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Crisemprego

Ilustracao de Michael Vincent Manalo

Apercebi-me esta semana da dimensão da crise, diz-me uma amiga com consternação. Lá no Instituto abrimos duas, duas vagas para administrativos em part-time. Recebemos 240 candidaturas, incluindo 16 doutoramentos e cerca de 60 mestrados. Um part-time administrativo com 550 euros de ordenado, imaginem! Tem-me sido duro este processo de selecção.

Duro nada!, diz logo amigo também presente e sempre lúcido, Duro era teres à tua frente 240 curricula para fazeres despedimentos.

Verdade, mas compreendo bem a minha amiga e comisero com ela. Contratar alguém é uma ocasião feliz, deveria ser uma ocasião feliz. Mas quando a escolha de dois implica a exclusão de tantos com tanta preparação e pouca oportunidade esvai-se a ocasião feliz, intui-se a esperança posta em cada carta e adivinham-se as dificuldades escondidas em cada curriculum. São dois sins e 238 nãos – um rácio impossível!

AL


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A dádiva da dança

 
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Não são bonitos nem glamorosos. Não são particularmente bons dançarinos. São o Lewis e o Luke. Deles nada sei a não ser que são generosos. Têm-me dado todos os dias um sorriso matinal quando abro a página do calendário de advento que prepararam para quem quiser ver: uma dança num local público. Sem rotina, sem coreografia, sem qualquer artifício, perante transeuntes perplexos. Pelo puro prazer da dança e de fazer algo divertido. Para eles e para mim que desde dia 1 de Dezembro abro os meus dias com uma dança engraçada e uma música alegre. Não sei quem são. São o Lewis e o Luke. Sei que têm humor, que gostam de dançar sem complexos e que generosamente partilham esse prazer comigo.

AL


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Fechos de correr

 

Imagem daqui: http://60s-70s-80s.com/store/images/Sticky-Fingers-LP.JPG

Andei semanas a namorá-lo. Saía do liceu e passava pela lojinha que o tinha enfiado numa caixa de cartão estacionada no parapeito de uma janela, misturado com outros álbuns. Percorria-os com os dedos até chegar àquele que eu desejava e enquanto mentalmente fazia as contas a quanto me faltava para o comprar, ia abrindo e fechando o fecho de correr. Soube hoje, por um serendipismo, que as ancas ali modeladas não eram as da minha mais antiga paixão, mas sim deste senhor e que a capa foi desenhada por Andy Warhol. O álbum? O Sticky Fingers dos Rolling Stones, what else?

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AL


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Boas festas

Em jeito de postal cantado (clicar no link para ver uma coisa completamente parva). E que o humor seja a última coisa a deixar-nos!

 
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AL


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Este é o prémio do meu descontentamento

 

Sala do Nobel da Paz

Escrevo. Apago. Hesito. Re-escrevo. Dividida e entristecida que estou neste dia que devia ser de alegria. Alegria por ver mulheres reconhecidas, celebradas e agraciadas com o que é para mim o prémio dos prémios. Desconsigo alegrar-me e festejar. Como celebrar um prémio Nobel da Paz atribuído a Ellen Johnson Sirleaf quando ela se associou politicamente a Prince Johnson? Como celebrar um prémio Nobel da Paz atribuído a Leymah Gbowee, compatriota de Ellen e activista dos direitos humanos no seu país, quando ela, sendo quem é, aceita este prémio sem denunciar tal associação? Como celebrar um prémio Nobel da Paz atribuído a Tawakkol Karman, activista iemenita de quem nada sei mas que assim associa o seu nome a figuras duvidosas no mínimo, criminosas no pior dos casos. Que dizer do enorme silêncio mediático sobre a associação de Sirleaf a Prince Johnson, não vá qualquer denúncia estragar a festa?

Para mim, calar-me e celebrar este prémio seria negar os sacrifícios da Saquina, da Jacinta, da Eunice, da Flora, da Lídia, da Paciência, da Justina, da Vitória e de outras, tantas, tantas, tantas outras mulheres que na luta pela Paz marcaram corpo e alma. Sem prémios. Por elas e para elas este prémio devia hoje ter sido de alegria. E será certamente. Porque é importante reconhecer o esforço e contributo destas mulheres.

Devo ser eu o problema. Serei eu certamente o problema. Desconheço os sacrifícios que se fazem em nome da Paz. Diletante que sou…

AL


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Confrangedor

 

Foto de telemovel. A legenda diz: "Fomos à Picha e à Coina"

Na sala de espera do consultório um televisor empinado junto ao tecto transmitia um qualquer programa da manhã com o Goucha e uma menina. Entre gritos e inanidades enche-se subitamente o écran com a tabuleta da vila de Coina. Lentamente desfaz-se o zoom para dar lugar ao Goucha que, agachado e por entre os dois pilares que a sustentam, passa por baixo da dita tabuleta enquanto debita “confesso que é a primeira vez que venho à Coina!” (piscar de olho tsk, tsk e sorriso malandrote). Cai-me o queixo, solta-se-me a gargalhada e pergunto-me se serei só eu a ver o ridículo, a quase ordinarice do momento. Julgava eu que já tinha visto e ouvido tudo e que pior seria difícil, salta a câmara para a menina que, também junto a uma placa toponímica, nos informa “já que o Goucha foi para a Coina, eu resolvi vir até à Picha!”. Calou-se-me o riso, morreu o ridículo. Sobrou simplesmente a insinuação que se pretendia brejeira mas que de rasca que é não passa de uma ordinarice baixa, que apouca e achincalha quem a diz e quem a ouve.

O queixo? Esse continua caído.

AL


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O mundo é um jardim

 
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Ainda mal refeita da indignação que este postal do JPT me despertou, vagueio pela net em busca de algo que me distraia (escapismo puro, sim!) e vou dar a este anúncio que aqui ponho. Lindo!, pensei. Mas depois, talvez virtude de resquícios da indignação que há pouco me assolou, desconsigo não ver nele uma extensão do jardim do JPT. Pertubador sentir o subliminar traduzido com todo o despudor neste pequeno filme. O ritmo partilhado, sugerindo que são mais as coisas que nos unem que as que nos separam; o sentido de aventura espelhado nas picadas e riachos; a conquista do terreno difícil – respiração ofegante da abertura contraposta pelo gesto displiscente do atirar das fotos para o banco do passageiro; os incas os maasai, os maori, os índios (ameríndios, já sei!) em diversos graus do “very typical”. Presume-se que serão os nossos novos amiguinhos. Que iremos fazer ao andarmos por esse mundo fora. Somos nós que até eles vamos, claro, num continuum de espírito colonial. A máquina que até eles nos leva? Esta que aqui se ilustra, dirigida por braço forte e robusto de homem branco, what else? Não nos diz a música afinal quem são os campeões?

Não me interpretem mal, não estou a remeter-me para um plano moral mais elevado. Sou tão vítima de falácias como qualquer um; também eu tenho boas intenções mal direccionadas e cegueiras culturais. Vejam lá que eu até gosto do anúncio! Mas hoje, aqui e agora parece-me que o jardim do JPT é bem maior que a esplanada e afinal quem anda com as crianças a reboque pode ser qualquer um de nós. Incluindo eu. Talvez até a gostar e sem dar por isso…

AL


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Uma enorme depressão

 

Imagem daqui: http://floreslivroselua.wordpress.com/2009/12/06/vida-maravilhosa-e-a-reforma-darwinista/

 

Burgess de sua graça, canadiana de nacionalidade e depositária de importante espólio fóssil do período câmbrico, que marca a explosão de diversas formas de vida. Integra-se na espectacular paisagem das Rocky Mountains e protagoniza agora um site maravilhoso aqui. Vale a pena passar por lá e embarcar no submarino virtual que nos leva ao fundo do mar há muito desaparecido e onde tantas destas formas de vida habitavam. Ou passear pela galeria de fósseis aí descobertos e que abriram novas perspectivas sobre a evolução das espécies:

Graças a eles sabemos hoje que a vida evolui através de extinções massivas seguidas de diferenciação dos sobreviventes, e não por uma caminhada segura e cada vez mais alta, em direção a um progresso ininterrupto.

E onde se prova também que há depressões que vêm por bem.

AL

(Nota: permiti-me traduzir shale por depressão. A tradução mais correcta seria jazida.)


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Não se cala a ingrata

 
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Arredada que tenho andado do mundo virtual passo hoje brevemente aqui pela ma-schamba e vejo a cooperativa engalanada com a onda fadista que tem varrido o país. Alegra-me a alegria dos membros da cooperativa e a eles me junto. Por amizade a eles e por memória a meu Pai, esse grande amante do fado e que desde criança para as casas de fado me arrastou.
 
Mas, ainda que apelidada de ingrata, desta vez aqui não caso e serei a voz dissidente, já que toda a comoção gerada em torno do assunto me elude e me deixa até perplexa. Não por causa do fado em si, enquanto corrente musical, não com o gostar ou não de fado ou de representar ele ou não a alma portuguesa (seja isso lá o que for). Nem tem mesmo a ver com a Unesco – ela é o que é. Tampouco se prende com qualquer posição política, embora não deixe de sorrir com a ironia de ver tão cantada esta instrumentalização do nosso fado por oposição a outras (ou tentativas de) no passado, tal como o nosso JPT e MVF têm referido nos postais que aqui têm. Não me escapa a ironia de ver agora a louvar em bicos dos pés quem tentou senão calá-lo, pelo menos ignorá-lo. A todas estas (e outras) manipulações o fado é alheio e não foi por isso que deixou (nem deixa) de ser o que é.
 
O que será então que me deixa tão indiferente? Não, minto. Irritadiça e até mesmo embaraçada? Porque será que a única coisa que me ocorre perguntar perante tanta comoção é: e depois? Pior ainda e já que estou em maré confessional, a pergunta que me ocorre mesmo é: so what?
 
Parece-me, a mim, que tanto louvor apouca gentes que tanto se têm esforçado pelo fado. Mais concretamente a nova geração de fadistas que tanto por ele se têm empenhado. Não, dizem-me, estás enganada!; pelo contrário, o facto de a Unesco reconhecer o fado como património mundial só enaltece tais gentes. Talvez tenham razão e talvez esteja eu enganada mas quantos fadistas integraram a delegação portuguesa que a Bali se deslocou? E se algum a integrou, porque foi então rematado o discurso de António Costa com o seu iPhone? Tens que ser sempre do contra, ripostam-me, é um processo político. Será e terão todos razão. Não se altera, no entanto, o meu sentir. Alegro-me com os amigos que se alegram pelo fado como património mundial. Fosse o meu Pai ainda vivo e estaria certamente a celebrar em grande. Mas, repito eu, e depois?
 
AL


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Coração e liberdade

 
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Não era o seu poeta favorito, o Pablo Neruda. Dizia-o adocicado, demasiado meloso. Mas comprou uma versão bilingue da sua obra. Levávamo-la connosco nas escapadas que fazíamos e descobria sempre um qualquer poema para me ler. Gostava de ler para mim. Gostava de trocar as voltas a Neruda quando me abraçava e dizia-me baixinho: Para mi libertad bastan tus alas/Para tu corazón basta mi pecho. Sorria e beijava-me.
 
Dizia-me “we have lost even this twilight” sempre que a geografia nos separava…
 
AL (para DM)
 


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Um postal de m***a (reciclado)

 

Daqui: http://support.waterforpeople.org/site/Ecard?ecard_id=1262

 

Faz hoje exactamente uma semana, no 19 de Novembro, celebrou-se o Dia Mundial da Retrete sob o auspício da ONG internacional – WaterAid. Absorvida que estive com as festividades dos 2 anos do Benjamim, não assinalei aqui esse dia para mim tão querido e que tão de perto me toca. Faço-o agora. Deslumbro-me cada vez que entro na casa de banho cá de casa: retrete limpa e asseada; autoclismo a funcionar, com água lá dentro e tudo. E torna a encher depois de despejado, oh alegria!. A pouco mais de um metro, um lavatório com águas correntes – quente e fria. Ao lado, papel higiénico espesso, macio e por vezes até colorido. Posso despejar o autoclismo de cada vez que a uso e não deitar-lhe somente meia caneca de água, uma vez por dia; posso entrar na casa de banho sem ter medo de apanhar lepra ou uma qualquer doença ainda desconhecida. Não tenho que inspirar uma golfada de ar à entrada, nem reter a respiração enquando a uso. Não tenho que estar alerta sobre outras formas de vida que comigo a partilhem. Enfim, é um luxo, um verdadeiro luxo que não tomo por garantido e com o qual me congratulo cada vez que dela uso faço.

Admito que quando parto para trabalho de campo o que mais me custa é a perspectiva das casas de banho manhosas, sem água e das latrinas. A imagem da casa de banho pública do Xai-Xai há-de acompanhar-me até ao fim da minha vida! Não me importam os ossos doridos por dias de solavancos em picadas; passo por cima dos insectos e moscas peganhentas; confio no Baygon verde para tratar dos colchões com vida interior; conformo-me com um chão de palhota para passar a noite; aceito o desjejum com mandioca cozida temperada de fumo; tolero o fato de suor e pó que habitualmente me cobre e que uma mão cheia de água não chega para remover; mas a latrina? A latrina? Confesso: tenho PAVOR da latrina! Aquele buraco escuro que eu suspeito estar cheio de coisas vivas em permanente mutação; o oscilar das tábuas quando a terra está ensopada das chuvas; a privacidade questionável; a vulnerabilidade da posição e o cheiro mais ou menos pungente… Tudo na latrina me confrange!

É este meu pavor partilhado pela minha amiga Angela, companheira de muitos anos de desconforto latrinal e a única com quem costumo ter estas conversas de m…a. Temos partilhadas horas de riso desfiando retretes! Enviou-me ela, no Dia Mundial da Retrete em 2009, um email recordando as piores retretes da sua (nossa) vida. Apesar de ser em inglês, por termos partilhado tantas delas e pela graça com que ela as descreve, acho que merece reprodução aqui na maschamba:

Toilets Without Borders (by Angela McIntyre)

Today is World Toilet Day, and so I pay tribute to the humble loo. There is a spotless, perfectly flushing loo, stocked with ludicrously soft 3-ply, next to a sink with hot running water, a mere 5 meters away from me. In fact, hang on just a second while I, um, powder my nose…Much better.

Ok. Where were we? Nampula, Mozambique 1994, the town water supply has been off for 2 weeks and you have to drive 20 or so km to a reservoir with buckets if you want some. Here you flush sparingly, once a day, it is your bath, cooking and drinking water you are pouring down there, and you’ve lugged it up 3 flights of stairs to boot. Everyone else flushes their loo once a day too, and the whole town is positively aromatic. Better to have a hole in the ground when the modcons are unreliable. If you have a place to dig one, that is.

Mozambique Island, 1993: one side you can swim on, the other side is the communal toilet, flushed by the tide. Water is just too scarce – it comes from a large communal rainwater cistern at a 300 year old fortress. You wait in the queue til it is your turn to lower your bucket in. You lug it home and boil, literally, the LIVING SHIT out of it, and still get giardia, unmistakable for the tectonic rumble it produces in your intestines and sulfurous breath. I digress.

Maputo, 1995: there is an old-fashioned tank with a chain up on the wall, which might actually work if there was water in it, but at least you can fill buckets from the standpipe in the street. Little consolation when you live in a crumbling apartment block with a broken elevator, on the 10th floor. What on earth were those Soviets thinking?

Let’s travel a ways north on the public bus – the Machimbombo – as it is fondly called – to Xai Xai, where there is a public loo at the bus station. Its state of perpetual overuse and overflow has compelled someone to simply build a low brick wall  across the doorway to contain the horror, in which there are things swimming, visible to the naked eye. There are new species evolving in there, worthy of a Discovery Channel Documentary.

Inhassoro, 1996: I arrive at my new digs, where I will live for 2 years, on the beach, in a thatch-roofed hut. It is charming and typical, waterproof, lit by kerosene lamps at night. Then there is the loo. It is about 20 meters from the hut, 40 at night in the pitch dark. A deep, murky hole with a skimpy wall of reeds around it and a thatched roof. There is a bat nesting in the thatch, which swoops down disconcertingly while you are at your most vulnerable, trousers down around ankles trying not to slip into the HOLE. Some months later I suggest to the UNDP Evaluation Mission, come to look at my community vegetable garden project, that the sanitation here is less than satisfactory. There is no functioning water system in the village and we could use an Improved Latrine Program so we don’t get stinky, messy backups and cholera during the rainy season when the water table rises. They recoil in horror at my loo setup and vow to Do Something About It. Several months later, there is a UN truck spinning its tires in the beach sand outside my hut, villagers diligently trying to push it out. I see they have unloaded a shining, new, modern sparkling bathroom suite. Sink, tub, toilet, and yes, that mysterious other thing known as a ‘bidet’. The villagers gather round, gaping and whispering to one another. The white lady really is mad, it is now official. My village-cred has gone down the hole, but they are kind, charitable people and someone humors me, “Dona Angela, you have the nicest bathroom in all of Inhassoro!” Later we grow tomato plants in the bathtub and water the goats from the bidet. The toilet is cemented over the HOLE, allowing one to launch one’s self more easily to safety and avoid losing a flipflop to the abyss when the bat is startled. It was the nicest toilet in Inhassoro.

AL em parceria com AM

 

 


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Pó das estrelas

 

Poligamo / Chulo

 

Nunca tinha ouvido falar de Mark Laita,  fotógrafo americano filho de pais lituanos, até email amigo me ter alertado para ele. Mais concretamente para o seu livro “Created Equal”. Nas palavras de Mark Laita “na América o fosso entre ricos e pobres tem-se alargado, o confronte entre conservadores e liberais tem-se reforçado e mesmo os conceitos de Bem e Mal parecem mais polarizados que anteriormente. Esta minha colecção de dípticos pretende lembrar-nos que somos todos iguais até que o nosso ambiente, as nossas circunstâncias, ou mesmo o nosso destino nos moldem naquilo em que nos tornámos”.

De uma forma naïve e muito cândida, Laita apresenta lado a lado imagens de gente díspar mas que, quando colocadas lado a lado, nos remetem também para aquilo que de comum partilham. Uma bailarina e um boxer? Ambos sujeitos a regimes físicos espartanos e dietas rigorosas para alcançarem a mesma desenvoltura de pés. Ambos respectivamente símbolos do feminino e do masculino.

Bailarina / Boxer

São imagens provocadoras e algumas sem dúvida alguma controversas, mas “aquilo que nos realiza pode diferir de pessoa para pessoa, mas tecto, mesa, companhia e felicidade, tudo isto são coisas que todos queremos para nós e para os nossos filhos”.

Gostei das suas composições e lembro-me de Sagan que nos dizia sermos todos pó das estrelas.

AL


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Ímpia Scripta

 

Hoje no Instituto Camões de Maputo.

 
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A espada do Islão

 

Daqui: http://www.independent.co.uk/incoming/article6265449.ece/ALTERNATES/w380/Pg-7-gaddafi+reu.jpg

 

Hoje de manhã ao ler o meu jornal matinal deparo-me com um pequeno vídeo de uma entrevista a Saif, segundo filho do Coronel Gaddafi/Khadaffi/Qadafi, em que ele fala dos ferimentos sofridos durante um ataque da NATO e da sua captura posterior por líbios. Diz ele:

“ Relativamente à situação actual, existe alguma confusão … Depois de sairmos de Bani Walid, fomos atacados pela matilha dos cruzados, em que 26 dos nossos homens se tornaram mártires e muitos outros ficaram feridos. O ferimento que eu tenho foi infligido pela matilha dos cruzados há cerca de um mês perto de Wadi Zamzam. E felizmente não foram os líbios que nos atacaram, quem nos atacou foram os infiéis. Concordámos que eu seria tratado aqui em Zintan, porque diz-se que aqui existem instalações médicas e anestésicos para a operação que eu preciso. Estamos aqui com as nossas famílias, com os nossos irmãos e não há qualquer problema. Temos falado muito sobre a minha condição médica… “

Não posso deixar de saudar que Saif não tenha sido submetido à mesma brutalidade e pornografia das mortes do pai e do irmão mais velho. Mas este discurso de bushismo invertido – matilha, cruzados, mártires, infiéis, concordámos, irmãos – não me soa a discurso de rendição e conciliação; soa-me a belicismo de aliança e pré-campanha. A mim, o que me diz é que Saif está de novo em casa, com a sua arrogância e sentido de “entitlement” incólumes. Lá diz o povo que o bom filho a casa torna e que os filhos do ferreiro não têm medo de fagulhas. Ou me engano muito ou ainda hei-de vê-lo novamente nos corredores do poder. Assim eu me engane. Inschallah!

AL

ADENDA: Em comentario mais abaixo foi-me enviado um link para um artigo que vale a pena ler. Por isso o puxei aqui para cima.


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De profissionais e amadores

 

Fotografia de Andrew S Cameron

Não sei como fui parar ao site de Andrew Cameron e pouco sei sobre ele. Sei que comecei a navegar no site do McCurry e de link em link fui lá parar. De fotografia, assim como de arte aliás, pouco percebo para além do gosto/não-gosto. De técnica percebo ainda menos. Parece-me, no entanto, que o contraste entre McCurry e Cameron não poderia ser maior. McCurry, profissional da arte, tem uma fotografia quase barroca de cor; Cameron, fotógrafo de passatempo, contido no quase sépia que usa. Dois olhares distintos que me agradam, que me contam histórias de encantar e que vos convido a explorar.

Fotografia de Steve McCurry

Fotografia de Andew Cameron

AL


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Beleza de cartão

 

Imagem daqui: http://www.anaserrano.com/index.php?/projects/movieapolis/

A primeira vez que ouvi falar de Ana Serrano foi por causa de um trabalho dela intitulado “road to malverde”, uma colagem em cartão que me fez lembrar, vá lá saber-se porquê, uns pequenos stands à beira da estrada que liga Maputo a Nelspruit e que eram para nós paragem obrigatória.

Para além das memórias que as suas instalações em mim despertam, agrada-me a simplicidade dos materiais que utiliza – sempre diferentes tipos de cartão – a composição, a iconografia, o inesperado da mistura.

Neste pequeno vídeo fala-nos um pouco sobre o seu trabalho e a sua instalação mais recente – salon of beauty.

 
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AL


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Amor perfeito (re-posto)

O Benjamim chegou dia 17 de Novembro de 2009 ao seio de uma família em êxtase com o acontecimento. Devidamente registado para se firmar bem na sua cepa; passou com nota máxima no teste do pézinho; já levou dois furos nos pneus, que o inocularam contra diversas doenças manhosas. Tem o sono dos justos e o feitio manso de alguém da família que não a avó. De Cascão não tem nada; adora o banho, onde aproveita para bicicletar com tal vigor que já andamos a pensar em adquirir aventais de plástico. Gosta da água bem quentinha e de tomar banho com vagar. Quando lhe apetece saborear melhor o seu banho, lambe as mãozinhas  e alterna expressões de riso e alegria com a pura  concentração do exercício físico extenuante que é, para ele (e para nós), o banho.

Não foi circuncidado. Não por qualquer razão ideológica ou religiosa, mas simplesmente porque não. De bens possui uma família babada e um guarda-roupa esmerado ainda que sem grifes ou marcas. Cá em casa não gostamos de fazer de bilboards para ninguém, ainda por mais pagando por isso! Era o que faltava!

É a cara da mãe, embora sendo eu a avó materna tal afirmação possa parecer suspeita. Mas se se vier a parecer com o pai, também não fica mal, pois é o pai dele um homem muito bem apessoado.

É tão lindo o meu neto Benjamim que até dói! São 60 cm de alegria pura e sem malícia, com um cheiro doce a leite. Duas amêndoas negras abrem-se para um mundo cheio de coisas novas a descobrir. Palra e ri-se agora, do alto dos seus 2 meses de vida. Olha-nos com a confiança de quem ainda só foi amado.

Gosto de empiná-lo ao meu ombro, por sobre o qual ele pode ver o globo terrestre com África estrategicamente posicionada no seu campo de visão. E conto-lhe então como vai ser quando fugirmos os dois para África, onde o vou deixar correr nu pela praia. Guuu, diz ele. Na maré baixa, vamos os dois apanhar amêijoas, digo-lhe baixinho. Grrrr responde ele em de-leite. Quando tiveres cinco anos já hás-de saber cortar cocos com uma catana, para a Avó beber coco lenho como ela tanto gosta. Guuu-grrrr ri ele na cumplicidade da pilhéria. Rimos os dois.

Depois conto-lhe que em Dezembro havemos de ir a Tete ver os embondeiros floridos e provar do seu fruto; vamos também ao Niassa para veres como é um mar de água doce. Chama-se lago. Guuuu responde ele já em planos de viagem. Em Nampula, havemos de aterrar por entre cabeços redondos e depois vamos para a Ilha. Aaaaaa, palreia ele. Havemos também de ir à Zambézia! Tantos coqueiros como nunca viste e colinas e um rio imenso que agora já tem ponte mas que a Avó ainda atravessou de batelão. Aaaaaa continua ele extasiadamente. E eu continuo a viajar na memória, agora por ele acompanhada, e conto-lhe do Tofo e da Barra, de Inhambane e do Morrungulo, de Magaruque, Benguerua, Sta Carolina e Bazaruto, subimos ao Ibo, passamos por Zanzibar e pernoitamos em Mombassa.

Juntos atravessamos a baía de Luanda e vamos banhar-nos no Mussulo. Quando tiveres seis anos hás-de começar a surfar; vamos até Cabo Ledo, para aí te iniciarmos. Depois subimos por aí fora e vamos a Timbuctu, compramos peixe em Mopti. Grrrr gaaaaa…. Havemos de ir ao Kruger cheirar o mato e ver os animais. Conto-lhe a história do cão do macaco e da vaca, que vão passear de machibombo.

E vão-se-lhe fechando os olhos no cansaço da viagem, até que adormece encostado no meu ombro. E nesse momento, também eu fico em paz.

É tão lindo o meu neto Benjamim que até dói!

(postal do antigo ma-schamba)

Faz hoje dois anos o meu neto Benjamim e de manso já pouco tem. Gosta de cantar, fala pelos cotovelos e adora animais. Gosta de dizer a palavra poucochinho, que parece saborear sílaba a sílaba. Brinca com camiões, escavadoras, guindastes, reboques, carros dos bombeiros. Que distingue e conhece por nome.

Conhece os animais todos. Os da quinta, os do mar e os do mato: hipopótamo, girafa, búfalo, chita, leopardo, tigre, elefante, zebera, galinha do mato, corcodilo, canguru, panda, urso e os genéricos piu-pius e bâmbis. Sabe que o leão tem juba, que é o cabelo do leão, não é vóvó? Não abre a boca sem dizer leão e macaco. Diga ele o que disser. Conta até 10 e conhece as letras A e E. Lava as mãos com sumanete.

Continua a viajar por África com a avó.

AL


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Quem lá esteve

 

O MVF apresenta a sua obra

A cerimónia de lançamento do livro Património Mundial de Origem Portuguesa com fotos  do nosso maschambeiro Miguel Valle de Figueiredo foi ontem na biblioteca da Assembleia da República. Imprevistos familiares impediram-me a deslocação e presença antecipadas. Amigo comum de velha data e amante de fotografia enviou-me estas duas fotos com o seguinte comentário: “… não estão nada boas. Estava a ver que não conseguia tirar; estava cheio de gente”. Orgulhosa que estou com a obra do nosso amigo e desolada pela minha inatendência aqui ficam as fotos possíveis. Confesso que estou de peito inchado!

AL em co-produção com António Maria


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Paisagens de guerra

 

Chegaram a  mim via email, recomendados por amigo comum: “Somos um grupo de académicos e escritores e acabámos de lançar uma revista online chamada  Warscapes.” A revista pretende abordar conflitos actuais numa perspectiva literária e conta com o apoio de Nuruddin Farah, Mazair Bahari, Anne Nivat, Dinaw Mengestu, Emmanuel Dongala, Shashi Tharoor e Irene Staunton.

Pretendem receber propostas de autores moçambicanos e angolanos, incluindo jovens, que tenham interesse em escrever para a revista – ficção, não-ficção, poesia e críticas sobre a literatura moçambicana contemporânea. Pediam-me que lhes sugerisse alguns nomes e contactos. E eu, na minha presunção, lanço este repto publicamente aqui no Ma-schamba.

Os leitores do Ma-schamba que considerem reunir os requisitos pedidos e que estejam interessados, poderão contactar a revista directamente clicando aqui. Os que não reúnem as condições aqui expressas podem ajudar a disseminar esta informação. Pelo meu lado espero que este postal espolete sinergias que possam alargar a divulgação da literatura contemporânea de Angola e Moçambique a círculos a ela pouco expostos. Pelo que tenho visto da revista desconfio que ha-de ir longe e penso que iniciativas destas merecem ser apoiadas e divulgadas.

AL

 


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Não há pachorra!

 

Lembram-se do vídeo que os “portugueses” fizeram para os finlandeses? Pois agora os gregos fizeram o mesmo. Mas em pobrezinho. Em versão epistolar, que circula pela net apresentada como “o outro lado da moeda”, atirada para os murais do Facebook como se desforra se tratasse do que aí está para vir. Aposto que também vai virar viral, vorra!

Nem vou entrar em pormenores de inexactidões ou do eu-disse-ele-disse (neste caso seria mais alemão-disse-grego-disse). Informo já que não li a carta toda. O discurso e sobretudo o tom do discurso dá-me azia. Comecei a azedar com o choradinho do ordenado que é tão poucochinho e vocês alemães ganham tão mais que nós gregos e parei quando cheguei aqui (segundo parágrafo, acho eu):

Desde 1981, tens razão, estamos na mesma família. Só que nós [gregos] vos concedemos, em exclusividade, um montão de privilégios, como serem os principais fornecedores do povo grego de tecnologia, armas, infraestruturas (duas autoestradas e dois aeroportos internacionais), telecomunicações, produtos de consumo, automóveis, etc.. Se me esqueço de alguma coisa, desculpa. Chamo-te a atenção para o facto de sermos, dentro da U.E., os maiores importadores de produtos de consumo que são fabricados nas fábricas alemãs.

Sintaxes chave: vos concedemos privilégios / principais fornecedores do povo grego / maiores importadores de produtos de consumo.

E agora pasmem! A culpa da crise é das más políticas gregas? Ou dos políticos ineptos e corruptos que se venderam? Ao forró com a duração dos fundos europeus? Não senhora! A culpa é sobretudo das empresas alemãs que aceitaram os privilégios (um descaramento!) e ainda pagaram “comissões” (a políticos até aí impolutos depreende-se) e deram “prémios” de submarinos obsoletos (duh! A sério? Mas onde é que eu já ouvi isto?). Que maus!

Como seria de esperar a carta acaba com o grego a lembrar-se das relíquias do passado exibidas nos museus dos ricos-maus e, claro!, de mão estendida em revolta ao lado da sepultura. Não há dúvida que inventaram o drama:

Queremos de volta à Grécia as imortais obras dos nosos antepassados, que estão guardadas nos museus de Berlim, de Munique, de Paris, de Roma e de Londres.

E EXIJO QUE SEJA AGORA!! Já que posso morrer de fome, quero morrer ao lado das obras dos meus antepassados.

Há alturas em que só me apetece dizer: maldito passado glorioso! Não se pode trocar por um futuro promissor?

AL

PS: desabafo escrito ao correr da pena e sem links por isso mesmo

 


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Segredo

Michael Austin - Red Dress

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta

AL


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Homenagem à literatura

 

Realiza-se no próximo dia 17 de Novembro no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa um Colóquio de “homenagem à literatura: nos 50 anos de poesia 61”. Trata-se de um iniciativa do Departamento de Literaturas Românicas. O programa é o seguinte:

AL


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Se eu fosse

 

Sarah Elliott - prison in Kenya

Se eu fosse fotógrafa queria ser a Sarah Elliott, que tem fotografado com imensa sensibilidade tudo aquilo que me move e motiva. Gosto da atitude que perante a vida parece ter. Não fica parada à espera do putativo contrato que lhe poderia cair no colo. Mete-se à estrada, vai, fotografa e depois marketiza o trabalho feito. Empenha-se em causas e promove-as com a sua arte. Ainda por cima é gira que se farta! Se eu fosse fotógrafa queria ser a Sarah Elliott!

AL


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Angola – potência regional em emergência

 

No dia 15 de Novembro, pelas 18;00 horas, vai ser apresentado por Mário P. Andrade, reitor da Universidade Lusíada de Angola, o livro de Eugénio Costa Almeida“Angola – potência regional em emergência”. A apresentação vai realizar-se no ISCTE, sala B204 (ed. II) e é organizada pela Colibri, CEA e Casa de Angola.

Aqui fica o convite para os leitores da ma-schamba!

AL


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Outono

 

Oslo - Folhagem - Outubro 2011

 

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão…

Em Canção de Outono de Cecília Meireles

Oslo - Outubro 2011

Oslo - Outubro 2011

Oslo - Outubro 2011

Oslo - Outubro 2011

 

Oslo - Outubro 2011

Oslo - Outubro 2011

Oslo - Outubro 2011

Oslo - Outubro 2011

Oslo - Outubro 2011

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