Domingo, Dezembro 04, 2011

DEUS, O PENSAMENTO E A TÉCNICA

Centro de Reflexão Cristã
Novo ciclo de colóquios do CRC- 2011-2012
Colóquio I
13 de Dezembro de 2011
Terça-feira, às 18h30

Giovanni Greco, Deus Ex Machina (2008)
FERNANDO BELO
JOSÉ TRIBOLET
Local: Centro Nacional de Cultura – Galeria Fernando Pessoa
Largo do Picadeiro, nº 10, 1º - Lisboa.
[Metro: Baixa-Chiado]
ENTRADA LIVRE

Domingo, Novembro 20, 2011

O CHALET DA MEMÓRIA DE TONY JUDT

O Chalet da Memória de Tony Judt reúne os últimos ensaios publicados no New York Review of Books, escritas depois do livro Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos, que foi o seu testamento político e a que nos referimos aqui.
O livro está bem traduzido, e escrito de acordo com a nova ortografia portuguesa, lendo-se com grande prazer.
São crónicas construídas mentalmente durante as noites de insónia por Tony Judt numa fase já muito avançada da esclerose lateral amiotrópica (ELA), a doença de Lou Gehrig, que o vitimou e ditadas durante o dia, quando isso lhe era ainda possível.
Tony Judt combateu a doença, com força e determinação, que honra a dignidade e a coragem do género humano, mas este não é um livro sobre a doença, é sobre a vida que viveu, a situação cultural e política, porque a doença “o inferno não é uma experiência transmissível”, como escreveu Timothy Garton Ash.
A realidade da doença é-nos dada expressamente através de um ensaio intitulado Noite, que situa as condições em que surgiram estes ensaios e muito a propósito do desconforto que sente refere a Metamorfose de Franz Kafka.
É admirável como os ensaios se articulam de forma a constituírem uma construção ordenada e coerente a partir da memória decisiva de um momento marcante da sua vida, as férias de Inverno passadas em 1957 ou 1958 num chalet, “uma pequena pensione, um hotel de família na vila antiquada de Chesières, no sopé da abastada região de esqui de Villars, na Suiça francófona”.
As narrativas e ensaios têm uma subtil, mas real ligação entre si. O autor refere-o: “… durante estes pequenos exercícios, percebi que estava a reconstruir - como se fossem legos – segmentos entrelaçados do meu próprio passado que antes nunca pensei que estivessem relacionados”.
É um livro de memórias mas que nunca estão desligadas das suas opções sociais e políticas. Ao falar dos Autocarros da linha Verde e do seu cheiro, de a Comida ou dos comboios em o Desejo Mimético, o historiador e o cidadão estão bem presentes na análise crítica das involuções verificadas em matéria de políticas públicas de transportes.
O autor é um cidadão, cosmopolita, um social-democrata universalista, que não se limita a recordar, mas que através destes feuilletons, continua a intervir, com inteligência como humor e mesmo com ironia. Leiam-se, por exemplo, Paris foi ontem, Revolucionários ou Raparigas, raparigas, raparigas. São muito interessantes as reflexões que faz sobre a fase em que defendeu um sionismo de esquerda, os ensinamentos que disso retirou, e o olhar crítico sobre as políticas de identidade defendidas por muitos académicos, seus colegas da universidade.
Tony Judt tem o que se designa como uma identidade hifenizada, um inglês, que se considera nova-iorquino, um judeu assumido como se pode ver em Toni, que confessa “conheço melhor a liturgia do anglicanismo do que muitos ritos e práticas do judaísmo”, receia que o futuro nos traga demasiada identidades excludentes. Afirma; “… iremos ter saudades dos tolerantes, dos que estão à margem: a gente das franjas. A minha gente.” Daí o seu gosto pelas “cidades mundiais”, o seu amor por Nova Iorque.
Termina a sua viagem pelas recordações regressando às Montanhas Mágicas da Suiça, neste caso a Murren, onde “nunca nada ali correu mal”, evocando um pequeno comboio na montanha. Ele que tanto gostava de comboios, diz: “Não podemos escolher onde começar a nossa vida, mas podemos acabar onde quisermos. Sei onde estarei: a ir a lado nenhum em especial naquele pequeno comboio para todo o sempre”.
É um livro a ler e a reler, escrito por um ser humano excepcional, por um intelectual, que se afirmou até ao limite das suas forças como um social-democrata universalista.
Há só um aspecto em que espero, se engane. O comboio em que embarcou para todo o sempre não está condenado a ir a lado nenhum.

RELAÇÕES IGREJA / CULTURA

« Diálogo com criadores culturais não pressupõe

o silenciamento das diferenças»

O que é mais importante (criar, manter, repensar) na relação da Igreja com a Cultura?
A Igreja para manter uma relação mutuamente enriquecedora com a Cultura tem que encarar sem medo as transformações culturais, sociais e políticas e saber ler (e reler) permanentemente os sinais dos tempos. Tem que aprender a viver com naturalidade num mundo num processo acelerado e vertiginoso de mutação.
Num mundo em que as crises económicas e financeiras dos Estados até agora dominantes anunciam o advento de uma nova época e a emergência de novos Estados, línguas e culturas e em que os frutos da revolução científica e tecnológica e as novas tecnologias de informação invadem o quotidiano dos cidadãos, a Igreja tem de repensar permanentemente as suas relações com a Cultura.
Em Portugal, a Igreja tem vindo a promover uma Pastoral da Cultura que tem sido capaz de estabelecer pontes com muitos criadores culturais, crentes e não-crentes, e despertado comunidades cristãs para a importância da cultura para a pessoa humana ter acesso verdadeiro e pleno à humanidade. Naturalmente que há muito para fazer e repensar.
Num País em que a crise financeira, se transformou numa crise económica, existem riscos sérios de subalternização da importância da Cultura e do trabalho dos criadores culturais. O discurso sobre a necessidade do empobrecimento num contexto de crise corre o risco de esquecer que uma coisa é ter menos recursos para gastar, outra coisa é esquecer que não só de pão vive o homem, mas precisa de sentido e beleza. As despesas com a Cultura não são gastos, são investimentos numa sociedade mais justa, humana e solidária e contribuem para aumentar as exportações.
Não desistimos de ter esperança estamos certos que o desenvolvimento individual e coletivo é possível, mobilizando todos os recursos disponíveis, nomeadamente, o contributo dos criadores culturais, não apenas dos escritores e poetas, mas também dos cineastas, dos músicos, filósofos, dos arquitetos, dos dançarinos, de todos os criadores culturais sem exceção.
O repensar da relação da Igreja com a Cultura em Portugal passa por alargar e descentralizar o diálogo com os criadores culturais, crentes e não-crentes, ao longo de todo o País, estabelecendo pontes com os que se encontram espalhados pelo mundo e com o mundo de Língua Portuguesa.
O repensar da relação da Igreja com a Cultura deve assentar no direito de todos à cultura e à sua realização prática, no promover em cada pessoa a consciência do direito à cultura e do dever de se cultivar.
A atitude da Igreja no diálogo com os criadores culturais não pressupõe o silenciamento das diferenças e das divergências, mas deve ser marcada pelo saber escutar as críticas, as inquietações, as perguntas.
A relação da Igreja com a Cultura deve, como defendeu Júlia Kristeva, em Assis [27.10.2011], ousar a “aposta na renovação contínua da capacidade dos homens e das mulheres para crer e viver em conjunto (...) para que a humanidade possa prosseguir por muito tempo o seu destino criador”.

Este meu depoimento integra a edição de novembro de 2011 do "Observatório da Cultura" (n.º 16). Leia mais respostas à pergunta.

Domingo, Novembro 13, 2011

DE OLHOS BEM ABERTOS DE MANUEL MARIA CARRILHO

Para estarmos à altura do que nos acontece, precisamos de perceber como aqui chegámos e o que podemos fazer para sair daqui.
De Olhos Bem Abertos de Manuel Maria Carrilho, reúne no essencial crónicas que publicou no DN, revela-se um contributo imprescindível para este exercício. Apesar de serem crónicas datadas revelam-se de uma paradoxal actualidade, porque nascem de um olhar que soube ver para além do momento. Apenas um exemplo: “…por muito sombria e aflitiva que seja, e é, a situação no curto prazo, não vale a pena ter ilusões: só no médio/longo prazo será possível ultrapassar as dificuldades que enfrentamos”. Esta constatação não é de agora, é do ano passado, mas toda a crónica em que se insere se mantém actual.
A arquitectura do livro assenta em quatro pilares: crise, Europa, democracia/cultura e Portugal. Manuel Maria Carrilho parte da conjuntura, mas olhando sempre para além do curto prazo, tendo em consideração as reflexões de outros, que enriquecem a sua visão.
É um livro escrito com inteligência que se lê com prazer, porque é sempre inteligente e estimulante, mesmos que não partilhemos todas as suas análises e todas as suas teses, particularmente, sobre os últimos anos de governação do PS.
Se quisermos renovar a prática política dos socialistas, precisamos de o fazer com ideias novas, sem esquecer os momentos socialistas das nossas anteriores governações, mas sem escamotear que se verifica o esgotamento do modelo de desenvolvimento que foi seguido nas últimas décadas.
Partilho com Manuel Maria Carrilho a ideia que foi uma tragédia da nossa história política recente que António Guterres “o líder mais qualificado, mais dotado e mais preparado, de todos os líderes que o PS teve, não tenha tido a maioria absoluta”.
Todo o livro nos convoca para o desafio, com que conclui o prefácio: “… lutar por uma Nova República, isto é, por uma visão de futuro que (…) se estruture em torno de um novo paradigma de desenvolvimento assente na qualificação do território, das suas instituições e das pessoas, bem como a renovação dos valores da democracia e da reinvenção das causas e dos objectivos da esquerda social-democrata …”.
Manuel Maria Carrilho não é apenas um pensador, é um cidadão politicamente comprometido, que já demonstrou quando foi chamado a exercer funções políticas, que sabe fazer, e que sabe dizer não.
Teve razão quando era embaixador de Portugal na UNESCO e se recusou a votar na candidatura do egípcio Farouk Hosni, conhecido pelas suas posições anti-semitas e anti-democráticas para Director-Geral da UNESCO, o qual felizmente não foi eleito e está hoje na prisão no Egipto.
Este é um livro que se pode ler não respeitando a arquitectura que lhe deu o seu autor, mas sendo guiado pelos nossos próprios interesses ou curiosidade, saltar, por exemplo, de “E o que será um novo paradigma?” (pp40-41), para “Fado candidato” (pp.111-115) ou “A missa lusófona” (pp 115-117), e para “Fazer contas não basta” (pp. 193-196) ou as entrevistas nele transcritas.
O debate sobre o futuro de Portugal no contexto europeu e mundial numa óptica da esquerda social-democrata exige a mobilização dos cidadãos para além do âmbito do PS, como António Guterres teve a coragem de fazer quando promoveu os Estados Gerais para uma Nova Maioria. Não se trata de multiplicar reuniões, de contabilizar presenças, ou sequer contributos para legitimar resultados previamente definidos. É necessário promover um verdadeiro debate, não esquecendo que as palavras e as ideias podem ser performativas.
A crise internacional, a desconstrução da União Europeia a que assistimos, a ausência de políticas que conjuguem a necessária austeridade com crescimento económico e desenvolvimento em Portugal, tornam mais premente renovar o programa socialista sem esquecer, como refere Manuel Maria Carrilho, os “… grandes valores do socialismo, à sua matriz igualitária, e às suas grandes causas, como a igualdade, a educação, e a cultura”.
O facto deste livro nos convocar para essa tarefa, torna a sua leitura imprescindível.

Domingo, Outubro 30, 2011

EM ASSIS CRENTES E NÃO-CRENTES PEREGRINOS DA VERDADE, PEREGRINOS DA PAZ

O encontro promovido em Assis no passado dia 27 de Outubro por iniciativa de Bento XVI sob o lema Peregrinos da Verdade - Peregrinos da Paz foi um acontecimento portador de futuro.
O encontro foi apresentado como jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e pela justiça no mundo e reuniu 300 líderes religiosos, dos quais 200 não-cristãos e, pela primeira vez, e por iniciativa pessoal de Bento XVI, intelectuais não-crentes.
Cristãos de diversas confissões juntaram-se nesta iniciativa com muçulmanos provenientes de dezanove países, judeus, hindus, sikhs, budistas, taoistas, confucionistas, um zoroastriano, um baha’i e animistas africanos. Os ismaelitas estiveram representados pelo português Nazim Ahmad, facto que não é alheio à excelente colaboração existente em Portugal entre a Comunidade Ismaili e a Igreja Católica em Portugal.
Os intelectuais não-crentes eram, para além da filósofa, linguista e psicanalista francesa, de origem búlgara, Julia Kristeva, que usou da palavra no encontro, o filósofo italiano Remo Bodei, o filósofo mexicano Guilherme Hurtado, o economista austríaco Walter Baier, membro do Partido Comunista.
O encontro recordou e retomou a iniciativa que teve lugar há 25 anos, no Ano Internacional da Paz, por iniciativa de João Paulo II, associando 130 representantes de diferentes confissões religiosas para rezar pela paz, associando esta iniciativa à memória de Francisco de Assis.
Como afirmou Guilherme Hurtado aqui: “Devemos promover o diálogo entre crentes e não-crentes neste momento da história, em que estamos submersos em uma crise muito grande, para encontrar soluções comuns para os problemas comuns”.
Aliás, na passada segunda-feira, o Conselho Pontifício Justiça e Paz do Vaticano voltou a defender a criação de uma autoridade financeira mundial e criticou asperamente o “liberalismo económico sem regras e sem controlo”.
Os dois factos novos que marcam este encontro são, em meu entender, a participação de não-cristãos e a participação e a intervenção de uma mulher não-crente, Júlia Kristeva.
Bento XVI tem nos últimos tempos sublinhado a importância do contributo dos descrentes, com as suas interrogações e questões para a purificação da fé dos crentes.
A participação de Júlia Kristeva por iniciativa de Bento XVI num Encontro tem um enorme significado, que questiona o estatuto da mulher nas diferentes confissões religiosas, como muito bem sublinhou Faranaz Keshavjee num excelente post no seu blogue Crónicas de Uma Muçulmana aqui.
Júlia Kristeva, cujo discurso pode encontrar na íntegra aqui, começou por dizer:
As palavras de João Paulo II, «Não tenhais medo», não se dirigem apenas aos crentes para os encorajar a resistir ao totalitarismo. O apelo do Papa - apóstolo dos direitos dos homens incita-nos a não recear a cultura europeia, mas pelo contrário a ousar o humanismo construindo cumplicidades entre o humanismo cristão e aquele que proveniente da Renascença e das Luzes, ambiciona elucidar as vias em risco da liberdade (…). Obrigado, hoje, a Bento XVI pelo facto de ter convidado pela primeira vez humanistas para o meio de vós para esta iniciativa (…)”. Tendo afirmado, nomeadamente, que o humanismo é um processo de refundação permanente e que o humanismo é um feminismo, que o humanismo nos incita a cuidar, o homem não faz a história, mas a história somos nós, concluiu:
“(…) A era da suspeita não é suficiente. Face às crises e às ameaças agravadas, chegou a era da aposta. Ousemos apostar na renovação contínua da capacidade dos homens e das mulheres para crer e viver em conjunto. Para que nestes múltiplos universos cercados de vazio, a humanidade possa prosseguir por muito tempo o seu destino criador”.
Na sessão pública intervieram antes do Papa onze líderes religiosos e Julia Kristeva.
Bento XVI na sua excelente intervenção, que pode ser lida na íntegra aqui , analisou as relações entre religião e violência ao longo dos tempos, condenou o terrorismo em nome da religião, e afirmou:
“(...) É verdade, na história, também se recorreu à violência em nome da fé cristã. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de dúvida, tratou-se de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem nós, cristãos, acreditamos é o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas são irmãos e irmãs entre si e constituem uma única família (…)”
Assis foi um marco importante para todos os que consideram, que todos os seres humanos, independentemente das suas crenças, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade, empenharem-se na procura da verdade e na construção da paz.

Domingo, Setembro 04, 2011

A SEPARAÇÃO DO ESTADO E DA IGREJA DE LUÍS SALGADO MATOS

Este livro de Luís Salgado de Matos é um dos mais interessantes e originais publicados durante o Centenário da República.
Quem vive hoje a experiência de Igreja(s) livre(s) numa República democrática, em que a separação do Estado e das Igrejas, é um corolário da liberdade de consciência, de religião e de culto, ignora muitas vezes o longo caminho que foi necessário percorrer para aqui chegar.
Esta obra trata uma parte significativa desse caminho. O grande mérito do estudo de Luís Salgado de Matos é, como refere, concluindo, D. Manuel Clemente “uma leitura esclarecida de acontecimentos determinantes da nossa actualidade político-religiosa”.
Como refere José Vera Jardim é um “estudo documentado, com base em investigação séria e que acompanha todo o período com profundidade e muita minúcia”, com extenso recurso a fontes primárias. Está muito bem escrito e tem a preocupação de facilitar a compreensão da complexidade da situação, quer através da cronologia inicial, quer das doze conclusões sobre a separação entre o Estado e a Igreja.
Luís Salgado de Matos tem a vantagem de ter uma formação jurídica, que lhe permite perceber a matéria sinuosa das três “cultuais” sucessivas e simultâneas previstas na Lei da Separação e os diferentes momentos da estratégia de Afonso Costa relativamente à Igreja Católica.
O trabalho de Luís Salgado Matos lança as bases de uma nova narrativa relativamente às relações entre o Estado e as Igrejas na primeira República (1910-1926), que não pactua com a reescrita da história da separação que tem sido feita por outros historiadores, de inspiração católica ou afonsista, que “coincidem em descrevê-lo como um combate entre o bem e o mal e divergem apenas na distribuição dos papéis de bom e de mau”.
O autor defende e, em nosso entender, demonstra que: “A separação efectiva resulta assim, do choque do ultramontanismo de São Pio X, que queria uma religião de Estado e, sendo impossíve,l a separação radical, com o regalismo republicano que podemos simbolizar em Afonso Costa. Nenhum deles conseguiu o seu objectivo.
Para isso contribuíram o pluralismo de perspectivas sobre esta matéria que se manifestaram entre os republicanos, a partir de certa altura mesmo entre os “democráticos”, e as diferentes posições existentes entre os católicos, que iam dos católicos monárquicos ao Centro Católico e aos católicos republicanos. A participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial e os pontificados de Bento XV e depois de Pio XI, retomando a política de “ralliement” à República de Leão XIII, e a capacidade de reinvenção demonstrada pela Igreja Católica, de que o autor, nos vai deixando algumas notas, tiveram também uma importância decisiva.
Infelizmente, parece-me também demonstrada a última das conclusões de Luís Salgado Matos. “A questão religiosa foi central na vida e morte da Primeira República. Os extremos ganharam. Era uma vitória dispensável.”
Na síntese de D. Manuel Clemente “A leitura (…) evidencia recortes e matizes de pessoas e grupos que geralmente, foram apresentados em blocos monocromáticos e estanques, de parte a parte.”
São inúmeras as posições que foram sendo assumidas, de Afonso Costa a Sidónio Pais, passando por António José de Almeida, Pimenta de Castro ou António Maria da Silva, até ao 28 de Maio.
A Igreja Católica e os católicos, mas também os partidos republicanos, a Carbonária e a Maçonaria demonstraram ser instituições e realidades mais plurais nesta matéria do que por vezes se supõe.
Naturalmente que, entre a prática da separação consagrada na Primeira República e a situação actualmente existente nesta matéria, foi muito e muito contraditório, o caminho percorrido.
Esperemos que outras obras de igual fôlego prossigam este trabalho relativamente ao Estado Novo e à democracia construída no pós-25 de Abril até à aprovação a Lei da Liberdade Religiosa (2001) e à nova Concordata (2004).
Concorde-se ou não com todas as teses defendidas por Luís Salgado de Matos, este é, sem sombra de dúvida, um livro imprescindível para todos os que se interessam pelo processo histórico de construção da liberdade de consciência, religião e culto em Portugal e a separação do Estado e da Igreja, de que analisa um período decisivo.


Para saber mais sobre esta questão recomendo que coloque o site Estado e Igreja, que pode consultar aqui , entre os seus favoritos.

Domingo, Agosto 14, 2011

A MORADA DE SER DE NINA CLARA TIESLER

Nina Clara Tiesler é autora de estudos imprescindíveis para compreender a nova presença islâmica (NPI) em Portugal. O seu profundo conhecimento da nova presença islâmica em Portugal é também visível neste livro, em que teve em conta, designadamente, não só a acção de Suleiman Valy Mamede, mas também, por exemplo, os" diálogos pessoais" com Abdool-Karim Vakil.
A publicação da sua tese de doutoramento defendida em 2006 na Universidade de Leibniz, Hannover, em livro intitulado em português, A Morada de Ser, Muçulmanos na Europa e políticas de identidade reveste-se por isso de particular significado e é um livro de referência não apenas para académicos, mas para os agentes políticos e os cidadãos conscientes.
De notar desde logo a qualidade da tradução em português, que se deve aos tradutores João Barrento, Guilherme Dutschke e Rui Cabral e à revisora de tradução Fátima Dias, reconhecida expressamente pela autora.
Nina Clara Tiesler “defende a tese de que as políticas de identidade das minorias muçulmanas na Europa constituem uma reacção às das maiorias societais não muçulmanas. O contexto histórico e desenvolvimental destas novas experiências societais e subjectivas, que se reflectem nas polémicas de identidade, é a Europa. No cerne dos debates, das lutas de poder e das considerações sobre as subjectividades colectivas (formuladas como “identidades”) encontram-se conceitos de espaço e de pertença)”.
Por outras palavras o livro é uma resposta à questão, o que é que os muçulmanos europeus chamam casa. Nina Clara Tiesler parte na sua análise do conceito de Morada do Ser, que filia no “heimat” de Ernst Bloch.
É um livro muito informado e inteligente, que ensaia uma resposta aprofundada a esta questão.
A experiência com que estão confrontados os muçulmanos europeus é o de viver como muçulmano, em minoria, num território que não é terra do Islão, o que coloca desafios à própria forma de compreender a ligação à Umma, à comunidade dos crentes na Europa, para lá da distinção tradicional entre dar-al-Islam (casa do Islão) e dar al-Harb (casa da guerra).
Nina Clara Tiesler conclui: “Os muçulmanos são parte integrante das sociedades europeias. São cidadãos europeus e a maior parte deles não tem outra terra concreta além desta (…) A Europa como local de vida e Morada do Ser para os muçulmanos não se podia explicar através de categorias islâmicas. Tariq Ramadan chamou-lhe espaço de profissão da fé. A sua popularidade também se baseia nisto: ele acabou com a procura do conceito que é utilizado quando as velhas terras e certezas se perdem”.
A conclusão deste livro é um ponto de chegada e simultaneamente um novo ponto de partida para novos estudos, que permitam perceber a complexidade da realidade dos muçulmanos na Europa, entre a exclusão e a cidadania, como referi aqui, que continua a modificar-se num contexto marcado pela crise e por reacções islamofobas, pelas novas experiências de transição democrática emergentes em sociedades de maioria islâmica do Norte de África e do Médio Oriente,
Os muçulmanos na Europa são uma realidade plural, não podendo ser descritos de forma essencializada como uma comunidade, ou um conjunto de comunidades homogéneas. Os imigrantes provenientes de sociedades de maioria islâmica confrontam-se com culturas europeias diversificadas, mas também com outros muçulmanos com tradições culturais, históricas e espirituais e práticas muito diversificadas.
Creio que teremos de partir para a análise da situação dos muçulmanos na Europa de um conceito alargado, em termos idênticos ao que adoptaríamos se quiséssemos estudar, por exemplo, a situação dos cristãos luteranos, dos hindus ou dos judeus, e não de categorias islâmicas.
Categorias como muçulmanos não praticantes ou muçulmanos culturais ou non-muslim muslim são conceitos que têm de ser questionados antes de ser utilizados, porque correm o risco de ter um efeito performativo.
Será útil conjugar estudos de conjunto como este livro incontornável de Nina Clara Tiesler, que coloca a questão num contexto europeu, com estudos detalhados da presença islâmica nos diferentes países europeus, como os que a autora tem feito com grande rigor sobre a nova presença islâmica em Portugal, como podem ver aqui.

Sexta-feira, Julho 22, 2011

FRANCISCO ASSIS - REFUNDAR O PS E CONSTRUIR UMA ALTERNATIVA CREDÍVEL

O Partido Socialista perdeu as eleições legislativas num contexto de grave crise económica e financeira, a nível nacional e internacional, depois de um período em que o debate político a nível interno e a abertura do partido à sociedade foram secundarizados em nome das urgências da governação.
Muitos cidadãos encaram com inquietação o futuro, assistem à degradação da sua qualidade de vida, encontram-se desempregados ou em situação precária, sentem que estamos perante uma crise sistémica de evolução imprevisível e que há necessidade de debate e de análise em tempo real da evolução da situação nacional e internacional.
Estamos, além disso, sujeitos ao agravamento dos juros da dívida soberana portuguesa e da de outros países, com destaque para a Grécia, com reflexos na situação portuguesa e limitados pelo memorando da troika e pelas hesitações e ausência de estratégia eficaz por parte da União Europeia.
Nunca foi tão exigente liderar a oposição socialista. Não é uma questão meramente de simpatia ou de marketing, mas de contínua análise exigente da governação e de apresentação de propostas com substância e portadoras de uma alternativa sustentável.
Está em causa escolher o melhor dos candidatos para exercer as funções de Secretário-Geral do Partido Socialista.
É para mim evidente que o melhor é Francisco Assis, pela coragem, pela cultura, pela visão política, pela competência com que tem exercido as funções que lhe têm sido confiadas, desde a Câmara de Amarante, ao Parlamento Europeu e como líder parlamentar na Assembleia da República. Francisco Assis age com frontalidade, com lealdade e sabe que só é vencido quem desiste de lutar. A forma como Francisco Assis liderou com lealdade, eficácia e independência de espírito o Grupo Parlamentar do Partido Socialista capacita-o para o exercício dessas funções.
Neste contexto difícil é necessário valorizar a identidade histórica do PS, os contributos que tem dado para a modernização da sociedade portuguesa, para a construção de uma sociedade, mais livre, mais justa e mais igualitária, mas não hesitar em promover as rupturas necessárias para construir o futuro.
Para isso é necessário refundar o PS, como tem sido defendido por Francisco Assis e Mário Soares, e construir uma alternativa credível.
Para refundar o PS é necessário, como tem defendido Francisco Assis, devolver o partido aos militantes, estimulando a sua participação no quotidiano da vida partidária. Não se pode também deixar de abrir sem hesitação o PS à sociedade, criando condições para que os simpatizantes e votantes do PS se juntem aos militantes socialistas na escolha, nomeadamente, dos candidatos a presidentes de câmaras municipais nas próximas eleições locais. É imprescindível dialogar com os cidadãos que defendem o progresso social: nas universidades, no sindicalismo, nas redes e movimentos sociais.
Não se pode continuar a assistir à aliança da direita a nível autárquico, perante uma esquerda incapaz de se entender. Francisco Assis propõe-se apoiar o diálogo à esquerda, a construção de soluções eleitorais que favoreçam condições de governabilidade à esquerda no poder local, seguindo um caminho já aberto por Jorge Sampaio.
Construir uma alternativa credível passa por apostar na força das ideias do socialismo democrático e da social-democracia, na nossa capacidade de formular novas políticas públicas, novas propostas alternativas que respondam, nomeadamente, às necessidades de desenvolvimento económico e de articulação do Estado Estratega, do Estado Social e do sistema de relações laborais. Os critérios do universalismo e da cidadania têm uma tradução na concepção dos serviços públicos, que devem permanecer públicos, de acesso universal tendencialmente gratuito e de qualidade, como defende Francisco Assis na sua moção A Força das Ideias.
Creio que para refundar o PS, devolvendo-o aos militantes e abrindo-o à sociedade, para construir uma alternativa credível, para merecer ganhar de novo a confiança da maioria dos portugueses, precisamos de Francisco Assis, como Secretário-Geral do PS.

Editado no jornal Público, 22/07/2011, p.41