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Monday, July 18, 2011

E outra vez Wagner da minha lavra, desta vez sem política

Die Nürnberger Meistersinger IV - um resumo

A expressão do próprio Wagner, "Bach aplicado" é provavelmente a descrição mais exacta da música que ouvi ontem, tocada pela minha orquestra operática preferida, a sempre discreta e quase sempre sublime orquestra da Komische Oper; O libretto é uma soberba conjugaçao do romantismo alemao e da mais fina ironia; Os actores estavam muito bem e os cantores também. Felizmente eram os mesmos o que, nao sendo inteiramente dispensável nas outras, numa ópera cómica dá sempre jeito; A Eva era muito bonita, o que também dá muito jeito quando se é heroína de uma ópera onde todos os grandes momentos estão reservados aos papéis masculinos. Também não cantava mal e aguentou-se muito bem em cima do pé torcido, pelo qual o director da ópera veio pedir desculpas antes; O Hans Sachs era fantástico e o Walther também nao estava mal, física e vocalmente, mas a grande estrela da noite foi o fabuloso Beckmesser; entre o talento narrativo dos encenadores da Komische Oper e, às tantas, o do próprio Wagner, as quatro horas e meia passaram a correr - e eu nem sou dos que têm vergonha de dizer que já passaram grandes secas na ópera.

Este era um Wagner atípico, já me disseram, mas eu fui surpreendida pela positiva e estou a um passo da indefectibilidade. Se 2010 foi o ano em que me apareceu pela primeira vez um pelo no queixo, 2011 foi o ano em que descobri Wagner. Escusado será dizer que há aqui uma evolução positiva.

O Wagner visto por uma faxiónista

Die Nürnberger Meistersinger III

Se nos contos de fadas uma rapariga sempre se podia alegrar com a Cinderela, na ópera o papel essencial dos sapatos raramente é reconhecido. Felizmente temos Wagner.
Nesta ópera, um triângulo amoroso de quatro pessoas, tudo gira à volta dos sapatos. Um dos heróis é um sapateiro - mas nao um sapateiro que poe solas, ele faz mesmo sapatos. Nao vale confundir, é como comparar um costureiro com uma costureirinha, ok? Há um senhor, que canta umas cantigas um bocado mal, que quer casar com a bela rapariga e planeia conquistá-la no dia seguinte. Ela por outro lado planeia fugir com outro. Mas tudo falha: o senhor das cantigas está sempre de volta do sapateiro, que ainda nao tem os sapatos prontos apesar de os ter prometido para o dia seguinte. Compreensível: a verdade é que o sucesso de um outfit depende muito dos sapatos e é natural que o senhor estivesse ansioso. Por outro lado a rapariga, de que nao sabemos mais nada tirando que é lindíssima, também nao quer fugir já com o rapaz: é natural, uma vez que também vai receber uns sapatos novos no dia seguinte, que diz até que sao muito luxuosos e trabalhados. Num aparte ela conta até que nao fosse ter-se apaixonado por aquele rapaz garboso (e ó, se era garboso) casava era com o sapateiro. Com isto, dois dos elementos do triângulo amoroso à espera de sapatos e o terceiro que devia estar a fazê-los ali com cantorias, acaba por se estabelecer uma grande confusao e por isso nao é de admirar que no dia seguinte os sapatos da rapariga nao estejam nem cá nem lá: aqui apertados, ali largos, uma desgraça. No meio disto tudo ficamos ainda a saber várias coisas importantes, por exemplo que o santo dos sapateiros é o S.Crispim, que já a Eva usava sapatos e que, para nao estarem sempre a fazer a mesma coisa (suponho portanto que a Eva, precavida, tenha encomendado mais de par, que com o Outono as parras tingem-se de muitas e belas cores) ao Adao fizeram antes umas botas. As primeiras botas da História da humanidade!
No fim, claro, a rapariga fica com o rapaz jeitoso e todos sao felizes e bem calçados para sempre.

O Wagner político visto por Rita Maria

Die Nürnberger Meistersinger II

É fácil perceber porque é que os Nürnberger Meistersinger eram a ópera favorita do Hitler, mas pensá-los necessariamente a partir da mesma perspectiva seria ainda assim imbecil - genericamente, sinto-me capaz de ter reflexoes mais elaboradas do que Adolf Hitler sobre os mais variados assuntos.

Comecemos pelo nacionalismo, entao: houve uma época em que, pela Europa fora, se desenvolveu o nacionalismo. Isto, do ponto de vista português, é um bocado difícil de compreender visto que já éramos uma naçao desde o princípio dos infernos e gastávamos energias mais que suficientes na manutençao desse estado com vantagens duvidosas. Por isso, tendemos a olhar para os movimentos nacionalistas europeus como se a sua génese, aquela ideia de juntar uma cultura que ultrapassava fronteiras regionais, fosse necessariamente fascizóide e patrioteira como os nacionalismos do século vinte. E no entanto, eu que nao acredito na finalidade do Estado Naçao e acho a fronteira um conceito altamento discutível, nao posso concordar: porque sim, é verdade que estabelecer fronteiras é sempre excluir um outro, mas acredito que na sua génese a ideia mais forte no nacionalismo alemao ou italiano nao era a de estabelecer fronteiras externas, que existiam, mas a de eliminar muitas outras, que estando lá nao correspondiam a uma cultura que acreditavam ser maior do que as suas partes. Parece-me que o nacionalismo desta ópera deve ser lido nesta tradiçao e Wagner reflecte também ele neste sentido: no de uma cultura que um dia seja maior do que as naçoes e em que a origem de um produto cultural nao seja mais do que um adereço, mais um elemento, entre muitos outros, da produçao do sentido e da beleza.

Os Meistersinger sao uma das reflexoes mais interessantes sobre a relaçao desta fronteira e destas fronteiras com a cultura, as naçoes e o tempo. Há um conjunto de regras que preservam uma cultura, uma arte (a língua, o tempo, a melodia, a perspectiva). Quando alguém quebra essas regras vê inicialmente a sua obra de arte recusada pelos velhos mestres, nao só por incompreensao mas também por um certo instinto de preservaçao. Este instinto conservador é um dos instintos mais clássicos da sociedade e do ser humano e Wagner vem sugerir que ele nao é todo ele negativo, mas parte, e parte necessária, da evoluçao (agora dava-me jeito ter traduzido a entrevista ao realizador da ópera que diz umas coisas interessantes sobre isto). Este instinto de conservaçao, estando na origem de todos os movimentos reaccionários, é também a garantia de que nao tenhamos, sempre e a todos os momentos, de pensar tudo de novo. Simultaneamente, o conservadorismo está sempre à beira do abismo, da decadência e do absurdo. Na ópera de Wagner, há duas coisas que salvam a Arte dos Meistersinger, por esta ordem: o pensamento radicalmente novo de um elemento estranho àquela cultura; a suspensao, operada por alguém com visao, das regras antigas de forma a encetar um diálogo com o radicalmente moderno e, por último, a vontade (enfim, vontade no caso é discutível) deste radicalmente novo de fazer parte deste diálogo, de falar a língua do outro para que o outro nos compreenda e connosco empreenda o caminho que adivinhamos.

Apesar do tom romântico em que me perdi a meio do último parágrafo, estes desenvolvimentos interessam-me muito mais como reflexao do que como programa. Nao tenho grandes dúvidas de que este modelo de desenvolvimento está destinado a reproduzir ad eternum e tanto quanto possível as relaçoes de poder vigentes e, embora em variados momentos históricos a reduçao deste "tanto quanto possível" tenha representado grandes conquistas, culturais e políticas, há tantos avanços quanto retrocessos e muitos impulsos se perderam por completo ao ver as suas partes assimiladas. Escrevi um pouco sobre isto quando escrevi sobre a libertaçao do desejo feminino e fiz um trabalho sobre a imprensa chinesa que ia no mesmo sentido (muito sucintamente, a forma como foi, de forma planificada, alargada a liberdade de imprensa e reforçada a sua funçao de watchdog face às autoridades locais, e a forma como isto, feito de forma inteligente, reforça tanto a legitimidade como, consequentemente, a autoridade do regime). Politicamente, há muitas liçoes a retirar daqui. Por exemplo, que o progresso nao é neutro e que os pequenos avanços encerram conquistas, sim, e que é legítimo e necessário lutar por eles, nem que seja porque o presente é mais que uma promessa de futuro, mas que se for para mudar alguma coisa nao chega mudar alguma coisinha.

Mas reflectir sobre estes movimentos interessa-me também a nível pessoal, também eu e vocês somos pequeninas Nurembergas a evoluir nao numa linha constante mas de acordo com o teorema do soluço, uma coisa de que vocês já teriam ouvido falar se tivessem por hábito abrir comigo o vosso coraçao e pedir-me conselhos. Eu (vou dizer eu, dizer nós parece paternalista, sei lá eu da vossa vida, se nao me pedem conselhos por alguma razao é), na minha reflexao sobre mim e sobre a minha vida, avanço soluçando: junta daqui ar, dali tensao, dali outra coisa, glup. Às vezes olho para o glup mas estou sentada no sofá, é confortável e mudo só alguma coisinha. Às vezes aquilo glupa-me mais forte, estou perto do Marx do corredor, ou a olhar para um castanheiro, ou com mais acesso às profundezas do meu ser (que Deus sabe que sao pouco fundas, daquelas de uma pessoa ter sempre pé e ainda assim medo de avançar), e começa uma qualquer revoluçao - nem sempre imediatamente a seguir ao soluço, mas no seu enfiamento.

E assim, num único post, e dos pequeninos, partilho convosco a minha análise política do Wagner, a minha intimidade mais despida e a necessidade história da revoluçao.

O Wagner visto pelo Hitler

Die Nürnberger Meistersinger I

Ah, grande ópera, grande momento de exaltaçao da grande naçao germânica. Vou-vos contar a história: numa cidade da Baviera, essa sempre tao fiel província, um conjunto de sapateiros defende, convencidos de estar assim a defender a verdadeira arte alema, um conjunto de regras obsoletas e que ainda por cima parece que tinham origem naqueles maganos, os judeus. Mas eis que chega do exterior um homem novo que, movido pela paixao, é portador de uma nova chama que, parecendo ir contra as regras defendidas pelos mestres de vistas curtas, é na verdade o único caminho para a salvaçao da alma germânica. Este aparente impasse é resolvido por um homem do povo que encarna o verdadeiro ariano: ancorado na pátria e na sabedoria popular da grande naçao alema, ele é ainda assim dotado da visao de que só os melhores espécimens do homem ariano sao capazes e compreende a força da ideia nova, que prontamente demonstra aos seus camaradas. A desordem resultante nao deve no entanto ser permitida por mais tempo do que o necessário, pois nao há visionário de bigode que nao entenda que só na ordem, na tradiçao e na disciplina podem ser preservadas e desenvolvidas as forças que levarao esta grande naçao ao seu merecido lugar histórico. Claramente a melhor ópera jamais posta em cena. Este Wagner, se ainda estivesse vivo, era de lhe dar uma medalhita.

Um último pequeno apontamenento: no seu êxtase de reconhecimento e amor pelo líder visionário, Hans Sachs, o encantador povo grita "Heil Sachs". Se calhar esta expressao, Heil e depois o apelido de um gajo, era de aproveitar.