Segunda-feira, Novembro 07, 2011
Fukushima poderá tornar-se um cemitério nuclear
Esta semana um painel de peritos da Comissão para a Energia Nuclear japonesa concluiu que vão ser necessárias várias décadas para limpar a região em quarentena em torno de Fukushima, ao contrário das expectativas mais optimistas que foram avançadas após o acidente. Em Portugal, Patrick Monteiro e Pedro Sampaio Nunes estiveram entre as vozes que mais minimizaram as consequências do acidente. Segundo o mesmo painel, só dentro de 10 anos será possível começar a remover as barras de combustível das unidades onde ocorreu a fusão dos reactores.
Está prevista a remoção de 4 cm de solo em vastas áreas da região que produzirá em cerca de 3 mil toneladas de lixo radioactivo, suficientes para encher 20 estádios de futebol. Nalgumas das cidades perto da central começaram a ser construídos depósitos temporários para destroços altamente contaminados resultantes do acidente que só estarão prontos dentro de três anos. Entretanto, este lixo radioactivo acumula-se nas mesmas cidades em condições de elevado risco para a saúde pública das populações. Só na cidade de Fukushima, situada a cerca de 50 km da central, acumula-se lixo radioactivo suficiente para encher 10 estádios de futebol.
Perante este cenário, as autoridades japonesas lançaram a proposta para transformar Fukushima em cemitério de lixo radioactivo do programa nuclear nipónico. Tal como a esmagadora maioria dos países com energia nuclear, o Japão ainda não decidiu qual a solução final a aplicar ao combustível radioactivo (perigoso durante cerca de 600 mil anos) produzido nas suas centrais. Por enquanto os resíduos mais perigosos são guardados junto às centrais situadas no norte da ilha de Honshu e em Tokaimura.
Esta decisão está a causar grande indignação entre os habitantes da região obrigados a evacuar os cerca de 50 mil lares à volta da central nuclear de Fukushima Daiichi. Alguns destes habitantes perderam os seus entes mais queridos durante o sismo, outros viram-se impedidos de procurar os seus familiares e amigos desaparecidos. Tal como tem sido escrito na imprensa da região, transformar a região em lixeira nuclear é impedir que milhares de japoneses concretizem o luto dos seus próximos com dignidade, estando impossibilitados de recorrer ao simbolismo dos seus pertences, dos lugares onde cresceram e viveram e dos corpos dos que nunca foram encontrados.
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Segunda-feira, Junho 06, 2011
A pesada herança de Fukushima
Noutro relatório elaborado pela organização japonesa responsável pelo tratamento dos resíduos nucleares identifica uma região contaminada superior a 600 km2. Fora da zona de exclusão de 20 km foram detectadas bolsas de contaminação ao nível das regiões evacuadas junto a Chernobyl. Por exemplo, em Katsurao, a cerca de 25 km da central, a contaminação por Césio 134 e 137 induz uma dose por habitante de cerca de 30 mSv, ou seja 30 vezes a dose autorizada.
Tetsuya Terasawa, o porta-voz da TEPco, a operadora da central de Fukushima, classificou o nível de radiação junto à central equivalente ao dos destroços deixados pelo teste de uma bomba atómica. Tersawa afirmou ainda que existe uma forte probabilidade de ter ocorrido a fusão dos reactores 2 e 3, tal como aconteceu no reactor 1 – a central de Fukushima é composta por quatro reactores. A fusão do combustível no reactor 1 gerou fissuras na estrutura de protecção através das quais se registam fugas de material radioactivo. Suspeitam-se fugas também no reactor 2. A TEPco espera controlar as fugas de radiação até finais de Julho e manter a temperatura dos reactores abaixo de 100°C até Janeiro de 2012. O presidente da TEPco, Masataka Shimizu, demitiu-se após a divulgação de um prejuízo de 11 mil milhões de euros - o pior défice de uma empresa não financeira da história do Japão.
Certamente uma área de algumas centenas de quilómetros quadrados estará vedada à população durante várias décadas com consequências pesadíssimas para a economia e o bem-estar das populações evacuadas e vizinhas da região sinistrada. É uma herança muito pesada para um país em reconstrução de um tsunami violentíssimo, com graves problemas de sustentabilidade energética, com uma economia estagnada há duas décadas e uma dívida pública superior a 200%.
Sexta-feira, Maio 06, 2011
Science & Vie especial Fukushima
Foi publicada uma edição especial da revista Science & Vie dedicada ao acidente de Fukushima, de uma qualidade rara para uma revista de divulgação científica. Para além de um enquadramento cheio de dados estatísticos sobre a energia nuclear no mundo, os problemas de segurança das centrais são dissecados com seriedade em função de cada modelo. É apresentada uma lista completa das 20 centrais em que ocorreram acidentes de nível 3 a 7, com esquemas muito completos do interior dos reactores. É feito ainda o ponto da situação de Chernobyl.Etiquetas: divulgação científica, nuclear
Sexta-feira, Abril 15, 2011
O cartoon da semana
Terça-feira, Abril 12, 2011
Fukushima passa a nível 7 temporariamente
A 60 km da central medem-se níveis de radioactividade superiores aos limites legais, pelo que não é de excluir o aumento do perímetro de exclusão.
Ver reportagem na Euronews.
Quinta-feira, Março 31, 2011
Ensaios nucleares
Estima-se que tenham morrido cerca de 170 mil pessoas como consequência dos produtos de fissão altamente radioactivos espalhados na atmosfera depois dos ensaios nucleares realizados na atmosfera até 1963 ("De Tchernobyl en tchernobyls", Georges Charpak, Odile Jacob, pag. 94, 2005). Depois de 1963 os ensaios atmosféricos foram proibidos. Agora que se discute abundantemente o nuclear, convém referir que depois de Hiroshima esta catástrofe nuclear, os ensaios atmosféricos, foi a que fez mais mortos, embora de carácter invisível, pouco conhecida, difusa em todo o planeta, mas bem real.
Domingo, Março 27, 2011
Subcontratação, precariedade e insegurança no sector nuclear
(publicado no portal Esquerda.net)
Os três trabalhadores japoneses contaminados – dois deles hospitalizados – por uma fuga de água altamente radioactiva no reactor 3 da central de Fukushima eram trabalhadores subcontratados. Os avisos dos respectivos dosímetros não foram respeitados, tendo os trabalhadores sido sujeitos a doses entre os 170 e os 180 mSv, perto da dose limite diária de 250 mSv para a qual se verificam sintomas físicos imediatos.
Desde o início das operações de controlo da temperatura dos reactores, 14 trabalhadores da Tepco receberam doses acima dos 100 mSv, a dose limite típica a que um trabalhador do sector nuclear poderá estar sujeito durante um ano. A estes juntam-se mais de uma dezena de trabalhadores feridos e um morto aquando das explosões dos edifícios dos reactores.
Todos estes acidentes aconteceram num quadro de operações de urgência e de desespero, em que as regras de segurança deixam de ser uma prioridade, onde o voluntarismo inconsciente anda de mão dada com a falta de transparência de quem dirige as operações.
Em Chernobyl também foi assim, embora a escala fosse outra. Cerca de 500 mil “liquidadores” – assim apelidados os bombeiros, os militares e todos os civis que participaram nas operações após o acidente – estiveram sujeitos a doses de radiação extremamente elevadas. Foram mais de 4 mil os que morreram como consequência directa da irradiação, dezenas de milhares contraíram doenças crónicas que os incapacitaram para sempre e que provocaram a sua morte prematura através de causas indirectas, não relacionadas com a radiação em si. Poderia pensar-se que os trabalhadores das centrais nucleares só estão sujeitos a estes níveis de perigosidade nos casos excepcionais em que ocorrem acidentes muito graves. Infelizmente assim não é.
Recentemente uma reportagem da La Une belga denunciou uma situação intolerável de subcontratação de trabalhadores no sector no nuclear (começa aos 1:18:30 do vídeo do programa disponível na internet). Estes trabalhadores fazem o trabalho mais perigoso, recebem salários pouco superiores ao salário mínimo, suportam doses bem acima de qualquer um dos funcionários da central e como se pode verificar na reportagem têm acontecido acidentes (1:23:10 de programa) incapacitantes para estes trabalhadores, que posteriormente não têm quem acusar nos tribunais.
Não admira que as estatísticas de saúde dos funcionários permanentes da central revelem excelentes resultados, não são estes quem faz o trabalho sujo, em especial as entradas no ambiente altamente radioactivo dos reactores durante as paragens para manutenção. Grave também é verificar que são atribuídas a estes trabalhadores subcontratados responsabilidades fundamentais para a segurança da central, responsabilidades essas que deveriam ser dos quadros da central, e mais preocupante ainda é constatar a pressão a que estes trabalhadores estão sujeitos para produzir bons, embora falseados, relatórios de segurança.
Etiquetas: energia, nuclear, trabalho
Domingo, Março 20, 2011
Subcontratação no sector nuclear
Grave também é verificar que estes trabalhadores subcontratados e pouco qualificados têm responsabilidades fundamentais para a segurança da central, responsabilidades essas que deveriam ser dos quadros da central, e mais preocupante ainda é perceber a pressão a que estes trabalhadores estão sujeitos para produzir bons relatórios de segurança.
Quarta-feira, Março 16, 2011
Possíveis consequências de Fukushima
Os riscos para trabalhadores e população serão piores do que Three Mile Island (acidente de nível 4) mas certamente bem menos graves que Chernobyl (nível 7), mesmo que haja uma explosão da cúpula de confinamento dos reactores (e não do edifício como já ocorreu) causada pela operação de arrefecimento. As fissuras e as brechas de 8 metros detectadas nos confinamentos de dois reactores estão a deixar escapar radiação altamente perigosa para as imediações e o incêndio ocorrido na piscina de arrefecimento do reactor 4 lançou uma nuvem radioactiva para a atmosfera durante duas horas. Não é de excluir que estes problemas se possam agravar e estender à piscina do reactor 5 que continua a aquecer e a perder água. Se houver fusão do combustível nuclear é provável que a parte inferior do confinamento de segurança do reactor possa ceder com a consequente contaminação dos solos. O incêndio nas piscinas também poderá contaminar o solo envolvente. Comparando com Chernobyl e o acidente de Palomares (B52 que se despenhou com 4 bombas nucleares) onde houve contaminação radioactiva dos solos é de esperar a criação de uma área interdita à população de alguns quilómetros quadrados durante mais de 50 anos.
Etiquetas: energia, Japão, nuclear
Segunda-feira, Março 14, 2011
O excesso de confiança no sector nuclear
Mas o excesso de confiança estende-se às sociedades mais abertas, sobretudo quando a lógica de mercado é aplicada aos programas nucleares civis, como adverte Georges Charpak (Nobel da Física e um dos responsáveis do programa nuclear francês) na obra "De Tchernobyl en tchernobyls", Odile Jacob, 2005. Por exemplo, o acidente de 1999 em Tokaimura no Japão ocorreu porque a lógica do lucro de uma empresa privada se sobrepôs às regras mais elementares de segurança. A construção de 55 reactores no arquipélago japonês em permanente risco sísmico não são uma opção que se possa considerar razoável, por muito que se possa fazer pela segurança de uma central. Também aqui a lógica do lucro não estará certamente dissociada desta decisão.
O excesso de confiança surge ainda nos debates domésticos sobre o nuclear (não apenas em Portugal) quando se reduz o número de acidentes a Chernobyl, quando se esquece Three Mile Island em que o puro acaso não produziu outro Chernobyl, quando se ignora Tokaimura ou os recentes acidentes em centrais do Reino Unido (Sellafield) e da Suécia (Forsmark). A indústria nuclear é mais segura do que a generalidade das indústrias químicas, mas não é uma indústria imaculada, não é uma indústria de risco zero nem nada que se pareça. E como os acidentes da indústria nuclear são potencialmente muito mais perigosos e muito mais caros de remediar, quando se debate o nuclear deve-se oferecer às populações toda a informação disponível, deve-se usar da máxima transparência.
Sábado, Março 12, 2011
O terramoto nas centrais nucleares japonesas
(publicado esta manhã no portal Esquerda.net)
A informação vai saindo a conta-gotas, mas é já uma certeza a ocorrência de um incêndio na central de Onagawa e a existência de problemas muito graves de arrefecimento em dois reactores da central de Fukushima, onde se produziu uma violenta explosão.
A explosão danificou o edifício onde se encontra um desses reactores tendo provocado vários feridos. A central de Fukushima está em alerta máximo e tudo indica que material combustível sobreaquecido entrou em fusão num dos reactores. O governo japonês confirmou uma fuga radioactiva de alta perigosidade e ordenou a evacuação da população num perímetro de 20 km à volta da central.
Em Chernobyl a gravidade do acidente resultou de uma explosão causada pela pressão do vapor da água produzido no circuito de arrefecimento de um dos reactores. Essa explosão pulverizou o tecto do edifício do reactor e projectou grandes quantidades de materiais altamente radioactivos na atmosfera. Neste caso, negligências graves durante a construção e o não respeito do projecto inicial da central tornaram possível um acidente que em condições normais não deveria ter ocorrido.
Ainda se ignora se em Fukushima as cúpulas dos reactores, que servem para impedir a fuga de radiação em caso de acidente, foram destruídas pela explosão como aconteceu em Chernobyl. No entanto, materiais altamente radioactivos armazenados no exterior dos edifícios principais foram já dispersos nas redondezas e na costa japonesa pela inundação provocada pelo tsunami.
O Japão tem 55 reactores nucleares, 11 dos quais pararam automaticamente através de protocolos específicos de segurança assim que ocorreu o terramoto. Teoricamente as centrais japonesas estavam preparadas para lidar com sismos desta intensidade, mas o inesperado tsunami poderá explicar algumas das falhas graves que estão a acontecer.
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Sexta-feira, Março 11, 2011
Acidente nuclear grave no Japão
Relembro que em Chernobyl a gravidade do acidente foi agravada pela explosão causada pela pressão do vapor da água do circuito de arrefecimento de um dos reactores e por falhas graves no projecto da central. Na central de Fukushima pode estar a acontecer o pior, mas para já não há indicações de problemas com as cúpulas que encerram os reactores e que evitam fugas radioactivas significativas. No entanto os materiais altamente radioactivos armazenados no exterior foram dispersos pelo tsunami.
11 dos 55 reactores japoneses pararam durante o terramoto.
Ler e/ou ouvir a reportagem da Euronews.
Quarta-feira, Fevereiro 09, 2011
Palomares radioactiva 45 anos depois

Quarta bomba que caiu no Mar Mediterrâneo e foi recuperada dois meses mais tarde – Foto retirada do site brookings.edu
O nível de contaminação do solo de Palomares só atingirá o nível de radioactividade natural dentro de alguns milhares de anos. Para minimizar os efeitos da radioactividade, logo após o acidente, equipas americanas removeram mais de 1300 metros cúbicos de solo contaminado que foi transportado e colocado num depósito de lixo nuclear em Savannah River na Carolina do Sul, EUA. No entanto, depois de um estudo realizado por técnicos espanhóis em 2004 estima-se que restam ainda cerca de 50 mil metros cúbicos de solo contaminado numa área interdita à população local. No mesmo ano os EUA concordaram em pagar a limpeza do restante terreno contaminado, cujo custo foi estimado em cerca de 31 milhões de euros, mas o compromisso de limpeza da área e os pagamentos acordados não têm sido cumpridos na íntegra pelos americanos. Recentemente, uma fuga da wikileaksrevelou a preocupação da Embaixada dos EUA em Madrid sobre o impacto negativo na opinião pública espanhola e nas relações bilaterais entre os dois países, se a Administração Obama não respeitasse os compromissos assumidos.
Apesar de os EUA terem enviado recentemente uma equipa de cientistas para avaliar o estado de contaminação dos solos, o governo espanhol endureceu a sua posição e enviou uma mensagem directamente a Obama para que se procedesse à remoção do plutónio o mais rapidamente possível. A passada semana, 45 anos depois do acidente, Espanha decretou a interdição de reabastecimento em voo sobre o território espanhol de aviões da Força Aérea Americana.
Domingo, Janeiro 09, 2011
Centrais nucleares de terceira geração mais caras que previsto
A TVO, a fornecedora nacional de electricidade da Finlândia, comunicou recentemente que a construção do seu novo reactor nuclear sofreu um novo atraso superior a um ano. Este reactor designado de terceira geração, trata-se do EPR (European Pressurised Reactor/Evolutionary Power Reactor) da empresa francesa Areva em construção em Olkiluoto, no sudoeste da Finlândia. A construção do EPR foi iniciada em 2005 com o compromisso de estar terminado em 2009. Desde então, sucessivos atrasos elevaram a factura inicial de 3 mil milhões de euros (um preço chave na mão estabelecido entre a TVO e a Areva) para 5,7 mil milhões de euros. Depois da derrapagem de custos, a TVO entrou em conflito com a Areva e pede o reembolso da diferença de 2,7 mil milhões de euros.
Existem apenas quatro reactores deste tipo correntemente em construção: dois na China, um na Finlândia e outro em França. A construção dos dois reactores chineses iniciou-se há poucos meses, pelo que não há informação sobre eventuais derrapagens de custos. A construção do reactor francês, tal como o finlandês, tem sofrido atrasos e aumentos de custo bem superiores ao inicialmente estimado.
O EPR deverá ser o mais potente reactor nuclear do mundo, com uma potência de cerca de 1650 MW, mas é também o reactor mais caro concebido até hoje. Este tipo de reactores tem sido publicitado como o mais seguro do mundo, capaz de resistir ao embate de um avião de linha. No entanto, o EPR nunca foi testado, a unidade finlandesa será a primeira a entrar em funcionamento. O combustível utilizado nestes reactores é designado por MOX (Mélange d’OXides), uma liga constituída por óxidos de urânio e de plutónio. A utilização do MOX apresenta a vantagem de reciclar o plutónio proveniente de armamento nuclear e de aumentar a concentração de material físsil do combustível utilizado nos reactores. No entanto, é um combustível mais caro que o combustível utilizado nas centrais nucleares de anteriores gerações e para o qual ainda não foi encontrada uma solução de tratamento e armazenamento depois de utilizado.
Foi este tipo de reactores que foi proposto há cerca de cinco anos como uma solução energética mais barata para Portugal pelo grupo de pressão liderado por Patrick Monteiro de Barros.
Segunda-feira, Novembro 15, 2010
Sobre o futuro dos resíduos nucleares
Os recentes protestos contra o transporte de onze vagões de resíduos nucleares entre a unidade de tratamento de La Hague, em França e Gorleben na Alemanha, contribuiriam para reabrir o debate sobre o futuro dos resíduos radioactivos produzidos por centrais nucleares. Actualmente, os resíduos nucleares mais perigosos acumulam-se em piscinas de arrefecimento e hangares ventilados. Espera-se poder vitrificar os produtos de fissão não recicláveis em blocos que serão acondicionados em contentores de aço selados a serem posteriormente armazenados em galerias escavadas em extractos subterrâneos de granito, argila ou sal situados a mais de 500 metros de profundidade. Este tipo de resíduos mantém uma actividade acima do nível da radioactividade natural durante mais de 600 mil anos.
O governo alemão tencionava construir um depósito com custos da ordem de milhares de milhões de euros para os seus resíduos mais perigosos numa mina de sal em Gorleben, onde ocorreram alguns dos recentes protestos. No entanto, a 15 de Janeiro deste ano foram evacuados 126 mil barris de resíduos nucleares de perigosidade mediana, que tinham sido colocados em 1967 numa mina de sal de Asse, depois de terem sido detectadas numerosas fugas de água contaminada. Klaus-Jürgen Roehlig, perito em gestão de resíduos da Universidade de Clausthal, declarou que este incidente “coloca em causa a escolha de minas de sal para armazenar os resíduos nucleares mais perigosos”.
Recentemente, os EUA decidiram suspender o armazenamento de resíduos nucleares no fundo da única mina que estava prevista para o efeito, na Montanha Yucca no Nevada, depois de terem sido gastos mais de 10 mil milhões de dólares no projecto. Por ordem do presidente Obama foi criada uma comissão de peritos para encontrar nova solução para os resíduos nucleares. Estão em cima da mesa soluções de depósito em furos de grande profundidade no fundo dos oceanos, no interior dos glaciares do Pólo Sul e soluções mais exóticas como a ejecção dos resíduos para o espaço.
Entre os países com programas nucleares civis, apenas a França, a Suécia e Finlândia possuem programas em marcha para guardar os resíduos em galerias subterrâneas de grande profundidade.
Custos infindáveis
Outra vertente dos protestos dos manifestantes franco-alemães que convém realçar é a questão dos custos infindáveis da energia nuclear. Desde que foram lançados os primeiros programas nucleares civis nos anos 50 – muitos destes programas resultaram de programas militares extremamente caros – nunca foram guardados definitivamente em algum lugar da Terra os resíduos nucleares mais perigosos, nocivos durante mais de 600 mil anos. Desde então, as parcelas para a factura real dos custos da energia nuclear não têm parado de aumentar e continuarão a aumentar durante mais 600 mil anos, se não se encontrar entretanto uma nova técnica para encurtar o período de perigosidade dos produtos de fissão. Até esse dia, não podemos estimar com precisão e honestidade quais os verdadeiros custos de 1 kWh produzido por uma central nuclear.
Sexta-feira, Outubro 08, 2010
Georges Charpak (1924-2010)
Georges Charpak, Nobel da Física em 1992, fez parte desse grupo minoritário de cientistas que se preocupa em interagir com a sociedade, em transpor o que se faz no interior dos laboratórios para o cidadão comum. Charpak publicou excelentes livros de divulgação científica como "De Tchernobyl en tchernobyls", Odile Jacob, 2005, "Soyez savants, devenez prophètes", Odile Jacob, 2004 ou a sua única obra traduzida em português "Feiticeiros e Cientistas", Gradiva, 2002. Estas obras são um reflexo da intervenção de Charpak contra a charlatanice, as pseudo-ciências e a cupidez do mercado, onde de uma forma espirituosa desmonta os artifícios de espécies várias desde astrólogos, passando por economistas com poucos escrúpulos até a cientistas sociais iluminados pelo além. O sentido crítico que empregou nas suas análises da sociedade teriam sido da maior utilidade para combater o charlatanismo de mercado dos tempos que correm.Recordo as palavras duras e violentas com que classificou os responsáveis da direcção da nossa televisão pública quando aceitou subscrever uma petição contra uma rubrica diária de astrologia da RTP. Não era um homem meigo para charlatães e afins. Charpak vai deixar saudades, mas também deixou escola, uma grande escola de espírito crítico.
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Segunda-feira, Maio 17, 2010
Enrequecimento de urânio iraniano na Turquia
Este fim-de-semana, o Irão aceitou produzir urânio enriquecido fora do país, suspendendo parcialmente o seu próprio programa de enriquecimento de urânio. Esta decisão resultou de negociações decorridas em Teerão entre o presidente brasileiro Lula da Silva, o primeiro-ministro turco Erdogan e o presidente iraniano Ahmadinejad, cujo objectivo era convencer o Irão a suspender o seu programa de enriquecimento de urânio. Os receios da comunidade internacional em relação ao programa de enriquecimento de urânio iraniano devem-se à possibilidade de utilização de urânio enriquecido para a produção de armas nucleares. Caso o Irão conseguisse dominar todo o processo de produção urânio enriquecido seria extremamente difícil à AIEA (Agência Internacional de Energia Atómica) garantir que esse material seria utilizado apenas para fins civis. No passado países como a França e Israel iniciaram um programa nuclear civil com o objectivo escondido de criarem o seu próprio programa nuclear militar. Teme-se que o programa nuclear civil iraniano esconda as mesmas intenções.
O acordo agora assinado garante que uma boa parte do urânio fracamente enriquecido no Irão seja processada na Turquia até ao nível de enriquecimento de urânio necessário para a sua utilização num reactor nuclear civil. Paralelamente o Irão estabeleceu acordos de colaboração com o Brasil no domínio energético de quem irá beneficiar de uma linha de crédito de mil milhões de euros. Em resposta a este acordo, Israel declarou que o Irão estava a manipular o Brasil e a Turquia para adiar possíveis sanções da comunidade internacional.
Aquando da criação da AIEA em 1957 pretendia-se que todos os países que possuíssem armas ou materiais para fins nucleares civis ou militares os colocassem sob a égide da própria Agência de forma a diminuir o risco associado à proliferação de armas nucleares. 63 anos depois, ainda estamos muito longe desse objectivo, no entanto o caso iraniano mostra com clareza que para lidarmos com o Irão de uma forma coerente, justa e eficaz, contribuindo de facto para diminuir os riscos de proliferação, seria desejável adoptarmos os princípios fundadores da AIEA.
Segunda-feira, Abril 05, 2010
Acordo de redução de armas nucleares entre Rússia e EUA
Esta semana Barack Obama e Dmitri Medvedev chegaram a um novo acordo sobre a redução de armas nucleares. O anterior tratado START (Strategic Arms Reduction Treaty) foi assinado pelas duas partes em 1991 - na altura a Rússia ainda integrava a URSS - e expirou no passado mês de Dezembro de 2009. O novo pacto que será assinado em Praga no próximo dia 8 de Abril, prevê a redução do arsenal de ambos os países para 1550 ogivas nucleares. Actualmente, o arsenal nuclear russo estima-se em cerca de 2500 ogivas nucleares e o número de ogivas americanas estima-se ligeiramente acima das 2000 unidades. O acordo de redução abrange também os diferentes meios de transporte de cargas nucleares até aos alvos: mísseis, submarinos, bombardeiros e camiões equipados de rampas de lançamento.
A maior novidade deste acordo são o aumento do rigor no mecanismo de verificação de aplicação do tratado, que deverá ser "irreversível, verificável e transparente", e a atribuição aos sistemas de mísseis defensivos do mesmo nível de perigosidade bélico que as actuais armas ofensivas.
Os elevados custos de manutenção e os problemas de segurança que colocam as velhas instalações onde são guardados os arsenais nucleares de ambos os países têm vindo a ser fortemente criticados por diversos especialistas, como Robert McNamara, representando a razão principal que forçou o acordo, mais do que a vontade política.
Etiquetas: ADM, diplomacia, EUA, nuclear, Rússia
Quinta-feira, Junho 05, 2008
Será o urânio uma alternativa ao petróleo?
Petróleo - 10
Gás Natural -10
Urânio -10
Carvão - 140
Fonte: Jeffrey P. Freidberg, MIT
Terça-feira, Novembro 13, 2007
Build Diplomacy, Not Bombs
Muito bom o artigo dos editores da Sientific American deste mês: "Build Diplomacy, Not Bombs".É apresentado ainda um dossier muito crítico sobre a necessidade efectiva da renovação do armamento nuclear anunciado pela Administração Bush.
Numa altura em que um dos delírios belicistas do governo americano é a instalação de um sistema defensivo anti-míssil na Europa, aconselho vivamente a leitura deste número aos nossos euro-representantes.
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