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8 de Maio de 2010

Colheita Seleccionada - "Flags of Our Fathers/Letters From Iwo Jima"

O mundo seria bem mais compreensível se tudo fosse binário. Esquerda e direita, preto e branco ou dentro e fora são conceitos simples do dia-a-dia a que ninguém dá o devido valor. Quando se trata de pessoas, a simplicidade é impossível. quando passa para grupos ainda pior, e nações então nem vale o esforço de tentar compreender. A guerra normalmente é entre os bons e os maus, tal como num conto infantil. Essa divisão na realidade é apenas entre vencedores e vencidos. Quem ganha tinha a razão do seu lado, quem perdeu estava condenado a isso. Na verdade sabemos que não é exactamente assim, como se vai vendo nas constantes trocas de facção.

O cinema tem por objectivo entreter. O Cinema tem por objectivo cultivar. Quando se pretende falar dos feitos heróicos de uma nação através de um filme pode-se ser parcial (lembrem-se do que disse a propósito de "Casablanca"). Quando se quer falar do conflito a forma mais justa é do exterior tal como organizações médicas e jornalistas fazem, cumprindo uma missão mais importante do que a conquista de território ou ideiais. O cinema por vezes devia fazer o mesmo e evitar ser ferramenta de propaganda ou tomar partido.
Mostrar os dois lados não é fácil, especialmente quando um dos lados é americano. A indústria tende a ser facciosa e apoiar quem a financia, sejam produtores ou espectadores. Era preciso alguém superior a isso. Alguém de talento inquestionável e que ninguém ousasse contrariar. Se há um homem assim o seu nome é Eastwood, Clint Eastwood.

Sessenta anos depois do fim da guerra era seguro olhar para trás. Já todos os países tinham lidado com os seus fantasmas e poderiam rever o que se passou. Eastwood fez então esta magnífica obra, cada uma do ponto de vista de uns derrotados. Primeiro os americanos que se gabam com uma mentira. Depois os japoneses condenados a uma morte honrosa.
Na primeira parte conta como a vitória foi falsificada. Retira o mérito ao poderoso exército e mostra os homens que vivem com o peso da mentira. Uma perspectiva humana que não é habitual. Na segunda parte mostra o lado que não estamos acostumados a ver. Os japoneses estão destinados a perder um território, mas estão dispostos a lutar até ao último homem e morrer para tentar evitá-lo. E sim, falam em japonês.

Esqueçam as sequelas. Estes são filmes que se complementam. Tão diferentes, mas tão iguais. Dois magníficos filmes que no fundo são apenas um.

As críticas aos filmes separados já foi publicada há uns aninhos neste blog.
Letters From Iwo Jima
Flags Of Our Fathers

1 de Maio de 2010

"The Bridge on the River Kwai" por Nuno Reis


Um dos mais conceituados realizadores do cinema britânico tem apenas 17 filmes. Desses, um terço é muito falado, os outros são bons e são ignorados. Nos anos quarenta, a preto e branco, começou pelo cinema de propaganda militar, passando para a comédia assente na pacata vida familiar. De destacar que nessa época fez uma magnífica história de amor "Brief Encounter" e adaptou Dickens em "Great Expectations" e "Oliver Twist". Os filmes que se seguiram, tal como os primeiros da carreira, apesar de bons não têm sido devidamente divulgados. Quase dez anos depois começa um novo trio de filmes que não só entram para a restrita lista de clássicos, como ganham o epíteto de obras-primas. Tem "Lawrence of Arabia" e "Doctor Zhivago", ambos com Alec Guinness, mas antes de todos esses tem "The Bridge of the River Kwai".

Aqui Alec Guinness é o Coronel Nicholson, líder de um contingente britânico capturado pelos japoneses. No campo de prisioneiros o Coronel Saito informa-os que no dia seguinte irão ajudar a construir a ponte sobre o rio Kwai. Nicholson guia-se pela Convenção de Genebra para proteger o interesse dos seus homens, e pela honra britânica para cumprir a missão melhor do que os japoneses. Entretanto um grupo furtivo de ingleses e americanos aproxima-se para destruir a ponte, e todos os ocupantes do comboio inaugural.
Honra, loucura e obsessão. Nicholson é um homem que não se pode evitar admirar, respeitar e temer. O que ele diz tem de ser verdade, e os seus pedidos são ordens porque tudo nele é integridade e rectidão. Numa situação extrema ser correcto pode não ser a melhor forma de sobreviver. Os militares que se baldam ao serviço com baixas médicas compradas têm melhores hipóteses. No entanto Nicholson consegue manter a obediência dos seus homens e ganhar a confiança dos captores. Mas será que ainda sabe de que lado está a lutar?

É um filme com nos deixa presos do início ao fim. Vemos que a coragem em cenário de guerra não reside em matar ou morrer, mas em enfrentar todas as situações de cabeça erguida. A história acaba por ser dos elementos menos importantes no meio de todas as qualidades que tem. A destacar a edição de som deste a cena inicial, a direcção de actores e figurantes, a maravilhosa fotografia e realização, mesmo no meio da floresta e debaixo de chuva. Mais do que um filme, é uma experiência a ser vivida.

Título Original: "The Bridge on the River Kwai" (EUA, Reino Unido, 1957)
Realização: David Lean
Argumento: Carl Foreman e Michael Wilson (inspirados no livro de Pierre Boulle)
Intérpretes: Alec Guinness, William Holden, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa, James Donald
Fotografia: Jack Hildyard
Música: Malcolm Arnold
Género: Aventura, Drama, Guerra
Duração: 161 min.

30 de Abril de 2010

Colheita Seleccionada - "The Bridge On the River Kwai"


Este será o caso mais distinto de forma como um filme me conquistou. Alguns foram pela primeira situação/experiência, outros funcionaram ao primeiro visionamento, e este foi por insistência.
Em tempos idos quando o tempo livre era mais frequente e a televisão mais atraente, calhava passar finais de tarde ou fins-de-semana inteiros no modo zapping. O Canal Hollywood era onde frequentemente havia melhores coisas para ver. Um belo dia estava a passar por lá e reconheci a música. Era a marcha do Coronel Bogey. Claro que percebi qual era o filme, a música é inconfundível, mas não me apeteceu ver. Dias depois estava a dar novamente. Um dos defeitos - e vantagens - do canl é precisamente a repetição com que passa os filmes. Dessa vez vi outro pedaço e deixou-me confuso. Então o suposto herói é um preguiçoso? E o coronel inglês está do lado dos asiáticos? Algo estranho se passa! Decidi-me a vê-lo completo para procurar uma história com pés e cabeça. Não tardou muito até dar outra vez num horário em que conseguisse acompanhar por inteiro.

Se o filme tem um defeito é ser demasiado fiel à natureza humana. Os seus heróis são pessoas como nós. Não é por serem militares que gostam de lutar. Não é por serem escravos que vão fazer um mau trabalho. Não é por ser do interesse da pátria que vão destruir o seu maior motivo de orgulho. O Coronel Guinness, perdão, Nicholson, é inspirado num coronel real que fez precisamente o contrário. Também defendeu os seus homens até ao fim, mas atrasou ao máximo a construção da ponte sem os colocar em risco. Esta versão cinematográfica faz mais sentido. A prisão afecta a mente das pessoas, altera o comportamento, tolda o raciocínio. Tem menos mérito, mas ganha muita emoção.

Depois da primeira vez ainda vi mais algumas nas semanas seguintes. Rapidamente cheguei a uma fase em que neste canal queria ver apenas este filme ou o outro do costume. Quando estamos desejosos de ver sempre o mesmo há três situações possíveis: a) a programação é miserável; b) estamos a enlouquecer; c) o filme é muito bom. E sinceramente espero que seja o último porque a programação não era má.

24 de Abril de 2010

"La Vita è Bella" por Nuno Reis


Raros são os anos em que a Academia Americana reconhece haver filmes de qualidade noutra língua e os nomea em categorias menos marginais que documentário, curta-metragem ou a inevitável de filme em língua não-inglesa. Se houve um ano excepcional para isso foi 1999 em que "Central do Brasil" nomeou Fernanda Montenegro e um filme italiano foi nomeado um total de sete vezes, incluindo melhor filme, realizador, argumento e actor, a que se juntaram edição e música. Claro que ambos competiam ainda na secção de língua não-inglesa.
O arrasador candidato italiano era "La Vita É Bella" e saiu com três troféus dessa cerimónia para juntar aos imensos prémios conseguidos por toda a Europa (Cannes, BAFTA, César, Goya,...) por vários anos.

Guido é alegre e criativo. A caminho do tio para começar a trabalhar como empregado do restaurante, conhece Dora, uma maravilhosa mulher que lhe cai do céu. Após uma longa corte onde utilizará toda a imaginação e a sorte lhe é extremamente favorável, casam, têm um filho e são felizes para sempre. Só que o sempre é relativo. Com a chegada dos fascistas ao poder todos os judeus como Guido, o filho e o tio são levados para um campo de concentração. Cumprindo os deveres de pai como poucos conseguiriam transformará o maior pesadelo da Humanidade numa brincadeira de crianças para manter o filho animado. Reutiliza a imaginação e a sorte e mais uma vez é abençoado, pois entre os funcionários do campo está o doutor Lessing, seu velho conhecido e amante de adivinhas que se esforçará por lhe conseguir um tratamento especial.

É um filme extremamente cruel por nos amolecer o coração para depois o agredir. Mostra o impacto de acontecimentos globais em pessoas reais e mostra o poder do indivíduo nos que o rodeiam. Roberto Benigni marcou aqui o seu lugar no cinema com um argumento mágico, uma interpretação inesquecível e um humor sempre no tempo e magnificamente expressado nos gestos e nas palavras. Consegue fazer rir com gosto nas mais variadas situações. Pode-lhe faltar plausibilidade, mas a magia do cinema é que não tem de ser real desde que não o pretenda ser. É um daqueles casos em que o cinema só é suposto ser magia e fantasia.
Um homem pode fazer a diferença. A vida é bela, desde que olhemos da forma correcta. O final é americanizado, mas nem isso consegue estragar um filme perfeito.

Título Original: "La Vita è Bella" (Itália, 1997)
Realização: Roberto Benigni
Argumento: Roberto Benigni, Vincenzo Cerami
Intérpretes: Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Giorgio Cantarini
Fotografia: Tonino Delli Colli
Música: Nicola Piovani
Género: Comédia, Drama, Guerra
Duração: 116 min.
Sítio Oficial: http://www.miramax.com/lifeisbeautiful/

23 de Abril de 2010

Colheita Seleccionada - "La Vita è Bella"

Explicando da forma mais simples possível quem tiver coração não fica indiferente a este filme.

Estamos perante novo exemplo de uma perfeita combinação entre comédia, romance, drama e guerra. Por um lado o palhaço Guido cativa espectadores de todos os tipos. Entre o humor fácil físico, a troca de adivinhas inteligentes e a repetição até ao limite de situações bastante engraçadas faz com que o arranque do filme seja memorável. É uma época em que tudo corre bem. Depois quando Dora e Guido loucos de amor acham que serão felizes para sempre... chega o fascismo. Capaz das maiores atrocidades, uma das piores coisas que fez foi separar famílias. Guido e o pequeno Giosué são levados para um campo de concentração onde a morte é a única certeza. Aí começa a parte mais marcante do filme. O amor de pai vai tornar o nosso herói num super-herói que, entre muita criatividade, sorte e ajuda dos companheiros de cativeiro vai conseguir o impossível: os mil pontos.
Se o comentário final não fez sentido o primeiro passo é ir ver o filme. "Buon giorno, Principessa!" e "Mille punti!" são daquelas frases que ninguém esquecerá. A primeira por simbolizar a simplicidade, espontaneidade, a paixão e a joi de vivre do protagonista. A segunda por libertar todo um mundo de fantasia no local mais negro da história da Humanidade. Se não fosse por momentos como esse nem pertenceria a essa História pois esta era a única réstia de Humanidade num autêntico inferno (que muitos tentaram convenientemente apagar da memória colectiva).

Dora é uma heroína normalmente esquecida nos textos sobre o filme. Combate a ignorância diariamente. Quando o confronto chega ao seu lar embarca sozinha num combate mortal que não era seu, ou podia não ser. Depois claro, temos Guido. Homem apaixonado e pai dedicado, capaz de brincar com o opressor, de fazer amizades com o inimigo, de sorrir perante a morte. Não será um exemplo a seguir? O problema é que esta personagem é demasiado perfeita para ser real. Finalmente o pequeno Giosué representa a inocência, aquilo que mais faltava entre as vítimas. É a única criança a escapar ilesa tanto fisica como psicologicamente dos campos. Infelizmente isso prova que também ele é pura ficção...
Enquanto os adultos podem e devem ser exemplos a seguir, o pequeno deve ser recordado como esperança. Há sempre alguém por quem vale a pena lutar, mesmo que seja impossível vencer.

Anos depois Benigni reutilizaria a receita pouco adaptada para a Guerra do Golfo, em "La Tigre e La Neve". Volta a funcionar, sem que aproveite a componente guerra, mas dando um enorme foco ao Amor.

17 de Abril de 2010

"Casablanca" por Nuno Reis


Rick: I remember every detail. The Germans wore gray, you wore blue.
(excluindo as dez frases que todos conhecem de cor, esta é a minha predilecta)

"Casablanca" é o clássico dos Clássicos, daqueles com direito a maiúscula. Antigamente cada estúdio lançava com sorte um filme por mês e a preocupação principal não estava nos efeitos especiais, ou no 3D, mas sim na história. Havendo poucos títulos por onde escolher, o lucro só era feito levando as pessoas a rever o filme. Se agradasse podia ficar em exibição por meses como uma encenação teatral. Desagradando, as salas passariam para outro. Nessa época os filmes eram feitos com a intenção de render, mas também de durar.

Naquela época em que a Europa era controlada pelos alemães, a única esperança de chegar á terra da liberdade era passando pelo norte de África, de Casablanca voar para Lisboa e aí atravessar o Atlântico. Rick é um americano. Já esteve na Europa, não gostam dele nos EUA por isso está na incontornável Casablanca a assistir à passagem de pessoas. O seu café é o local da moda por onde todos passam. Desde o casino para os aventureiros, ao mercado negro de livres-trânsitos para os desesperados, é lá que o dinheiro circula. Até que um dia recebe a visita de um lider revolucionário e da mulher mais bonita que alguma vez esteve em Casablanca. Conseguirá Rick permanecer neutro quando tem o destino do mundo numa das suas mesas ou deixará a neutralidade para os suíços?

Enquanto a Europa vivia uma guerra, os EUA acompanhavam o desenrolar dos acontecimentos com preocupação. Era preciso moralizar toda a nação para um confronto que no final de 1941 se tinha alargado para mais um continente. Mostrar-lhes que o que se passava em Paris e em África também dizia respeito aos americanos. O símbolo desse povo é ninguém mais do que Humphrey Bogart. Não era um galã como o cinema estava habituado, até era mais frequente ser o vilão. Tinha acabado de fazer filmes como "High Sierra", "The Maltese Falcon" e "The Big Shot". Ainda não tinha feito "The Big Sleep", "The Treasure of the Sierra Madre", "The African Queen" (o seu Oscar) nem "Sabrina". Mas em 1942 Bogart tinha um encontro com o destino em "Casablanca". Seria o anti-herói que conquistaria voluntários para a causa. O sonho de Rick era lutar pelos fracos e oprimidos. Não era pelo dinheiro nem pela vitória, apenas porque era o correcto a fazer. A missão dele era proteger os europeus. Desde a bela e corajosa norueguesa (actriz sueca) ao destemido revolucionário checo (actor húngaro), a Europa precisava de ajuda. Os franceses são apresentados como uns traidores a soldo dos alemães que, claro, são os maus da fita. Portugal é brevemente referido porque Lisboa era o último ponto de uma rota clandestina para o abrigo seguro. É importante repetir o ano porque o filme foi feito sem se conhecer o desfecho da guerra. Estávamos em 1942 e a América fez uma incrível análise em tempo real do cenário bélico. Era um tudo ou nada da indústria cinematográfica e daqueles filmes que, mesmo havendo outro desfecho para o confronto, seriam sempre recordados como uma curiosidade.

Uma guerra que estava no pensamento de todos foi o suficiente para cativar os espectadores de então. Passaram quase setenta anos e continua a ser visto. É o humor refinado, é o patriotismo, é o Amor, é o sentido de dever. É o Sam a tocar "As Time Goes By", a fenomenal cena do hino e o clímax no aeroporto. É uma panóplia de frases que se repete por tudo e por nada porque há uma para cada situação. Na vida há poucas coisas garantidas, mas, aqui perdoem-me por usar inglês, No matter what the future brings... we'll always have "Casablanca".

Título Original: "Casablanca" (EUA, 1942)
Realização: Michael Curtiz
Argumento: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch (inspirados na peça de Murray Burnett e Joan Alison)
Intérpretes: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Peter Lorre
Fotografia: Arthur Edeson
Música: Max Steiner
Género: Drama, Guerra, Romance
Duração: 102 min.

16 de Abril de 2010

Colheita Seleccionada - "Casablanca"


Como é costume nos textos de opinião no "Colheita Seleccionada" vou dizer o porquê de este ser um dos meus filmes fundamentais. Por ser o mais antigo é provavelmente aquele que menos gente viu. No entanto imagino que tenham ouvido falar e saibam do que trata, talvez saibam falas e cenas de cor mesmo sem saber que é deste filme. Sim, vou escrever uns spoilers que, como em todos os grandes filmes, não faz mal saberem. Perdoem-me se estão demasiado curiosos para esperar e isto vos vai estragar a surpresa, mas é inadmissível que ainda não tenham visto. Quando eu vi o filme sabia como ia acabar e não gostei menos por isso. Aliás, acabei e fui rebobinar para ver novamente. Se alguém tiver problemas com isso não leia antes de ver. Vão ver o filme para saberem a história toda e agradeçam-me quando voltarem aqui para ler.

Quando o vi sabia com o que contar. O que me interessava era ver Peter Lorre num filme "normal" e acabei como todos os outros rendido à intriga em reuniões secretas, ao romance impossível, ao humor contagiante numa época em que era difícil rir. Admirador dos heróis, fascinado pela heroína, citando frases a propósito de tudo e de nada. Foi daqueles casos em que o filme fez tudo o que era suposto, mesmo 60 anos depois. Apela à razão e à emoção e, pelos ideais dos anos 40, dá um magnífico festim para os olhos, ouvidos e mente. Os diálogos de Rick, Ugarte, Ferrari e Renault (dois carros, coincidência?) são de tal sagacidade que nunca deixam de parecer espontâneos.

Como devem ter reparado pela minha lista não sou facilmente convencido por filmes de um género só. Para ser um dos meus favoritos tem de entrar por vários géneros e ser superior em todos eles. "Casablanca" é dos exemplos mais felizes de cruzamento de géneros. A guerra é um mero tema de fundo não chegando a marcar de forma severa a narrativa. Cria tensão e concentra a acção em Casablanca, mas tem pouquíssima violência. É um filme de espionagem onde cada um tem em si mesmo um agente com poder para mudar o mundo. O equilíbrio entre drama, romance e comédia ligeira torna o que supostamente seria mera campanha militar num filme brilhante.

Em tempos ouvi dizer que todos querem ver filmes com finais felizes, mas são os tristes que ficam para sempre na memória. Em "Casablanca" há três finais num só. Temos o feliz representado pelo casal. Temos o triste na despedida. Temos o motivador com a partida do herói solitário para nova missão. Como pode algo assim ser esquecido? Recomendo que após verem, reverem e absorverem o filme, leiam o guião. É a única forma de compreender a verdadeira grandeza do filme por trás de todo o fascínio. E depois disso, vejam novamente.

10 de Abril de 2010

"The Lion King" por Nuno Reis

O renascimento dos estúdios Disney ocorrido no final dos anos 80 em obras eternas como "Little Mermaid" (1989), "The Beauty and the Beast" (1991) e "Aladdin" (1992), culminou com "The Lion King". Nos anos seguintes outras animações como "Pocahontas" (1995), "Hercules" (1997) e "Mulan" (1998) foram mantendo a reputação acima da concorrência durante o período de transição. A Pixar arrancou em 1995 e a animação Disney foi quase ignorada, até fechada... até voltarem este ano à animação manual e ao sucesso. Falemos então do filme rei.

Simba é um jovem leão que tem como destino herdar o trono. A sua infância é passada na brincadeira com Nala por entre os animais do reino. Mas o seu tio maléfico vai conseguir matar o rei e enviar Simba para o exílio. Ajudado por uma dupla única consegue sobreviver, esquecendo a sua origem e lugar na cadeia alimentar. Até ao dia em que o seu reino precisa de um herói...

As animações Disney construíram uma tradição assente nas fábulas infantis de sempre. Mas Branca de Neve (Grimm, Alemanha), Alice (Carroll, Inglaterra) e Cinderela (Perrault, França) entre muitas outras, são histórias pensadas para o mundo ocidental. Nesta nova série começaram a ser adoptadas personagens claramente diferentes. Uma sereia (Andersen, Dinamarca) ou a bela refém de um monstro (Beaumont, França) continuam a obedecer a esse princípio, mas um ladrão árabe, uma princesa índia e uma guerreira chinesa são a representação de uma perspectiva global, de uma empresa que quer o mundo. Com o Rei Leão marcaram uma posição no continente africano, ainda que sem humanos. A ligação europeia está presente - é levemente inspirado em Hamlet - mas o conto atingiu um patamar que atravessa todas as fronteiras.

A produção conta com as características habituais do estúdio: as crianças ficam viciadas, os adultos adoram, as músicas são fabulosas. Só que neste filme a Disney supera tudo o que foi feito até à data. Eram os melhores, e transcenderam-se. Fizeram um filme como nunca antes nem nunca depois conseguiram. Este é o maior e o último dos clássicos da animação manual.

Título Original: "The Lion King" (EUA, 1994)
Realização: Roger Allers, Rob Minkoff
Argumento: Irene Mecchi, Jonathan Roberts, Linda Woolverton
Intérpretes (vozes): Matthew Broderick, Jeremy Irons. James Earl Jones, Moira Kelly, Nathan Lane, Ernie Sabella, Rowan Atkinson, Whoopi Goldberg
Fotografia: Brian Chavanne
Música: Hans Zimmer
Género: Animação, Aventura, Comédia, Família, Musical
Duração: 89 min.

9 de Abril de 2010

Colheita Seleccionada - "The Lion King"

Por ser uma espécie de meu segundo "primeiro filme" escolhi "The Lion King" para encerrar a primeira metade da DVDteca. Considerando a artimanha de ter colocado 13 filmes na lista este é o do meio e justifica a posição central por ter sido o filme que me relançou para o mundo cinéfilo. Se "The Goonies" me apresentou ao Fantas numa relação que dura há vinte e cinco anos, "The Lion King" apresentou-me ao resto, há mais de quinze anos.

Tive uma infância com muitos filmes adequados ao escalão etário. Por ser pequeno ou ter irmãos pequenos as idas ao cinema "normal" eram raras, mas tinha cassetes com tudo o que uma criança podia querer. Os clássicos Disney, Don Bluth, Turma da Mônica faziam parte de uma colecção que no armário parecia interminável, mas que no dia-a-dia se resumia à mesma dúzia de filmes. Esses nem saíam da sala. De tantas vezes que eram vistos ter a casa arrumada não valia o esforço. Até que um dia...

... fui ao cinema (espero que o blog me perdoe o roubo do nome). Fui ao cinema como as pessoas normais vão. Não era um festival, não era uma antestreia, era de uma forma nova em que se compra bilhete e se vê um filme. Não me lembrava de alguma vez ter ficado numa fila. Tinha talvez doze anos e ia ver uma animação por causa dos meus irmãos. Achava-me crescido para aquilo, queria ver filmes maiores de doze, mas ainda não tinha autonomia para escolher.

O filme em questão fez-me mudar de ideias. Não era o facto de ser uma animação que o tornava um filme menor. As aventuras de Simba e amigos tinham acção, tinham alegria, tinham combates ferozes, tinham romance... e tinham Hakuna Matata. Era desconcertante ver um suricata a comer insectos à pazada, era deliciosamente escandaloso um javali flatulento e era um espectáculo visual ver números musicais com uma avestruz aos ombros de antílopes, que por sua vez estão aos ombros de papa-formigas, que por sua vez estão aos ombros de girafas, que por sua vez estão aos ombros de hipopótamos, que, finalmente, estão aos ombros de elefantes. E dessas brincadeiras de criança passa-se para um mundo de irresponsabilidade típico da juventude, que termina quando o dever chama e é preciso assumir a herança cultural. A missão de vida está cumprida quando se gera descendência para fazer o mesmo num ciclo sem fim. Este é o círculo da vida que referem na abertura. E o filme termina muito justamente com o fechar do ciclo.

E foi com esta história que fiquei desgraçado (entenda-se como desgraça ir ao cinema durante todo o ano e não apenas no Fantas).

É um filme fenomenal que ninguém deve perder. Fez-me esquecer toda a animação anterior e reconhecer o género como uma classe de cinema que nada deve ao de imagem real. A provar isso, dias depois chegou "The Nightmare Before Christmas", a outra animação que faz parte dos grandes filmes da minha vida. Não entrou para o top 10 da DVDteca, mas num top 25 estaria merecida e confortavelmente.

3 de Abril de 2010

"Moulin Rouge!" por Nuno Reis


Toulouse-Lautrec: Christian, you may see me only as a drunken, vice-ridden gnome whose friends are just pimps and girls from the brothels. But I know about art and love, if only because I long for it with every fiber of my being.

O Amor é como oxigénio. O Amor é esplendoroso. o Amor eleva-nos até onde pertencemos. Tudo o que precisamos é Amor. Caso não tenha sido suficientemente claro este filme trata exclusivamente de um tema e esse tema é o Amor. Final do século XIX. Paris é o centro do mundo e o Moulin Rouge é o coração de Paris. É aqui que Zidler controla as suas deslumbrantes mulheres a que nenhum homem resiste. A mais bela delas todas e rainha do espectáculo é Satine, uma arma infalível que ele pretende usar para convencer um Duque a investir na mais grandiosa produção teatral da História. "Spectacular, Spectacular" é o título e Toulouse-Lautrec o seu coordenador. Só que desde o argumentista que desistiu ao actor principal que desmaia, nada lhe corre de feição. Até que Christian aparece. O jovem inglês vai adaptar o conto insosso da freira que canta nos Alpes para uma magnífica história de amor que se desenrola na Índia. Satine convence o Duque a investir, Satine inspira o escritor a escrever, Satine protagonizará a peça, mas quem ajudará a pobre Satine?

Um jovem que nunca esteve apaixonado e quer escrever sobre o Amor. Uma mulher que sempre vendeu o seu amor e recusa a ideia de dá-lo. Uma geração que proclama ideais boémios como verdade, beleza, liberdade e amor. Um elefante. Um duque. Um gerente implacável. Dezenas de músicas, uma centena de bailarinos. Espectáculos de luz, cor e som. Tantos ingredientes perigosos que foram aqui misturados e incrivelmente saíram bem. Em "Moulin Rouge!" há uma história dentro dela própria, em ambos os casos contada através de músicas já existentes. As referências a "The Sound of Music" são um ponto de partida tão bom como qualquer outro. O filme ganha uma identidade própria imediatamente. Seja um original de Bowie, Sting, Elton John, dos Beatles ou dos Queen, interpretado por Rufus Wainwright, Kylie Minogue, Beck, Plácido Domingo ou Bono, está no momento certo do filme. Por vezes tocam mais de duas músicas em simultâneo, a única sensação que causa é de movimento e agitação, nunca de confusão.

É uma magnífica produção, ousada na realização, exigente no conteúdo musical, com uma conhecida história de amor tão envolta em artifícios que fica irreconhecível. Foi novo, ousado, o renascer o género musical tão depressa copiado por outros que enjoou. Deve ser visto com concentração pois há mudanças rápidas de cena de forma a que o secundário nunca distraia do principal. É um marco no cinema que merece, obriga a ver em ecrã gigante para ser apreciado em condições de tanta riqueza visual.

Título Original: "Moulin Rouge!" (Austrália, EUA, 2001)
Realização: Baz Luhrmann
Argumento: Craig Pearce e Baz Luhrmann
Intérpretes: Nicole Kidman, Ewan McGregor, Jim Broadbent, Rochard Roxburgh, John Leguizamo
Fotografia: Donald McAlpine
Música: Craig Armstrong
Género: Comédia,Drama,Musical,Romance
Duração: 127 min.
Sítio Oficial: http://www.clubmoulinrouge.com/

2 de Abril de 2010

Colheita Seleccionada - "Moulin Rouge!"


No distante ano de 2001 ir a antestreias era algo muito frequente para mim. Não era como agora que tenho participar em dez passatempos para conseguir convite para um filme medíocre. Semanalmente havia pelo menos uma interessante para ir ver e por isso ganhei o saudável hábito de passar as noites de Quintas-feira no cinema. Sim, nessa época as estreias ainda eram à Sexta.
Normalmente ia com o Ricardo, companheiro de cinema desde o dia dos meus quinze anos, mas nesse dia ele não podia e então fui sozinho para o Central Shopping, o maior cinema da cidade (acreditem ou não, em tempos houve um multiplex no centro do Porto). Cheguei já o filme tinha começado (ia nos 4:30) e perdi parte do contexto, mas o que vi bastou para me seduzir. Duas horas passaram e entretanto fui bombardeado por som, cor, alegria, desespero, movimento e Amor... Aí vim a descobrir que era um romântico incurável e um filme só precisava desse ingrediente na dose certa para me agradar.

Na altura não era fã de música. Com a dose incrível de músicas que aqui eram interpretadas tornei-me ouvinte. Nesse mesmo Natal recebi a banda sonora e posso dizer que no ano de 2002 ouvia-a pelo menos cinco vezes por semana e a média deve ter dado uma audição por cada dia do ano. Até hoje só em casa ouvi umas 500 vezes, no carro mais largas dezenas, e o CD ainda dura. É de muito bom fabrico.

Em 2001 não havia musicais. Só conhecia o género por filmes com 40 anos e de repente estava a assistir a um musical dentro de um musical. Espectacular. Devo ter gostado porque uma semana depois estava a ir ver novamente. Sempre que alguém dizia que ia ver "Moulin Rouge!" lá ia eu também. Foi o filme que vi mais vezes em cinema fora dos festivais.

Foi a partir desse ano que deixei de acreditar nos Oscares. Como podia algo ser melhor do que isto em realização, interpretação, fotografia... mesmo que Ewan McGregor não fosse um actor excepcional algum dos secundários devia ter sido nomeado. Não fosse Jim Broadbent ganhar por outro filme e eu ficaria muito chateado. Quanto a Nicole Kidman não precisou de mais nada para conquistar um lugar de eleição entre as minhas actrizes predilectas.

Tornei-me fã de Luhrmann. Antes tinha visto "Romeo + Juliet" por causa da Claire Danes e surpreendeu-me com a metafórica junção de épocas, mas agora tinha-me conquistado de vez. Depois vi Strictly Ballroom" e foi daqueles que não quis rever por me ter parecido tão perfeito. Finalmente comprei o DVD e voltei a ver "Moulin Rouge!", muitas e muitas vezes...

Não foi só o meu mundo que mudou com este filme. Zidler diz "Yes we can cancan" e essa frase há menos de dois anos mudou o planeta.

27 de Março de 2010

"Forrest Gump" por Nuno Reis


Forrest Gump: From that day on, if I was ever going somewhere, I was running!
(Queriam as citações que todos sabem de cor? Assim não aprendiam nada de novo! Reparem como é parecida com a que foi publicada no último sábado.)

Como tenho vindo a dizer na última semana, Robert Zemeckis nos anos oitenta esteve em grande. Era um blockbuster atrás doutro e com Oscares à mistura. Tinha sucesso perante o público e a crítica, com a vantagem de se divertir bastante a fazer os filmes. Mas chegava de cinema fantástico, estava na hora de entrar para o cinema convencional e também aí dar cartas. Vencedor de seis Oscares "Forrest Gump" foi o único filme do realizador na década que não pode ser considerado fantástico. No entanto, não falta quem o ache o mais fantástico.

Forrest Gump é especial. Percebe-se desde o primeiro momento que é diferente, e ele conta-nos porquê. Sentado numa paragem à espera do autocarro, vai contando aos transeuntes a história da sua vida. Ao princípio ainda o tentam ignorar, mas a história torna-se viciante e há mesmo quem prefira perder o autocarro a deixar a narrativa a meio. Desde a infância que teve problemas físicos e inferioridade mental. É com uma enorme sorte para escolher as companhias que se vai tornar mais do que um simples alguém, torna-se um herói nacional. Um concentrado da história americana na segunda metade do século XX prova que um homem pode fazer a diferença, desde que não saiba o que é falhar. Se lhe dão ordens cumpre-as. Se não lhas dão faz o que acha que deve ser feito, como deve ser feito. Isso é válido no desporto, no exército, no trabalho e na vida. Forrest é um exemplo que deveria ser seguido por todos.

Nas performances claro que o destaque vai para Tom Hanks que aqui conquistou o segundo Oscar consecutivo, a primeira pessoa na história da Academia a atingir tal feito desde Spencer Tracy nos anos 30. Já o tínhamos visto em grandes papéis, e muitos outros se seguiram, mas este é incontornável.
Robin Wright está deslumbrante. A sua Jenny nunca teve a vida facilitada, raramente se sentiu feliz ou integrada, e acaba por servir como reverso de Forrest acumulando todos os vícios e defeitos, mas mantendo alguma pureza de sentimentos.
Há uma outra amizade prolongada que o nosso herói forma. É um pouco tempestuosa ao início, mas o Tenente Dan torna-se o amigo mais duradouro que ele cria. Gary Sinise e os efeitos especiais complementam-se.
E finalmente temos a fenomenal Sally Field a confirmar aqui porque é talvez a maior actriz da sua geração. Seja com 30 ou 60 anos, a personagem é arrebatadora. Se por trás de cada grande homem há uma grande mulher, para Forrest essa mulher é a mãe. A senhora Gump é a principal heroína do filme pois tudo fez pelo seu pequeno. Deu-lhe valores morais, conseguiu-lhe a melhor educação, tornou-o o grande homem que vamos conhecer e por isso merece toda a admiração.
No final ainda dá para ver um miúdo que anos depois saltará para a ribalta. É impossível não reconhecer.

Em "Forrest Gump" combinam-se géneros com tal mestria que se dirige para quase todos os públicos. É um drama, uma comédia, um romance e um filme de guerra e não é nenhum deles. Tem uma mensagem política que atravessa fenómenos como a guerra do Vietname e os inúmeros soldados mortos ou incapacitados, o escândalo Watergate e a tendência americana para abater a tiro os seus presidentes. Tem uma mensagem para os eternos apaixonados continuarem a acreditar. E tem uma mensagem de apoio para os que se sentem desfavorecidos por motivos a que são alheios como a genética, o meio envolvente, um acidente ou a educação.
Tão bem feito que quando acaba se quer rever muitas mais vezes e não se repara que passaram mais de duas horas. Não é possível fazer um filme mais sensível ou completo.

Título Original: "Forrest Gump" (EUA, 1994)
Realização: Robert Zemeckis
Argumento: Eric Roth (baseado no livro de Winston Groom)
Intérpretes: Tom Hanks, Gary Sinise, Robin Wright, Sally Field
Fotografia: Don Burgess
Música: Alan Silvestri
Género: Acção,Comédia,Desporto,Drama,Guerra,Romance
Duração: 142 min.

26 de Março de 2010

Colheita Seleccionada - "Forrest Gump"


Para manter o tema anterior do Colheita Seleccionada, aqui vai outro pelas mãos do meu então favorito Robert Zemeckis.

Disseram-me que era um filme magnífico. Essa conversa ouvi por muitas vezes, mas desta vez era verdade. Esta fábula traz-nos uma das maiores lições de vida que se pode ambicionar receber.

Forrest é cruel pois faz com que o adoremos, para logo depois isso nos fazer sofrer. Quanto a vida dele corre bem, o destino traz algo de terrível para compensar. Quis o destino bafejá-lo com talento para vários ofícios e sorte nas suas decisões. Compensou tirando à inteligência, mas até isso é uma virtude pois permite-lhe ser feliz num mundo que, quanto mais pensarmos, mais nos desilude.

A santa ignorância faz com que não perceba a importância do que se passa à sua volta. Não é que isso interesse. Ganhou alguns prémios quando o acharam merecedor, ganhou dinheiro em todas as outras situações. O nosso herói tem um coração puro como poucos, é honesto, obediente e um trabalhador dedicado. Quando faz um amigo é para a vida, mesmo que a outra pessoa não mereça. Veja-se o exemplo flagrante da sua Jenny, amiga desde sempre que cometeu tantos erros e a quem ele sempre perdoou tudo. Foram ambos mais felizes assim. Uma zanga não faria Jenny mudar mais depressa do que a desilusão estampada no rosto de Forrest. Por isso talvez devamos por vezes também parar para pensar, reflectir as nossas atitudes e comportamentos. Quantas das chatices nas nossas vidas são causadas por não sabermos simplesmente ignorar?

De acordo com o filme o homem teve impacto no mundo. Sei que o filme teve impacto na minha vida por isso sim, o mundo é um lugar diferente e pelo menos para mim e os que me rodeiam é melhor.

EXTRA: A quem vai ver o filme não peço isto, mas se forem rever... reparem como ele cumpre as três leis da robótica.

22 de Março de 2010

"Back to the Future: Part III" por Nuno Reis



Doc: Marty, we all have to make decisions that affect the course of our lives. You've gotta do what you've gotta do. And I've gotta do what I've gotta do.

Cinco anos depois do início da saga, eis que chega o último capítulo. O segundo filme deixou-nos na expectativa, não só pelo final, como pelo trailer que anunciava esta conclusão. Irá Marty voltar ao seu tempo e aos braços de Jennifer? E qual o futuro do Doc? Questões que apenas agora serão respondidas.

Marty é um jovem de 1985 preso no ano de 1955. Tudo o que este jovem tem é uma carta escrita um século antes de nascer e um cientista que acabou de mandar uma máquina do tempo para o futuro com ele dentro. Preso numa era que não tem nada novo para ele, e sem o DeLorean, parece estar irremediavelmente condenado. Mas uma coisa que nós já aprendemos é que nada, ninguém e nenhuma época é capaz de impedir Marty McFly de atingir o seu objectivo: um futuro com Jennifer. De forma que não é fundamental explicar, Marty vai ter com Doc ao Old Wild West. Tem uma semana para arranjar uma máquina do tempo antes de inventarem algo que forneça 1,21 gigawatts, ou máquinas do tempo, ou algo que chegue às 88 milhas por hora ou sequer os carros e as estradas.

Não era possível fazer um filme mais revolucionário do que o segundo capítulo. A terceira parte serve apenas para fechar algumas pontas soltas e seria arriscado fazê-la, mas muda de tal forma que deixa de ser um filme sobre viagens e se torna um western. Um western diferente, com grandes doses de comédia e um bocadinho de romance. Tem os heróis e o vilão que adoramos, continua a usar nomes de outra época como se fossem seus (Clint Eastwood autorizou) e usa artimanhas que passaram despercebidas no segundo. Por tudo isso convém que se veja pelo menos estes dois filmes seguidos.
Os efeitos especiais contrastam bem com o século XIX. Há sempre algo diferenciador que distingue os viajantes do ambiente em que estão. Num western normal esta dupla seria morta a chegada pelo seu comportamento estranho, mas aqui as regras são diferentes. Não é preciso fazer um grande esforço para os imaginarmos integrados. Mesmo os ZZ Top com as máscaras passam bem por uma banda da época.

Não é um filme fenomenal. Não é arrebatador porque nem chega aos calcanhares do segundo. É um alívio saber que as pontas estão todas fechadas e que a história ficou bem contada. A lição final é aquela que devíamos ter ouvido logo à primeira. Regra número um: não interferir no passado. Regra número dois: não saber o futuro. Estas duas são fáceis de cumprir se não tivermos o DeLorean. Regra número três: O futuro não está escrito. Devemos viver o presente e fazer um bom futuro.


Título Original: "Back to the Future: Part III" (EUA, 1990)
Realização: Robert Zemeckis
Argumento: Rober Zemeckis, Bob Gale
Intérpretes: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Mary Steenburgen, Thomas F. Wilson, Lea Thompson, Elisabeth Shue
Fotografia: Dean Cundey
Música: Alan Silvestri
Género: Acção, Aventura, Comédia, Ficção-Científica, Western
Duração: 118 min.
Sítio Oficial: http://www.bttf.com/

21 de Março de 2010

"Back to the Future: Part II" por Nuno Reis


Doc: The justice system works swiftly in the future now that they've abolished all lawyers.

Muitos anos depois de "Back to the Future" Robert Zemeckis estava nas bocas do mundo pela inovadora animação "Who Framed Roger Rabbit" nomeada para 7 Oscares. O projecto seguinte teria de ser ainda mais ousado, louco, único. A primeira coisa que faz é uma sequela dupla do seu maior filme e viaja no tempo.
Adiou o projecto por três anos para filmar um coelho animado e, para compensar, filma dois filmes em simultâneo. Este regresso à saga foi cuidadosamente estudado. Os actores originais estão de volta com excepção de Claudia Wells (reformada) e Crispin Glover (exigências salariais) que foram muito bem dispensados. Marty e Jennifer são levado pelo Doc para 2015 onde terão de impedir que o filho cometa um erro que destruirá a família. Entretanto, Biff torna-se o senhor absoluto do mundo nos anos 80 pelo que Marty tem de voltar a 55 para o impedir.

Se o primeiro filme foi um espectáculo, este novo paradoxo ultrapassa tudo o que a mente podia imaginar. O distante futuro (agora só faltam 5 anos) é imaginado com muita luz, empregados robóticos, televisões multi-canal, pranchas voadoras, energia limpa e - esta é a melhor - uma sociedade sem advogados. Tão perto e tão longe da realidade... Depois há o universo alternativo de 1985. Pequenas mudanças que tornam o mundo num local desagradável, frio e triste. E finalmente, o bom velho 1955. A acção volta a quando tudo aconteceu e, desafiando a técnica, faz interacções de actores com eles próprios. Chega a ter três personagens de Fox em simultâneo e não se nota falhas. Cruza ainda com cenas do filme anterior para completar a história. Se o efeito existia, era para ser usado.
Mas ao contrário dos filmes actuais, não é só do engenho que vive "BTTF 2", também tem arte. O argumento que Bob Dale criou sozinho (mais uma vez culpa do coelho) é riquíssimo. Tem complementos ao primeiro filme que encaixam naturalmente, transmite todo o género de emoções e causa momentos de pura adrenalina em quem assiste. Entre Michael J. Fox, Christopher Lloyd e Tom Wilson não interessa a década, a história e a História estão sempre em boas mãos.

De longe o melhor da trilogia e o filme de viagens no tempo de eleição. É um filme completo e um clássico que não pode ser perdido. Quem adorou o primeiro filme pode ter de admitir que era apenas um aperitivo para o verdadeiro filme. É o trailer final que nos convence a ver o terceiro logo de seguida. Portanto, mais do que um simples filme do meio é a peça que une tudo.
Título Original: "Back to the Future Part II" (EUA, 1989)
Realização: Robert Zemeckis
Argumento: Bob Gale, Robert Zemeckis
Intérpretes: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Thomas F. Wilson, Lea Thompson, Elisabeth Shue
Fotografia: Dean Cundey
Música: Alan Silvestri
Género: Acção, Aventura, Comédia, Família, Ficção-Científica, Thriller
Duração: 108 min.
Sítio Oficial: http://www.bttf.com/

20 de Março de 2010

"Back to the Future: Part I" por Nuno Reis


Dr. Emmett Brown: The way I see it, if you're gonna build a time machine into a car, why not do it with some style?

Em 1984 Robert Zemeckis estava nas bocas do mundo. Apesar de estar no início da carreira, tinha feito filmes divertidos como "I Wanna Hold Your Hand" sobre fãs dos Beatles nos EUA, "Used Cars" satirizando a venda de carros usados, e o lendário "Romancing the Stone"/"Em Busca da Esmeralda Perdida", portanto, não era de admirar que Spielberg o quisesse ajudar a fazer um filme que fosse além de tudo isso. Um filme que quebrasse as barreiras tecnológicas. Um filme que desafiasse o contínuo do espaço-tempo. Já tinham sido feitos "E.T. the Extraterrestrial" e "The Twilight Zone", "The Ghostbusters" estava a sair. Era a explosão do género fantástico com uma nova geração: Joe Dante, Ivan Reitman e John Landis entre muitos outros. Spielberg tinha em mãos a produção do seu "The Color Purple" e de "The Goonies", mas juntou-lhe este para dominar por completo o ano de 1985. E o mundo nunca mais foi o mesmo.

Marty é um adolescente como todos os outros. Os estudos não lhe agradam e não gosta de cumprir regras. Prefere tocar guitarra e estar com a namorada, é compreensível. Entre as suas amizades tem o excentrico Doc Emmett Brown, um daqueles cientistas perdidos na fronteira entre a genialidade e a loucura. O mais recente projecto do Doc vai enviar Marty para o passado onde vai ter nas mãos o futuro de muitas vidas.

Desenrola-se em 1955, foi feito em 1985 e continua a ser um filme incontornável. A simplicidade é a maior arma. Apenas uns 30 efeitos especiais foram utilizados em todo o filme. Umas luzes, umas nuvens de fumo, rastos de fogo e está um clássico futurista feito. O paradoxo das viagens temporais é utilizado com muito humor. Marty acidentalmente interfere com o momento em que os pais se conheciam e vai ter de aldrabar o passado para garantir que eles se conhecem e apaixonam, para assegurar a própria existência.
Michael J. Fox tem o maior papel da carreira como Marty McFly. Controla o filme por completo, sendo sempre igual a ele mesmo. Aliás, todos os que entram neste filme têm aqui o maior papel da carreira. Está recheado de pérolas como os nomes importados do futuro (Calvin Klein, Darth Vader), os momentos em que inventa o skate e o rock, e um que se tornou referência para as sequelas: o carro carregado de estrume. As viagens no tempo podem não ser possíveis, podem não ser fáceis, mas vão começar a parecer bem mais divertidas.

As referências a filmes da FC são tantas que pode ser visto anos a fio sem que se descubra todas. As citações são imensas e aquela que encabeça o texto é uma entre muitas excelentes. Foi nomeado para Oscar pelo argumento, música e som, ironicamente venceu apenas pelos efeitos sonoros. Nos BAFTA (cinco nomeações), nos Golden Globes (quatro) e nos Grammy (melhor álbum) ficou-se pelas nomeações. No entanto o seu lugar na história ficou guardado. Seja em cinema ou em DVD, o DeLorean e o seu rasto de fogo ficarão para sempre associados às viagens de Marty McFly e do louco 'Doc' Brown.
Título Original: "Back to the Future" (EUA, 1985)
Realização: Robert Zemeckis
Argumento: Robert Zemeckis e Bob Gale
Intérpretes: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover, Thomas F. Wilson, Claudia Wells
Fotografia: Dean Cundey
Música: Alan Silvestri
Género: Acção, Aventura, Ficção-Científica
Duração: 116 min.
Sítio Oficial: http://www.bttf.com/

19 de Março de 2010

Colheita Seleccionada - "Back to the Future"


Aqui está outro daqueles filmes incontornáveis da minha infância. Nunca vi em cinema e é um dos meus maiores arrependimentos. Quem sabe se em Outubro isso não se resolve...


Já sabem como funciona. Deixem a música tocar para dar ambiente.


É um pouco difícil discutir os filmes em separado porque quando os vi já estavam todos feitos. O primeiro acabou e quis ver mais. O segundo acabou e quis ver mais. O terceiro acabou e quis ver mais. Mas mais não havia, as palavras "the end" não permitiam dúvidas... Admirei os efeitos especiais que colocavam lado a lado duas personagens do mesmo actor, algo totalmente impossível do meu ponto de vista. Admirei a coragem de filmar o segundo e o terceiro em simultâneo. Admirei a coragem de dizerem "To Be Concluded", ao bom estilo dos "to be continued" que as séries televisivas faziam. E é admirável como para mim as viagens no tempo se resumem a "Back to the Future" e "Bill and Ted Excellent Adventure". Não terei visto filmes suficientes para me lembrar de mais algum?

A aventura percorre 4 anos em 3 séculos: 1855, 1955, 1985 e 2015. O mês mais importante em todas essas épocas é o Novembro de 1955. É então que Doc Brown inventa as viagens no tempo, no dia 5, e todos os filmes passam pelo dia 12: o dia da tempestade que mudará o destino do universo para sempre. Mas a aventura não fica pelo primeiro filme, esse tem apenas duas décadas. No segundo combinam o 1985 normal, um 2015 profético, um 1985 alternativo e voltam a 1955, o ano de todas as decisões. No terceiro capítulo Marty recua ainda mais, para meados do século XIX onde terá de assistir à inauguração do relógio que o faz viajar pelo tempo.

Esqueçam os paradoxos temporais, não há tempo para pensar nisso (os jogos de palavras acabam aqui). A adrenalina é tal que a emoção se sobrepõe à razão. O pior é que nos deixa mal habituados. Quando no final começa a tocar o tema do filme e cortam o climax, a única coisa a fazer é trocar o DVD. Nenhuma sequela teve o efeito em mim que este tem. Por duas vezes! O único problema de ver todos seguidos é que reparamos na troca de actrizes: Claudia Wells dá lugar a Elizabeth Shue. Não tenho nada contra, muito pelo contrário. Wells teve de recusar o regresso por razões de força maior, o que obrigou a produção a refilmar as cenas finais do primeiro capítulo. Shue é uma actriz de enorme talento e assumiu a personagem como sua dando-lhe uma nova vida. Curioso que se o primeiro filme estivesse a prever as sequelas (o final em aberto era apenas para deixar os espectadores estupefactos com a possibilidade de ir para o futuro) nunca Jennifer teria entrado no carro. Jennifer acabou por ser um empecilho que não tiveram problemas em adormecer e deixar num beco. Mesmo estando nas mãos de uma actriz que já tinha saltado para a ribalta com "Karate Kid" e "Cocktail" não tinha lugar no argumento. Também se perdoa isso.

Tudo mais que o filme tem é de louvar. Ao fim de uma maratona com os três filmes começa a cansar pelo que sou contra o tão falado quarto episódio. É a mudança absoluta de estilo que salva o terceiro senão também esse seria demasiado. É que o segundo esgota todas as possibilidades do género. Conseguem falar do passado, do futuro, do presente, criam realidades alternativas tão facilmente como se fossem universos paralelos, discutem as implicações de alterar o passado e de conhecer o futuro. O que faltava dizer no terceiro? Faltava discutir o poder do Amor. Seja onde for e quando for, mesmo a pessoa mais excêntrica está destinada a encontrar uma alma gémea.

13 de Março de 2010

"The Goonies" por Nuno Reis


Os goonies são bons que cheguem

Para dar ambiente. É favor deixar a música tocar enquanto lêem.


Duas tíbias cruzadas e uma caveira. O símbolo tradicional dos piratas é a peça inicial para um filme juvenil. Muito adequadamente a primeira cena é na prisão e com um corpo pendurado numa cela. Em seguida começam os tiros, o fogo e as perseguições. Mas entretanto já deu para as primeiras risadas com a aselhice dos vilões. À medida que os carros percorrem a cidade vamos vendo alguns dos jovens que a habitam. Parecem perfeitamente normais à primeira vista. Quando todos se juntam algo mágico acontece (e não me refiro à tradução que Mouth faz). Ficamos a saber que vão trocar a vila pela cidade por questões financeiras e pretendem fazer do último fim-de-semana juntos o maior acontecimentos das suas vidas. Eles querem criar uma recordação que nunca esqueçam. O primeiro passo é visitar o sotão. Entre lemes, roupas e livros de pirata ouvimos uma palavra que não nos sairá da cabeça jamais: Goonies. A odisseia começou.
Aos nossos heróis juntam-se as duas adolescentes que vimos nas cenas iniciais. Tal como o mais velho dos outros cinco consideram-se demasiado crescidas para ainda se chamarem Goonies, mas o chamamento da aventura é mais forte do que elas e além disso Goonie não é um título que expire. Um Goonie será sempre um Goonie.
Os quatro actuais e os três "na reserva" embarcam numa brincadeira que se tornará uma luta pelo passado comum, e pelo futuro que sonham ter juntos. Willie Zarolho, maior pirata do século XVII e o primeiro Goonie, é o único que pode impedir a venda forçada das propriedades. Nenhuma geração anterior de Goonies o conseguiu encontrar, mas nenhuma precisava tanto do ouro como eles. Têm menos de 24 horas para descodificar o mapa, sobreviver a armadilhas que deixariam Indiana Jones preocupado, fintar os bandidos e encontrar o tesouro. Se fosse fácil não seriam precisos os Goonies.

A ideia de Steven Spielberg, passada a argumento por Chris Columbus, realizada por Richard Donner, produzida pela recente Amblin e pela poderosa Warner, com peças usadas do parque temático Disney e um elenco de desconhecidos foi o meu primeiro contacto sério com o cinema. Como disse Columbus recentemente "o que pode superar um navio-pirata?". Primeiro do que tudo é um filme para despertar o aventureiro em cada criança. Faz-nos acreditar em piratas e tesouros, dá vontade de explorar grutas, enfrentar perigos, lutar pela vida sabendo que venceremos. Também ajuda a compreender as diferenças entre as pessoas, valoriza grupos heterogéneos e amizades maiores e mais longas do que a própria vida.
Tem humor, acção e apesar dos muitos palavrões não incentiva ao mau comportamento, apenas a actos heróicos tresloucados, arriscados e não aprováveis pelos pais. É um filme que os pais recomendam aos filhos, que os filhos vêem com gosto e que provavelmente verão juntos muitas e muitas vezes. Infelizmente é desconhecido das pessoas da minha idade e dos mais jovens. Ficou associado aos nascidos na segunda metade dos anos 70, geração onde me infiltrei. Ainda bem para mim, tenha pena dos demais.

Título Original: "The Goonies" (EUA, 1985)
Realização: Richard Donner
Argumento: Chris Columbus (ideia original de Steven Spielberg)
Intérpretes: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Jonathan Ke Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey
Fotografia: Nick McLean
Música: Dave Grusin
Género: Acção,Aventura
Duração: 114 min.

12 de Março de 2010

Colheita Seleccionada - "The Goonies"


Não posso dizer que tenha crescido longe do cinema. Uma das minhas recordações mais antigas é andar de ferry em Tróia, a caminho do festival. Ainda não tinha 4 anos, não vi nenhum filme, mas estive lá com os meus pais que se revezavam entre mim e o cinema. No Porto lembro-me de ir a muitas antestreias infantis no Nun'Álvares - especialmente os "Duck Tales" - e de percorrer as passagens secretas do Carlos Alberto nas semanas de Fantasporto.
Lembro-me especialmente da sessão de "Who Framed Roger Rabbit?". Robert Zemeckis depressa se tornaria um dos meus realizadores de eleição, mas na altura ainda não o conhecia e, dos filmes dele, este era o apropriado para crianças. Fui mais uma vez com o meu pai. Quando o filme começa ele estava a sussurrar-me as falas traduzidas a que respondi "eu percebo o filme sozinho". Não sei se li as legendas, se percebi o inglês, se foi um misto de ambos, ou se quis ser apenas teimoso. Sei que vi o filme sem ajuda e estava orgulhoso pelo meu feito. E sei que ele ficou triste porque a partir daquele momento eu poderia ir ao cinema sem ele, como fui inúmeras vezes.
Acho estranho alguém dizer-se "filho do Fantas" quando nasceram antes do festival. Pessoalmente digo que nessa altura o Fantas era o meu irmão mais velho, apenas 2 anos e meio, mas mesmo assim mais velho e como tal tomou conta de mim muitos dias e noites. Acabando as aulas apanhava o autocarro para a Praça da República e corria até ao Carlos Alberto onde ficava até os meus pais quererem ir dormir. Vi os filmes que me deixaram exibindo o livre-trânsito, e os que não me deixavam entrando sorrateiramente. Eduquei gostos diferentes da maioria numa época em que apenas existia a competição de cinema fantástico. Não me recordo de alguma vez ter sofrido pesadelos por causa disso. Vinte anos depois percorro o mundo escolhendo filmes para o meu Fantas, na esperança que volte a causar em alguém o efeito que teve em mim.

Portanto, respondendo a qual foi o filme da minha vida, teria de dizer que foi todo o Fantasporto do Carlos Alberto, só que isso não é totalmente verdade. O primeiro filme foi mais do que os outros. Aquele que vi para nunca mais esquecer e me fez sonhar com aventuras que começavam montado numa bicicleta e terminavam numa caverna escondida, com moedas de ouro pirata a escorrerem-me das mãos. Poços sem fundo! Pianos mortíferos! Lutas de espadas! Voar agarrado às cordas! Derrotar os maus e encontrar o tesouro!
Era "The Goonies". Ainda embrenhado no mundo dos contos infantis e filmes Disney tinha aterrado num paraíso cheio de aventuras e ideias mirabolantes. Desde então quis sempre mais e exigia muito dos filmes que via. Por muito que a técnica e os efeitos digitais tenham progredido e os argumentistas tenham ultrapassado tudo aquilo que a mente humana achasse possível, ainda está por fazer um filme que me cause a mesma injecção de adrenalina. Foi o filme certo no momento certo (ou demasiado cedo) e o interruptor que causou tudo o que descrevi atrás. O meu número um na altura, hoje, sempre.

Olhando para ele nos dias de hoje (vi no dia em que escrevi este texto) já não causa surpresa. Sei as cenas e as falas praticamente de cor. No entanto quando dá na televisão não consigo mudar de canal e quando não dá nada de jeito é dele que me lembro. Já não me devia causar aquelas sensações, mas tenho-as por reflexo. O meu coração acelera nas corridas, assusto-me quando tocam a nota errada, vibro quando chegam ao barco, ralho quando tomam uma má decisão e já muitas vezes chorei quando terminou. Tenho-lhe um carinho incomparável. Aliás, posso dizer que, mais do que o meu primeiro filme, foi o meu primeiro amor.

Também pode ser lido no Um Dia Fui Ao Cinema.

10 de Março de 2010

Colheita Seleccionada


Lembram-se do artigo publicado no Split Screen com a minha selecção de filmes para a DVDteca Ideal? Irei rever semanalmente esses filmes e o porquê de estarem nessa lista, ocupando bem mais do que as 3 linhas que tinham nesse artigo.
O pontapé de saída será com o meu número um, seguindo depois uma ordem aleatória que depende apenas da minha maior disposição para escrever sobre um ou outro deles. Serão dez semanas e treze filmes que mudaram a minha forma de ver cinema. Depois farei uma pausa para ir a Cannes - espero que me perdoem - mas dependendo do interesse do público a categoria poderá voltar em Junho com outros "dez" filmes. Afinal de contas, a lista só tinha aquele tamanho porque me obrigaram a cortar. Arranjo umas centenas de títulos que mereçam estar na lista.

Por isso esta sexta-feira, será iniciada uma nova secção de nome "Colheita Seleccionada", partilhando o primeiro artigo com a secção "O Meu Primeiro Filme" do Um Dia Fui Ao Cinema.
Para prender os leitores o primeiro filme será acompanhado de tudo o que me lembrei sobre ele. Sete artigos ao longo de sete dias, com posters, trailers, videoclips, biografias (then and now) e O monólogo. Como não quero que se cansem depressa, para os restantes filmes vou-me limitar ao básico: a crítica quase imparcial e o artigo de opinião.

Os links ficarão aqui abaixo para uma pesquisa mais fácil.
Casablanca
Bridge On the River Kwai
trilogia Back to the Future
The Goonies
Edward Scissorhands
The Lion King
Forrest Gump
Moulin Rouge
La Vita è Bella
Flags Of our Fathers/Letters From Iwo Jima


Espero que as minhas sugestões convençam alguém a ver bom cinema. Se cada semana convencer uma pessoa diferente a ver um filme que não conhecia já é uma boa acção.