Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

The Day After

Perdoem-me o post não ter sido publicado ontem, mas estava impossível reunir todos os dados em tempo útil. Antes de mais, este post será longo, muito longo... O posto começou a ser escrito esta manhã e continuado à tarde depois de uma pausa para almoçar com a princesa* no Mac do Chiado:p
A nível nacional, a taxa de participação é de 36,96% o que torna evidencia a forma como os portugueses olham para a política e em especial para o Parlamento Europeu. O país, em especial os políticos, devem entrar em profundo debate e reflexão sobre estes números. Uma democracia não é sustentável com estas percentagens de abstenção. Há que flexibilizar o sistema eleitoral, de forma que os deslocados - estudantes, militares, trabalhadores, etc - possam votar. Falei com muitos lisboetas que foram passar o fim-de-semana ao Algarve e muitos que ficaram por cá a trabalhar e não foram à terra votar. No século XXI, no século da mobilidade o voto não pode ser tão imobilizado. Alguns orgulham-se de termos a Assembleia da República mais 2.0, mas temos um sistema eleitoral da idade da pedra. As prioridades do investimento...
As sondagens falharam redondamente, não voltarei a olhar para elas com os mesmo olhos. O preço das sondagens deve estar em saldo e os que trabalham nelas devem repensar toda a forma de estudo. As sondagens nunca irão previr resultados, mas não podem errar desta forma, quiçá influenciando decisões de voto.
O PSD renasce em tempo recorde, fruto da dimensão que Rangel tomou. Paulo Rangel é hoje um nome incontornável da política no PSD e será sempre um nome para um hipotético governo ou sucessão a MFL. O PS perde em toda a frente. Sócrates fez bem a previsão, o eleitorado está à esquerda, mas falhou na solução. Vital Moreira não cativou votos à esquerda e perdeu à direita, foram os esforços da máquina socialista e a entrada em campanha de Sócrates que afastaram um cenário de completo naufrágio. A governação do país não será a mesma depois da noite de ontem.
Apesar da vitória do PSD, foi a esquerda quem venceu. BE e PCP acima dos 20% e com 3 e 2 deputados respectivamente. Muda por completo o mapa político nacional. O CDS/PP contra todas as previsões garante dois lugares e dá novo folgo a Portas, no entanto, apesar da euforia, não deixa de ser uma derrota: quinta força política. Ainda a nível nacional: o MEP na primeira vez que vai a votos consegue 1,48%; o outro estreante o MMS não convence e fica abaixo de 1%; foram 164 mil os votos brancos, um número elevado (a sexta força política) que merece reflexão.
Nos Açores...
A abstenção foi a verdadeira vencedora, apenas 21,7% dos açorianos foram votar. Uma democracia não é viável com uma abstenção a roçar nos 80%. São muitos os açorianos que como eu não poderiam de forma alguma votar, o sistema eleitoral não favorece os Açores - uma região de grande mobilidade, onde há sempre partidas e chegadas. Não consigo compreender como querem que os jovens se interessem por política se não têm possibilidade de exercer este direito.
PSD e PS foram os derrotados pela abstenção, o primeiro perde 4 mil votos e o segundo 12 mil votos (!). O PSD mesmo vencendo, não galgou eleitorado, ou seja, não estivemos perante avanços eleitorais, mas retrocessos. Muito provavelmente, estes números estão muito próximos dos núcleos duros de cada partido - o eleitorado base. Quem venceu estas eleições não foi quem convenceu eleitorado, quem foi mais além. Quem ganhou estas eleições foi quem consegui blindar-se melhor à abstenção e quem conseguiu menos erosão no seu partido. O PSD consegui-o com mérito
Ainda sobre a abstenção, nós açorianos andamos aqui meses a discutir lugares de açorianos ao PE, se ficavam em 5º ou em 6º. Andamos a exigir às estruturas partidárias nacionais lugares. Nem foram 50 mil os açorianos que votaram e colocamos dois representantes dos Açores no PE. A título de curiosidade, o último deputado a ser eleito para o PE, o 3º deputado do BE, consegue-o com 127274. Isto prova que os Açores além de não terem peso populacional suficiente para dois deputados no PE, ainda menos peso tem o número de votantes. Será muito difícil nas próximas eleições europeias os Açores terem candidatos próprios, não é com esta taxa de participação. O contributo do PSD/A e PS/A para a eleição do respectivo deputado açoriano é vergonhoso, o resultado dos Açores não ajuda nada na eleição da lista. Com estes números não temos nem peso, nem vontade de ter deputados açorianos no PE. Apontem o que escrevo, será muito difícil voltarmos a ter deputados açorianos no PE.
Última nota sobre a abstenção, os dois maiores partidos parecem-me que não estão preocupados em lutar este monstro. Nas regionais o PS desvalorizou a abstenção e gritou vitória, apesar de ter perdido votos e ter uma representatividade real diminuída. Nas regionais, o PSD falou de abstenção até que se fartou, para não falar em derrota. Ontem, os papeis inverteram-se: O PSD desvaloriza a abstenção e grita vitória. Os 40% de votos do PSD nem representam 9% dos inscritos! O PS agora parece mais preocupado com a abstenção, para não se falar em derrota. Estas percentagens de abstenção são da exclusiva responsabilidade de PSD e PS, em vez de reflectirem sobre estes dados preferem gritar vitória quando ganham e falam da abstenção apenas para esconder a derrota. Ainda está para surgir o político que mesmo vencendo as eleições, assuma a derrota devido à abstenção!
Deixando a abstenção, vamos aos vencedores: Uma vitória importante para o PSD e que promete reunir ainda mais tropas sob a liderança de Berta Cabral. Na primeira vitória da nova liderança não pode ser esquecido o nome de Maria do Céu Patrão Neves que conseguiu convencer o partido. Perde 4 mil votos relativamente às últimas europeias e tem uma mera representatividade de 9% dos açorianos. Se Berta Cabral por si só conseguia reunir apoiantes e tornar o PSD/A mais forte, agora tornou-se verdadeiramente perigosa.
O PS tem uma derrota esmagadora, vence apenas no Corvo e nos concelhos que vence é por margens tangenciais. Perde 12 mil votos relativamente às ultimas europeias (!!!), perde oito ilhas relativamente às regionais. A pergunta é simples: A derrota deve-se a Luís Paulo Alves ou a Vital? A grande quota de responsabilidade cabe a Vital Moreira, foi difícil aos socialistas açorianos fazer campanha e certamente que foi desconfortável. No entanto, isto não retira responsabilidades a Luís Paulo Alves que perde p.e. na sua ilha, o Faial por 400 votos. Reafirmo o endorsement deste blogue, continuo a achar que Luís Paulo Alves é o candidato melhor preparado para representar os Açores no Parlamento Europeu, o que falhou foi mobilizar uma máquina de apoio e transmitir a mensagem.
O CDS/PP mantêm uma marca interessante e mantem-se como a terceira força política regional. Contudo, o BE tem uma subida impressionante, mantendo-se a este ritmo tem fortes possibilidades de disputar o estatuto de 3ª. força política na região. Relativamente a 2004 triplica a sua votação. O BE foi o partido que venceu na medida que foi o que mais conseguiu galgar eleitorado - PSD; PS E CDS/PP viram o seu eleitorado fugir.
A seguir ao BE, eu gostaria de fazer referência à esmagadora quinta força política regional, que derrota os que ficaram atrás, mas também os que ficaram à frente. 2522 votos brancos! Estes votos representam claramente que não se inserem no panorama partidário regional, um cartão vermelho aos partidos regionais.
A CDU reafirma-se como quinto partido, parece indiscutível que não conseguirá disputar a quarta posição com o BE. Mais 600 votos do que em 2004, um bom resultado também. O MPT quase que triplica a sua votação, consegue 387 votos e é o primeiro dos pequenos. Um bom trabalho de Manuel Moniz. De seguida, uma surpresa completa para mim e a grande vitória moral para o MEP - 287 votos. Isto para um partido recém criado e sem candidato açoriano é um inicio prometedor.
O PCTP/MRPP consegue os 283 que conseguiu em 2004, muito curioso. O PPM outro dos grandes derrotados, Paulo Estévão não consegue melhor que o MEP e PCTP/MRPP - que não tinham candidatos açorianos. Apesar de ter lugar na ALRAA e de ser hoje uma figura regional não vai além da 9ª posição. Isto apesar de ter conseguido mais 30 votos que em 2004. Quanto aos restantes partidos nada a acresentar.
Para mais dados, podem encontrar via Zirigunfo um excelente quadro comparativo entre 2009 e 2004.

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