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Wednesday, October 28, 2009

As Redes Sociais, Pacheco Pereira e o TDACHSR I


(uma resposta em três tomos para gente com paciência)

Quando as mulheres começaram a querer votar, chamaram-lhes histéricas. Quando os homosexuais quiseram assumir-se, catalogaram a sua orientaçao sexual como doença. Quando os jovens se manifestam, sao preguiçosos. Quando surgiu a Bimby, eu própria garanti que era o fim do mundo. Catalogar aquilo que nao conhecemos sempre foi uma defesa. Pelo menos provisoriamente, fenómenos ficam na gaveta onde os pusémos e nao nos dao cabo do juízo.

Confrontado com o crescimento e a importância crescente das redes sociais, Pacheco Pereira (no Público e depois no Abrupto) descobriu uma nova definiçao da hiper-actividade que lhe permitiu catalogar um mundo, ou no caso dele apenas um país, onde as pessoas escrevem no Twitter aquilo que comeram ao almoço e nao sao capazes de prestar atençao a uma aula, onde a televisao substituiu os jornais e só as elites descobrem, com a ajuda impagável da sua condiçao, tempo e lugar para a leitura. Leitura essa que já aqueles que morriam de medo da televisao ou do rádio devem ter temido. Também aqui na Alemanha há imensos Pachecos Pereira, especialmente preocupados com o fim do jornalismo, nao acima de tudo como actividade comercial e profissional, mas alegadamente muito preocupados com a qualidade da informaçao. Nas redes sociais como no resto, há um velho do restelo para cada inovaçao.

Eu escrevo um blog há muitos anos, embora talvez há menos tempo e com consideravelmente menor audiência do que Pacheco Pereira. Uso o Facebook e o Linkedin e faço uma razoavelmente cuidada separaçao dos conteúdos que publico para públicos diferentes. Uso pouco o Twitter, mas usei-o mais intensivamente nalgumas situaçoes que me permitiram perceber o seu potencial. Leio críticas de livros na Internet antes de os comprar, comparo voos em vários sites diferentes antes de os marcar e já quase nao cozinho nada que nao venha de um blogue, enriquecido pela experiência de quem o cozinhou e de preferência comentários adicionais, quiçá de quem fez aquele bolo num fogao a gás em vez de num fogao eléctrico. Guardo tags no Delicious em vez de no browser de casa e outra vez no browser do trabalho, porque me ajudam a organisar e guardar conteúdo que achei interessante. Quem no trabalho trabalha com áreas semelhantes às minhas pode aceder aos artigos que marquei para o efeito e posso juntar-me a colegas que procuram o mesmo tipo de informaçao, guardo livros que me interessam e artigos que quero ler depois, receitas que quero fazer. Leio notícias online, recebo todos os dias exactamente às 09:30 um alerta do telejornal alemao com as notícia do dia (e outro no momento em que acontecem coisas importantes, um serviço rapidíssimo, que bate o Twitter e tudo). Nao abro rigorosamente nenhum dos vídeos ou apresentaçoes em Power Point que me enviam por e-mail, mas sigo links no Facebook e no Twitter em cujos autores confio e que nao me obrigam a fazer qualquer download.

Em termos de gestao do conhecimento, posso comparar isto ao incremento de qualidade de vida que sofri quando fiquei sem rato várias semanas e tive de aprender todos os atalhos do teclado, quando me ofereceram uma panela de pressao ou quando me decidi finalmente a memorizar em que posiçao entrava a chave do cadeado da bicicleta: um enormíssimo incremento de eficiência e de qualidade de vida.

A diferença fundamental entre os exemplos anteriores e as redes sociais é que o conhecimento deixa de ser partilhado apenas com aqueles que me conhecem imediatamente, mas é, quando eu assim o entender (e entendo ser do interesse geral que se pode livrar dos piolhos com maionese, do interesse dos meus amigos que eu estou hoje aborrecidíssima e do interesse público chamar velho do restelo a Pacheco Pereira) partilhado com um grupo alargado de pessoas, nalguns casos controlado, noutros nem por isso.

A mesma coisa acontece nas empresas, nas instituiçoes públicas e por todo o lado: quanto mais o conhecimento é partilhado, melhor e mais conhecimento é gerado, melhor e mais conhecimento que aumenta a eficácia, a qualidade de vida e a possibilidade de participaçao de cada um de nós.

As Redes Sociais, Pacheco Pereira e o TDACHSR II


(uma resposta em três tomos para gente com paciência)

Há um outro grande argumento que me leva a saudar esta revoluçao e que deixei para o fim porque responde a vários de Pacheco Pereira: a democracia. Costumo começar com os blogues e curiosamente ando por aí Europa fora a dar o exemplo de Portugal, talvez porque o outro que conheço melhor é a Alemanha e ela tem uma blogosfera atrasadíssima: com os blogues surgiu em Portugal um enorme espaço público de discussao, um grupo enorme de analistas de grande qualidade e, acima de tudo, um espaço público quase inteiramente democrático. Se alguns chegaram à blogosfera vindos da política ou do jornalismo e estenderam o seu protagonismo a um novo medium, reconhecendo à restante comunidade legitimidade para com eles constituir uma discussao pública, muitos outros vieram de lugares escondidos onde partilhavam a sua inteligência, cultura e análise com um grupo de amigos que sabia que eles eram brilhantes. Que seja possível encontrar muitos deles hoje no parlamento ou nos jornais reflecte exactamente este facto. Este alargamento do espaço público e da discussao política, aproximando-os dos ideais de Habermas que estudávamos em Comunicaçao Política com um ar desencantado de quem podia estar antes a ler a Utopia, é, a par com a perda de um conjunto de direitos e seguranças, a maior mudança na realidade política portuguesa dos últimos anos. E continuará a sê-lo, alargando ainda mais a esfera de discussao e o número dos seus participantes e permitindo acesso directo a representantes eleitos ou jornalistas por parte do cidadao comum.

Os três argumentos mais utilizados pelos velhos do Restelo que procuram uma razao para temer esta evoluçao sao, muito sucintamente, o défice de atençao gerado pela explosao de conteúdos, a profusao de boatos e o narcisismo digital de cada um contar a sua vida na praça pública, com prejuízo evidente da sua privacidade. À partida, é possível imaginar que face a uma enorme profusao de conteúdos disponíveis actualizados ao minuto, cada um deles possa ter o exacto efeito de uma vela em Times Square. A razao pela qual isto nao acontece é que, face a um aumento de estímulos, seres humanos inteligentes desenvolvem formas de lidar com esses estímulos, formas selectivas, tal como faziam já os nossos olhos desde sempre, observando de forma diferente o escuro ou a luz, uma paisagem desértica, uma praia cheia de gente ou uma praia cheia de gente quando estamos à procura de um rapaz jeitoso ou do nosso filho de três anos.

Mais ainda, alertados que estamos pelo facto de a informaçao poder ter sido produzida por um enorme leque de fontes, aprendemos a filtrar fontes e, isto é uma parte importantíssima da revoluçao digital, a tratar informaçao à partida de forma crítica. O povo, que Pacheco Pereira tem medo que ainda esteja a olhar para Times Square como boi para arranha-céus com néons, aprende a prática primeira das ciências sociais e uma das partes primeiras da vivência democrática. Isto demora o seu tempo? Claro, mas está a acontecer. Como o provam as duas primeiras linhas do artigo de Pacheco Pereira.

Quanto à desinformaçao, nao se geram mais boatos na internet do que na vida em geral, nem se faz mais propaganda na web do que fora dela. A diferença é que a internet nunca teve um "mas deu na televisao" nem um "mas li no jornal" ou ainda um "disse ontem o ministro": sempre pusemos a internet em causa e vamos devagarinho escolhendo fontes em quem confiamos. A outra vantagem é também própria da democracia cibernética: nunca como na internet um boato pode ser clarificado da mesma forma que surgiu, em pouquíssimo tempo e em discurso directo. E quem diz um boato diz propaganda. Se se apanha mais depressa um mentiroso do que um coxo, a internet corre mais depressa e tem muitíssima mais gente a correr.

Sobre o narcisismo de cada um, sobra pouco para dizer. Por um lado, pensando no que partilha com diferentes públicos, nunca antes o cidadao comum tinha pensado tanto sobre a sua privacidade, preocupação e consequente reflexão que costumava estar reservada aos ricos e famosos. Por outro, dantes o narcisismo de achar que a nossa vida interessava a alguém estava reservada aos Pachecos Pereiras, Zolas e Marylins deste mundo. De uns líamos as opinioes, dos outros a correspondência, devidamente encadernada e com letras douradas e da última seguia-mos sobresaltados os desaires amorosos. Agora isso pode ser o casamento da Pipoca, o Twitter do Obama ou os artigos da Palmira, apenas a título de exemplo. No caso de algumas pessoas, poucas, aquilo que as interessa pode ser o que eu comi ao almoço (uma salada e os primeiros Lebkuchen do ano) ou o que vou fazer logo à noite (ir ver as séries das quartas feiras com os amigos do costume). Essas pessoas podem escolher seguir-me num dos muitos canais onde partilho as minhas opinioes e o que se passa comigo. As outras, às tantas nunca ouvirao falar de mim, como nao o ouviu nunca Pacheco Pereira. Com elevada probabilidade, nao perdem nada por isso.

As Redes Sociais, Pacheco Pereira e o TDACHSR III


(uma resposta em três tomos para gente com paciência)


Por último, resta o conjunto de outras coisas que é importante salvaguardar e que podem estar em perigo face a esta revoluçao. A atençao aos mais próximos, familiares, amigos. A atençao aos professores nas aulas. A atençao aos jornais e aos livros. A atençao a Pacheco Pereira.

Mas, a nao ser que sejamos uma criança birrenta, a atençao nao é um fim em si mesmo. Como no último post falávamos de narcisismo digital, vou ficar-me pelo meu exemplo.

Nas relaçoes afectivas, o objectivo da atençao seria a intimidade e a expressao de amor ou carinho. Criei um blogue quando vim pela primeira vez morar para a Alemanha. Quando falava com a minha mae ou o meu namorado, eles já sabiam um conjunto de informaçoes básicas, o mesmo acontecendo com alguns amigos importantes. Se falava com o meu pai ou amigos que nao liam o blogue, isso implicava po-los primeiro ao corrente da minha vida. Evidentemente, existem coisas que nunca passaram pelo blogue, ou hoje pelo Facebook e que tenho de contar pessoalmente. E ângulos diferentes. Mas a verdade é que, na distância, as pessoas que me lêm têm uma vantagem evidente que permite depois, no contacto por e-mail, telefone ou ao vivo, uma passagem muito mais directa à intimidade de quem se gosta e se vê todos os dias. Para além disso, mais canais permitem-me fazer coisas diferentes, por exemplo interagir no Facebook com uma amiga freelancer que tem durante o dia mais do que fazer do que falar comigo ao telefone por meia hora. Mais canais, tal como mais línguas, são mais formas de expressão. Isto já para nao falar dos amigos vindos das redes sociais ou das vantagens evidentes da técnica, como a facilidade de organizar jantares e festas com o Facebook ou de partilhar fotos.

O objectivo da atençao aos professores nas aulas é a aprendizagem. A grande questao aqui nao é porque é que as crianças já nao respondem aos métodos da década passada, mas quais os métodos que funcionam para estas crianças e, também, para estes professores. A informaçao resultante da pesquisa crítica pela Internet é de qualidade incomparavelmente superior àquela potenciada pela biblioteca da escola, quer queiramos quer nao, até porque a disponibilidade quase imediata da informaçao procurada já sugere que a aprendizagem nao é apenas o tomar conhecimento, mas o fazer e o pensar com esse conhecimento. E, depois da internet como antes dela, os melhores professores vao ser o que nos ensinarem a fazer isso.

O objectivo da atençao aos jornais e aos livros nao é a leitura, que aliás dificilmente está em perigo quando metade dos perigos que Pacheco Pereira menciona implicam comunicaçao escrita. A diferença entre o jornalismo e o meu blogue é um conjunto de práticas, direitos, obrigaçoes e princípios deontológicos cuja actualidade e papel para a democracia nao serao afectados, a longo prazo, pelo alargamento da esfera pública. Se forem, será sinal de que teremos encontrado uma melhor forma de obter informaçao e investigaçao com as mesmas garantias. Como o objectivo do jornalismo nao era o jornalismo, às tantas o que tivermos descoberto será uma coisa melhor. Como nao me parece que vá acontecer, acho que o jornalismo sobreviverá à revoluçao digital tal como as velas sobreviveram à luz eléctrica e a faca nao morreu com o surgimento do picador.

Já os livros, que iam morrer com o formato de bolso, a rádio, a televisao e, às tantas alguém se terá lembrado desta, com a imprensa, estarao assegurados enquanto suporte de informaçao enquanto eu me recusar a ler na Internet um tratado de stecentas páginas sobre a cultura russa, que aliás já está a caminho encomendado na Amazon, e estarao assegurados enquanto suporte de arte enquanto houver artistas que assim queiram expressar-se. Provavelmente um dia perderao actualidade, como a pintura em cavernas? Nao é impossível. Passará a ser impossível lê-los? Proibido? Duvido. Passará a haver menos Arte? Nao. Devemos entao preocupar-nos com a morte do livro? Nao sei porquê. E eu adoro livros, desde sempre.

Resta a atençao a Pacheco Pereira. Essa provavelmente irá diminuir, partilhada com mil outros fazedores de opiniao. Mas eu, por exemplo, nunca lhe tinha dedicado tanto do meu tempo. Talvez porque encontrei naquele texto uma sinédoque, um pars pro toto das ideias afonsinas sobre as redes sociais, mas ainda assim, caramba, já aqui estou há uma hora. Anima-te camarada, enquanto há vida há esperança.

(e com isto, em vez de corrigir os erros ortográficos desta série de posts, que devem ser muitos que a eles sou especialmente propensa nestas diatribes, vou ter com os tais amigos de quarta à noite)

(ainda sobre este artigo, ao qual eu cheguei tarde e, à moda antiga, via E-mail, vale a pena ler a discussao interessante que se faz aqui, uma resposta mais zangada do Arcebispo aqui e um postulado do Valupi que resume tudo a que eu andei para aqui a escrever por aqui fora numa palavra: liberdade)