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Regresso a Buenos Aires

Um breve diário de Ricardo Piglia, no suplemento Babelia do El País.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com Kaui Hart Hemmings, autora de Os Descendentes (Presença), por José Mário Silva
- A Persistência da Obra – Arte e Política, de vários autores, com organização de Tomás Maia (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
- História Económica de Portugal, de Leonor Freire Costa, Pedro Lains e Susana Munch Miranda (Esfera dos Livros), por Luís M. Faria
- O Colosso de Maroussi, de Henry Miller (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
- Os Constituintes de 1911 e a Maçonaria, de António Ventura (Temas e Debates), por Valdemar Cruz
- Homem versus Estado, de Herbert Spencer (Alfanje), por Carlos Bessa
- A Arte da Crítica, de Álvaro Manuel Machado (Presença), por Pedro Mexia
- O Horizonte, de Patrick Modiano (Porto Editora), por José Guardado Moreira

CCB: sai António Mega Ferreira, entra Vasco Graça Moura

Eis uma notícia que me deixa perplexo. A Secretaria de Estado da Cultura acaba de anunciar a substituição de António Mega Ferreira por Vasco Graça Moura, na presidência da Fundação Centro Cultural de Belém. Se Mega Ferreira, nos dois mandatos à frente da instituição, deu «provas de brilho, criatividade e responsabilidade no cumprimento da missão que lhe foi incumbida», porque razão sai agora, quando por lei ainda podia ficar à frente do CCB durante mais três anos? Não se entende. Ou melhor, percebe-se uma coisa muito simples: sem pôr em causa as qualidades de Graça Moura e a sua grande experiência em cargos desta magnitude, há aqui claramente uma mudança de azimute político. Onde estava um intelectual mais ou menos alinhado com o PS, passa a estar um intelectual ostensivamente alinhado com o PSD. Numa altura em que assistimos ao verdadeiro assalto da EDP e outras empresas de forte participação estatal, por parte dos boys e girls laranjinhas (mais uns quantos centristas), a nomeação de Vasco Graça Moura para o CCB vai parecer mais do mesmo.
Perante o facto consumado, resta enaltecer o excelente trabalho feito por Mega Ferreira no CCB, nomeadamente as muitas iniciativas de cariz literário (as participadíssimas comemorações do Dia Mundial da Poesia, os ciclos de colóquios sobre escritores, as homenagens, as maratonas de leitura, os Dias dedicados a certos autores: Tolstoi, Kafka, Vitorino Nemésio, Tabucchi, etc.) Esperemos agora que Vasco Graça Moura consiga prosseguir este movimento de abertura do CCB aos temas literários.
Cá estaremos para ver.

O que aí vem (Sextante)

Travessa da Abençoada, de João Bouza da Costa; A Grande Arte, de Rubem Fonseca; Baku – Últimos Dias, de Olivier Rolin; Cinzas de Abril, de Manuel Moya; A Cidade dos Prodígios, de Eduardo Mendoza.

Perder a fé

Na ficha técnica de Blankets, uma novela gráfica de Craig Thompson que a Biblioteca de Alice (nova chancela da editora Devir) lançou no final de 2011, há uma pequena nota de agradecimentos que começa por sublinhar a «generosidade» do autor e termina com uma menção a Pedro Miranda, «por um certo dia ter brandido, indignado, um Blankets no ar». Rui Santos, criador da Biblioteca de Alice, ainda hoje recorda esse dia: «Foi há seis ou sete anos. O Pedro Miranda, que é um dos sócios fundadores da Devir, estava entusiasmadíssimo com o livro e desafiou-me: “Tens de ler isto, já!”. A verdade é que fui resistindo àquela ordem. Uma história sobre as dificuldades de um rapaz do campo durante o processo de crescimento, mais o seu primeiro amor, não era coisa que me atraísse por aí além. Eu estava mais virado para o Batman. Mas depois resolvi dar uma hipótese ao Craig e arrependi-me de não ter seguido logo o conselho do Pedro. Fiquei completamente maravilhado.»
Assim que surgiu a oportunidade de comprar os direitos para Portugal, Rui Santos arregaçou as mangas e pôs mãos à obra com uma equipa de cúmplices, todos eles amantes da BD e dispostos a tornar viável uma edição arriscada, uma vez que imprimir apenas mil exemplares de um livro de capa dura com 600 páginas eleva muito o preço por unidade. A principal preocupação foi respeitar a obra original até ao mínimo detalhe gráfico, para que o obsessivo trabalho de Thompson em cada prancha não fosse posto em causa. «Eu já achava que o Craig merecia todo o nosso empenho, toda a nossa paixão e os muitos fins-de-semana perdidos. Mas quando o conheci, esse sentimento aprofundou-se. Porque ele não é só um grande artista, é também um tipo extraordinário, muito simples e humilde», lembra Rui Santos, que levou Thompson «a comer um robalo grelhado em Paço d’Arcos de que ele ainda hoje fala».

Craig Thompson nasceu no Michigan, em 1975, mas mudou-se ainda criança para o Wisconsin, onde cresceu com o irmão mais novo, Phil, no seio de uma família de fundamentalistas cristãos. Livro assumidamente autobiográfico, Blankets acompanha o percurso de Craig desde a infância (quando partilhava o quarto e a cama com Phil) até à idade adulta (partida para a universidade e autonomia em relação aos pais). Trata-se da crónica de uma adolescência sem nada de invulgar, semelhante à que viveram milhões de outros jovens norte-americanos. No centro da narrativa, dois pontos de viragem existenciais: o primeiro amor (com os seus êxtases, mas também as suas desilusões) e uma crise de fé. No fundo, Blankets é a história da libertação de um rapaz espartilhado pela rigidez moral da família e da sociedade marcadamente religiosa que o rodeia. Thompson desenhou, num espantoso preto-e-branco, todos os dilemas que o atormentaram, fazendo a exegese visual de várias passagens da Bíblia como forma de explicar o perigo das leituras literais, sobretudo num texto cujas palavras, ao invés de provirem da «boca de Deus», foram «subtilmente modificadas por gerações de escribas» e «diluídas» pelas sucessivas traduções ambíguas. Ao assumir a perda da fé, ele reage contra as respostas únicas que lhe impuseram desde pequeno. E resume tudo numa frase: «A dúvida dá-nos ânimo.»

Não foi, porém, por descrever as tribulações de um jovem banal, a braços com as incertezas típicas de quem descobre a complexidade do mundo, que Blankets se transformou numa novela gráfica de culto, elogiada publicamente pelos mais brilhantes mestres do ofício (de Art Spiegelman a Eddie Campbell), além de ter arrebatado uma mão cheia de prémios (três Harvey, dois Eisner e dois Ignatz). O que torna Blankets uma obra-prima é o modo como Craig construiu um mosaico perfeito, em que a unidade entre texto e desenho atinge pontos extremos de criatividade, elegância e invenção gráfica. Cada um dos nove capítulos funciona isoladamente e em função do conjunto, como os vários quadrados cosidos de que é feito o cobertor que a primeira namorada oferece ao protagonista (metonímia que, não por acaso, dá título ao livro). Quadrados que formam «um som visual» e que lidos «em sequência, como uma banda desenhada, contavam uma história». Thompson consegue adequar cada prancha à tensão dramática do episódio narrado, oscilando entre a grelha clássica da BD, mais contida, e momentos em que os vários planos se fundem (caso das sequências oníricas ou amorosas), com resultados muitas vezes deslumbrantes. Rui Santos destaca ainda a «candura» do narrador, «misto de franqueza crua e sensibilidade poética», um registo raro que atraiu muitas pessoas que não têm o hábito de ler este tipo de livros.

A mais recente novela gráfica de Thompson, Habibi, foi lançada nos EUA em Setembro de 2011 e explora elementos da mitologia islâmica. Se tudo correr bem, Rui Santos conta publicá-la perto do Natal deste ano. Antes disso, surgirá a tradução de Pilules Bleus, de Frederik Peeters, segundo volume a ir para a estante da Biblioteca de Alice – um projecto alternativo pensado contra os «agrimensores com chapéus de hélice e bigodinhos à Dali que tentam separar a literatura da BD».

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Rubem Fonseca vem mesmo às Correntes d’Escritas

Segundo a Sara Figueiredo Costa, há fumo branco: Rubem Fonseca, um dos maiores e mais reservados escritores brasileiros da actualidade (geralmente avesso a qualquer tipo de exposição pública), virá mesmo a Portugal em Fevereiro, para participar no encontro Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim. É uma excelente notícia, claro, ainda por cima quando a visita coincide com a reedição, pela Sextante, de uma das suas obras-primas: A Grande Arte. Mas para já convém não embandeirarmos em arco. Tendo em conta o passado de RF, só quando o vir em carne e osso, no Auditório Municipal da Póvoa, é que acredito.

Lembrete

Logo à noite, a partir das 21h30, no palco do Teatro Tivoli, a ‘Avenida de Poemas’ recebe Francisco José Viegas e os «poemas da sua vida», numa conversa conduzida por Raquel Marinho e por mim. Apareçam.

Quatro poemas de Vítor Nogueira

À MANEIRA DE FILIPE NUNES

Para facilmente poderdes copiar uma cidade,
construí um quadrado com uma rede estirada,
de modo que as malhas fiquem todas direitas
na sua proporção. A seguir fazei num papel
a mesma rede com linhas. Depois procurai
o lugar de onde melhor se descubra a cidade,
os olhos e o quadrado num só ponto,
para que não percais a vista correcta do perfil.

Podereis então copiar facilmente. Porque
passareis a torre que fica numa malha da rede
para a malha que lhe responde no papel.
E fareis o mesmo a partir da outra malha
onde aparece a árvore. E assim podereis ir
pelas malhas, copiando a pouco e pouco.

***

À MANEIRA DE FRANCISCO DE HOLANDA

O dia é feito de deslizamentos, fantasmas
que emergem de cenários onde as cores
enlouqueceram. Mas o equilíbrio, quer dizer,
não é bem isto. Pintar é fazer perto o que está longe,
somente com duas linhas, uma recta e outra curva,
de modo que pareça estar numa tábua limpa
e lisa, ou num papel cego e franco, tudo aquilo
que não está. E assim mesmo com a razão
de duas coisas, porque de duas coisas
a pintura é formada, sem as quais é impossível
concluir alguma obra: a primeira é luz ou claro,
a segunda é escuro ou sombra.

***

TERRENO

Muitas vezes o pintor fica sozinho,
com o terreno à sua frente, acentuado,
e os demónios às bicadas na sua cabeça.
É a altura de arriscar, de subir
os degraus da escada óptica, de forçar
a realidade a caber nos seus desenhos.

É também, senhores, a parte mais perigosa
da escalada – seria mau momento
para a corda se partir. Como quem salta
de uma dor física para um amor perdido,
ter as mãos e os braços em farrapos
e poder subir ainda um pouco mais.

***

POMBO

Digam o que disserem, o grande vadio das cidades
é o pombo. Mistura-se com o fumo dos automóveis,
a luz dos cafés. Empoleira-se num busto
de homem célebre, o mesmo atrevimento
com que se mete num enfeite banal de cantaria.
Um dia bate as asas, lá se vai. Qual é o seu destino?
Sabe-se acaso o destino de uma asa que esvoaça?

[in Modo Fácil de Copiar uma Cidade, &Etc, 2011]

Montanhas de livros

Um blogue, muito por onde escolher.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

- Blankets, de Craig Thompson (Biblioteca de Alice), por José Mário Silva
- Lagoeiros, de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- Margem de Certa Maneira – O Maoísmo em Portugal, 1964-1974, de Miguel Cardina (Tinta da China), por António Loja Neves
- Quando a Neve Começa a Derreter, de A.D. Miller (Civilização), por Luísa Meireles
- Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou, de Kjersti Annesdatter Skomsvold (Eucleia), por Ana Cristina Leonardo
- Questões Permanentes – Ensaios Escolhidos sobre Cultura Contemporânea, de António Pinto Ribeiro (Cotovia), por António Guerreiro

Philipp Meyer: “Tens de habitar as tuas personagens e sofrer com elas”

À primeira vista, Philipp Meyer não parece um escritor. Mais depressa o veríamos como pugilista ou cowboy. Escritor, nem por isso. E não é tanto pelo porte físico compacto, pela forma rígida como se senta na esplanada de um hotel lisboeta, pela voz áspera e riso brusco. Há nele uma falta de sofisticação que podia ser pose, mas é só uma forma de não trair as suas origens humildes, um modo de sublinhar o seu desprezo pela arrogância intelectual de uma certa elite literária norte-americana. Embora faça tournées de promoção do romance que o lançou para a ribalta (Ferrugem Americana, Bertrand) e aceite pacientemente o massacre das entrevistas sucessivas, Meyer ainda não perdeu a espontaneidade, nem um certo embaraço ao falar sobre o seu trabalho, e tem o mérito de não se esconder atrás de respostas preguiçosas ou pré-fabricadas pelos departamentos de marketing.
Editado nos EUA em 2009, Ferrugem Americana foi recebido apoteoticamente pela crítica (entrou nas listas dos melhores livros do ano de vários jornais, do The Washington Post ao The New York Times) e não faltou quem o comparasse a Faulkner, Steinbeck ou Cormac McCarthy. Na altura com 35 anos, Meyer começava a desesperar com os falhanços das suas anteriores tentativas romanescas (seguiu a clássica via crucis dos livros recusados por várias editoras) e temia que o sonho de se tornar escritor, assumido desde os 21 anos, se desfizesse em fumo. Ao concluir Ferrugem Americana, sentiu que a sua sorte estava prestes a mudar. «Sabia que o livro tinha tudo para ser um grande sucesso. Mas também sabia que havia o risco de um fracasso absoluto. Porque na altura ninguém queria saber disto. Ninguém falava disto.» Meyer refere-se ao «declínio da América produtiva», um dos temas centrais do romance.
A morte lenta das grandes indústrias, vítimas da concorrência global e das deslocalizações para a Ásia, era uma «história por contar». Faltava na literatura americana contemporânea quem fizesse a crónica da miséria e decadência no Rust Belt, do silêncio das sirenes, do vazio que paira sobre as fábricas fechadas, do desespero dos muitos milhares de trabalhadores blue collar entregues a um desemprego tantas vezes definitivo. No fundo, Meyer quis narrar o ocaso de um modo de vida, conferindo-lhe dignidade literária. «Sem querer comparar os livros, julgo que a última vez que se fez algo nesta escala foi em As Vinhas da Ira. Steinbeck mostrou-nos a realidade da Grande Depressão mantendo o foco numa família. É através da história dessa família que assistimos à violência com que foi rompido o tecido social. Com o meu livro, eu quis fazer exactamente a mesma coisa. A única maneira de explicar o custo humano da desindustrialização é mostrar as marcas desse custo na vida concreta das pessoas.» Marcas que Meyer conhece bem porque cresceu com elas. No final dos anos 70, quando ainda era criança, os seus pais mudaram-se para o bairro anexo a uma fábrica têxtil, numa das zonas mais pobres de Baltimore. «Na altura, a cidade já estava em crise, com os estaleiros e as fábricas de automóveis a fechar. As que não fechavam, automatizavam-se. E o desemprego subiu em flecha. Esta é uma realidade que eu conheci de perto.»
Das muitas regiões que podiam servir de cenário ao romance, Meyer optou pelo vale do Mon, a sul de Pittsburgh, na Pensylvania. «Quis que fosse uma zona rural com uma única indústria, porque essas foram as mais duramente atingidas. O Up State New York e Ohio chegaram a ser hipóteses, mas depois um amigo meu, que cresceu em Charleroi, no vale do Mon, a sete quilómetros de Buell, a minha cidade imaginária, disse-me que tinha de ser ali.» O facto de na região só existir uma indústria (a do aço), que começou a fraquejar nos anos 70 e ficou arruinada em meados dos anos 80, também ajudou: «Permitiu uma caracterização económica mais simples.» Durante o longo período de investigação no terreno, Meyer percorreu o vale de carro, fazendo um levantamento geográfico completo: «Quando estás a fazer pesquisa, vais acumulando informação. Estas são as árvores, estas são as estradas, estas são as pessoas. Anotas tudo. Captas milhares de fotografias. Tens de poder dizer a ti mesmo que conheces realmente aquela terra, aquelas cidades, aquelas paisagens. Sou incapaz de escrever sem esta rede, sem esta infraestrutura.”
Meyer abomina o espectro da autobiografia na ficção e por isso recusou-se a utilizar as suas experiências pessoais. «Eu preciso de sentir que estou a atingir a verdade daquilo que conto, tenho de chegar ao fundo daquilo que estou a contar. E quando temos uma qualquer ligação emocional à história, ou aos lugares em que decorre, isso é impossível.» Ainda assim, há algo dos anos de Baltimore que se infiltra, subrepticiamente, na narrativa: «Algumas das personagens secundárias mais obscuras ficaram com nomes de vizinhos meus ou de pessoas de que gostei muito, enquanto crescia. E o nome do cão de Harris, uma das figuras centrais do livro, é o nome do malamute preferido do meu pai. Acabamos por introduzir estes pormenores, como uma espécie de secreta homenagem.»

Ao longo da escrita de Ferrugem Americana, a principal dificuldade de Meyer esteve na construção das personagens – cada uma com a sua voz distinta, o seu ritmo, o seu dilema moral. «Hesitei imenso. Fiz várias versões, com muitos acrescentos e muitos cortes. O Colm Tóibín deu-me conselhos preciosos e voltei várias vezes ao livro dele sobre o Henry James» (O Mestre, editado em Portugal pela Dom Quixote). A principal influência, admite, foi buscá-la aos modernistas e ao seu uso da «corrente de consciência» (stream of consciousness). Ao acompanhar a fuga de Isaac, o protagonista, interessava-lhe sobretudo descrever os mecanismos do pensamento, a forma caótica como a mente processa a informação. «Procurei artigos de Psicologia que explicassem de que forma o cérebro funciona mas não encontrei nenhum que me servisse. Acabei por estudar a minha própria forma de pensar. E recorri à literatura, claro. Joyce, Virginia Woolf, os modernistas.» Depois, deu-se como que uma epifania: «No processo de escrita, há um dado momento em que acabas por entrar na cabeça das personagens. Esvazias a tua mente por completo e percebes que começas aos poucos a ver as coisas como as personagens as veriam.» O essencial, para Meyer, é que o escritor se coloque emocionalmente no lugar do outro: «Tens de habitar as tuas personagens. E sofrer com elas.»
Três anos após a primeira edição de Ferrugem Americana, o escritor já sente um certo distanciamento em relação à sua obra. «É estranho porque um livro é como uma relação amorosa. Primeiro apaixonamo-nos loucamente, ficamos obcecados. Depois fartamo-nos, ao ponto de não conseguirmos olhar para aquilo. Mais tarde, voltamos a reacender a paixão. Até que um dia o livro já não nos diz nada de novo. Então sabemos que acabou.» Se isso ainda não aconteceu a Ferrugem Americana é porque o romance marcou o verdadeiro arranque da carreira literária de Meyer («além de que lhe dediquei quatro anos da minha vida»), mas o escritor entretanto terminou outro livro, «e é esse que me entusiasma agora». Com lançamento previsto para o próximo Outono, The Son é um ambicioso épico sobre a História do Texas e a «vida na fronteira», reflectida na trajectória de uma família de criadores de gado que se transforma numa dinastia ligada ao negócio do petróleo. «Vai de 1830 até à actualidade, ao longo de sete gerações. É um romance longo, com cerca de mil páginas, em que deixei de saltar entre personagens para saltar entre tempos diferentes.»
A vida de Philipp Meyer dava, ela própria, um romance. Aos 16 anos, abandonou a escola pública em Baltimore para trabalhar como mecânico de bicicletas. Aos 22 anos, depois de decidir que queria ser escritor, candidatou-se a várias universidades de elite e acabou por entrar em Cornell, onde se licenciou em Inglês. A seguir, para pagar os empréstimos, conseguiu um cobiçadíssimo emprego em Wall Street, num banco de investimentos suíço. Aprendeu a manipular números, ganhou bom dinheiro, satisfez a sua necessidade de adrenalina e viu para onde caminhavam os mercados especulativos: para o desastre. Em 2001, fartou-se e bateu com a porta. Queria dedicar-se à escrita, mas os dois primeiros romances foram recusados e regressou, falido, para a casa dos pais em Baltimore. Conduziu ambulâncias e trabalhou na construção civil durante uns tempos, antes de fazer uma última aposta na literatura. Em 2005, uma bolsa do Michener Center for Writers, de Austin (onde hoje vive), permitiu-lhe escrever grande parte de Ferrugem Americana. O sonho de ser escritor a tempo inteiro cumpriu-se, mas nunca se sabe onde irá dar uma vida que parece uma montanha-russa, cheia de altos e baixos. A sua filosofia pode resumir-se numa frase: «não ter medo de correr todos os riscos». No dia 11 de Setembro de 2001, por exemplo, ofereceu-se para retirar corpos dos escombros e só não o aceitaram porque não tinha estatuto de socorrista. Mais tarde, quando soube do furacão Katrina, dirigiu-se imediatamente para Nova Orleães, onde ficou vários dias a ajudar, cercado pelas águas. Não tenciona, porém, fazer ficção a partir destas experiências. Pelo menos para já: «Estou demasiado perto dos acontecimentos para poder escrever sobre eles.» Mas dêem-lhe tempo. Até porque, aos 37 anos, tempo é o que não lhe falta.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Lançamento de ‘As Coisas’

O primeiro livro de poemas de Inês Fonseca Santos (As Coisas, Abysmo) vai ser lançado esta noite, a partir das 22h00, no Lux/Frágil. A apresentação da obra estará a cargo de António Mega Ferreira; a leitura de poemas, de Filipa Leal e Pedro Lamares.

A alegria dos livros

Este vídeo, que anda a circular furiosamente pelo Facebook, é uma pequena maravilha:

Finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa 2012

- A Cidade de Ulisses, de Teolinda Gersão (Sextante)
- As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta (Dom Quixote)
- Adoecer, de Hélia Correia (Relógio D’Água)
- Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca (Sextante)
- Do Longe e do Perto – Quase Diário, de Yvette K. Centeno (Sextante)
- Dublinesca, de Enrique Vila-Matas (Teorema)
- O Homem que Gostava de Cães, de Leonardo Padura (Porto Editora)
- Os Íntimos, de Inês Pedrosa (Dom Quixote)
- Tiago Veiga – Uma Biografia, de Mário Cláudio (Dom Quixote)

Do júri fazem parte Ana Paula Tavares, Fernando Pinto do Amaral, José António Gomes, Patrícia Reis e Pedro Mexia. A reunião decisiva será a 22 de Fevereiro, com o anúncio oficial marcado para o dia seguinte, na abertura da 13.ª edição do Correntes d’Escritas.

Fiódor em Cabul

Maldito seja Dostoiévski
Autor: Atiq Rahimi
Título original: Maudit soit Dostoïevski
Tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 207
ISBN: 978-989-97474-5-6
Ano de publicação: 2011

No momento em que racha o crânio de uma velha com um machado, replicando o célebre gesto de Raskólnikov, Rassul sabe que está a cometer uma espécie de plágio. Ainda antes de a ver caída sobre um tapete vermelho e negro, gradualmente manchado de sangue, «passa-lhe pela cabeça» a história de Crime e Castigo. Atiq Rahimi podia apostar num simples decalque do romance de Dostoiévski, correndo sérios riscos de soçobrar num pastiche pretensioso. Ao fazê-lo como o faz, atribuindo ao protagonista a imediata consciência da emulação de Raskólnikov, mas também um sentimento de impotência e raiva por não conseguir imitar à risca o seu destino, torna muito mais subtil e interessante o jogo da intertextualidade.
Embora replique as traves-mestras da narrativa de Dostoiévski, Rahimi sabe perfeitamente que o Afeganistão dos anos 90, após a retirada das tropas soviéticas, nada tem a ver com a S. Petersburgo do século XIX. Por muito que o crime e os consequentes remorsos se assemelhem, tudo o resto é diferente. A escrita depurada do autor franco-afegão, aliás, preocupa-se mais em sublinhar as diferenças do que as semelhanças. Quando assassina Alia, uma mulher horrenda, agiota e proxeneta, que obrigara a sua noiva a prostituir-se, Rassul pretende não apenas vingar-se mas apropriar-se do seu dinheiro e jóias, com os quais tenciona ajudar a mãe e a irmã, sozinhas após a morte recente do patriarca da família. E é aqui que as histórias se começam a separar. Ao contrário de Raskólnikov, Rassul foge do local do crime de mãos vazias, o que torna algo impalpável e até duvidosa a sua culpa, uma vez que o cadáver e respectivos bens desaparecem misteriosamente – permitindo, até, a hipótese de o crime se ter dado apenas na sua cabeça.
Com o choque emocional, Rassul perde a voz e deambula por uma Cabul de pesadelo que cheira a enxofre e «podridão», sacudida por explosões e dominada pelos «barbudos», mujahedines que depois de expulsarem os soviéticos se digladiam em guerras tribais. Para escapar à «fornalha do ódio» em que se transformou o seu país, Rassul afunda-se nas salas de fumo, por entre nuvens de haxixe, a planar «nos abismos poéticos do cânhamo». Ele sempre preferiu o orgulho à altivez, mas agora sente-se vítima do seu próprio crime, incapaz de lidar com a «lâmina do destino» ou sequer com a ideia de um suicídio redentor. O sofrimento que o rói por dentro, como uma «ferida aberta, incurável», leva-o ainda assim a entregar-se à Justiça, só para descobrir que esta não existe – é um edifício abandonado, vazio, às moscas.
No fim de uma labiríntica sequência de peripécias, Rassul consegue finalmente ser julgado. E a ironia explode-lhe na cara. Porque ninguém se preocupa com o seu crime, a não ser ele. Como lhe explica um comandante militar: «o assassínio é um crime quando a vítima é um inocente. Essa mulher devia ser castigada. (…) Àquilo que fizeste, chama-se vingança. Ninguém tem o direito de te julgar como assassino.» Mais do que sacrificar-se aos seus fantasmas, ele pretende que o seu processo seja um testemunho «sobre estes tempos de injustiça, de mentira, de hipocrisia», e que a punição do seu crime sirva de exemplo, num país em que todos os valores colapsaram.
Muito intensa, muito rápida (abundam as frases curtas, em staccato), muito persa (com fortes imagens poéticas e personagens que contam histórias maravilhosas), a escrita de Rahimi surge ainda mais refinada do que nos livros anteriores, mantendo a sua imensa capacidade efabulatória.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Prémio Jacinto do Prado Coelho para Rosa Maria Martelo

O livro A Forma Informe – Leituras de Poesia, de Rosa Maria Martelo, acaba de ser distinguido com o Prémio Jacinto do Prado Coelho, da Associação Portuguesa dos Críticos Literários. Do júri fizeram parte Maria João Cantinho, Manuel Frias Martins e Liberto Cruz.

E a palavra do ano 2011 (para a Infopedia) é…

Austeridade.

O mundo de Stieg Larsson, agora no iPhone

Uma vida de escrita

Edmund White ao The Guardian: «From an early age I had the idea that writing was truth-telling. It’s on the record. Everybody can see it. Maybe it goes back to the sacred origins of literature – the holy book. There’s nothing holy about it for me, but it should be serious and it should be totally transparent.»

O museu imaginário de Jacques Rancière

Simplesmente magnífico.

Logo à tarde

O que aí vem (Civilização)

Em Janeiro: Irmã, de Rosamund Lupton; Era tudo tão bom, de Linda Grant; Gonçalo e a bicharada … e outra história, de António Torrado.

Comentários reactivados

Resolvido o problema que afectava as caixas de comentários deste blogue, voltem a dizer de vossa justiça à vontade, caríssimos leitores.

Maravilhas da paternidade

Primeiros parágrafos

«Mesmo sentado num daqueles bancos altos de lanchonete, com a barriga colada no balcão, o marido, de quase dois metros, tem as pernas semidobradas e os pés bem plantados no chão. Além do tamanho acima da média, após seis anos de casado, está mais corpulento do que sempre foi. Tem braços mais pesados, um pescoço mais grosso e seu olhar ganhou maior lentidão.
Enquanto mastiga, suas têmporas afundam, estufam, e nós saltam nos encaixes do maxilar. Está na segunda lata de refrigerante, com o fôlego natural em dois canudos. Antes de cada mordida no x-tudo que pediu, ele enfia a bisnaga vermelha por entre as camadas de pão-alface-tomate-maionese-ovo-baconbife-tomate-alface-pão, e aperta-o com vontade, sem tocar na outra bisnaga, amarela, à sua frente no balcão. Ao cravar os dentes no pão, faz o molho brotar do recheio, devolvido, amolecendo o guardanapo de papel e caindo no prato em gotas consistentes.
A esposa, embora ainda jovem, possui a beleza diferente da mulher que amadurece muito cedo. Com a bolsa junto ao corpo, o tórax espigado, firme sob o tecido da blusa, ela espera a família terminar o café da manhã. Jamais comeria ali. Pediu apenas um café bem preto, que adoçou artificialmente, numa dose arbitrária e preestabelecida. Só que nem o café está bebendo. Viu xícaras, pires e colherinhas sendo escaldados na água, brotando do vapor diante de seus olhos, mas para ela nada torna as condições sanitárias do lugar menos suspeitas. Faz então a pequena xícara branca evoluir em seus dedos compridos, só para ocupar as mãos.»

[in Outra Vida, de Rodrigo Lacerda, Quetzal, 2011]

Uma jornada particular

Lugano
Autora: Tatiana Faia
Editora: Artefacto
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-8417-09-1
Ano de publicação: 2011

Nos últimos anos, têm sido muitas as revelações femininas na poesia portuguesa – em flagrante contraste com o que se passa no domínio da ficção. Tatiana Faia, co-editora da revista Ítaca, é mais uma autora que se estreia com uma obra que não parece de estreia, tal a densidade e rigor estilístico dos textos reunidos em Lugano. Veja-se o início do poema que dá título ao livro:

muito entediadamente desceu as escadas
e sentou-se no último degrau, rapaz
de longe alguém te trouxe o hábito
de contar no páramo as estrelas
(…) assim somos trabalhados às vezes
pela mudez que fica em algumas imagens
um rasto de prata uma cor de cinza
a impressão de cores que nos visitam
e não sabemos de onde vêm mas chegam-nos
varridas para a margem por uma coisa concreta.

Esta é uma poesia fascinada com o «espectáculo da linguagem», mas também com o «lugar antes das palavras». Tatiana Faia, que fez Estudos Clássicos na Faculdade de Letras de Lisboa e prepara um doutoramento em Literatura Grega, não esconde a influência das suas leituras naquilo que escreve. Os poemas – quase todos longos, compostos por várias partes que funcionam como um mosaico – são marcados por uma deriva geográfica através da bacia mediterrânica, berço da civilização ocidental, um périplo que passa por Roma, Alexandria, Siracusa, Palermo, La Valleta, Pompeia, Atenas e Jerusalém. Há sempre, na viagem, «uma mala cheia de livros». A literatura impregna a escrita, entra nos versos, seja invocando uma imagem de escadas (vinda de Eugenio Montale), seja pela referência a mitos e narrativas fundadoras (Electra, Jano, Ariadne em Naxos, um hino homérico a Apolo). Não se julgue, porém, que a autora se perde nos labirintos da erudição. Pelo contrário, a sua escrita como que busca uma simplificação do real, pairando sobre os rituais do quotidiano, os êxtases e tribulações do amor, as pequenas nostalgias, o acto de abrir uma romã, a procura de um «gesto que nos dispensasse da fala» ou o registo de alegrias efémeras, como todas as alegrias, distribuídas por «um deus que não sabemos se é generoso».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]

Com todas as letras

O Henrique Manuel Bento Fialho, que além de poeta é livreiro (ou vice-versa, não sei), foi um dos leitores que me avisou dos problemas com os comentários, por ter tentado em vão deixar uma mensagem num post lá para trás. «Era sobre um cliente que me pediu o livro ao balcão, alto e bom som, com todas as letras e mais algumas durante o Natal. A loja estava cheia e foi risada geral. Só não sei se o tipo queria mesmo o livro ou estava a mandar-me dormir, que bem preciso.»

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com Philipp Meyer, autor de Ferrugem Americana (Bertrand), por José Mário Silva
- Maldito Seja Dostoiévski, de Atiq Rahimi (Teodolito), por José Mário Silva
- Lustrum, de Robert Harris (Presença), por Luís M. Faria
- De Re Rustica, de H. G. Cancela (Afrontamento), por Hugo Pinto Santos
- O Mundo Está Cheio de Deuses – Crise e Crítica do Contemporâneo, de João Barrento (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
- Observação do Verão, de Gastão Cruz (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
- Modo Fácil de Copiar uma Cidade, de Vítor Nogueira (&Etc), por Manuel de Freitas
- A Verdadeira História da Terra, de Christopher Lloyd (Clube do Autor), por Virgílio Azevedo

Francisco José Viegas na ‘Avenida de Poemas’

O actual Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas (mais conhecido como romancista e cronista, mas também poeta), vai estar à conversa com a Raquel Marinho e comigo, partilhando alguns dos seus poemas preferidos, no Teatro Tivoli, dia 16 (segunda-feira e não terça, como é hábito), a partir das 21h30.

Problemas com os comentários

Vários leitores alertaram-me, nos últimos dias, para a impossibilidade de publicar comentários neste blogue. Não sabendo ainda a que se deve o problema, tentarei resolvê-lo o mais depressa possível.

O que aí vem (Presença)

Os Descendentes, de Kaui Hart Hemmings; A Última Noite no Chateau Marmont, de Lauren Weisberger; Uma Questão de Orgulho, de Linda Carlino; O Mundo na Era da Globalização, de Anthony Giddens; A Economia em 24 Lições, de Mário Murteira; O Estado do Universo, de Pedro G. Ferreira.

Vozes de escritores

Voz de Jorge Luis Borges, lendo o seu conto Borges y yo.

Implorar a Deus que ponha termo ao Verão

A.M. Pires Cabral sobre Rilke.

Quatro poemas de Henrique Manuel Bento Fialho

ADÃO A EVA

Não temas a trovoada,
o aconchego do relâmpago.
Senti-la aqui tão perto
é um regalo a poucos concedido.

Se a casa tremer,
lembra-te que não é de medo
nem do frio das paredes.

As casas só tremem
porque estão de pé,
fundadas na terra que recebe
as ossadas dos relâmpagos:
as trovoadas.

Não temas os mortos
nem o aconchego dos vivos,
nem deixes morrer nos vivos
as trovoadas que fazem tremer
as casas.

***

ERNESTO SAMPAIO A FERNANDA ALVES

Não temos mão na treva –
fio de lama que escorre
à superfície da pele,
acusação afectuosa
de um brilho esmorecido,
morte trespassada
de anúncios que nos embalam
à hora de adormecer os ninhos.

Viemos do nada, errámos
pelo corpo como a força
de uma raiz exaurindo o caminho
que vai dos tímpanos ao coração.

Por isso palpitamos
e tememos e agimos.
Por isso resgatamos num sopro
a explicação das pontadas.
Por isso dizemos ser o mundo
esta treva e nós a luz que destoa.
Por isso contrabandeamos paixões,
consentindo no insulto que é dizer:
amo-te.

Não sei quem és. Não sabes quem sou.
Somos apenas alguém à espera,
fantasiando o absurdo da vida,
crentes de que um dia o nada de onde vimos
possa tornar-se o tudo para onde vamos.

***

CESARE PAVESE A TINA PIZZARDO

Onde os pássaros fazem o ninho
e debicam os pulsos,
onde as crianças constroem casas
e afinam os dentes,
onde as marés arrebatam as luas
que o desejo renova,
onde um dia eu disse
que viria a desfalecer,
onde um dia no chão,
sob um manto de estrelas
a caírem do céu,
onde um dia no terraço,
onde um dia na cama,
onde um dia na mesa,
na praia, onde um dia
num vão de escada,
onde um dia no elevador,
na banheira, no sofá,
onde um dia cozinhámos a história
que ficou por acontecer.

***

SYLVIA PLATH A TED HUGHES

Dobra bem os versos por baixo do colchão,
estica a pele até ao ponto de rasgar.
Depois areja os nervos, os músculos,
tudo o que puderes fazer sair de dentro do corpo.

E com as palmas das mãos inscreve
a ansiedade que te escorre dos poros
neste espelho de cambraia quase invisível.

Tenho uma flor à tua espera, uma ferida
nos sulcos do meu ventre. Vem regá-la,
colhê-la, faz com ela o arranjo da refeição
que agora termina e de novo começa.

[in A Dança das Feridas, de Henrique Manuel Bento Fialho, edição do autor, 2011]

Literatura ‘retornada’ na Bertrand do Chiado


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O pretexto para a conversa de Anabela Mota Ribeiro com Dulce Maria Cardoso e Isabela Figueiredo são dois livros excelentes: Caderno de Memórias Coloniais (Angelus Novus, 2009) e O Retorno (Tinta da China, 2011). A sessão é só de hoje a uma semana, mas anotai já nas agendas.

Uma lista de palavras a abater

A Lake Superior State University acaba de publicar a sua lista anual de «Words Banished from the Queen’s English for Misuse, Overuse and General Uselessness». Ou seja, palavras gastas, mal usadas ou inúteis que deviam sair de mansinho do léxico colectivo, para bem da higiene vocabular.
Em Portugal, creio que não seria difícil compor uma lista semelhante. Sugestões?

Prémio D. Dinis para Maria Teresa Horta

Instituído pela Fundação Casa de Mateus, o Prémio Literário D. Dinis distingue, na edição relativa ao ano de 2011, o romance As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta (Dom Quixote). O júri, composto por Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Fernando Pinto do Amaral, decidiu por unanimidade.

Matéria negra

O Horizonte
Autor: Patrick Modiano
Título original: L’Horizon
Tradução: Isabel St. Aubyn
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 112
ISBN: 978-972-0-04335-1
Ano de publicação: 2011

Jean Bosmans, o protagonista de O Horizonte, é um escritor sexagenário que se vê de repente assombrado pela memória de episódios soltos da juventude – tempo em que muitas histórias ficaram como que suspensas na ilusão de um «eterno presente». Num caderno preto, ele aponta essas «nuvens flutuantes» que deslizam «umas atrás das outras», tenta dar-lhes uma ordem, um sentido, levado pela «vertigem» do que «poderia ter acontecido e não acontecera». Na sua vida, esses «fios quebrados» equivalem ao que os astrónomos designam por «matéria escura», a parte invisível do universo que é «mais vasta do que a parte visível». E mais insondável.
De certa forma, O Horizonte acaba por ser um livro de fantasmas, em que pessoas se materializam inexplicavelmente na vida de outras pessoas (como ameaça ou como redenção) para logo se dissiparem, ao ponto de questionarmos se alguma vez existiram. A investigação retrospectiva de Bosmans centra-se em Margaret Le Coz, uma misteriosa rapariga de origem bretã, nascida em Berlim no final da II Grande Guerra, com quem se cruzou por acaso na agitação dos anos 60, em Paris. Este improvável encontro de dois seres desenraizados e frágeis resiste, porém, à linearidade das histórias de amor: «a impressão que me ficou é a de que eu e Margaret viajávamos sempre em comboios noturnos, de tal modo que aquele período das nossas vidas é descontínuo, caótico, entrecortado por uma quantidade de sequências muito curtas sem a menor ligação entre si». Oscilando entre o passado difuso e a lucidez do presente, a narrativa desentranha pouco a pouco uma história de perda (a fuga de Margaret, desaparecida sem deixar rasto) que se transforma, quando menos o esperaríamos, num «horizonte» de esperança.
Intangível, por vezes onírico, de uma subtileza admirável, este belo romance mostra Modiano no cume da sua arte: a arte de ser Modiano. Está tudo lá: a voz, a limpidez do estilo, as obsessões. A nós, que o lemos, cabe-nos agradecer a constância de um escritor maior.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]

Adenda ao post anterior

How To Publish Your Own Book in 2012.

Maus sinais

A LeYa anunciou que vai fazer este ano «uma redução do seu plano editorial, com uma consequente redução de colaboradores nas áreas editorial, de marketing, comercial e de serviço de apoio a clientes», enquanto reforça a sua aposta no mercado brasileiro. Se um dos dois maiores grupos editoriais tenciona despedir mais de 30 funcionários e diminuir o número de títulos publicados, imagine-se o que não acontecerá em estruturas mais pequenas e economicamente mais frágeis. No mundo do livro em Portugal, mesmo com a manutenção do IVA nos 6%, o ano de 2012 promete cumprir (e talvez exceder) os piores vaticínios.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges