Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

MATERNIDADE DE SUBSTITUIÇÃO? BARRIGAS DE ALUGUER?

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Há coisas que eu realmente não consigo entender, por muito esforço que faça.

Maternidade de substituição? Barrigas de aluguer?

O que é que isto quer dizer?
Só a nomenclatura usada já devia “assustar” qualquer um!

O que é que nós andamos a fazer com a vida humana, quando já falamos em “substituição” e ”aluguer”?

Uma mãe que entregou o seu filho para a adopção pode até, talvez, ser “substituída” por outra que aceita aquela criança como sua filha, mas a maternidade nunca pode ser substituída, porque faz parte da mulher que vai ser mãe, pois só ela pode viver as alegrias e as dificuldades que uma maternidade comporta.

Assisti ao parto dos meus dois últimos filhos.
Já tentei descrever esses momentos e nunca consegui tocar ao menos ao de leve o que eles foram e representaram para mim.

É fácil perceber então como para uma mulher grávida é absolutamente única e indescritível a sua gravidez, a sua maternidade.
É, portanto, algo que não é substituível e que marca profundamente toda e qualquer mulher.

As histórias repetem-se ao longo da história da humanidade, sobre mães, sobre filhos que, (separados à nascença), não tendo “conhecido” os seus filhos, as suas mães, (aquelas que os transportaram no seu ventre), os/as procuram incessantemente, mesmo que tenham uma vida estável e boa socialmente.
É um apelo interior, íntimo, avassalador, que provoca essa procura, quer da parte das mães, quer da parte dos filhos.

Se tal lei for aprovada, quanto tempo temos de esperar para vermos as “mães de aluguer” a procurarem os seus filhos porque não os conseguem obviamente esquecer, ou dos filhos assim gerados, à procura das suas mães de maternidade.

E não é por não haver um qualquer pagamento pelo “aluguer” que o acto se torna mais ou menos digno ou formalmente aceite, porque a verdade é que há direitos humanos que são inalienáveis.

Para nós, cristãos, ainda se torna mais impossível a aceitação de tal legislação, por todas as razões que seria fastidioso explicar e são tão nitidamente compreensíveis.

Basta-nos esta passagem da Palavra de Deus:
«Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas?
Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria.» Is 49, 15
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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

«NÃO SÃO OS QUE TÊM SAÚDE QUE PRECISAM DE MÉDICO, MAS SIM OS ENFERMOS.»

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Evangelho segundo S. Marcos 2,13-17.

Naquele tempo, Jesus saiu de novo para a beira-mar. Toda a multidão ia ao seu encontro, e Ele ensinava-os.
Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me.» E, levantando-se, ele seguiu Jesus.
Depois, quando se encontrava à mesa em casa dele, muitos cobradores de impostos e pecadores também se puseram à mesma mesa com Jesus e os seus discípulos, pois eram muitos os que o seguiam.
Mas os doutores da Lei do partido dos fariseus, vendo-o comer com pecadores e cobradores de impostos, disseram aos discípulos: «Porque é que Ele come com cobradores de impostos e pecadores?»
Jesus ouviu isto e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»


Ao escutar este Evangelho na Missa de Sábado passado, detive-me na frase de Jesus:
«Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»

Fiquei a pensar no médico e na necessidade de a ele recorrer se nos encontramos doentes.

E daí reflecti também que o médico não trata só da doença, mas antes, e talvez prioritariamente, deve tratar da prevenção da doença.
Por isso mesmo, e porque com certeza ninguém quer estar doente, devemos recorrer ao médico, se por qualquer razão percebemos que podemos estar em perigo de contrair uma doença.

Por pequenos sinais, por ligeiros sintomas, percebemos muitas vezes que poderemos estar a ficar doentes e assim, aconselha o bom senso, que rapidamente consultemos um médico, para que possamos iniciar um tratamento que impeça a doença de progredir e até talvez, quem sabe, se não o fizermos, podermos chegar a uma situação de falta de saúde irreversível.
É pensamento mais ou menos aceite, que a doença é uma coisa latente em nós, ou seja, que de alguma forma os “provocadores” de doença estão em nós, e é apenas uma questão de se manifestarem ou não, (às vezes porque estamos mais débeis física ou mentalmente), e a doença acontecer, privando-nos da saúde que todos devemos e queremos ter.


Comparativamente, se há coisa que um cristão reconhece e aceita, é que o pecado o envolve, é que a tentação está sempre presente, e que, por isso mesmo, a queda no pecado é algo que devemos sempre encarar, sobretudo se estamos mais frágeis na fé, mais débeis espiritualmente.

Ora como esta é uma constante da nossa vida, devemos usar das mesmas precauções que usamos para nos defender da doença.

Com efeito, para protegermos a nossa saúde, somos capazes de nos esforçar dando grandes caminhadas, fazendo dietas saudáveis, recusando certas práticas que não são aconselháveis, desistindo até, por vezes, de certos “prazeres” que sabemos são momentâneos, e que acabam por nos conduzir a estados de má disposição e até falta de saúde.
Tomamos vacinas, fazemos exames, por vezes muito incómodos e desagradáveis, mas não deixamos de cuidar da nossa saúde, que amiúde até afirmamos ser o nosso maior bem!

Claro que para fazer tudo isso, despendemos muito do nosso tempo, das nossas posses financeiras, da nossa paciência, em filas de espera, em marcações a longo prazo, e vivemos também uma grande incerteza sobre se o que estamos a fazer é o melhor e, sobretudo, se vai dar resultado.

Voltemos então à comparação com a nossa vida espiritual, e podemos perceber que não dedicamos nem um décimo do nosso tempo e das nossas energias, a precavermo-nos das tentações, a proteger-nos do mal, enfim, a evitarmos a todo o custo cair no pecado.

E no entanto o nosso “médico das almas” está sempre disponível, e os “exames” e “tratamentos” que nos prescreve, são de imediato acesso e não têm nenhum custo financeiro.
Poderemos até dizer, e permitam-me a comparação mais uma vez, que são “genéricos”, no sentido de que servem a todos, e todos lhes têm acesso.
São realmente um “serviço de saúde espiritual mundial”, em que todos são efectiva e rigorosamente iguais na capacidade da sua “utilização”.

E todos os conhecemos, porque o “Médico” é sempre o mesmo e desde logo nos ensinou o que era preciso.

São os exames de consciência, com os respectivos resultados sempre alcançados na Confissão.
São os “comprimidos” da oração individual e colectiva.
São os “alimentos saudáveis”, que é sem dúvida a Comunhão, o alimento divino.
São as “caminhadas” na fé, que nos fortalecem perante os ataques dos desânimos, das provações, dos desesperos.
É a Palavra de Deus, que não tem nenhuma contra-indicação.
São os Sacramentos, “vacinas” poderosíssimas contra as tentações e o mal.
É, no fundo, a presença constante, viva, sensível de Jesus Cristo, o “médico das almas”, que não só está connosco, mas em nós, se assim o desejarmos e quisermos.

E, melhor ainda, porque se estamos precavidos, ou seja, se “usamos” estes “tratamentos” constantemente, no dia-a-dia, então estamos fortes e bem espiritualmente, e se estamos fortes e bem espiritualmente, em comunhão com Deus, as doenças do mundo que nos tocarem, deixam de ser sofrimento, para passarem a ser entrega de amor a Deus, por nós e pelos outros.

Como eu não posso saber se vou contrair alguma doença, vou tentando tudo fazer para que tal não aconteça, seguindo alguns conselhos médicos.

Mas como eu tenho a certeza que sou pecador, tenho também a certeza que vou cair na tentação, que me vou deixar tocar pelo pecado em algum momento da minha vida, por isso, tenho que tentar com todas as minhas forças, todos os dias e em todos os momentos, ouvir as “prescrições” do meu Senhor e seguir os “tratamentos que Ele mesmo sempre nos ensina.


Monte Real, 17 de Janeiro de 2012
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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

COMO ORAR

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Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para satisfazer os vossos prazeres. Tg 4, 3

Ensina-nos São Tiago na sua Carta que não recebemos o que pedimos em oração, porque não sabemos pedir, ou seja, porque pedimos aquilo que julgamos ser bom para nós e não aquilo que Deus quer e é bom para nós.
Também, porque a maior parte das vezes o que pedimos é para satisfazer os nossos desejos, os nossos caprichos.

Somos, ainda, muitas vezes egoístas a pedir, quer dizer, centramo-nos no “eu”, em vez de nos centrarmos no “nós”.
Se eu peço alguma coisa que julgo ser boa para mim, porque não a peço para todos os outros também?
Não há uma diferença grande entre, por exemplo, pedir saúde para mim ou para os meus que estão doentes, e pedir saúde para todos os doentes?

E quem sabe melhor, o que é melhor para mim? Eu ou Deus?

Na sua Palavra o Senhor ensina-nos de muitas formas a rezar, a pedir, por isso basta fazermos, basta rezarmos, como a sua Palavras nos ensina.


Encontrando-se Jesus numa das cidades, apareceu um homem coberto de lepra. Ao ver Jesus, caiu com a face por terra e dirigiu-lhe esta súplica: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me.» Jesus estendeu a mão e tocou-lhe, dizendo: «Quero, fica purificado.» E imediatamente a lepra o deixou. Ordenou-lhe, então, que a ninguém o dissesse; no entanto, acrescentou: «Vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés ordenou, para lhe servir de prova.»
A sua fama espalhava-se cada vez mais, juntando-se grandes multidões para o ouvirem e para que os curasse dos seus males. Mas Ele retirava-se para lugares solitários e aí se entregava à oração. Lc 5, 12-16

Reparemos na oração deste «homem coberto de lepra».

«Senhor, se quiseres, podes purificar-me.»

Em primeiro lugar o homem reconhece Jesus Cristo como Senhor,* reconhece-O como Aquele que está acima dele, de todos e de todas as coisas, e com esse título exprime-Lhe respeito e confiança.

Em segundo lugar, e antes de mais qualquer coisa, coloca-se submisso perante a vontade do seu Senhor: «se quiseres».

Neste «se quiseres» podemos também perceber para nós uma entrega decidida daquele que ora, à certeza de que aquilo que Deus quer é sem dúvida o mais certo, o melhor para a nossa vida, e que, portanto, seja qual for a resposta de Deus à minha oração, ela é com certeza a melhor resposta para a minha vida.
Como tal, devo dar graças por tudo quanto me for concedido, mesmo que, aparentemente aos meus olhos, nada me tenha sido concedido.

Jesus, na sua oração no Monte das Oliveiras, utiliza a mesma expressão, (Lc 22, 42), «se quiseres», e afirma mesmo, «contudo, não se faça a minha vontade mas a tua».

Em terceiro lugar o homem acredita, o homem testemunha a sua fé: «podes purificar-me»

Não há uma hesitação, não há uma dúvida, não há um “prazo” para que a graça seja concedida, há tão só um forte e decidido: «podes»
E neste «podes» podemos dizer que está tudo dito, pois ao reconhecermos que o Senhor pode, temos de reconhecer também que se a graça que pedimos não é concedida, é porque não serve à nossa vida.

Depois, curiosamente, o homem não refere o pedido específico daquilo que pretende, mas apenas diz: «purificar-me»

O Senhor sabe o que ele precisa, e ele acredita nisso mesmo, pelo que este «purificar-me» pode ir desde a cura da lepra, até àquilo que é mais importante ainda, e que é a purificação da sua vida de todo o pecado, de todo o mal.

Sabendo que naquele tempo a lepra era considerada um “castigo” de Deus, uma impureza, e por isso aqueles que a carregavam eram impuros, então este «purificar-me» significa também que, afastado o pecado, afastado o mal da sua vida, também a doença seria afastada.

Já na cura do paralítico, (Lc 5, 17-26), o Senhor perante aquele homem, e «vendo a fé daqueles homens» perdoa-lhe em primeiro lugar os pecados, para depois, como sinal aos incrédulos, o curar também da paralisia.

Não devemos então nós, nas nossas orações, fazer pedidos específicos a Deus?
Claro que sim, que os podemos e devemos fazer, mas sempre na ilimitada confiança de que Ele sabe muito melhor o que nós precisamos, e assim sendo, nos concederá só e apenas o que for bom para nós.

E se acreditamos que Ele «pode», «se quiser», não podemos deixar de acreditar que, pela nossa oração, Ele nos concederá o que precisamos, mesmo que não seja o que pretendemos, mesmo que não percebamos, naquele momento, a graça que nos concedeu.

E assim, em tudo e sempre, devemos dar graças.

«sem cessar, dai graças por tudo a Deus Pai, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.» Ef 5, 20

«Em tudo dai graças. Esta é, de facto, a vontade de Deus a vosso respeito em Jesus Cristo.» 1 Ts 5, 18


Monte Real, 10 de Janeiro de 2012


Nota:

* Do Catecismo da Igreja Católica:

446. Na tradução grega dos Livros do Antigo Testamento, o nome inefável sob o qual Deus Se revelou a Moisés, YHWH, é traduzido por «Kyrios» («Senhor»). Senhor torna-se, desde então, o nome mais habitual para designar a própria divindade do Deus de Israel. É neste sentido forte que o Novo Testamento utiliza o título de «Senhor», tanto para o Pai como também – e aí é que está a novidade – para Jesus, assim reconhecido como sendo Ele próprio Deus.

455. O nome de Senhor significa a soberania divina. Confessar ou invocar Jesus como Senhor é crer na sua divindade. «Ninguém pode dizer "Jesus é Senhor", a não ser pela acção do Espírito Santo» (1 Co 12, 3).
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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

ONDE MORAS TU, SENHOR?


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Porque vem a propósito do Evangelho de hoje, coloco aqui o ensinamento da manhã, (como chamamos no Renovamento Carismático Católico), proferido por mim há uma dezena de anos, num Encontro do RCC, realizado em Monte Real, que tinha como tema: “Onde moras Tu, Senhor?”

Para ouvir melhor, será necessário clicar no link da música de fundo e parar a mesma .
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Sábado, 31 de Dezembro de 2011

ANO NOVO, NOVA VIDA

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Senhor,
para o ano vou ser melhor!

Vou rezar cada vez mais,
e amar mais o meu irmão,
vou compreender melhor,
os que não me compreendem,
vou ser mais coração,
do que frieza de pensamento,
vou partilhar mais o que me dás,
com aqueles que nada têm,
vou ser mais Igreja,
vou ser mais Tu,
do que eu,
para que toda a gente Te veja.

Vou mudar tanta coisa,
Senhor,
que tenho nos meus planos,
que tenho na minha vontade,
que tenho no meu querer,
que vou ser muito diferente,
à vista de toda a gente.

É isso que queres,
não é Senhor?

Que eu seja mais,
o que acho devo ser,
que tome cada vez mais conta,
da minha forma de viver,
que mude a minha forma de amar,
para encontrar a felicidade,
não é,
Senhor?

O que me dizes,
Senhor?

Ah, afinal
basta-me fazer a Tua vontade!


Marinha Grande, 31 de Dezembro de 2011
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Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

É SEMPRE ASSIM...

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É sempre assim, todos os anos, (ao longo destes 62 anos ou desde que me lembro de mim), nos dias 24 e 25 de Dezembro.

Envolvida na enorme alegria do Nascimento de Jesus Cristo, na vivência do eterno amor de Deus por nós, “ataca-me” uma saudade de ser criança, de ser rapaz, uma saudade de viver o Natal em família, “preocupado” apenas em sentir a alegria do encontro, a serenidade da noite, a beleza da celebração e dos seus cânticos próprios, a paz reflectida nos rostos daqueles que se abraçam na Missa, à saída da Missa e na chegada à casa de cada um.

Logo de manhã, nesses dias, era muito difícil controlar a ansiedade de saber esperar a chegada dos meus irmãos mais velhos.
(É assim, julgo eu, com as famílias grandes como a minha de nove irmãos, dos quais sou o mais novo, com uma diferença de quase dezoito anos do primogénito.)

Mesmo sabendo que só lá para o fim da tarde os meus irmãos haveriam de começar a chegar, os meus olhos e até as minhas pernas, não cessavam de me conduzir ao portão de entrada, para tentar identificar cada carro que passava, na esperança de que fosse um deles a entrar por aquele portão.
Por vezes era frustrante, porque havendo carros iguais, à alegria do reconhecimento ao longe, sucedia-se o desapontamento da identificação ao perto.

Eram dias de uma envolvência de paz e alegria, perfeitas!

O meu pai, (por vezes parecendo noutros dias mais “longe” pelos seus muitos afazeres), tornava-se perto, muito perto de nós, numa alegria incontida que o fazia ter um sorriso de ternura e orgulho naquela sua família.

A minha mãe, sempre atarefadíssima na preparação das muitas refeições, (ceias, almoços, jantares), até porque os mais velhos já tinham filhos, não deixava de, (pelo meio de uns “ralhetes” por causa da muita excitação), dar uns beijos molhados de lágrimas saudosas e orgulhosas dos seus filhos.

E lá para o meio da tarde começavam os beijos e os abraços daqueles que iam chegando e daqueles que já tinham chegado, com as consequentes conversas sobre o crescimento dos mais novos e os negócios dos mais velhos.

Mais novo, eu, corria de um lado para o outro, temendo sem dúvida perder algum momento de toda aquela alegria.

Vinha então aquele jantar especial, (supostamente mais frugal, por causa da Comunhão na Missa do Galo), em que o barulho se fazia ouvir mais do que as conversas de cada um.

Vestidos os casacos lá íamos em “procissão” para a Igreja, no frio que sempre se fazia sentir, (que saudades tive desse frio na noite de Natal passada na Guiné), para participarmos na Missa do Galo, mas, (pelo menos eu), com o pensamento voando para os embrulhos coloridos que por nós esperavam na sala junto ao Presépio.

Família de “cantores”, (com algumas poucas excepções), os cânticos eram cantados a plenos pulmões, muito especialmente o “Adeste Fideles” final, e mesmo não sabendo latim, nada se notava porque os “sons” eram iguais!

Regressados a casa, depois dos abraços e beijos de Boas Festas, juntávamo-nos na sala de jantar, (à volta de uma mesa decorada com motivos natalícios, tendo o Presépio ao topo da sala), e rezávamos unidos a oração que o nosso pai fazia e que envolvia sempre o Pai Nosso, que o Filho nos ensinou, no Espírito Santo.

Então a minha mãe e o meu pai distribuíam os seus presentes a cada filho e a cada neto, seguindo-se a alegre confusão de cada um dos filhos fazer a sua própria distribuição de presentes numa profusão ruidosa de beijos, abraços, exclamações de alegria, e afirmações de: “era mesmo isto que eu queria”!

A ceia era então servida no meio da algazarra, (aqui e ali controlada com uns avisos mais ou menos sérios da minha mãe), e terminava sempre connosco à volta da mesa cantando toda a espécie de músicas de que nos íamos lembrando naquele momento.

A alegria era imensa e nunca conseguiria descrever o que todos aqueles momentos significavam e ainda significam para mim e julgo que para cada um de nós.

Ao almoço do dia de Natal, repetia-se a mesma cena, porque se a alegria e a harmonia tinham por breves momentos adormecido, fruto do cansaço, já estavam bem acordadas e faziam-se sentir em toda a sua força.

Confesso, que nem sei bem, mesmo em criança, se me eram mais queridos os presentes que recebia ou o estar com toda a família naquela alegria imensa!

Mesmo depois de feita a tropa na Guiné, casado e com filhos, (com os meus pais ainda vivos), acredito, porque me lembro, de que toda aquela ansiedade alegre ainda tomava conta de mim naqueles dias.

Até mesmo nos demasiados longos anos que vivi afastado da Fé, afastado da Igreja, o Natal, (aquele Natal), era para mim um tempo de excelência e de reencontro com Deus.

Não tenho dúvidas que, quando Jesus nasce assim nos corações, eles ficam marcados para sempre e mesmo que se afastem por uns tempos, acabam sempre por regressar ao amor, ao verdadeiro amor que nos vem de Deus.

Diz-se por aí que o Natal é das crianças!

Parece-me antes que, para se viver o Natal temos de nos fazer crianças, não no sentido da idade, mas no sentido da simplicidade, ou seja, num acto de puro amor abrirmos o coração ao infinito amor de Deus que se faz Um como nós, para que a nossa vida seja completa.
«Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância» Jo 10,10

Ao aceitarmos o amor do Pai, na Pessoa do seu Filho Jesus Cristo, que se faz Um como nós, deixamo-nos tomar por esse amor e pelo poder do Espírito Santo derramado em nós, teremos então de ser amor para os outros também.

É sempre assim, todos os anos, nestes dias 24 e 25 de Dezembro, tenho saudades de ser criança, quero fazer-me criança na simplicidade, mas tantas vezes me deixo ser “demasiado crescido”, e não consigo verdadeiramente, (tanto quanto queria), viver e ser Natal para mim e para os outros.

Que o Deus Menino, amor eterno, a todos nos abençoe.


Marinha Grande, 26 de Dezembro de 2011
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Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

CONTO DE NATAL 2011

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Jacob Jordaens



Era meia-noite e a discoteca já tinha bastante gente.

Pelo menos os seus amigos estavam todos lá, conversando e rindo animadamente.

Pediu uma cerveja e aproximou-se deles tentando entrar na conversa, para ver se conseguia animar-se um pouco.

Alguma coisa estranha estava a acontecer naquela noite, que o impedia de estar à vontade, de “sentir” a noite, de se abandonar ao riso e ao divertimento.

Uma das suas amigas puxou-o para dançar e ele lá foi, um pouco a contragosto, pois estranhamente, (ele que tanto gostava de dançar), não lhe apetecia naquele momento.

Ainda tentou, obrigou-se mesmo a abanar o corpo ao som da música, mas não, não era aquilo que ele queria, hoje decididamente não lhe apetecia dançar.

Aproximou-se do balcão, pediu mais uma cerveja e pensou que o que lhe faltava era beber mais uma ou duas cervejas, pois logo aquele desconforto, aquela sensação de incómodo, aquela preocupação que não sabia explicar, havia de passar e seria sem dúvida mais uma noite bem divertida.

Os seus amigos estranhavam-no e perguntavam-lhe insistentemente se havia algum problema com ele, pois parecia não estar ali com eles, mas noutro sítio qualquer.

Já ia na terceira ou quarta cerveja, o seu estado de humor não melhorava nem um pouco, e ele já pensava que não podia beber mais, porque senão, em vez de se divertir, ia apanhar uma bebedeira, que era coisa de que ele francamente não gostava.

Pôs as mãos sobre os ombros dos amigos, disse umas graças, deu umas gargalhadas, mas tudo lhe soou a falso.

Que coisa, caramba, o que é que se passava que o impedia de estar à vontade e de se divertir?

Foi dar uma volta até ao sítio exterior onde os fumadores matavam o vício, mas não havia maneira de se libertar daquela sensação de desconforto, daquele sentimento de que não era ali que devia estar.

Voltou para dentro e forçou-se mais uma vez a ir ter com os amigos, a prestar-lhes atenção, a exigir de si mesmo participar nas conversas.

Mas nada, nem pouco, nem muito, a sua situação, a sua atitude, o seu interesse e divertimento, mudavam para melhor.

Olhou para o relógio.

Parecia estar ali há uma eternidade, e afinal tinham passado apenas quarenta minutos.

Sabendo-se muito perto de onde morava, desistiu de se forçar ao divertimento, disse boa noite aos amigos, e regressou num instante a casa.

Abriu a porta e foi recebido pelos seus pais e irmãos mais novos, que alegremente o abraçavam e acarinhavam.

Olhou para o seu pai, que lhe disse num tom terno:
Fizemos-te falta esta noite, não foi?

Percebeu então a razão do seu mal-estar!

Era noite de Natal e apesar da insistência do seu pai para ele ficar em família, tinha decidido que seria a primeira vez que passaria essa noite fora de casa, a divertir-se com os amigos.

Olhou para dentro de si, e percebeu um sorriso de criança no seu coração.

Intimamente orou dizendo:
Obrigado, meu Deus, porque me fizeste encontrar o sentido desta noite de Natal!



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FELIZ E SANTO NATAL

PARA TODAS E TODOS OS QUE VISITAM ESTE ESPAÇO
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Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

«ELE NÃO ERA A LUZ, MAS VINHA PARA DAR TESTEMUNHO DA LUZ»

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«Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz.»
Jo 1, 8

Ao ler este versículo do Evangelho deste passado Domingo, confrontei-me com o pensamento de que tantas vezes não o tenho presente na minha vida, e em tantos momentos, tocado pelo orgulho e pela vaidade, quase me julgo a “luz”.

Tantas coisas leio, tantas coisas estudo, tantas coisas digo e escrevo, (por vezes apreciadas por outros), que me esqueço da minha inutilidade e me julgo mais do que aquilo que sou, ou sou digno sequer de ser.

E poderia eu alguma vez ser testemunha do amor, se o amor não me tivesse sido dado e escolhido primeiro?

E poderia eu alguma vez falar das coisas de Deus, se não fosse Ele a colocar as palavras em mim?

E poderia eu alguma vez testemunhar as maravilhas que Ele fez e faz na minha vida, se Ele não me concedesse essa graça?

Como tem agora ainda mais sentido a oração que o Espírito Santo colocou um dia no meu coração e eu rezo todos os dias:
«Mãe, ensina-me a ser nada, para que Cristo seja tudo em mim.»

Mas será que esta oração não se tornou rotina em mim, e apenas a rezo sem nela meditar, e sobretudo sem a viver verdadeiramente?

Que neste Tempo do Advento em que o Senhor me quis chamar a atenção para este versículo da Bíblia, eu saiba reduzir-me ao nada que sou, e perceber verdadeiramente que se alguma coisa faço ou testemunho, não sou eu que o consigo por mim próprio, mas sim Ele que está em mim e de mim se serve, e que eu só tenho que Lhe dar graças por isso.

Tudo e sempre para a glória de Deus!



Marinha Grande, 12 de Dezembro de 2011
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Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

«EU ESTOU À PORTA E BATO…»

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«Eu estou à porta e bato…»*

E eu surdo,
nada ouço!

Os ruídos do mundo
ecoam alto nos meus ouvidos,
e não me deixam ouvir
o Teu chamar.

Mesmo assim,
pergunto-me:
pareceu-me ouvir bater?
Mas logo me respondo:
não deve ser nada importante,
deixa-me continuar,
o que eu estava a fazer!

Envolto no mundo que me abraça
distraio-me da vida,
da verdadeira vida,
aquela que quero viver,
e que por mim passa,
só porque não Te ouço bater!

O ruído do mundo aumenta,
faz-se constante,
imperioso, instante,
já não me deixa pensar,
mas apenas me deixa seguir,
por onde ele quer,
para onde me quer levar,
perdido num caminho,
em que me deixo conduzir.

Tropeço, caio,
é cada vez mais difícil,
conseguir-me levantar.
Arrasto-me penosamente,
perdido nas paixões e vícios
das quais já não me consigo,
por um momento sequer,
libertar.

Num momento fugaz,
(porque Tu não me abandonas),
ouço um bater suave,
à porta da minha vida.

Abro-Te a porta,
deixo-Te entrar.

Trazes contigo a paz,
o caminho, a verdade,
fazes-me encontrar a vida,
que me dás em liberdade.

Lentamente,
atenua-se o ruído,
cresce a confiança,
é mais fácil o levantar,
o rir,
o caminhar,
encho-me de esperança,
e aceito a vida,
porque em Ti,
me queres salvar.

«Eu estou à porta e bato…»*

Entra, Senhor,
ceia comigo,
que eu ceio contigo!

Façamos a festa juntos,
a festa de Te encontrar,
para que eu possa viver no mundo
a vida que Tu me queres dar…



* Ap 3, 20

Monte Real, 9 de Dezembro de 2011
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