Volcano Choir é um novo projecto de um colectivo de músicos do Wisconsin, constituído pelos membros dos Collections of Colonies of Bees e - a sua atracção maior - Justin Vernon, o responsável pelo fenómeno Bon Iver. O disco "Unmap" foi lançado em Agosto, um disco de música ambiental que conta com o recorte e re-tratamento de algumas ideias de Bon Iver (em especial, do EP "Blood Bank), e o vídeo de Island, IS acaba agora de ser apresentado via You Tube.
Um dos trovadores preferidos cá do tasco lançou este mês um disco de versões, com o nome "All Dressed Up And Smelling Of Strangers". O cardápio propõe-nos 16 versões de 16 nomes, entre consagrados e outros mais recentes, numa lista que engloba Beatles, Dylan, Cohen, Elvis, Sinatra ou Orbison, ao lado de Pedro The Lion ou dos Centro-Matic. Como Hinson é dos que não engana, vale sempre a pena ganhar algum tempo a ouvir a sua interpretação dos três clássicos que vos deixo em baixo - e, depois, do resto do disco.
Como já faz algum tempo que se me esgotaram os adjectivos para qualificar Annie Clarke e nunca se consegue dizer bem o suficiente do seu projecto, St. Vincent, deixa-se apenas o vídeo para mais uma canção saída de "Actor", Marrow.
Marrow, St. Vincent "Actor" (2009)
E como se o vídeo não tivesse já suficiente substância para nos manter as mandíbulas ocupadas por um tempo, aqui em baixo fica a performance ao vivo da mesma música no programa de David Letterman, com a ajuda de um ensemble de sopros. O resultado é mais que eficaz.
Marrow, St. Vincent ao vivo no "Late Show With David Letterman", 24.06.2009.
Regista-se a efeméride de um novo single para Thom Yorke, de nome Feeling Pulled Apart By Horses, lançado online no dia de ontem. No You Tube foi lançado um vídeo para o lado-b The Hollow Earth.
Especial Bruce Springsteen #8 - "Darkness On The Edge Of Town"
Depois de "Born To Run", Springsteen gastou o chão dos palcos, tendo também que deglutir a atenção que o disco de 1975 tinha gerado à sua volta. Mas não era apenas isso que impedia Springsteen de voltar aos discos. Bruce manteve durante dois anos um proceso judicial contra o seu ex-manager, Mike Appel, período no qual o compositor se manteve afastado das sessões de gravação.
Com este reboliço, a música de Springsteen acabou por ficar mais 'escura' e menos optimista. Os personagens "freak" e os românticos, e os "freaks" românticos, dão lugar a personagens mais terrenas; o modo de vida adolescente ou pré-adulto dá lugar a um mais adulto; o escape da noite ao dia de trabalho. Tudo isso pode ser ouvido em "Darkness On The Edge Of Town": o ajuste de contas com o progenitor, no rock pesado de Adam Raised A Cain; as forças e circunstancialismos que nos dominam, em Racing In The Streets e no fabuloso tema-título; um amor um pouco mais maduro em Prove It All Night e um pouco mais selvagem, no amor por uma prostituta, em Candy's Room; o valor do esforço e do trabalho em Badlands, Factory ou The Promised Land. Apesar de haver músicas que acabaram por se tornar símbolos da carreira de Springsteen e marcos ao vivo, como Darkness On The Edge Of Town, Racing In The Streets ou Candy's Room, não há 'hits'. Curiosamente, e com o escopo de manter o disco 'focado', Bruce Springsteen tinha 'oferecido' Because The Night a Patti Smith - co-autora do tema - ou Fire às Pointer Sisters, músicas que acabaria por ter grande visibilidade comercial. Obviamente que Springsteen continuou a tocar esses temas ao vivo.
Há ainda a referir a excelente Streets Of Fire, que acabaria por dar o nome ao conhecido filme de Walter Hill de 1984 - o tal que, musicalmente, acabou por nos dar a conhecer Nowhere Fast. A ideia dos produtores do filme era usar a música de Springsteen na banda sonora. No entanto, quando Springsteen se apercebeu que a ideia era que o tema fosse re-gravado para caber na personagem principal feminina do filme, representada pela belíssima Diane Lane, recuou na permissão de uso dos direitos da canção.
Temos então um disco, um grande disco, introspectivo e intimista como os anteriores nunca foram, de que Something In The Night é talvez o melhor exemplo. Um disco de um Springsteen bem diferente que aquele que conhecíamos até "Born To Run" e que, em grande parte, começa a definir uma parte do Springsteen que temos desde então.
10/10 (dez-em-dez)/Especial Bruce Springsteen #6 - "Born To Run"
Para começar, este é um dos melhores de rock de sempre, venha o que vier. A primeira curiosidade é a de que as canções de "Born To Run" foram compostas por Springsteen ao piano, e não à guitarra. Talvez dito isto se perceba melhor algumas das opções de composições e arranjos do disco.
O disco começa com o que Springsteen chamou um convite, não só à Mary da letra, mas a todos os ouvintes. Um escape, um "vamos embora?", a ideia que tudo estará bem se sair de uma terra pequena e opressiva. Thunder Road transformou-se, por direito próprio, num hino rock intemporal. Um pouco ingénuo, como o é o tema-título, mas genuíno:
« (...) There were ghosts in the eyes Of all those boys you sent away They haunt this dusty beach road In the skeleton frames of burned out Chevrolets
They scream your name at night in the street Your graduation gown lies in rags at their feet And in the lonely cool before dawn You hear their engines roaring on But when you get to the porch They're gone on the wind, so Mary climb in It's a town full of losers And I'm pulling out of here to win»
E quantos Win Butler (Arcade Fire) cabem nestas estrofes?
A seguir vem o soul-funk de Tenth Avenue Freeze-Out. Springsteen estava a ter alguns problemas com a música, até que Steve Van Zandt apareceu no estúdio e fez os excelentes arranjos dos sopros que podemos ouvir. Steven Lento, aliás, Steve Van Zandt, aliás, Little Steven, aliás, Miami Steve, aliás, Silvio Dante ("Sopranos") entraria na E Street Band na digressão de "Born To Run", onde ainda hoje se mantém - saíu em 1985 e voltou com a re-fundação da banda na segunda metade dos 90's. Contribuiu também com vozes secundárias em Thunder Road.
Backstreets é outro dos emblemas do disco e da carreira de Springsteen. Épico, 'larger than life', lindíssimo. Conta a história da relação 'envergonhada' entre o narrador e a personagem Terry, forçados a esconder o seu amor, até que a relação tem o seu fim e a personagem Terry encontra outro homem, com quem acaba por se ir embora.
Backstreets, Bruce Springsteen & The E Street Band ao vivo no Hammersmith Odeon, Londres, 1975.
O segundo lado do disco começa com o tema-título, dando depois lugar ao rock com ritmo à John Lee Hooker de She's The One. A seguir temos a história dos preparativos para um encontro ilícito pela noite, um golpe que pode ser a única esperança para as desesperadas personagens da canção. Springsteen dispensa a E Street Band para ser acompanhado por um trio de músicos jazz (piano, baixo e trompete).
O grande final guarda-nos Jungleland. Ainda mais épica e cinematográfica que o resto do disco, a derradeira música de "Born To Run" é uma das melhores músicas de Springsteen. A introdução do violino e piano prepara o início da história de amor num contexto de violência de gangs dos subúrbios, a história de Rat e Barefoot Lady. Um dos momentos mais marcantes da canção é o solo de saxofone de Clarence Clemmons. No documentário "Wings For Wheels" que saiu com a edição especial do 30.º aniversário de "Born To Run", ficamos a saber que o solo é, afinal, da autoria de Bruce Springsteen, que conduz Clemmons do início ao fim do solo, quase nota por nota. Mais um exemplo de que "Born To Run" é mesmo uma poderosa criatura saída da imaginação prodigiosa de um miúdo de 25 anos.
O disco, beneficiando de uma campanha publicitária generosa da 'Columbia Records', acaba por explodir e levar Springsteen à capa da 'Time' e da 'Newsweek'. Era uma espécie de salvador do rock n' roll americano - depois das mortes de Hendrix e Joplin, do fim dos Beatles e dos desaparecimentos de Dylan (curiosamente, também é em 1975 que Dylan volta aos grandes discos, com "Blood On The Tracks") - como mais tarde se refeririam a Kurt Cobain e, mais recentemente, aos Arcade Fire.
Foi de parto muito difícil, "Born To Run". Springsteen começou a trabalhar para ele logo depois da saído do seu predecessor. Foi concedido a Bruce um orçamento mais 'compostinho' que os anteriores para o gravar. O próprio cantautor consciencializou-se que este disco era o seu grande momento definição: era a explosão ou a implosão, para um Springsteen ainda com os seus 24 anos. A pressão começou a instalar-se. O que nem foi anormal, se pensarmos na visão de Springsteen para o novo disco: 'Bob Dylan cantado por Roy Orbison com produção de Phil Spector' e a sua parede de som. Modesto, pois.
Durante o ano de 1974, Vini Lopez deixou o cargo de baterista, tendo sido substituído temporariamente por Ernest "Boom" Carter. Sancious viria também a deixar a banda, nesse ano. É ainda com a formação Springsteen-Clemmons-Tallent-Federici-Sancious-Carter que uma primeira versão (com uma mistura diferente) da canção Born To Run é gravada e entregue pelo seu manager Mike Appel à rádio, em Novembro 1974.
Carter e Sancious saem, entretanto, da banda, substituídos por dois membros que ainda hoje fazem parte da E Street Band: o 'Professor' Roy Bittan (piano) e Max Weinberg (bateria).
Born To Run (a canção) é um excelente mote para "Born To Run" (o disco).
O som é épico, partes múltiplas de composição, camadas múltiplas de som, uma letra romântica - do bom tipo de romantismo: aquela invencibilidade positiva e imortalidade sonhadora que só os vinte-e-poucos podem oferecer.
Só que a saída de Born To Run aumentou ainda mais as suas expectativas em torno do que daí adviria. O disco tinha de corresponder. Springsteen tinha muitas ideias e sons na sua cabeça e não os conseguia transmitir aos colegas de banda. Pela afinidade de referências musicais, Springsteen chamou Jon Landau, o crítico musical que, ainda em 1973, dizia ter visto o furo do rock em Bruce. Jon Landau nunca mais deixou Springsteen nem de produzir os seus discos, o que acumula com as funções de manager. "Born To Run" acaba por sair em Agosto de 1975.
Especial Bruce Springsteen #3 - "The Wild, The Innocent & The E Street Shuffle"
Ainda em 1973, no mês de Setembro, Springsteen lança o seu segundo disco, "The Wild, The Innocent & The E Street Shuffle". Para mim, um dos melhores do homem. Um disco de poucas, mas grandes músicas.
Para surpresa de muitos que possam não conhecer totalmente a discografia do homem, é um disco onde a 'música negra' (usemos esta denominação grossa para facilitar) tem um grande papel de destaque. Tem muito soul, muito R&B, muito funk. Acaba por se notar muito a influência do excelente pianista jazz David Sancious. Aliás, a banda - que aí ainda não se chamava oficialmente E Street Band - acaba por ficar com o nome da rua onde morava a mãe de Sancious, num dos bairros de New Jersey. Diga-se que Sancious acaba por brilhar um pouco por todo o disco, com especial destaque o solo de órgão de Kitty's Back ou a introdução de antologia New York City Serenade, que acaba o disco.
O feel do disco é muito 'ao vivo' e em algumas alturas os tons são muito jazzy, dando a sensação de termos apanhado algum ensaio gravado da banda. Os temas (7, ao todo) apresentam uma duração média a rondar os 6,5/7 minutos. A presença dos metais é incontornável e o sentimento funk/soul está presente em The E Street Shuffle ou Kitty's Back, enquanto que Rosalita (Come Out Tonight) é a autêntica festa rock n' roll.
Mas não é apenas disto que vive o disco, temos também a balada imortal com inspiração no Van Morrison de "Astral Weeks" (1968) - uma presença que paira sobre algumas partes do disco -, 4th Of July, Asbury Park (Sandy), ou a fabulosa 'folkalhada' de Wild Billy's Circus Story, onde a guitarra e harmónica de Springsteen (creio ser a única aparição da harmónica nos primeiros dois discos de Springsteen, o que também não deixa de ser surpreendente) se juntam ao acórdeão de Danny Federici e à tuba do baixista Garry Tallent para contar a história de uma cambada de personagens 'freak' de um circo em digressão. E temos tudo isto e mais outro tanto na música que acaba o disco, um 'tour de force' de dez minutos, New York City Serenade.
Liricamente, é um disco de histórias dos subúrbios e o rol de personagens, todas elas mais ou menos disfuncionais é impressionantemente extenso: Power Thirteen e sua senhora, Little Angel; a Sandy; Catlong, Kitty, Sally, Big Pretty and Jack Knife; um circo inteiro (o anão, a gorda 'Big Mama', trapezistas, o engolidor de fogo...); o 'Spannish Johnny' e a 'Puerto Rican' Jane; Rosalita e seus pais; Billy e 'Diamond' Jackie, entre outros.
Um belíssimo trabalho, portanto, bem aceite pela crítica, como o anterior, mas, igual que tal, com muito pouco sucesso comercial. Alguns temas serão, com certeza, uma surpresa para quem não conhecer bem a discografia de Springsteen.