Die Nürnberger Meistersinger II
É fácil perceber porque é que os Nürnberger Meistersinger eram a ópera favorita do Hitler, mas pensá-los necessariamente a partir da mesma perspectiva seria ainda assim imbecil - genericamente, sinto-me capaz de ter reflexoes mais elaboradas do que Adolf Hitler sobre os mais variados assuntos.
Comecemos pelo nacionalismo, entao: houve uma época em que, pela Europa fora, se desenvolveu o nacionalismo. Isto, do ponto de vista português, é um bocado difícil de compreender visto que já éramos uma naçao desde o princípio dos infernos e gastávamos energias mais que suficientes na manutençao desse estado com vantagens duvidosas. Por isso, tendemos a olhar para os movimentos nacionalistas europeus como se a sua génese, aquela ideia de juntar uma cultura que ultrapassava fronteiras regionais, fosse necessariamente fascizóide e patrioteira como os nacionalismos do século vinte. E no entanto, eu que nao acredito na finalidade do Estado Naçao e acho a fronteira um conceito altamento discutível, nao posso concordar: porque sim, é verdade que estabelecer fronteiras é sempre excluir um outro, mas acredito que na sua génese a ideia mais forte no nacionalismo alemao ou italiano nao era a de estabelecer fronteiras externas, que existiam, mas a de eliminar muitas outras, que estando lá nao correspondiam a uma cultura que acreditavam ser maior do que as suas partes. Parece-me que o nacionalismo desta ópera deve ser lido nesta tradiçao e Wagner reflecte também ele neste sentido: no de uma cultura que um dia seja maior do que as naçoes e em que a origem de um produto cultural nao seja mais do que um adereço, mais um elemento, entre muitos outros, da produçao do sentido e da beleza.
Os Meistersinger sao uma das reflexoes mais interessantes sobre a relaçao desta fronteira e destas fronteiras com a cultura, as naçoes e o tempo. Há um conjunto de regras que preservam uma cultura, uma arte (a língua, o tempo, a melodia, a perspectiva). Quando alguém quebra essas regras vê inicialmente a sua obra de arte recusada pelos velhos mestres, nao só por incompreensao mas também por um certo instinto de preservaçao. Este instinto conservador é um dos instintos mais clássicos da sociedade e do ser humano e Wagner vem sugerir que ele nao é todo ele negativo, mas parte, e parte necessária, da evoluçao (agora dava-me jeito ter traduzido a entrevista ao realizador da ópera que diz umas coisas interessantes sobre isto). Este instinto de conservaçao, estando na origem de todos os movimentos reaccionários, é também a garantia de que nao tenhamos, sempre e a todos os momentos, de pensar tudo de novo. Simultaneamente, o conservadorismo está sempre à beira do abismo, da decadência e do absurdo. Na ópera de Wagner, há duas coisas que salvam a Arte dos Meistersinger, por esta ordem: o pensamento radicalmente novo de um elemento estranho àquela cultura; a suspensao, operada por alguém com visao, das regras antigas de forma a encetar um diálogo com o radicalmente moderno e, por último, a vontade (enfim, vontade no caso é discutível) deste radicalmente novo de fazer parte deste diálogo, de falar a língua do outro para que o outro nos compreenda e connosco empreenda o caminho que adivinhamos.
Apesar do tom romântico em que me perdi a meio do último parágrafo, estes desenvolvimentos interessam-me muito mais como reflexao do que como programa. Nao tenho grandes dúvidas de que este modelo de desenvolvimento está destinado a reproduzir ad eternum e tanto quanto possível as relaçoes de poder vigentes e, embora em variados momentos históricos a reduçao deste "tanto quanto possível" tenha representado grandes conquistas, culturais e políticas, há tantos avanços quanto retrocessos e muitos impulsos se perderam por completo ao ver as suas partes assimiladas. Escrevi um pouco sobre isto quando escrevi sobre a libertaçao do desejo feminino e fiz um trabalho sobre a imprensa chinesa que ia no mesmo sentido (muito sucintamente, a forma como foi, de forma planificada, alargada a liberdade de imprensa e reforçada a sua funçao de watchdog face às autoridades locais, e a forma como isto, feito de forma inteligente, reforça tanto a legitimidade como, consequentemente, a autoridade do regime). Politicamente, há muitas liçoes a retirar daqui. Por exemplo, que o progresso nao é neutro e que os pequenos avanços encerram conquistas, sim, e que é legítimo e necessário lutar por eles, nem que seja porque o presente é mais que uma promessa de futuro, mas que se for para mudar alguma coisa nao chega mudar alguma coisinha.
Mas reflectir sobre estes movimentos interessa-me também a nível pessoal, também eu e vocês somos pequeninas Nurembergas a evoluir nao numa linha constante mas de acordo com o teorema do soluço, uma coisa de que vocês já teriam ouvido falar se tivessem por hábito abrir comigo o vosso coraçao e pedir-me conselhos. Eu (vou dizer eu, dizer nós parece paternalista, sei lá eu da vossa vida, se nao me pedem conselhos por alguma razao é), na minha reflexao sobre mim e sobre a minha vida, avanço soluçando: junta daqui ar, dali tensao, dali outra coisa, glup. Às vezes olho para o glup mas estou sentada no sofá, é confortável e mudo só alguma coisinha. Às vezes aquilo glupa-me mais forte, estou perto do Marx do corredor, ou a olhar para um castanheiro, ou com mais acesso às profundezas do meu ser (que Deus sabe que sao pouco fundas, daquelas de uma pessoa ter sempre pé e ainda assim medo de avançar), e começa uma qualquer revoluçao - nem sempre imediatamente a seguir ao soluço, mas no seu enfiamento.
E assim, num único post, e dos pequeninos, partilho convosco a minha análise política do Wagner, a minha intimidade mais despida e a necessidade história da revoluçao.