Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

sugestão para o fim-de-semana

Sábado, pelas 16h, sessão de autógrafos com os autores de Moli, uma edição da Tcharan, na livraria Papa-Livros, no Porto.

Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

Álbuns sem Palavras: jogar e ler de muitas maneiras

O mais recente número da revista online Imaginaria traz um longo artigo sobre os livros-jogo e os álbuns sem texto: El juego de Pululeer y juegos para releer.

Originalmente publicado na revista Bloc, aqui se apresentam vários exemplos de construção de releituras através de jogos de observação. Da descodificação de um elemento gráfico à relação entre o particular e o contexto na página, assim se desenvolvem técnicas de leitura de imagens e de interpretação de sentido.
No final do artigo há alguma bibliografia e links para outros artigos sobre o mesmo tema.

pela sétima vez... e outra história, de António Torrado


Gonçalo e a Bicharada... e outra história, António Torrado (texto), Catarina Correia Marques (ilustração), Civilização

Desta vez, um menino não compreende porque não pode levar para casa um animal do jardim zoológico. O avô contorna a impossibilidade com um pequeno toque de mágica, bem a calhar com a imaginação do pequeno.
Noutra história, é uma moeda que se perde do seu dono para regressar à sua mão, depois de um passeio pelas redondezas.

As ilustrações de Catarina Correia Marques alimentam o universo onírico de Gonçalo e acompanham o percurso acidental da moeda. A paleta de cores é ampla sem ser demasiado garrida, e o sentido descritivo das imagens conferem um contexto familiar às histórias.

Triplo Sentido

Com os três livros de Béatrice Rodriguez na mão (todos editados pela Bags of Books), as narrativas tornam-se ainda mais divertidas. Depois de O Ladrão de Galinhas, A Pesca e A Vingança do Galo não desiludem no efeito surpresa da intriga e no humor dos acontecimentos e das personagens.

Há, em todos os livros, uma missão que enfrenta diversos infortúnios e dificuldades imprevisíveis, que a tornam muito mais interessante aos olhos de quem lê.

Em O Ladrão de Galinhas, uma raposa rouba uma galinha e o urso, o coelho e o galo lançam-se numa perseguição sem tréguas para salvar a companheira. Em A Pesca é a Galinha que persegue, com o caranguejo, o peixe que conseguiu pescar e logo lhe foi roubado, e que tem de levar para casa para alimentar a família. Em A Vingança do Galo, este encontra um ovo que toma para si e leva-o para casa por caminhos e lugares bizarros e acidentados. No final de cada narrativa há uma surpresa que pode ou não decorrer daquela missão.

O seu cumprimento não tem o desfecho esperado, ultrapassando as expectativas que se vão criando ao longo dos acontecimentos. Muitas dessas expectativas resultam do comportamento das personagens e de uma lógica que tendencialmente preside ao mundo. Em última análise, cada livro desmonta ideias feitas sobre essa dita lógica, de cariz social e moral. É uma segunda linha de leitura, mas nessa subtileza reside, com a sua estética próxima da animação e do cartoon, a riqueza destes álbuns.
A construção das personagens deve muito à sua dinâmica corporal: o urso sempre em esforço, arqueado, pesado, a ficar para trás; o coelho, lestro, sempre motivado, a olhar para quem quer alcançar, esbraceja, ajuda o urso no caminho, fala muito; o galo é sério e carrancudo, o símbolo do poder (que é desinvestido da sua função e se sente frustrado); a galinha é independente, bem disposta e pró-activa; a raposa é calma, apaixonada, meiga e dedicada.

Tudo se vê pelos gestos e por alguns apontamentos como os óculos de sol da galinha, os dentes arreganhados do galo, as molduras em casa, as mantas no colo dos amigos quando repousam no final...

As casas são sempre espaços acolhedores que se aproximam do ambiente doméstico quase idílico e contrastam com os lugares hostis e fantásticos por onde as personagens se movimentam nas suas aventuras.

Assim, a narrativa equilibra os elementos próximos da realidade (normalmente no início e no final) com os elementos fantásticos próprios dos enredos de acção. Tudo funciona e, juntando os três álbuns, o quadro fica completo. A galeria de personagens que dá corpo às histórias ganha outra dimensão e o leitor pode ler e reler cada um dos livros para adensar as suas identidades. Porque cada intriga depende essencialmente do papel que as personagens desempenham e da forma como se relacionam.

E a empatia que com elas se estabelece abre a porta para um compromisso com a liberdade para cada um escolher ser e fazer o que sente e sabe. Sem paragonas programáticas ou panfletárias.
Parece fácil, não é?

Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

Apontamentos sobre a leitura de Emigrantes de Shaun Tan

Ontem e hoje mostrei as duas primeiras partes do livro Emigrantes (Shaun Tan, Kalandraka) às cinco turmas de 10º ano da Escola Secundária de Montemor-o-Novo.

Porque é que o álbum não tem texto?
- Porque o emigrante não percebia a língua do outro país.
- Esta pode ser a línguagem de todos os emigrantes.
- Porque assim todos os emigrantes podem ler.
- Para todos o poderem ler.


A propósito das sombras dos tentáculos ou da cauda de um animal ou de um monstro reflectida nas casas do lugar de onde parte o emigrante:


- É a protecção do pai. Quando ele se vai embora a imagem fica mais esbatida, porque a mulher e a filha ficam desprotegidas.
- É um monstro, ou o diabo. A cidade está amaldiçoada.
- ... Pela fome...
- Por isso é que ele emigra.

Que sensações ou sentimentos têm depois de lermos a duas primeiras partes do livro?

- Tristeza!
- Medo!
- Solidão!
- Saudade!
- Ansiedade!
...
- Esperança... (Ouve-se ao fundo da sala.)

Terça-feira, Janeiro 17, 2012

Quintas no Palco em Torres Vedras

As Quintas com Livros (comunidade de leitores da Biblioteca Municipal de Torres Vedras) já são famosas pelas suas propostas. Depois de levar livros e leitores a algumas quintas do concelho, onde se discutia a leitura à volta de uma mesa repleta de iguarias caseiras e tradicionais, agora é a vez de unir sinergias com o Teatro Cine.


Assim, para o primeiro trimestre de 2012, desafiam-se os leitores a conversar sobre peças de teatro a que poderão depois assistir gratuitamente no Teatro.
A primeira sessão é sobre o clássico Romeu e Julieta, de Shakespeare, no dia 19 de Janeiro, e a peça estará em cena nos dias 3 e 4 de Fevereiro.

Levar a biblioteca para fora, levar a literatura para o mundo, trazer outras artes para a conversa, tudo isso é uma experiência de leitura. Ler é relacionar constantemente o texto com o leitor e aquilo que entende por vida e mundo. Quando se fala de criatividade, é disto que se fala. Boa e longa vida às Quintas com Livros!

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

Morreu bartolomeu Campos de Queirós

Vermelho Amargo, Bartolomeu Campos de Queirós, Cosac Naify

Escritor de referência na literatura infantil e juvenil, o brasileiro Bartolomeu Campos de Queirós foi também promotor da leitura, estando este ano nomeado para o Prémio Hans Christian Andersen. Foi galardoado com o Prémio Jabuti , um dos mais importantes do Brasil, com a narrativa juvenil Ciganos, em 1983. Participou nos projectos ProLer e Por um Brasil Literário. Venceu igualmente o Prémio Ibero-Americano SM de Literatura Infantil e Juvenil.
(A notícia é do Jornal Público)
Não há edições das suas obras em Portugal.

Sexta-feira, Janeiro 13, 2012

Sugestão de fim de semana: ide visitar a Ilustrarte 2012!

O Museu da Electricidade encheu-se ontem para a inauguração da 5ª edição da Ilustrarte, a segunda no Museu da Electricidade em Lisboa. Para além da mostra dos trabalhos dos cinquenta ilustradores seleccionados, entre os quais os originais do vencedor Valerio Vidali (com Um Dia Um Guarda Chuva, Planeta Tangerina) e as duas menções honrosas, também se pode percorrer uma exposição individual de Martin Jarrie, que foi jurí nesta edição e menção honrosa na edição de 2009, e uma mostra bibliográfica dedicada à obra de António Torrado.

Depois das malas, este ano foi a vez dos arquitectos surpreenderem o visitantes com pequenos aparadores (ou mesas de cabeceira) sobre os quais um candeeiro ilumina as ilustrações que as gavetas desvendam. O efeito visual é de ordem, claridade, intimidade. Tudo muito clean, por via do estilo do mobiliário e do branco, como se pode ver na foto que roubei à Sílvia Borges Silva, no seu Palácio da Lua.


Se esteticamente a ideia é muito agradável e coerente do ponto de vista da relação do observador com o objecto observado, do ponto de vista da funcionalidade esta dinâmica provoca-me algumas dúvidas. As crianças não chegam às gavetas do topo, o mesmo acontecendo, eventualmente, com alguém numa cadeira de rodas. Por outro lado, e excluindo a eterna questão dos reflexos de luz sobre as imagens (como acontece em quase todas as exposições), a relação de proximidade é muito maior do que ao vermos uma moldura na parede. Podemos deter-nos num pormenor com mais rigor e a necessidade de abrir as gavetas torna o processo mais individual e íntimo, definindo melhor o espaço de cada um.

Todos os trabalhos que já foram editados contam com os livros em cima do móvel (tal como nas edições anteriores). A possibilidade de folhear o livro e comparar a impressão com o original altera a perspectiva sobre a imagem, para além de nos permitir contextualizá-la.

Por último, convém não esquecer os dois excelentes catálogos: o da Ilustrarte 2012 e o de Martin Jarrie, que poderão ser adquiridos no Museu da Electricidade. À imagem do que aconteceu nas edições anteriores e noutras exposições comissariadas por Eduardo Filipe e Ju Godinho, os catálogos mantêm uma complementaridade à exposição que se prolonga no tempo.

Um Livro Para... na Livraria Pó dos Livros



Estarei, durante quatro sessões, a partilhar bons livros para crianças com os adultos interessados. Será na Livraria Pó dos Livros, em Lisboa, sempre às 2ªs feiras, quinzenalmente. A primeira sessão é já no dia 30 e o tema são os Medos.... Todas as informações no blogue da Pó dos Livros.

A ideia é discutirmos sobre três aspectos principais: a quem se destinam os livros, porque são bons e como poderão ser abordados. Em 90 minutos não haverá tempo para um catálogo infinito mas tentaremos abrir portas, tanto quanto possível, de abordagens e estilos diversos.

Estão todos convidados!

Quarta-feira, Janeiro 11, 2012

os jovens leitores e as listas

Não é novidade que as crianças e, principalmente, os adolescentes gostam de listas. Permite-lhes organizar e mostrar o seu conhecimento do mundo, e aceder ao conhecimento dos outros, com processo de socialização.
O site do The Guardian dedicado aos leitores infantis e juvenis lançou-lhes o desafio de enviarem listas de tipos, temas ou géneros de livros que lêem. O top 5 de poesia já está disponível e é convidativo (Roald Dahl e Michael Rosen constam da lista).
Pena a imprensa em Portugal não apostar num modelo semelhante. Seria muito útil para conhecermos melhor os adolescentes. Até lá, sempre podemos ir espreitando as leituras no Children's Books do Guardian.

Emigrantes

Andei a pensar no livro que levaria para a minha próxima sessão de Leitura de imagens com as turmas do 10º ano da Escola Secundária de Montemor-o-Novo. O primeiro foi o Eu Espero, da Bruaá, com resultados muito bons. Agora queria algo diferente, e estive às voltas com três livros. Depois parei e assumi uma verdade que tento sempre passar aos pais e professores nas acções de promoção: devemos falar de livros de que queremos falar.
E neste momento apetece-me muito falar de Emigrantes (Shaun Tan, Kalandraka). Ainda não sei como vou fazer, mas acho que é o livro ideal. Ideal porque é magnífico, em primeiro lugar. E a excelência deve ser partilhada e divulgada. Em segundo lugar porque é uma novela gráfica sem texto, o que eventualmente surpreenderá muitos alunos. Em terceiro lugar porque concilia imagens que todos (ou muitos de nós) temos sobre o tema da emigração, com elementos surreais que, colocados no seu contexto, são apenas outra possibilidade simbólica e narrativa para a realidade, mas não deixam de se enquadrar nela.


O sépia dá ao álbum a grandiosidade de um álbum de fotografias antigo, que é coerente com a visão que os emigrantes têm do barco que aporta a Nova Iorque. O desenho, a carvão, realça as sombras e o lado soturno, ambíguo, desconhecido da vida. O detalhe do figurativo aproxima-o da fotgrafia e dá ao leitor informações preciosas sobre o protagonista e tudo o que vai encontrando.


Também o tamanho das vinhetas é determinante para a progressão narrativa, conferindo momentos de suspensão nas imagens de página inteira ou dupla página.

Há igualmente uma relação entre o pormenor de um objecto, uma figura ou uma situação que se apresenta numa vinheta mais pequena e a escala monumental da cidade, ou do mar, ou até do ar, nas ilustrações de página dupla. Tudo funciona por gradação, luz, sombra, contraste e detalhe. Ao fundo branco da narrativa principal respondem os fundos escuros das narrativas encaixadas, outras narrativas de emigração.


As guardas são igualmente impressionantes, pelos desenhos de rostos em pequenas vinhetas todas ordenadas, que imediatamente centram o leitor no universo dos álbuns de fotografias.


Um elogio à memória: narrativa, visual, histórica, afectiva. Sem em momento algum deixar de ser profundamente original.


Apesar de não ser um álbum para crianças, ou melhor, de não ser um álbum que as crianças possam ler como nós, por lhes faltar o conhecimento do mundo necessário, este livro é transversal e universal.

Shaun Tan venceu o Prémio ALMA em 2011, começando a ser editado em Portugal na mesma altura. A Árvore Vermelha (Kalandraka) e Os Contos dos Subúrbios (Contraponto) são dois livros muito interessantes, onde se encontram diversos aspectos comuns à obra do autor. Contudo, Emigrantes tem de ser destacado porque esmaga pela sua dimensão.


Resta apenas dizer que não será esta a abordagem com os alunos do 10º ano... Esta é só a razão da escolha!