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Domingo, 23 de Maio de 2010

Os linces invadiram Lisboa!

É verdade, mas não se preocupem, que é só em lona e papel. Trata-se duma mostra de fotografia dedicada ao felino mais ameaçado do planeta, o lince ibérico, lynx pardina. Já só existem c. de duas dezenas deles e o fotógrafo espanhol Andoni Canela foi no seu encalço para nos oferecer este singular trabalho documentário e artístico.

Além do mais, a mostra está concebida dum modo simples e atraente: aproveita o acolhedor Jardim Botânico Tropical de Lisboa (por cima dos pastéis de Belém...) para aí colocar telas com grandes fotos nos relvados, ligadas entre si por sequências de patadas de lince pintadas com tinta branca nos caminhos... No fim do trilho chegamos ao edifício principal, no topo, agora reaberto justamente para encerrar esta exposição e para albergar uma outra, também muito interessante, sobre insectos dos países lusófonos.

A exposição dedicada ao lince abriu ao público ontem e encerra a 22/VII. O fotógrafo Canela recebeu o Prémio Godó de Fotojornalismo de 2009 (reportagem sobre o lobo-ibérico) e tem dezenas de reportagens nas revistas National Geographic, BBC Wildlife, Geo e Newsweek. Mais informações em «Terra de Linces».

Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

Um Nobel para os vírus transmitidos sexualmente, e outro para as proteínas fluorescentes

Como todos os anos o princípio de Outubro é a época dos Nobel. Os Nobel da Medicina e da Química deste ano merecem um comentário especial. O prémio da Medicina e Fisiologia foi mesmo para descobertas mais relevantes para a Medicina, do que para a Fisiologia/Biologia (fenómeno cada vez mais raro). Harald zur Hausen ganhou metade do prémio por ter descoberto que o Câncro do Colo do Útero é causado por um vírus. A ideia de que um câncro poderia ser causado por vírus era, à época, completamente contra todos os dogmas. Hoje existem vacinas contra este tipo de câncro, um dos que mais afecta as mulheres. Um Nobel bem merecido portanto. A outra metade do prémio foi partilhada por Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi por terem descoberto o vírus causador SIDA. Para além de ter sido, obviamente, uma descoberta fundamental para a compreensão da SIDA é também o resultado de uma das mais azedas competições na história recente da Ciência. O americano Robert Gallo descobriu também, de forma independente de Montagnier (consoante as versões) o mesmo vírus. Para os detractores de Gallo era literalmente o mesmo vírus. Gallo foi acusado de o isolar a partir de uma amostra produzida por Montagnier (ou seja, uma espécie de roubo). A contenda só foi resolvida com a intervenção dos presidentes americano e francês à época, Regan e Mitterand. E o vírus foi então baptizado HIV (Montagnier e Gallo tinham dado cada um um nome diferente). A não a atribuição do Nobel a Robert Gallo diz bem da opinião do comité Nobel, e seguramente da maioria da comunidade científica, sobre quem realmente descobriu o vírus da SIDA.

Já o prémio Nobel da Química deste ano foi para uma descoberta de uma enorme importância para a Biologia. Não é a primeira vez que o Nobel da Química vai para descobertas na área da Biologia, e faz sentido porque há determinadas descobertas que tanto podem ser consideradas como Biologia ou Bioquímica. Neste caso foi a proteína verde fluorescente (GFP - Green Fluorescente Protein), que é uma ferramenta utilizada quotidianamente por milhares de investigadores em Biologia, mas o seu estudo e desenvolvimento é essencialmente Bioquímico. A GFP permite por exemplo ver ao microscópio como um determinado componente da célula se comporta, mantendo essa célula viva. Há outras utilizações, mas esta é de longe a mais frequente. A escolha dos três galardoados é bastante interessante, e pedagógica, pelas diferentes contribuições de cada um deles. Osamu Shimomura recebeu o prémio por ter sido o primeiro investigador a isolar a GFP. Reparou que a medusa Aequorea victoria era fluorescente em determinadas circunstâncias, e percebeu que identificar o componente fluorescente podia ser interessante. Roger Y. Tsien recebeu o prémio pelo seu trabalho sobre a compreensão da "mecânica" própria GFP, como é que esta proteína fluoresce. Esse trabalho permitiu desenvolver, por engenharia genética, outras variantes da GFP. Finalmente Martin Chalfie recebe o prémio por ter desenvolvido ferramentas com utilidade prática na investigação utilizando a GFP. Chalfie, trabalhando com o nemátode C. elegans, criou bichos que expressam GFP, em especial nos neurónios, porque é o seu tema de investigação (ver aqui). Foi graças a esses trabalhos que filmes como este aqui em baixo se tornaram possíveis. Pode ver-se (para quem tiver um computador que suporte o Quick Time) a primeira divisão celular do embrião de C. elegans. O filme começa com a fertilização, vê-se os cromossomas maternos e paternos juntarem-se, e formarem um só núcleo. Depois dá-se a divisão propriamente dita, em que os cromossomas são repartidos igualmente pelas duas novas células que se formam. Vê-se também o fuso que divide os cromossomas entre as células. Tanto os cromossomas como o fuso são visíveis graças à GFP. O vídeo foi realizado no laboratório de Iain Mattaj



P.S. - Não percebo muito de Economia, mas parece que o Nobel foi atribuído a um confesso neo-Keynesiano. Essa também tem graça.

Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

Publicidade institucional: A Evolução de Darwin

E por falar em Darwin, em 2009 comemoram-se os 200 anos do nascimento de Charles Darwin, e por ventura mais relevante, os 150 anos da publicação de "A Origem das Espécies" (em que Darwin expõe a sua teoria da evolução). A Fundação Calouste Gulbenkian vai apresentar uma grande exposição sobre Darwin, a inaugurar a 12 de Fevereiro de 2009, dia do 200° aniversário do seu nascimento. Entretanto, enquanto se prepara a exposição, foi lançado um blog "de apoio" em que se vai escrevendo sobre Evolução, Darwin e Biologia. Passem por lá (e divulguem).

Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

As coisas que os cientistas descobrem

Um grupo de investigadores de Cleveland, Ohio, nos EUA, produziu uma estirpe ratinho transgénico com uma capacidade física fora do comum, conforme o artigo que publicaram a 9 de Novembro no Journal of Biological Chemistry (a imagem ao lado é a capa do número da respeitada revista científica em que o artigo foi publicado). O dito transgénico, como é normal, tem um nome esquisito: PEPCK-Cmus. O PEPCK-Cmus contém nos seus músculos níveis muito mais elevados do que o normal de uma enzima envolvida na produção do açucar glucose (a Fosfoenolpiruvato Carboxiquinase, ou PEPCK para os amigos). Neste caso essa produção de glucose é feita essencialmente transformando gordura em açucar, que depois pode ser utilizado como fonte de energia. O resultado é que os ratinhos PEPCK-Cmus tem uma actividade muito superior aos animais controlo (sete vezes mais activos), conseguem correr distâncias até 6km, quando os controlos correm 200m (ver o filme abaixo), comem 60% mais embora tenham metade da massa corporal e um décimo da gordura. Até aqui, embora a performance seja impresssionante, não é propriamente inesperado que aumentando a respiração celular nos músculos, devido à maior abundância de açucares, aumente a capacidade física. Bastante mais supreendente é a descoberta que estes transgénicos têm também uma longevidade bastante superior aos controlos. Até aqui toda a investigação em envelhecimento indica que quanto maior e mais intensa for a actividade, quanto mais calorias forem queimadas, mais rápido é o envelhecimento. Vai ser interessante ver as consequências destes resultados na estudo do envelhecimento. Outro aspecto surpreendente (ou nem tanto) é o sentido do humor dos investigadores, como se pode ver não só na capa da revista mas também no vídeo que foi colocado on-line juntamente com o artigo.


Domingo, 19 de Agosto de 2007

João Vário (1937-2007)

Faleceu a semana passada um dos maiores poetas cabo-verdianos de sempre, João Vário. De seu nome verdadeiro João Manuel Varela, nasceu na Cidade do Mindelo (S. Vicente) há 70 anos atrás, tendo estudado Medicina em Coimbra, Lisboa e Antuérpia, nesta última para se doutorar.
Radicou-se na Bélgica, onde desenvolveu uma bem sucedida carreira de investigador nas áreas da neuropatologia e neurobiologia, sendo sua a descoberta dum circuito cerebral ligado à formação do cancro (vd. síndrome de Varela). Após a jubilação, regressou ao seu Mindelo natal.
Embora com uma obra poética reconhecida por pares e críticos literários (José Luís Tavares diz mesmo que ele é o maior poeta cabo-verdiano de sempre), nunca teve muito eco, nem junto dos circuitos de reconhecimento simbólico nem junto do público.
A sua profícua produção está integrada nos seguintes livros:
Exemplos 1-9 (reunindo as obras Exemplo Geral, Exemplo Relativo, Exemplo Dúbio e Exemplo Próprio), O primeiro e o segundo livro de Notcha (com o seu outro pseudónimo Timóteo Tio Tiofe), Contos da Macaronésia e O estado impenitente da fragilidade.
Mais informação bio-bibliográfica e mais poemas do autor estão na memória de áfrica. Ficam aqui outros obituários: os de José Luís Tavares (que inclui um poema seu de homenagem), Alexandra Lucas Coelho, Rui Bebiano e José Francisco Viegas. Outro poema, «Canto Terceiro», de 1966, pode ser lido aqui. Imagem original daqui.
Aqui fica um excerto precioso do poema Canto Primeiro, do livro Exemplo coevo:
"E aqui tratamos de favores inclusivos e fados determinados.
Tal o poeta a língua deixa atravessada
no meio do caminho dos deuses
para que nela tropecem
e se fale de biografia. E de tal intensidade vivemos.
[...]
É um tempo de vastas corrupções e de grandes crises.
E as coisas aguardam a chegada da besta apocalíptica.
Era o limiar dessa guerra devastadora, segunda,
seu amargo prefácio, tal Guernica.
E nela jazíamos qual a semente
no seio da terra: como saber
se morrerá ou com que água
arrastará a imortalidade?"