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Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

Vejam lá se em monchiqueiro nã fica melhor: E tudo o vento levou > Tá aí uma bezaranha que leva tudo à frente; Titanic > Tianica

Feito por alunos da turma B do curso EFA da Escola E.B. 2, 3 de Monchique. Parabéns à malta!

Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

João Botelho em grande forma!

Charge de raiva contra o anti-intelectualismo de parte da opinião publicada em Portugal, contra a ditadura do comercialóide, contra os embustes do financiamento do cinema no país, contra o monopólio duma distribuidora que ninguém ousa denunciar, contra o homogeneizado. Pela liberdade artística. Pela diversidade. Pela compreensão da diferença entre entretenimento e arte.
Com Nuno Artur Silva, Pedro Mexia e Pedro Vieira a ouvirem e a aprenderem.
«O cinema não são os argumentos»: para continuar a deliciar-se clique aqui.

Quinta-feira, 31 de Março de 2011

Potiche

Delirante, o início de «Potiche», filme de Ozon.

Vemos Deneuve [aqui ainda só conseguimos ver Deneuve] a fazer exercício matinal [e aqui conseguimos ver todas as donas de casa que febrilmente percorrem a berma da estrada e circundam as rotundas que os autarcas carinhosamente planearam para elas].

E depois, do corpo, o espírito, reconfortado pela lamecha «literatura».

E o resto, o resto é pura justiça cósmica, sempre em tons brique e cerise, afinal as cores dos anos 70.

Um engraçadíssimo devaneio cinematográfico.

Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

Dos homens e dos deuses

Nas montanhas da Argélia, um profundo discernimento, um tempo de reflexão conjunta, mostra-nos o filme Dos homens e dos deuses. Uma comunidade de monges que ameaçada por um grupo terrorista, encontra na urgência de uma decisão, partir ou ficar, tempo para pensar, para resolver em conjunto; que ao descontrolo da violência responde com a serenidade possível, assumindo a um tempo toda a impotência humana e a recusa de uma interacção baseada em relações de poder. E numa situação «sem escolha», aqueles homens abrem espaço para uma alternativa.
Filme inspirador bem para lá das montanhas da Argélia, num tempo das decisões apressadas, da urgência das escolhas e, sobretudo, na crença do afunilamento da capacidade de escolha. Há sempre outro caminho.

Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

Mistérios de Lisboa - o filme

Mistérios de Lisboa foi um dos filmes que marcou 2010 e será uma série de televisão a marcar 2011. O realizador chileno Raul Ruiz, que chega a este filme após um longo e marcante percurso no território fantástico, dá a conhecer Camilo Castelo Branco a muitos estrangeiros e permite aos portugueses vê-lo de um outro ângulo. Em primeiro lugar porque o romance que adapta não é o clássico Amor de Perdição, dado nas escolas portuguesas e objecto, pelo menos, de três adaptações cinematográficas, mas a obra de juventude de Camilo, escrita aos 29 anos, Mistérios de Lisboa. É um Camilo fascinado pelo seu poder de criar um universo povoado de personagens em ebulição, um Camilo que escreve mais com a imaginação do que, como fará mais tarde, com a memória de uma vida atribulada. Camilo narra uma memória imaginada que podia ser, na expressão de Camões, um «sonho imaginado», tão rocambolescas são as peripécias, tão insólitas são as personagens ou tão inesperadas as reviravoltas do enredo. A transposição do livro para cinema sublinha o filão onírico, insinuando que toda a história poderá ser um sonho do narrador, um menino que inicialmente é filho de pai incógnito, ou uma ficção que a criança constrói num teatro com personagens de papel.

Mas se o teatro é uma referência deste filme, como o é dos filmes de Manoel Oliveira inspirados pela obra e vida de Camilo Castelo Branco - Amor de Perdição e Francisca -, Raul Ruiz envereda por caminhos muito diferentes de Oliveira. O centenário realizador português, nessa fase camiliana pretendia um regresso aos primórdios do cinema declarando que este era apenas «teatro filmado», recorrendo por sistema ao plano fixo e pondo os actores a recitar textos, do modo mais imóvel e lento possível. Ruiz segue outro impulso primitivo neste filme, o de regresso às assombrações da lanterna mágica, lembrando que no início o cinema era luzes e sombras em movimento. As personagens são compostas de mudança – de palavras, de gestos, de corpos, de situação social. A nossa perspectiva sobre elas muda quase todos os minutos e a câmara está sintonizada com um mundo em permanente transformação, movendo-se com elegância, precisão e subtileza.

O filme possui um naipe de bons actores – alguns obrigados a interpretar as várias vidas de uma só personagem – e uma fotografia tão sensível às sombras de alguns cenários interiores como à beleza intensa de cenários exteriores localizados em Sintra ou no Alentejo. Trunfos na manga de um filme mágico que faz dos mistérios encenados no quarto de uma criança os mistérios de Lisboa e do mundo.

Domingo, 2 de Janeiro de 2011

Dez filmes de 2010

Os dez melhores filmes que vi em 2010 foram:

Lola, de Brillante Mendonza;

O laço branco, de Michael Haneke;

O Escritor Fantasma, de Roman Polanski;

Dos homens e dos Deuses, de Xavier Beauvois;
Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz;

Inside Job, de Charles Ferguson;
Líbano, de Shmulik Maoz;

Facebook, de David Fincher;
O Mágico, de Sylvian Chomet

Nota: não consegui ver o Filme do Desassossego, de João Botelho. Gostei muitíssimo, e só não os incluí na lista porque não me deu na mona, de Shutler Island, de Scorsese, e Gigante, do promissor Adrián Biniez. A Origem, de Christopher Nolan, parte de uma ideia genial e o resultado fica muito abaixo das suas potencialidades. Achei piada a Histórias da Idade de Ouro (em romeno «Amintiri din época de aur»), de Christian Mungiu, Whatever Works, de Woody Allen, Greenberg, de Noah Baumbach.

Polícia sem lei, de Werner Herzog;

Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

Inside Job/A Verdade da Crise

Inside Job – A Verdade da Crise, um documentário de Charles Ferguson sobre a crise financeira de 2008 é de visão obrigatória para compreender o dinheiro e os tempos que correm. O título original parece-me ambíguo: tanto pode dizer respeito aos autores morais da crise económico-financeira que levantou a cabeça em 2008 e pode regressar em breve – gente de «dentro», do sistema financeiro, e não membros de qualquer «eixo do mal» - como ao próprio autor do documentário. Charles Ferguson conhece «por dentro» o mal de que fala. Como podem ver aqui, doutorou-se no MIT, foi consultor da Casa Branca e do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, deu aulas no MIT e na Universidade de Berkley, entre muitos outros itens de um curriculum vitae admirável. O que explica que tantos administradores, capitalistas, políticos e professores universitários tenham aceitado ser entrevistados para o filme, alguns deixando registado para as câmaras o seu arrependimento e/ou embaraço.

O estilo de Charles Ferguson é o oposto do de Michael Moore em Capitalismo – Uma história de amor, mas talvez mais eficaz. Moore usa a câmara como um canhão - Ferguson como um bisturi; Moore é um corpo omnipresente no seu filme, ao qual algumas pessoas reagem como se vissem godzilla - Ferguson é o «homem invisível», alguém que está atrás da câmara e pediu a voz de Matt Damon emprestada. O resultado é um massacre da ordem económico-financeira vigente «com punhos de renda». Só o estilo sóbrio, rigoroso, permite seguir sem distracção um filme baseado em teses brutais. A actual ordem económico-financeira está nas mãos de psicopatas. Literalmente, de psicopatas cujas decisões são tomadas sob o estímulo das mesmas zonas do cérebro que explicam a toxicodependência. As agências de rating que determinam o valor de acções e obrigações são tão irresponsáveis como inimputáveis e, quando levadas a tribunal por erros crassos, defendem-se dizendo que os seus juízos são apenas «opiniões». As medidas de Obama para reformar o sistema financeiro foram gotas de água e os grandes responsáveis pela crise de 2008 continuam a ocupar lugares de poder, nas grandes empresas e instituições financeiras, no círculo de poder e aconselhamento da Casa Branca.

O primeiro documentário mostrava um comboio a avançar sobre os espectadores. Inside Job mostra como a vida dos espectadores está ameaçada pelo destino dos produtos tóxicos financeiros. O filme reforça a ideia da necessidade de um novo senso comum económico baseado no máximo bem-estar de todos e não no máximo lucro de alguns, novo senso para o qual o manifesto «Por uma nova economia» dá um contributo assinalável.

O cinema na República

A mostra «Cinema em Portugal - os primeiros anos» franqueia amanhã as portas do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa. A autoria é de Teresa Barreto Borges, Teresa Parreia e Tiago Baptista.

Domingo, 5 de Dezembro de 2010

A Rede Social

A Rede Social/The Social Network é o último filme de David Fincher, que persegue o enigma biográfico de Mark Zuckerberg, o qual aos 19 anos criou o Facebook e tornou-se bilionário. Várias pessoas, incluindo o próprio realizador (ver aqui) têm comparado o filme ao Citizen Kane. É claro que o cidadão Zuckerberg, como Kane, se torna um homem poderoso e controverso. Mas alcança o sucesso económico sem mostrar qualquer interesse na política, na arte, ou na opinião pública. Citizen Kane traça o percurso completo de uma personagem que, no momento da sua morte, recorda a sua infância e o que nela perdeu, insubstituível por qualquer riqueza ou poder. Na Rede Social, não sabemos a vida de Zuckerbger antes de chegar a Harvard, nem o que lhe vai acontecer. Zuckerberg é um meteoro em movimento que incendeia as personagens com que se cruza, leva algumas a acompanhá-lo e entra em colisão com outras. O filme de David Fincher é movido por alguns dos «pecados capitais» analisados em Seven (1995) – principalmente o orgulho e a inveja – e a sua personagem central não tem sombra de outros – preguiçoso não é nada. Como em Fight Club (1999), Zuckerberg luta para pertencer a um clube e acaba por criar a sua própria rede virtual, à escala do mundo.

Vi A Rede Social pouco tempo depois de rever em DVD Young Mr. Lincoln de John Ford e fiquei a remoer nos paralelismos, por contraste, entre estes dois filmes sobre dois ícones da sociedade norte-americana. Lincoln, mal surge no alpendre de uma casa de campo e no filme, é reconhecido por duas crianças que lhe sorriem e o reconhecem como uma espécie de «messias»; Zuckerberg começa por ser mandado à fava pela namorada e passa o tempo todo a tentar, sem conseguir, recompor-se do facto. Lincoln é um solitário adoptado por uma família típica norte-americana; Zuckerberg é o solitário rebelde que não é adoptado por ninguém e cuja obra é utilizada por todos. Lincoln é um advogado que salva dois inocentes de uma pena de morte e é reconhecido como um justo, levando para a política uma ideia de justiça. Zuckerberg é um réu, acusado por ex-amigos de ter pilhado ideias e traído lealdades. A perspectiva acerca da justiça não tem sido focada nas análises sobre o filme. Mas A Rede Social mostra como se entrelaçam os laços da amizade, as relações sociais, as conexões do Facebook e as teias de justiça.

Sábado, 7 de Agosto de 2010

O escritor fantasma


Em O escritor fantasma Polanksi mostra que aprendeu bem a lição de Hitchcock e também que aprendeu muito fora das salas de cinema. Num anúncio a um dos seus filmes, Hitchcock declarava: «Há filmes que são pedaços de vida, os meus filmes são fatias de bolo.» Os filmes dele continuam aí para vermos como é verdade. Mesmo quando conta histórias de espiões no contexto da Guerra Fria, a intriga política é sempre secundária nos filmes do mestre do suspense. Polanski, que não cresceu num colégio de jesuítas como Hitchcock mas no gheto de Varsóvia, serve-nos fatias de bolo com sabor a uma vida fisicamente ameaçada, ameaçada não só por causa da presença do mal na vida privada, mas da perversão do poder público, dos ventos da História que a qualquer momento se transformam em tempestade. Ou então, retomando a metáfora do bolo, «as fatias de bolo» servidas por Polanski teriam um efeito de aguçar os sentidos, levando o espectador letárgico, como se tomasse um café forte, a ver com mais nitidez as marcas e as potencialidades do mal na vida quotidiana e na vida política.

Filme sobre a aparência do poder e as suas sombras, O escritor fantasma coloca em confronto não tanto a luz e a sombra, como seria de esperar de um filme do mainstream norte-americano, mas dois tipos de sombra, antagónicos e facilmente confundíveis: a sombra dos sem poder (o «escritor fantasma») e a sombra voluntária dos realmente poderosos (os serviços secretos). Neste filme rigoroso, em que nada é deixado ao acaso ou improviso, são de destacar as interpretações de Ewan MacGregor, Pierce Brosnan e Olivia Williams. Esta última, no papel da mulher do primeiro-ministro Adam Lang, compõe uma personagem forte e inesperada no universo de um realizador que frequentemente colocou no centro das suas histórias adolescentes vulneráveis e jovens mulheres inseguras.

Sábado, 26 de Junho de 2010

Ser digno do presente, enfrentando o passado

Deixo aqui duas sugestões e uma informação, em nome das vítimas das ditaduras ibero-americanas e pela nossa memória cívica.

Em 1.º lugar, um filme que aborda a ditadura argentina, o consenso do esquecimento e os silêncios: O segredo dos seus olhos, de Juan Jose Campanella, aqui sugerido por Daniel Oliveira, ainda em exibição nas salas de cinema em Lisboa (e Porto?).

Em 2.º lugar, um vídeo da Plataforma contra la impunidad del franquismo, que junta intelectuais, artistas, políticos, etc., aqui ecoando as histórias trágicas de 15 vítimas do franquismo, assassinados sem julgamento justo e a maioria sem se saber onde foram enterrados (vd. em baixo).

Por fim, amanhã, este movimento cívico acenderá milhares de velas em honra das vítimas franquistas, na Porta do Sol, em Madrid. Contra a impunidade, contra o esquecimento.

Quarta-feira, 23 de Junho de 2010

O regresso da memória incómoda

> julgamento do massacre do Bloody Sunday irlandês: «O pesadelo das vidas deles chegou ao fim», por Ana Fonseca Pereira
> a discriminação da população cigana na França de Vichy e na da «libertação»: «"Há ecos de Vichy que fazem hoje muito medo"» [entrevista ao cineasta Toni Gatlif], por Pedro Rosa Mendes

> memória da Guerra civil de Espanha: «Os medos da guerra civil continuam vivos», por Carlos Pessoa

Nb: sobre a memória da Guerra civil de Espanha na histografia portuguesa vd. este texto de Manuel Loff; para informação sobre a mesma no blogue do ex-movimento cívico Não apaguem a Memória! vd aqui. Na imagem, reprodução de foto incluída na recente exposição «Presas de Franco» (Centro Cultural Conde Duque).

Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

Cinema Garage



Dia 14 de Janeiro pelas 21.12h no espaço do Grupo Bonifrates (Casa da Cultura de Coimbra), decorrerá a 2ª sessão da Roleta Russa - Cinema de Garage, uma produção da "Comandita - Obra do Camandro".
"As sessões de cinema de garagem intituladas Roleta Russa seguem o modelo do jogo que lhe dá o nome, só que em vez de balas saem filmes.
Assim, e até pouco antes da projecção ter início, ninguém sabe a que filme é que se vai assistir, só mesmo depois de rodado o tambor e de lá de dentro, onde aguardam os vários filmes propostos a concurso, sair disparado aquele que nos tiver calhado em sorte.
Este ritual de descarada encenação da fatalidade tem data e lugar marcados, semana sim semana não, às Quintas, pelas 21h12, no espaço da Bonifrates."

Beauty is truth, truth beauty

Na modorra cinzenta de Janeiro, Bright star, é candidato absoluto à mais bela tarde do mês.
O novo filme de Jane Campion, sobre os amores tuberculosos de Keats e Fanny Brawne na «aldeia» de Hampstead, tem uma direcção artística perfeita e é uma obra para ser contemplada.
Os «quadros» de Bright star acompanham o processo criativo do poeta e o envolvimento amoroso do casal como um percurso de intensa receptividade sensorial e, nessa medida, o filme revela-se, também, como um arrebatamento artístico. Como uma maravilha.

Domingo, 3 de Janeiro de 2010

Dez filmes de 2009

O balanço cinéfilo do ano que passou é bastante positivo. Descobri três realizadores: Kathryn Bigelow, António Campos e Jacques Audiard. O último só o descobri em 2009 por distração, pois já assinou várias longas-metragens. Clint Eastwood assinou uma obra-prima - Gran Torino. Pedro Costa e Francis Coppola regressaram às salas de cinema. Michael Moore refinou a sua visão do documentário como forma de artilharia. Surpreende-me incluir três documentários e duas obras de animação na minha lista dos dez filmes do ano passado, mas não me custa nada.
Eis a lista, com links para sites e textos sobre os filmes:
Gran Torino, de Clint Eastwood
Valsa com Bashir, de Ari Folman
Um profeta, de Jacques Audiard
Estado de Guerra, de Kathryn Bigelow
Afterschool, de António Campos
Com que voz, de Nicolas Oulman
Ne change Rien, de Pedro Costa
Tetro, de Francis Ford Coppola
Up – Altamente, de Bob Peterson e Pete Docter

Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Capitalismo, uma história mal contada

É caixa-de-óculos, gordalhufo, usa jeans xxl e tem um andar desajeitado. Além disso, fala sobre coisas chatas como trabalho, dignidade, justiça social, desigualdades, etc.. Um cromo destes só pode ser um incómodo, claro.

Capitalism: a love story é o seu último filme. A recepção foi desigual, indiferente à adesão nos cinemas, urbi et orbi. Por mim, considero-o o melhor filme que vi em 2009, mais, um dos melhores de sempre.

Vou tentar explicar porquê. Um dos pontos mais fortes do documentário (sim, porque é um documentário, se virmos o género sem espartilhos tecnicisto-formais) é o ponto onde começa: Flint, berço do cineasta e satélite da todo-poderosa General Motors, que se torna cidade-fantasma mal esta sai de lá, por razões meramente economicistas. Foi por aí que Michael Moore começou a sua carreira, com Roger & me (sendo Roger o presidente da GM a quem ele nunca consegue chegar à fala), um documentário cru sobre a devastação da sua cidade-natal, assim qualquer coisa como uma cidade do tamanho de Aveiro. No presente Capitalism, vemos o pai de Moore a confessar-nos que, enquanto operário dessa multinacional nos idos de 50-70, o ambiente de trabalho era bom, tinha férias pagas, automóvel, casa, qualidade de vida, etc.. Hoje, tudo isso está em risco para esse e outros grupos sociais...

Para Moore, criado no ideal norte-americano, de terra de oportunidades para todos, de prosperidade (ainda que desigual), a actual situação de descalabro financeiro-económico, de engodo, de desigualdades extremas, é um autêntico pesadelo. É esta a tese central do filme: também ele, um tipo de esquerda, acreditou que a América era uma terra de esperança, e agora apercebe-se de que tinha acreditado numa mera encenação, numa grande ilusão. A crise financeira e económico-social recente é apenas um apropriado locus do dia: o problema é bem mais fundo. Wall Street e os seus interesses comandam as vidas de todos nós, prejudicando-nos; pior, eles manobram os próprios representantes do povo para beneficiar interesses privados, em detrimento do interesse público.

Além disso, o filme tem momentos inesperadamente dolorosos, mesmo para o mais impedernido dos cépticos, como o caso dos seguros sobre a morte de empregados de empresas (sim, o dinheiro do seguro de morte apenas revertia para essas empresas, @s viúv@s ficavam a ver navios).

Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

«Afterschool - Depois das aulas»

Afterschool – Depois das aulas, realizado por António Campos (nascido em 1983), é um dos mais estimulantes filmes que chegou às salas de cinema em 2009. Um filme que reflecte sobre o cinema como um meio específico de produção de imagens e sobre o mundo que essas imagens reflectem. O mundo que António Campos vê em Afterschool põe em causa algumas dicotomias com que nos habituámos a ver/pensar a realidade: a dicotomia orwelliana que opõe totalitarismo a ausência de um centro de controlo; a dicotomia liberal que opõe educação de elite a cultura de massas.
O mundo em que António Campos coloca a sua personagem – Robert – é um mundo de clausura, um universo que seria claustrofóbico se o medo pudesse ser nomeado ou expresso, se a angústia fosse mais do que uma perturbação a resolver pela administração de doses de medicamentos. É o mundo de um colégio de elite nos Estados Unidos, no século XXI. Robert tem acesso à internet no seu quarto, mas ela não funciona como a porta para outros mundos, apenas para o acesso a outras imagens – kitch, pornográficas ou de violência – que não lhe oferecem qualquer alternativa intelectual ou emocional ao mundo do colégio. De entre todas as falsas imagens e emoções oferecidas pela internet, Robert apenas reconhece uma emoção genuína – o medo.
Longe do ideal liberal da educação de elite como uma forma de desenvolver a autonomia de um indivíduo, o colégio em que Robert vive é um espaço de conformação de emoções, ideias, comportamentos. Uma conformação cuja força reside em grande parte na concentração do mundo num espaço pequeno cercado de imagens opacas. Não há um «big brother» - apenas professores e «conselheiros» ao serviço de um processo disciplinar. Não há uma doutrina além da difusa mas eficaz mentalidade da necessidade do sucesso.
Alguns falaram de Stanley Kubrick e de Gus van Sant a propósito deste filme. Campos vai buscar a Kubrick o aparato tecnológico e a solidão da personagem central. Mas recusa a estética do espectacular e do perfeito. O seu cinema é uma arte do impuro e do desejo de intimidade. Campos partilha com Gus van Sant um objecto: os adolescentes norte-americanos. Mas os adolescentes de Gus van Sant são miúdos esquecidos, «desenquadrados», que vivem na margem do sistema. O horror dos adolescentes de António Campos é produzido no coração do sistema. Um coração vampiresco que dissolve facilmente em kitsch a violência da tragédia.

Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

A pantera mais famosa do universo anda por aí...

Definitivamente, este é o mês da 'bonecada', aqui no Peão. Depois da Mafalda, Rat race, Astérix, Picha, Marge Simpson, GoRRo (este em tributo não-póstumo, a contra-corrente dos costumes lusos), eis a vez da Pantera Cor-de-rosa!! Faz 45 anos que começou a sua saga em cinema de animação, após a estreia e êxito imediato enquanto genérico do filme humorístico homónimo, no ano anterior. Este filme devia o nome ao facto do seu enredo girar em torno dum valioso diamante desaparecido, que visto à luz reflectia uma pantera.

The Pink Panther é um filme de Blake Edwards que ficou célebre por 4 razões: a comicidade do seu argumento, o desempenho do protagonista (um Peter Sellers no memorável papel dum desastrado inspector francês, o inspector Clouseau), o genérico inicial com a tal animação da Pantera Cor-de-rosa (pelo talentoso animador Friz Freleng, o mesmo dos Looney Tunes) e a fabulosa música da banda sonora, por Henry ManciniPink Panther Theme»).

Depois disso, a saga continuou, tanto em filme como em animação. Na animação, deu origem a 124 curtas-metragens em 16 anos. Estas foram entretanto editadas em dvd pela produtora. A partir de amanhã, e até 16/XII, o jornal Público lança em Portugal a colecção completa em 10 dvd's. Para quem não pode adquirir mas tem saudades, aqui fica um dos sites possíveis para ver, com boa imagem, uma parte da gostosa colecção do felino mais famoso do universo.

Deixo ainda outros destaques: no vídeo ao lado segue o trailler do filme original, na vez do genérico (pois está inacessível devido aos copyrights); em 2006, surgiu um novo filme da saga, desta feita com Steve Martin e também com um excelente genérico animado; por essa altura, Bobby McFerrin cantou, no seu modo único, o «Pink Panther Theme». É também imperdível esta versão ao vivo da mesma música, aqui fiel ao original, com excelentes solos de jazzmen.

Sábado, 22 de Agosto de 2009

E porque estamos em plena canícula...

... nada mais apropriado que relembrar um grande filme, As férias do senhor Hulot, bem como a restante obra de Jacques Tati. Porque de senhor Hulot temos todos um pouco.
Na senda da dica de Abril passado, agora é a vez de sugerirmos uma ida ao surpreendente site oficial do cineasta, Tativille, e à belíssima página que a Orange lhe dedicou.


Então, bom Verão para todos!!!

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Liberdade e resistência, que filme escolher?

Para celebrar os 35 anos do 25 de Abril, o blogue de cinema da revista Visão, Final Cut, lançou uma votação para se escolher o «melhor filme ou telefilme português sobre liberdade e resistência». A lista propõe 11 filmes, sem pretensões de exaustividade (vd. em baixo). Para quem quiser votar, é só ir à coluna da direita do referido blogue. Ainda tem 3 dias. Dos 5 que já vi (2.º-4.º, 6.º e 8.º), gostei de todos e parecerem-me todos de qualidade.

Lista (ordenada por data de realização):

- Fuga (1976), de Luís Filipe Rocha
- Deus, Pátria, Autoridade (1976), de Rui Simões
- Torre Bela (1977), de Thomas Harlan
- Cinco dias, cinco noites (1996), de José Fonseca e Costa
- Fuga (1999), de Luís Filipe Costa
- Capitães de Abril (2000), de Maria de Medeiros
- 25 de Abril - uma aventura para a demokracya (2000), de Edgar Pêra
- Quem é Ricardo? (2004), de José Barahona
- Até amanhã, camaradas (2005), de Joaquim Leitão
- O julgamento (2007), de Leonel Vieira
- Antes de amanhã (2007), de Gonçalo Galvão Teles