Muito do que hoje aqui apresento foi fruto de uma reflexão que efectuei no âmbito de um trabalho sobre a aplicabilidade da antropologia em instituições. Na altura, acreditei que este modesto texto pudesse, de alguma forma, contribuir para uma reflexão sobre a missão dos Teatros Nacionais, fosse de um ponto de vista antropológico ou institucional … e eis que o Exmo. Sr. Secretário de Estado da Cultura lança o repto do debate, apesar de não informar quando e onde.

Exmo. Sr. Secretário de Estado da Cultura,
(…)Sabemos que a antropologia apresenta um sem número de dilemas respeitantes à ética da sua prática. As preocupações da antropologia aplicada têm muitas vezes a ver com a regulamentação do seu trabalho. As grandes questões éticas relacionadas com a investigação aplicada prendem-se normalmente com a relação estabelecida com os clientes ou com direitos de propriedade da investigação.
No final do séc. XX, em áreas tão diversas como a saúde, o direito, as organizações ou a educação, encontramos o que se passou a designar como ‘antropologia institucional’. Esta variante foi uma das respostas que a disciplina encontrou face aos novos domínios profissionais da modernidade. Teve também a particularidade de transformar os membros da sua comunidade numa espécie de profissionais ‘híbridos’, uma vez que coexistem entre a antropologia e outros domínios profissionais, dos quais podem sair e entrar, tornando-se assim investigadores disciplinares e interdisciplinares, simultaneamente. Um aspecto interessante deste designado membro ‘híbrido’ é que só lhe é conferida competência se possuir um vasto conhecimento dos contextos contemporâneos, apesar de não se exigir que um antropólogo institucional seja um antropólogo da aplicabilidade, dado a ‘antropologia institucional’ não pertencer a nenhuma sociedade profissional.
A ausência de políticas culturais por parte dos vários governos de Portugal traduz-se na ausência de um projecto sólido e dinâmico para os Teatros Nacionais. Assim, fica ao crítério de cada direcção artística delinear estratégias programáticas que, muitas vezes, não vão de encontro àquilo que pode ser considerado um serviço público. Poderíamos dizer que, idealmente, um projecto cultural institucional de serviço público deveria alargar o acesso da população a um contacto regular com a produção teatral através de textos que integrem quer o património teatral da humanidade, quer o património dramatúrgico nacional, procurando assumir as especificidades culturais e sociais do contexto onde se insere.
Deveria compreender um teatro sem fronteiras para poder sentir e responder eficientemente às necessidades e ao aprofundamento nas várias áreas e formas culturais. Com motivação e entusiasmo, deveria procurar práticas inovadoras e ideias desafiantes culturalmente, mantendo o sentido da responsabilidade para com a cultura local e nacional, assim como para Portugal no mundo, e a sua participação activa na definição da nossa realidade tanto na produção de conteúdos como no alargamento de públicos.
Numa época de grandes e complexas transformações socioculturais, a arte está a sofrer mudanças que não nos podem ser alheias. O projecto dos Teatros Nacionais deveria passar por uma busca incessante de novos processos de percepção e comunicação, através de formas interactivas, utilizando para tal as novas tecnologias.
Um ‘projecto ideal’ deveria ter como objectivo a criação de uma plataforma activa e dinâmica para o desenvolvimento do teatro local, regional e nacional, convergindo com todos quantos, nas várias vertentes, trilham os caminhos do desenvolvimento cultural e artístico do nosso país. Para além do trabalho regular da instituição, atribuído na sua programação anual, o projecto deveria incidir na investigação, pesquisa e experimentação. A estratégia do projecto deveria passar conscientemente por uma criação não dogmática que seria planeada com rigor, sentido cultural e aberta à criatividade artística. Uma instituição cultural de serviço público deveria ter uma função determinante a desempenhar na defesa e difusão da cultura teatral portuguesa e universal, na difusão da língua, na preservação do património artístico, bem como na formação, criando estímulos ao aparecimento de novas gerações de dramaturgos, actores, encenadores, cenógrafos, figurinistas e técnicos de teatro.
Pela sua capacidade de interpretação directa do público e da recriação de climas afectuosos, pelo recurso que faz à literatura, às artes plásticas, à música, à dança e às novas tecnologias, o teatro é um instrumento privilegiado no contexto artístico. Assim, para além da programação regular e no âmbito do seu projecto cultural deveriam ser apresentados espectáculos de companhias teatrais nacionais e estrangeiras, promover digressões regionais e nacionais, e também a participação em festivais, no país e no estrangeiro, para a apresentação dos seus espectáculos.
Em Portugal, é certo que perdemos rápida e sistematicamente a memória das práticas e das metodologias do Teatro. Deste modo, deparamos a cada passo com o vazio. Somos atirados para a estaca zero e obrigados em cada momento da nossa intervenção a partir invariavelmente do nada. Se acaso tal propósito pode ser aliciante e criativo, por outro lado afasta-nos cada vez mais do que de bom e de mau foi feito até aqui, impedindo uma reflexão sistematizada do que foi realizado.
Será necessário, para além da criação de novas dramaturgias, novas formas criativas. Estudarmos e darmos a conhecer o que nos fez estar no ponto onde estamos e então encontrar a razão da falta de repertórios e da falta de mercados. É preciso que o Teatro seja o motor da nossa civilização. Com muito trabalho, reflexão e uma consciência forte será necessário que os Teatros Nacionais sejam um pólo importante da cultura nacional. Almeida Garrett dizia que “a criação da necessidade do espectáculo teatral passa por três fases: primeiro criar o gosto pelo teatro, depois o hábito e só mais tarde a necessidade”. Por amnésia constante a tudo quanto se fez e se tem feito, pela constante ausência de políticas culturais, continuamos ainda na primeira fase.
Um dos âmbitos onde a prática da antropologia pode ter um papel importante talvez fosse na auscultação das necessidades do público através de inquéritos, levantamentos socioculturais e estudo de iniciativas, de forma a levar novos públicos ao teatro. Também poderia estar presente na planificação e desenvolver contactos com empresas locais, associações culturais, escolas, universidades, sindicatos e/ou centros de dia. Poderia mesmo promover a criação do gosto dos jovens pela arte teatral tendo como objectivo as novas formas de arte contemporânea. Todas estas iniciativas teriam como objectivo dotar o público de um teatro que o torne mais conhecedor e capaz de um olhar crítico sobre aquilo que vê.
Para ultrapassarmos a primeira fase que nos fala Almeida Garrett seria necessário dar uma atenção muito especial ao trabalho teatral com, e para, a infância e juventude. Através de protocolos com as escolas do ensino básico e secundário deveria desenvolver-se um conjunto de actividades de natureza artístico/pedagógica culminando na apresentação de espectáculos para as escolas. Esta é uma iniciativa que, apesar de possuir uma realização sistemática, se tem mostrado de alguma forma inconsequente. Para que funcione na plenitude seria necessário desenvolver actividades em estreita colaboração com os professores, concelhos pedagógicos e concelhos directivos das escolas, a partir de diversas formas de concretização. Deslocação de actores às escolas para a realização de seminários de expressão dramática. Realização de visitas de grupos de estudantes aos Teatros Nacionais com explicação do funcionamento da equipa teatral e com assistência a ensaios e a espectáculos. Motivação das crianças e jovens para a realização de trabalhos de natureza artística no âmbito da escrita, do desenho ou da expressão dramática relacionados com a actividade teatral.
Em relação à gestão dever-se-ia ainda atentar à formação específica no plano da criação e no plano da animação dos actores e técnicos dos Teatros Nacionais, à administração dos tempos de trabalho de forma a obter-se uma maior rentabilidade, tanto do ponto de vista da qualidade dos resultados, como do ponto de vista da quantidade das acções efectuadas. Possuir uma planificação cuidada da utilização dos meios humanos e equipamentos disponíveis e um adequado apoio administrativo ao desenvolvimento das acções. Elaborar um estudo permanente da relação público/Teatros Nacionais como uma das bases de escolha de repertório e efectuar uma mudança frequente dos espectáculos e das acções paralelas em cartaz de modo a manter o regular funcionamento destas instituições.
(2007)
VA
(adenda: só há pouco verifiquei que sempre que actualizo um post, seja porque encontrei um erro de sintaxe ou porque pretendo acrescentar uma ideia, perdem-se os ‘gostos’ via facebook. Assim, solicito as minhas desculpas a todos os leitores facebookianos. Coisas de principiante nestas lides da blogosfera)