-apocalíptico onde a única coisa a fazer é sobreviver. Este é do segundo tipo. O que acontece resumidamente:
  • O ajudante de xerife Rick Grimes acorda num hospital onde não se vê vivalma, apenas cadáveres e alguns desses cadáveres mexem-se. O seu treino vai levá-lo a lidar melhor com a situação do que seria de esperar. Decidido a reunir-se com a família que acredita ter sobrevivido, Grimes parte para a grande cidade - Atlanta - onde os espera encontrar.
  • Na viagem para Atlanta são apresentadas novas personagens. Existem comunidades sobreviventes espalhadas pelo caminho e Atlanta não é segura, mas Grimes não sabe disso e vai cair no meio de um exército de mortos-vivos estando aparentemente perdido.
  • Muita tensão ente grupos concorrentes, personalidades incompatíveis, gente má... os episódios a partir do terceiro começam a ter confrontos entre vivos e alguns com zombies. A carga dramática aumenta muito, assim como os ingredientes de novela.
  • No quinto episódio surge uma personagem que devolve algum interesse à trama, mesmo a tempo do desfecho de temporada bombástico.

    Em quase todos os episódios apresentam personagens vivas. Em todos matam alguém. Isso é bom porque como em qualquer cenário de desaparecimento da sociedade não é recomendável que nos apeguemos às pessoas. Quem conhece os livros sabe quem é suposto durar mais, mas como o número de personagens foi duplicado os autores da série têm bastante folga para afastarem quem quiserem com umas boas dentadas.

    Tem uns toques de novela, tem muitas semelhanças com outras séries (especialmente Prison Break e Lost) e não assusta tanto como um filme (não podem matar todos os protagonistas numa hora), mas continuam a ser zombies e com isso não se brinca. Quem quiser relaxar depois de um dia de trabalho talvez deva parar o zapping noutro canal. Quem quer ver uma matança quase garantida antes de ir para a cama está no sítio certo.

  • The Walking DeadTítulo Original: "The Walking Dead" (EUA, 2010-)
    Realização: Ernest R. Dickerson, Gwyneth Horder-Payton
    Argumento: Charlie Adlard, Frank Darabont, Robert Kirkman, Tony Moore, Glen Mazzara
    Intérpretes: Andrew Lincoln, Jon Bernthal, Sarah Wayne Callies, Laurie Holden, Jeffrey DeMunn, Steven Yeun, Chandler Riggs, Norman Reedus, IronE Singleton
    Música: Bear McCreary
    Fotografia: David Boyd
    Género: Drama, Terror
    Duração: 45 min.
    Sítio Oficial: http://fox.canais-fox.pt/the-walking-dead

    12 de Setembro de 2011

    De onde veio "The Woman"

    Sim, é apenas uma sequela, mas é tão bom que se perdoa.

    Quem quiser perceber melhor "The Woman", o filme choque do MotelX, deve ver "Offspring", o filme de Andrew van den Houten que primeiro adaptou o livro de Jack Ketchum. Aí é-nos dado o contexto familiar/tribal de onde veio a mulher que dá título a este filme, já então interpretada pela expressiva Pollyanna McIntosh. Ironicamente no primeiro eram os selvagens que faziam reféns.


    11 de Setembro de 2011

    11 de Setembro

    Nestes últimos dias aguentei zombies, canibais, alienígenas, bandidos, famílias psicopatas, tarados sexuais, fantasmas, viajantes no tempo, suicidas, bruxas, estátuas malvadas, trolls e bananas. Nenhum problema com isso.
    Não é confortável estar numa capital europeia no décimo aniversário do 11 de Setembro. Não é confortável estar quase a totalidade do dia no centro dessa capital e no evento mais importante que lá decorre. Mas o que me preocupa mesmo é começar esse dia a ver uma gigantesca invasão zombie que vai durar até às cinco e meia.
    Walking Dead

    Depois disso ainda será preciso acordar para fazer algumas entrevistas e assistir interventivamente a dois debates. Sabemos que uma semana é pouco para tanto festival, mas era preciso fazer tudo junto?


    10 de Setembro de 2011

    "Little Deaths" por Nuno Reis

    Cinema fantástico é transgressão. É passar os limites e fazer o que se diz ser proibido. Por vezes entra no domínio do terror, outras vezes no desconforto e por vezes no prazer. Em "Little Deaths" é feito um trocadilho curioso. Por um lado são pequenas histórias onde há mortes, nem sempre pequenas. Por outro lado petit mort é um eufemismo francês para orgasmo e isso é coisa que aqui não faltará pois nestas curtas só a temática sexual supera o terror.
    Aqui não se encontram nomes sonantes. É um elenco de desconhecidos dirigidos por três realizadores que apesar de terem muitos fãs ainda não se afirmaram entre todos os amantes do género. Por exemplo, Simon Rumley, o mais conhecido, fez "Red, White and Blue" que passou no festival no ano passado. Talvez seja esse o segredo para se darem a conhecer. Juntam vários grupos de fãs e fazem promoção conjunta, distribuição conjunta, apresentam trabalhos tabu como uma colectânea temática. Desde que o filme seja bom só terão a ganhar.

    A primeira curta chama-se "House and Home". É sobre um casal religioso que dá guarida a uma sem-abrigo. Para que sangue e sexo surjam nada é assim tão simples pelo que nem todos serão o que parecem ser. Uma história pouco original, mas bem conseguida e com interpretações femininas de qualidade.
    A segunda é um regressar à temática das experiências nazis com o título "Mutant". O grotesco e a ninfomania fazem um estranho par numa história que envolve drogas e rins. Não é para todos os estômagos, mas quem aguentar tem aqui o filme mais equilibrado e com a duração adequada.
    Finalmente em "Bitch" temos os fétiches sexuais levados a um extremo suave. Fala de relações desequilibradas onde a rapariga tem pavor a cães e portanto obriga o namorado a ser o cão dela. Ele decide tomar uma posição e ela despreza-o tanto que nem se apercebe. Nunca atinge todo o potencial do tema e tenta corrigir a brandura com um final choque, mas definitivamente não foi a melhor escolha para encerrar a colectânea.

    Em "Little Deaths" o sexo e o gore combinam-se em proporções diferentes. Como disse na abertura do texto cada curta terá o seu público específico e distribuirem-se por entre os fãs de três realizadores diferentes é uma boa forma de os encontrarem. Pode até ser o início de uma colecção subordinada ao tema.

    Little DeathsTítulo Original: "Little Deaths" (Reino Unido, 2011)
    Realização: Sean Hogan, Andrew Parkinson, Simon Rumley
    Argumento: Sean Hogan, Andrew Parkinson, Simon Rumley
    Intérpretes: Siubhan Harrison, Holly Lucas, Daniel Brocklebank, Brendan Gregory, Jodie Jameson, Kate Braithwaite, Tom Sawyer
    Música: Richard Chester
    Fotografia: Milton Kam
    Género: Horror, Thriller
    Duração: 90 min.
    Sítio Oficial:

    9 de Setembro de 2011

    "The Shrine" por Nuno Reis

    Um jovem americano desaparece durante uma viagem pela Europa e um grupo de jornalistas parte em busca dele. O que parece a abertura de mais um torture porn - bastante adequado a uma edição do MotelX que homenageia Eli Roth - é bem mais do que isso. O realizador Jon Knautz quis recuperar o sobrenatural como elemento-rei do terror pelo que pegou nesse novo cenário e lhe juntou a velha história. Como o título sugere há uma componente religiosa. A igreja tem uma presença dominante sobre os habitantes

    A história é muito simples e quanto menos souberem do que se passa mais piada terá. Uma jornalista arrasta o namorado fotógrafo e uma estagiária até à Polónia em busca de um turista americano. Se ele tivesse sido o único a desaparecer ela não se teria preocupado, mas como era o quinto em cinquenta anos desconfiou que fosse um crime e não um acidente. Chegados à terra do mistério vão-se deparar com uma comunidade muito fechada, inclusivamente proibidos de abandonarem a aldeia, mas onde as crianças falam mal inglês. Sem perceber os diálogos (nem os protagonistas nem os espectadores pois não há legendas propositadamente) vão tirar as suas conclusões e agir em conformidade. Como é óbvio não fazem nada bem.

    Pode ser uma história simples e ter inclusivamente erros ligeiros que se vão detectando, mas está construída de forma inteligente, cria uma atmosfera suficientemente assustadora e com uns SFX melhores até seria levada a sério. Supera muito do que tem sido feito por esse mundo fora em termos de horror e interpretação e desde que não saibam polaco manterá o interesse quase até ao fim, quando o horror puro dispensa uma história. Quem se acostumouao cinema americano vai achar que ficou a faltar um plano que insinuasse a sequela, mas os canadianos não são desse género.

    The ShrineTítulo Original: "The Shrine" (Canadá, 2010)
    Realização: Jon Knautz
    Argumento: Jon Knautz, Trevor Matthews, Brendan Moore
    Intérpretes: Aaron Ashmore, Cindy Sampson, Meghan Heffern
    Música: Ryan Shore
    Fotografia: James Griffith
    Género: Mistério, Terror
    Duração: 85 min.
    Sítio Oficial: http://www.theshrinemovie.com/

    8 de Setembro de 2011

    "Suicide Club" por Nuno Reis

    Independentemente do número de filmes de terror que tenham visto, da quantidade de sangue que aguentam antes do pequeno almoço e da paixão que tenham por filmes asiáticos, nada os poderá preparar para a abertura de “Suicide Club”. O filme começa numa vulgar paragem de metro onde, ao final do dia, as pessoas voltam para casa. Entre milhares de pessoas estão as icónicas estudantes nos seus uniformes. Vemos um grupo delas alinhado pela linha de segurança, a passar a linha, dar as mãos e a saltar para os carris. Não falo de meia dúzia, mas de mais de 50 raparigas, desfeitas em sequência por vontade própria. Quem estava na estação toma um banho de sangue. O terror de “Suicide Club” tem cenas específicas, mas quando aparece é em grande escala.

    É importante referir duas coisas para dar contexto. O Japão é dos países com maior taxa de suicídio. Por um lado a honra no suicídio faz parte da sua tradição, por outro as religiões maioritárias falam de vida além da morte ou reencarnação, e para detonar essa mistura explosiva, no final dos anos 90, um dos bestsellers era o “Manual para o Suicídio Perfeito”. O cúmulo é que apesar de tantos “gostarem” do suicídio não é um tema de que falem abertamente. Por isso é que no ano de 2000 trinta e três mil pessoas se suicidaram. O segundo detalhe de contexto a dar é que a internet nos anos 90 não era como hoje em dia. Na altura a Web era 1.0. Não existiam as redes sociais onde se está presente mesmo estando offline, mas uns pontos de encontro onde se deixava mensagens, as BBS. E os utilizadores das BBS, um pouco como os bloggers, tinham um círculo interno de reputação que não tinha paralelo no exterior desse grupo.
    Por isso este filme é em parte sobre a investigação policial, em parte sobre a investigação de uma internauta, e em parte puro terror paranormal. Para cúmulo do terror há uma banda chamada Dessert (faz lembrar algo?) que está presente em tudo e podem levar ao suicídio de muitos ouvintes desesperados. É premonitório a culpar a Internet pelos movimentos sociais (bons ou maus) que surgem clandestinamente e revela seitas que vão para além da violência (imaginem “A Clockwork Orange” japonês).

    O que realmente se passou nunca saberemos. Cada um pode interpretar os suicídios como coincidência, como obra de uma mente extremamente manipuladora e maléfica, ou de um elemento sobrenatural. Temos é uma história poderosa e muito bem feita sobre uma época única da cultura pop, sobre um fenómeno problemático, e com muito terror à mistura. Alerta para a crescente ausência dos pais no processo educativo, e de como só em actos desesperados como esse encontram almas irmãs. É preciso alguma insensibilidade para assistir ao que sai das malas abandonadas e muita abertura mental para compreender a cultura e mentalidade nipónica.
    Alguns efeitos estão feitos de forma pouco realista. Foi uma forma de diminuir a intensidade. A edição está perfeita e a música como referência cultural torna o filme tão datado que se torna intemporal.

    Jisatsu SâkuruTítulo Original: "Jisatsu Sâkuru" (Japão, 2001)
    Realização: Shion Sono
    Argumento: Shion Sono
    Intérpretes: Ryo Ishibashi, Masatoshi Nagase, Sayako Hagiwara
    Música: Tomoki Hasegawa
    Fotografia: Kazuto Sato
    Género: Crime, Drama, Horror, Mistério, Thriller
    Duração: 99 min.
    Sítio Oficial:

    7 de Setembro de 2011

    Eventos especiais no MotelX


    Tem hoje início o MotelX 2011. Além dso filmes que podem consultar no gadget seguinte, há também uma série de eventos paralelos. Aqui fica o que podem esperar de cada um deles nas palavras dos próprios.



    Lobo Mau


    O MOTELx vai de novo contar com um workshop especial para o público mais jovem. A secção Lobo Mau está de volta com um novo formato e, desta vez, em parceria com o Museu da Marioneta.

    Os vampiros e os lobisomens vão passar a fazer parte do passado. Agora, as novas personagens que vão arrepiar até os mais corajosos, são os assustadores trolls!

    O desafio proposto é inspirado no filme «The Troll Hunter» (Noruega, 2010, 90'). Para o efeito, o MOTELx, em parceria com o Museu da Marioneta, criou um workshop especial para jovens entre os 13 e os 16 anos que consiste na elaboração de trolls aterradores.

    A secção Lobo Mau terá início no dia 6 de Setembro, pelas 11h00 no Cinema São Jorge. A abrir as hostes desta aventura estará a exibição do filme «The Troll Hunter». Depois desta sessão especial os participantes serão convidados a descer até ao laboratório do Museu da Marioneta onde, ao longo dos quatro dias que se seguem, recriarão os mais arrepiantes trolls. O resultado impressionante deste workshop de terror será apresentado ao público do MOTELx nos dias 10 e 11 de Setembro, no Cinema São Jorge.

    Datas
    6 a 9 de Setembro de 2011

    Noite de Jogos de Terror



    A Noite de Jogos de Terror é um evento dedicado ao mundo dos jogos de tabuleiro (board games), aos jogos de miniaturas e aos role playing games (RPG), sempre com o terror como pano de fundo.

    Na penumbra da Sala 2 do Cinema São Jorge estarão diversas mesas, com vários tipos de jogos, à disposição dos visitantes que se aventurarem a entrar. Em cada mesa decorrerá um jogo diferente e haverá um responsável que nos explicará a mecânica e as regras do desafio. Algumas mesas serão destinadas a demonstrações de jogos, que se iniciarão a horas pré-estabelecidas. Os jogos de tabuleiro e os jogos de miniaturas serão jogos de estratégia simples, onde os jogadores se dispõem à volta de uma mesa e movimentam figuras, cartas ou outro tipo de suporte. Os role playing games partem de uma história contada por um GameMaster, onde cada jogador incorpora uma personagem com liberdade total de acção, dentro de um tema e onde não existe suporte físico. O limite é a imaginação.

    A Noite de Jogos de Terror é organizada em parceria com o Clube de Jogos – Carnide, um clube criado com a missão de promover e divulgar iniciativas relacionadas com jogos de tabuleiro, miniaturas e RPG, destinado ao público em geral de todas as idades. Mais informações em www.clubedejogos.com.


    Sábado, 10
    18h30-05h00
    Sala 2
    Entrada Livre


    Painel de Discussão - Cinema de Terror Português


    A propósito dos cinco anos de festival e da 3ª edição de Prémio MOTELx - Melhor Curta de Terror Portuguesa propomos debater um tema muito concreto: cinema de terror português. Será que existe? Como se caracteriza e o que podemos esperar no futuro?

    Estarão presentes Tiago Guedes («Coisa Ruim», «Noite Sangrenta»), Filipe Melo («I'll See You In My Dreams»), Edgar Pêra («O Barão»), Paulo Leite (produtora Bad Behavior), Patrick Mendes(«Sangue Frio », vencedor do Prémio MOTELx 2009), Fernando Alle («Papá Wrestling », menção especial MOTELx 2009), João Alves («Bats in the Belfry », vencedor do Prémio MOTELx 2010, Francisco Carvalho («Nocturna », menção especial MOTELx 2010).

    A par dos convidados presentes serão exibidos excertos ilustrando o percurso de cada um na cinematografia de terror.


    DOMINGO 11
    17h15
    Sala 2
    Entrada Livre *


    Masterclass Eli Roth



    No último dia do festival o convidado especial do MOTELx 2011 estará presente na Sala 2 do Cinema São Jorge para uma masterclass imperdível. Eli Roth irá falar sobre o famigerado torture porn, sobre a sua experiência em «Death Proof» e «Inglourious Basterds» e sobre o futuro do cinema de terror.

    DOMINGO 11
    19h15
    Sala 2
    Entrada Livre *

    5 de Setembro de 2011

    "Somos Lo Que Hay" por Nuno Reis

    Somos assim, não há nada a fazer

    Com um cruzar cada vez mais intenso das criaturas mitológicas com a realidade, estava a demorar a surgir um caso de realismo mágico no terror. A resposta a essa falha veio do México com o título “Somos Lo Que Hay” onde uma família aparentemente normal esconde um segredo.

    Um homem morre no meio de uma área comercial e é rapidamente varrido junto com o lixo. Na cena seguinte vemos uma mãe a mandar os filhos ir abrir a loja porque o pai ainda não chegou. As situações estão obviamente ligadas e quando a filha sabe da notícia e revela em casa que o pai não vai voltar, decisões terão de ser tomadas. Uma delas é quem assumirá o chefia, a outra é como alimentará a família. Quanto ao segundo ponto há um pequeno detalhe, são canibais.

    Fui ver este sem saber com o que contar. Aliás, a cena de abertura fazia pensar em zombies e a segunda cena parecia um drama convencional. Até que começam a sair à rua para caçar. Aí não só se desvenda a componente fantástica do filme, como uma realidade mexicana que muitos insistem em não ver. Pessoas misteriosamente desaparecidas, polícia desinteressada, muita criminalidade e uma cidade marginal que coexiste com aquela mostrada ao turista. Isso é um efeito do crescimento demasiado grande e demasiado rápido de que a cidade foi vítima. Persistem tradições e rituais nada próprios para uma cidade onde a imensidão populacional permite disfarçar situações estranhas.
    Há uma forte componente social nas críticas aqui deixadas. Temos uma família de luto e em simultâneo com um prazo a cumprir. Uma responsabilidade que exige a cada um que se descubra e que cresça. Eles percorrem a tal cidade paralela, dos indesejados, em busca de alguém que possa desaparecer sem deixar rasto. Por vezes há situações que fazem sorrir, mas no geral o ambiente é tão tenso e as interpretações tão convincentes que o canibalismo parece fazer parte do dia-a-dia mexicano. Talvez faça... No entanto para as personagens essa refeição é tida como vital e morrerão se não encontrarem alguém. Será poder da sugestão ou serão mesmo uma espécie canibal?

    Um título incontornável sobre um estilo de monstro que começa a ocupar o seu lugar no cinema. Ironicamente “Somos Lo Que Hay” é muito semelhante - atenção que não é exactamente igual - a “The Hamiltons” (2006), dos realizadores de “The Violent Kind”, que tem uma sequela a caminho. O cinema americano nem sempre chega em segundo lugar quando se trata de remakes.

    Somos Lo Que HayTítulo Original: "Somos Lo Que Hay" (México, 2010)
    Realização: Jorge Michel Grau
    Argumento: Jorge Michel Grau
    Intérpretes: Francisco Barreiro, Paulina Gaitan, Alan Chavez, Carmen Beato
    Música: Enrico Chapela
    Fotografia: Santiago Sanchez
    Género: Drama, Horror
    Duração: 90 min.
    Sítio Oficial: http://www.somosloquehay.com.mx/

    4 de Setembro de 2011

    "Prey" por Nuno Reis

    Como o título “Proie/Presa” sugere, voltamos ao velho confronto homem-animal. É daqueles estilos de filme que se pode fazer vezes sem conta que há sempre uma coisa diferente a dizer. Na versão de Blossier a diferença parte do elemento humano. Os quatro caçadores discutem negócios, enquanto procuram um javali de tamanho anormal. Na expedição partem os homens da família. Vão o patriarca e o filho que sempre caçaram na propriedade, vai o outro filho que gere os negócios e não caça há anos, e vai o genro deste último que ainda não está integrado na família, mas queria arejar. O ambiente é muito intenso devido a um segredo que lhes custa partilhar. Até que finalmente encontram o enorme javali, e descobrem que não é esse animal que procuram.

    Naqueles casos em que a história não surpreende cabe aos efeitos especiais fazerem um bom trabalho para criar medo. Aqui não haverá um único momento realmente surpreendente - e o drama torna-se até um bocado aborrecido apesar de a realização ser competente - no entanto naquela grande parte que dura o confronto nota-se a importância dos efeitos. Porque a história continua a ser fraca, mas os animais vivos e mortos representados são de um realismo impressionante. Claro que não mostram o animal todo, apenas um focinho ou uma cabeça, mas o som certo ao lado ajuda a imaginar o horror. Falta um pouco de gore gratuito já que poucas mortes se vê e nenhuma em condições.

    O cinema de terror francês tem vindo a surpreender nos últimos tempos com “Martyrs” e “La Horde”, mas a “Proie” falta muito para ser um favorito dos amantes de terror, sendo apenas uma ponte para quem quer um drama com mais adrenalina sem entrar nos desmembramentos completos. Quem quer terror a sério vai ficar desiludido e ainda bem que passa numa sessão da tarde porque à noite os espectadores veteranos do género corriam um sério risco de adormecer de tédio antes de chegar à parte interessante.

    ProieTítulo Original: "Proie" (França, 2010)
    Realização: Antoine Blossier
    Argumento: Antoine Blossier, Erich Vogel
    Intérpretes: Grégoire Colin, François Levantal, Fred Ulysse, Joseph Malerba, Bérénice Bejo, Isabelle Renauld
    Fotografia: Pierre Aïm
    Género: Drama, Horror
    Duração: 85 min.

    3 de Setembro de 2011

    "Wake Wood" por Nuno Reis


    Poucas coisas serão piores do que perder um filho. É sobre esse temido assunto que mais uma vez o cinema de terror se debruça nas duas propostas irlandesas que o MotelX apresenta este ano. Enquanto em “Outcast” uma mãe foge com o filho para o manter a salvo, em “Wake Wood” os pais não conseguem fugir da morte da filha.

    Patrick e Louise eram um casal feliz com uma filha até que no dia do aniversário ela é brutalmente atacada por um cão. Passaram apenas dois minutos de filme e já se viu uma criança a ser desfigurada. Essa perda fez com que o casal se mudasse para um novo local, a aldeia de Wakewood. Patrick arranja emprego como veterinário trabalhando para Arthur e Louise gere uma farmácia. A dor está a destruir o casal, mas Wakewood em peso esconde um segredo que descobrem acidentalmente quando o carro se avaria. A magia pagã tem o poder de ressuscitar os mortos por três dias. Se conseguirem voltar a estar com Alice, se tiverem tempo para se despedirem o futuro será diferente e por isso fazem tudo para serem aceites na comunidade e no círculo mágico. São admitidos contra a vontade de alguns elementos e vão ter o que pediram.

    A história pode parecer familiar a quem se lembrar dos Creed em "Pet Sematary". Na versão irlandesa o elenco é discreto - Timothy Spall é o nome mais sonante - mas a história está bem estruturada e nem as semelhanças lhe tiram interesse. O início acelerado coloca-nos logo enquadrados com a vida familiar e o isolamento a que se remetem. Sangue vai sendo derramado em pequenas doses para recordar que não é apenas um drama. O regresso de Alice muda algumas coisas. Ao devolverem-lhes a filha devolvem-lhes a alegria e tanto Patrick como especialmente Louise estão decididos a aproveitar ao máximo esses três dias. Essa parte do filme não está tão bem contada e um bocado mais de calma só faria bem, mas o ritmo é aceitável. O desfecho chega demasiado depressa e após uma sequência de momentos amadores culmina com uma cena forte, mas previsível.

    O terror com crianças como vítimas é um género que incomoda muita gente, mesmo entre os amantes de terror. No entanto a atmosfera irlandesa e a bucólica paisagem fazem com que o filme seja sempre visto com um olhar particular, como se também o espectador fosse um forasteiro em Wakewood que não tem o direito de opiniar sobre o que lá acontece. Merece um visionamento. Afinal de contas, é um dos títulos que assinala o regresso da Hammer.

    Wake WoodTítulo Original: "Wake Wood" (Irlanda, Reino Unido, 2011)
    Realização: David Keating
    Argumento: David Keating,
    Intérpretes: Aidan Gillen, Eva Birthistle, Timothy Spall, Ella Connolly, Ruth McCabe
    Música: Michael Convertino
    Fotografia: Chris Maris
    Género: Drama, Horror, Thriller
    Duração: 90 min.
    Sítio Oficial: http://www.thewakewood.com/

    2 de Setembro de 2011

    "The Violent Kind" por Nuno Reis

    Se só puderem ir a uma sessão do MotelX, então a de Sexta-feira às 19 horas é a recomendada. É quando a sala maior recebe a única projecção de “The Violent Kind” e uma oportunidade única de verem um filme que dá muito em que pensar.

    A própria forma de ser do filme não me permite desvendar muito da sinopse. Um gangue de motoqueiros com muito anos de estrada reúne duas gerações numa quinta longe de tudo para um aniversário. Com o avançar da noite o cansaço vence muitos deles e acabam por sobrar apenas os mais novos. Neles Q assume-se como o líder. Tem consigo a namorada Shade, Elroy e Cody. Na festa também estava Michelle, ex-namorada de Cody. Os dois evitam-se para não estragarem a festa e ela acaba por ir embora, deixando a irmã para trás. Até que regressa sozinha e coberta de sangue. Vai começar a luta pela sobrevivência, não deviam ter bebido tanta cerveja.

    Nos cinco primeiros minutos há violência suficiente para justificar o título. Os primeiros minutos apontam para um filme sobre gangues e é preciso esperar um pouco até começarem a aparecer os elementos perturbadores..Quando surgem aguardam um pouco antes de entrarem em cena, causando apenas inquietação no espectador. E então finalmente começa o desbobinar de situações numa panóplia deveras completa.
    É um filme que tem um pouco de tudo. Posso dizer que tem essencialmente drama e terror, mas ao longo da narrativa identificam-se momentos de comédia e de ficção-científica e o terror alterna entre slasher, gore, psicológico e religioso. É ainda uma colecção de retalhos que parecem saídos de muitos outros filmes e isso faz de “The Violent Kind” uma mistura estranha - diria que única - mas interessante. É como se Lynch e Tarantino realizassem em simultâneo e ambos aceitassem a visão do outro. Pode parecer algo impossível e não digo que seja do agrado de todos - por algum motivo a média IMDb está em 4.3 - mas há tamanha variedade de géneros e tantas surpresas do início ao fim que nem sobrará tempo para pensar e quando terminar seguramente que será discutido, para bem ou para mal.

    Os Butcher Brothers reuniram alguns dos actores dos seus anteriores trabalhos e conseguiram provar que num filme independente e de orçamento reduzido se pode esperar uma história elaborada, actores competentes, efeitos aceitáveis e a banda sonora ideal. Um dos filmes de terror mais inteligentes dos últimos anos.


    The Violent KindTítulo Original: "The Violent Kind" (EUA, 2010)
    Realização: The Butcher Brothers (Mitchell Altieri, Phil Flores)
    Argumento: Adam Weis e Butcher Brothers
    Intérpretes: Cory Knauf, Bret Roberts, Taylor Cole, Christina Prousalis, Tiffany Shepis, Nick Tagas, Joe Egender
    Música: Joshua Myers
    Fotografia: James Laxton
    Género: Drama, Horror
    Duração: 88 min.

    31 de Agosto de 2011

    "Fase 7" por Nuno Reis

    A brincar se contam as verdades

    Em 2009 o mundo tremeu perante a possibilidade de se morrer com uma gripe de aviário. A população em geral começou a ter atenção às regras básicas de higiene e a dar ouvidos à Organização Mundial de Saúde. a palavra pandemia entrou no léxico corrente e surgiram teorias de conspiração. No cinema o tema foi imediatamente aproveitado. Em “Carriers” por exemplo uma doença de contacto imediato dizima a população mundial e os sobreviventes viajam em busca de um sítio sem contaminação. Por ter como realizadores uma dupla de irmãos catalãos esse passou em Sitges 2009 e estreou cá discretamente pouco depois com o título “Pandemia”. Já no ano passado Sitges apostou numa produção argentina que se propunha brincar com o tema: “Phase 7”.

    Para a OMS uma pandemia tem seis graus de gravidade. Na Fase 1 não havia riscos conhecidos de contágio para os humanos. Na Fase 2 havia humanos contaminados. Na Fase 3 um grupo de pessoas estava contaminado, mas não por contágio directo. Na Fase 4 a doença espalhou-se amplamente pela comunidade sem passar as fronteiras do país. Na Fase 5 a doença passou uma fronteira na região OMS (há 6 no total) e na Fase 6 duas regiões OMS estão infectadas. O título “Fase 7” é alusivo a um hipotético plano governamental para controlo populacional que visa eliminar cidadãos através da doença.
    Quando a doença começa a alastrar os edifícios contaminados começam a ser isolados em quarentena. O casal protagonista, Martin e Pipi, está num desses prédios selados. Essa cena tão familiar desde “REC” dá o pontapé de saída para uma invulgar comédia sobre uma micro sociedade onde ninguém é normal e o retiro a que são submetidos os leva à loucura, enquanto lá fora o mundo enlouquece a outra velocidade. Especial atenção ao facto de Pipi estar grávida (a actriz estava mesmo grávida) e protanto estar totalmente limitada, tanto no espaço físico por não poder correr riscos com a saúde, como quanto aos desejos que lhe é permitido ter. O filme evita cair nas piadas sobre isso, mas não resiste a fazer algum humor fácil.

    De forma resumida em 2007 tivemos REC, em 2008 Blindness e em 2009 Carriers. Estamos acostumados a quarentenas, isolamentos e loucura. O que não é frequente é brincarem com o tema assim. O filme é relativamente curto (93 a 97 minutos, depende da versão), mas parece muito longo porque a clausura é sentida. Na fase inicial é relativamente custoso, mas ao fim de uma hora acontece tanta coisa que se perdoa o realismo. Há espionagem, manobras políticas, atentados, guerras e traições. Estou a falar apenas do apartamento porque do mundo exterior nada se sabe.

    É um humor ao gosto espanhol que cá talvez não seja muito bem compreendido. É previsível, mas mesmo assim em Sitges ganhou melhor argumento. A participação do famoso argentino Federico Luppi é um detalhe muito bom devido ao relevo da personagem, mas de resto pouparam nos actores. Não pouparam foi nos adereços porque andam sempre devidamente equipados. Tecnicamente destacaria uma cena feita às escuras que dura cerca de dez minutos e por si só obriga a ver em cinema. Dá momentos de diversão, falhando apenas na missão de provocar debate, talvez por ter passado a época e ser muito datado. Esperemos pela próxima pandemia e talvez seja mais interessante.
    Fase 7Título Original: "Fase 7" (Argentina, 2011)
    Realização: Nicolás Goldbart
    Argumento: Nicolás Goldbart
    Intérpretes: Daniel Hendler, Yayo Guridi, Jazmín Stuart, Federico Luppi
    Música: Guillermo Guareschi
    Fotografia: Lucio Bonelli
    Género: Ficção.Científica, Thriller
    Duração: 97 min.
    Sítio Oficial: http://www.fase7.com/

    29 de Agosto de 2011

    "John Carpenter's The Ward" por Nuno Reis


    Kristen: What is her story?
    Emily: Oh, she’s just crazy. Like me. And you, and like all of us.

    Qualquer filme de John Carpenter é motivo suficiente para levar multidões ao cinema. “Ghosts of Mars” foi uma desilusão para muitos e talvez por isso passou quase um década até sair novo trabalho do mestre em cinema. Pelo meio uma mera colaboração de dois episódios para a série “Masters of Horror”. Quando Sitges anunciou ter o novo filme de Carpenter os seguidores do festival ficaram entusiasmados. Mas teve uma passagem tão desilusória que nem depois da sessão falaram dele. As críticas desfavoráveis acumularam-se de tal forma que a estreia em sala tardou e em Portugal ainda se espera. No MotelX há uma oportunidade para o ver.
    The Ward

    Kristen é internada no hospital psiquiátrico após pegar fogo a uma casa. Não se lembra de nada. No hospital vai ocupar o quarto vagado por Tammy que na abertura vimos a ser atacada por algo. Na enfermaria onde a colocaram estão outras quatro raparigas. São todas objecto de um tratamento experimental. Iris é a mais sã do grupo. Utiliza o desenho como escape da realidade. Zoe é uma criança com especial medo do escuro. Sarah é apenas uma cabra e Emily é louca. Mas como ninguém é o que parece estas descrições são enganadoras.
    O momento em que Kristen percebe a posição a tomar é quando todas começam a dançar numa noite de tempestade. Aí sente a essência do grupo. E logo no dia seguinte é atacada no duche por algo. Até que consegue um nome e vai investigar o que aconteceu com as antecessoras.
    The Ward

    Este argumento tem o inconveniente da previsibilidade. Ver um filme de Carpenter devia ser uma experiência única. O problema é que actualmente há muita gente a fazer terror. Já todos os temas foram feitos e muito bem feitos. O tema em The Ward” não é novo e Carpenter não o consegue apresentar de uma forma original. Os frequentes arrepios de situação não têm efeito e os grandes momentos de suspense são previsíveis. Carpenter também costuma ter um talento único para a banda sonora que desta vez foi composta por Mark Kilian (e faz um trabalho impecável). Portanto de diferente aproveita-se o genérico de abertura e as estreias em terror de tantas destas actrizes. A ver mais por curiosidade do que pela experiência de um Carpenter. Para isso teremos sempre os clássicos.

    The WardTítulo Original: "The Ward" (EUA, 2010)
    Realização: John Carpenter
    Argumento: Michael Rasmussen, Shawn Rasmussen
    Intérpretes: Amber Heard, Mamie Gummer, Lindsy Fonseca, Danielle Panabaker, Laura-Leigh, Jared Harris
    Música: Mark Kilian
    Fotografia: Yaron Orbach
    Género: Horror, Thriller
    Duração: 88 min.
    Sítio Oficial: http://thewardmovie.com/

    28 de Agosto de 2011

    "The Woman" por Nuno Reis

    Será exagerado dizer que tão cedo este é o filme do festival?

    Desde a primeira cena que "The Woman" não é um filme vulgar.Começa num ambiente selvagem e tem como plano de abertura a barriga de uma mulher selvagem. Por dois minutos vemos essa fera a marcar território. Depois a acção muda para um churrasco da gente civilizada onde vamos conhecer a família Cleek. Minutos depois o senhor Cleek e a selvagem encontram-se e as suas vidas não voltarão a ser as mesmas.

    Que se desengane quem espera uma nova versão de "O Menino Selvagem". O que McKee nos traz não é um mero retrato antropológico, cultural ou social. É o verdadeiro choque civilizacional e os constantes conflitos no seio de uma família aparentemente normal. O pai é a autoridade suprema ao ponto de ninguém questionar quando traz uma selvagem para casa. A mãe serviente não tem existência própria, é uma simples sombra que obedece cegamente ao marido. A filha mais velha esconde mal um segredo. O filho deseja a aprovação paterna. E a filha pequena por enquanto está imune a tudo isso. A história não tem muitas mais personagens: uma professora preocupada, uma amiga da família, a secretária de Chris Cleek. São meros adereços. Tudo o que de importante se passa é em torno dos Cleek e da sua hóspede.

    Por momentos a realização parece trémula e as interpretações fracas, mas dêem uma oportunidade a “The Woman”. Assim que se deixarem levar pela história entrarão numa aventura capaz de deixar qualquer um mal-disposto. Porque apesar de aquilo que se vê ser de qualidade duvidosa, o que se sente é algo só causado por aqueles poucos filmes de terror que sobrevivem ao teste do tempo.
    Conselhos preciosos para quem for a esta sessão é que vá com a digestão feita, com alguma disposição para diversão e que não tenha planos para depois, nem sequer ver outro filme. Porque “The Woman” vai perturbar mesmo aqueles mais acostumados a cenas chocantes. Não pelo que vêem, mas pelo que pensam e ouvem. Ao fim de uma hora podem até começar a achar piada e tentar disfarçar com risos e aplausos algumas das cenas mais perturbadoras, ajudando ao ambiente do festival, mas se perceberem o filme e a mensagem que é transmitida vão ficar a pensar nele por muito tempo.

    Um belíssimo argumento de Jack Ketchum dá origem a um grande filme e que parte como meu favorito. E Lisboa é apenas a segunda exibição na Europa depois do FrightFest!

    The WomanTítulo Original: "The Woman" (EUA, 2011)
    Realização: Lucky McKee
    Argumento: Jack Ketchum, Lucky McKee
    Intérpretes: Sean Bridgers, Zach Rand, Angela Bettis, Lauren Ashley Carter, Pollyanna McIntosh, Carlee Baker
    Música: Sean Spillane
    Fotografia: Alex Vendler
    Género: Crime, Drama, Thriller
    Duração: 104 min.
    Sítio Oficial: http://www.thewomanmovie.com/

    "Burke and Hare" por Nuno Reis

    É verdade que Londres tremeu de medo por causa de Jack the Ripper, o mais famoso serial killer de sempre, mas na vizinha Edimburgo, sessenta anos antes, havia muitas mais mortes misteriosas. Esses desaparecimentos inexplicáveis demoraram um ano a serem atribuídos à dupla Burke e Hare e foram precisos quase dois séculos para terem reconhecimento em forma de comédia.

    Estes dois amigos estão a ressentir-se com a falta de emprego. É a crise... Quanto morre um dos inquilinos de Hare ficam muito preocupados. Era a última fonte de rendimento. Tentam desfazer-se do cadáver para não pagarem o funeral, mas ouvem dizer que podem ser pagos se o levarem ao Dr. Knox. Edimburgo é o pólo mais avançado da medicina e agora que há um prémio para a maior descoberta Knox quer fazer algo ginantesco: um mapa anatómico. Para isso precisa de muitos corpos e a dupla não se importa de recolher mortos frescos. Talvez acelerar a morte de alguns. Talvez provocar a outros....

    Tornar uma história de crime e ganância numa comédia não é fácil. Especialmetne depois do falhanço de “I Sell The Dead” há apenas dois anos com um temática tão semelhante. Para isso foi reunido um elencode luxo. Simon Pegg é Burke, Andy Serkis é Hare, Tom Wilkinson é Dr. Know, Jessica Hynes é a senhora Hare e Isla Fisher é a candidata a actriz Ginny. Além destes passam por aqui outros estrelas como Christopher Lee e Tim Curry.
    Na realização está um americano, mas este senhor de nome John Landis dispensa apresentações entre os fãs do fantástico e não é por isso que o filme fica menos inglês. “Burke and Hare” está carregado do típico humor britânico. As mortes serão talvez demasiadas, mas são variadas e não cansam. Há ainda o factor Ginny. Não só Fisher faz o único género de personagem em que não é miserável, como é a responsável pelo melhor humor do filme pois quando Burke começa a investir a sua recente fortuna numa produção teatral e num romance, desvia o tema da morte por momentos.

    Numa década em que o terror começa a ser todo parecido é salutar viajar no tempo e ver um pouco de humor mórbido do século XIX. Não é um filme para recordar, mas com assassinatos, profanação de cadáveres e adaptações de Shakespeare será uma das sessões mais divertidas do festival.

    Burke and HareTítulo Original: "Burke and Hare" (Reino Unido, 2010)
    Realização: John Landis
    Argumento: Piers Ashworth, Nick Moorcroft
    Intérpretes: Simon Pegg, Andy Serkis, Isla Fisher, Jessica Hynes, Tom Wilkinson, Tim Curry
    Música: Joby Talbot
    Fotografia: John Mathieson
    Género: Comédia, Thriller
    Duração: 91 min.