Archive for the ‘História’ Category.

Oxímoro?

Adriano Moreira é um importante académico português, figura grande no que poderei chamar “pensamento lusófono” (e será nesse âmbito que foi escolhido como “Personalidade Lusófona do ano” por uma associação chamada Movimento Internacional Lusófono), corrente intelectual que muito me desagrada, pelo que amputa da história, pelo que cerceia o futuro, pelo que incompreende o presente e, nisso tudo, pelos medíocres que vai promovendo (entre os quais não incluo, e apenas o refiro para que fique explícito para leitores mais apressados ou incompetentes, o próprio Adriano Moreira).

A Adriano Moreira dizem-no, e ouço-o de locutores que me são próximos que dele foram alunos ou que com ele privaram, um homem de grande rectidão, intelectual e pessoal (aliás, os adjectivos que lhe associam são normalmente superlativos). Foi uma personagem algo peculiar do salazarismo tardio [convirá ler esta entrevista, por exemplo]. Há exactamente 50 anos surgiu como Ministro do Ultramar, cargo que exerceu durante 2 anos, tendo sido protagonista de importantes reformas que intentavam a (impossível) perenidade do sistema, e nesse âmbito é uma personagem importante da história colonial portuguesa tardia. A mim não me parece necessário estar a adjectivar esse sistema. Era colonial, e só um vício de pensamento nos pode impelir à necessidade, que é muito recorrente, de lhe aduzir outras características (ditatorial, exploratório, injusto, fascista, etc. Ou, noutras áreas muito menos analíticas, benéfico, civilizador, lusotropical, etc.). Era colonial, e penso que é suficiente dizê-lo assim para se entender o seu conteúdo sociológico, económico e político. Parece-me, e  referindo-me ao período em que Adriano Moreira foi ministro, apenas necessário juntar-lhe outro epíteto, devastador. Era anacrónico. O tempo histórico que o contextualizou enquanto projecto tinha passado.

Posteriormente Adriano Moreira tornou-se figura importante na III República, no seio da democracia-cristã portuguesa, um pouco à imagem de Veiga Simão, outra figura do Estado Novo tardio que veio a ser proeminente, esse no contexto social-democrata. Constitutivo da democracia portuguesa. E sempre figura-grada da universidade portuguesa, em particular no ISCPS, uma instituição peculiar, como sabem as gentes das ciências sociais.

Agora a Universidade do Mindelo atribui-lhe o grau de doutor honoris causa. Alguma esquerda portuguesa indigna-se (o “indignismo” é a ideologia deste início de década), e recorda que Adriano Moreira foi o ministro que reabriu, no início das guerras de independência, o campo do Tarrafal. Não ocorre, nos postais bloguísticos, abordar questões interessantes, das quais me ocorrem de imediato um pequeno punhado: a autonomia universitária face à política, presente ou passada; ou, contrariamente (mas não paradoxalmente, face à praxis real) as profundas ligações entre as universidades e o “reino” político; ou o facto de várias instituições universitárias portuguesas o terem feito, e do Estado o ter condecorado ["nós" podemos homenagear o antigo ministro mas "eles" não, uma dicotomia espantosa, quando dirimida por universitários]; ou o que isto poderá reflectir, ainda hoje, sobre o estatuto tão peculiar das elites cabo-verdianas, seja no período colonial seja, muito mais difusamente, na actualidade “lusófona”.

Ou ainda, e isso seria muito mais importante, reflectir sobre a História, sejam as contradições e os constrangimentos das acções em determinados momentos históricos, sejam as formas como os/alguns agentes históricos evoluem, nas suas práticas, nas suas concepções.

Nada disto é importante, para gente ligada à História, profissional ou afectivamente. Apenas o … apenas.

Por fim, infelizmente Adriano Moreira tem uma paupérrima afirmação sobre o assunto da reabertura do campo prisional do Tarrafal, lembrando que reabriu com outro nome, reproduzindo, no fundo, a estratégia retórica então assumida. Dourar a própria vida é uma tendência quasi-universal. Mas enfrentá-la, convivê-la, seria um acto de honoris causa. Estou certo, no entanto, que a esmagadora maioria dos honoráveis tende ao doirar. Apoucando-se.

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Portugal via TWA

Portugal na década de 1960 (TWA) from Goncalo Ramos Ferreira on Vimeo. Um documentário de publicidade da TWA sobre o Portugal de 1960s. Imperdível – e a voz do locutor (sempre me fascina o facto das entoações terem mudado tão radicalmente). Pela imagem de Portugal que brota dos itens turísticos seleccionados, e da forma como são apresentados. Mas também pela publicidade da própria companhia. Encontrado no mural-FB da AP, uma boa amiga. Mas isto é bom demais para se perder nos róis amnésicos do facebook.

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Quem lá esteve

 

O MVF apresenta a sua obra

A cerimónia de lançamento do livro Património Mundial de Origem Portuguesa com fotos  do nosso maschambeiro Miguel Valle de Figueiredo foi ontem na biblioteca da Assembleia da República. Imprevistos familiares impediram-me a deslocação e presença antecipadas. Amigo comum de velha data e amante de fotografia enviou-me estas duas fotos com o seguinte comentário: “… não estão nada boas. Estava a ver que não conseguia tirar; estava cheio de gente”. Orgulhosa que estou com a obra do nosso amigo e desolada pela minha inatendência aqui ficam as fotos possíveis. Confesso que estou de peito inchado!

AL em co-produção com António Maria


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Elísio Summavielle sobre o património mundial de origem portuguesa

Ontem em Lisboa foi o lançamento do a Património Mundial de Origem Portuguesa, o livro do nosso MVF e dos seus apaniguados Elísio Summavielle e João Corrêa Nunes (autores dos textos). O telégrafo anunciou-me que o evento correu a contento das múltiplas partes e que o livro se vendeu bastante, como bolo-rei na Páscoa.

Depois um dos autores foi à TV. E assim o livro teve 15 minutos de exposição pública em pleno telejornal da SIC Notícias, coisa fantástica. Para os interessados aqui fica a ligação à entrevista de Mário Crespo a Elísio Summavielle. Que muito recomendo. E agora não tanto pelo livro mas pelo conteúdo das afirmações. Cultas, muito distantes do habitual discurso sobre o património histórico. Veja-se aos 6.00 mins. quando o jornalista indaga sobre uma putativa “nostalgia” a extrema resposta que lhe é dada, a colocar a questão da ligação à história como ela realmente é (ou pode ser, se iluminada). E sobre o presente note-se aos 8.36 mins, quando o jornalista pergunta sobre a responsabilidade portuguesa na preservação deste património (velha imagem, sempre agitada), a lapidar resposta. Que não impede Summavielle de considerar necessária a participação portuguesa num trabalho colectivo internacional que lhe seja dedicado. Mas com uma visão muito esclarecida. Excelente entrevista.

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Cercar a Assembleia

Uma amiga minha liga no seu mural de Facebook este excerto do “Cenas da Luta de Classes em Portugal” de Robert Kramer. A recordar o cerco à Assembleia (Constituinte, então), em 12 e 13 de Novembro de 1975, feito em particular pelos operários de construção civil. Se não estou em erro foi nesta altura que o então primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo mandou “bardarmerda” a turba que invectivava de fascistas os membros do poder de então.

É uma efeméride, claro, o que ela assinala. Mas a efeméride dos 36 anos de um cerco à Assembleia não é particularmente significativa, nesse tipo de memórias estamos treinados no assinalar de números redondos. O eco disto prende-se, claro é, com uma nostalgia revolucionária e com o actual indignismo das “acampadas”. Convirá, nesse eixo de abordagem, ver o pequeno excerto. Tem interesse, também pelos sotaques audíveis (que vão desaparecendo). Mas também pelos tons da época, o ódio de um dos locutores (veja-se a partir dos 3.53).

Mas o mais interessante nestes pequenos 5 minutos é o facto de apresentar, em versão voz popular, o busílis das reclamações do poder por via das demonstrações de rua. “Isto é povo”, é a palavra de ordem incessantemente repetida, a reclamação de que aquela parte é a totalidade (que se casava então com a reclamação da unicidade, coisa da história). O “povo”, entidade básica do poder está ali, tudo isso lhe dá a legitimidade. Depois tudo se explica assim. Um manifestante mais radical diz (4.0o) “Povo é isto … Povo é os que trabalham …” e ao seu lado um outro, talvez confuso, talvez menos doutrinado, complementa “Povo é toda a população portuguesa …” para imediatamente ser interrompido pelo anterior (4.07) “Qual toda! A população reaccionária não é povo …”

São 36 anos já passados. Podem ter mudado os sotaques. Mas esta é concepção vigente nos adeptos das “acampadas”. São eles a legitimidade. Por serem.

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Dos que dizem que sabem e dos que sabem

Tal é o pano de fundo melancólico deste fim de século. Aqui estamos nós confinados a um horizonte único da História, empurrados para a uniformização do mundo e a alienação dos indivíduos à economia, condenados a retardar-lhes os efeitos sem qualquer poder sobre as causas. A História apresenta-se tanto mais soberana quanto nós acabamos de perder a ilusão de a governar. Mas, como sempre, o historiador tem de reagir contra aquilo que assume, na época em que escreve, um ar de fatalidade; está farto de saber como são efémeras estas espécies de evidências colectivas. As forças que trabalham pela universalização do mundo são tão poderosas que provocam encadeamentos de circunstâncias e de situações incompatíveis com a ideia de leis da História, por maioria de razão com a ideia de previsão possível. Cada vez menos nos cabe fazer de profetas. Compreender e explicar o passado deixou de ser coisa simples.” (Francois Furet, 116)

(Francois Furet & Ernst Nolte, Fascismo e Comunismo, Gradiva)

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O novo livro do Miguel Valle de Figueiredo “Património Mundial de Origem Portuguesa”

Esta maravilhosa relíquia em Salvador, fotografada pelo Miguel Valle de Figueiredo, o nosso MVF, está aqui como abóbada deste postal que é um supra-prazenteiro aviso: está pronto o novo livro do MVF, e ainda que o lançamento oficial esteja previsto para o início de Novembro sei que há já alguns locais em Portugal onde pode ser adquirido.

 

[Património Mundial de Origem Portuguesa, de Miguel Valle de Figueiredo (fotografias), Elísio Summavielle e João Corrêa Nunes (textos); Editora Polígono; design gráfico de João Peral e Rita Hipólito; 288 páginas]

Diz-se que é sempre difícil escrever (ou falar) sobre o trabalho dos amigos. Mas nem tanto, há lá coisa mais fácil do que aplaudir, de pé, o trabalho dos amigos? Em particular quando se apresenta, como este, absolutamente sumptuoso. Tenho comigo excertos do livro em PDF e só me ocorrem superlativos. Ficam todos neste início, e não mais usarei adjectivos.

Para realizar esta obra o MVF percorreu o mundo mais uma vez, ele que é um constante andarilho. No livro estão retratados (e de que maneira) edifícios no Brasil (Diamantina, Goiás, São Miguel das Missões, Olinda, Ouro Preto, Congonhas, Salvador, São Cristovão, São Luís do Maranhão), Cabo Verde (Cidade Velha – Ribeira Grande), Sri Lanka (Galle), Índia (Goa), China (Macau), Malásia (Malaca), Uruguai (Colónia de Sacramento), Marrocos (El Jadida), Argentina (Santa Maria La Mayor, Santa Ana, Santo Ignacio Mini), Paraguai (Trinidad, Jesus de Tavarangue). E Moçambique, a Ilha. O critério para seleccionar os locais é explícito, as declarações de Património Mundial assumidas pela UNESCO. De modo não exaustivo, pois optou-se por conjugar uma representação suficientemente explícita, não se tratando de um qualquer inventário.

Textos cuidados, em versão bilingue (português e inglês). Um design respeitoso, a proteger textos e fotos, e as de detalhes absolutamente salvaguardadas. O livro é um momento. Obrigatório. Para quem se interesse por fotografia. Por história. Por arquitectura. E pelo belo.

Mais do que continuar a tecer as merecidas loas a um trabalho feito com orgulho e vontade, com um preciosismo radical, tudo que pudemos acompanhar aquando da vinda do MVF a Moçambique em Fevereiro passado, partilho algumas das fotografias. Não sem vos lembrar que para estarem no blog sofreram enorme redução na sua definição. E isso conta, quando se fala de fotografias deste quilate. Por isso elas aqui são apenas uma mostra, um excerto, do que realmente são, valem.

Aqui ficam. Para deleite, meu e alheio, estou certo. E para despertar a cobiça. Que alguém parta para as livrarias, a adquirir. Momento feliz será esse para os compradores.

[Galle, Sri Lanka]

[Missão de Trinidad, Paraguai]

[Macau, China]

[São Luís do Maranhão, Brasil]

[São Miguel das Missões, Brasil]

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A rua Cervantes em Lisboa

 

 

 Abaixo referi os cuidados identitários na toponímia e monumentália portuguesa, evitando as referências à história conjunta de Espanha e Portugal (1580-1640) [em seus tempos abundantes, como uma demonstra uma primeira e breve abordagem, e convenientemente evaporados ao longo da história]. Insisto nesse ponto de vista, em particular face aos meus patrícios sempre ciosos de opinarem sobre a utilização desses vectores na afirmação nacional nas antigas colónias portuguesas. Mas em termos de exemplo escolhido (o mais importante, na minha opinião, mas podia ter metido o Quevedo, por outro exemplo) meti os pés pelas mãos, como, avisada, me avisa a Cláudia, do Quatro Caminhos. Pois há uma rua Cervantes em Lisboa (pelo local em que é decerto que terá sido gerada na toponómia da I República nome atribuído em 1948, junto com mais personalidades e cidades europeias, como me avisa a leitora Maria Trindade. ). E também no Porto, na Cedofeita, existe uma. Ainda bem.

Rectifico o erro, agradecendo à blogo-consóror.

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Os Manuscritos do Mar Morto

Foi por mero acaso que os primeiros sete manuscritos foram descobertos numa caverna nas margens do Mar Morto em 1947. Depois de uma história atribulada de dispersão foram finalmente confiados à guarda do Museu de Israel em Jerusalém. Cinco destes manuscritos encontram-se agora na ponta dos nossos dedos aqui. A consulta é livre.
AL


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A independência do Brasil, novas interpretações

E para terminar uma semana supra-preenchida que tal ir ao Centro Cultural Brasil-Moçambique (o “velho” CEB) ouvir Amy Caldwell de Farias [quinta-feira, 1 de Setembro, 18 horas] que apresentará uma comunicação sobre “Independência do Brasil: novas interpretações”. Historiadora americana, professora em Illinois, está em Moçambique para fazer pesquisa sobre a presença de brasileiros no vale do Zambeze nos séculos XVII e XVIII. E, honestamente, é mesmo sobre este último assunto que eu fico curioso, e que gostaria de a ouvir falar. Sobre o que encontra e sobre o como constrói.

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26 de Agosto de 1944

 

E Paris não estava a arder

 
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AL


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O conto de fadas colonial

 

Há cerca de um ano o então machambeiro ABM (em boa hora) decidiu-se a apear um livro dedicado à demonização da sociedade colona [os meus textos de então estão aqui, os de ABM no seu blog]. Aquele disparate tinha sido muito bem acolhido no mundo literato-bloguístico português (e também no jornalístico, o Público anunciava-o como o início dos estudos pós-coloniais portugueses), e não só no gauchiste. Esse simpático acolhimento vinha muito por (procurado) desconhecimento das questões abordadas (em forma de retrato hiper-realista), muito por mero posicionamento excêntrico a literaturas ou sociologias históricas, mas acima de tudo por questões da sociologia da recepção textual – na realidade o meu co-bloguista (no defunto Olivesaria) jpn terá sido o único a botar como deve ser, qualquer coisa como “publico com a autora há mais de vinte anos, sou companheiro, amigo: gosto“, e isso assim eu aprecio, que o amiguismo não é corrupto, bem pelo contrário, quando explícito é companheirismo, húmus da vida. O resto que fui vendo a esse propósito, mascarado de objectividades, só mostrava da pequenez do contexto e do desinteresse dos locutores. Lembro uma recensão ao livro anunciando que aqueles que dele não gostavam eram do “outro lado da cidade“, assentando metáfora sobre a topografia/sociologia de Lourenço Marques/Maputo, com tudo o que de pejorativo (e de muros de Nicósia) isso implicaria. Turcos assim éramos, bárbaros infiéis. Ou seja, fachos, colonialistas. Enfim, confesso que então me diverti imenso a blogar sobre o caso, um verdadeiro torneio de tiro aos bonzos. Mas essa dimensão “comunitária” do apreço é interessante pois denota(va) a propensão para um particular olhar colectivo sobre a história recente de Portugal em África.

Vem esta memória, já estafada, a propósito da divulgação pela AL (no facebook) de Linha da Frente, um programa da RTP cujo último episódio foi dedicado aos deficientes das forças armadas de origem africana e de nacionalidade portuguesa – e de uma discussão que ali brotou (mais uma do género, que tende para o infinito). O meu interesse no tema vem de longe, em tempos até profissionalmente o acompanhei, nos finais de 1990s com o desenvolvimento da ADFA em Moçambique (lembro ainda a inauguração da sua sede, na Malhangalene), depois com a mais abrangente questão relativa às pensões aos antigos combatentes e sua aventada extensão às tropas africanas – que deu origem a um enorme boato, com milhares e milhares de petições. E, mais tarde, conhecendo os trabalhos do meu colega Elísio Jossias que fez uma tese de mestrado em Antropologia exactamente sobre os membros da ADFA de origem moçambicana (cá residentes e em Portugal). A questão dos deficientes é pungente, não só pelos óbvios dramas pessoais que a deficiência provoca como pela espantosa inércia das instituições portuguesas ao longo de longos anos.

A referência feita pela AL ao programa derivou quase de imediato em comentários apologistas do “sentir português” das tropas africanas recrutadas nas guerras coloniais (e, deduzo, nas obrigações que as instituições têm face a esse sentimento) – uma retórica recorrente, sempre apagando a pluralidade das causas e processos de integração dos africanos nas forças armadas portuguesas. E nisso, conscientemente, apagando os vincos e esquinas da sociedade colonial. Ou seja o desconforto, óbvio, com uma incúria inaceitável do Estado português, e da sociedade de que ele depende, face a responsabilidades históricas surgiu (como quase sempre surge nesta área) como motivo de enaltecimento daquela “nação” acima iconografada. E mais, de comentário em comentário, regressou o elogio do estatuto do indigenato e, intrinsecamente, da ideologia assimilacionista de então.

São estas as duas faces da moeda do desolhar nacional sobre o passado (ainda) recente em África. Certo que este recorrente elogio do colonial (mesmo que por vezes matizado por alguma distância crítica face ao “colonialismo real”) não vem embrulhado com o “capital cultural” da denúncia aplainadora da sociedade colonial de que acima falei, do mundo académico-literato sensível ao engajamento como turbo do pensamento. Mas é resiliente, talvez até mais divulgado, e defende-se, entranhado, numa reclamação empírica – “nós/eu estávamos lá, sabemos como realmente foi” – e continua, ainda que difusamente, a ter influência num olhar da sociedade sobre si, no passado e, se calhar, no agora mesmo. Certo que África, e o passado colonial, não são hoje muito importantes em Portugal, eurocentrado e globalizável. Mas nem é inexistente nem esta questão se prende apenas com as relações da sociedade com África.

Esta recuperação do assimilacionismo, e da sua forma particular de “estatuto de indigenato”, a afirmação da sua bondade (e até da sua contemporaneidade), não é mais nem menos do que a aceitação pública e assumida do estupro cultural, da violação religiosa, da apropriação económica, do politicocídio, que todo o sistema implicava. E até espanta pela sem-vergonha das declarações e pela sua constante repetição, algo que até poderia aparentar inconsciência (mas não a é). Quando refutadas essas (torpes) opiniões reclamam um feixe de considerações auto-validadoras. Reclama-se a experiência própria, uma legitimidade empírica (que, nada paradoxalmente, consiste exactamente em negar a empiria, a qual sempre é opaca, como é sabido), que surge desvalorizando quem não pensa assim. Que logo é metido de um “outro lado” qualquer, um “outro lado da cidade” outra vez. Pois de cada vez que me dá para afrontar esta ladaínha de novo “turco” me encontro dito.

Nestes apologistas uma das formas habituais de contestação é afirmarem meras “opiniões” as discordâncias. O que não deixa de surpreender, pois estes são discursos que habitam nos contextos menos simpáticos ao relativismo, esse tão falado hoje (o da aceitação das múltiplas seitas cristãs, da coranização, do curandeirismo; o das múltiplas formas familiares e conjugais; o das radicais liberdades de costumes, etc.). Mas nesta questão, particular, tudo desliza para o relativismo, como se fosse um mero confronto de opiniões. Um relativismo que se alastra até aos que não concordando com este “pensar colonial” o contextualizam, vendo-o (explicando-o) como fruto da peculiar sensibilidade daqueles que sofreram o fim do sistema colonial e que, devido a esse verdadeiro trauma, assim constroem as suas próprias visões do mundo. Ou seja, aceitando que uma identidade (multi)biográfica [qua "tribo"] elabora o mundo de forma diversa e sobre ele opina, assim legitimamente.

Outras vozes mais serenas face à contestação da sua visão colonial querem ensinar que a democracia é a aceitação de opiniões diversas. Ora aqui está mais uma falácia. A democracia consiste em aceitar o direito a expressar as opiniões, não em aceitar as opiniões. São repugnantes? Desprezíveis? Ainda que pouco importantes no mundo de hoje, e como tal menosprezadas no sentir global? Há que o afirmar. E não é falta de democraticidade fazê-lo, é um imperativo. Pois se o diálogo é democrático também o repúdio o é.

Uma outra questão que surge nas elaborações é a reclamação do não-enriquecimento próprio (ou familiar) colono. E é essa uma linha fundamental, pois abre caminho para quem não chega lá de outra forma, ao que realmente interessa. A sociedade colonial portuguesa era compósita, claro, e por isso mesmo atoardas denunciadoras como as que lá em cima lembrei são meros bibelots kitsch. O interessante é exactamente ver-se a multiplicidade dessa sociedade, não apagar a especificidade de contextos, de grupos diversos, das múltiplas formas de integração e das componentes que as terão influenciado, e também das formas de construção de alteridades. Não demonizar os seus agentes, colonos (ou colonizados), como se espantalhos. Nem mesmo os colonialistas. Mas nunca apagando os traços fundamentais da realidade que foi. Coisa que os denuncionistas não conseguem (nem se interessam), coisa que os apologistas não querem (há quem diga que não conseguem, o que é a pior das desvalorizações, e que refuto).

Neste contexto de invisualidade há um potencial de afecto, particular. Às vezes, e é dessas vezes que este texto fala, um afecto ciumento. Um olhar sobre as antigas colónias constantemente apontando os falhanços e as malevolências pós-independências, comparando-os com as práticas e realidades de antanho, estas vistas como benevolentes ou, pelo menos, até benevolentes. Os percursos dos estados africanos e em particular as diferenciações socioeconómicas neles existentes são reclamados como prova óbvia do bem anterior. Ou seja, as dinâmicas de exploração interna, enormes e terríveis, e que são o processo histórico actual, são transformadas em contraponto a uma bondade anterior.

Mas há um ponto fundamental, que nunca é referido neste feixe discursivo meu compatriota. É que o projecto de exploração, de apropriação, de transformação violenta e indesejada (não-requerida), o desígnio de poder, a realidade actual, não é já nosso. Um “nosso” de país, donde sociedade complexa, hierarquizada, diferenciada, onde tantos não eram (nem se sentiam) possidentes, e onde as acções e concepções eram múltiplas. Mas onde presidia uma identidade comum, que baseava direitos comuns subordinadores de outrem, e confrontada com uma realidade apropriada, assim subordinada.

Assim sendo é esta liberdade de não ser colono que quem ainda tece loas ao “indigenato” e ao assimilacionismo, até ao colonialismo, não preza. É esta democraticidade que estes reclamados democratas não sentem. Com tudo o que défice de cidadania, no próprio país, isso anuncia. E também por isso a indignação face a compatriotas que ainda hoje, tão anacronicamente, valorizam a opressão e o agenciar (de múltiplas formas e com diferentíssimos estatutos) desse malfadado desígnio de então.

Em 1971, em Lourenço Marques, António Quadros assinando João Pedro Grabato Dias escreveu:

Sei que são meus senhores, é quanto basta
para saber-me escravo e infeliz.
E ainda que os soubera forcejando
unicamente por interesse meu
e por meu bem, sem causas de malícia,
eu lhes negara o gosto de o fazer
e o direito de impor-me o que nem sei
se desejo. E ainda que inocentes
de propósito cru de magoar-me
eu os negara porque são senhores.

[João Pedro Grabato Dias (António Quadros), A Arca. Ode Didáctica na Primeira Pessoa, cxcix, Lourenço Marques, edição do autor, 1971]

 

40 anos depois ainda soam os lamentos de que no “nosso tempo” não era assim. E os resmungos do que foi perdido, das feridas próprias ou alheias, da injustiça sofrida. Um ressentimento que reclama este futuro. E também por uma compensação. Moral. Quantas vezes por via do reconhecimento, atento, até quotidiano, da malevolência alheia, até da incompetência.

Na prática denuncionistas (invectivando os demónios próprios) e apologistas (carregando sobre os demónios alheios) continuam o seu conto de fadas colonial: “… a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação.” (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).

Democraticamente têm todo o direito de o narrarem, ao conto de fadas de cada um. Mas não podem exigir respeito. Intelectual.

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Portugal e a crise grega

Apolo

É nas mesmas águas lusas (mais charcos) em que há um mês se louvava o ignorante mas patriótico filme da Câmara Municipal de Cascais contra os malandros dos finlandeses que não queriam contribuir para as necessidades financeiras portuguesas, e logo as nossas que demos novos mundos ao mundo e que tanto continuamos a ronaldar, que agora brotam incomodadíssimas (e blogo-exaltadas) denúncias do estado do Estado daqueles helénicos (e respectivas orfãs e funcionários e clientelismos e corruptos e isso tudo), patifes a quererem o nosso dinheiro e o dos outros europeus, e tão escasso anda ele …

Vou ver um filme.

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O efeito finlandês

O intentado, mas lamentavelmente pacóvio, “beau geste” de Cascais sobre a lusa gesta provocou a nossa sagaz AL, tendo despoletado debate. A argúcia da AL, o interesse do comentadora finlandesa e a simpatia de alguns blogs que referiram estes belos textos (em particular o turbo-blog Estado Sentido) provocaram no ma-schamba um verdadeiro “efeito finlandês”

 

This Week's Visits

Números de leituras e visitas nunca antes acontecidas neste blog, que muito tem variado nas quantidades de acompanhantes. A nossa baronesa contextualiza esta agitada semana nas machambas, referindo que isto se deve ao interesse que a questão teve em Portugal (vê-se). E isso é interessante, positivo, que uma amadora e patrioteira produção tenha causado tamanho mal-estar, com vários blogs a referirem o assunto e sendo intensamente lidos. A imagem de Portugal, ainda para mais em tão difíceis momentos, é questão sentida. E não obrigatoriamente das fracas formas (e grossas palavras) patrioteiras que alguns intentam … sentados no Estado, pujantes na sua ignorância abusadora.

Enfim, pelo “efeito finlandês” mas acima de tudo pelo (?) “efeito português” … boa, AL!

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Tarrafal, o “Campo da Morte Lenta”

Janela no corredor do pavilhão da Cela Disciplinar / Solitária

 

Abaixo o MVF retratou, assim evocando, o campo do Tarrafal que acabou de visitar. Na altura desafiou-me a juntar algumas palavras às suas fotografias. O que recusei por uma questão de princípio (o qual partilhamos). Pois, contrariamente ao que muita gente pensa e pratica, considero que as fotografias não precisam de textos, legendas (poéticas, informativas, descritivas, seja lá o que for). Os textos sim, precisam quase sempre da legenda iconográfica (à qual chamamos ilustração, palavra assim tornada verdadeiro sinónimo de iluminação). Mas em relação ao Tarrafal, o “campo da morte lenta”, o campo de concentração em Cabo Verde destinado a presos políticos que a ditadura salazarista (e sua sucedânea marcellista) instituiu, surgiu-me agora uma inquietação. Pois creio que muitos dos visitantes do blog, seja pela tenra idade seja por exaustão da memória RAM, não saibam do que se trata.

Então, e a propósito do Tarrafal (e, nada indirectamente, da bondade do regime salazarista) aqui deixo ligação a um texto encontrado na internet (é surpreendente e significante a pobreza, quantitativa e qualitativa, das referências à Colónia Penal do Tarrafal, seja em texto seja em filme, que se encontram na internet via google). Um texto breve, para quem não se lembra ou não faz ideia do que se trata, da autoria do historiador Francisco Canais Rocha, sobre a mortífera colónia penal para portugueses (1936-1953) e para africanos (1961-1974).

Para incremento do saber próprio. Mas também, minha modesta (e julgo poder dizer que também do MVF) contribuição para que a gente nunca se distraia diante daqueles que defendem quem fez campos de concentração (“contextualizando-os”, “relativizando-os”, minimizando-os). Pois sonham-nos no futuro. Seja lá qual for a pantomina com que surgem no actual quotidiano.

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O desdém racista

Abaixo um neo-leitor deste blog pergunta-me o que penso sobre um feixe bloguístico, presumivelmente o luso “neo-comunismo” de fachada multicultural. Tenho este velho blog cheio de referências a esse lixo moral, ideológico e político (falsários, nepotistas, caluniadores [é vê-los quando deslocados a Maputo, insisto na observação empírica das suas práticas malevolentes, historicamente associadas ao comunismo sanguinário que professam; é vê-los nas redes de solidariedade que continuam, apesar de sabedores da vil desonestidade dos seus "camaradas"]) que o actual e decadente Portugal tanto acarinha. Fica mais uma referência (também) sobre essa escória intelectual.

Desde há muito que espíritos distintos, libertos de todo o preconceito ridículo e curiosos de apreender por toda a parte a natureza do homem estranho ao seu torrão natal, deram a conhecer de modo sereno a vida dos outros povos, as suas particularidades e os seus méritos. Este interesse revestiu mesmo, por vezes, laivos de uma admiração, tácita ou abertamente proclamada, que implica uma crítica acerba e desabusada da sociedade europeia dita “civilizada”, e portante corrompida. (…) (13)

Forçoso é constatar que esta feliz disposição de espírito nem sempre se aplica a todos os campos de observação. O homem de hoje, sobretudo o homem de espírito, que sabe manter uma recta honestidade quando lhe ocorre considerar civilizações bastante distantes no espaço, não mostra rigor nem tolerância ao descrever as da sua terra, separadas por si por alguns séculos. Aquilo que compreende e respeita alhures, critica-o, com veemência e desdém, em sua casa, simplesmente porque o tempo passou: um desdém tão profundamente arreigado que acaba por suscitar reacções de autómato. Vêm então ao de cima, em obras e discursos a fio, juízos definitivos apenas assentes nesse credo, construídos sobre belas certezas injustificadas” (…) (14)

Não raras vezes, as nossas sociedades intelectuais revelam-se abertamente rascistas. Não no sentido em que o entendemos habitualmente, quer dizer, condenações ou desprezo pelas civilizações, religiões ou costumes diferentes dos nosso, mas por uma espantosa propensão para ajuizar mal o seu passado.” (13)

[Jacques Heers, A Idade Média, Uma Impostura, Lisboa, Edições Asa, 1994 (tradução de António Gonçalves)]


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O Umbigo do Mundo, outra vez

Abaixo referi o “umbigo do mundo”, essa mania feita de ignorância de centrar o mundo (o actual e, como tal, o passado) ali na “cidade santa” de Jerusalem (essa que, como todos sabem, não é banhada pelo Ganges). Confesso que faz-me confusão em XXI tanto eurocentrismo (cristocentrismo), agora orlado de mohammedcentrismo-ou-como-lhe-queiram-chamar.

Exagero meu? Coisa dos teóricos pós-coloniais? Então vejam esta animação História da Religião. A Geografia da Fé e das suas Guerras na História. 5000 Anos de Religião em 90 segundos, que teclado amigo me acaba de enviar.

Nem vale a pena comentar, é o boçalismo (historiográfico) a céu aberto. Sempre vigoroso na sua reprodução.

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Herois e o molde da nacao

A morte de Malangatana despertou um dialogo nacional sobre a questao do heroismo. Antiga e recorrente questao esta, a da classificacao e recenseamento dos herois nacionais. Questao obvia, ligada a construcao da identidade nacional por via dos simbolos, e entre estes tambem (e com normalidade) os homens entretanto partidos. Mas ainda que recorrente a questao do heroismo nacional nao deixa de surpreender, tamanho o seu vigor. Logo que conhecida a morte de Malangatana tanto nos midia como nas conversas populares se instalou o debate (assim denotando a importancia da questao) da heroicidade do pintor, do seu destino final – deveria ser conduzido para a cripta (o Panteao Nacional) ou nao? Foi ele um heroi (com toda a dimensao de semi-divindade ou supra-humanidade que isto implica) ou nao? O que e necessario para ser heroi? Questao generalizada, na vox populi. No seio destas conversas escutei ate da existencia de uma comissao (onde trabalha um antigo aluno) oficial de reconhecimento e recenseamento dos herois, que incide a nivel provincial. Insisto, por mais que muitos queiram ironizar sobre o assunto, vejo isto (tanto como portugues – cheio de santos contestaveis – como, e fundamentalmente, como antropologo) como uma actividade simbolizadora, identitaria, tao recorrente que inironizavel. Mas muito discutida e discutivel, exactamente pela sua caracteristica. Tambem por isso me lembrei, e a proposito de outra coisa, do velho Tacito, esse romano que escreveu no final do sec. I e inicio de II. A ler, por todos. Mas, neste caso, fundamentalmente por quem se imagina num futuro mui distante, post-mortem:

Famous writers have recorded Rome’s early glories and disasters. The Augustan Age, too, had its distinguished historians. But then the rising tide of flattery exercised a deterrent efect. The reigns of Tiberius, Gaius, Claudius, and Nero were described during their lifetimes in ficticious terms, for fear of consequences; whereas the accounts written after their deaths were influenced by still raging animosities.”

[Tacitus, The Annals of Imperial Rome, Penguin Books, 1996 (1956). Tradução de Michael Grant (31)]


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Do tal olhar poscolonial

Abaixo referi o tal olhar poscolonial, novas modalidades de pensar que desejam ultrapassar o eurocentrismo. Esse olhar que, em portugues tera nascido em 2010, ao que consta nos meios intelecto/mediaticos – uma conjugacao impossivel, eu sei, por maior que seja a bassela (bacela?) dada pelo leitor – de referencia (aka jornal Publico), por via da actividade iluminista da esquerda literata conimbricense. E nestas coisas como quem fala da vetusta Coimbra se alembra da solarenga Conimbriga … permito-me citar o teorico radical

(Tacitus, The Annals of Imperial Rome, Penguin, 1996 (1956). Traducao de Michael Grant)

He [Arminius] was unmistakably the liberator of Germany. Challenger of Rome – not in its infancy, like kings and commanders before him, but at the height of its power – he had fought undecided battles, and never lost a war. He had ruled for twelve of his thirty-seven years. To this day the tribes sing of him. Yet Greek historians ignore him, reserving their admiration for Greece. We Romans, too, underestimate him, since in our devotion to antiquity we neglect modern history.” (119)


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O Umbigo do Mundo

Abaixo, a propósito da selecção de imagens da Reuters que ilustra a década passada, ecoei o meu – habituado – espanto com o excesso de atenção sobre “o conflito” (o próprio singular usado é significante) em Israel. É uma constante, essa supra-atenção (existente nos defensores de cada “causa”), com toda a certeza herança do implícito bíblico, essa Jerusalém como centro, umbigo do mundo. E por isso mesmo me lembrei deste delicioso livro de Randles – se alguém tiver um familiar interessante pode bem oferecer-lhe um exemplar neste Natal (de notar, para os interessados na história de Moçambique, que este grande historiador escreveu também “O Império do Monomotapa entre XV e XIX”).

[W.G.L. RandlesDa Terra Plana ao Globo Terrestre, Lisboa, Gradiva, 1990]

E fica uma breve citação do texto –  para mostrar como (tant)os jornalistas pensam o cosmos no princípio de XXI.

A ecúmena cristã plana, está representada de maneira muito esquemática nos mapas da Idade Média por um círculo cuja superfície está dividida em três partes pela letra “T”, donde lhes vem o nome de mapas-múndi “T e O”. A vertical do “T” representa o Mediterrâneo e separa a Europa da África; as duas metades da transversal representam, uma, a Tanais (o Don) e, a outra, o Nilo: só por si, eles separam a Ásia do resto do Mundo. No ponto da junção entre a vertical e a transversal do “T” situa-se Jerusalém, o centro do mundo. No século XII Pedro Comestor assinala: “Alguns dizem que este lugar [Jerusalém] é o umbigo da Terra habitável ...” (39)

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Morreu Alfredo Margarido

Morreu hoje Alfredo_Margarido, homem com ligações profundas à intelectualidade moçambicana do período tardo-colonial e do advento da independência. Ao longo dos anos o grande intelectual português aqui algumas vezes foi referido. Não tantas, com toda a certeza, como o deveria ter sido. Ainda assim ficaram algumas breves citações de um pensador arguto, de uma consistência nada aprisionada no (i)mediatismo. E bem actual – acima deixo cópia de um livro que desvendou os anos 1990s (e não só) portugueses com particular e raríssima acutilância.

Fico com a memória pessoal da sua passagem em Maputo, em 1998 ou 1999. Veio para proferir a abertura do ano lectivo do então ISPU, se não me engano. Depois participou num curso de literatura organizado pelo Instituto Camões. Ambas as intervenções de uma densidade avassaladora, recordo. E logo depois encontrei-o na Beira, e com ele então pude privar. Aí se deslocara dois dias, razões particulares casando com uma enorme curiosidade. Foram dois dias de convívio quase constante, enquadrado pelo gentil e literato cônsul português de então, Pracana Martins. Alfredo Margarido à vontade, distendido, resultando em dois dias de reflexão constante, densa, vulcânica, sobre o mundo “pós-colonial”, articulado por um pausado mas corrosivo sentido de humor. Absolutamente único. A sageza, se é que há personificação dessa palavra. Um privilégio, aquele encontro.

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Um Século de República em Portugal

Há uma mitologia produzida sobre a I república portuguesa, enfatizando a sua virtude na antinomia face ao “estado novo” salazarista. A história tende para isso, em particular quando “pátria” (diz-se, hoje, identitária). Mas para além desses milagres de Ourique bem que podemos festejar este centenário do regime republicano português.

Alguns patrícios, muito poucos, virão protestar aludindo à excelência usual e superior legitimidade de umas famílias de esconsa ascendência alemã e tendência para a hemofilia para governarem os destinos da Europa. Não há, hoje em dia, “saco” para os aturar. Mas não faz mal, eles não querem ser aturados. Só querem mesmo ser vistos. E em altura de festa (o tal centenário) são muito bem-vindos. Sejam bem-vistos (no caso deles é mui-vistos).

As imagens [reproduzidas do livro de João Loureiro, Postais Antigos da Ilha de Moçambique & da Ilha do Ibo, Maisimagem, 2ª edição, 2005, e infelizmente de autoria e edição desconhecida] mostram a proclamação da república na Ilha de Moçambique, ocorrida a 10 de Outubro de 1910, pelo governador desse distrito, de apelido Massano, que então anunciou também a sua “adesão” ao novo regime e denunciou (porventura constrangido) o “caminho errado” (monárquico, claro) que tinha vindo a percorrer.

Um século depois Viva a República! Um século de Massanos, também! E, porque não?, vivam os Massanos – monárquicos, republicanos, até ambos. Vivam eles.

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Viva a República

A exposição “Viva a República” na Cordoaria Nacional (Lisboa) inscrita nas comemorações do centenário. Estas têm a vantagem de poder olhar para a I República sem os olhos santificadores, que a contrapõem ao Estado Novo, e sem os volúpias diabolizadoras, contrapondo-o ao mesmo Estado Novo (e, em alguns poucos casos, à monarquia) – e é interessante notar como a forma de olhar a I República é sintomática da concepção topológica do pensar português: não interessa realmente o assunto em causa, interessa verdadeiramente realçar como os locutores se posicionam face a ele em função de um contexto abrangente.

Bem, lá visitei a exposição realizada pela Comissão Nacional para as Comemorações da República e sob o comissariado de Luís Farinha. Tem, com toda a certeza, competência científica, historiográfica. Mas não gostei. Não gostei do objecto, o que terá a ver com o que se pretende com uma exposição. Ou seja, não gostei daquilo que para muitos (e para os autores, com toda a certeza) é uma virtude. Pois é algo enorme, o visitante fica exausto, fisica e intelectualmente. A metade do percurso já suspirava por Gomes da Costa e seus cadetes, para que pusessem fim ao meu suplício. A vertigem dos autores em serem exaustivos levam os visitantes à exaustão. E é uma pena.

Há ainda um ponto, alguns textos são excessivamente longos, muito virgulados. Coisas que não funcionam em painel. Mas isso já é nota, até malévola, que advém da minha irritação. E de onde deriva ela? Da ideologia que transpira, que julgo inaceitável (dada a tal competência científica). Para que não se pense que é má vontade minha deixo abaixo fotografias (nokia), transcrevendo textos (pressionando as imagens elas aumentam).

O teor da exposição é explícito. Entre outros argumentos retiro que a participação na I Guerra Mundial causou fracturas dramáticas no campo republicano e grave crise nacional, irresolúvel pelo regime. E que tal participação foi impulsionada pelo projecto colonial da República, e que esse projecto africano era visto como um vector de desenvolvimento (“acabar com a fome”) do país. De tudo isso se retira a centralidade da questão africana. Ora não sendo os textos da exposição “lisos”, meras recuperações dos textos da época (é aliás basto opinativa), é então completamente inaceitável que sob esta questão central se continue em 2010 a utilizar a concepção de “campanhas de pacificação” em África para descrever as campanhas de ocupação – ideia que não só era então legitimadora (introdução da ordem civilizacional) como também denota uma visão dos africanos como imersos em infindas guerras fraticidas, o caos da selva. Ideia assim sobrevivente (não renascida) através dos textos em painel.

De fazer cair o queixo. Ou não. Ou, como é minha opinião, de continuar a pensar nas continuidades intelectuais entre o republicanismo colonial e a intelectualidade de extracção socialista na II República. Chama-se, esta, lusófona. E tem, sempre, algum patois ideológico que a demonstra.

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Stimela (Xitimela), de Hugh Masekela

Abaixo um comentário sobre emigrantes moçambicanos fez-me lembrar esta música de Hugh Masekela, um fantástico hino. Sim, eu sei que o comentário não se referia a este mundo. Efeitos dos xizatos memorialistas, recortando discursos, livros e iconografias, e até quantas vezes transcritos para a própria historiografia.

[Em termos de som e de qualidade de versão musical é o melhor filme que encontro no youtube, ainda que desprovido de imagens dos músicos. Sobre a canção ver uma boas descrições aqui e aqui]

Stimela [Coal Train]

There is a train that comes from Namibia and Malawi

there is a train that comes from Zambia and Zimbabwe,
There is a train that comes from Angola and Mozambique,
From Lesotho, from Botswana, from Zwaziland,
From all the hinterland of Southern and Central Africa.
This train carries young and old, African men
Who are conscripted to come and work on contract
In the golden mineral mines of Johannesburg
And its surrounding metropolis, sixteen hours or more a day
For almost no pay.
Deep, deep, deep down in the belly of the earth
When they are digging and drilling that shiny mighty evasive stone,
Or when they dish that mish mesh mush food
into their iron plates with the iron shank.
Or when they sit in their stinking, funky, filthy,
Flea-ridden barracks and hostels.
They think about the loved ones they may never see again Because they might have already been forcibly removed
From where they last left them
Or wantonly murdered in the dead of night
By roving, marauding gangs of no particular origin,
We are told. they think about their lands, their herds
That were taken away from them
With a gun, bomb, teargas and the cannon.
And when they hear that Choo-Choo train
They always curse, curse the coal train,
The coal train that brought them to Johannesburg.

[imagem encontrada neste texto (uma adaptação do texto "A Place in the City" de Lilli Callinicos, aqui biografada).]

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Portugal-Brasil

A propósito do Portugal-Brasil do próximo 25 de Junho (dia de independência de Moçambique), a realizar em Durban a Fátima Ribeiro divulga no seu mural do facebook esta medalha comemorativa do jogo Portugal-Brasil, que serviu para inaugurar o estádio da Machava (então Salazar) em 30 de Junho de 1968.

E adianta ainda a constituição das equipas:
Brasil – Félix, Carlos Alberto (cap), Bríto, Joel e Rildo; Gerson e Rivelino; Natal, Jair, Tostão e Edú;
Portugal – Américo; Cruz, Armando Manhiça, José Carlos e Hilário; Pavão, Coluna (cap) e Jaime Graça; Pedras, José Augusto e Peres, Artur Jorge e Simões.
Arbitrou o jogo o espanhol Adolfo Bueno. O Brasil ganhou por 2-0.

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