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Thursday, February 18, 2010

contributos que o bom jornalismo podia dar para uma melhor política (I)


1- Falar de Política


Os jornalistas de política portugueses tendem a saber de politiquice. Duvido que se consiga um lugar numa redaçao de política deste país sem conhecer todos os primos em terceiro grau de Armando Vara, pelo menos um ou dois querubins menores por querubim sénior do PSD e muitos detalhes de quarto de arrumos sobre a vida interna do CDS ou as propriedades do PCP (o Bloco que me perdoe, a frase vai comprida). Isto nota-se quando fazem entrevistas.

Mas depois de Educaçao, Finanças ou leis comunitárias nao percebem nada. Como tendemos a entender o mundo à semelhança dos limites dos nossos horizontes, pensam que sabem de 'política'.

Em jornalismo cultural isto seria perfeitamente inaceitável. Já imaginaram uma entrevista a um escritor em que cada segunda pergunta é sobre o adversário, as coisas de que o acusam, as estrangeirinhas dentro da editora e mais um ou outro boato? (agora estao-se todos a lembrar de uns casos desses. Pronto, há alguns, mas estao longe de ser a maioria).

Isto tem a ver também com uma concepçao que acredito ser fundamentalmente errada sobre o que é que vende. Peguemos na tal entrevista do i, feita pela Ana Sá Lopes, que nao anda cá desde ontem e que até percebeu que colocar a única proposta programática do candidato no título da entrevista era uma coisa inteligente.

Paulo Rangel propoe ensino profissional desde os doze anos em nome da igualdade de oportunidades e do fim de um ensino classista. A jornalista nao pergunta "mas nao lhe parece provável que exista uma muito maior tendência das classes baixas a seguir esta via?", "nao está preocupado com a tomada de uma decisao desta importância numa idade em que a infância mal acabou e todo um conjunto de capacidades estao longe de ser desenvolvidas? Sabe que há poucos anos com uma taxa de chumbo mais elevada que o sétimo justamente pelo fato de esse ser um ponto crucial no crescimento e no desenvolvimento da puberdade?" nem "considera portanto a Educaçao acima de tudo como um instrumento profissionalizante e nao como um início de cidadania?" ou, de forma mais provocatória "o que defende é portanto que um torneiro mecânico nao precisa de Filosofia para nada?" (desculpem, deixei-me levar).


Ela faz duas perguntas: "Nao tem medo que o acusem de ser um populista de direita" e "Isso é quase uma posição socialista...". E assim garantimos que a discussao nunca aprofunda, nunca passa da rama em que um lado chama populista e o outro responde com socialista. É uma lei de Godwin à jornalismo português: à medida que a conversa nao evolui em nenhuma direcçao, a probabilidade de discutir rótulos em vez de políticas mantém-se igual a dois (é portanto sobreproporcional, para o caso de ter de abafar algum desvio de discussao inteligente - eu sei, sacrifiquei a matemática à ironia).

Outros exemplo da mesma entrevista: Ana Sá Lopes, que de resto perde metade das perguntas em coisas completamente irrelevantes (Aguiar Branco sabia, o outro descobriu como, Durao foi informado?), nao quer saber o que pensa Paulo Rangel do pacto de estabilidade ou quais as medidas que o candidato sugere. Quer saber se o aprovaria (qual? um qualquer? nao interessa, nao é?). Nao quer saber o que pensa da política do Governo, quer saber se exigia a demissao do primeiro ministro.

Resultado: Paulo Rangel pode dizer os maiores disparates, esses sim verdadeiramente populistas, na maior das ignorâncias, que nao há contra pergunta, porque para esses nao se preparou ela. Tendo em conta as reacçoes dela na maioria das perguntas que sao sobre o programa, bem podia ter feito a entrevista por e-mail.

Um exemplo completo:

Que ruptura para a justiça?

Temos um problema de legitimidade e credibilidade que só pode resolver-se em sede constitucional, alterando até o equilíbrio de poderes - com maior peso do Presidente da República, que poderia presidir aos conselhos superiores, por exemplo (!). Temos de mexer na celeridade e só vejo uma forma: entregar mais poder aos juízes nos processos. Os juízes devem ter mais poder discricionário. E teremos até de reduzir o número de recursos. Estou a falar da justiça cível, a que toca aos cidadãos comuns: dívidas, heranças, acções entre empresas, providências cautelares. (toda a gente sabe que as providências cautelares, por exemplo, sao horrores de lentas e depois há intermináveis recursos, um drama)

Sabe que há muitas pessoas divididas entre apoiá-lo a si ou Aguiar-Branco?

Absolutamente fantástico. Dirao que a senhora nao tem de perceber de tudo, e é verdade. Mas pode preparar-se, que ainda nao é crime. Pode perguntar, ler, investigar, pedir ajuda. E pode acima de tudo, ser mais exigente consigo própria, com o seu trabalho e com o seu entrevistado.

Dirao também possivelmente que eu nao sou ninguém para explicar o jornalismo a essa senhora, que justamente nao nasceu ontem. E eu direi que estao enganados, porque justamente esse é o meu papel. Esta série de posts tem como tema os políticos e os jornalistas, mas se tivesse como tema antes a cidadania, entao começava por aqui - pela exigência.