o anti-germanismo primário
uma ilustração a partir do caso Oettinger
(há um certo erotismo heróico no combate a estes krauts, nao há?)(daqui)
Deus sabe (a sério, se não souber mais vale não existir) que há poucas pessoas a quem a reação alemã à crise do Euro irrite mais do que a mim. Angela Merkel foi aliás aconselhada a evitar cruzar o meu caminho e vai agora, em virtude de morar perto de um dos meus museus favoritos, atravessar o Spree a Spandau quando quer ir comprar pão ao Hackescher Markt (isto diz-vos imenso, eu sei).
Uma das razoes pelas quais a atitude do governo alemão mais me apoquenta, para além de estar a colocar países perante situações claramente insustentáveis, gastar mais dinheiro aos alemães e aos restantes europeus do que o que seria necessário se Merkel nao fosse um boi, colocar toda a moeda única à beira do abismo e a União Europeia, isto é o duo franco-allemande, aceleradamente no seu encalço (uff, uff), dizia eu que para além disso o que mais me apoquenta é que destrói os avanços na imagem alemã conquistados ao longo de décadas de diplomacia e políticos com outro tipo de visão (outro tipo de visão=alguma).
E eu, que ando piursa, relembre-se o novo plano de segurança da chanceler e tudo, acho que é injusto. Angela Merkel e Schäuble valem o que valem, e o que valem não é isto tudo. A mulher é absolutamente incapaz e os alemães votaram nela, mas daí a se poder retirar do baú o imperialismo germânico e limpar o pó à ideia de que são todos um bando de nazis em potência, ainda vai uma grande distância.
No discurso público, esta distância tem sido reduzida por três fatores: a ignorância dos comentadores sobre política alemã (aliada à falta de respeito por si próprios e pelos seus leitores, que, a existir, se calhar ainda os fazia abrir o Google); a absoluta incapacidade dos nossos líderes políticos de tomar uma posição internacional que não se traduza diretamente no lamber das botas de Angela Merkel (que ainda por cima, como a roupa, devem ser sempre as mesmas); e por último o aproveitamento populista de qualquer coisa que possa ser interpretada como prova da teoria dos nazis em marcha.
Este post é um exemplo disto. Efetivamente, existe um senhor chamado Oettinger que é Comissário Europeu e membro da CDU, o partido de Angela Merkel. É conhecido por defender que o Inglês se deve tornar língua de trabalho geral e por se gabar do seu inglês (sem comentários, vão ver) e a semana passada disse por exemplo, para conhecerem melhor o tom que costuma usar, que a Itália é governada miseravelmente (não que não seja verdade). Efetivamente, numa entrevista ao Sun cá do sítio, este senhor sugeriu que fossem burocratas europeus a ir tomar conta dos processos de privatização e recolha de impostos gregos e que os países endividados fossem forçados a por a bandeira a meia-haste nas instituições europeias.
Eu acho que isto é grave e não sou a única: a porta-voz de Durão Barroso veio a público dizer que não fazia de forma alguma parte das intenções da Comissão discutir a ideia, o comissário Olli Rehn mandou dizer que a comissão só discutia "sugestões sérias" e Werner Langen disse em nome de todo o grupo parlamentar europeu do partido de Oettinger que "não estávamos a 1 de Abril". Há mais dois partidos no governo, o FDP e a CSU: um responsável do partido liberal disse que se tratava de uma Schnapsidee (em traduçao literal, uma ideia derivada da aguardente) e Peter Gauweiler, da CSU, disse que Oettinger era doido. E isto sem nem sequer olhar para a esquerda alemã, tudo reações da direita e dos partidos do governo.
Mas para o Sérgio Lavos, que reações contrárias só conhece as de Louçã e Rui Tavares, trata-se de "um belo exemplo da atitude alemã perante os PIGS, mas também sobre o que eles acham que deve ser a União Europeia: um prestar de vassalagem dos mais pobres aos mais ricos".
O exemplo vale o que vale, mas acho que demonstra aquilo de que queria falar: na ignorância, há duas atitudes possíveis. Há quem seja prudente e vá ver do que se trata. E há quem ataque logo com o que tiver mais à mão - no caso do discurso populista sobre a Alemanha, é dada preferência às granadas do tempo da Segunda Guerra. Parece que dão um certo frisson.
Uma das razoes pelas quais a atitude do governo alemão mais me apoquenta, para além de estar a colocar países perante situações claramente insustentáveis, gastar mais dinheiro aos alemães e aos restantes europeus do que o que seria necessário se Merkel nao fosse um boi, colocar toda a moeda única à beira do abismo e a União Europeia, isto é o duo franco-allemande, aceleradamente no seu encalço (uff, uff), dizia eu que para além disso o que mais me apoquenta é que destrói os avanços na imagem alemã conquistados ao longo de décadas de diplomacia e políticos com outro tipo de visão (outro tipo de visão=alguma).
E eu, que ando piursa, relembre-se o novo plano de segurança da chanceler e tudo, acho que é injusto. Angela Merkel e Schäuble valem o que valem, e o que valem não é isto tudo. A mulher é absolutamente incapaz e os alemães votaram nela, mas daí a se poder retirar do baú o imperialismo germânico e limpar o pó à ideia de que são todos um bando de nazis em potência, ainda vai uma grande distância.
No discurso público, esta distância tem sido reduzida por três fatores: a ignorância dos comentadores sobre política alemã (aliada à falta de respeito por si próprios e pelos seus leitores, que, a existir, se calhar ainda os fazia abrir o Google); a absoluta incapacidade dos nossos líderes políticos de tomar uma posição internacional que não se traduza diretamente no lamber das botas de Angela Merkel (que ainda por cima, como a roupa, devem ser sempre as mesmas); e por último o aproveitamento populista de qualquer coisa que possa ser interpretada como prova da teoria dos nazis em marcha.
Este post é um exemplo disto. Efetivamente, existe um senhor chamado Oettinger que é Comissário Europeu e membro da CDU, o partido de Angela Merkel. É conhecido por defender que o Inglês se deve tornar língua de trabalho geral e por se gabar do seu inglês (sem comentários, vão ver) e a semana passada disse por exemplo, para conhecerem melhor o tom que costuma usar, que a Itália é governada miseravelmente (não que não seja verdade). Efetivamente, numa entrevista ao Sun cá do sítio, este senhor sugeriu que fossem burocratas europeus a ir tomar conta dos processos de privatização e recolha de impostos gregos e que os países endividados fossem forçados a por a bandeira a meia-haste nas instituições europeias.
Eu acho que isto é grave e não sou a única: a porta-voz de Durão Barroso veio a público dizer que não fazia de forma alguma parte das intenções da Comissão discutir a ideia, o comissário Olli Rehn mandou dizer que a comissão só discutia "sugestões sérias" e Werner Langen disse em nome de todo o grupo parlamentar europeu do partido de Oettinger que "não estávamos a 1 de Abril". Há mais dois partidos no governo, o FDP e a CSU: um responsável do partido liberal disse que se tratava de uma Schnapsidee (em traduçao literal, uma ideia derivada da aguardente) e Peter Gauweiler, da CSU, disse que Oettinger era doido. E isto sem nem sequer olhar para a esquerda alemã, tudo reações da direita e dos partidos do governo.
Mas para o Sérgio Lavos, que reações contrárias só conhece as de Louçã e Rui Tavares, trata-se de "um belo exemplo da atitude alemã perante os PIGS, mas também sobre o que eles acham que deve ser a União Europeia: um prestar de vassalagem dos mais pobres aos mais ricos".
O exemplo vale o que vale, mas acho que demonstra aquilo de que queria falar: na ignorância, há duas atitudes possíveis. Há quem seja prudente e vá ver do que se trata. E há quem ataque logo com o que tiver mais à mão - no caso do discurso populista sobre a Alemanha, é dada preferência às granadas do tempo da Segunda Guerra. Parece que dão um certo frisson.

