Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011
As galinhas de Tchekov

Alexander Tchekov dedicou toda a vida à titânica e mal sucedida tentativa de ensinar as suas galinhas a entrarem sempre pela mesma porta e saírem por outra. Esta grotesca tentativa do irmão mais velho de Anton, o genial escritor russo, faz-me lembrar os não menos vãos esforços de tentarem fazer o país andar para a frente apostando todos os recursos em Lisboa.

A Grécia, o mais acabado dos exemplos da falência da macrocefalia, iniciou, a instâncias da troika, um processo de desconcentração do poder e descentralização dos recursos, deixando-nos sozinhos, como o único país não regionalizado da zona euro.

Estarmos orgulhosamente sós não preocupa os filhos das fábricas partidárias que nos desgovernam, pois infelizmente eles partilham o egocentrismo daqueles lisboetas que estão convencidos que não têm sotaque (pois tomam o deles como cânone) e a indigência de raciocínio do automobilista que segue na auto-estrada a tentar evitar os carros que lhe aparecem pela frente e que ao ouvir na rádio que há um carro a circular em contra-mão na A5 comenta para os seus botões: "Um?!? São às centenas!".

O nó do problema reside na incapacidade demonstrada pelos nossos governantes - de Soares a Passos, passando por Cavaco, Guterres, Durão, Lopes e Sócrates - em sequer verem que o pecado original está na estratégia de concentrar todos os recursos na capital, na esperança que essa locomotiva reboque o resto do país, o que nunca acontecerá porque Lisboa já há muito que está desengatada das outras carruagens do comboio português.

Quando se está no Terreiro do Paço perde-se a perspectiva do resto do país, que passa ao estatuto secundário de paisagem (ou província). O resultado é o acentuar das desigualdades internas.

Quem olha para o país de fora de Lisboa já percebeu que a chave para o desenvolvimento consiste em repensar tudo e apostar numa cobertura equilibrada do território nacional.

Por que é que Espanha tem dez cidades com mais de meio milhão de habitantes e Portugal só tem dez cidades com mais de 40 mil almas? A diferença de população entre as duas nações não é a resposta, que encontramo-la se olharmos para 1992, o ano em que Madrid foi Capital Europeia da Cultura, Barcelona teve os Jogos Olímpicos e Sevilha recebeu a Expo Universal - e nos lembrarmos que o magnífico Guggenheim, riscado por Gehry, foi para Bilbau.

Chegamos a esta crise devido a uma administração desonesta da riqueza - o alerta não é meu, mas antes do padre Manuel Morujão, o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa.

A macrocefalia de Lisboa é um problema estrutural do país - o diagnóstico não é meu, mas sim de D. Manuel Clemente, que é bispo do Porto mas cresceu e fez-se homem em Lisboa.

O que nos vale a nós, portugueses da província e figurantes da paisagem, é que a questão política deixou de ser central, pois a incompetência dos políticos que só têm ideias com rugas gerou a vitória da economia - e o primado do económico e social.

Quando pioram, as coisas ficam mais claras.*

Jorge Fiel

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*Este Fin foi pedido emprestado a Godard



Publicado por Jorge Fiel às 11:13
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011
Um Richelieu à moda do Porto

Por trás de um grande homem como Rui Rio não há apenas uma grande mulher (a minha ex-colega e amiga Lídia) mas também outro grande homem - no caso Manuel Teixeira, o todo-poderoso chefe de gabinete do presidente da Câmara do Porto.

A todos quantos se dão à maçada de ler estas palavras, peço já desculpa por abusar da vossa paciência e deste espaço para falar deste meu ex-colega e amigo, mas parece-me que ele merece ser tirado da sombra discreta a que se remeteu e beneficiar um pouco das luzes da ribalta, pelo menos uma vez sem exemplo.

Natural de Tarouquela, Cinfães, estudou no seminário em Évora, onde debutou no jornalismo como correspondente do saudoso "O Comércio do Porto", diário em que viria a fazer carreira, chegando a director - e onde tive o prazer de o conhecer.

"Três tiros e uma mulher a menos" - que ocupa por direito um lugar no top ten dos meus títulos favoritos de primeira página - saiu da cabeça imaginativa e sintética do Manel Teixeira, um dos mais eficientes chefes de Redacção com quem trabalhei, amigo e apoiante da primeira hora de Cavaco, senhor de boas ligações aos sociais-democratas de Fafe (onde pontificava a família Marques Mendes) e apaixonado pelo Direito e o Jornalismo.

A vida dá as suas voltas, e após ter desempenhado um papel activo na privatização de "O Comércio do Porto", acabou a sua passagem pelo jornalismo na Radiopress, sem nunca concretizar o sonho de ultrapassar a circulação do "Jornal de Notícias".

Estava na TSF como administrador quando Rui o foi buscar para o seu lado, formando uma dupla que entrará seguramente para a história da cidade do Porto, não interessa agora para o caso se pelos bons ou maus motivos.

Antes de começar a alinhar estas frases, pensei em duplas famosas, que pudesse dar como exemplo para a dupla Rio/Teixeira. Afastei a hipótese Sherlock/ Watson, pois nenhum deles é tão brilhante como o detective ou tão leve de ideias como o médico.

Descartei as duplas Astérix e Obélix (nenhum deles teve a sorte de cair no caldeirão da poção mágica quando era bebé) e D. Quixote/Sancho Pança - apesar de reconhecer que mais frequentemente do que seria desejável o presidente da Câmara e o seu chefe de gabinete ficam com o pensamento enevoado e envolvem-se em investidas estéreis contra moinhos de vento imaginários.

Concluí, por fim, que a dupla mais parecida é a outrora formada pelo rei Luís XIII e o cardeal Richelieu - com Teixeira no papel do primeiro-ministro que foi o arquitecto do absolutismo francês e combateu sem tréguas os protestantes.

O Direito e o Jornalismo foram sempre as grandes paixões do Richelieu à moda do Porto, pelo que não me espanta que ele abuse do recurso a processos e se exceda a escrever para os jornais - nomeadamente para o JN (cisma que deve vir dos seus tempos de director d'"O Comércio do Porto").

Como tenho pena que o talento de Teixeira para a escrita esteja a ser desperdiçado em peças secas, vou sugerir à Direcção do nosso jornal que o convide para escrever no JN. Até já arranjei um nome para a coluna: Direito de Resposta. Seria uma bela prenda de Natal!

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 10:05
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Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011
De Pai Natal para Pai Natal

A nossa vida divide-se em três fases. Primeiro, acreditamos na existência do Pai Natal. Depois, já percebemos que não há lá em casa uma chaminé por onde possa descer um velho pançudo e de barbas, vestido de vermelho e com um saco às costas - mas fazemos de conta que acreditamos nessa patranha porque beneficiamos dela. Por fim, passamos a ser contribuintes líquidos para a manutenção do esquema. Estou nesta última fase há uma data de anos. Ou seja, sou o Pai Natal e sei que a esmagadora maioria das preclaras e preclaros leitores partilham essa minha condição.

Eu adoro dar. Não sou um Pai Natal forreta, ao contrário da Maria Cavaco e do Pedro Passos Coelho, que no ano passado, ainda a crise ia no adro e o pessoal tinha agasalhado o 13.º por inteiro, adoptaram medidas excessivas de contenção.

No Possolo, no Natal de 2010, os adultos (PR incluído) ficaram a seco. Só as criancinhas tiveram direito a prenda. Este miserabilismo natalício do casal Maria e Aníbal contaminou a Laura e o Pedro - após a consoada, em Massamá, só a mais nova das quatro filhas de Passos Coelho teve um presente para desembrulhar.

Vá lá que neste ano, Belém e S. Bento optaram por guardar de Conrado o prudente silêncio neste particular das prendas de Natal. Fizeram bem, porque mesmo sem sinais exagerados de pânico por parte de quem manda, estão a fechar em média cem lojas por dia, de acordo com a Confederação de Comércio e Serviços de Portugal.

Como o período do Natal representa metade da facturação anual para a maioria das lojas, não podemos ficar indiferentes ao impotente desespero de quem naufraga, fechando as portas do seu estabelecimento, com a praia à vista.

Nas voltas que dei pela Baixa, para investir a metade que sobrou do 13.º em prendas (no seu essencial livros, música, DVD e vinhos) impressionou-me o esforço de muitas lojas para se aguentarem, antecipando os saldos/reduções que tradicionalmente só faziam depois do Natal.

Vítor Bento avisou-nos de que um dos riscos da actual crise é as pessoas deixarem de gastar. "Isso seria muito mau", adverte o sério e reputado economista que em boa hora Cavaco escolheu para substituir Dias Loureiro no Conselho de Estado. Vai daí, apelo a todos os colegas pais e mães natais para que, na medida das suas possibilidades, continuem a demonstrar o afecto pelas pessoas que gostam, dando-lhes presentes.

Não desperdicem, nem exagerem. Mas, por favor, não se intimidem. Não tenham medo de consumir - com moderação. Esta vida são dois dias e o primeiro está a acabar-se. E se não falarmos no entretanto, desde já vos desejo um óptimo Natal, deixando-vos, a título de prenda, um pedacinho do nosso Eça:

"As desgraças públicas nunca impedem que os cidadãos jantem com apetite: e misérias da pátria, enquanto não são tangíveis e não se apresentam sob a forma flamejante de obuses rebentando numa cidade sitiada, não tirarão jamais o sono ao patriota".

 Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 09:56
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Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011
Nós só queremos Lisboa a arder

Há alguns anos (não muitos), com os ânimos incendiados pela vã tentativa do estado-maior benfiquista de quebrar a hegemonia portista com manobras na secretaria, esteve em voga a palavra de ordem "Nós só queremos Lisboa a arder".

A provocação não caiu no goto da generalidade dos residentes na capital, pelo que amiúde alguns lisboetas, meus amigos ou conhecidos, perguntavam-me se também eu achava bem a ideia de pegar fogo à sua cidade.

"Não. Lisboa é uma bela cidade. O que defendo é o uso de uma bomba de neutrões, de modo a preservar o magnífico património edificado". Foi esta a resposta que formatei para dar nessas ocasiões. Quando a pergunta não é séria, sinto-me desobrigado de responder a sério.

Neste novo século, trabalhei oito anos em Lisboa, uma das mais bonitas cidades do Mundo, pela qual é muito fácil uma pessoa ter uma paixão fugaz e à primeira vista.

Estou imensamente feliz por o JN me ter proporcionado voltar a viver na cidade que amo e onde nasci, mas não posso negar que, de vez em quando, ainda sinto uma pontinha de saudade de alguns pequenos prazeres que Lisboa pode oferecer, como um fim de tarde no miradouro da Graça, petiscar ao almoço uma sanduíche de rosbife e um copo de branco no terraço do Regency Chiado, ou tomar o café matinal na esplanada da Ponta do Sal, em S. Pedro do Estoril.

Quando alguém é incapaz de diferenciar se estamos a falar em sentido estrito ou figurado, geram-se situações embaraçosas e terríveis mal-entendidos. Ninguém quer mesmo Lisboa a arder. O que queremos a arder, num fogo purificador, é a governação centralista que empobrece o Norte e desgraça o país.

O modelo centralista de pôr todas as fichas em Lisboa, partilhado por todos os partidos do arco da governação, é o responsável por 2000-2010 ter sido a pior década de Portugal desde 1910-20 - anos terríveis em que vivemos uma guerra mundial, golpes de Estado e a epidemia da gripe espanhola.

Na primeira década deste século, o crescimento médio anual da nossa economia foi de 0,47%, apesar do afluxo diário médio de seis milhões de euros de Bruxelas, que valiam todos os anos 2% do PIB.

Já ultrapassado pelo Alentejo e Açores, o Norte é a região mais pobre do país, apesar de ser a que mais contribui para a riqueza nacional, com 28,3% do PIB, logo a seguir a Lisboa e Vale do Tejo, com uns 36% enganadores, já que aí está contabilizada a produção feita noutras partes do país pelas grandes companhias nacionais e multinacionais com sede na capital.

Quando leio que ao abrigo do famoso efeito de dispersão - uma vigarice inventada para desviar para Lisboa fundos comunitários - dinheiro destinado às regiões mais pobres está a ser usado pelos serviços gerais e de documentação da Universidade de Lisboa, dá-me vontade de ir para a rua gritar "Nós só queremos Lisboa a arder".

Não. Nós não queremos mesmo Lisboa a ser consumida pelas labaredas. O que queremos é dizer que estamos fartos de ser chulados e já é tempo de impedir que Portugal continue a arder em lume brando, por culpa de governantes incompetentes ou corruptos.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 12:21
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Domingo, 11 de Dezembro de 2011
O Rui usa cinto e suspensórios

 O aviso de que um homem tem sempre dois motivos para aquilo que faz - um bom motivo e o verdadeiro motivo - é um dos mais importantes legados à Humanidade do falecido John Pierpoint Morgan.

Estribados neste pedacinho de ouro do fundador do célebre JP Morgan,, jornalistas e comentadores desconfiam que os políticos raramente dizem o que pensam e pensam no que dizem. Marcelo protagonizou um clássico desta trampolinice quando disse que nem que Cristo descesse à Terra seria candidato à liderança do PSD, na véspera do congresso do Europarque, em 99, que o elegeu presidente.

Embora saiba que a capacidade em aldrabar o próximo, com competência, seja um dos requisitos fundamentais para quem quer progredir na coisa pública, acredito na existência de políticos honestos e bem intencionados, - apesar de não me achar um crédulo (não acredito em OVNIs).

Peguemos, por exemplo, no caso de Rui Rio, que tem preconizado com insistência a eleição directa do presidente da Área Metropolitana do Porto e o reforço dos poderes da Junta.

O bom motivo para a defesa deste sucedâneo da Regionalização seria, de acordo com Rio, beneficiar as duas grandes concentrações urbanas do país com um governo metropolitano, mais ágil e eficaz que o central.

Mas, de acordo com cínicos analistas, o verdadeiro motivo de Rio é assegurar o seu futuro imediato (está proibido por lei de se recandidatar à Câmara do Porto) ao mesmo tempo que tenta impedir o seu arqui-rival Menezes de assumir as rédeas de uma região que tem sofrido por estar órfã de liderança.

Sei que Rio não gosta de Menezes. Mas custa-me a crer que tenha apresentado aquela proposta com o duplo e maquiavélico objectivo de arranjar um emprego para ele e tramar o seu inimigo figadal.

Sei que Rio inscreveu no Orçamento da Câmara para 2012 a dotação para pagamento dos subsídios de férias e 13º mês. Custa-me crer que a explicação que ele deu (acautelar uma eventual declaração da inconstitucionalidade do Orçamento que prevê a suspensão ou redução do pagamento desses subsídios) seja tão só o bom motivo - e que o verdadeiro motivo seja demarcar-se publicamente e uma vez mais de Passos Coelho.

Sei que devemos estar sempre de pé atrás com os políticos, mas temo que uma vez mais a desconfiança seja exagerada. O Rui é mesmo assim. Cauteloso e prudente, do tipo de usar cinto e suspensórios ao mesmo tempo.

É por isso que nunca arriscou candidatar-se à liderança do partido. É por isso mesmo que seria um óptimo reforço para a equipa de Vítor Gaspar que tem em mãos a hercúlea tarefa de baixar até 0,5% o défice orçamental.

Seria uma transferência magnífica, em que todos ganhavam. Ganhava o Porto e ganhava o país. E nem oneraria muito os cofres do Estado, porque o Rui ainda não se desfez da casa que tem em Lisboa.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 12:17
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Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011
A Cátia não liga aos sindicatos

Algures no Verão do ano passado, visitei um call center, na Infante Santo (Lisboa), e fiquei espantado. Num vasto open space, 200 pessoas falavam ao telefone, ao mesmo tempo e em 19 línguas diferentes, resolvendo problemas tão diversos como a do finlandês que não sabia mudar o pneu do seu Peugeot ou de um português que queria obter informações suplementares sobre um PPR.

Cheirava a trabalho naquela sala espaçosa, que tresandava à generosa ideia europeia (que ultimamente tem gaguejado), pois o idioma em vigor em cada grupo de estações de trabalho era assinalado por uma bandeira.

O que mais me impressionou foi saber que era inferior a mil euros o salário médio daquelas pessoas, fluentes em pelo menos uma língua estrangeira e altamente treinadas - os que atendem as chamadas para a linha verde de um banco são frequentemente chamados para dar formação ao pessoal dos balcões.

Uma questão ficou a bailar na minha cabeça enquanto esperava pelo eléctrico na 24 de Julho. Por que raio é que os largos milhares de operadores dos call center, que ganham pouco e trabalham muito em condições bem longe das ideais, ainda não constituíram um sindicato?

Não precisei de chegar ao Cais do Sodré para resolver esta intriga e achar a resposta certa a esta questão pertinente. Os operadores de call center não fundaram um sindicato pela mesma razão que nenhum esquimó compra um frigorífico ou um guineense pede ao Pai Natal um aquecedor - porque não precisam de um sindicato para nada.

A ideia de criar um sindicato também não atravessou a cabeça de gente com novas profissões, como webdesigners, djs, trabalhadores de help desk, personal trainers ou mesmo celebridades, sejam elas mais ou menos duráveis, como a Cinha ou a Cláudia Jacques, ou instantâneas e voláteis, como o Zé Maria, do primeiro Big Brother, a Cátia, da Casa dos Segredos, ou o falso Estripador de Lisboa, da dupla Felícia/Sol.

E se nos dermos ao trabalho de pesquisar nas estatísticas, confirmamos que este alheamento também se apoderou das profissões tradicionais. Um estudo do ISCTE garante que 2/3 dos trabalhadores portugueses não estão sindicalizados - e que quatro em cada cinco nunca fizeram greve.

A situação não está a melhorar. Na última década, a taxa de novos sindicalizados na CGTP caiu mais de 40%. E, de acordo com a OCDE, a percentagem de sindicalizados sobre o total da nossa mão-de-obra recua todos os anos 2,3%.

O problema não é dos trabalhadores. O mundo virou do avesso desde que os sindicatos foram inventados para proteger a classe operária dos excessos da exploração patronal, filha da Revolução Industrial.

O mundo mudou, mas os sindicatos não. Continuam a usar a mesma linguagem, discurso, atitude e formas de luta que eram boas no séc. XIX quando era mal-educado andar na rua com a cabeça descoberta (e ainda não tinham sido inventados o automóvel, a televisão e as férias pagas), mas que no séc. XXI apenas conseguem mobilizar os funcionários públicos.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 12:12
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011
Tristezas não pagam dívidas

Os meus amigos já o sabem há muito tempo, mas agora tenho de o dizer em voz alta para a mobília ouvir: não vou à bola com o fado e está a fazer-me um nervoso miudinho a histeria, disfarçada de consenso nacional, gerada pela gentileza da UNESCO em incluir a canção de Lisboa na lista de 90 obras-primas consideradas património oral e imaterial da Humanidade, em que figuram as festas funerárias dos indígenas mexicanos, o teatro de marionetas siciliano e os tambores da aflição, uma dança de cura popular entre os tumbuka, uma tribo do Norte do Malawi.

O fado, que bebe a alma e mergulha as raízes na indolência dos cânticos mouros, veste-se de negro para cantar o luto, o sofrimento, a dor, a desgraça, o amor perdido, o ciúme doentio, a miséria e a saudade, ou seja, é uma canção em permanente marcha atrás, uma antologia de valores que detesto e de sentimentos perniciosos que abomino.

Ao apregoar a submissão aos ditames do destino, o fado foi, de braço dado com Fátima e o futebol, uma das fundações do aparelho ideológico do Estado Novo, que reabilitou e integrou um género musical que medrou nas casas de prostituição dos bairros pobres da Mouraria e Alfama.

No tempo em que o vinho dava de comer a um milhão de portugueses, o fado era a peça fundamental da doutrina da resignação de um povo anestesiado pelo religião e que, na sua doce e alimentada ignorância, rejubilava com as vitórias internacionais da nossa selecção no hóquei em patins, modalidade a que mais ninguém ligava pevas.

Sei que o fado se renovou, com a transfusão de vozes novas como as de Camané, Aldina Duarte, Ana Moura, Mariza ou, mais recentemente, de Carminho. Sei que mesmo nos tempos da Outra Senhora o choro da guitarra acompanhou belíssimos poemas do Ary dos Santos, do David Mourão Ferreira ou do O'Neil. Não me atrevo a beliscar sequer o tremendo talento de Amália. E se me oferecerem o Fado, do Malhoa, vou logo a correr pendurá-lo na parede da sala. Mas isso não chega para me fazer gostar do fado, uma canção triste que não rima comigo.

Não gosto do fado, como também não gosto do Benfica - clube cujo fado, desde a maldição de Bella Gutman, é não ter imagens a cores dos seus êxitos europeus para mostrar aos adeptos que não os puderam viver por terem 50 anos ou menos. Mas isso não me impede de reconhecer o talento de Eusébio, elogiar a liderança de Borges Coutinho ou admirar a resistência dos seus adeptos às adversidades.

Tenho um enorme pó à fatal e indolente resignação face ao destino que é o programa de vida do fado. Em vez de nos agarrarmos ao passado e de fazermos uma festa com a bondade da UNESCO em acolher o fado numa lista étnica (uma distinção de importância equivalente à vitória do Benfica na Taça Latina), devemos olhar para o futuro. O povo está coberto de razão quando diz que tristezas não pagam dívidas. E nós temos uma data delas para pagar.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 11:02
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Domingo, 4 de Dezembro de 2011
Há males que vêm por bem

Entre férias e trabalho, passei fora do Porto a maior parte do mês de Agosto. Quando regressei a casa, a 1 de Setembro, entre a correspondência e entulho que me enchia a caixa do correio, estava o extracto do cartão Visa Universo a lembrar-me que tinha a pagar 220 euros.

Atrasei-me no pagamento. E a culpa foi só minha. Estar fora não é desculpa. Podia e devia ter telefonado para a linha Universo a saber o montante em dívida, entidade, referência e prazo de pagamento - e liquidar a dívida a tempo e horas num multibanco em Vila do Bispo.

O castigo por este pequeno delito veio no extracto de Setembro. Os cinco dias de atraso iriam custar-me 15,60 euros. Em contas de cabeça rápidas, à Guterres, concluí que, se convertidos em juros, representavam uma taxa exorbitante na casa dos 400% ao ano - ou seja, agiotagem - pelo que expus telefonicamente a situação, sugerindo duas saídas para a sua ultrapassagem.

O BPI optou pela segunda - perder-me como cliente, mas não abdicar dos 15,60 euros - pelo que, após cumprir até ao último cêntimo as minhas obrigações com o banco, entreguei o cartão Universo no balcão de Sá da Bandeira.

Nada me move contra o BPI. Antes pelo contrário. Tenho um enorme respeito e tremenda admiração pelo seu fundador, Artur Santos Silva, e acho muita graça à maneira desempoeirada como comunica o seu sucessor, Fernando Ulrich.

Apenas resumi a história deste divórcio (após ter ganho 1327,53 euros em descontos, de acordo com as contas do banco) porque ela me veio à cabeça durante o almoço que tive na sexta-feira, em Coimbra, com a Catarina Frade, cujo relato é publicado na última página deste jornal.

A propósito da divulgação de um estudo da MasterCard, revelador de uma atitude muito responsável dos consumidores portugueses, que estão a ajustar os seus hábitos e a mudar do crédito para o débito (o decréscimo acumulado do uso de cartão de crédito é de 15% nos últimos quatro anos), a Catarina contou um episódio saboroso a propósito da tese de Filipa Moreira, uma economista e professora no IPAM em Aveiro que é sua aluna de doutoramento.

Para fazer a demonstração de que as pessoas gastam mais quando em vez de pagarem com dinheiro o fazem com cartão de crédito, a Filipa pegou nos dois bilhetes que atempadamente adquirira para o concerto dos U2 em Coimbra e pô-los em leilão em duas turmas. Na que exigiu que o pagamento fosse feito em dinheiro, o lance mais alto foi de 150 euros. Na outra, em que obrigava ao pagamento com cartão de crédito, o valor máximo atingido foi de 600 euros - que coincidia com o limite de crédito da licitante.

Ao ouvir esta história, curiosa apesar de não surpreendente, dei por mim a pensar que há males que vêm por bem - e que tenho de estar grato ao BPI por, com a sua intransigência, me ter levado a deixar de usar cartão de crédito.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 10:58
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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011
Quatro dias ou meia hora?

É extraordinário o percurso de vida de Manuel Carvalho da Silva, que, nascido há 63 anos numa família de pequenos agricultores minhotos, teve a sorte de escapar à servidão da gleba devido à pressão e persistência do seu professor primário.

Poderia ter cumprido o sonho de ser engenheiro electrotécnico (até aos 13 anos não teve luz em casa) se no final do curso industrial de montador electricista não tivesse sido chamado para a tropa e despachado para a guerra colonial em Cabinda.

Poderia ter sido empresário se em vez de vir ao mundo no pós-guerra tivesse nascido uns dez anos mais tarde, quando começou a florescer a industrialização têxtil dos vales do Cávado e Ave, uma vez que ainda adolescente já evidenciava uma costela empreendedora que lhe permitiu acumular o capital para comprar os primeiros rádio e relógio ao trabalhar as terras dos vizinhos com a debulhadora pedida emprestada ao pai.

Poderia ter sido um alto dirigente do PCP, quem sabe se até mesmo secretário-geral, se tivesse optado por colocar ao serviço do partido os seus imensos talentos de organização que encantaram os gestores das filiais portuguesas das multinacionais alemãs onde trabalhou - ao ponto de o tentarem seduzir com uma carreira internacional.

Poderia até estar com assento na Conferência Episcopal Portuguesa se o pai, em vez de insistir em que o mais velho dos seus seis filhos o ajudasse na lavoura, o tivesse mandado para o seminário.

Católico de formação, temperado pela militância nas fileiras da JEC e da Juventude Agrária, Manuel fez a escolha generosa de dedicar 30 anos da sua vida à defesa dos interesses dos trabalhadores - da melhor maneira que soube e pode.

Há exactamente uma semana, entre o final na tarde e o início da noite, tive o privilégio de estar à conversa com Manuel Carvalho da Silva, a menos de dois meses dele iniciar um novo fôlego da sua vida, em que vai tirar partido do curso e doutoramento em Sociologia, feitos após ter retomado os estudos já com 45 anos.

Perguntei-lhe se ainda acreditava em Deus e na Igreja. Respondeu-me que tinha uma forma muito própria e pessoal de viver essas dimensões.

Ontem, no momento de reflexão antes de escrever esta crónica, vieram-me à cabeça estas palavras sábias do líder da CGTP.

Revi-me nelas. Na verdade, eu tenho uma forma muito própria e pessoal de viver esta dimensão da luta sindical e da greve geral.

E essa forma própria e pessoal leva-me a preferir que o patrão me peça para trabalhar mais meia hora por dia do que apenas quatro dias por semana - como se prepara para fazer António Costa (o amigo com que Carvalho da Silva tomou café durante a campanha para as últimas autárquicas) aos trabalhadores da Câmara de Lisboa. Gosto de me sentir desejado.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 10:55
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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011
Facilitem-me a ida às compras

Sou uma minoria no género masculino. Gosto de ir às compras. Mas não a todas as compras. Não me convidem para experimentar roupa nos apertados gabinetes de prova das lojas. O que eu faço com muito prazer são as compras para abastecer a dispensa e o frigorífico.

Não compro tudo no mesmo sítio. As compras para o mês - do tipo arroz, esparguete, leite, manteiga, azeite, cereais, mel, etc - faço-as no Continente. O marketing da Sonae fidelizou-me com o cartão de descontos.

Depois retoco o abastecimento entre o Pingo Doce (o papel higiénico e o sumo de cenoura/laranja são muito bons), o Lidl (a relação qualidade/preço do mozarella fresco é imbatível) e o Supercor, onde a fruta é regra geral melhor (se bem que mais cara) e me perco com alguns pequenos mimos, como a azeitona kalamata ou os pimentos recheados com queijo.

Não foi preciso a Lehman Brothers abrir falência e mergulhar o mundo nas ondas de incerteza em que vamos sobrevivendo, esforçando-nos por manter a cabeça fora de água, para eu me converter à compra de marcas brancas, onde a oferta das grandes cadeias de distribuição já é muito excelente, não só em quantidade mas também em qualidade.

Agora acabo de tomar a decisão de me tornar um comprador ainda mais inteligente. Além do preço e da qualidade, a origem dos produtos vai passar a pesar muito mais no momento de escolher o que transfiro da prateleira para o carrinho.

A decisão tem efeitos imediatos. Da próxima vez, não vou poupar dois ou três cêntimos por litro se isso significar correr o risco de estar a comprar leite de vacas polacas. Vou comprar o leite da Lactogal que estiver em promoção.

Continuarei a usar a manteiga do Continente, porque, além de magnífica, é dos Açores - quem sabe se até feita com leite daquelas vacas da Graciosa que Cavaco surpreendeu, satisfeitíssimas e gulosas, a olharem para os pastos verdejantes.

Sei que vou deparar com algumas dificuldades nesta minha opção por comprar o que é nosso. O prefixo 560 não é garantia de que o produto é mesmo fabricado em Portugal (pode apenas ter sido embalado e registado cá). Há produtos - como a fruta, vegetais, o azeite, o mel - em que é obrigatória a identificação da sua origem, mas na maioria dos casos ela pode ser escondida. E há batotices, como as detectadas pela ASAE que apreendeu figos turcos, uvas italianas e amêndoas californianas disfarçadas de portuguesas.

Por isso aproveito este desabafo para pedir ao ministro Álvaro que prepare legislação no sentido de tornar obrigatória a denominação de origem nacional nos produtos de marca branca. Não só é patriótico, amigo do ambiente e facilita as minhas idas às compras (será que o iogurte grego do Continente é feito em Portugal?) como, ainda por cima, deve ajudar o grupo Jerónimo Martins a abandonar o lugar destacado que ocupa no top ten dos maiores importadores portugueses.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 10:50
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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011
O Rui tem bom coração

Sou tentado a dar razão às pessoas que acham que o Porto não andou muito para a frente com Rui Rio na Câmara. Conheço muita gente que diz que a cidade até andou para trás, mas acredito que essa análise mais severa pode ter a ver com um erro de que todos já fomos vítimas.

Quando estamos sentados numa carruagem parada na estação e o comboio estacionado ao lado inicia a sua marcha, dá a ideia que o nosso está em marcha atrás, mas tudo isso não passa de uma ilusão de óptica.

A velocidade com que Gaia se modernizou e prosperou com Luís Filipe Menezes é a responsável pela impressão que muitos portuenses têm de que a cidade progride às arrecuas como os caranguejos ou o nosso PIB.

O Porto tem estado um bocado parado mas talvez seja exagerado dizer que andou para trás e ignorar as qualidades do presidente da Câmara. Rui Rio não é um Fontes Pereira de Melo, um Duarte Pacheco ou um Fernando Gomes. Não é o líder de que o Norte precisa, mas é seguramente um político honesto e com bom coração, tantas vezes incompreendido pelos media.

Há coisa de dez dias, por exemplo, o JN responsabilizou a Câmara pelo despejo de um menina de nove anos do Bairro do Regado, quando, na verdade que foi reposta, o delicado assunto foi tratado pela DomusSocial, a empresa municipal criada pela Câmara para gerir a habitação social - pode parecer que não, mas se calhar faz toda a diferença!

O bom coração do Rui manifestou-se quando recebeu os motoristas da STCP e declarou-lhes a sua solidariedade - ou quando juntou os trabalhadores camarários no Rivoli e lhes confidenciou que o que mais o preocupa nestes dias cinzentos é saber que eles, como os outros funcionários públicos, "estão a ser tratados de forma injusta e desigual em relação a outros sectores da sociedade".

Há gente de mente tortuosa que diz que estas palavras não lhe saem do coração e as interpreta como uma mera manobra política de colagem a Cavaco e distanciamento de Passos para se posicionar numa eventual corrida à sua sucessão.

Da maledicência à calúnia é só um pequeno passo, e há também quem veja a mão de Rui por detrás do frenesim que se apodera da Polícia Municipal que multa sem piedade todos os carros mal estacionados nas imediações do edifício JN nos dias seguintes à publicação de notícias menos favoráveis à Câmara.

Sei que o Rui tem bom coração e seria incapaz de ordenar uma vingança tão mesquinha. Era capaz de jurar que se as vítimas do excesso de zelo localizado da Polícia Municipal se associarem e lhe pedirem uma audiência, ele vai recebê-las, mostrar-se solidário e accionar um inquérito interno ao estranho facto da tolerância zero em Gonçalo Cristóvão coincidir com a publicação no JN de notícias que não lhe agradam.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 14:40
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Domingo, 20 de Novembro de 2011
Um desabafo do 128949/7

Os meus 16 meses de funcionário público foram um dos períodos mais excitantes dos 33 anos que levo a trabalhar. Apanhei o gosto pelas grandes caminhadas. Aprendi a importância da disciplina - e a perceber por que é que o sábio Calouste Gulbenkian nos recomendou beijarmos a mão que não ousamos morder. Fiquei a conhecer as novas fronteiras da minha resistência física e psicológica. E fiz bastante turismo interno, de Mafra até ao Funchal, com escalas em Beja e Santa Margarida a propósito do Orion, o equivalente militar à romagem anual do 13 Maio a Fátima.

Achei bastante divertido calcular a trajectória dos tanques e estudei com afinco as especificidades do tiro curvo e do tiro tenso, para me habilitar a concluir com sucesso a especialidade de Anticarro e Morteiro Médio, cuja existência desconhecia. Antes de ser chamado a cumprir o serviço militar obrigatório julgava que a oferta de Infantaria se esgotava entre o arranhanço dos Atiradores e a semipeluda do pessoal de Transmissões.

Atendendo ao que se dizia que custava cada granada (e apesar de ter andado um dia surdo), deu-me um grande gozo disparar o canhão sem recuo 90. Tornei-me familiar com a G3, se bem que para desfiles e paradas preferisse usar a FBP, bem mais elegante, maneirinha e leve.

Confirmei que as botas da tropa, usadas e bem engraxadas, são do mais confortável que há para andar. Não me espantei quando o verde militar e as calças com grandes bolsos laterais entraram na moda, porque sempre achei muito fashion a farda n.º 3. Finalizando o capítulo do vestuário, devo declarar que além de útil, a rede mosquiteiral ficava a matar como cachecol quando andava de camuflado.

Arrependi-me de não ter aproveitado para tirar a carta e aprender a jogar bridge, mas mesmo assim não dou os 16 meses por mal empregues. Posso ter trazido o fígado em pior estado e atrasado a vida, mas o que ganhei em desembaraço compensa bem isso.

Num momento em que os militares se promovem à má-fila e andam pelas ruas a manifestar-se, o Otelo delira sem chutar para a veia, e as Forças Armadas reivindicam mais generais (temos uns 180, dos quais 156 no activo), apesar da IGF ter concluído que já temos 54 generais excedentários, procedi a este breve inventário do meu período de funcionário público com o número mecanográfico 128 949/77 para declarar que não há mal-entendidos entre mim e o Exército.

Posto isto, declaro que não consigo descortinar uma boa razão para continuarmos a gastar 1,2 mil milhões de euros/ano nos salários de 40 mil efectivos de umas Forças Armadas que não conseguem defender-nos das reais ameaças à nossa soberania e independência nacional que são os gananciosos mercados financeiros viciados em short selling, dos credores impacientes e desconfiados e das agências de rating.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 14:32
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
Zé Cariocas e Peninhas

Há de tudo nas empresas. Gente competente, que se empenha em merecer o seu salário, gosta de fazer tudo bem à primeira e está sempre disponível para ajudar o colega do lado. Mas também há gente intriguista, que deixa um rasto de discórdia por onde passa, tal como o Tullius Detritus, o personagem da Zaragata, uma das mais deliciosas aventuras do Astérix e Obélix.

Há também Zés Cariocas, que não se poupam a trabalhos para fugir do trabalho. Há ainda Peninhas, muito bem intencionados - mas que definitivamente não nasceram para trabalhar.

Uma das maiores injustiças do Mundo reside no facto de haver gente empregada que detesta ou não sabe trabalhar e pessoas de-sempregadas que gostam, sabem e precisam de trabalhar. Num mundo perfeito, os primeiros davam a vaga aos segundos e toda a gente viveria feliz.

Nas redacções, há uma espécie de criminosos, muito temida por editores e directores, vulgarmente conhecidos como assassinos de notícias, que por norma escapam impunes devido à sua habilidade e à natureza do delito. Trata-se de jornalistas a quem se entrega uma informação prometedora, bem embrulhada e acompanhada dos números de telemóvel de contactos a fazer, e cometem a proeza de liquidar a notícia a sangue-frio.

No caso concreto dos Peninhas (bem intencionados mas incapazes), o meu primo Fernando, que é gestor e percebe muito mais disto do que eu, garante que a empresa lucra mais se eles estiverem quietos do que a desenvolverem esforços patéticos para se tornarem úteis.

A partir desta teoria do Fernando dei um passo e cheguei à conclusão que uma empresa ganha quando os seus Tullius Detritus, Peninhas e Zé Cariocas fazem greve. Não só não estorvam como ainda por cima deixam de receber. Vai daí, se quiserem prejudicar mesmo o patrão, o que eles têm a fazer nos dias de greve é comparecerem como habitualmente no local de trabalho.

Vem esta reflexão a propósito das greves no sector público de transportes que - perdoem-me a franqueza - me parecem uma rematada idiotice.

Quando o pessoal da STCP, Carris, Metro de Lisboa ou Transtejo faz greve, os principais prejudicados são os trabalhadores que compram o passe e dependem em exclusivo dos transportes públicos. Quando o pessoal da CP faz greve numa sexta-feira, os principais beneficiários são a Brisa e a Galp - e quem mais perde é o país e o planeta.

A greve é um direito intocável, mas está velha e perdeu a eficácia. Até para se manifestar a indignação é preciso ser criativo. Mais tarde ou mais cedo (quanto mais cedo melhor) todos teremos de perceber que não se tira sangue das pedras - e que parar de escavar é a regra número um para quem está metido num buraco.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 09:35
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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011
Do chispe ao Take Another Plane

Em 1987, quando Portugal tresandava a optimismo, deu-se o fenómeno curioso de aparecerem nos bancos clientes a pedirem para comprar chispe. Ao contrário do que à primeira vista pode parecer, eles dirigiram-se ao sítio certo. A confusão não era entre talho e banco, mas sim entre chispe e CISF - as iniciais da Companhia de Investimentos e Serviços Financeiros, que era uma das estrelas ascendentes na bolsa que subia a 5% ao dia.

Este episódio teve um enorme impacto na minha carreira profissional, pois levou-me a investir na educação financeira. Se toda a gente estava a comprar furiosamente acções, os jornais teriam de satisfazer a sua sede de notícias das empresas cotadas e dos mercados.

Jamais esquecerei a paciência que João Veiga Anjos, então presidente da Bolsa do Porto, teve para me explicar a diferença entre acção e obrigação, o que é uma blue chip e o cash flow, como calcular o PER e o PCF de uma acção, bem como o mecanismo das OPV à holandesa muito em voga è época.

Desde estes tempos, em que comecei a desvendar os mistériso do mercado de capitais, sempre que me sobra dinheiro depois de cumpridas as obrigações mensais, invisto em acções o que destino a poupança de longo prazo.

Há um misto de racionalidade e emoção na selecção das empresas em que invisto. Por isso, mesmo que a TAP já estivesse privatizada e cotada em bolsa, não compraria acções desta companhia.

Chateia-me solenemente continuar a alimentar, como contribuinte, uma companhia que se diz "de bandeira" (ou seja, ao serviço dos superiores interesses do país) para reivindicar protecção do Governo e da ANA - mas que deixa a bandeira cair sempre que isso lhe interessa.

Os superiores interesses de Portugal foram sacrificados no altar da estratégia da companhia quando a TAP desertou do Porto e abandonou Faro. "Volta e meia tenho muitos empresários zangados a dizerem que a TAP não faz nada pelo Algarve. Não vale a pena. "Levar um avião para o Algarve sai muito caro. Não temos dinheiro para isso", confessou, com candura, Luiz Mor, um dos administradores brasileiros da transportadora.

A TAP não é companhia de bandeira para o Porto nem para Faro. É só para Lisboa, onde apostou todas as suas fichas e quer manter uma situação de privilégio face à crescente concorrência das low cost, que alimentam o país com turistas.

Não quero continuar a ser accionista à força de uma companhia que quis matar o aeroporto do Porto, aumentou os custos operacionais no 1º semestre (fazendo orelhas moucas ao corte de 15% decretado pelo Governo), aumentou chefes e directores em 50%, apesar de ter perdido 137 milhões de euros - e agora vem pedir-nos uma recapitalização de 400 milhões de euros.

Lamento muito que o Governo esteja atrasado na venda da TAP, adiada para 2012, apesar de estar prevista para este ano no memorando da troika. E, como nortenho, sigo conselho de quem acha que as iniciais de TAP querem dizer Take Another Plane.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 09:26
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Domingo, 6 de Novembro de 2011
Espero que Passos não engonhe

Como detesto secar-me, guardo para depois do duche as outras tarefas que medeiam entre o acordar e a saída de casa, como escovar os dentes, fazer e tomar o pequeno almoço, espreitar o email e assegurar-me que levo no meu saco de carteiro, tudo quanto suspeito que vou precisar durante o dia.

Enquanto me desembrulho das pequenas obrigações quotidianas, o roupão turco vai-se encarregando de me secar, alimentando a minha preguiça.

Atendendo à impressionante quantidade de decisões que temos de tomar durante um dia de trabalho, é inteligente apetrecharmo-nos de rotinas formatadas que nos poupam a escolhas que podemos antecipar.

Sei perfeitamente que, às vezes, quando tenho em cima da mesa um assunto importante para decidir, faço batota e tento enganar-me, sobrevalorizando escolhas menores num esforço para me convencer que sou decisor impiedoso, que não hesita, recua ou adia quando lhe surge pela frente uma opção dolorosa e prenhe em consequências.

É muito mais fácil optar por almoçar uma americana no Big Ben ou um chao min de lulas e legumes no chinês do largo Tito Fontes, do que decidir se o Jornal de Notícias deve continuar a publicar diariamente a programação de todos os cinemas das regiões Norte e Centro.

A amostra de quatro meses de Governo Passos deixa-me moderadamente satisfeito. Trata-se de gente competente e bem intencionada, empenhada em tirar o país do buraco em que nos meteram e romper com uma tradição de favorecimento de interesses privados que durava desde 2º Governo Cavaco.

Só temo que Passos esteja a engonhar, enganando-se e enganando-nos com a tomada de pequenas decisões relativamente indolores, como a fusão de freguesias, quando se impõe uma grande reforma administrativa, que logo à partida exige um processo bem mais doloroso de fusão de municípios,

No caminho de regresso a casa, chegar ao semáforo da praça da Galiza, vindo da D. Manuel II, e decidir se sigo em frente até à Rotunda ou viro para o Campo Alegre, é bem mais simples de tomar do que marcar uma reunião com a troika para explicar-lhes que precisamos de mais 25 mil milhões de euros - e talvez também de aliviar um pouco o calendário do ajustamento.

O problema é que precisamos mesmo de mais dinheiro porque as empresas públicas de transportes não se conseguem financiar lá fora e estão a usar todo o crédito que a banca pode disponibilizar, o que está a asfixiar a economia e a atirar para a falência empresas com bom produto e encomendas - mas sem fundo de maneio e privadas do crédito dos fornecedores, que passaram a exigir pagamento à cabeça.

Apesar de não ser religioso, rezo para que Passos e Gaspar tenham coragem para tomar a dificil mas inadiável decisão de pedir aos credores um reforço do pacote de resgate que impeça a morte da nossa economia.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 09:22
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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011
Cavaco não sabe escolher gravatas

A coisa parece difícil - mas não vai ser fácil. Esta frase de humor marxista, tendência Groucho, assenta como uma luva ao paciente trabalho de criação do primeiro banco privado após o 25 de Abril, desenvolvido, há 30 anos, por Artur Santos Silva.

Sozinho, de pasta na mão e sem remuneração, andou dois anos a reunir a centena de accionistas privados da SPI (antecessora do BPI) que subscreverem o capital inicial de 1,5 milhões de contos - e a tentar receber luz verde governamental.

Apesar de a AD de Sá Carneiro ter ganho as legislativas, foi mais fácil convencer TMG, RAR, Sogrape, Riopele & C.ª a abrirem os cordões à bolsa do que obter o sim do ministro das Finanças, Cavaco Silva, que por duas vezes torceu o nariz ao pedido, alegando que a abertura da banca a privados era "um dossiê muito sensível". Persistente, Artur não desistiu e acabou por conseguir a autorização em 1981, assinada por João Morais Leitão, o ministro das Finanças de Balsemão.

O banqueiro é não só persistente ao ponto da teimosia, como também paciente, como fica demonstrado pelo facto de ter adiado um ano a abertura do escritório em Lisboa da SPI - durante esse tempo esteve à espera que Fernando Ulrich, a pessoa que ele desejava para dirigir a operação da sociedade na capital, se libertasse das funções de chefe de gabinete de João Salgueiro.

Para explicar esta espera, Santos Silva cita Segismundo Warburg (fundador da SG Warburg), que recrutava pessoas da mesma maneira que comprava gravatas: não as contratava por necessidade (ninguém compra uma gravata porque precisa) mas porque gostava delas. Por necessidade, compramos líquido amarelo para a louça, papel higiénico, leite ou meias pretas - não gravatas.

A escolha da pessoa certa para o lugar certo é uma das mais difíceis tarefas de um gestor, em que mesmo os mais pintados já meteram água. Que atire a primeira pedra quem nunca se enganou na avaliação das capacidades e carácter de um ser humano.

A mesma dificuldade se sente na selecção dos amigos com que mais privamos. Que atire a primeira pedra quem nunca foi desiludido por um amigo em que confiava.

Olhando para o rol de patifarias de que são suspeitos vários ex--amigos do peito e da política do PR - Oliveira e Costa (seu companheiro no Banco de Portugal, secretário de Estado e conselheiro de investimentos), Dias Loureiro (seu ex-braço direito no PSD e Governo), Isaltino Morais (seu ministro e autarca laranja modelo) e Duarte Lima (seu vice-presidente no partido e líder parlamentar) - sou forçado a concluir que ele falha na escolha das pessoas.

A alternativa à conclusão de que Cavaco não sabe escolher gravatas é muita má. Atendendo à péssima qualidade das companhias de que se rodeou, seria terrível sujeitar o presidente à prova do provérbio popular "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és".

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 10:23
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Terça-feira, 1 de Novembro de 2011
O fim da lei do menor esforço

Após definir um país como a soma dos defeitos e qualidades dos seus cidadãos, o Almada Negreiros não resistiu a um exercício de ironia certeira e apelou : "Coragem portugueses, só faltam as qualidades".

No capítulo do trabalho, temos seguramente muitas qualidades, mas quase sempre escondidas, só se revelando quando emigramos ou somos geridos por multinacionais que nos balizam o comportamento com uma gramática rígida de regras a observar no dia a dia laboral.

Esta incapacidade para sermos naturalmente honestos e produtivos no trabalho é filha da cultura de uma nação que se habituou a viver dos recursos dos outros - e entrou em crise sempre que perdeu uma mama.

A perda do trato da Índia teve como consequência a União Ibérica. A independência do Brasil, que pôs termo ao fluxo de ouro, café e madeiras preciosas, foi a causa remota da queda da Monarquia e gerou mais de um século de turbulência.

No século XX, a incapacidade em mantermos as colónias africanas foi o fermento do desmoronar do Estado Novo, deixando-nos a vaguear até descobrirmos em Bruxelas uma nova fonte a jorrar dinheiro.

A lei do menor esforço foi a regra que nos regeu ao longo de seis séculos. Os poderosos enriqueciam roubando, um hábito lamentável que os casos Oliveira Costa, Duarte Lima e Isaltino nos fazem suspeitar que chegou aos nossos dias.

Os mais espertos das classes baixas tornaram-se comerciantes com lábia suficiente para vender aquecedores aos guineenses e frigoríficos aos esquimós, inspirando Hergé na criação do Oliveira da Figueira, o impagável personagem português do Tintin.

E os que não conseguiam sair da cepa torta, vingavam-se, com manha e ronha, fazendo o mínimo possível.

Agora, chegámos ao fim da linha. Já não vai mais ser possível viver ao abrigo da lei do menor esforço. Os poderosos corruptos têm de ir para a cadeia - e os incompetentes têm de ser varridos para o desemprego. Os empreendedores têm de subir na escala de valor, passarem a ser mais Belmiros do que Oliveiras da Figueira. E aqueles que, como eu, optaram por trabalhar por conta de outrém, em vez de arriscarem criar o seu próprio emprego, têm de ser mais produtivos para fortalecer e tornar competitivas as empresas - e a nossa economia.

A dez horas a mais por mês que vamos trabalhar, o fim da rigidez da legislação laboral, o subsídio mais baixo e de menor duração que vamos receber se formos despedidos, são o preço a pagar por termos distribuido mais riqueza do que a produzimos.

Do ponto de vista dos trabalhadores, as novas e draconianas regras significam trocar mais horas e algum dinheiro pela preservação do emprego. Do ponto de vista dos empresários, significa um trunfo mais (os ganhos de competitividade derivados baseados da flexibilidade e redução dos custos) na luta pela sobrevivência.

Os sindicatos terão de perceber que nesta curva apertada em que fomos apanhados, os interesses dos trabalhadores e dos empresários podem ser os mesmos.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 10:16
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Sábado, 29 de Outubro de 2011
Viver dentro das Jóias de Castafiore

No início da minha adolescência investia toda a mesada que o meu pai, Alfredo da Costa Fiel (senhor de uma bela caligrafia, perícia importante para a sua profissão de escriturário do STCP), me dava na compra da revista "Tintin" e dos livros de bolso da colecções RTP e da Europa-América, numa tabacaria de uma senhora cujo nome lamentavelmente esqueci, que ficava junto à esquina da Avenida de Rodrigues de Freitas (onde eu morava, ali ao lado, no 304) com o Beco do Pedregulho.

Tenho uma dívida de gratidão para com a revista "Tintin" (cuja colecção completa ainda tenho, encadernada) e estas duas colecções de bolso, que são a base da minha cultura, que teve como levedura as oito a nove horas que passava por dia, durante as férias grandes, na Biblioteca Municipal do Porto, ao Jardim de S. Lázaro, a devorar volumes encadernados do "Mundo de Aventuras", "Falcão", "Ciclone" e outras publicações distribuídas pela Agência Portuguesa de Revistas.

A já finada revista "Tintin" introduziu-me a uma data de heróis e séries que ainda admiro, leio e releio, como o Astérix, Lucky Luke, Corto Maltese, Alix e Blake e Mortimer, mas uma das suas grandes âncoras eram as histórias do Tintin propriamente dito.

Das 23 aventuras do Tintin, a minha preferida é "As Jóias de Castafiore" - muito provavelmente porque não é uma aventura, no sentido clássico do termo. Ao longo de 62 páginas, Hergé diverte-nos, pisca-nos o olho, faz-nos rir, conseguindo manter-nos suspensos do desenvolvimento de uma intriga principal (o desaparecimento das jóias) e de várias secundárias (das quais a mais suculenta é o noivado entre a cantora do Scala de Milão e o capitão Haddock) para, no final, nos surpreender ao revelar que afinal não se passou nada.

As jóias não foram roubadas. A notícia do casamento entre o rouxinol milanês e o velho lobo-do-mar não passou de um infame boato, alimentado pela surdez do professor Tournesol ("Vai à pesca?", "Não, vou à pesca!") e pela voracidade dos jornalistas paparazzi - a beleza deste detalhe é que o livro foi publicado em 1963, ainda Lady Di era uma bebé de fraldas.

""As Jóias de Castafiore" é uma aventura entre parêntesis. Afinal, não se passa nada. Tal e qual como em Portugal - que continua a ser um país entre parêntesis. Ao governo laranja sucede-se o governo rosa, ao qual se sucede o laranja, depois o rosa, depois o laranja, e assim sucessivamente. No final, não se passa nada, continua tudo na mesma, com Portugal a divergir da média comunitária - apesar da transfusão de fundos comunitários que recebemos ininterruptamente desde 1986.

O que me leva a pensar que o nó do problema não reside na cor do Governo, mas antes no modelo de desenvolvimento centralista que os partidos do arco da governação partilham e teimam em não abandonar.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 12:04
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011
Cimeira devia ser em Cracóvia

Para se pouparem ao desgaste psicológico do processamento dos mortos, os nazis entregavam essa tarefa mórbida a prisioneiros, que recompensavam com uma ração extra de comida, senhas para o bordel de Auschwitz ou outras pequenas regalias.

Eram judeus, apelidados sonderkommando, que passavam em revista os corpos dos judeus acabados de morrer na câmara de gás decorada com chuveiros.

Extraíam-lhes os dentes de ouro, posteriormente fundidos em barras.

Despojavam-nos de anéis, pulseiras, brincos, e procuravam com detalhe todos os orifícios do corpo onde pudessem estar dissimuladas jóias ou dinheiro.

Cortavam-lhes o cabelo, posteriormente enviado para fábricas onde era usado como matéria-prima para confeccionar, entre outras coisas, peúgas de feltro para a tripulação dos submarinos.

Depois de processados os corpos, os sonderkommando transportavam-nos para os fornos crematórios.

Esta impressionante mecânica do processo de extermínio de milhão e meio de judeus, ciganos, homossexuais e presos políticos em Auschwitz é descrita e analisada pelo britânico Laurence Rees no livro "Auschwitz: The nazis and the final solution", que comprei na livraria deste campo de concentração, nos arredores de Cracóvia.

Domingo, ao visitar uma exposição sobre o terror nazi (1939-45) e soviético (45-56), no Museu Histórico de Cracóvia, localizado no edifício que serviu de sede à Gestapo, veio-me à memória o livro de Rees e as tenebrosas imagens da exposição de bens confiscados aos judeus - pares de sapatos, malas, próteses, roupas, óculos, pincéis de barba, carrinhos e enxovais de bebé, enxovais - que foi um dos mais violentos socos no estômago que levei quando visitei Auschwitz.

Os nazis levaram a Humanidade ao ponto mais baixo da sua história. Mas a sua derrota e a reconstrução europeia do pós-guerra foram as estacas em que assentou o maior período de paz e prosperidade do Velho Continente, proporcionado pelo diálogo entre países outrora inimigos institucionalizado primeiro timidamente com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, e depois aprofundado até ao euro.

Nesta curva da estrada em que a Europa está, é importante darmos ouvidos aos conselhos de quem tem memória e o saber de experiência feito, como Helmut Schmidt, que, de cadeira de rodas e já para além da fronteira dos 90 anos, saiu do seu retiro para avisar: "Quem considerar que a sua nação é mais importante que a nossa comum Europa está a prejudicar os mais fundamentais interesses do seu próprio país".

Se calhar não seria má ideia que a próxima cimeira europeia se realizasse em Cracóvia, após uma visita demorada dos líderes aos campos de morte de Auschwitz e Birkenau. Talvez fosse mais produtiva.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 12:38
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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011
Conduzir de olhos vendados

É hoje, é hoje! Há uma anedota assim, que envolve uma sondagem em que as pessoas são inquiridas sobre a frequência com que fazem sexo, e o entrevistador, intrigado com o contraste entre a resposta ("Uma vez por ano") e o ar feliz de quem a deu, ouviu a resposta "É hoje, é hoje!" quando lhe perguntou porque estava assim tão satisfeito.

É hoje que o Orçamento de 2012 é aprovado pelo Conselho de Ministros, mas ao contrário do que acontece na anedota não há motivo de satisfação. Vai haver sexo violento, mas nós vamos ser os sujeitos passivos.

Há coisas que já sabemos. Este Orçamento é fundamental. "O momento certo para estruturar de forma séria a nossa ambição do lado da despesa é o Orçamento para 2012", avisou Carlos Moedas, o todo poderoso oficial de ligação com Troika.

Sabemos que o Governo se comprometeu a fazer 2/3 da consolidação orçamental do lado da despesa e apenas 1/3 do lado da receita - e que (Vítor Gaspar explicou) até agora o essencial das medidas tem sido tomadas do lado da receita (aumento de impostos) porque estas surtem um efeito mais rápido do que aquelas.

Sabemos que vai haver cortes de 1,6 mil milhões de euros no orçamento dos ministérios sociais (810 milhões na Saúde, 600 milhões na Educação e 205 milhões na Segurança Social), que, no seu essencial, serão feitos à custa dos doentes, professores, alunos e reformados - mas não sabemos qual será o aumento das taxas moderadores nem a extensão da penalização nas pensões superiores a 1500 euros.

Sabemos que o Governo precisa de aumentar bastante as receitas do IVA (para acomodar o eventual corte na TSU, mas não só) - mas não sabemos como o vai conseguir, sendo provável que suba a taxa reduzida (6%) porque o consumo está deslocar-se dos produtos sujeitos à taxa normal de IVA (23%) para os de taxa intermédia (13%) e baixa, o que significará agravar os preços de bens básicos.

Sabemos que as fundações de um Orçamento assentam nas previsões da evolução da economia. Sabemos que "fazer previsões é como conduzir um carro de olhos vendados e seguir as instruções de quem está a olhar para a estrada pelo vidro de trás" (José Ferreira Machado, director da Nova de Lisboa, dixit). Sabemos que, por excesso de optimismo, nos últimos cinco anos o Governo falhou as previsões económicas inscritas no OE. Mas também sabemos que, ao contrário de Sócrates, Vítor Gaspar tem os pés na terra e a sua opinião tem mais peso em S. Bento do tinha a de Teixeira dos Santos.

Sabemos que a carga fiscal está nos limites do suportável - mas não sabemos se (como garantem o ex-secretário de Estado das Finanças Sérgio Vasques e o fiscalista Tiago Caiado Guerreiro)o nosso subsidio de férias e 13º mês de 2012 vão ter de ser sacrificados no altar do milagre regenerador da nação. A partir de hoje, vamos começar a ver com mais clareza como é que vai ser o nosso 2012.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 12:41
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Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011
A RTP faz mal à saúde

O meu consumo de televisão em directo resume-se a alguns jogos de futebol e a umas espreitadelas ao que vai passando ao longo do dia de trabalho nos canais de notícias.

Os filmes prefiro vê-los no Arrábida Shopping, que tem as melhores salas do país e onde não fazem intervalos. Mas estou cada vez mais freguês de séries, que ponho a gravar para ver nos tempos livres das minhas folgas.

Agora, enquanto espero pelas novas temporadas de "Lie to Me" e "The Body of Proof"  - desde que fez de enfermeira McMurphy (ver foto que abre este post) , na Praia da China, tenho um fraquinho pela Dana Delany -, a minha série dramática preferida é "The Good Wife", que recomendo vivamente.

Apesar de não passar muitas horas por dia em frente ao ecrã, chamou-me a atenção a notícia de um estudo de investigadores universidade de Queensland (Austrália) que concluíram que ver televisão faz mal à saúde.

Estes especialistas quantificaram os perigos de uma forma alarmante: por cada hora em frente a televisão estaríamos a sacrificar 22 minutos de esperança de vida.

Atendendo ao facto de, segundo a Marktest, cada português passar em média 3h29m40s a pastar em frente à televisão, a conjugação destas duas estatísticas seria terrível ,em termos da nossa esperança de vida, mas animadora do ponto de vista da sustentabilidade futura da Segurança Social, que assim evitaria o risco de ruptura face ao previsível crescimento exponencial do contingente de reformados.

Só não fiquei assustado por duas razões. O estudo australiano parte do princípio que o pessoal que vê muita televisão leva um estilo de vida sedentário, o que não é obrigatório. Mais. Não acredito muito nas estatísticas da Marktest, desconfiança partilhada pelos canais de televisão, anunciantes e agências de publicidade que decidiram entregar, a partir de Janeiro, o estudo das audiências à GfK, que vai usar uma metodologia nova e mais fiável.

Mas pensando melhor, conclui que mesmo vendo-a muito pouco, a RTP tem sido muito prejudicial à minha saúde.

Faz-me subir a tensão arterial saber que um administrador da RTP gasta 700 euros/mês em telemóvel, ou seja mais ou menos o salário médio mensal dos contribuintes portugueses que lhe pagam o salário.

Chateia-me saber que o salário anual médio dos trabalhadores da RTP é superior a 40 mil euros, ou seja cada um ganha em média dois mil euros limpos por mês.

Até sinto um aperto no peito ao saber que em oito anos, entre indemnizações compensatórias, dotações de capital e contribuição audovisual, a RTP já nos custou dois mil milhões de euros, dinheiro que chegava para fazer o TGV para Vigo, e ainda sobravam 500 milhões.

Dói-me na alma saber que este Governo, que prometeu privatizar a RTP, nos vai pôr a abater 520 milhões do passivo desta empresa. Sai a 52 euros por cabeça, bebés de colo incluídos.

A RTP faz-nos mal a saúde e ao bolso. Quanto mais depressa nos livrarmos dela, melhor.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 14:59
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Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011
Um povo viciado em adrenalina

O meu pior vicio foi o tabaco. Comecei tarde, já na faculdade, mas recuperei rapidamente o atraso em nicotina, pois nos dias em que o trabalho seguia pela noite dentro cheguei a fumar três maços de SG Filtro.

Ter passado cinco dias num sítio onde era proibido o consumo de tabaco (o hospital) por causa de um problema de coração (sempre fui precoce) ajudou-me muito a deixar de fumar, em 1992.

Por medo de uma recaída, nunca mais peguei num cigarro, cigarrilha ou charuto. Curei-me do terrível vício do tabaco, mas tenho outras dependências, que classifico de menores (somos sempre muito indulgentes connosco) como ver séries de televisão, ler thrillers e policiais, comer queijos e enchidos ou enrolar o papel dos pacotes de açúcar - mania que não é tão simples de alimentar porque tomo o café sem açúcar.

Se me perguntassem, assim de repente, qual o vício de que eu gostaria de me livrar, não hesitaria em responder: a adrenalina.

Partilho com a imensa maioria dos meus compatriotas o mau hábito de deixar para amanhã o que podemos fazer hoje, em que nos viciamos ainda catraios (pagando com pingas nas cuecas o pecado de deixar para a última a ida à casa de banho) e depois transportamos pela vida fora, estudando só nas vésperas dos exames e fazendo noitadas para cumprir os prazos.

Nós, os portugueses, somos todos viciados em adrenalina. Deixamos as coisas andar alegremente até o stresse obrigar as glândulas supra-renais a bombar para a corrente sanguínea enormes quantidades de adrenalina, um doping natural que dilata a nossa performance para além do normal.

Somos um povo de viciados em adrenalina, que se agiganta em momentos de grande stresse nacional, principalmente se conduzidos por uma liderança esclarecida e mobilizadora (como na época das Descobertas) ou reunidos em torno da prossecução de um grande objectivo mobilizador - vejam-se os casos recentes da Expo 98 e do Euro 2004.

Estamos a começar a tentar contornar a mais difícil esquina da História do Portugal que encontrámos durante as nossas vidas. Para se sustentar , o país precisa de mil milhões de euros por semana. Já todos percebemos que vai haver menos rendimento para gastar e pagar dívidas, que acabou o crédito fácil e barato, que vai haver muito menos investimento público, mais desemprego com menos subsidio, que vamos ter serviços (electricidade, transportes, saúde e educação ) mais caros e impostos mais altos.

Neste dia em que Governo comemora 100 dias e a crise pôs a adrenalina a circular-nos nas veias, só nos resta acreditar que Passos Coelho vai ser capaz levar este bom povo católico e viciado em adrenalina a acreditar no milagre regenerador do grande sacrifício nacional.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 14:26
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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011
Confissões de um cubano

Farto dos fins de semana da recruta, cansativos e a saber a pouco, em Dezembro de 1980, quando concluí, em Mafra, o curso de oficial milicianos (especialidade de Anti-Carro e Morteiro Médio) resolvi arriscar quando me pediram para indicar os três destinos de preferência, escrevendo, por esta ordem, Porto, Funchal e Ponta Delgada.

Fui parar à Madeira. Em 1981 (a foto que abre este post é da época) , vivi em S. Martinho, no quartel do Regimento de Infantaria do Funchal, numa Madeira que, pela mão de Alberto João, estava a atingir a velocidade cruzeiro na viagem que a levaria a 2ª região mais pobre do país a chegar a ser ser a 2º mais rica ica do país.

Durante o meu ano de cubano - informo os mais distraídos que esse é termo carinhoso usado pelos madeirenses para designar os de "Lesboa" (termo genérico que abrange todo o pessoal do "Contenente") - fiz muitos disparates (os próprios da idade e mais alguns) de que me arrependo. Mas não me arrependo nada de me ter voluntariado para ir para o Funchal (com a minha nota de curso era impossível ser colocado no Porto).

Aprendi muitas coisas. A começar por curiosas expressões locais. Da primeira vez, não percebi o que queria o soldado que me pediu autorização para "ir em cima dos pés" (tem a sua lógica, pois agachamo-nos quando temos de satisfazer ao ar livre as nossas necessidades fisiológicas de carácter sólido). E confesso ter temido pela sanidade mental do primeiro madeirense que me disse ter perdido o horário como justificação para o seu atraso (o STCP de lá chama-se Horários do Funchal).

Quem flanou pelo Funchal, comeu lapas grelhadas em Porto Moniz e depois viajou pela estrada marginal da costa norte, passeou pelas levadas, fez praia em Porto Santo, subiu ao pico do Areeiro, se deliciou com uma espetada (acompanhada de milho frito e bolo do caco) no Estreito, visitou o Chão da Lagoa (sem ser no dia em que o Johnnie Walker amplifica os devaneios de Jardim), bebeu uma poncha em Câmara de Lobos, tomou um café no Reid's e desceu até ao Curral das Freiras não pode deixar de se apaixonar pela Madeira.

A Madeira é uma região maravilhosa e quem lá viveu não pode deixar de se sentir também um pouco madeirense.

Na minha qualidade de cubano com uma costela madeirense, sinto uma enorme admiração pelo brutal desenvolvimento que Alberto João conseguiu para a sua terra natal, levando a que o Funchal seja uma duas regiões portuguesas com poder de compra superior à média comunitária.

Esta admiração só aumenta a profundidade da tristeza que sinto quando vejo Jardim manchar com os seus mais recentes actos e palavras uma notável carreira de líder político regional. Quero acreditar que se trata de uma maldição relacionada com nome e origem. Ainda não há muito pouco tempo um outro madeirense com o mesmo apelido borrou um brilhante curriculum no sector financeiro ao não saber atempadamente pôr um ponto final na carreira.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 14:19
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Sábado, 17 de Setembro de 2011
O tzaziki requer paciência

Há dois pratos típicos gregos, muito saudáveis, que acho deliciosos e aprendi a confeccionar. Não estou a falar da moussaka (apesar de nada me mover contra as beringelas, antes pelo contrário) nem do souvlaki, mas sim da salada grega e do tzatziki - não confundir por favor com os iogurtes gregos do Continente, que são porreiros mas se distinguem apenas dos iogurtes normais por usarem leite gordo como matéria-prima.

A salada grega é bastante simples e rápida de fazer. A base é constituída por tomate (não muito maduro, de preferência), pepino e queijo feta (que está a aparecer no Lidl a preços bem em conta) cortados em cubos, temperados com sal e coentros qb, regados a gosto por um azeite transmontano e generosamente adicionados por azeitonas (recomendo vivamente as kalamata, disponíveis no El Corte Inglés).

Um caso bem mais complicado é o do tzatziki, bem mais exigente em mão-de-obra e tempo que a salada grega, que se põe pronta em cinco minutos.

No tzatziki, antes de ser picado, o pepino tem de ser completamente descascado e limpo das sementes. O dente de alho tem de ser ralado. E quer os iogurtes naturais quer o pepino picado devem ser deixados a escorrer durante umas três ou quatro horas, em filtro de papel ou de pano, para se libertarem do respectivos soros (ambos bebíveis, garanto-vos). Depois é só misturar as pastas de pepino e iogurte, mexer, enquanto se junta o alho, um fio de azeite e umas gotas de limão.

É preciso ter paciência para preparar iogurte grego. Também é preciso ter muita paciência para aturar os gregos e eu sei do que falo porque naquela tarde infeliz de 4 de Julho de 2004, ao minuto 57 da final do Euro, apanhei um banho de Carlsberg morna sem álcool, proveniente de um copo atirado para o ar por um grego que estava sentado alguma filas acima de mim na bancada do Estádio da Luz (nunca perdoarei esse momento ao Scolari e ao Ricardo).

Angela Merkel, Jean Claude Trichet, Christine Lagarde são alguns dos nomes que me vêm à cabeça de pessoas que sabem ainda melhor do que eu que é preciso ter uma enorme dose de paciência em armazém para aturar as idiossincrasias dos gregos, que cultivaram, durante anos a fio, a arte de esconder de toda a gente o catastrófico desequilíbrio das contas públicas - ao pé deles, Sócrates e Alberto João fazem figura de tenrinhos apendizes.

Mário Soares pode não perceber muito de números mas está cobertinho de razão quando nos avisou de que se a Grécia cair a Europa vai ao charco. Por isso, Merkel, Trichet e Lagarde & C.ia têm de ter com os gregos mais paciência do que Job. A Europa não pode deixar cair a Grécia. O que não quer dizer que não se deva ser dura com os gregos. Ao fim e ao cabo aquela ideia de os obrigar a vender umas ilhas não é nada disparatada. Quem sabe se um dia não teremos vantagem em fazer o mesmo...

 

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 14:02
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011
Opte pela maçã de Alcobaça

Não sou fã de banhos de imersão. Passam-se anos sem tomar um. O meu duche matinal é rápido. Dura pouco mais de um minuto. E gosto dele mais para o frio do que para o quente. Não consumo, por isso, muita energia. Apesar disso, estou inclinado para seguir o exemplo da Susana Fonseca que, sempre que toma duche, guarda num balde a água que sai da torneira antes de ficar morna. "Sempre é uma descarga a menos que faço no autoclismo", explica a dirigente da Quercus.

O truque doméstico de meter uma garrafa vazia no depósito de água, para diminuir o desperdício na descarga do autoclismo, foi já incorporado pela indústria. A Cerâmica de Valadares produz e comercializa com sucesso uma sanita ecológica, que permite grandes poupanças de água. Não compreendo porque é que ainda não foi industrializada a ideia simples e genial de abastecer os depósitos das sanitas com as águas escoadas do lavatório.

De certo está familiarizado com o conceito de pegada ecológica e as suas assustadoras implicações. Seria impossível todos os habitantes da Terra terem um padrão de consumo igual ao nosso, pela simples razão de que os recursos naturais do planeta se esgotariam antes disso poder acontecer. Aterrador, não é?

Só há uma Terra. Os recursos são finitos. Temos de os poupar. Seria tremendamente egoísta continuarmos a comprometer irremediavelmente a qualidade de vida dos nossos filhos.

Caminhamos para a catástrofe se não mudarmos o paradigma de predação da Natureza. Há grandes decisões tomar, que infelizmente estão fora do nosso alcance, como, por exemplo, manter a Amazónia. Sabia que se a desflorestassem, em poucos anos deixaria de haver peixe, porque os oceanos são alimentados com a matéria orgânica que cai no rio e é transportada pelo Amazonas?

Mas podemos contribuir para salvar o planeta se incluirmos na nossa rotina diária pequenos hábitos como o de separar o lixo, fechar a torneira enquanto nos ensaboamos ou escovamos os dentes, não deixar o computador e os electrodomésticos em "stand by", usar lâmpadas eficientes, comprar apenas o indispensável, andar de transportes públicos e não ter preconceitos em recorrer a bens em segunda mão.

E, lembre-se, quando estiver a comprar maçãs, opte pela de Alcobaça. Não só por patriotismo, mas também por razões ambientais . Já pensou na enorme pegada ecológica, só em transporte e frio, de cada Royal Gala argentina?

Para as gerações futuras poderem beneficiar do conforto de abrirem a torneira e sair água, premirem o interruptor e fazer-se luz, temos de aprender a viver com mais frugalidade e menos sofreguidão. Quando comparamos os rankings do desenvolvimento humano com o da pegada ecológica, temos a surpresa de ver que Cuba é quem está mais próximo do ponto de equilíbrio. Surpreendente, não é?

 

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 13:58
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Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011
Seguro não é um Gastão

Só estive cinco anos na política. Mas que anos! Tive a sorte de viver a idade da revolta num Portugal em desvairada mudança de vidas e de costumes. Eu atravessava a fronteira da adolescência (17 anos) para a maioridade (23) . O país evoluía do marcelismo (1973) para a consolidação de uma jovem democracia (1978).

Aprendi muito e para toda a vida naqueles cinco anos que militei na LCI, um grupúsculo trotskista, avô paterno do Bloco de Esquerda. Li furiosamente, habituei-me a discursar em público, aperfeiçoei a técnica de argumentação, escrevi programas e comunicados, inventei palavras de ordem, traduzi textos, organizei greves e manifestações, colei cartazes, ocupei casas, fiz pichagens, preparei reuniões, distribuí panfletos, andei à pancada e fugi da Polícia - só para citar o mais relevante :-).

Desses tempos gloriosos e emocionantes guardo não só recordações, como também métodos de trabalho e hábitos de organização. Cerca de 40 anos volvidos, a ordem de trabalhos tipo de uma reunião política - 1. Informações; 2. Análise da situação; 3. Medidas a tomar - permanece tão actual e eficaz como o velho teorema de Pitágoras.

E tenho para mim que continua a ser fundamental fazer o balanço antes de nos aventurarmos a elencar as perspectivas.

A estabilização da democracia trouxe na mochila um sistema partidário viscoso, assente em máquinas de assalto ao Poder, guarnecidas por militantes cuja preocupação n.º 1 é garantir um futuro melhor para si - e não para o país. O egoísmo substituiu a generosidade. A política passou a ser uma coisa tão animada como o cemitério do Prado do Repouso à meia-noite.

O Congresso do PS é a prova dos nove deste lamentável estado de coisas. Era legítimo esperarmos que de Braga saísse uma ideia clara do que será preciso fazer para voltarmos a prosperar quando acabar o ajustamento brutal a que estamos sujeitos.

Era legítimo esperar, mas nicles! Em três meses de debate, o melhor que o PS conseguiu apresentar, por junto e atacado, foi uma ideia interessante para reaproximar os cidadãos dos partidos (a sugestão de Assis de os simpatizantes poderem registar-se no partido e participar na escolha dos seus candidatos, como nos EUA), uma análise acertada (a inevitabilidade do federalismo, reconhecida no discurso final de Seguro) e uma notícia para as revistas cor-de-rosa: a apresentação à sociedade de Margarida, a mulher de Tozé, que se parece mais com o desafortunado Pato Donald do que com o sortudo Gastão.

É pouco. É mesmo muito pouco para um partido que não teve a coragem de se submeter a um exercício de autocrítica, fazendo o balanço antes de se arriscar a traçar as perspectivas.

Pode viver-se sem família. Pode viver-se sem amor. Pode até viver--se sem dinheiro, levando uma vidinha miserável. Mas é impossível viver sem sonhos nem esperança. Em Braga, o PS foi incapaz de nos fazer sonhar. Seguro não é o cavaleiro da esperança.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 09:14
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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011
Escola, Google e Facebook

Não podemos atribuir a um único facto a responsabilidade pelo desencadear de grandes acontecimentos. A I Guerra Mundial haveria de arranjar outro pretexto para deflagrar se a Mão Negra não tivesse assassinado o Franz Ferdinand em Sarajevo.

O curso de História não foi a minha primeira opção. Convencido de que me seria muito proveitoso conhecer os meandros do comportamento humano, inscrevi-me em Psicologia. Desisti ao fim de um ano.

A esta desistência não foi estranha a dificuldade sentida em copiar para o caderno as equações que o professor de Matemática rabiscava no quadro. Mas no momento da decisão também pesaram estar farto de passar fome em Lisboa (não havia Psicologia no Porto), as paredes e tectos das salas de aulas do ISPA estarem forradas com cartazes do MRPP, e um dos colegas com quem partilhava um apartamento na Flamenga ter provocado uma catástrofe de proporções bíblicas ao puxar o autoclismo de uma sanita entupida.

Quem estudou História ou é um curioso desta área não precisou de ver o Match Point, de Woody Allen (e a verificar a importância que o facto do anel não ter caído ao Tamisa acaba por ter no desfecho da história), para saber que a sorte existe.

Nunca fui professor porque, a meio do curso, apostei em ser jornalista. Mas não tenho a menor das dúvidas de que tive muita sorte em ter escolhido estudar História. Seria muito pior jornalista se na faculdade não tivesse aprendido a relacionar os factos políticos, económicos, sociais e culturais, a ler os sinais dos tempos e interpretar as movimentações numa comunidade.

Neste início de ano lectivo, em época de dramática contenção de custos, olhamos para a escola e não gostamos do que vemos.

Vemos que ao longo das últimas décadas o Estado gastou mais dinheiro, teve mais professores, menos alunos e mais insucesso escolar.

Os 100 mil chumbos no Básico, 17% de repetentes no Secundário e 46% que abandonam após o 12.º ano revelam um sistema doente - e dinheiro não é a solução para inverter os termos desta terrível equação.

A chave para tornar o ensino eficiente é perceber que as escolas estão a formar estudantes para profissões que ainda não existem. De acordo com o Labour Department dos EUA, as dez profissões mais procuradas no ano passado não eram conhecidas em 2004.

A escola não se pode limitar ao papel de mera transmissora de conhecimentos. Tem de ser capaz de fornecer aos alunos ferramentas e capacidades para durante a sua vida profissional resolverem problemas que nem sequer imaginamos com o auxílio de tecnologias ainda não inventadas.

Já repararam que quem acabou o curso no séc. XX não pôde usar iPad ou fazer pesquisas no Google e amigos no Facebook?

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 17:27
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Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011
D. Quixote em Campo Maior

 

Quando andava no liceu, fui muito gozado por causa do meu apelido. Nos anos 60 e 70, era moda baptizar os cães com o meu nome de família.

No tempo em que os jecos se alimentavam dos nossos restos e a pet food ainda não entrara no vocabulário, um daqueles empreendedores de olho vivo que se perdem por terem razão antes do tempo resolveu comercializar comida enlatada para cães com a marca Fiel. Foi um inferno!

Reagi com uma mentira. Quando implicavam comigo, dizendo que tinha o nome de comida para cães, deixava-os na dúvida ao confidenciar-lhes, com o ar mais sério do mundo, que a fábrica era de um tio meu que morava em Setúbal.

Os danos nesta frente pareciam estar controlados quando, já no estertor da Primavera Marcelista, fui arrumado pela campanha televisiva da tentativa de capitalismo popular dos irmãos Silva, protagonizada por uma família portuguesa tipo e que por isso tinha acções da Torralta e um cão chamado Fiel.

Já adulto, quando tive um rafeiro a que chamava Júlio, até encorajava os meus amigos a repetirem a graçola óbvia de comentar que eu tinha nome de cão e um cão com nome de gente.

Apesar dos incómodos que involuntariamente me causaram, sempre adorei os cães (e detestei gatos), pela sua lealdade, dedicação, inteligência e capacidade de aprendizagem. Não é por acaso que escolhi um alegre e sonoro latido para toque do meu telemóvel.

Vêm estas recordações a propósito das inesperadas declarações produzidas por Passos Coelho em Campo Maior exorcizando o demónio de tumultos nas ruas à moda de Londres ou das capitais árabes.

Quando o ouvi diabolizar "os que pensam que podem incendiar as ruas e ajudar a queimar Portugal" a primeira que me veio à cabeça foi: "O homem anda a ver telejornais a mais e isso não faz bem à cabeça de ninguém - e por maioria de razão à saúde mental de um primeiro-ministro".

Depois pensei melhor e fiquei preocupado. O caso pode ser grave. Passos parece não estar a aguentar o facto do seu estado de graça durar tão pouco como o de um treinador do Sporting . Quinta à noite, na SIC Notícias, Pacheco Pereira criticou a política do martelo, enquanto na TVI 24 Marques Mendes acusava o Governo de dar um murro no estômago da classe média. Sexta, Vasco Graça Moura avisou para a desorientação e frustração do eleitorado do PSD. Sábado, no "Expresso", Ferreira Leite arrasou a política fiscal.

Agastado com a opinião de correligionários que se comportam como cães que não conhecem dono, Passos chegou a domingo (o dia da homilia de Marcelo) e disparatou, imitando as incursões de D. Quixote contra os imaginários moinhos de vento ao investir contra os que "se entusiasmam com as redes sociais e esperam trazer o tumulto para as ruas de Portugal".

O discurso de Campo Maior foi um tremendo erro político. O primeiro-ministro não percebeu que os cães só atacam quando farejam o medo na sua presa. Não compreendeu que cão que ladra não morde. E desprezou a imensa sabedoria do dito popular "os cães ladram mas a caravana passa".

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 17:21
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Domingo, 4 de Setembro de 2011
O estranho caso da Loja Mozart

Ficamos a saber, pelo "Expresso", que os serviços públicos de espionagem, pagos por todos nós, andam a fazer concorrência desleal aos pobres dos detectives privados

Fanático por livros policiais, sempre tive uma enorme admiração pelos detectives privados. Por todo o tipo de detectives privados, desde o pioneiro Sherlock Holmes até aos clássicos Hercule Poirot e Philip Marlowe, passando pelo menos convencional Pepe Carvalho e a imbatível dupla Nero Wolfe/Archie Goodwin. Todos estes, mais uma data deles, ocupam um lugar de destaque no meu panteão privado de heróis.

Tenho para mim que ao contrário do que acontece nos outros géneros literários, em que a imensa imaginação e enorme talento dos autores raramente conseguem superar a surpreendente riqueza da vida quotidiana, no caso da literatura policial a ficção costuma ser muito mais sexy que a realidade.

Na minha geração, as miúdas sonhavam ser hospedeiras da TAP ou veterinárias e os miúdos queriam ser astronautas ou futebolistas. Apesar de lermos de um só fôlego todos os livrinhos da colecção Vampiro (com maravilhosas capas de Lima de Freitas) que nos apareciam pela frente, não me lembro de ter tropeçado em alguém que aspirasse ser detective privado.

Nunca chegaram para encher sequer 1/4 de coluna de jornal os anúncios de detectives privados a oferecerem os préstimos a uma clientela estreita, que presumo se resumia a maridos ciumentos e a mulheres convencidas de que as provas de infidelidade recolhidas renderiam, em termos de pensão de divórcio, o suficiente para darem o dinheiro como bem gasto.

A vida real dos detectives privados nunca foi fácil. Com o abuso das SMS e vídeos para o YouTube, e as inconfidências feitas no Facebook e no Twitter, a privacidade foi sacrificada no altar do progresso tecnológico - e os detectives privados passaram a ser tão procurados como as dactilógrafas.

Como se isso não bastasse, ficamos ontem a saber, pelo "Expresso", que os serviços públicos de espionagem, pagos por todos nós, andam a fazer concorrência desleal aos pobres dos detectives privados.

Por razões não explicadas (mas que não custam a adivinhar), o camarada Paulo Santos, gestor da Ongoing África, precisava de obter umas informaçõezinhas sobre o passado e os negócios do ex-marido da sua mulher. Pôs os pés ao caminho, navegando furiosamente na Internet? Não! Contratou um detective privado? Não.

Em vez disso, pediu ajuda ao irmão da Loja Mozart (que, ao contrário do que possa pensar-se, é uma estrutura da Maçonaria e não uma loja de bombons ou instrumentos musicais) que até há bem pouco tempo foi chefe da Secreta.

Como os amigos são para as ocasiões, Jorge Silva Carvalho accionou a carteira de contactos nos serviços de informação para satisfazer a curiosidade do colega, irmão e amigo.

Todas as histórias têm uma moral. É só encontrá-la. Nesta história, não é preciso ser o comissário Maigret para a descobrir.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 17:15
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Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011
Temos de esquecer o bacalhau

Tenho para mim que a lata da atum é o melhor amigo do Homem - assim, com H grande, para abranger todo o catálogo do género humano, desde os homens propriamente ditos até às mulheres, passando por travestis, transexuais, transgéneros e outras restantes variantes intermédias.

Quando a fome aperta e não temos mais nada à mão, uma lata de atum e um pão (versão minimalista) ou na companhia de uma lata de feijão frade, atalham a necessidade com rapidez e a bom preço.

A seguir à conserva de atum, a melhor amiga do Homem é aquela embalagem de bocados de bacalhau que se encontra nas prateleiras de todas as cadeias de mini, super ou hipermercados.

É mais exigente que a lata de atum, quer em termos de tempo quer de mão-de-obra e qualificações, mas proporciona-nos um sem-número de alternativas gourmet.

Comercializados praticamente despidos de pele e espinhas, estes estilhaços de bacalhau, depois de demolhados, estão prontos a servir de matéria prima à confecção de uma não negligenciável variedade de deliciosos pratos de bacalhau, como pataniscas, à Brás, punheta, à Gomes de Sá, espiritual, bolinhos, com natas, etc.

Diz o povo que há mil maneiras de cozinhar bacalhau, e, que eu saiba, ainda ninguém ousou tentar demonstrar o contrário - ou provar que uma receita é melhor que outra. Todas essas mil maneiras são opções honestas e correctas. Tudo vai do gosto e dos ingredientes que temos em armazém.

Lamentavelmente não há tantas opções como as de cozinhar bacalhau quando se trata do esforço em curso para equilibrar as nossas finanças públicas, que décadas a fio de desgoverno deixaram num estado tão miserável que nos obrigaram a vergar a cabeça e estender a mão à senhora Merkel e outros poderosos deste mundo.

A receita da troika é simples - aumentar as receitas e reduzir as despesas - sobrando apenas para os nossos aprendizes de cozinheiros (Passos Coelho e Vítor Gaspar) a margem para improvisarem nos condimentos. Não têm outro remédio senão subir os impostos, mas podem escolher que impostos aumentam - e em que percentagem. Não têm outra hipótese senão reduzir a despesa, mas podem seleccionar onde cortam - e em que montante.

Mais triste é a situação das famílias, porque nestes tempos de recessão não consta do nosso leque de opções a prerrogativa de aumentar a receita que está à disposição do primeiro-ministro e do seu ministro das Finanças.

Nós só temos uma alternativa, que é cortar nas despesas e adequar o nosso estilo de vida a um rendimento decrescente. O novo normal que vem aí implica esquecer o bacalhau (reservado para dias de festa), e resignarmo-nos à lata de atum.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 20:53
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Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011
Eram pr'aí cinco e pico

No baile da D. Ester, foram dar com o chauffeur a dançar com a criada, enquanto a D. Inês, sequiosa, não resistiu ao whisky e partiu a coluna ao dançar o twist. Como uma desgraça nunca vem só, o D. José de Vicente, que é de S. Pedro da Cova, foi parar ao hospital depois de escorregar no soalho a dançar a bossa-nova.

Os mais velhos reconhecerão nesta sucessão de episódios o mais magnífico dos megaêxitos do Conjunto António Mafra, de que eu tomei emprestada a letra.

Voltei a ouvir o "Eram pr'aí sete e pico" na sessão de Discos Pedidos, em que a combinação iPad/YouTube fez de jukebox, que animou a nossa noite de sábado no Zavial, onde há mais de 15 anos passo a última quinzena de Agosto numa pequena casa, a não mais de 300 metros da areia.

A transparência cristalina da água do mar compensa amplamente o facto dela ser bem mais fria que a das mais concorridas praias do Sotavento algarvio.

Um areal asseado e desimpedido, que nos dispensa de estender a toalha a menos de dez metros do ser humano mais próximo, ajuda--nos tolerar o vento que às vezes pode ser chato.

E de bónus, recebemos ainda o zurrar dos burros, a bênção de noites estreladas que fariam Van Gogh morder-se de inveja, o doce aroma das figueiras onde petiscamos na ida e regresso das praias, e o coro monocórdico das cigarras.

A tranquilidade deste pedaço do Algarve intocado pela Via do Infante foi perturbada pela notícia do avistamento de tubarões, que forneceu ao Zavial Via Verde para os telejornais e a capa da imprensa sensacionalista.

Eram para aí cinco e pico quando alguém viu uma barbatana no mar, a uns 300 metros do areal. Foi o tempo de um fósforo até à praia estar toda de pé, a testemunhar o rápido desaparecimento da misteriosa barbatana.

Os nadadores-salvadores aconselharam prudência aos banhistas - que nem por isso deixaram de dar os seus mergulhos - e comunicaram o ocorrido às autoridades marítimas, enquanto que na praia se debatia o formato da barbatana - era de golfinho ou de tubarão? - e se exibiam os conhecimentos aprendidos no filme que catapultou Spielberg para a fama.

Nas horas seguintes, deu-se a matéria suficiente para o ditado "quem conta um conto acrescenta um ponto" ser convertido em tese de doutoramento, e o país foi (mal) informado de que dois tubarões, com quatro metros, foram avistados junto ao areal, no Zavial, gerando o pânico generalizado dos banhistas e obrigando à evacuação da praia - um relato ainda menos rigoroso e preciso que a indicação das horas (eram pr'aí sete e pico, oito e coisa, nove e tal) dos infaustos acontecimentos do baile da D. Ester, que terminou abruptamente quando faltou a luz, gerou-se a confusão natural, e a Locas, ao ver-se nos braços do Amaral, gritou aflita: Acendam o castiçal!

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 20:49
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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011
Fazer da tristeza graça

NUNCA me agradou o acto de proibir, mas ficaria satisfeito se a Póvoa de Varzim e outras câmaras seguissem o exemplo luminoso das de Viana e Braga e proibissem a realização de touradas

A única Tourada de que gosto é a de Ary dos Santos, assim mesmo , com t grande, pois trata-se do nome da canção que, na voz de Fernando Tordo, venceu o Festival RTP da Canção de 1973: "Não importa sol ou sombra, camarotes ou barreiras, toureamos ombro a ombro, as feras".

Um dos poetas maiores da geração de O' Neill, Natália Correia, David Mourão-Ferreira e Alegre, José Carlos Ary dos Santos (1937-84) dedicou-se a biscates diversos (entregador da Sociedade Nacional de Fósforos, vendedor de máquinas de pastilhas elásticas, escriturário do Caino do Estoril) antes de estabilizar a vida como publicitário.

Foi no mesmo Festival RTP da Canção que o retirara do anonimato em 1969 (com o poema Desfolhada, cantado pela outrora portentosa voz de Simone de Oliveira), que Ary causou polémica com Tourada, um poema ousado, onde usava a terminologia tauromáquica para, com a sua ironia mordaz, fazer uma chicuelina ao lápis azul da censura, criticando o regime marcelista e passando uma mensagem de esperança na proximidade da mudança: "Com bandarilhas de esperança, afugentamos a fera , estamos na praça da Primavera".

Gosto muita da Tourada (e de muitos outros poemas de Ary) mas nunca suportei a tourada. A embirração começou ainda eu era cachopo, nos tempos da ditadura do canal único e a preto e branco da RTP, quando nove em cada dez vezes a misteriosa Reportagem do Exterior anunciada para a noite de quarta feira se revelava uma maçadora tourada, em vez do desejado jogo de futebol.

Depois, quando comecei a politizar-me, racionalizei o ódio à crueldade das corridas de touros, uma luta desigual entre homem e animal, onde os espectadores se divertem e aplaudem cavaleiros e toureiros que fazem judiarias ao bicho, espetando-lhe ferros e bandarilhas no lombo.

Com a excepção da pega, o único momento de igualdade deste triste espectáculo (apesar do touro estar cansado da lide e a perder sangue), é tudo muito mau, até a idiosincrasia portuguesa de proibir o touro de ser morto na arena - uma rematada hipocrisia já que o animal é abatido logo após a corrida.

É muito nosso este tique d e adorar comer frango assado, massa chinesa com galinha ou caril de frango, nas não suportar sequer presenciar o "horrível" acto de cortar o pescoço à galinha - "que falta de gosto!".

Nunca me agradou o acto de proibir, mas ficaria satisfeito se a Póvoa de Varzim e outras câmaras seguissem o exemplo luminoso das de Braga e Viana do Castelo e proibissem a realização de touradas.

Nesta esquina da vida em que fomos apanhados, devemos inspirar-nos na única Tourada de que gosto, e, como nos aconselha Ary, "pegar o mundo pelos cornos da desgraça - e fazer da tristeza graça".

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 20:42
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Sexta-feira, 5 de Agosto de 2011
Sou filho único, talvez um pouco mimado

Modest Petrovich Mussorgsky

 

Sou filho único. Sei que os filhos únicos têm a fama de ser mimados - e dou de barato ter recebido o proveito correspondente a essa má fama.

Não ter de partilhar a atenção dos pais tanto pode ser bom como pode ser mau. Depende. Todos os filhos sabem que os pais podem ser muito chatos. Regra geral, quando olham para nós lembram-se sempre do tempo em que nos mudaram as fraldas ou em que nós éramos adolescentes rebeldes e inconscientes, com o cabelo pelos ombros.

Deriva da condição de pai (ou mãe) ter uma enorme dificuldade em actualizar a imagem dos filhos. Isso só mudará quando for possível implantar no cérebro humano um botão de refresh.

Na infância e alta adolescência, lamentei ser filho único à míngua de alguém lá em casa com quem brincar. Na baixa adolescência, lamentei não ter uma irmã que me apresentasse umas colegas e amigas. Depois racionalizei. Constatei que a maioria dos irmãos se dão mal uns com outros, dando razão ao pedacinho de sabedoria popular que nos recorda que os amigos se escolhem - os irmãos não.

Para compensar o facto de não ter irmãos, apostei nos amigos e fiquei satisfeito com essa opção. Estou 100% de acordo com a tese defendida por Sérgio Godinho numa das mais bonitas das suas canções: "Hoje fiz uma amigo e coisa mais preciosa no mundo não há".

Sucede que há gente para quem não chega ter amigos e por isso resolvem adoptar irmãos, organizando-se em lojas, que, presumo, são um sucedâneo das famílias tradicionais.

Como sou um fã de histórias de espionagem e thrillers (adoro Le Carré, Daniel Silva e Martin Cruz Smith), mal vi a manchete do último "Expresso" - Governo prepara razia nas secretas - não descansei enquanto não acabei de ler toda essa matéria.

Fui informado que os principais protagonistas desta intriga de Verãopertencem àquela categoria de homens que não se contentam em ter amigos - querem ter irmãos. Fiquei, por exemplo, a saber que Nuno Vasconcelos (o enfant terrrible dos media, e não só...), e Jorge Silva Carvalho (o mais público e polémico de todos os nossos agentes secretos) além de trabalharem juntos na Ongoing também são irmãos adoptivos na loja Mozart da Grande Loja Regular de Portugal, ramo maçónico a que também pertence João Paulo Alfaro, outro ex-espião que consta da folha de salários da proprietária do "Diário Económico".

Não precisei de ouvir o António Variações ("Porque eu só estou bem aonde eu não estou"), para ser íntimo da insatisfação humana, mas continuo a achar que para navegar nesta vida bastam-me amigos. Posso continuar a ser filho único. Nao é indispensável andar por aí a adoptar irmãos. Mas para me divertir sou capaz de baptizar cada núcleo de amigos. A um deles vou chamar-lhe Círculo Mussorgski. Sou doido pela peça "Uma noite no Monte Calvo"

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 11:16
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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2011
Não preciso de nascer duas vezes

Experiências com ratos demonstram que é possível estar acordado e ter o cérebro parcialmente a dormir. Essa é a explicação mais bondosa para o facto de o governador do Banco de Portugal ter demorado sete anos a perceber que algo de muito errado e ilegal se passava no BPN.

Podem aventar-se outras explicações para o facto de Vítor Constâncio ter ignorado as reservas que os auditores da Deloitte levantavam às contas do banco e os alertas constantes do trabalho publicado em 2001 na capa da "Exame", denunciando irregularidades e levantando bem fundamentadas dúvidas sobre a gestão de Oliveira e Costa.

Falar na desadequada graduação das lentes dos óculos de Constâncio pode ser uma piada de gosto duvidoso. Considerar que se tratou de uma letal combinação de negligência e incompetência é uma hipótese mais plausível, mas também muito dolorosa, pois ele não só não está arrolado como cúmplice involuntário desta gigantesca burla como, ainda por cima, acabou recompensado com uma vice-presidência do Banco Central Europeu.

Enquanto Portugal dormia sossegado, na doce ignorância, uma data de gente conhecida arruinava o BPN, como está documentado nos 70 volumes e 700 apensos que constituem o processo legal de uma catástrofe financeira, que apesar de ainda não ter conhecido o seu epílogo já nos custou, grosso modo, o equivalente a um 13.º mês para todos os contribuintes.

Da longa lista dos beneficiários da catástrofe consta o clássico Vale e Azevedo, que urdiu um ardiloso esquema para sacar dois milhões de euros ao BPN.

Dias Loureiro não poderá devolver um dólar sequer dos 71 milhões USD que gastou a comprar duas tecnológicas em Porto Rico (que faliram logo de seguida...) porque não tem nada em seu nome, nem mesmo o famoso taco de golfe que mandou fazer no Japão e ele garante ser o melhor do Mundo.

Duarte Lima, outro nome do Gotha cavaquista, comprou uma off-shore ao BPN e sacou um empréstimo de dois milhões de euros ao Insular, o banco fantasma de Cabo Verde do grupo.

Cavaco e a sua filha Patrícia lucraram, em menos de dois anos, 375 mil euros (mais ou menos o que ganha numa vida um português médio), num negócio com acções da SLN (a holding que controlava o BPN), vertiginosamente valorizadas em 140%.

Tenho a certeza de que Cavaco e Vale e Azevedo não são madeira da mesma árvore. Sei que o PR deve estar arrependido da amizade e protecção que deu a Dias Loureiro e Duarte Lima. E acredito que se soubesse o que sabe hoje não aceitaria o negócio de favor que lhe foi proporcionado pelo seu ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais.

Mas estamos a viver aqueles tempos em que "já não é possível dizer mais, mas também não é possível ficar calado" (cito Manuel António Pina). Por isso declaro que não sinto a necessidade de nascer duas vezes para ser tão honesto como Cavaco.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 11:11
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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
A falta de sorte de Balsemão

Outubro de 1982. Chamado de urgência a S. Bento, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Marcelo Rebelo de Sousa, entra no seu passo apressado pelo gabinete do primeiro-ministro e dirige-se-lhe tratando-o pelo primeiro nome.

"Francisco, não. Faça o favor de me tratar por senhor primeiro-ministro", corrige um Balsemão possesso com mais uma patifaria do seu protegido, um jovem que adorava pregar partidas e exibir em público a sua imensa genialidade - em simultâneo, escrevia um artigo e ditava outro pelo telefone.

Marcelo acompanhara o primeiro-ministro na fundação do "Expresso" e do PSD. Quando a morte trágica de Sá Carneiro o atirou para a chefia do Governo, Balsemão entregou-lhe o "Expresso", que se revelou um feroz crítico do Governo constitucional liderado pelo dono, que foi dado como estando "lelé da cuca" na secção Gente.

Talvez para afastar Marcelo do "Expresso", talvez por querer aproveitar o seu talento nas negociações parlamentares, talvez pelas duas coisas, Balsemão chamou-o ao Governo.

Não demorou a arrepender-se. Na semana das autárquicas de 1982, decisivas para o futuro do moribundo Governo, Marcelo comunicou ao seu amigo Francisco que iria demitir-se do Governo.

O primeiro-ministro não gostou de ver o protegido abandonar um barco que se estava a afundar, mas não pode fazer mais do que pedir-lhe para manter a saída em segredo até ao dia seguinte às eleições. Marcelo jurou que manteria a boca calada, para não fragilizar o Governo. Dois dias depois a notícia estava escarrapachada na capa do DN.

Balsemão chamou-o logo a S. Bento, impôs-lhe o tratamento formal e com ele de pé à sua frente ("Quem é que o autorizou a sentar-se?", perguntou-lhe rispidamente), deu-lhe um violento raspanete. Marcelo defendeu-se argumentando que o considerava como um pai, e respondeu com uma graçola ("É o Édipo") à pergunta: "Se me considera como um pai como é que foi capaz de fazer-me uma canalhice destas?"

Vem este episódio a propósito da guerra das secretas, que opõe dois grupos de Comunicação Social (a Impresa, de Balsemão, e a Ongoing, de Nuno Vasconcellos), e que apanhou o Governo Passos Coelho no seu fogo cruzado - e de que Bairrão foi um dano colateral.

É curioso notar que Nuno Vasconcellos é filho de Luís Vasconcellos, o eterno lugar-tenente de Balsemão, e que o crescimento da Heidrick & Struggles (a empresa que criou com o seu amigo Rafa Mora) foi diligentemente regada com fartas encomendas pelo grupo liderado pelo melhor amigo e sócio do seu pai.

A sorte existe, como Woody Allen magistralmente demonstrou em "Match Point" (num jogo de ténis, quando a bola bate na rede, tanto pode cair para o outro lado do court, e nós ganhamos, como para o nosso - e perdemos). E obviamente Francisco Balsemão não tem sorte nenhuma a escolher os seus protegidos.

Jorge Fiel

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Domingo, 31 de Julho de 2011
Não mexas que é pior

O caso aconteceu logo na noite de estreia da peça levada à cena por um grupo de teatro amador dos arredores do Porto. A raiz do problema esteve no improviso achado para remediar a ausência no elenco de um actor com idade suficiente para desempenhar o papel de avô da protagonista - uma jovem viçosa e muito bem apessoada.

Como quem não tem cão caça com gato, o encenador tratou de arranjar uma barba postiça e uma almofada para disfarçar no papel de avô um rapaz tão moço quanto a actriz principal.

Sucede que, na estrita observância do argumento, a atraente actriz principal passava quase todo o segundo acto aconchegada no colo do avô.

Ora um homem não é de ferro. E a cabeça do falso avô - na realidade um jovem naquela terrível idade em que as hormonas não param de saltar - mostrou-se absolutamente incapaz de controlar a manifestação física da febril excitação sexual provocada pelo contínuo e voluptuoso esfreganço na sua fábrica do quente e aconchegado traseiro da rapariga.

Quando ela saiu do seu colo e ele também teve de se levantar, foi claro para todos os espectadores que havia mais uma coisa de pé no palco para além dos dois actores.

"Não mexas que é pior", foi a recomendação gritada da plateia por um espectador, mal viu o atrapalhado rapaz a descompor a almofada que fazia de barriga ao meter a mão por dentro das calças, na vã tentativa de disfarçar o volume que despertava a risota geral.

O episódio que acabo de contar é uma anedota romanceada. Desconheço se tem ou não um fundo verídico. Mas o conselho que serve de moral da história é bom e pode ser aplicado a diferentes esferas da nossa actividade.

Devemos sempre pensar duas vezes antes de mexer, porque boa parte dos nossos actos adquirem um estado de irreversibilidade. É impossível voltar a meter dentro do tubo a pasta de dentes a mais que saltou para fora por termos pressionado com força excessiva. Quantas vezes não nos arrependemos amargamente depois de clicar na tecla enviar ou publicar, quando o destino do email que escrevemos ou do comentário que fizemos no Facebook já deixou de estar nas nossas mãos.

A decisão de Passos Coelho de iniciar uma cruzada para dotar de paredes de vidro a administração pública, ao publicitar no site do Governo os nomes, idades e vencimentos de todos os nomeados, foi manchada pela trapalhada que envolveu a quantidade de motoristas ao serviço do gabinete do primeiro-ministro - que começaram por ser 14, diminuindo depois para 11 - e a desculpa esfarrapada fornecida, que a culpa foi de Sócrates.... Às vezes, o melhor é mesmo não mexer, como aconselhou o atento espectador da anedota.

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 29 de Julho de 2011
A bonita caligrafia do meu pai

NA GERAÇÃO do meu pai era usual passar a vida com a mesma profissão e emprego. Na minha geração ainda é viável ter uma única profissão mas a trabalhar em diferentes empresas.

O meu pai, Alfredo da Costa Fiel, tinha uma caligrafia muito bonita e caprichava nela. Tratava-se de brio profissional, pois era escriturário da Secção de Pessoal do STCP.

Durante toda a vida registou com a sua letra desenhada, em livros volumosos, todas as ocorrências - faltas, atrasos, participações, folgas e férias - com motoristas, cobradores e inspectores e demais trabalhadores da empresa.

Foi para escriturário por ser cábula. Como estava a demorar mais tempo que o razoável a concluir o secundário, o meu avô, Jaime da Ressurreição Fiel, inspector do STCP, pô-lo a trabalhar, arranjando-lhe emprego na sua empresa - onde sabia a quem devia meter uma cunha.

O meu pai teve apenas uma profissão (escriturário) e um patrão (o STCP) desde que deixou o Colégio Almeida Garrett até, poucos anos após 25 de Abril, sido reformado antecipadamente, vítima pela massificação das máquinas de escrever electrónicas, que tornaram tecnologicamente obsoleta a sua bonita e bem desenhada caligrafia.

Na geração dele, uma pessoa atravessava a vida munido de uma única profissão e trabalhando numa única empresa.

Na minha geração já não está a ser assim. Entusiasmado com a perspectiva de conhecer gente variada e de viajar muito e à borla, apostei em ser jornalista ainda antes de acabar o curso.

Como não sou daquele tipo de pessoas que olha para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único, estou em crer que vou conseguir chegar ao fim da minha vida de trabalho desempenhando uma única profissão, a de jornalista.

Mas ao contrário do que acontecia na geração do meu pai, na minha geração é impossível uma pessoa manter-se no mesmo emprego durante toda a vida.

Ao longo dos 32 anos que levo como jornalista, já trabalhei em nove empresas (na foto que encima este post estava em 1982 no Comércio do Porto) , com os mais variados vínculos laborais, já estive contratado a prazo, já fui biscateiro, escrevi notícias, histórias e crónicas, em diários semanários e revistas, sobre quase tudo, desde o desporto até economia, passando pela política e casos do dia.

Na geração do meu pai era usual passar a vida com a mesma profissão e emprego. Na minha geração ainda é viável ter uma única profissão mas a trabalhar em diferentes empresas. Na geração dos nossos filhos será impensável manter-se no mercado de trabalho com a mesma profissão durante toda a vida.

Teimar em recusar uma flexibilização da legislação laboral que facilite a contratação e o despedimento é ignorar os sinais enviados por um mundo em louca aceleração, em que as dez profissões mais procuradas nos EUA não existiam em 2004 - e em que as escolas estão a preparar estudantes para empregos e profissões que ainda não foram criados, em que usarão tecnologias que ainda não foram inventadas, para resolver problemas ainda não equacionados.

Jorge Fiel

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Quinta-feira, 28 de Julho de 2011
É preciso parar de construir

A CONSTRUÇÃO na periferia de estradas, escolas, hospitais e centros comerciais fez com que as duas mais importantes áreas metropolitanas do país passassem a ser aglomerados policêntricos

As 350 mil casas que estão à venda demorariam três anos a escoar se, no entretanto, as imobiliárias não continuassem a encharcar o mercado com mais oferta (a fileira da construção tem uma velocidade de travagem em tudo idêntica à dos superpetroleiros) - e se o ritmo das vendas se mantivesse igual ao de 2010, o que é altamente improvável, pois, para ressuscitar o arrendamento, a troika impôs medidas que penalizam a propriedade e a banca passou da fase em que andava atrás de nós para nos emprestar dinheiro para a de andar atrás do nosso dinheiro.

Não é preciso ser um Einstein para perceber que já terminou o tempo em que as áreas metropolitanas do Porto e Lisboa cresceram anarquicamente como manchas de azeite, fazendo a fortuna de empreiteiros habilidosos e o upgrade de patos-bravos. Agora é preciso parar de construir e passar a reabilitar.

Um país com a dívida soberana classificada como lixo não se pode dar ao luxo de ter um milhão de habitações a precisar de obras e 100 mil milhões de euros empatados em casas vazias. No coração do Porto há 15 mil edifícios a cair. Do total de 55 350 edifícios existentes em Lisboa, 4618 (8%) estão abandonados e 7700 ameaçam ruir.

Face a esta situação é impossível não achar estranho que, apesar do programa de obras no Parque Escolar promovido pelo Governo Sócrates, a reabilitação pese menos de 7% no nosso mercado construção, quando em Espanha vale 29% e a média europeia é de 36%. Requalificar, reordenar e reabilitar são as soluções para desatar o nó complexo que nos impede de progredir.

Após o 25 de Abril, as cidades portuguesas cresceram de uma forma caótica e desordenada. O congelamento das rendas, decretado no Estado Novo e mantido pela jovem democracia, teve o efeito perverso de ser o pai de uma explosão desordenada e difusa das periferias de Lisboa e Porto.

Favorecidas pelo forte aumento do poder de compra, democratização do automóvel e multiplicação de vias rápidas e auto-estradas, as periferias das grandes cidades esvaziaram os centros urbanos tradicionais, assumindo o papel de poderoso imã que atraiu dezenas de milhares de jovens casais.

A construção na periferia de estradas, escolas, hospitais e centros comerciais, para servir as populações em movimento, fez com que as duas mais importantes áreas metropolitanas portuguesas passassem a ser aglomerados urbanos policêntricos.

A desertificação dos centros cívicos e os movimentos centrífugos dos últimos 30 anos têm de ser contrariados por um esforço de ressurgimento dos centros históricos, criando condições para que eles voltem a ser habitados e tenham uma vida activa para além das horas de expediente dos serviços.

Este esforço centrípeto é essencial para manter o Porto como um destino «trendy» para os turistas estrangeiros e para que seja restabelecido o equilíbrio ecológico na malha urbana.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 11:14
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Segunda-feira, 25 de Julho de 2011
Tenho uma namorada nova

Estou careca de saber que a Isabel não vai levar nada a bem este título. Para amaciar o meu regresso a casa (hoje, como estou de fecho, vai ser tarde, já na terça-feira, o que acaba por ser uma vantagem, pode ser que ela já esteja a dormir), prudentemente resolvi substituir a minha foto com 54 anos por uma outra do tempo em que estava a deixar de ser analfabeto na escola da Junta do Bonfim, no Campo 24 de Agosto.

Nesta Europa da crise e da abundância, o único factor que se está a tornar escasso é a atenção humana. Está tudo estudado. No máximo, as pessoas demoram 15 a 20 minutos por dia a ler o seu jornal. Para ter uma boa hipótese de ser lido por um número razoável (5%?) do milhão de leitores JN, achei melhor apetrechar-me com um título sexy e uma fotografia apelativa. A vida é mesmo assim. Para sobreviver nesta selva da palavra escrita, um homem tem de dar nas vistas - não é por os alegados autores serem Saramagos ou Lobo Antunes que os livros assinados por figuras televisivas entram directo no top de vendas FNAC e lá se eternizam...

Ou seja, não é verdade que tenha uma namorada nova, mas estou a viver uma sensação que é prima remota desse magnífico estado de transporte.

E o objecto deste enamoramento não é a Scarlett Johansson mas antes o Governo Passos Coelho, que, salvaguardadas as devidas distâncias, é tão novo nas suas quase sete semanas de vida como era a actual actriz fetiche de Woody Allen quando me devastou no imperdível Lost in Translation.

Ao tomar conhecimento dos tiques, toques e idiossincrasias dos novos governantes sinto-me um adolescente a descobrir os cheiros, manias, virtudes e defeitos de uma namorada nova.

Estou convencido de que é genuíno o tique Massamá/muamba do carácter frugal de um primeiro-ministro casado com uma fisioterapeuta guineense de anca larga que não se importa de desmentir o "Povo Livre" no lamentável episódio do "desvio colossal" e faz questão em viajar em económica nos voos europeus.

Não consigo disfarçar a minha admiração por um ministro da Economia que teima em visitar empresas, pede para lhe chamarem Álvaro e não renega as opiniões desassombradas que deixou escritas em artigos, livros e blogues.

Aprecio muito o sentido de humor Monty Python de um ministro das Finanças que expressa pausadamente um raciocínio fluído - e usa sempre fatos dois números acima do seu e umas olheiras que só podem ser um certificado de stakhanovismo (na dúvida sobre o significado desta expressão, faça o favor de consultar o Google).

Nunca pediria namoro a Assunção Cristas, mas estou em crer que ela deve ser uma óptima dona de casa, uma rapariga poupada, adequada aos novos e rigorosos tempos em que todos tentamos sobreviver.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 11:09
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Quinta-feira, 21 de Julho de 2011
O fato de treino de Belmiro

Terá Manuel Braga da Cruz dimensionado que com o seu dress code afastaria da Católica Mark Zuckerberger, pois o genial inventor do Facebook não dispensava os chinelos de piscina?

A minha consideração pelo engenheiro Belmiro já era elevada, mas subiu uma data de pontos naquela tarde de um sábado de Verão, em 1990, no lanche que se seguiu a uma partida-exibição de Boris Becker numa quadra de ténis improvisada no Estádio do Bessa.

A organização era do falecido Banco Fonsecas & Burnay, à época presidido por Pedro Rebelo de Sousa, que tratou de juntar no evento a fina flor da sociedade e finança de Lisboa e do Porto.

Já não me recordo se o convite incluía ou não dress code, mas pelo sim, pelo não, optei por fardar-me com um blazer, na observância da regra número 1 da minha política de indumentária que se resume numa palavra (camuflagem) e consiste em usar roupa que não chame a atenção.

A opção pelo blazer foi acertadíssima. Os convidados do Rebelo de Sousa mais novo trajavam todos o casual semichique, do estilo: casaco azul, camisa às riscas ou pólo (preferencialmente Lacoste ou Ralph Lauren), calças de algodão (na altura as vermelhas estavam muito na moda) e mocassins ou sapatos de vela.

Apesar do seu colorido fato de treino ser era o único ruído naquela paisagem homogénea, Belmiro aguentou firme e até ao fim a função social lanche/beberete, de copo na mão e ao lado da doutora Margarida, numa inequívoca demonstração de atitude - não consigo arranjar outra palavra que reúna o amor-próprio, ego, confiança e segurança que exalam deste comportamento.

Confesso a minha cobardia. Se chegasse de jeans, camisa de fralda de fora e crocs a uma sala cheia de gente de fato e gravata, eu engrenava logo a marcha-atrás e fugia do local a sete pés.

Para não arranhar a ideia bastante lisonjeira que tenho de mim próprio, convenci-me de que esta atitude (era precisamente por a mesma palavra poder significar coisas diferentes que Barthes qualificou a linguagem como fascista) de procurar sempre confundir-me com a paisagem é a mais adequada à minha condição de jornalista - que por definição deve ser um observador e não o centro das atenções.

Os códigos de vestuário estão cada vez menos rígidos e quase toda a gente já percebeu que também nesta matéria é preciso afrouxar o nó da gravata - no sentido figurado mas também literal.

Menos regras, mais flexibilidade e muito bom senso devem ser o alfa e o ómega da nossa actuação no século XXI.

Ao desaconselhar os alunos de frequentarem as aulas de calções e havaianas, a Universidade Católica está a revelar-nos que ficou presa no tempo, algures em meados do século XX. Terá Manuel Braga da Cruz dimensionado que com o seu dress code teria afastado da Católica Mark Zuckerberger, o genial inventor do Facebook, que não dispensava uns chinelos de piscina.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 11:05
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Segunda-feira, 18 de Julho de 2011
O maravilhoso mundo dos porcos

“Qual é o nome deste animal?”, perguntou, espantado, o explorador James Cook ao ver um animal a deslocar-se aos saltos. “Kangooroo”, respondeu-lhe o nativo australiano, o que no seu dialecto queria dizer “não compreendo”. Foi deste equívoco linguístico que nasceu o nome comum desta espécie simpática.

Ao invés do canguru, o porco e o burro não tiverem sorte nenhuma com o baptismo, o que tem marcado  muito negativamente a existência destas duas classes de mamíferos pelas quais nutro uma enorme admiração.

Sei que o carinho que me inspiram burros e porcos se deve em boa parte ao complexo de Robin Hood que me habita desde pequenino e levou a que na infância sonhasse ser veterinário e na adolescência devorasse o essencial das obras de Marx (com excepção do inabordável Capital, o que me obrigou a aprender em vulgatas as bases económicas da teoria económica marxista), Lenine e Trotsky, para ficar apetrechado a integrar a vanguarda da revolução que poria termo às injustiças e desigualdades – e construir um mundo melhor.

Se eu e os revolucionários da minha geração não tivéssemos falhado estrondosamente esta tarefa, estou seriamente convencido que nesse mundo melhor se procederia a um rebranding dos burros, rebaptizando-os com um nome que fizesse justiça à sua imensa capacidade de trabalho e humildade, e dos porcos – relevando o papel absolutamente fundamental que eles têm nossas vidas.

A ternura que os porcos me inspiram, leva-me a acompanhar os desenvolvimentos da investigação científica sobre estes animais que constituem a matéria de um sem número de divinais iguarias, como o leitão assado, presunto, rojões, etc.

O hábito dos porcos se rebolarem na lama era explicado pela necessidade de manterem a pele fresca, pois não têm glândulas sudoríparas. Ora um estudo de um cientista holandês, publicado no Applied Animal Behavior Science, lança uma nova luz sobre a matéria ao garantir que os porcos se rebolam na lama para serem mais sexy (tal como as mulheres se maquilham ou os homens se perfumam) e assim atraírem os parceiros para a reprodução.

Na semana passada, cientistas sul-coreanos concluíram com sucesso a modificação genética de um porco de modo a aumentar as probabilidades de usar os seus órgãos em transplantes para seres humanos e diminuir as probabilidades de rejeição.

Partilho estas informações na esperança que elas vos ajudem a olhar de outra maneira para os porcos e a compreenderem porque é que às vezes, ao ler no nosso JN o relato de alguns actos cometido por membros da raça humana, me dá vontade de adaptar a famosa frase de Madame De Stael e desabafar: “Quanto mais conheço os homens, mais gosto dos porcos”.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 16:46
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Domingo, 17 de Julho de 2011
Joaquim Jorge

Arquimedes formulou o princípio que o celebrizou ao tirar a correcta ilação científica do facto da água transbordar à medida que o seu corpo mergulhava na banheira. O Eureka de Joaquim Jorge (mais conhecido por Jota Jota, ou tão só Jota) deu-se quando ele estava na cama da sua moradia, no centro de Gaia.

Por um lado, queria ter intervenção política e não estava bem a ver nem como nem aonde. Por outro, estava farto do formato habitual: “um político a falar durante mais de uma hora, metade de sala a dormir, no final três perguntinhas da assistência e está feito, vai tudo para casa”.

O Clube dos Pensadores (a madrinha foi Graça, a mulher com quem está casado há 27 anos) foi a solução para esta equação. “Votar não chega. É uma fórmula pobre de intervenção. Nós, os cidadãos, temos de questionar o poder e exigir aos políticos que nos prestem contas. Isto para mim é muito claro, mas parece que é escuro”, explica Jota, 53 anos (faz 54 a 30 de Agosto), que se licenciou em Biologia depois de ter andado no Colégio Brotero, e foi professor de Biologia no Secundário e na Escola Superior de Enfermagem.

Gaia é o centro de gravidade dele. É lá que vive e trabalha. E o GaiaHotel, na avenida da República, a sede onde se realizam os debates do Clube dos Pensadores. Mas nasceu e cresceu em São Mamede, onde o pai era o dono da Favorita e ele jogou andebol na Académica e futebol no Infesta. Talvez tenha sido por esta ligação a Matosinhos que escolheu almoçarmos no restaurante do seu amigo Zeferino, um transmontano de Mesão Frio que deitou âncora perto da lota.

Jota tem um farto curriculum de desportista (além do andebol e do futebol, foi campeão nacional de futsal pelos Dragões 85) e ainda continua a jogar futebol de sete, às 2ª e 6ª, em partidas em que também alinha Pedro Miguel, 22 anos, estudante de Engenharia, o seu filho único que passou pela formação do FC Porto, onde foi treinado por André Vilas-Boas.

“Nos dias de jogo vou para cama de gatas”, confessa, o que explica a disciplina com que encarou a refeição – não tocou no vinho, comeu um filete de pescada, metade do meio bife e metade da meia torta de limão feita por Maria, a mulher de Zeferino. Quer manter o peso nos 85 kg (mede 1m80) para poder continuar a jogar futebol duas vezes por semana.

A ideia do clube demorou apenas três meses a passar da potência ao acto. Em Março de 2006, Vicente Jorge Silva, dava o pontapé de saída para a actividade do Clube dos Pensadores que já promoveu 53 debates com gente tão diversa como Passos Coelho, Vítor Baía, Portas, Alegre, Santana Lopes, Carvalho da Silva, Medina Carreira, Louçã, Luis Filipe Menezes e João Jardim – e deu origem à publicação de dois livros.

Mais de cinco anos volvidos, o formato dos debates mantém-se inalterado. O convidado fala no máximo 20 minutos, após o que a iniciativa passa para a plateia. Cada interveniente tem três minutos para fazer uma pergunta. A sessão dura duas horas e termina às 23h30 em ponto.

“Os políticos deviam usar as orelhas para conquistar as pessoas – seduzir a ouvir e não só a falar. Mas não é isso que acontece. Nós temos duas orelhas e uma boca. Mas até parece que os políticos têm duas bocas e apenas uma orelha”, explica JJ, acrescentando que além dos debates o clube também é um blogue (clubedospensadores@blogspot.com) e um programa de rádio (4ª feira, entre as 19 e as 20h) no Rádio Clube de Matosinhos.

A estrutura é ligeira e flexível. Para ser membro (há cerca de 1500 inscritos) basta pagar um euro, ficando-se assim habilitado a receber, por mail e SMS, informação sobre as actividades do clube e a participar no jantar privado com o convidado que antecede o debate.

“Namoro com os cidadãos. Não estou casado com eles. Não há obrigações”, declara Jota que tem de puxar pela imaginação para financiar as actividades do clube sem ter de recorrer ao seu próprio bolso (o que acontece com alguma frequência). Bagão Félix, em Setembro, é o senhor que se segue.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 

 

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Dom Zeferino

Rua do Godinho 163, Matosinhos

Pataniscas de bacalhau … 3,00 euros

Água das Pedras ... 0,70

Lusitano (branco da Ervideira) … 6,50

1/2 Filetes de pescada com arroz de feijão … 9,00

Bife à D. Zeferino … 13,00

Tarte de limão.. 3,50

3 cafés ………………2,70

Total ……………….. 38,40 euros

 



Publicado por Jorge Fiel às 11:30
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Sábado, 16 de Julho de 2011
Miguel Castro Silva

Na Bretanha, o carapau não chega a vir para terra. É apenas usado como isco. Isso explica o ar de espanto com que chef bretão Olivier Roellinger (três estrelas Michelin) perguntou “Ça se mange?” quando o Miguel lhe falou de carapau.

Foi esta conversa que deu origem ao tártaro de carapau com gengibre em sopa de coentros, um dos pratos do banquete que degustamos no Largo, o restaurante que Frederico Collares Pereira abriu no Chiado, entregando o comando da cozinha a este Miguel e confiando a  outro Miguel (Câncio Martins) a transformação dos claustros do Convento da Igreja dos Mártires num espaço onde o moderno e antigo se casam num ambiente especial. 

“Trata-se de um prato desagradavelmente saudável, azeite, limão, gengibre e o carapau, que é um peixe azul”, discorre Miguel Castro Silva, 50 anos, naquele tom sarcástico que o caracteriza, precisando que o gengibre entra só para emprestar frescura, não para dar sabor.

Filho de um oftalmologista português e de uma alemã, nasceu no Porto, onde estudou no Colégio Alemão. A música foi a sua primeira paixão. Amigo e vizinho de Rui Veloso, no Pinheiro Manso, teve uma banda com Toli (o baterista dos GNR) e sonhou ser pianista. As suas interpretações de peças de Mozart e Chopin fizeram dele o aluno favorito da Juventude Musical Portuguesa. Até que, aos 14 anos, “alguma coisa se fechou” e abandonou o piano.

Foi para Kiel, sob o pretexto de estudar Biologia Marinha. Mas o que ele queria mesmo era viver da música. Quando desistiu dos estudos, da Alemanha e do sonho de ser músico, fez a tropa em Santarém (para manter a nacionalidade portuguesa), e começou a trabalhar como product manager de um suíço. “ Nunca ganhei tanto dinheiro nem viajei tanto como durante esses cinco anos”, recorda. 

Por azar zangou-se com o suíço ao mesmo tempo que fechou a têxtil onde a mulher trabalhava. Estava com 30 anos e resolveu abrir um restaurante. Os anos 90 estavam a começar. Os primeiros tempos não foram fáceis.

“ Na altura, abrir um restaurante sem filetes de pescada ofendia a honra portuense. Fui insultado por cozinhar bacalhau com vinho do Porto”, conta Miguel, que atingiu a consagração com o Bull & Bear (o 3º dos seus restaurantes), eleito em 97 pelo Financial Times como um dos 25 melhores da Europa.

Quando há dois anos, Frederico Collares Pereira o desafiou a trocar Leça pela Lapa, já tinha as suas credenciais estabelecidas. Na viragem do milénio, a Academia Portuguesa de Gastronomia proclamou-o cozinheiro do ano. E a partir de 2007 passou a ter três receitas no Larouse Gastronomique.

José Quitério confessa não perceber como é que os portuenses não o impediram de se mudar para a capital: “No lugar deles tinha fechado a ponte da Arrábida”. Miguel explica a mudança, adaptando uma tirada de Cavaco: “Deixem-me cozinhar” (já estava farto de ser ao mesmo tempo chef e empresário de restauração).

Degustar um banquete na companhia do chef que inventou o que comemos e bebemos (um Dão branco, Paços dos Cunhas, em parceria com Carlos Lucas, e um Douro tinto, Cassa, em parceria com Rui Madeira) é um privilégio idêntico ao ver um filme com o realizador a comentar ao nosso lado.

Para memória futura aqui fica um relatório sintético de uma experiência inolvidável: creme de coentros com tomate assado (amuse bouche); vieiras grelhadas em infusão de dois azeites com colorau e alho (não descascado); lulinhas salteadas em azeite sobre batatas crocantes cozinhadas com pele (“Já me insultaram por ter tentado tirar esta entrada da lista”); tártaro de carapau;  risotto de rucola e robalo escalfado com lingueirão (“Ainda não tinha provado este prato. Às vezes não tenho paciência para a minha cozinha… “); carrilheiras de porco preto em vinho tinto com cominhos (“Tento ter sempre na lista alguns pratos bem portugueses”).

Para rematar três sobremesas: Parfait de amêndoa com molho moscatel; mousse de chocolate zero graus com praliné de avelã; gratinado de maçã com molho de baunilhas.

“Não gosto de fazer sobremesas. E como não as como, tenho tendência a fazer sobremesas pouco doces”, explica, antes de sintetizar numa frase a sua teoria: “Comer com prazer sem que isso signifique um exercício intelectual”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

 

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Largo

Rua Serpa Pinto 104, Lisboa

Frederico Collares Pereira foi intransigente na decisão de não me deixar pagar. Quando insisti, explicando que era importante dar aos leitores uma ideia de quanto custaria fazer uma refeição destas, fez o seguinte exercício de preço por pessoa para um almoço em que dois comensais partilhassem um menu Largo e a sobremesa:

 Largo…  29,00

Água Chic 1 litro … 3,90

1 copo branco Paços dos Cunhas de Santar … 5,00

1 copo tinto Cassa … 5,50

Mousse chocolate … 5,50

1 café …. 2,00

Total … 50,90 euros

 

 

Curiosidades

 

Como a licença para iniciar as obras no Largo (um espaço que era usado como armazém de material eléctrico) demorou 18 meses a chegar, Miguel foi-se entretendo em formatar a lista da petisqueira lisboeta De Castro Elias, o restaurante onde Isabel dos Santos fechou o negócio de entrada na Zon – e gostou tanto da comida que contratou a cozinheira para o restaurante Ondah, em Luanda

 

“A América não é a Europa. E a Europa não é Portugal. Se Alain Ducasse viesse para cá, o restaurante dele fechava em três meses”, vaticina Miguel

 

“Desde miúdo que gostava de cozinhar”, confessa Miguel, que praticou muito com tachos e panelas durante os anos em que estudou e viveu na Alemanha, entre Kiel e Munique, já que cozinhava para os colegas com que partilhava o apartamento. “Assim não tinha de levantar a mesa e lavar os pratos, explica.



Publicado por Jorge Fiel às 15:03
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Quarta-feira, 13 de Julho de 2011
O Vaticano não perdoou a Eva

Mal se passa o cabo do meio século de existência, a tendência é para começarmos a abusar de frases começadas por "no meu tempo... " e seguidas por idiotices (o ar era mais arejado, o açúcar mais doce, a água mais aquosa...). O lado B da experiência de vida é o aumento exponencial da nossa capacidade de azucrinar o juízo às pessoas mais novas que por algum motivo são obrigadas a aturar-nos.

No meu tempo, as raparigas não podiam ir de calças para a escola, só havia um liceu misto no Porto (o Garcia de Orta), as telefonistas não podiam casar-se, os polícias eram velhos, pançudos e usavam todos bigode - e se alguém ousasse defender em público que as mulheres deviam ir para a tropa o mais provável era ser logo internado no Conde Ferreira, o hospital dos malucos.

Os tempos mudaram. Hoje, as mulheres podem ser polícias ou militares, e vestirem calças, saia ou calções. Mais. Toda a gente pode casar, até os gays. A única excepção são os padres e, vá lá, as freiras, que essas não podem escolher o noivo (são todas casadas com Deus).

As mulheres continuam a ser mais afectadas pelo desemprego e estarem sub-representadas nos postos de comando da política e das empresas - só há uma mulher a presidir a uma empresa do PSI 20 e duas entre onze ministros. Mas a eleição de Assunção Esteves para a presidência do Parlamento, aplaudida de pé, urbi et orbi, por gente de todos os credos, é sintomática do caminho já percorrido no sentido de conceder igualdade de oportunidades aos cidadãos dos dois sexos.

Em Portugal, depois do BCP ter deixado de usar o género como critério de admissão, a Igreja Católica passou a ser a única grande instituição a discriminar as mulheres.

E quando o patriarca de Lisboa tentou abrir uma janela neste quarto bafiento e obscuro da Igreja, ao afirmar que "teologicamente não há nenhum obstáculo à ordenação de mulheres", logo lhe caíram em cima os radicais do Vaticano, invocando as palavras escritas por João Paulo II - "Declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada definitiva por todos os fiéis da Igreja".

Transformar em dogma a discriminação das mulheres é teimar em mostrar a face retrógada de uma Igreja que nunca perdoou a Eva o alegado pecado original de ter levado Adão a cair na tentação de comer a maçã - e que se revela no carácter vingativo de hereditários de punições constantes do Génesis, como o "darás à luz com dor" ou o "ganharás o pão com o suor do teu rosto".

Se quiser pertencer a este tempo e ser atractiva para as novas gerações, o Vaticano tem de rever os dogmas do celibato dos padres e deixar de discriminar as mulheres, vedando-lhes o acesso ao sacerdócio.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 21:51
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Segunda-feira, 11 de Julho de 2011
Eu, galego do sul

Lisboa, no canto do cisne que nos atirou para o buraco negro em que sobrevivemos, persiste em agredir cegamente a cidade onde Portugal foi buscar o nome e a região que foi o seu berço.

Acho que todos nós, pelo menos uma vez na vida, nos interrogámos porque raio é que o bom do D. Afonso Henriques se virou para Sul, e não para o Norte, quando se tratou de dar forma e assegurar o espaço vital ao país que fundou a partir do Condado Portucalense.

Tenho boas razões para desconfiar que seríamos bem mais prósperos e felizes se o fundador e seus sucessores tivessem seguido a direcção indicada pela bússola em vez de terem ido por aí abaixo, de espada em punho, a fazer guerra aos mouros, só se detendo quando chegaram às praias algarvias.

O problema é que, apesar de imensamente sedutora, esta opção era desadequada, talvez até mesmo irrealista, à luz dos equilíbrios políticos da Península em meados do século XII.

A passividade com que o seu primo Afonso VII e a monarquia leonesa observaram a emancipação do Condado Portucalense deve-se ao facto de Afonso Henriques ter optado por combater o império almorávida, conduzindo os seus exércitos para além do Tejo.

Tivesse o fundador ousado atravessar o rio Minho, em vez de fazer guerra aos muçulmanos, e a realidade política da Península Ibérica seria hoje radicalmente diferente.

Por muito que nos custe, esse pecado original a que o nosso primeiro rei foi impelido deve-se a um pragmatismo que não lhe podemos censurar.

Hoje, quase nove séculos volvidos sobre o seu nascimento, Portugal combina uma invejável unidade linguística e as fronteiras mais estáveis e antigas da Europa com uma enorme diversidade de culturas, caracteres e paisagens.

Não é preciso ser antropólogo (basta ter olhos na cara) para constatar que um minhoto é muito parecido com um galego - e muito diferente de um alentejano ou algarvio. E não é preciso ser um geógrafo para observar, à vista desarmada, que a serra dos Candeeiros é a fronteira que cose dois países diferentes unidos há séculos pela política mas separados pela geografia e costumes.

Ignorante da história e da realidade do país que a sustenta, Lisboa, no canto do cisne do centralismo que nos atirou para o buraco negro em que sobrevivemos, persiste em agredir cegamente a cidade onde Portugal foi buscar o nome e região que foi o seu berço.

Quando se trata de portajar as Scuts, não começa pela mais antigas - mas pelas do Norte. E quando se trata de pôr em prática o criminoso plano de liquidação da rede ferroviária, começa por fechar a ligação Porto-Vigo - enquanto reabilita a linha das Vendas Novas.

É nestes momentos de revoltas, cada vez mais frequentes, que questiono a opção geográfica de Afonso Henriques - e me sinto mais um galego do sul do que um português do Norte.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 21:48
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Sexta-feira, 8 de Julho de 2011
Remendados, mas não rotos

Incomoda-me dever dinheiro. Não é racional. Pelo contrário, é completamente irracional. Tem tudo a ver com a minha educação. Cresci e fiz-me homem impregnado nos valores doutrinários do Estado Novo - pobrezinhos mas honrados, remendados mas não rotos - que me ficaram tatuados no carácter.

Como tenho vergonha de dever dinheiro (e um orgulho indisfarçado na condição de remediado mas sem dívidas), nunca cedi à tentação de comprar a crédito outra coisa senão apartamentos. Carros, viagens, tapetes, electrodomésticos diversos, adquiri-os sempre a pronto pagamento.

Apesar de todas as contas de somar, subtrair, dividir e multiplicar concluírem que era melhor negócio continuar a dever, a primeira coisa que fiz quando recebi os 179 629 euros que o dr. Balsemão pagou para se ver livre de mim foi liquidar os dois empréstimos à habitação das minhas cassas em Lisboa (onde trabalhava) e Porto (onde vivia).

No entanto, posso garantir-vos que o meu raciocínio não está turvado pela irracionalidade pequeno-burguesa e judaico-cristã que me faz sentir feliz por ter chegado aos 55 anos sem dever um cêntimo e senhor de um património material onde constam dois apartamentos, outros tantos carros, dezenas de quadros, centenas de discos e milhares de livros.

O fim de longas e penosas privações é inevitavelmente pontuado por excessos e abusos.

Os desvarios dos anos quentes de 74 e 75 foram o escasso preço pago por 48 anos sem liberdade.

A factura que estamos a pagar pelo excessivo endividamento dos particulares só é demasiado pesada porque as entidades que se deveriam comportar com mais racionalidade - Estado e empresas - não quiseram perceber que à míngua de poupança das famílias não poderiam continuar a endividar-se a um ritmo alucinante, como se não houvesse amanhã.

Até à nossa adesão ao euro, as taxas de juro eram tão altas que o acesso ao mercado de crédito estava vedado às famílias.

Com a democratização do crédito e o embaratecimento do dinheiro, estimulados pela banca e abençoados pelos governos, as famílias desataram a queimar etapas e a endividarem-se para terem o que dantes não podiam comprar - carros, plasmas, cozinhas, computadores...

Nesta hora de juízo final, peço a todos que tenham a decência de não apontarem o dedo acusador ao endividamento das famílias.

Para terem a certeza que encontram os culpados devem voltar o olhar para a banca, que andava por aí a oferecer dinheiro e para os governos que fechavam os olhos a este bordelo, satisfeitinhos da vida pela explosão do consumo privado ser a locomotiva de um crescimento pouco saudável do PIB.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 21:43
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Quarta-feira, 6 de Julho de 2011
Gosto das Anas, mas não gosto da ANA

Por um daqueles acasos em que a vida é fértil, as minhas primeiras quatro namoradas chamavam-se Ana - presumo ninguém leva a mal que esteja a simplificar, pois na verdade as duas primeiras foram inglesas e por isso Ann e não Ana.

Serve esta evocação dos risonhos primórdios da minha vida sentimental e sexual para estabelecer que nada me move contra as Anas - muito antes pelo contrário.

Já o mesmo não poderei dizer o mesmo sobre a ANA (escrita assim, tudo em maiúsculas, por ser a sigla da empresa que gere os aeroportos de Portugal), e da TAP, por achar que estas duas empresas públicas sempre subalternizaram o Norte, privilegiaram os interesses de Lisboa.

O aeroporto Sá Carneiro e o porto de Leixões são infra-estruturas estratégicas para afirmação do Porto como capital do Noroeste Peninsular e têm-se comportado à altura da sua missão, apesar das manobras lisboetas para os estrangular.

O lóbi feito pelos empresários do Norte salvou, no ano passado, o rentável porto de Leixões a uma tentativa de centralizar a sua gestão em Lisboa, numa espécie de ANA dos portos, onde diluiria no prejuízo dos outros portos o lucro alcançado com uma gestão competente.

E está bem viva na nossa memória a tentativa de assassinato a sangue frio do Sá Carneiro, perpretada pela TAP ao retirar-lhe a esmagadora maioria das ligações directas, diligentemente centralizadas em Lisboa.

O nosso aeroporto apenas sobreviveu porque a a Lufthansa e Ryanair identificaram na deserção da TAP uma oportunidadede que rapidamente tiraram partido. Os alemães reforçaram logo o número de voos diários do Porto a Frankfurt, usados pelos homens de negócios nortenhos que preferem escalar um aeroporto nas margens do Meno do que do Tejo.

Muito provavelmente, a TAP deve a sua sobrevivência à estratégia de Fernando Pinto em apostar nas rotas de Luanda e Brasil. Mas, no essencial, o Sá Carneiro deve a sua sobrevivência a um irlandês chamado Michael O'Leary, que anunciou o início da operação portuense da Ryanair vestido com uma camisola do FCPorto, no ano em que Mourinho se transferiu para o Chelsea após ter levado os dragões à conquista da Champions.

Eleito o melhor aeroporto do mundo da sua categoria, na sequência de um inquérito a 300 mil utilizadores, o Sá Carneiro prospera, com o número de voos, passageiros e carga a cresceram em percentagens superiores à dos seus concorrentes nacionais. Mas para continuar a crescer, precisa de separar o seu destino do do aeroporto de Lisboa e ter uma gestão privada.

Como não desagrega as contas de cada um dos aeroportos que gere, a ANA não consegue desmentir a suspeita, levantada pelo presidente da AEP, de que o bem sucedido Sá Carneiro está a subsidiar outros aeroportos

A questão não é nova mas continua pertinente. Se o aeroporto do Porto não é bom negócio, por que é que não o entregam aos empresários que o utilizam e disseram presente quando Sócrates os desafiou nesse sentido?

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 21:39
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Terça-feira, 5 de Julho de 2011
Há sempre tempo e dinheiro

O segredo para perder peso não é deixar de comer mas sim alterar de forma consistente os nossos hábitos alimentares - consumindo melhores alimentos, em menores quantidades e mais vezes ao dia - e levar um estilo de vida saudável.

Sei perfeitamente que estas coisas são muito mais fáceis de escrever do que fazer.

A minha barriga é a prova viva da enorme quantidade de vezes em que após ter saltado o almoço (ou o ter enganado com um sanduíche comida à pressa) e de me atestar com um jantar copioso e fora de horas, cedi à tentação do sofá e do comando da televisão, fazendo orelhas moucas aquela vozinha irritante e responsável que me aconselhava a ir a pé até ao café.

Fazer dieta não é deixar de comer - o que nos atiraria directos para o extremo fatal da anorexia.

Da mesma maneira, emagrecer o nosso Estado obeso não significa deixar de investir, o que nos atiraria para a situação ridicularizada na história do cavalo do espanhol estúpido - que ao abrir o estábulo e deparar com o animal feito cadáver desabafou: "Logo agora que se tinha habituado a não comer é que ele foi morrer...!".

Vêm estas ideias gerais (e estou em crer que consensuais) a propósito do que deve o novo Governo fazer pelo nosso país durante os nove trimestres consecutivos de recessão em que vamos ter de sobreviver, de acordo com as previsões do ministro das Finanças, que tem o ar e a fama de ser homem de boas contas.

Tempos excepcionais exigem políticos e políticas excepcionais. E ninguém duvidará de que 27 meses seguidos a destruir riqueza são um tempo de excepção, em que os governantes não se podem esconder atrás do biombo das desculpas da falta de tempo ou de dinheiro.

Há sempre tempo e há sempre dinheiro, por muito escassos que eles sejam - e infelizmente são-no.

A grande questão reside em escolher criteriosamente onde investir esses recursos escassos. E o investimento em transportes públicos movidos a energias limpas e não poluentes tem de estar na primeira linhas das prioridades.

E para emagrecer duravelmente um Estado como o português não basta reduzir o peso a eito, sem cuidar de reparar se estamos derreter cirurgicamente a gordura ou a ler boas noticias na balança conseguidos artificialmente à custa da perda de músculo.

Para curar o nosso Estado da obesidade mórbida de que padece, a administração pública tem de adoptar um estilo de vida mais saudável, dotando-se de elevados graus de flexibilidade e eficiência que só poderão atingidos aproximando a decisão dos cidadãos. Lisboa e o centralismo são a barriga que nos tolhe os movimentos e impedem Portugal de sair do buraco em que o meteram.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 21:34
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Sexta-feira, 1 de Julho de 2011
A parábola da vesícula

Quando acordei a meio da noite com uma desagradável sensação de enfartamento, atribuí logo as culpas a uns tomates secos ao sol que comera ao jantar e tinham estagiado largas semanas dentro de um frasco aberto no frigorífico.

Com o passar dos dias e uma dieta forçada, os sintomas foram-se aliviando, mas não completamente. Até que tropecei no meu amigo Rui Ponce Leão (provavelmente o médico mais adequado para tratar de mim, já que antes de se dedicar à medicina no Trabalho se especializou em medicina Legal), que foi rápido e certeiro no diagnóstico.

O Rui ilibou imediatamente os tomates secos ao sol. Qual intoxicação alimentar, qual carapuça! Eu padecia de uma vulgar crise na vesícula. Receitou-me dois medicamentos milagrosos, que me devolveram o bem estar, e aconselhou-me a fazer uma ecografia à vesícula, que revelou a presença hostil de duas pedras.

Com a colaboração de um outro amigo (o cirurgião Eurico Castro Alves), a intervenção de extracção das pedras ficou marcada para o Hospital de Santo António.

Passada a indisposição e aprazada a solução, foram felizes e despreocupadas as semanas que antecederam a operação. O pior estava para vir.

Depois de ter passado uma noite em branco no hospital, tive a oportunidade de constatar os pequenos inconvenientes de conviver durante onze dias com os quatro agrafos que fechavam os buracos abertos para a laparoscopia.

Quando se tem a barriga agrafada de fresco, rir é uma experiência que rapidamente evolui para o choro. É de ir às lágrimas, não de contentamento - mas sim de dor.

Esta complicada esquina da vida em que fomos apanhados e nos vai levar metade do 13º mês lembrou-me a logo a minha operação à vesícula. Nós já sabíamos que iríamos sofrer, mas vivemos felizes e despreocupados até chegada a hora de finalmente irmos à faca. A partir de agora é que as coisas vão doer.

Maquiavel recomendava ao príncipe que fizesse o mal todo de uma vez e o bem a pouco e pouco. E todos sabemos que a maneira mais indolor de arrancar um adesivo é de uma vez só - e não aos bocadinhos.

Por isso, todos rezamos para que Passos Coelho tenha ontem apresentado o mal todo de uma vez. Já percebemos e interiorizámos que vamos ter menos dinheiro para gastar, menos crédito fácil e barato, menos investimento público, mais desemprego com menos subsídio de desemprego, pensões mais baixas e serviços mais caros, como gás, transportes e comunicações. Mas poupem-nos por favor à tortura de um novo plano de austeridade por cada estação do ano. Quando se corta a cauda ao gato é preferível cortá-la de uma vez - e não aos poucos.

 

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 21:27
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Segunda-feira, 27 de Junho de 2011
O caso da doutora Dra

O caso da doutora Dra é um das mais saborosas histórias do último fôlego da presença portuguesa em Macau.

Foi assim. Como de costume, mal desembarcavam no território, os quadros vindos de Lisboa recebiam logo um dossier, competentemente preparado pelo BNU, contendo a papelada para preencherem com os dados pessoais com vista à abertura da conta onda cairiam as patacas e à emissão do conveniente cartão de crédito.

Sucede que a trintona, que mais tarde seria conhecida por doutora Dra, receosa que o banco ignorasse a sua licenciatura em Direito, feita em Coimbra, fez questão de anteceder de um Dra o nome com que fora baptizada.

A jurista (que nem que me torturem revelarei que seria mais tarde ministra de Guterres) fez mal em desconfiar da eficiência dos serviços do BNU e pagou por isso. Doutora Dra Maria... foi o nome gravado no cartão de crédito e que passou a figurar no endereço da correspondência bancária que lhe era enviada para casa. E a comunidade local passou a referir-se-lhe como a doutora Dra (com o a acentuado).

Na generalidade, nós, os portugueses, pelamo-nos por ostentar títulos (sejam académicos ou nobiliárquicos) e sinais exteriores de riqueza.

Nestes particulares, tenho muito orgulho em que estes pecadilhos não constem do meu extenso rol de defeitos.

Apesar de contar com uma licenciatura no meu curriculum, jamais deixei que um dr. antecedesse o meu nome nos cartões de crédito e sempre desencorajei, logo à partida, qualquer tratamento por doutor.

E não andarei longe da verdade se vos confessar que a principal razão para nunca ter sido multado por excesso de velocidade reside no facto de jamais ter tido um carro com potência suficiente para ultrapassar esse limite.

Vem este episódio da doutora Dra e os dois exemplos da minha modéstia (que, admito, talvez seja uma sofisticada manifestação de vaidade) a propósito de ter captado uma série de sinais positivos emitidos pelo novo Governo.

Por três vezes Passos Coelho subiu uma data de pontos na minha consideração. A primeira quando soube que abdicara voluntariamente da reforma vitalícia a que tinha direito como deputado. A segunda quando decidiu continuar a viver em Massamá. A terceira quando escolheu voar em Económica até Bruxelas - não interessa se o Governo paga ou não a viagem. O que importa é o exemplo.

Também apreciei muito que no sábado, na sua primeira aparição pública, o ministro da Economia tivesse pedido que o tratassem por Álvaro, em vez do tratamento tradicional e bajulatório de "senhor ministro".

A admiração e o respeito não se conquistam com títulos académicos, vistosos carros pretos ou poltronas de 1.ª classe. Antes pelo contrário.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 21:21
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A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.
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