
Há cerca de um ano o então machambeiro ABM (em boa hora) decidiu-se a apear um livro dedicado à demonização da sociedade colona [os meus textos de então estão aqui, os de ABM no seu blog]. Aquele disparate tinha sido muito bem acolhido no mundo literato-bloguístico português (e também no jornalístico, o Público anunciava-o como o início dos estudos pós-coloniais portugueses), e não só no gauchiste. Esse simpático acolhimento vinha muito por (procurado) desconhecimento das questões abordadas (em forma de retrato hiper-realista), muito por mero posicionamento excêntrico a literaturas ou sociologias históricas, mas acima de tudo por questões da sociologia da recepção textual – na realidade o meu co-bloguista (no defunto Olivesaria) jpn terá sido o único a botar como deve ser, qualquer coisa como “publico com a autora há mais de vinte anos, sou companheiro, amigo: gosto“, e isso assim eu aprecio, que o amiguismo não é corrupto, bem pelo contrário, quando explícito é companheirismo, húmus da vida. O resto que fui vendo a esse propósito, mascarado de objectividades, só mostrava da pequenez do contexto e do desinteresse dos locutores. Lembro uma recensão ao livro anunciando que aqueles que dele não gostavam eram do “outro lado da cidade“, assentando metáfora sobre a topografia/sociologia de Lourenço Marques/Maputo, com tudo o que de pejorativo (e de muros de Nicósia) isso implicaria. Turcos assim éramos, bárbaros infiéis. Ou seja, fachos, colonialistas. Enfim, confesso que então me diverti imenso a blogar sobre o caso, um verdadeiro torneio de tiro aos bonzos. Mas essa dimensão “comunitária” do apreço é interessante pois denota(va) a propensão para um particular olhar colectivo sobre a história recente de Portugal em África.
Vem esta memória, já estafada, a propósito da divulgação pela AL (no facebook) de Linha da Frente, um programa da RTP cujo último episódio foi dedicado aos deficientes das forças armadas de origem africana e de nacionalidade portuguesa – e de uma discussão que ali brotou (mais uma do género, que tende para o infinito). O meu interesse no tema vem de longe, em tempos até profissionalmente o acompanhei, nos finais de 1990s com o desenvolvimento da ADFA em Moçambique (lembro ainda a inauguração da sua sede, na Malhangalene), depois com a mais abrangente questão relativa às pensões aos antigos combatentes e sua aventada extensão às tropas africanas – que deu origem a um enorme boato, com milhares e milhares de petições. E, mais tarde, conhecendo os trabalhos do meu colega Elísio Jossias que fez uma tese de mestrado em Antropologia exactamente sobre os membros da ADFA de origem moçambicana (cá residentes e em Portugal). A questão dos deficientes é pungente, não só pelos óbvios dramas pessoais que a deficiência provoca como pela espantosa inércia das instituições portuguesas ao longo de longos anos.
A referência feita pela AL ao programa derivou quase de imediato em comentários apologistas do “sentir português” das tropas africanas recrutadas nas guerras coloniais (e, deduzo, nas obrigações que as instituições têm face a esse sentimento) – uma retórica recorrente, sempre apagando a pluralidade das causas e processos de integração dos africanos nas forças armadas portuguesas. E nisso, conscientemente, apagando os vincos e esquinas da sociedade colonial. Ou seja o desconforto, óbvio, com uma incúria inaceitável do Estado português, e da sociedade de que ele depende, face a responsabilidades históricas surgiu (como quase sempre surge nesta área) como motivo de enaltecimento daquela “nação” acima iconografada. E mais, de comentário em comentário, regressou o elogio do estatuto do indigenato e, intrinsecamente, da ideologia assimilacionista de então.
São estas as duas faces da moeda do desolhar nacional sobre o passado (ainda) recente em África. Certo que este recorrente elogio do colonial (mesmo que por vezes matizado por alguma distância crítica face ao “colonialismo real”) não vem embrulhado com o “capital cultural” da denúncia aplainadora da sociedade colonial de que acima falei, do mundo académico-literato sensível ao engajamento como turbo do pensamento. Mas é resiliente, talvez até mais divulgado, e defende-se, entranhado, numa reclamação empírica – “nós/eu estávamos lá, sabemos como realmente foi” – e continua, ainda que difusamente, a ter influência num olhar da sociedade sobre si, no passado e, se calhar, no agora mesmo. Certo que África, e o passado colonial, não são hoje muito importantes em Portugal, eurocentrado e globalizável. Mas nem é inexistente nem esta questão se prende apenas com as relações da sociedade com África.
Esta recuperação do assimilacionismo, e da sua forma particular de “estatuto de indigenato”, a afirmação da sua bondade (e até da sua contemporaneidade), não é mais nem menos do que a aceitação pública e assumida do estupro cultural, da violação religiosa, da apropriação económica, do politicocídio, que todo o sistema implicava. E até espanta pela sem-vergonha das declarações e pela sua constante repetição, algo que até poderia aparentar inconsciência (mas não a é). Quando refutadas essas (torpes) opiniões reclamam um feixe de considerações auto-validadoras. Reclama-se a experiência própria, uma legitimidade empírica (que, nada paradoxalmente, consiste exactamente em negar a empiria, a qual sempre é opaca, como é sabido), que surge desvalorizando quem não pensa assim. Que logo é metido de um “outro lado” qualquer, um “outro lado da cidade” outra vez. Pois de cada vez que me dá para afrontar esta ladaínha de novo “turco” me encontro dito.
Nestes apologistas uma das formas habituais de contestação é afirmarem meras “opiniões” as discordâncias. O que não deixa de surpreender, pois estes são discursos que habitam nos contextos menos simpáticos ao relativismo, esse tão falado hoje (o da aceitação das múltiplas seitas cristãs, da coranização, do curandeirismo; o das múltiplas formas familiares e conjugais; o das radicais liberdades de costumes, etc.). Mas nesta questão, particular, tudo desliza para o relativismo, como se fosse um mero confronto de opiniões. Um relativismo que se alastra até aos que não concordando com este “pensar colonial” o contextualizam, vendo-o (explicando-o) como fruto da peculiar sensibilidade daqueles que sofreram o fim do sistema colonial e que, devido a esse verdadeiro trauma, assim constroem as suas próprias visões do mundo. Ou seja, aceitando que uma identidade (multi)biográfica [qua "tribo"] elabora o mundo de forma diversa e sobre ele opina, assim legitimamente.
Outras vozes mais serenas face à contestação da sua visão colonial querem ensinar que a democracia é a aceitação de opiniões diversas. Ora aqui está mais uma falácia. A democracia consiste em aceitar o direito a expressar as opiniões, não em aceitar as opiniões. São repugnantes? Desprezíveis? Ainda que pouco importantes no mundo de hoje, e como tal menosprezadas no sentir global? Há que o afirmar. E não é falta de democraticidade fazê-lo, é um imperativo. Pois se o diálogo é democrático também o repúdio o é.
Uma outra questão que surge nas elaborações é a reclamação do não-enriquecimento próprio (ou familiar) colono. E é essa uma linha fundamental, pois abre caminho para quem não chega lá de outra forma, ao que realmente interessa. A sociedade colonial portuguesa era compósita, claro, e por isso mesmo atoardas denunciadoras como as que lá em cima lembrei são meros bibelots kitsch. O interessante é exactamente ver-se a multiplicidade dessa sociedade, não apagar a especificidade de contextos, de grupos diversos, das múltiplas formas de integração e das componentes que as terão influenciado, e também das formas de construção de alteridades. Não demonizar os seus agentes, colonos (ou colonizados), como se espantalhos. Nem mesmo os colonialistas. Mas nunca apagando os traços fundamentais da realidade que foi. Coisa que os denuncionistas não conseguem (nem se interessam), coisa que os apologistas não querem (há quem diga que não conseguem, o que é a pior das desvalorizações, e que refuto).
Neste contexto de invisualidade há um potencial de afecto, particular. Às vezes, e é dessas vezes que este texto fala, um afecto ciumento. Um olhar sobre as antigas colónias constantemente apontando os falhanços e as malevolências pós-independências, comparando-os com as práticas e realidades de antanho, estas vistas como benevolentes ou, pelo menos, até benevolentes. Os percursos dos estados africanos e em particular as diferenciações socioeconómicas neles existentes são reclamados como prova óbvia do bem anterior. Ou seja, as dinâmicas de exploração interna, enormes e terríveis, e que são o processo histórico actual, são transformadas em contraponto a uma bondade anterior.
Mas há um ponto fundamental, que nunca é referido neste feixe discursivo meu compatriota. É que o projecto de exploração, de apropriação, de transformação violenta e indesejada (não-requerida), o desígnio de poder, a realidade actual, não é já nosso. Um “nosso” de país, donde sociedade complexa, hierarquizada, diferenciada, onde tantos não eram (nem se sentiam) possidentes, e onde as acções e concepções eram múltiplas. Mas onde presidia uma identidade comum, que baseava direitos comuns subordinadores de outrem, e confrontada com uma realidade apropriada, assim subordinada.
Assim sendo é esta liberdade de não ser colono que quem ainda tece loas ao “indigenato” e ao assimilacionismo, até ao colonialismo, não preza. É esta democraticidade que estes reclamados democratas não sentem. Com tudo o que défice de cidadania, no próprio país, isso anuncia. E também por isso a indignação face a compatriotas que ainda hoje, tão anacronicamente, valorizam a opressão e o agenciar (de múltiplas formas e com diferentíssimos estatutos) desse malfadado desígnio de então.
Em 1971, em Lourenço Marques, António Quadros assinando João Pedro Grabato Dias escreveu:

Sei que são meus senhores, é quanto basta
para saber-me escravo e infeliz.
E ainda que os soubera forcejando
unicamente por interesse meu
e por meu bem, sem causas de malícia,
eu lhes negara o gosto de o fazer
e o direito de impor-me o que nem sei
se desejo. E ainda que inocentes
de propósito cru de magoar-me
eu os negara porque são senhores.
[João Pedro Grabato Dias (António Quadros), A Arca. Ode Didáctica na Primeira Pessoa, cxcix, Lourenço Marques, edição do autor, 1971]
40 anos depois ainda soam os lamentos de que no “nosso tempo” não era assim. E os resmungos do que foi perdido, das feridas próprias ou alheias, da injustiça sofrida. Um ressentimento que reclama este futuro. E também por uma compensação. Moral. Quantas vezes por via do reconhecimento, atento, até quotidiano, da malevolência alheia, até da incompetência.
Na prática denuncionistas (invectivando os demónios próprios) e apologistas (carregando sobre os demónios alheios) continuam o seu conto de fadas colonial: “… a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação.” (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).
Democraticamente têm todo o direito de o narrarem, ao conto de fadas de cada um. Mas não podem exigir respeito. Intelectual.
jpt