Mostrar mensagens com a etiqueta Vaticano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vaticano. Mostrar todas as mensagens

Segunda-feira, 21 de Junho de 2010

Ainda Saramago

Muito se escreveu a pretexto do passamento de Saramago. Do que li, destaco a lúcida reflexão de Manuel Gusmão e o dossiê do Público, do qual li com gosto as evocações de Carlos Reis, Mário de Carvalho, Luiz Schwarcz (aqui se podem ler outros depoimentos), Urbano Tavares Rodrigues e Mia Couto. Fiquei estarrecido com o texto de Eduardo Lourenço, onde a projecção do próprio pretende impor uma pseudo-redenção final de Saramago como saída para a sua desilusão utópica, em gritante contraste com o sentido constante da intervenção cívica e literária do autor.
Sobre a ausência de altas figuras do Estado das cerimónias fúnebres do único Prémio Nobel da Literatura português, apenas reiterar as críticas oportunamente feitas a essa conduta, apesar dos dois dias de luto nacional. A situação é agravada quanto ao Presidente da República, Cavaco Silva, que teria necessariamente que estar lá enquanto representante de todos os portugueses numa ocasião simbólica por excelência.
O Vaticano, este Vaticano, primou novamente pela arrogância e deselegância; nb: já o comunicado do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura da Igreja católica portuguesa tem um tom bem diverso, que só pode ser elogiado pela sensibilidade e esforço de reflexão que representa: «Igreja enaltece “grande criador da língua portuguesa” mas lamenta “balizamentos ideológicos”».
Nb: na imagem, cartoon inspirado no quadro Des glaneuses (1857), de Jean-François Millet.

Terça-feira, 4 de Maio de 2010

É controverso e tem a sua ironia: se calhar no próximo censo já não haverá tanta gente a dizer-se católica...

Os trabalhadores do sector privado que tenham de faltar devido ao encerramento de escolas no dia 13 de Maio [3.º dia da visita do Papa a Portugal] terão de perder um dia de férias ou um dia de salário [vd. «Escolas fechadas: pais têm de perder um dia de férias ou de salário»]

O pior é para quem não se assume como católico...

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Bispo português que defendeu dever moral de uso do preservativo para prevenir SIDA na mira do Vaticano

Depois das desastradas declarações do Papa no ínicio da sua visita a África, o Vaticano volta de novo à carga, preparando-se para recriminar as declarações do Bispo de Viseu, D. Ilídio Leandro, que no sábado passado escreveu no site da sua Diocese que quem tem uma vida sexual activa tem a "obrigação moral de se prevenir e não provocar a doença na outra pessoa" (vd. notícia aqui; vd. tb. esta). Referiu ainda "aqui, o preservativo não somente é aconselhável como poderá ser eticamente obrigatório" (eis a versão integral do seu texto: «A viagem de Bento XVI a África - a propósito dos preservativos…»). Ontem, também o Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, se referiu ao assunto, afirmando que o preservativo é "um expediente" que poderá ter "o seu cabimento nalguns casos". Estas são algumas das declarações de altas figuras da hierarquia portuguesa que contrastam fortemente com a posição da Santa Sé.
Pouco antes destas tomadas de posição, a prestigiada revista de medicina Lancet criticara as declarações anti-científicas do Papa a propósito da protecção anti-SIDA concedida pelo preservativo, defendendo ainda que é indispensável separar as questões de saúde pública dos dogmas religiosos.

Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

E o papa agora é pop

novo_papa E não é que a Vossa Santidade, o papa Bento 16, agora também quer ser pop! Ela passou a ter um canal no YouTube. Entre muitas coisas, ele aconselha os jovens a usarem a “nova mídia” de forma equilibrada e evitar a obsessão online que pode isolá-los da vida real. O canal do Vaticano terá vídeos sobre as atividades do papa, além de eventos e cultos na Santa Sé, com áudio e texto em inglês, castelhano, alemão e italiano. Os vídeos diários terão perto de 2 minutos de duração. Amém.

Sexta-feira, 21 de Março de 2008

Este ano festejamos aqui, no ano que vem, em Jerusalém*

Este ano ainda tivemos de rezar a absurda oração de sexta-feira santa pelos judeus que se encontram longe da Revelação, para o ano, o Vaticano já anunciou que vai modificar a fórmula, o que só demonstra ainda haver algum discernimento. Olhar para Páscoa sem tomar o que ela tem de judaico, é ver só uma parte, na realidade, a parte da Páscoa em diante, e que não torna presente o que Jesus, um verdadeiro judeu, também celebrou.
*A frase é retirada da Haggadah judaica, explicação que percorre a refeição ritual do Seder Pascal e que relembra e actualiza a história do povo judeu.

Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Nos sentámos a chorar*

Sobre a mais recente beatificação massiva do Vaticano só se pode considerar que é um ataque directo a um país que está efectivamente a separar as águas estatais das espirituais, entre dois Estado laicos podia ser considerado uma declaração de guerra. Não deixa, contudo, de ser penoso ver que a Igreja a qualquer perda de poder temporal reaja sempre com ofensivas cheias de rancor contra os «culpados» que vai enumerando numa lista que já tem alguns séculos e que se pode enunciar mais ou menos por esta ordem: a Reforma; a Revolução Francesa; a Maçonaria; a Revolução Industrial; o Marxismo; o Capitalismo. Todos estes processos históricos geraram, então, golpes profundos no status quo católico e que podem ser sumarizados nalguns pontos como a emergência das dinâmicas urbanas; alteração dos modelos familiares; a modificação de relações profissionais; o feminismo.
A Igreja, de tanto atacar, feriu-se, perdeu-se, parece incapaz de reflectir sobre si própria, e, sobre a suas origens que são urbanas, que vão contra uma série de constrangimentos sociais e de leis morais, sobre as propostas iniciais de renovação e libertação do ser humano, sobretudo do que está mais desprotegido e longe do poder. E enquanto mais não fizer que promover uns beatos fascistas à espera de um milagre de retorno a um Franquismo global, «junto aos rios da Babilónia nos sentámos a chorar».
*Salmo 137 - Salmo colectivo de súplica, no âmbito do exílio do povo hebreu na Babilónia.