Giamatti
O Giamatti de Sideways (2004) seria insuperável não fosse o caso termos que considerar o Giamatti de Barney's Version (A Minha Versão do Amor). Poucas vezes a graça imerecida terá sido tão bem retratada como no abismo que entrevemos entre o terno 'accent' de Miriam (Rosamund Pike) e a sinceridade auto-destrutiva de Barney.
Mania
Temos que prescindir de uma concepção sobranceira do querer, nós não nos sentimos atraídos por alguém, somos atraídos por alguém, somos impelidos para alguém.
Bow, 2005
Bow (2005), Kim Ki-Duk
Mais do que em conchas, vísceras ou miudezas que tal, o futuro de que somos herdeiros pôde ser lido nas contingência das armas.
Mais do que em conchas, vísceras ou miudezas que tal, o futuro de que somos herdeiros pôde ser lido nas contingência das armas.
De um fim
O Man Booker Prize para Julian Barnes não será demasiado lisonjeiro para os restantes elementos da shortlist. "O Sentido do Fim" é um romance muito bem curado, mas por muito que estejamos dispostos a elogiar a fina contenção de Barnes, qualquer superlativo que lhe dedicássemos seria um superlativo a mais.
Colossal Youth
Sendo circunspecto, como que justificando um atraso de 5 anos, diria que 'Juventude em Marcha' (2006), de Pedro Costa, é um filme magnífico (o Luís Miguel Oliveira chamou-lhe obra prima, está no seu direito, e eu no direito de concordar).
Hallam Foe (2007)
Internal Affairs
Minister of Unfinished Affairs. O único cargo político para o qual as teses nos preparam.
Zenit
O empate com Zenit deixou uma tristeza que há muito o futebol não me trazia. Pouco capaz de expiar a desolação, por uma vez, restou-me maldizer um apego excessivo às lides da bola. Na manhã seguinte, ao meu lado, no Intercidades, sentou-se uma rapariga com um cachecol do Porto. Por estas linhas imito-lhe o gesto. Nenhuma outra imodéstia nos seguirá pelos anos, dediquemo-nos, sem pudores, à ostentação das paixões vencidas.
Não
A capacidade de dizer "não" é um dos esteios fundamentais da liberdade de escolha. No entanto, quando pensadas as ameaças ao bom uso do "não", logo foge a ideia para regimes de violência e coerção, logo anuímos solidários com os totalitarismos, tirando o corpinho da equação.
Poucos percebem o quanto são reféns de um ego que sinaliza a lisonja antes de se dedicar à escolha múltipla que dela decorre. A possibilidade de dizer "não" confere um poder que tende a ser activado com parcimónia: pelo gosto em agradar quem nos lembra; pela consciência de que a activação do poder do "não" o destrói a prazo - a sua reiteração tenderá a aniquilar a motivação dos proponentes.
Valham-nos os vícios que, impondo faltas de tempo simultaneamente insuperáveis e injustificadas, se interpõem como impossibilidades de "sim". O real da vaidade é a impotência. A impotência é uma escolha quando alicerçada em vício.
Poucos percebem o quanto são reféns de um ego que sinaliza a lisonja antes de se dedicar à escolha múltipla que dela decorre. A possibilidade de dizer "não" confere um poder que tende a ser activado com parcimónia: pelo gosto em agradar quem nos lembra; pela consciência de que a activação do poder do "não" o destrói a prazo - a sua reiteração tenderá a aniquilar a motivação dos proponentes.
Valham-nos os vícios que, impondo faltas de tempo simultaneamente insuperáveis e injustificadas, se interpõem como impossibilidades de "sim". O real da vaidade é a impotência. A impotência é uma escolha quando alicerçada em vício.
Um Método Perigoso
O low profile de Cronemberg convence. O high profile de keira knightley permite perceber o seu imenso crescimento no labor de representação; no entanto keira é um daqueles casos: não consigo acreditar nas personagens que encarna, estou sempre a ver a actriz em esforço (aqui e ali, vagamente maravilhado).
Vítor Pereira
Passa da meia noite e assim se inicia o dia mais importante da vida de Vítor Pereira. Apoio-o. Não por inteira convicção, mas pelo desejo convicto de dizer que tentei tudo. O medo do remorso no adeus faz de mim um cobarde narcisista, um conservador-romântico temeroso dos ocasos. Duvido do treinador, gosto do homem, custa-me a magnitude da desgraça que há muito lhe faz uma espera. Não contem comigo para ter razão antes do tempo. Fico na pista até à derradeira valsa.
Freud, versão softcore.
"Tudo o que em mim é autêntico teve origem na timidez da minha infância." Enrique Vila-Matas
A democracia da danação: pensar pequeno, errar em grande
"Aquele que pensa em grande tem de errar em grande», disse Martin Heidegger, o teólogo-parodista dos nossos dias (empregando-se o termo «parodista» no seu sentido mais sério). Também aqueles que pensam «em ponto pequeno» podem errar em grande. Esta é a democracia da graça celeste, ou da danação."
Steiner, George (2009), Errata: revisões de uma vida. Lisboa: Relógio D'Água.
Levítico 19:18
"amarás o teu próximo como a ti mesmo." A auto-depreciação tornou-se um problema social a partir de Levítico 19:18
Versões de um mesmo mito
Suddenly, Last Summer
Disgrace
“It gets harder all the time, Bev Shaw once said. Harder, yet easier. One gets used to things getting harder; one ceases to be surprised that what used to be hard as hard can be grows harder yet.”
Bissau
Diz-me a minha mãe que lá na terra se mataram dois porcos.
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
J.L. Borges
Tenho que deixar cair o título "Os Justos" para abraçar o poema. A temperança nos pequenos gestos não define os justos, antes nomeia quem respira acima dos escombros, antes celebra a ternura não alienada à raiva revolucionária (nem ao prazer burguês edificado sob escombros de “pessoas que se ignoram”).
Le Notti Bianche
Dança uma música que não conhece mesmo intuindo fazer corte ao ridículo, óbvio sintoma do amor-paixão. Marcello Mastroianni em Le Notti Bianche (1957), subtil incorporação do fracasso mal arquivado — o nosso — é o supremo intérprete do júbilo em tentar.
Shame on you, Mr. Obama

Um ano após ter defendido o reconhecimento do Estado Palestiniano pelas Nações Unidas, Obama dirigiu-se à Assembleia-Geral para dizer exactamente o contrário. Mais, numa conferência de imprensa em que no fundo a bandeira americana tocava comoventemente a de Israel, Obama jurou fidelidade a Netanyahu - como que oferecendo o veto americano pelo voto do judeu americano. Assim, tragicamente, a importância dos votos e do dinheiro judaico na política americana voltou a falar mais alto.*
Traduzo um exerto da crónica de Robert Fisk sobre o discurso de Obama:
"Um marciano que ouvisse este discurso diria, como sugeriu a Sra. Ashrawi, que os palestinianos ocupam Israel e não o contrário. Nenhuma menção à ocupação israelita, nenhuma menção aos refugiados, ao direito de retorno ou ao roubo da terra palestiniana pelo governo israelita contra a lei internacional. Mas ouviram-se imensos lamentos ao povo sitiado de Israel, aos rockets lançados às suas casas, às bombas suicidas - pecados palestinianos, certamente, mas nenhuma referência à chacina de Gaza, à massiva mortandade de palestinianos - e mesmo à perseguição histórica dos judeus e ao Holocausto. Essa perseguição é um facto da história. Tal como o horror do Holocausto.* Antes que venham com a ladainha do costume, reafirmo: igualmente servil para com o inimputável Estado de Isreal, em tudo o mais Obama continua a ser infinitamente melhor do que os republicanos que se lhe opõem.
Mas OS PALESTINIANOS NÃO COMETERAM ESSES ACTOS. Foram, os europeus - cuja ajuda Obama procura na recusa da criação do Estado palestiniano - que cometeram esse crime dos crimes." (expressão em caixa alta no original)
A quem possa interessar
Trailer do documentário "A hospitalidade ao Fantasma: Memórias dos Deficientes das Forças Armadas" (35 m.). O documentário foi produzido no âmbito do Projecto de Investigação "Vidas marcadas pela História: A Guerra Colonial Portuguesa e os Deficientes das Forças Armadas"
Avulsos
"Hasegawa - who was born in Japan and has taught in the United States since 1990, and who reads English, Japanese, and Russian - rejects both the traditional and revisionist positions. According to his close examination of the evidence, Japan was not poised to surrender before Hiroshima, as the revisionists argued, nor was it ready to give in immediately after the atomic bomb, as traditionalists have always seen it. Instead, it took the Soviet declaration of war on Japan, several days after Hiroshima, to bring the capitulation." Gareth Cook, BostonGlobe











