Domingo, Janeiro 22, 2012

Bernard Herrmann (antes do cinema)


A Chandos (que nos últimos anos tem editado várias obras de Nino Rota exteriores ao seu trabalho para cinema) apresenta neste disco a cantata Moby Dick e a Sinfonietta, de Bernard Herrmann, obras dos anos 30, anteriores às suas primeiras experiências para o grande ecrã.

Ao escutarmos o nome de Bernard Herrmann é quase inevitável que o associemos ao cinema, tão marcante que foi o trabalho que o compositor registou com vários realizadores – sobretudo Alfred Hitchcock, para quem assinou bandas sonoras hoje com estatuto de “clássicos” como A Intriga Internacional ou Psico – desde que, em 1940, Orson Welles o convidou para compor a música para O Mundo a Seus Pés. Tinham já trabalhado juntos em produções de teatro radiofónico, Herrmann tendo então o pólo central do seu trabalho junto da orquestra da CBS que servia sobretudo essas mesmas funções. Filho de emigrantes russos, Herrmann nasceu em Nova Iorque e cedo encontrou na música o seu principal interesse. Arranjava maneira de assistir aos ensaios no Carnegie Hall e na Public Library na 5ª Avenida consultava as partituras das obras daqueles que mais admirava, sobretudo Charles Ives, o “pai” da música americana. Nos livros encontrava outro dos destinos do seu tempo, em Moby Dick, o romance de 1851 de Hermann Melville, descobrindo uma das histórias mais marcantes entre as que leu nesse período. O tempo fez com que esses dois caminhos se cruzassem. O da música. O do livro de Melville. E em finais dos anos 30, ainda o cinema não morava entre os seus horizontes profissionais, Herrmann lançou mãos à obra: ia criar uma adaptação de Moby Dick.

Começou por ter uma ópera em mente mas, das reuniões de trabalho com William Clark, que escreveria o libreto, nasceu a ideia de criar antes uma cantata. Visitaram ambos a região no Massachussets que inspirara o texto original de Melville e em 1938, dois anos depois da primeira ideia, uma cantata para vozes masculinas estava terminada, sendo estreada algum tempo depois por John Barbirolli, frente à New York Philharmonic (estávamos Abril de 1940). Entre a plateia de uma das poucas apresentações públicas que a cantata então conheceu estava o (então) jovem compositor britânico Benjamin Britten (que pouco depois encontraria num cenário entre pescadores o caminho para Peter Grimes, uma das suas mais aclamadas óperas). Outra referência musical mora directamente na partitura de Moby Dick: uma dedicatória a Charles Ives, cuja herança de certa forma habita entre os caminhos por onde segue esta música onde, todavia, Herrmann recorre a soluções dramáticas quer escutadas na tradição da música de palco quer encontradas na escrita com medula narrativa que então criava para as produções radiofónicas.

Esta presente edição da Chandos, com interpretação pela Danish National Symphony Orchestra, dirigida por Michael Schonwandt, junta a Moby Dick a peça orquestral composta entre 1935 e 36 a que Herrmann simplesmente chamou Sinfonietta. Contemporânea do mesmo período de trabalho na rádio, a Sinfonietta revela contudo uma pontual atenção para os caminhos que a música tomara entre os seguidores de Schoenberg (que depois não teriam grande expressão na sua obra posterior). Esta gravação corresponde à estreia em disco da versão original da Sinfonietta que Hermann revisitou por volta de 1960 quando trabalhava em Psico e que transformou em 1975 quando preparava um projeto de gravações da sua música para concertos.

Com esta gravação a Chandos abre importante janela de (re)descoberta para a obra que Herrmann criou para lá do grande ecrã. Se a ideia da editora é a de seguir o modelo de lançamentos através dos quais nos últimos anos nos deu a conhecer o mundo da escrita sinfónica e concertante de Nino Rota, vale a pena estarmos atentos às cenas dos próximos capítulos...

Entre Mishima e Oshima

Discografia David Sylvian - 2 
'Forbidden Colours' (single), 1983 
com Ryuichi Sakamoto

O segundo single a solo de David Sylvian nasceu novamente de uma colaboração com o japonês Ryuichi Sakamoto. A este Nagisa Oshima havia pedido a banda sonora para o filme Feliz Natal Mr Lawrence, que contava com o próprio Sakamoto no elenco (onde encontrávamos também um outro músico: David Bowie).

Com música de Sakamoto e letra de Sylvian, Forbidden Colours (título encontrado no romance de Mishima que no Brasil teve já tradução para português como Cores Proibidas) é a canção que escutamos com os créditos finais do filme. Parte de uma melodia que Sakamoto decompõe e utiliza depois em outros instantes da banda sonora, mas que aqui surge em forma definitiva no corpo de uma canção delicada que cruza ecos de geografia japonesa com um lirismo que vinca o carácter dramático da sequência final do filme. O single apresenta a canção na mesma versão que escutamos na banda sonora e junta no lado B The Seed and The Sower (e, na versão máxi, o tema-extra Last Regrets). Forbidden Colours deu a David Sylvian a sua melhor performance extra-Japan na tabela de singles no Reino Unido, atingindo o número 16 e mantendo-se em lista durante 8 semanas.



Imagens do teledisco que acompanhou o lançamento de Forbidden Colours. Junta imagens do filme a outras, em estúdio, com o cantor.

Glass: um retrato em três partes


Três documentários sobre Philip Glass. Um dos anos 80, realizado por Peter Greenaway. Os outros dois datam já do século XXI. Em conjunto dão-nos uma visão de uma figura maior da música do nosso tempo.

E começamos em 1983. Foi através deste documentário que, pela primeira vez, vi a figura de Philip Glass. Tinha escutado nessa semana um disco seu quando a RTP2 apresentou o episódio da série Four American Composers, de Peter Greenaway, que lhe era dedicado (os outros três sendo John Cage, Meredith Monk e Robert Ashley). O filme centra-se numa atuação do Philip Glass Ensemble com programa dividido entre excertos de Einstein on The Beach e Glassworks, juntando ainda Music in Similar Motion. Ao longo da atuação escutamos ainda vários momentos de entrevistas entrevistas na qual o compositor contextualiza a sua música e recorda como foram os seus primeiros anos de trabalho com o ensemble e a forma como as pessoas foram reagindo à sua música. Os próprios músicos do ensemble apresentam ainda a sua relação com a música de Glass. Na reta final do filme Glass descreve o aparente paradoxo que define, no fundo, o poder que a sua música tem de cruzar gostos e visões: “Há quem goste porque é barulhenta, é quem goste porque é rápida, há quem goste porque é muito clássica, há quem goste porque não é clássica, há quem goste porque soa a música indie e quem goste porque acha que não soa a música indie... Tem tudo a ver com a idade de cada um e com o que cada pessoa traz à música. O certo é que o desenvolvimento da música popular nos últimos dez anos foi muito importante para nós. E quando falo em nós refiro-me ao ensemble”, diz o compositor.

De 2005 data Looking Glass, de Eric Darmon. Já editado em DVD, o filme segue uma lógica algo convencional, juntando imagens de arquivo (de Einstein On The Beach) a outras de produções mais recentes (como por exemplo Akhnaten), tomando como medula central do olhar sobre o compositor um conjunto de entrevistas feitas em redor dos espaços onde vive o seu dia a dia. Da sala de trabalho em sua casa a momentos de gravação em estúdio (para uma banda sonora) ou trabalhos de bastidores para concertos ou mesmo uma entrevista na rádio, o filme procura o retrato do compositor. Consegue dar-nos uma ideia sobre quem é, de onde vem a sua música e o que conquistou. Mas fica aquém da visão mais próxima e humana que Scott Hicks depois alcançaria naquele que é, até hoje, o melhor documentário sobre Philip Glass.

Entre os filmes dedicados à música de Philip Glass tem natural destaque o absolutamente encantador Glass: A Portrait of Philip in Twelve Parts, de Scott Hicks. Trata-se de um olhar que cruza os espaços de trabalho com os que fazem a vida pessoal do compositor, daqueles que vivem ao seu redor e das ideias que o animam. Em 2009, quando aqui apresentei o filme dizia: “Scott Hicks acompanhou Philip Glass durante 18 meses. Visitou o seu escritório de trabalho em casa, explicando a sua mulher que aquela aparente desarrumação é a sua arrumação. Vemo-lo depois nos Looking Glass Studios, outro dos seus espaços de labor diário em Nova Iorque, em sessão de trabalho com Nico Muhly. Mais tarde fala de trabalho e de espiritualidades enquanto prepara pizzas para a família e amigos na sua casa de férias. Acompanhamo-lo em ensaios de uma ópera na Alemanha e de um recital a solo na Austrália… Com ele entramos pela sala onde Woody Allen fazia a montagem de Cassandra’s Dream. Martin Scorsese, Errol Morris e Godfrey Reggio falam da sua relação com o cinema. E regressamos ao espaço familiar, entre os filhos mais novos e o mais velho, entre as histórias do presente e algumas memórias que ajudam a contar esta história. Glass: A Portrait Of Philip In Twelve Parts é um filme que nos revela um espaço privado sem nos dar nunca a sensação de estarmos a ser intrusos. Tranquilo e bem humorado, Philip Glass aceita a presença da curiosidade da câmara. As suas palavras vão lançando o texto no contexto. E quando lhe perguntam qual será o segredo para o que já atingiu, responde sem pausa: levantar cedo todos os dias e trabalhar”. Outra das grandes respostas de Glass surge, logo no início do filme, quando comenta o facto de haver quem não goste da sua música. Ao que diz: “Há tanta música no mundo, não têm de gostar da minha. Há Mozart, há os Beatles, oiçam outra coisa... Têm a minha bênção... Oiçam outra coisa... Não quero saber...”. Na mouche!




Imagens do trailer de Glass: a Portrait of Philip in Twelve Parts.

Sábado, Janeiro 21, 2012

O neo-feminismo de David Fincher

Rooney Mara
David Fincher é um cineasta do concreto, sempre seduzido pela abstracção das formas: Millennium 1 - Os Homens que Odeiam as Mulheres é a uma nova e eloquente ilustração da sua visão — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Janeiro), com o título 'Aventura do concreto e do abstrato'.

Afinal de contas, que acontece nos filmes de David Fincher? Digamos que a fama conquistada com o magnífico Seven (1995) terá deixado uma herança equívoca: Fincher seria um manipulador da nossa proverbial inocência, prolongando até ao limite do sustentável o modelo do “mistério-até-ao-fim”.
Face ao vertiginoso Millennium 1 – Os Homens que Odeiam as Mulheres, importa tentar ultrapassar tal caracterização do seu trabalho. Desde logo, pela razão muito básica que está expressa no título do best-seller de Stieg Larsson: este é um objecto de um neo-feminismo, obstinado e radical, em que já não se trata tanto de celebrar uma determinada identidade feminina, como de expor a devastadora crueldade de um mundo organizado a partir de uma violência primordialmente masculina (e há todo um subtexto, também ele radical e perturbante, que remete essa violência para o imaginário nazi).
Além do mais, deparamos com a obsessiva deambulação labiríntica que constitui a mais forte assinatura de Fincher. Tal como na rede de bizarras implicações de Clube de Combate (1999) ou na rede, ela própria, de A Rede Social (2010), o cineasta coloca em cena um desejo de verdade que contém componentes do policial mas que, a pouco e pouco, se vai transfigurando numa demanda de identidade(s) em que todas as certezas, desde a transparência da história às relações sexuais, são pacientemente questionadas.
Daí a estranha beleza de Millennium 1: por um lado, há nele uma urgência face ao concreto do nosso mundo que lhe confere a dimensão de parábola sobre a persistência do Mal e o fim de todos os romantismos; por outro lado, vivemos uma aventura tocada pela mais pura abstracção formal. É tempo de acreditarmos que Howard Hawks tem, finalmente, um herdeiro moderno.

Viver e morrer em televisão

O Grande C, com Laura Linney, é uma magnífica série que lida com o cancro, e a nitidez da morte, sem nunca ceder à demagogia "existencial"  de muitos programas televisivos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Janeiro).

Não sei se o leitor partilha o meu ponto de vista, mas considero que, em alguns programas televisivos, em particular os que convocam as pessoas para falar da sua vida privada, se ultrapassou há muito a fronteira do pudor e do respeito pela humanidade de cada um. Considero mesmo que tais programas promovem uma cultura da mais pura obscenidade, reduzindo a existência individual a uma grosseira montra pública onde o recato e a intimidade não têm qualquer valor.
A vida de cada um? Sim, a vida, mas não só: também a morte. Trata-se a relação pessoal com a morte como se fosse uma parada de números mais ou menos chocantes para exibir, consumir e deitar fora. Daí o tristíssimo estado das coisas: uma banalidade filosófica (?) dita por um qualquer “famoso” que tenha posto a sua própria inteligência em greve ganha uma evidência colossal, mas a simples existência de uma série tão admirável como O Grande C (The Big C), a passar no TV Séries, não faz manchetes em nenhum lado.
Criada por Darlene Hunt, para o canal americano Showtime, O Grande C é, precisamente, uma série sobre a morte. O “C” do título remete para a palavra cancro. A protagonista, uma professora de liceu, admiravelmente interpretada por Laura Linney (também produtora executiva), sofre de melanoma terminal. Entre uma família não muito equilibrada e uma vizinhança nem sempre muito acolhedora, ela decide viver numa espécie de corda bamba emocional em que a partilha ou a ocultação do seu estado implica inevitáveis diferenças na relação com os outros.
Estamos, aqui, bem longe da sinistra piedade que, quase todos os dias, encontramos nas conversas de reality show. Não se trata de reforçar o discurso paternalista que reduz o paciente a uma marioneta emocional, mas de fazer o retrato de um quotidiano em que, afinal, a nitidez da morte é vivida como um factor de relançamento da vida. Apostando numa desconcertante frieza realista, combinada com uma ironia contagiante, a série consegue essa coisa rara e preciosa que consiste em valorizar o carácter irredutível de cada ser humano. Em boa verdade, O Grande C retrata a comédia da vida. Morte incluída.

Beloved, 1990


Esta semana recuperámos como “disco pe(r)dido” o álbum Happiness, que os Beloved editaram em 1990. Um disco de visões pop, animado pelo fulgor de ensinamentos recentes colhidos na house, acid house, ambient house e outras manifestações emergentes da então vibrante club scene. Hoje recordamos aqui The Sun Rising, teledisco que acompanhou um dos singles extraídos deste álbum dos Beloved.

Um ano para viver Guimarães

Foto: N.G.

Guimarães é a partir de hoje a Capital Europeia da Cultura. Ao longo do ano a cidade acolhe uma programação atenta às mais diferentes áreas da produção artística. Reequipada, Guimarães foi alvo de obras profundas ao longo dos últimos meses, requalificando espaços para acolher todo um ano de iniciativas, contribuições que ficam também como legado deste ano especial para a vida futura da cidade.

Hoje o dia é protocolar, com cerimónia de abertura pelas 18.00 horas no Pavilhão Multiusos. À noite, os Fura dels Baus apresentam um espetáculo de rua que andará pela cidade.

A partir de hoje acompanharemos aqui algumas das iniciativas da Guimarães 2012. Para já podem consultar no site oficial da Capital Europeia da Cultura mais informação sobre o que já aconteceu e o que está para vir ao longo dos próximos meses.

Os primeiros passos além-Japan

Discografia David Sylvian - 1 
'Bamboo Houses / Bamboo Music' (single), 1982 
com Ryuichi Sakamoto 


Iniciamos hoje um novo percurso através de uma discografia. Assinalando os 30 anos da obra a solo de David Sylvian, começamos assim por recuar a 1982 e àquele que foi então o seu primeiro disco editado a solo, ainda o músico integrava os Japan.

Não era a primeira vez que David Sylvian trabalhava com Ryuichi Sakamoto. Do bom acolhimento dos japoneses à música dos Japan, logo em finais dos anos 70, surgiu uma vivência e partilha de ideias que cedo colocou o vocalista dos Japan em contacto com a figura central da Yellow Magic Orchestra, banda fundamental da primeira geração pop electrónica e nome de proa da música japonesa de então. Colaboraram pela primeira vez em Taking Islands in Africa, um dos temas do álbum Gentleman Take Polaroids (1980) dos Japan. Mas em 1982 editaram juntos um primeiro single, ao qual chamaram ainda a colaboração de Steve Jansen (também dos Japan). Bamboo Houses / Bamboo Music lança ideias. Explora as potencialidades das suas visões instrumentais (na verdade representando o passo adiante do que os Japan haviam experimentado no álbum de 1981 Tin Drum) e aprofunda a demanda de personalidade na atitude vocal de Sylvian. Os temas foram co-produzidos pelos dois protagonistas e Steve Nye e tiveram ediçãoo nos formatos de 7 e 12 polegadas, pela Virgin Records.



Imagens do teledisco para Bamboo Music, que acompanhou em 1982 o lançamento deste primeiro single conjunto de Sylvian e Sakamoto.

Entrevistas de arquivo:
Philip Glass, 1996


Este texto recorda uma entrevista a Philip Glass por alturas da estreia em Lisboa da ópera Les Enfants Terribles, a terceira de uma trilogia baseada em filmes de Jean Cocteau A entrevista foi originalmente publicada na edição de 30 de Outubro de 1996 do DN.

O seu regresso a Lisboa acontece com o fecho da trilogia de óperas baseadas em Cocteau. Porquê este autor como mote para um ciclo? 
Foi um ciclo interessante, baseado em filmes realizados por Jean Cocteau entre 1946 e 52, um curto intervalo de tempo. Inicialmente eu abordei a ópera ao ponto de entender como é que um filme poderia estar na sua génese. Muitas óperas nasceram de outras literaturas. E, cem anos depois do aparecimento do cinema, com toda uma nova linguagem apresentada, ainda ninguém tinha feito uma ópera baseada num filme. Houve apenas experiências na Broadway. E não podemos ignorar no cinema uma enorme fonte de criatividade. Decidi, então, tentar três modelos de o fazer, escolhendo Cocteau, um grande colaborador multifacetado. Quase um mentor para o meu trabalho, dado o seu envolvimento em diversas formas de espetáculo. Comecei com Orphée, e depois da La Belle et La Bête e, aos poucos, reparei que cada um dos casos levantava a questão da criatividade e, para o colocar de modo genérico, um modo muito especial de transformar o mundo real num universo de magia.

'Les Enfants Terribles'
A abordagem aos três filmes foi depois assumida de modos sempre diferentes. 
Em Orphée aproveitei a trama e todos os diálogos para a construção da ópera. Em La Belle et La Bête, aproveitei todas as palavras e experimentei compor uma ópera para acompanhar a projeção do filme, pelo que as vozes tinham de estar sincronizadas com os movimentos dos lábios dos atores. Os cantores transformaram-se em intérpretes dos personagens do filme. E esse foi um passo radical. Neste Les Enfants Terribles quis ultrapassar o filme e retomar o livro, escrito pelo próprio Cocteau por volta de 1926. O filme já era uma interpretação do livro. Resolvi fazer o mesmo, numa interpretação paralela ao filme. E, já que regressava ao livro, necessitava uma outra forma para experimentar a encenaçãoo.

E aí a ideia de convidar a coreógrafa Susan Marshall? 
De facto. Resolvemos formar uma companhia de performers, cantores e dançarinos. Sempre tive dança nas óperas (e O Corvo Branco também terá), num modo tradicional (a ópera é interrompida, surge um bailado e, depois, a ópera recomeça) ou não. Assim aconteceu em Einstein On The Beach, em Akhnaten, em Civil Wars e outras, ora em momentos de dança, de canto ou em situações de convívio.

Já tinha feito várias bandas sonoras. Esta trilogia exigiu um trabalho diferente?
Com La Belle et La Bête tive, inclusivamente, de respeitar os tempos (e usei cronómetros e máquinas de calcular). Em Orphée não me preocupei com o timing do filme. Em Les Enfants Terribles tive maior liberdade para fazer uma adaptação mais completa, e cheguei mesmo a não usar muitas partes do filme.

'La Belle et la Bête'
Até ao momento gravou apenas as óperas da trilogia-retrato e La Belle et la Bête. As muitas outras que já compôs serão algum dia gravadas? 
Acabámos de gravar há poucos dias o Civil Wars, que deverá sair em 1997 e, em Dezembro, entramos em estúdio para registar Les Enfants Terribles, o que aumentará significativamente a discografia, que me parece bastante recheada para um autor contemporâneo. Entretanto concluí uma outra ópera, The Marriages Between Zones Three, Four and Five, e sei que passarão anos antes de as ter todas gravadas. A mais difícil de todas será The Voyage, um trabalho de grande escala.

Qual das óperas o realizou mais como compositor? 
Satyagraha sempre ocupou em mim um lugar muito especial. Einstein on The Beach é também única e radical e foi o ponto de partida.

E continua a ser um marco histórico. Porque passou, depois, a abordar a ópera de um modo mais tradicional? 
Einstein criou um mundo seu. Não fui nunca tentado a repeti-lo e, entretanto, senti vontade em experimentar a escrita para o canto operático.

Foi uma das muitas regravações e reedições diferentes. Haverá mais na calha? 
Creio que editarei discos enquanto a editora os quiser e ela enquanto o público os comprar. Recentemente regravamos o Music in 12 Parts. Estas reedições destinam-se a recolocar no mercado peças que não se encontravam porque foram lançadas em vinil há mais de 20 anos. Entretanto gravei obras mais recentes, como as Sinfonias nº 2 e 3, o Concerto para Saxofone, highlights de Civil Wars e uma peça orquestral chamada The Light, com a Vienna Radio Orchestra. Discos que deverão ser editados em 97. Fiz entretanto um bailado baseado em Heroes, de Brian Eno e Bowie, que será editado já em janeiro.

E aventuras além do universo erudito? 
Ainda há dias terminei uma canção para o Mick Jagger, por exemplo. Tenho um passado musical de grande diversidade e permito-me a fazer coisas diferentes. E porque não?

'Songs From Liquid Days'
E não acredita que os anos 90 são a década da definitiva abolição de fronteiras entre os géneros? 
Sem dúvida! Há muito que trabalho nesse sentido e sinto-me feliz por ver as coisas a seguir esse rumo. Lembro-me de um momento em que estava a trabalhar simultaneamente com Suzanne Vega e Laurie Anderson. É interessante ter a liberdade para assim agir, mas tem de se estar preparado para certo tipo de críticas. E já não presto atenção ao que se diz, caso contrário não faria metade do que faço.

Ainda faz sentido falar em minimalismo no contexto atual? 
Creio que teve o seu momento histórico, em meados de 60 e a sua importância fundamental foi o facto de ter assistido à reformulação da linguagem da música moderna por uma série de jovens compositores que rejeitava o que tinha aprendido da geração anterior. A diversidade da música nos nossos dias é tão vasta que apenas num circuito muito restrito se pode definir uma música por uma só linguagem , apenas nas escolas. A grande contenda entre a música serial e o minimalismo não interessa aos novos compositores. Estão-se nas tintas para isso. Estão mais entusiasmados com uma música baseada no caos ou no ruído, na world music, na tecnologia.

Todd Levin, por exemplo, experimentou as regras da dance music num contexto sonoro “clássico”...
Conheço-o bem e gosto do seu trabalho. Vou, de resto, editar um disco seu na Point Music, a editora que de certa forma ajudo a dirigir.

Vê nas bandas atuais, como os Depeche Mode e outros projetos electrónicos, não esquecendo os “pais” Kraftwerk, alguma descendência do seu trabalho? 
No início dos anos 70 toquei muito com o ensemble na Alemanha e grupos como os Kraftwerk ou os Can tinham um bom relacionamento comigo, de franco diálogo. Isso era sabido. Quando surge a primeira geração techno pop este tipo de relacionamento da pop, muito vivo e gratificante, sempre me entusiasmou. De resto, gravei recentemente com o Aphex Twin e devo dizer que nada disto é novo. Esta dicotomia que separa a música popular da clássica é recente! Os primeiros bailados de Stravinsky não seriam possíveis sem os estudos sobre a música popular russa de Rimsky Korsakov. Stravinsky trouxe para uma linguagem sinfónica as raízes da música popular do seu tempo. De certo modo continuo essa tradição. Há um puritanismo protecionista em relação à música clássica que me assusta. O diálogo entre as diversas músicas é entusiasmante e produtivo.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

Etta James (1938 - 2012)

Nome grande da soul, cumpriu uma extraordinária carreira repartida por mais de quatro décadas: Etta James faleceu no dia 20 de Janeiro, no Riverside Community Hospital, em Riverside, California — contava 73 anos (completaria 74 no dia 25).
Dance With Me, Henry, At Last e Tell Mama são alguns dos títulos emblemáticos de Etta James, senhora de uma voz invulgar, e invulgarmente dramática, capaz de integrar referências muito variadas, do blues ao jazz, do rock'n'roll ao gospel. Com 28 álbuns de estúdio — o derradeiro dos quais, The Dreamer, saíu em Novembro de 2011 —, foi vencedora de seis Grammys e dezassete Blues Music Awards. Desde 1993, integrava o Rock and Roll Hall of Fame.

>>> O clássico At Last, por Etta James, e na homenagem que lhe prestou Beyoncé (na tomada de posse do Presidente Obama).




>>> Obituário de Etta James no New York Times.

Num encontro com Mathew Dear

De o alinhamento do novo EP Headcage, de Mathew Dear, chega um teledisco que acompanha o tema In The Middle (I Met You There). A realização é de Morgan Beringer. O tema conta com a colaboração vocal de Jonathan Pierce, dos The Drums.

Sound + Vision Magazine
segunda-feira na Fnac Chiado


Na próxima segunda-feira a primeira edição de 2012 do Sound + Vision Magazine apresenta um balanço do que de melhor aconteceu em 2011. E lança ideias para o que nos espera em 2012. O encontro fica marcado para as 18.30 de dia 23, como sempre na Fnac Chiado. Nomes como os de James Blake, Terrence Malick ou os Tune Yards constam da lista de autores que destacaremos.

Novas edições:
Vários artistas,
Rough Trade - Electronic 11


Vários artistas
“Rough Trade Electronic 11” 
Rough Trade 
3 / 5

A história conta-se todos os dias. Até mesmo à medida que vai acontecendo. É certo que o tempo e o distanciamento que estre traz nos permitem depois uma afinação dos pontos de vista. Mas podemos ir relatando o que vai sucedendo a par e passo com o que o mundo nos dá a conhecer. É talvez coisa mais parecida com uma ideia de jornalismo que de um relato segundo as regras de quem redige a história. Mas esta proposta de guardar um retrato do passado recente logo no instante depois dele acontecer tem a função acrescida de divulgação daquilo que eventualmente escapou até aos mais atentos. Falamos em concreto de uma antologia esta semana lançada pela Rough Trade e que nos coloca perante um retrato do que 2011 escutou no departamento das electrónicas. Se, à partida, a sugestão pareceria sempre ter o seu interesse, num ano de tão magra dieta de ideias nos campos das guitarras (raras sendo as propostas que vale a pena reter entre exemplos maiores da banda sonora do ano que agora acabou), o retrato apresentado ganha ainda mais sentido de oportunidade. O retrato faz-se em 22 temas. E desde logo podemos ora comentar os escolhidos como referir os que ficaram de fora. E se é notória a ausência de um James Blake (queira-se ou não, goste-se ou nem por isso, foi uma das figuras centrais do mapa da música – electrónica e não só – ao longo do ano), as não representações de nomes como os de Jai Paul, Jamie Woon, Washed Out, ou Son Lux podem explicar-se das mais variadas razões, uma delas o simples facto de não andarmos todos a ouvir (e a gostar) do mesmo. Ou seja, nada contra. Na verdade, e apesar da presença (incontornável, assinale-se) de John Maus ou Nicolas Jaar, a compilação através da qual a Rough Trade faz o retrato electrónico de 2011 vive mais da sugestão de nomes em afirmação ou figuras experientes algo afastadas do gume das atenções mediáticas. Da house revisitada pelos já reconhecidos Hercules & Love Affair às texturas criadas pelo ilustre Alva Noto aos pólos no gume da invenção que juntam nomes como Ford & Lopatin, Rene Hell ou Flying Lotus, o panorama revela um ano de visões com horizontes largos que lançam bases para que 2012 leve ainda mais adiante as ideias. O disco talvez falhe na vontade de alargar tanto o leque de escolhas ao ponto de desfocar (e diluir) uma eventual sugestão dos caminhos essenciais que 2011 trilhou. O mergulho pelas estéticas industriais na reta final do alinhamento ou o dispersar de atenções em propostas mais experimentais por um lado garante verdade ao retrato, por outro transforma o alinhamento num menu com excesso de sabores... Mesmo assim, uma boa ideia.

Viver a história (quando ela contece)


É no mínimo um privilégio podermos assistir à história quando ela acontece frente aos nossos olhos. E se tantas vezes imaginamos como seria ver Mahler a dirigir as suas obras em inícios do século XX ou estar numa plateia quando Liszt nos começou a habituar à ideia de ver um pianista como centro das atenções num serão de música, em janeiro de 2012 temos a oportunidade de contar, pela nossa frente, e ao vivo, com um dos maiores talentos na composição do nosso tempo. Com apenas 31 anos (e no currículo já uma multidão de obras, discos gravados, prémios e elogios), o britânico Thomas Adès é lisboeta ao longo desta e da próxima semana, num pequeno ciclo que a Gulbenkian nos propõe e que culminará com a apresentação de Polaris: Voyage For Orchestra, uma obra co-encomendada pela fundação que o compositor apresentará à frente da Orquestra Gulbenkian nos dias 27 e 28.

Ontem o primeiro concerto com obras e direção de Adès teve (como os demais deste ciclo) o mérito de juntar a sua música à de outros compositores (e outros tempos), mostrando como a história, mesmo quando a aponta noutros sentidos, vive de uma soma de factos que habitam, inevitavelmente, na memória do que acontece hoje e se projeta adiante. Foi por isso curioso que o concerto começasse com três estudos que Adès criou em 2006 tendo por base uma admiração maior pela música de François Couperin (1668-1733), cuja memória visitara já, nos anos 90, em Les Barricades Mystérieuses. Da música de Couperin (cujas marcas são reconhecíveis) Adès parte em busca de novos caminhos que ora descobre em abordagens mais centradas na textura ou na cor, o balanço entre o antigo e o presente, o visitante e o visitado, diluindo-se entre a orquestra (a Chamber Orchestra of Europe) frente aos nossos olhos.

Mais intenso ainda foi o momento em que Adès, já na segunda parte do concerto, deu voz ao seu absolutamente magnífico Concerto para Violino (de 2005). Herança direta das ideias desenvolvidas na sua segunda ópera (The Tempest, que a Gulbenkian apresenta em versão filmada esta segunda-feira), o concerto faz do violino uma voz que caminha o seu trajeto ao lado de uma orquestra que desenha motivos que ganham forma numa dinâmica circular, umas vezes afastando-se noutras aproximando-se da turba que se desenvolve ao seu redor. Há um jogo de contrastes nos sons, na energia, na fragilidade da voz do solista (que contou em cena com um soberbo Pekka Kuusisto) e um sentido de arrumação que é expressão do rigor técnico e da expressão de uma individualidade na composição de Adès.

Um Nuits d’Eté de Berlioz (com segura presença do tenor Toby Spence) e uma viçosa Sinfonia Nº 6 de Sibelius completaram o programa de uma noite que brilhou sobretudo pela oportunidade de nos colocar frente à música do século XXI.

Uma sinfonia pelo milénio

Mês Philip Glass - 20 


Se as primeiras obras de Philip Glass apontavam essencialmente no sentido da busca (e, depois, afirmação) de uma ideia formal, com o tempo a sua identidade filosófica começou a marcar presença em composições que foram assim aprofundando as características da sua personalidade e o seu mundo de opiniões e preocupações. Cedo ficou clara uma ideia de existência humanista e um interesse transversal pela exploração de misticismos de várias origens e das afirmações de diferença entre culturas que, no fundo, e depois de somadas, mais não são senão os tijolos que constroem a nossa identidade comum.

Ao pensar numa obra maior para o assinalar da viragem, do milénio Glass procurou expressar estra imensa variedade de expressão de ideias e crenças num mesmo espaço comum. Sob a forma de uma sinfonia vocal (mais próxima portanto do gume central da sua obra para os teatros de ópera), elaborou uma visão grandiosa que cruza textos de origens tão distintas como o grego, chinês, japonês, hebraico, sânscrito e diversas línguas indígenas, traduzidos para inglês. A Sinfonia Nº 5, até hoje a sua maior e mais interessante obra para orquestra (além, claro está, do trabalho para o mundo da ópera) junta assim as culturas e crenças do mundo sob uma voz comum expressando um canto de confiança e fé da humanidade sobre si mesma.

A sinfonia teve gravação pela Vienna Radio Symphony Orchestra e vários solistas, sob direção de Dennis Russel Davies. A edição, pela Nonesuch, surgiu na forma de CD duplo acompanhado por um packaging que reforça a ideia de recolha de textos antigos, cada qual impresso em folhas separadas, com cores diferentes, da soma do que os distingue surgindo uma vez mais essa mesma noção de identidade que vive da junção das diferenças e não da sua diluição.

Bruce Springsteen: álbum em Março

Anuncia-se um objecto de intensa carga política e influências de... percussão eletrónica e hip-hop: o 17º álbum de estúdio de Bruce Springsteen chama-se Wrecking Ball e tem lançamento marcado para 6 de Março. De acordo com notícia publicada pela Rolling Stone, a produção é partilhada por Springsteen, o velho aliado Jon Landau e Ron Aniello (que já trabalhou com Patti Scialfa, mulher de Bruce). Este é o primeiro tema divulgado: We Take Care Of Our Own.

Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

No regresso de Santigold

Com produção de Switch e dos Buraka Som Sistema, Santigold está de regresso com Big Mouth. aqui fica o teledisco.

Discos pe(r)didos:
Beloved, Happiness


Beloved
“Happiness” 
EastWest
(1990)

É ao escutar os sinais dos tempos que muitas vezes as bandas encontram o seu caminho. Os Beloved tinham já lançado alguns singles e mesmo um álbum de estreia (lançado em 1989, e então quase invisível ) quando deixaram que o clima que semana após semana conquistava adeptos nas noites dançantes de Londres (e Ibiza, em tempo de férias) sugerisse novos caminhos. Jon Marsh tinha já passado por outras aventuras e, depois de uma cisão de um núcleo original em 1987, manteve ativos os Beloved como um duo (com Steven Waddington). É ao sexto single, Your Love Takes Me Higher, editado em inícios de 1989, que surgem claramente animados por uma ideia pop iluminada por ideias escutadas na house e acid house (adiante revelando ainda sinais de interesse pelas emergentes formas de um novo techno). A aparente fragilidade da voz de Marsh, o melodismo seguro da composição e a solidez insistente da arquitetura rítmica da canção cativou atenções e não deixou dúvidas quanto ao caminho que deviam seguir. Tanto que, meses depois, em Outubro de 1989, apresentavam em The Sun Rising uma ainda mais expressiva assimilação das novas vitaminas libertadas pela club scene na forma de um tema que, no fundo, não deixava de ser uma canção de alma pop. Seguiu-se, já em 1990, Hello, o trio de singles servindo então de cartão de visita para um álbum que confirmou em pleno a solidez da visão abraçada pelos Beloved. O disco mostrava uma filiação atenta às novas revelações lançadas pela música de dança do seu tempo, mantinha firme uma identidade pop (ciente da canção como forma central a trabalhar), abria espaço a soluções se arranjos que sugeriam uma certa elegância (devidamente suportada por uma produção polida e eficaz). Juntamente com álbuns como World Clique, o primeiro dos Deee Lite ou Behaviour, dos Pet Shop Boys, Happiness é um disco quer marca o momento em que a pop escuta e integra na matriz das suas canções os ecos da revolução que a globalização do fenómeno house lançou em finais dos oitentas. Não repetiram nunca o encontro feliz de argumentos e ingredientes que aqui mostraram e, com o tempo, perderam viço e visibilidade. Mas em Happiness os Beloved assinaram um dos primeiros grandes discos da pop dos anos 90.

Thomas Adès em Lisboa


É algo avesso a grandes mediatismos, não é muito dado a entrevistas e, depois de erradamente citado, sendo-lhe atribuídas declarações que nem eram suas, não admira que Thomas Adès não seja uma figura com maior visibilidade no panorama atual da música. Ele é, contudo, um dos mais interessantes compositores do nosso tempo e, sem dúvida, o melhor exemplo de como o trabalho é chave para a definição de um rumo e o talhar de uma identidade entre os músicos da sua geração.

Com apenas 31 anos Thomas Adès é um compositor já com uma considerável obra gravada, sendo mesmo um nome central do catálogo atual da EMI Classics. A Fundação Gulbenkian inicia esta semana um ciclo dedicado à sua música que conta com a sua presença em Lisboa para dirigir uma série de concertos e, inclusivamente, estrear uma obra co-encomendada pela própria Fundação.

O primeiro concerto tem lugar já hoje pelas 21.00 horas. À frente da Chamber Orchestra of Europe, Thomas Adès vai dirigir os seus Three Studies from Couperin e o Concerto para Violino (com Pekka Kuusistu como solista). A noite inclui ainda Nuits d’Eté de Berlioz (contando com a voz de Toby Spence) e a Sinfonia Nº 6 de Sibelius.

A solo, ao piano

Mês Philip Glass - 18


Se numa primeira etapa da sua carreira Philip Glass compôs essencialmente para teclados eléctricos e electrónicos, a partir de certa altura o piano começou a entrar aos poucos no seu espaço. Em Glassworks apresentou um momento para piano solo. E em finais dos anos 80 dava por si a editar um primeiro disco reunindo uma série de peças originalmente compostas para piano (uma delas, Wichita  Sutra Vortex na verdade tendo na origem uma leitura de poemas com Allen Ginsberg).

O disco, que além de Wichita Sutra Vortex inclui Mad Rush (originalmente composta para órgão) e o ciclo Metamorphosis, surgiu numa altura em que, com menos obras (e menos solicitações) para o seu ensemble, o compositor começava a correr o mundo em recitais para piano, nestas peças encontrando algumas das obras que habitualmente apresentava a sós, frente a um piano e com plateia a seu lado, assumindo assim uma herança que remonta aos dias de Liszt. Glass afirmava então que fazer recitais era uma tarefa bem mais simples. Porque, em suma, não precisava nem de mais músicos, nem de equipamento, nem mesmo de um agente na estrada a seu lado. “Levava tudo na minha cabeça”, recorda em palavras que encontramos no booklet de Solo Piano.

Muitas destas obras ainda hoje integram os recitais a solo de Philip Glass e conheceram entretanto gravações por outros pianistas em diversas editoras. Com o tempo Philip Glass aprofundou o seu trabalho solista a piano e compôs novos estudos, que entretanto gravou já pela sua Orange Mountain Music.

'Cerro Negro' em Roterdão


O realizador português João Salaviza, que venceu uma Palma de Ouro em Cannes em 2009 com Arena, tem uma curta-metragem sua, com cerca de 20 minutos de duração, no programa da edição deste ano do festival de Roterdão. Com o título Cerro Negro, e resultado de uma encomenda do Programa Gulbenkian Próximo Futuro, o filme integra a secção Spectrum Shorts e será projetado nos dias 28 e 29. Cerro Negro centra atenções na vida de um casal brasileiro em Lisboa que luta contra uma separação forçada.

Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

O melodrama segundo Téchiné

Francês, herdeiro de Max Ophuls, Jean Renoir e François Truffaut, André Téchiné persiste (e bem) no labor melodramático — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Janeiro), com o título 'A arte perdida do melodrama'.

A degradação “telenovelesca” do espaço audiovisual exprime-se através de um contínuo desrespeito pelo classicismo cinematográfico. Assim, por exemplo, desde o mais banal senso comum até alguns discursos jornalísticos, a palavra melodrama passou a ser associada a um convencionalismo superficial e anedótico. Como todos os preconceitos, também este se alimenta de uma imensa ignorância histórica: como fazer a história do cinema sem considerar a beleza e a inteligência dos seus melodramas? De David W. Griffith a Woody Allen, passando por Max Ophuls, Vincente Minnelli ou François Truffaut, a escrita melodramática constitui um património de fascinante riqueza e complexidade, continuando a questionar-nos e, em particular, a questionar a nossa relação com o presente.
A estreia do mais recente filme de André Téchiné, Imperdoáveis, mesmo não sendo das suas obras mais perfeitas, confirma-nos a filiação do cineasta nesse espaço do melodrama, quer dizer, num sistema de narrativas em que as componentes afectivas se expõem sempre como elementos de uma complexa dinâmica social. Ao mesmo tempo, não há aqui nenhuma cedência a uma certa sociologia de bolso que tudo reduz a determinismos típicos de debate televisivo: as relações sociais apresentam-se indissociáveis das emoções das personagens, abrindo-se aos enigmas do inconsciente.
O filme é tanto mais interessante quanto consegue também contrariar o cinismo “romântico” que reduz as histórias de amor a um privilégio narrativo da juventude (chega a ser assustador o que, nas nossas sociedades, se faz em nome da “juventude”...). As personagens principais de Imperdoáveis são mesmo dois adultos já para além dos 50 anos: ele (André Dussolier), um escritor que decide instalar-se em Veneza, ela (Carole Bouquet), uma agente imobiliária que tenta arranjar-lhe uma casa. O seu envolvimento vai desenvolver-se num duplo sentido: lidando com a surpresa do seu amor, enfrentando as dúvidas sociais ou familiares que a sua ligação suscita. Mais do que uma “descrição” sentimental, Téchiné procura esses momentos em que as personagens deparam com uma diferença visceral: a que se revela entre os seus desejos e a percepção pública da sua relação.
A existência do melodrama está também condicionada pelas opções dominantes do mercado. E não apenas pelos títulos exibidos. Também pela visibilidade promocional que lhes é conferida. No caso de Téchiné, por exemplo, desde Os Tempos que Mudam (2004) que os seus filmes não chegavam às salas portuguesas, mantendo-se inéditos Les Témoins (2007), crónica vibrante dos anos 80 marcada pela descoberta da sida, e La Fille du RER (2009), subtil recriação de um fait divers parisiense. Agora, pelo menos, com Imperdoáveis, podemos reencontrar um dos mais importantes autores do cinema francês das últimas quatro décadas.

Oscar de melhor filme estrangeiro: 9 títulos

No processo que conduzirá às nomeações para os Oscars (24 Janeiro), a Academia de Hollywood acaba de divulgar a short list, de nove títulos, a partir da qual serão encontrados os cinco nomeados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. São eles:

* BÉLGICA, Bullhead, de Michael R. Roskam
* CANADÁ, Monsieur Lazhar, de Philippe Falardeau
* DINAMARCA, Superclásico, de Ole Christian Madsen
* ALEMANHA, Pina, de Wim Wenders
* IRÃO, A Separation, de Asghar Farhadi
* ISRAEL, Footnote, de Joseph Cedar
* MARROCOS, Omar Killed Me, de Roschdy Zem
* POLÓNIA, In Darkness, de Agnieszka Holland
* TAIWAN, Warriors of the Rainbow: Seediq Bale, de Wei Te-sheng

Distinguido em Berlim/2011 com o Urso de Ouro, e mais dois prémios de interpretação (para Leila Hatami e Peyman Moaadi), o filme iraniano Uma Separação parece perfilar-se como o candidato mais forte ao Oscar; recorde-se que, há dias, lhe foi atribuído o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.

Um mundo sem Wikipedia

Durante 24 horas, a Wikipedia impôs a si mesma um bloqueio: a versão original (inglesa) do site está em blackout, protestando contra dois projectos de lei em discussão nos EUA, na Câmara dos Representantes e no Senado. Segundo os responsáveis pela enciclopédia virtual, a nova legislação — genericamente, sobre as questões de copyright na Internet — poderá produzir exactamente o contrário do que pretende defender, ou seja, crescentes limitações à livre expressão dos cidadãos.
Escusado será dizer que este é um problema que nos envolve numa complexa teia de temas, dúvidas e reivindicações (já aqui referida num post do Nuno). Ao mesmo tempo, a sua simples manifestação leva-nos a experimentar, durante 24 horas, o real/irreal de um mundo sem Wikipedia... Dir-se-ia que vislumbramos, assim, a inelutável secundarização do valor enciclopédico tradicionalmente atribuído à impressão em papel. Daí a pergunta estranhamente marginal: por que é que, para além dos muitos méritos da Wikipedia, já nem falamos de um possível retorno ao livro?

St. Vincent (citando Elvis Costello)

Annie Clark, aliás, St. Vincent surgiu no dia 16 de Janeiro, no programa de Conan O'Brien, citando uma lendária passagem de Elvis Costello pelo Saturday Night Live, quando ele começou uma canção, interrompendo pouco depois e lançando-se noutra, dizendo: "I'm sorry, ladies and gentlemen, there's no reason to play that song" (a canção que Costello acabou por cantar, Radio Radio, é a mesma que, agora, St. Vincent interrompeu). A notícia está na Rolling Stone e o video fica aqui — canção finalmente escolhida: Cheerlader (do álbum Strange Mercy).

Pelas ruas (e a cores)

Os portugueses You Can't Win Charlie Brown têm um novo teledisco para um dos temas do seu álbum Chromatic, editado no ano passado. Aqui fica I've Been Lost, co-assinado por Pedro Gaspar, Vasco Gaspar, Nuno Sousa Dias e Francisco Nogueira.



Entretanto, no site da banda decorre uma petição para recolha de fundos com vista ao assegurar da sua presença no SXSW, no Texas. Vejam aqui como contribuir.

O silêncio como protesto


A Wikipedia fechou hoje os seus serviços em protesto contra duas propostas de lei em discussão no Senado e no Congresso dos EUA. Jimmy Wales, o fundador da Wikipedia, explica que estas leis, apesar de visarem o combate à pirataria e a defesa da propriedade intelectual, “estão tão mal escritas” que acabarão por ter consequências em outros serviços online, podendo ferir fatalmente a noção de internet livre e gratuita que hoje conhecemos.

Aqui podem ler mais sobre este protesto que representa, como alguns media já descreveram, uma primeira tentativa de luta organizada da jovem industria da Internet contra o poder estabelecido dos grandes grupos.

Numa nota pessoal posso afirmar que não sou adepto da pirataria. Nunca fui. Não concordo com a ideia de alguém usar, sem pagar, aquilo que é no fundo o resultado do esforço e trabalho de outros. Mas não consigo mais ouvir o discurso já estafado de alguns editores que continuam a achar que a pirataria é a causa única para a sua progressiva queda de vendas. É-o, de facto, e em parte significativa até. Têm parte da razão. Mas a pirataria não explica tudo.

E que tal se apontassem também a mira aos Governos da UE pelo facto de o IVA aplicado aos discos ser excessivo?

E que tal se lutassem também junto dos Governos por uma educação musical ao nível curricular que ajudasse a estabelecer mais cedo uma relação com a música que não lhe desse o ar de coisa descartável com a qual os mais novos hoje convivem dia a dia, juntando e apagando ficheiros áudio nos seus telemóveis e leitores mp3?

E que tal se tivessem uma política de preços mais justa que traduzisse o real valor de um CD?

E que tal se voltassem a ver a música como (também) uma arte que convém dignificar e não apenas um produto para vender até que a moda seguinte dite a tendência da estação seguinte?

E que tal se editassem melhores discos (e os promovessem de facto para eventualmente transformar em casos que chamam atenções) e não apenas assegurassem os lançamentos daqueles que sabem que garantidamente (ou quase garantidamente) fazem números?

Podíamos ficar aqui horas a fio a argumentar.

Que se legisle o direito à propriedade intelectual. Os criadores têm direito a ver o que é seu defendido. Mas que não se tome o braço quando se pede a mão, que pode bem ser o que estas propostas legislativas pedem.

Lana del Rey no SNL: a polémica...


É a “polémica” do momento... Ou, pelo menos, há quem queira que o seja. Mas o certo é que a atuação recente no Saturday Night Live em nada ajudou os argumentos dos que defendem (como é o caso dos dois autores deste blogue) a carreira de Lana del Rey.



A atuação é, no mínimo, coisa constrangedora. A voz é insegura (ou estava naquele momento insegura e, claramente, nervosa). A pose é de alguma tensão... Foi azar? Ou a expressão de uma fragilidade performativa que, defendida em estúdio, ao vivo ainda não está capaz de enfrentar uma plateia (e esta era de milhões de espectadores)?...
Nem todos têm de ser artistas de palco. Os Beatles deixaram de o ser depois de 1966 conscientes de que o que procuravam em estúdio era impossível de recriar ao vivo (mas deram, naturalmente, conta do recado quando subiram ao telhado em 1969 num regresso a um rock’n’roll mais direto).
Não vamos comparar situações, é claro. Mas que Lana del Rey não parece ainda preparada para enfrentar os palcos é verdade. Não embarquemos contudo na ideia, que alguns agora querem clamar, de que a cantora é coisa fabricada e falsa. Onde é verdadeira a voz de um contratenor? É fruto de um esforço que contraria o timbre natural... Mas ninguém diz que o canto de Andreas Scholl é coisa falsa e fabricada... Claro que não.
Se Lana del Rey resolveu (ou aqueles com quem ela trabalha resolveram) encontrar nesta voz, nesta pose, nesta música, o caminho para a cantora, que o façam com cuidado e trabalho. Em estúdio a coisa trabalha-se com rede (e acrescente-se que todas as canções que já escutámos são magníficas). Mas enquanto a voz não adquire a segurança para se expor ao vivo, resguarde-se. Os Heaven 17 nunca deram concertos nos anos 80 e foram uma das mais interessantes bandas da pop electrónica de então. Seriam falsos e fabricados? Nah...



Só para baralhar ainda mais a coisa, esta é uma atuação em Novembro na TV alemã... E correu bem melhor. O nervosismo explica assim parte do desaire no SNL. Mas há fragilidades que exigem trabalho com um professor de canto. E tempo. Porque temos sempre tanta pressa em tudo?

Novas edições:
Millagres, Glowing Mouth


Millagres 
“Glowing Mouth” 
Memphis Industries
2 / 5

Olhando para as listas semanais de lançamentos de discos uma primeira conclusão é imediata: há edições a mais. E da bíblica (não por ser grande, mas antiga) tarefa de separar o trigo do joio, a quantidade de títulos inconsequentes que vão surgindo supera de longe os que valem a pena reter (ou por serem musicalmente estimulantes ou por encontrarem entusiasmo no mercado). À partida o álbum de estreia dos Millagres (sim, com dois “eles”) poderia parecer coisa a ficar de fora desta lista reduzida de discos que o filtro salva e, portanto, candidato a morar entre a dose mais vasta que o tempo diluirá rapidamente entre a multidão dos esquecidos. Mas o grupo de Brooklyn pode guardar-nos surpresas. Não que o seu álbum seja coisa que valha a pena escutar e registar entre as peças que fazem a história da música do nosso tempo. Basta correr entre o que sobre eles se tem escrito para desde logo reparar na quantidade de vezes que são referidos nomes como os Grizzly Bear e Coldplay, pontualmente surgindo ainda comparações com uns Elbow ou British Sea Power. Reparando com mais atenção, verificamos que raramente o que se escreve sobre o álbum de estreia dos Millagres pouco vai além da citação de referencias e comparações. E não é preciso escutar muitas vezes o disco para compreender porquê. De fio a pavio, o que escutamos em Glowing Mouth é uma sucessão de canções cuidadosamente construídas, gravadas e produzidas, talhadas à imagem de modelos, raramente revelando quem, afinal, são os Millagres. Não se trata exatamente de uma coleção de pastiches, mas de tão encostadas aos modelos, as canções acabam por não trazer nada de profundamente novo ou de, pelo menos, verdadeiramente estimulante, o que não é contudo sinónimo de má escrita ou desfocagem de ideias (de resto, o tema-título até é um momento bem agradável). O disco nasceu depois de uma pausa de convalescença do vocalista, as canções refletindo a busca de um olhar amadurecido sobre a vida e o mundo ao seu redor. Revela uma lógica de arrumação que, não exigindo grande esforço ao ouvinte, poderá agradar aos que não são clientes da música mais talhada ao gosto do momento. De resto, entre a familiaridade com os modelos a quem as canções piscam o olho e esta ideia de casa limpinha e arrumadinha, com ocasional hino pronto a servir, mora um sério candidato a correr mundo pelos palcos dos festivais, com fiéis adoradores de gosto alternativo ma non troppo a cantarolar as mais conhecidas. O disco, convenhamos, não é uma desgraça. Nada disso! É profissionalmente competente (nada preguiçoso, antes apenas pouco imaginativo). Revela um trabalho de composição e de produção que parece certo do caminho que quer tomar (e nada contra isso, que o gosto de cada um é livre de seguir onde entenda ir). Mas no fim o que fica da audição de Glowing Mouth é quase nada... Retomando a ideia do início, o álbum seria daqueles que seguiria direitinho para o montão dos candidatos a ser esquecido. Mas se alguns promotores de concertos reconhecerem aqui o potencial para o sucesso em palco festivaleiro, o milagre acontecerá e os Millagres acabarão a dar que falar.