12-07-2009

A propósito do 'post' sobre o Dr. Laureano Barros, aqui no Equinócio de Outono, no dia 8 de Julho: eu sou um aprendiz-de-bibliófilo, tenho algumas primeiras edições interessantes, exemplares em óptimo estado de autores como Teixeira de Pascoaes ou Eugénio de Castro, Camilo Pessanha ou António Nobre, Guilherme de Faria ou Wenceslau de Moraes; folheio livros antigos e arrumo a minha biblioteca com a mesma atitude com que toco numa escultura da Karin Somers, com que ouço Amiina ou com que cuido das magnólias no jardim; na verdade, são acções que guardam uma porção da alegria que sinto quando abraço os meus filhos e implicam a consciência de que a vida de todos os dias é um exercício de perfeição. A propósito do referido 'post': comentava com o meu amigo livreiro Adelino Pires que o modo como o Dr. Laureano Barros se relacionou com os livros e com as pessoas, possibilita-nos uma aprendizagem fundamental da condição de bibliófilo: uma boa biblioteca pessoal necessita de tempo e dedicação, necessita de livros raros e em bom estado, mas isso não basta para que ela perdure. Com efeito, tudo o que temos se dispersa no fim... menos o amor e a memória das pessoas com quem partilhamos estes nossos breves dias.


Gabriel Pacheco

Ontem disse à Inês Fontoura que a vida é uma de duas coisas: algo verdadeiramente com sentido ou algo completamente absurdo. Não há meio-termo. E praticamente todas as pessoas que eu conheço estão no meio-termo: se admitissem que não faz sentido, tornar-se-iam estoicas, comovedoramente tristes, sem esperança e sem medo, até enfrentar um inexorável suicídio; se porventura descobrissem que a vida tem sentido, tornar-se-iam ascetas, apartar-se-iam da sociedade e das suas feiras de vaidades e horrores, passariam a contemplar a verdade, a bondade e a beleza num estado idílico e edénico. Na verdade, o que me magoa é não ser ainda um asceta...

11-07-2009

A música que eu ouço é normalmente trazida pelo Juca. Com efeito, tenho tendência para não querer conhecer projectos novos. Confesso que não sou muito permeável a novidades, nesta feira de novidades… Fundamentalmente ouço uns quatro ou cinco projectos com que me identifico profundamente, música sacra (do gregoriano a Bach, de Palestrina a Olivier Messiaen) e um ou outro CD ocasional. Só o Juca sabe exactamente a música que me afecta e conhece e respeita o meu ritmo de acolhimento de um novo projecto. Ontem trouxe-me um CD verdadeiramente inefável: Light in August, de Danny Norbury.

10-07-2009

não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores
José Tolentino Mendonça . Baldios (Assírio & Alvim, 1999)


Em Setembro publicarei Diáspora . poesia 2000-2009.



A edição de Diáspora vai assumir e integrar uma década de poesia. Com efeito, não se trata de uma 'poesia reunida' ou de uma 'antologia', mas do resultado definitivo e depurado da poesia que escrevi entre 2000 e 2009, editada ou inédita, traduzida ou incluída em antologias ou revistas literárias. Fundamentalmente, Diáspora resulta da necessidade de redefinição da minha poética, o que implica entender esta década como um tempo de descoberta e definição de um universo poético particular que se assume, redescobre e redefine.
Em Diáspora vão reimprimir-se poemas de Para morrer (2004), O fogo e outros utensílios da luz (2005) e Oráculo (2006), alguns deles de acordo com as primeiras edições; outros foram alterados e outros foram praticamente reescritos. A estes poemas juntam-se os inéditos de Ataúde e, no final, é reimpresso Zerbino.

09-07-2009

Por estes dias, acolhi na minha biblioteca a 1ª edição da Clepsidra, de Camilo Pessanha (Edições Lusitânia, 1920). Só conhecendo esta 1ª edição, pude entender onde Guilherme de Faria foi buscar inspiração para a publicação dos seus Poemas, em 1922: o tipo de papel, o modo de apresentação dos títulos, a disposição dos sonetos, etc. Curiosamente, o nome completo do poeta é Guilherme Augusto Pessanha de Sequeira Braga Leite de Faria e, pela parte da mãe, era parente afastado de Camilo Pessanha.
Eu li a Clepsidra pela primeira vez em 1992, numa edição da Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, que me custou 390$. Estudava, então, na Escola Secundária Rodrigues de Freitas; lembro-me que a minha Mãe dava-me dinheiro para a senha do almoço na cantina da escola e eu, como não podia pedir-lhe mais (nessa altura vivíamos com dificuldades económicas), não almoçava e comprava todas as semanas um livro dessa colecção. Só parei quando já não conseguia esconder que a minha biblioteca estava a aumentar e o meu peso a diminuir proporcionalmente.
Hoje, ao preparar a publicação do poema 'Interrogação' no Equinócio de Outono, diante dos dois exemplares, senti a comoção profunda de folhear a 1ª edição da Clepsidra e o enternecimento de reencontrar a edição de 390$.



Interrogação

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno,
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minh'alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Camilo Pessanha

08-07-2009

Hoje, no Público, li um excelente artigo do jornalista Paulo Moura, sobre o Dr. Laureano Barros. No final de Maio foi leiloada a 1ª parte da sua impressionante biblioteca pessoal. Deixo aqui o texto de Paulo Moura; vale mesmo a pena lê-lo:

Laureano Barros
O homem que fugiu com uma biblioteca



Ele planeava tudo. Era organizado, previdente e perfeccionista. Inflexível com a verdade, a liberdade, a independência, o rigor e a pontualidade, exigia-os de si e dos outros. Laureano Barros tinha, portanto, poucos amigos, mas bons. Antes de morrer, fez uma lista das únicas cinco pessoas que deveriam ser avisadas. Arnaldo Sousa era uma delas.
Costumavam combinar encontros, para conversar. Arnaldo, de 46 anos, que é poeta e professor de Filosofia, conduzia até ao portão da Quinta da Fonte da Cova. Estacionava e esperava no carro, olhando para o relógio, até três minutos antes da hora que tinham marcado. Era esse o tempo exacto que levava a chegar, a passo, à porta da casa. Cronometrara-o escrupulosamente. Só então saía. Era um dos contratos que tinham, ao longo de mais de 20 anos de amizade: pontualidade absoluta. Outro era sobre as "datas obrigatórias": era proibido desejar Feliz Natal no dia de Natal, ou dar os parabéns no dia do aniversário. Nessa data, também não se ofereciam presentes.
Outro contrato era a sinceridade. Nunca estariam um com o outro se não o desejassem. Quando fosse preciso dizer não, di-lo-iam sem receio. Um dia, Arnaldo teve vontade de apresentar Laureano a um psiquiatra seu amigo, que o visitava em Ponte da Barca. Há muito que falava a Zeferino do velho coleccionador de livros Laureano Barros, a pessoa que mais admirava no mundo. Telefonou para a quinta e explicou a sua intenção, cheio de entusiasmo. "Posso levá-lo?"
"Não." Arnaldo poderia ter perguntado porquê, mas ficou satisfeito. Respeitar a vontade do amigo era uma obrigação contratual. "Não quer saber por que eu disse 'não'?", concedeu Laureano. "Não, não quero saber. Disse 'não' e isso basta-me." "Mas eu quero explicar-lhe: é que eu não tenho interesse em conhecer mais ninguém." Resposta implacável. Mas ao mesmo tempo a chave para uma certeza auspiciosa: quando Laureano dissesse "sim", a sua vontade seria genuína.
Recebia Arnaldo para almoçar, com toda a formalidade e etiqueta. Sentava-o a seu lado, mandava servir os pratos que sabia serem os seus predilectos. Ficavam na sala a conversar, durante cinco, seis horas. A empregada, a sr.ª Mariquinhas, entrava apenas quando Laureano tocava a campainha. Por vezes, no Verão, almoçavam na cozinha. Aí, Arnaldo reparou que Laureano lhe oferecia sempre a cadeira onde ele próprio se costumava sentar, em frente à porta, que dava para as árvores da quinta. Uma vez perguntou-lhe e Laureano explicou a razão: "Porque tu és poeta, e os poetas devem ver a natureza."
Falavam de todos os assuntos: literatura, política, filosofia, ciência, a vida e a morte, a amizade e o amor. Laureano era especialista em tudo. Amava a razão, a oratória e o contraditório. Esmiuçava os temas até às últimas consequências. No fim, quando Arnaldo chegava a casa, não era raro ter já vários telefonemas do amigo, que entretanto se lembrara de mais uma achega, mais um argumento. Ligava-lhe e ficavam mais umas horas a debater um pormenor qualquer. Não havia matérias irrelevantes. Todas eram dignas de elucubração e polémica. A escolha do nome de um cão, por exemplo.
Após uma tarde de discussão, decidiram chamar Preto a um novo cachorro da quinta, por causa das manchas escuras que apresentava no pêlo. À noite, porém, Laureano telefonou a Arnaldo. Mudara de ideias. Ali perto, explicou, estavam hospedados, devido às obras da barragem do Alto Lindoso, alguns trabalhadores africanos. Poderiam ficar ofendidos quando ouvissem chamar pelo cão, que acabaria por ser baptizado simplesmente como P, já que, segundo vários livros da especialidade consultados por Laureano, os canídeos só fixam a primeira consoante do nome.
Outro contrato, que também foi cumprido: Arnaldo, que durante algum tempo foi director do jornal da terra, não deixaria que O Povo da Barca desse a notícia da morte de Laureano, quando ocorresse.

A juventude
Foi quando foi viver para o Porto, para frequentar o liceu, que o jovem Laureano Barros começou a comprar livros. Frequentava os alfarrabistas e iniciou uma colecção, tal como fazia com os paliteiros, bengalas, relógios, louças, antiguidades ou alfaias agrícolas. Mas ao contrário de toda a traquitana que sempre gostou de trazer para casa, aos livros ergueu uma fidelidade. Não os vendia, não desistia nem se esquecia deles. Começou a acumulá-los na moradia que o pai lhe comprou para se instalar na cidade, na Foz, continuou a ampliar a colecção enquanto viveu nessa casa com a primeira mulher, Leonor, e depois quando se divorciou dela e das seguintes. De cada vez que se separava da mulher com quem vivia (e foram mais mulheres do que os três casamentos), deixava-lhe tudo: a casa, os móveis, as antiguidades. Mas levava consigo a biblioteca. Eram livros de Matemática, de Filosofia, de Botânica, mas acima de tudo de Literatura Portuguesa, e, cada vez mais, volumes curiosos e raros, obras pouco conhecidas, primeiras edições. Por alguns autores tornou-se obcecado e comprava tudo. Depois estendeu a obsessão a todos os escritores. Comprava e lia, várias vezes, os livros de Camilo, Eça, Pessoa, Torga. Sempre teve insónias, e passava-as a ler. Dono de uma memória prodigiosa, sabia páginas e páginas de cor. Perdia horas a arrumar os livros, a manuseá-los, a acariciá-los.
Para ele, eram um salvo-conduto contra a efemeridade de tudo o resto. E também contra a desilusão, como se nada, além dos livros, estivesse à altura dos padrões de excelência que estabeleceu. Do grau de pureza que cedo definiu para a sua vida.
Tendo concluído a licenciatura em Matemática com alta classificação, Laureano foi logo convidado, com 21 anos, para assistente de Rui Luís Gomes, um dos professores mais prestigiados da Faculdade de Ciências do Porto. A bela colega Leonor Moreira obtivera, no secundário, a segunda melhor classificação a Matemática (19) e ele (que teve 20) casou com ela, quando eram ambos estudantes no curso de Matemática da Faculdade de Ciências. Teriam três filhos: Carlos, Rui e Margarida, futuros médico, arquitecto e professora de Matemática.
Mas Rui Luís Gomes era um antifascista incorrigível. Em 1947, a seguir a vários episódios pouco felizes com a PIDE, foi expulso da faculdade, juntamente com outros dois matemáticos, José Morgado e, claro, o recto e incorruptível Laureano Barros, após terem enviado ao Governo uma carta protestando contra a prisão de uma aluna.
Desempregado, Laureano, então com 26 anos, montou uma sala de explicações, em frente ao mercado do Bolhão. Durante mais de 20 anos, viveu disso e pouco mais. Os rendimentos das propriedades familiares de Ponte da Barca, quando chegavam, convertiam-se imediatamente nalguma edição rara de Camilo ou Eça. O mesmo acontecia com as poucas remessas de Angola, onde o pai entretanto se estabelecera e constituíra outra família. Qualquer dinheiro extra era aplicado em extravagâncias bibliófilas, que incluíam, por exemplo, contratar um estudante para lhe catalogar a biblioteca.
Foi o primeiro emprego de Alexandre Outeiro. Laureano Barros pagava ao jovem de Ponte da Barca a estadia numa pensão, mais um salário simbólico, para ele passar os dias a fazer fichas dos livros no T2 que, depois de se divorciar pela segunda vez, arrendara na Rua de Sá da Bandeira. Alexandre cumpria o seu horário de trabalho sozinho no apartamento, mas por volta do meio-dia recebia um telefonema de Laureano convidando-o para o almoço num restaurante, onde passaria a refeição a falar-lhe de livros, cultura e aventuras.
Alexandre ficou a saber, maravilhado, como Laureano, que nunca foi comunista, deu guarida, na casa da Foz, ao militante comunista na clandestinidade Rogério de Carvalho, ou como se encontrou, a meio da noite, num pinhal em Vila do Conde, com a linda militante clandestina do PC Cândida Ventura, que ele não conhecia, para lhe passar uma pasta com documentos secretos. Ou ainda como numa aldeia chamada S. Martinho da Anta havia um velho olmo negro, descrito por Miguel Torga...
Nesta altura já Laureano e Alexandre eram amigos, e davam passeios de vários dias pelo Norte do país, a convite de Laureano, que pagava comidas e dormidas, mas no carro de Alexandre, porque o outro nunca teve carta de condução. Mesmo assim, Alexandre sabia que tinha de chegar ao encontro com o amigo à hora exacta que haviam marcado. Se se atrasasse um minuto, Laureano era capaz de, zangado, ir sem abrir a boca do Porto a Braga. "Ele exagerava", admite Alexandre Outeiro, que é hoje director de uma delegação da Caixa Geral de Depósitos em Gaia. "E sabia que exagerava. Mas era assim. Um homem de um rigor extremo, em tudo o que fazia."

A biblioteca
Depois do 25 de Abril de 1974, Rui Gomes da Silva regressou do exílio no Brasil para ser nomeado reitor da Universidade do Porto. A primeira coisa que fez foi convidar Laureano para dar aulas na Faculdade de Ciências. Relutante, ele aceitou, mas, por discordar dos arbitrários saneamentos de professores, demitiu-se meses depois. Ainda voltou às explicações e leccionou num colégio, mas não se adaptou à balbúrdia da época e, após a morte do irmão, Joaquim, em 1976, mudou-se definitivamente para Ponte da Barca. Ia no terceiro casamento, com a professora de Francês Maria José Caleijo, que continuou a viver no apartamento de Sá da Bandeira. Os livros, esses, viajaram com Laureano. Agora, que herdara a casa grande da família, tinha espaço para eles.
Primeiras edições de Fernão Mendes Pinto, Camões, Vieira, Verney, Eça, Pessoa, Antero ou António Nobre, obras juvenis de Guerra Junqueiro, Torga ou José Gomes Ferreira, edições raras de poetas quinhentistas – a biblioteca começou a crescer em majestade, a tornar-se maior do que si própria, misteriosa e imortal, exigindo reverência e devoção. Laureano foi ficando solitário. Ninguém sabe ao certo porquê.
Laureano Alves, primo de Laureano Barros, acha que ele se tornou um homem desiludido. "Passava muito tempo sozinho, embora adorasse conversar." O comportamento dos outros entristecia-o. Principalmente o dos mais comprometidos com o mundo. Por isso foi cortando elos. Recusou tudo o que lhe ofereceram. Foi convidado para professor catedrático da Faculdade de Ciências, como se tivesse leccionado durante todo o tempo desde a expulsão, em 1947. Não achou justo. Aceitou o cargo de director da Escola Secundária de Ponte da Barca, mas por pouco tempo. Segundo uma investigação que instaurou, descobriu serem falsos os atestados médicos que uma professora apresentava para faltar às aulas. Como ela não foi demitida, alegadamente por ter amizades no Ministério da Educação, Laureano pediu a reforma. Mais uma vez, recusou que lhe fosse contado o tempo de serviço desde a sua expulsão da Função Pública, como tinha direito, pelo que ficou com uma pensão miserável.
"Para ele, tudo tinha de ser perfeito", explica o primo.
Não facilitava. Essa era provavelmente a razão por que, sendo um amante da literatura, não escrevia. "O que fizesse teria de ser perfeito. Até uma carta, demorava semanas a escrevê-la. Esse perfeccionismo paralisava-o. E, no entanto, escrevia muito bem." Também terá sido por causa do perfeccionismo e obsessão pela verdade que não conseguiu manter nenhum casamento, explica um amigo. Não suportava situações menos que perfeitas, e não conseguia mentir: de cada vez que tinha uma infidelidade, contava logo, o que acabava por levar à separação. Mas continuou amigo de todas as ex-mulheres.
A última, Maria José Caleijo, foi companheira até à sua morte, durante 45 anos, apesar de tudo. A certa altura, por imperativos de coerência, divorciaram-se, embora tivessem continuado juntos.

A solidão
Laureano isolou-se em Ponte da Barca, onde passaria os últimos 30 anos de vida. Fugia das pessoas e, ao mesmo tempo, procurava-as. Os outros surgiam-lhe como entidades algo imateriais e o encontro com eles não raro o fazia sentir-se perdido.
Para não se desiludir, preferia por vezes manter à distância aqueles de quem gostava, ignorando a crueldade da atitude. Quando Margarida, a filha, regressou de Inglaterra, onde, muito jovem, fora fazer o doutoramento em Matemática, Laureano fez tudo para que ela não o fosse visitar. Tinha medo que ela tivesse voltado muito esquerdista, e que se zangassem à primeira discussão. Fizera tudo, aliás, para que ela não seguisse Matemática, receando que não conseguisse. Margarida empenhou-se em mostrar que ele estava enganado, concluindo a licenciatura com média de 17.
Talvez cultivasse o relacionamento com os que se prestavam a ser amigos imaginários, metáforas de si próprios. Dizem os psicólogos que os coleccionadores compulsivos sofrem de incapacidade de lidar com os outros. Se isso é verdade, os livros, metáforas perfeitas da vida, são a colecção ideal do filantropo solitário.
No entanto, Laureano tornou-se amigo de pessoas que admirava. Lagoa Henriques, Óscar Lopes, Costa Gomes, que foi seu colega de faculdade. O general era visita regular da Quinta da Fonte da Cova, até quando foi Presidente da República (Laureano chegou a enviar-lhe uma carta criticando-o pelas cedências aos comunistas), e o mesmo acontecia com vários intelectuais e artistas, alguns bem pouco convencionais, como Luís Pacheco ou Eugénio de Andrade. Nestes, o austero e rígido Laureano apreciava a liberdade e a capacidade de surpreender. Mas mais tarde ou mais cedo a tolerância levava à colisão.

A vida na quinta
Em Ponte da Barca, Laureano era amado e odiado, e retribuía ambos os sentimentos. As eminências locais tinham a noção de ter ali uma personalidade de craveira nacional, e tentavam aproveitar-se, oferecendo-lhe cargos e medalhas. Laureano nunca aceitou, alegando que nada fizera pela terra, o que não podia ser mais verdade.
Limitava-se a ser um exemplo, o que nem sempre era devidamente apreciado. Para desconforto de muita gente, a legalidade fiscal era uma das obsessões de Laureano. Quase uma doença. Pagava tudo antes do tempo e até mais do que devia, para não correr o risco de errar. Não admitia a mínima batota. Nas transacções de propriedades, era comum assinar-se a escritura por um valor inferior ao real, para pagar menos imposto. Laureano recusava-se, o que lhe impediu alguns negócios. Mas não cedia. Uma vez, quis vender uma das terras da família por 100 mil euros. O comprador aceitava o preço, desde que se fizesse escritura por 10 mil. Laureano fez um acordo: pagaria ele próprio o montante do imposto de transacção correspondente a 90 mil euros, que era devido ao outro. Foi aceite e o negócio fez-se.
Intransigente em relação à dignidade das pessoas, Laureando comia com os seus trabalhadores à mesma mesa, o que muitos consideravam esquisito.
Foi também o primeiro, na região, a fazer descontos para a reforma e segurança social dos trabalhadores. Os outros agricultores sentiram-se prejudicados com este precedente e nomearam um representante para interceder junto de Laureano. Quando aquele chegou à quinta sugerindo, com falinhas mansas, que o "senhor doutor", pelo menos, descontasse para a segurança social apenas um dia ou dois, e não a semana inteira, foi corrido com insultos.
A Quinta da Fonte da Cova era um oásis de legalidade. E de alguma loucura também.

[…]
Nos últimos tempos de vida, aliás, depois de ter ficado doente, Laureano começou a preocupar-se com a posteridade. Não teve nenhuma fraqueza religiosa – manteve-se agnóstico até ao fim – mas passou a tomar disposições. Uma delas fora o divórcio com Maria José Caleijo, para não causar aos filhos problemas com a herança. Margarida, aliás, que só soube pelos jornais do casamento do pai, foi convidada formalmente para um almoço de divórcio.
Depois, Laureano doou todos os bens aos filhos. Quis poupá-los a burocracias e eventuais contendas. Organizado e precavido como era, passou os últimos anos a preparar o seu desaparecimento. Distribuiu as casas e os terrenos pelos três filhos, mas a sua grande preocupação eram, obviamente, os livros.
À medida que se aproximava do fim, e ia perdendo o interesse por tudo excepto pelos livros, apercebia-se também de que os filhos não queriam a biblioteca. Pensou em várias soluções – doar as obras a uma instituição, criar uma fundação (ideia do filho Carlos). Mas nenhuma lhe agradou. Por fim, deixou de pensar no assunto. Mergulhou numa estranha apatia, uma inconsciência meticulosa e desesperada.
Como pôde aquele homem que tudo calculava e tudo prevenia ter cometido um erro tão grosseiro? No seu afã de tudo medir pela beleza dos livros, de sublimar neles os seus dias e o seu futuro, nunca lhe passou pela cabeça que a biblioteca pudesse não ser eterna.
Mas não deixou, mesmo sabendo (e decerto aceitando) que em breve tudo aquilo seria vendido em leilão, de folhear, tratar e acariciar os seus livros, com a leveza confiante com que uma criança diz adeus a quem ama.

07-07-2009

A Catedral de Colónia, Der Kölner Dom, é uma das mais impressionante catedrais góticas. Começou a ser construída em 1248 e só em 1880 pararam os trabalhos; era então o edifício mais alto do mundo. As suas torres medem 157 metros de altura (recordo que a Torre dos Clérigos mede 76 metros), a nave central mede 43 metros de altura e 145 metros de comprimento; o edifício pesa 160 mil toneladas, ocupa uma área de 407 mil metros cúbicos e mede 86 metros de largura. Se isto parece um pouco abstracto, eu ajudo a concretizar: quem já entrou no Mosteiro da Batalha, sentiu-se certamente afectado pela sensação de verticalidade e profundidade; pois bem, a nave central do Mosteiro da Batalha mede 32 metros de altura e 80 metros de comprimento (é 11 metros mais baixa e 65 metros mais curta); no que concerne à altura do edifico, as torres da Catedral de Colónia são quatro vezes mais altas do que o Mosteiro da Batalha.



Esta fotografia, da Catedral de Colónia, foi tirada em 1945, no final da guerra, após meses de bombardeamentos que deixaram a cidade em ruínas. Mas a extraordinária catedral sobreviveu à guerra, apesar de ter sido atingida por 14 bombas; o restauro só ficou concluído em 1954.
Hoje, a sua principal ameaça é a poluição. Uma equipa pluridisciplinar trabalha sem cessar na preservação dos mais de 50 tipos de pedra usados na construção da Catedral e no restauro das pinturas e dos vitrais (que ocupam cerca de 10 mil metros quadrados). Na verdade, é um trabalho interminável, o que de certo modo é uma boa notícia, já que em Colónia diz-se que o mundo acaba no dia em a Catedral estiver definitivamente terminada.

06-07-2009

Estou quase de férias do CLF, mas ainda falta a 2ª fase dos exames nacionais. Nunca lidei muito bem com as férias de verão, não me adapto à imposição das férias escolares. Preferia ter menos dias, mas poder geri-los de um modo mais inteligente, de acordo com o cansaço ou com outros objectivos. É óbvio que não posso partilhar esta preferência sem ouvir uma ou outra piada sobre os professores: que trabalham pouco, que não querem ser avaliados, que leccionam umas poucas horas por semana, etc. Eu sei que há professores pouco empenhados, incompetentes, sem qualidades intelectuais e/ou pedagógicas. Também é verdade que conheço bancários, arquitectos, funcionários dos CTT, empresários, médicos, picheleiros, jornalistas, carpinteiros, psicólogos, advogados, electricistas, deputados, engenheiros, empregados de mesa, polícias, autarcas, etc., etc., que não reúnem as qualidades mínimas exigidas para o exercício competente das funções específicas inerentes às suas profissões. Ainda assim, eu sou professor: trabalho no Colégio Luso-Francês, mas já leccionei na Escola Básica 2, 3 de Valongo, conheço o desgaste de milhares de horas em contexto de sala de aula; sei o que implica conhecer os alunos e relacionar-me diariamente com centenas de pessoas; sei o que significa ensinar, o que envolve lidar com a indisciplina, com o insucesso, com a indiferença de uns e a arrogância de outros; conheço os inspectores, os burocratas, os senhores do ministério e das direcções regionais, conheço o 'autismo' de quem não sabe ou faz de conta que não sabe o que se passa nas escolas, no dia-a-dia das escolas reais, sem encenações de meninos recrutados em agências de modelos para receberem a ministra e o senhor primeiro-ministro. Eu trabalho no CLF, já não lido diariamente com muitos dos problemas que afectam muitos colegas que trabalham na Escola do Estado, ainda assim sei o que faço: as centenas e centenas de aulas durante o ano lectivo; os testes, as centenas e centenas de testes para corrigir, para avaliar; os trabalhos, os projectos, as reuniões de departamento, as reuniões de avaliação, as visitas de estudo e outras actividades; eu sei o que leio para preparar as aulas e o que invisto na minha formação pessoal com o intuito de melhorar o meu desempenho intelectual e pedagógico. E lamento as depreciações que permanentemente menorizam os professores, lamento as generalizações precipitadas formuladas por quem desconhece o significado de falácia.
Estava a dizer: ainda não me adaptei às férias escolares; tenho sido pouco consequente no trabalho de doutoramento, assim como na redacção da UL 10 do novo manual de EMRC. Apesar de tudo, hoje escrevi uma reflexão sobre a arte gótica; estive a ouvir The lamentations of Jeremiah, de Thomas Tallis (1505-1585) – The Hilliard Ensemble (ECM, 1987) –, e detive o meu olhar na pintura de Giotto (1266-1337), particularmente n'A Lamentação (1305, Capella degli Strovegni):



E chega de lamentações. Não escreverei sobre o Relatório da Comissão de Inquérito ao caso BPN, nem sobre a apresentação do Cristiano Ronaldo em Madrid. O Gonçalo informou-me que a Biblioteca Britânica começou a disponibilizar on-line as primeiras 800 páginas Codex Sinaiticus. Amanhã suspendo a respiração à hora da chegada do correio.

05-07-2009



O homem, antes de tudo, é poeta, por mais gordo ou adaptado à rotundidade planetária; e depois é pedagogo, aferidor de pesos e medidas, engenheiro, deputado e outras deformidades sociais.

Teixeira de Pascoaes
Dois aniversários: no dia 3 de Julho o do Rui Ferreira, hoje o da Antónia. Como escreveu Teixeira de Pascoaes, o ser humano não envelhece, apenas "foge da sua sombra anterior para a sua luz futura".

Decidi apresentar um curriculum vitae on-line. Chamei-lhe Diáspora, pelo sentido de dispersão ou por um certo sentido de exílio subjacente à condição humana. Trata-se de um projecto inacabado, que procurarei manter actualizado.

03-07-2009

Hoje, na apresentação de Histórias de poucas palavras, na Biblioteca Municipal Albano Sardoeira, Amarante, em vez de um texto académico ou de crítica literária, li uma carta aberta (entreaberta) à Maria Eulália Macedo:


Fotografia . Elsa Cerqueira


Querida Eulália

Escrevi-te uma carta. Uma carta entreaberta. Uma carta de amor. Hoje não serei grave, porque não é dia de endurecer o rosto e a alegria é para os vivos, como disse o Almada, a coisa mais séria da vida! Hoje é um dia alegre, querida Eulália, porque se reeditam as tuas Histórias de poucas palavras, que não é um livro, mas uma prova de amor, a confissão poética de que o esquecimento, a morte e as trevas que tantas vezes escurecem os nossos corações não terão a última palavra. As tuas Histórias de poucas palavras não são apenas páginas impressas, amortalhadas numa capa bonita; não se trata de um livro como outros livros: fala do milagre de ser e existir no espaço e no tempo, fala do sabor das amoras, da alegria do mundo. Eu não li as tuas Histórias de poucas palavras, querida Eulália, eu vivi-as tão intensamente, que a tua mãe foi, por um momento, a minha mãe; depois foi o cheiro húmido da terra, a intimidade de um gesto condescendente com a morte, a vida inteira redimida numa palavra, algo mais puro ainda; depois foram os retratos, os antigos retratos que habitam o teu mundo, Eulália, esses fantasmas que habitam o meu mundo, como se tivéssemos vivido na mesma casa, na mesma casa desde sempre, porque a tua casa é antiga como o Marão, antiga como o mundo.
Escrevi-te uma carta, esta carta entreaberta. Uma carta de amor. Escrevi-a porque sei como são as manhãs transparentes de Fevereiro, porque também eu suspendo a respiração à hora da chegada do correio. Escrevi-a porque nasci num mundo de homens que cabe nas caixas que guardam os livros que herdaste da tua avó paterna; mas estas tuas Histórias de poucas palavras não cabem neste livro, como não cabem nos livros que herdaste da tua mãe; nelas existe um mundo de mulheres, de mulheres que são lugares recuados em que as mãos descobrem os filhos, esses lugares fundos, luminosos por dentro; essas mulheres que são como mesas para que os filhos cresçam em seu redor; que são casas em que há afectos, como brinquedos, espalhados pelo chão; as mulheres de Histórias de poucas palavras são isso e outra coisa, ou nem uma coisa nem outra, não têm nome ou chamam-se Maria Ondina, Olímpia, Maria Branca ou Lídia; podem ser as mulheres do Marão (de que não falam as Crónicas da Raça) ou as mulheres da tua Rua; podem ser as mulheres da minha rua, da minha infância, mulheres sem idade, carpindo as perdas, lambendo as feridas ou amadurecendo o útero na opacidade comovida da sua juventude.
Querida Eulália, escrevi-te esta carta porque conheço a tua terra como se nela tivesse nascido ou nela tivesse morrido, antes desta diáspora; conheço o teu Rio, comove-me sempre a tua Nossa Senhora da Ponte, com o seu sorriso de granito e o Filho nos braços. Também eu amo Pascoaes, Eulália: recordo-me do Poeta a enrolar um cigarro no escrupuloso labor dos dedos telúricos, recordo-me dos versos: "Quem és tu? De onde vens? Na tua fronte/ Paira o vago crepúsculo infinito/ Da distância... […] Há nas tuas palavras um abismo./ Ouvindo-as logo sinto uma vertigem,/ E, em sobressalto, chora e se lastima/ O que, em mim, é vedado, oculto e virgem./ A parte indefinida do meu ser/ Ama a sombra espectral em que desvairas.../ E nem, ao menos, posso compreender/ Esta força amorosa que me leva/ Para a tua loucura!"
Escrevi esta carta, querida Eulália, porque conheço o rumor dos dias, a lenta passagem das horas. Escrevi-a porque conheci a tua casa: o S. Jorge que guarda a entrada nas pausas da sua luta eterna contra a serpe; o granito por fora, as madeiras por dentro; os velhos livros, os retratos espectrais, o modo natural e orgânico como a casa cresce e se abre para um jardim, com flores e árvores de fruto numa certa desarrumação romântica. Escrevi esta carta de amor porque me comove a tua lucidez, o modo como arrastas a voz oracular, que se exprime em aforismos e se sobrepõe ao meu pensamento. Escrevi-a, querida Eulália, porque escuto a urze e conheço o silêncio das tardes de Outono, quando os pássaros não voam e as nuvens se deitam na cama dos rochedos mais altos.
Nas tuas Histórias de poucas palavras pulsa uma comovida humanidade, um amor raro pela terra, sem asfixia; um amor raro pelas pessoas, sem paternalismos ou maternalismos; um amor raro que habita quem acredita e inaugura nas suas palavras um emergente «Ciclo do Amor». Querida Eulália, não sei como dizer-te que sinto que guardas o futuro. Nasceste em Amarante; mas tu não pertences a Amarante, nem ao mundo, que o mundo é exíguo para pessoas com as tuas dimensões. Tu pertences, nas palavras de Sophia, à raça daqueles que "percorrem o labirinto/ Sem jamais perderem o fio de linho da palavra". Tu pertences a Deus.
Serás tu o Cristo, Maria Eulália? "Não casei, não ganhei dinheiro, nem sei de sistemas políticos para salvar a humanidade". O que é que te salva, Maria Eulália? O que é que move a tua mão escrevente. O poeta José Tolentino Mendonça disse que "o que move a mão escrevente é uma qualquer compaixão pela vida, nua, pobre, passada, inocente, esquecida, sussurrante, amante, quase nada. […] «E a ti, o que é que te salva?» Oh, os que não sabem que a mão escrevente é a mão que salva!"
Vou terminar esta carta, Eulália. Desculpa-me. O que poderia eu dizer sobre ti ou sobre as tuas Histórias de poucas palavras? O que sei eu? Tinhas meio século de vida quando eu vi pela primeira vez a luz; nasceste no Equinócio da Primavera, eu nasci no Equinócio de Outono, talvez por isso a tua juventude e a minha velhice nos torne tão próximos. Por estes dias, as tuas Histórias de poucas palavras salvaram-me: "Nunca mais temerei os anjos metálicos da angústia e da destruição, podem vir purificar-me os lábios com uma brasa de fogo e de insatisfação". E sempre que me lembrar de ti, estremecerei com os versos de Herberto Helder: "Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta/ do gosto, o entusiasmo do mundo". JRT




Histórias de poucas palavras, 2ª ed., Amarante, 2009.
Maria Eulália Macedo nasceu em Amarante, no dia 21 de Março de 1921. Publicou Construção do vento norte (1968), Raízes (1970), Histórias de poucas palavras (1971) e As moradas terrenas (1994). Os seus caminhos cruzam-se com os caminhos de Teixeira de Pascoaes, Almada Negreiros, Maria Ondina Braga, Agostinho da Silva ou Alexandre Pinheiro Torres.

02-07-2009



A propósito do Estado da Nação:

"O mal da minha terra não é a demagogia: é a inépcia. Em Portugal não há demagogia: falta-nos fanatismo cívico para isso. O que há em Portugal é uma inverosímil colecção de idiotas."

Manuel Laranjeira (1877-1912)
No dia 25 de Junho o Equinócio de Outono celebrou 4 anos. Hoje, quase 600 'posts' depois, este blogue tem cerca de 3 mil 'visits' e 5 mil 'page views' por mês. Obrigado a todos os amigos que fazem deste espaço um lugar de encontro.



Ontem presidi à 400ª sessão catecumenal. Desde 1995/96, passaram pelo Centro Catecumenal mais de 400 catecúmenos, dos quais 368 receberam os sacramentos da iniciação cristã. Ontem, depois da mesa-comum, encerrámos o itinerário 2008/09 com a sessão catecumenal e a celebração da Eucaristia. A Ana Luís, a Inês Fontoura e a Joana juntaram-se a nós.
É um privilégio trabalhar com a Ana, o Fernando e o Leonel. Constituiu para mim uma bênção incomensurável ter participado do itinerário deste grupo de neófitos. A Ana Luís chegou atrasada, mas trouxe a redenção à porção de vida que se partilha na mesa-comum e se conjuga no presente do indicativo.

01-07-2009

Eis que acabou Junho. Ontem foi o último dia para o envio de obras concorrentes ao Prémio de Poesia Guilherme de Faria. Nestes últimos dias chegaram inúmeros inéditos. Obrigado. O júri será constituído por Fernando de Castro Branco, Fernando Guimarães e Jorge Melícias. A decisão do júri desta 2ª edição do Prémio de Poesia Guilherme de Faria será anunciada no dia 6 de Outubro de 2009 no site/blog do Poeta e no site/blog da Cosmorama.

29-06-2009



O Sr. D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, foi ordenado presbítero há 30 anos, no dia 29 de Junho de 1979.

Hoje tive uma reunião de preparação da Oficina de Poesia Barcelona 09. Terminei a paginação de O vento soprado como sangue (do João Moita) e de Yguarani (do Wilmar Silva). O ano de trabalho da Cosmorama está quase a terminar; mas, já depois de termos encerrado a agenda, decidimos reabri-la: dia 18 de Julho (sábado), pelas 22 horas, apresentação de Yguarani, 'poética não completa' de Wilmar Silva, poeta brasileiro (Minas Gerais) que nasceu em 1965 e que é responsável pelo projecto de pesquisa de poesia de língua portuguesa Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética.

28-06-2009

Em Maio, nas II Sementes de Leitura, na ESE Paula Frassinetti, conheci o ilustrador Luís Silva. Fiquei muito impressionado com a qualidade do seu trabalho.
Nesse mesmo dia, convidei-o para integrar um projecto editorial, desenhando retratos de poetas portugueses; o primeiro seria o de Guilherme de Faria. Na 6ª-feira chegou ao meu e-mail a proposta do Luís Silva:



Fiquei, naturalmente, muito entusiasmado; o retrato é notável. No e-mail em que veio anexado, o Luís escreveu: "Em termos pictóricos, o universo simbólico de que me poderia apropriar é rico e enigmático. Optei por aquela noite povoada por uns astros que são as chamadas 'formas platónicas'. Aquelas em particular saíram de esboços de Leonardo da Vinci. Todas essas referências contribuem para dar densidade ao trabalho e creio que é sobretudo aí que reside a sua alma."

Nestes dias, em que regresso ao trabalho na dissertação de doutoramento, o mais recente retrato do Poeta é um óptimo 'reforço positivo'. Aproveitei para actualizar o blogue e a secção de imagens do site do Guilherme de Faria.
Ontem o Fernando de Castro Branco telefonou-me a dizer que os livros da Cosmorama regressaram aos destaques da FNAC. É uma boa notícia, depois de uma fase em que a editora perdeu alguma visibilidade nas livrarias.
Estou a ouvir a Inês Viterbo a cantar, numa gravação feita pelo Juca no CLF. Há alguns dias vi Purga Valsa Bege, uma interessante curta-metragem do José Diogo Magro. A Inês e o Zé Diogo pertencem a um grupo de miúdos admiráveis que terminaram o 12º ano. Conheci-os no contexto de sala de aula em 2001/02, tinham apenas 10 anos. Quantos Caminhos partilhámos? Partem agora para novos caminhos e eu guardo a alegria profunda de ter assistido e participado no seu crescimento.

Quando eu era criança o inverno era frio, muito frio; o verão era quente, muito quente; no tempo das chuvas, chovia; no tempo da canícula, o calor era mesmo muito intenso. Há 30 anos o clima era tão estável como a minha vida ou a casa da minha infância. Há 20 anos eu saí da casa da minha infância e a minha vida tornou-se uma diáspora; o inverno nunca mais foi tão frio e o estio nunca mais foi tão quente. Agora percebo que é provável que as alterações climáticas não se devam ao aquecimento global, mas à separação dos meus pais.

27-06-2009

Em Dezembro, na evocação da memória de Maria José Teixeira de Vasconcelos (sobrinha de Teixeira de Pascoaes), conheci Maria Eulália Macedo, uma Sr.ª admirável, com 88 anos (nasceu no dia 21 de Março de 1921). Ontem fui com a Karin e com o Mário a sua casa, um lugar granítico e antigo como o mundo. A sensação de entrar naquele lugar é verdadeiramente indescritível: a intensidade telúrica das casas históricas de Amarante, o granito por fora, as madeiras por dentro; um S. Jorge em tamanho real que acompanhava as procissões, na sua eterna luta contra a serpe; os velhos livros, os paramentos, as armas de fogo, os retratos espectrais dos antepassados, os ornamentos religiosos, o modo natural e orgânico como a casa cresce e se abre para um jardim em socalcos, com flores e árvores de fruto numa certa desarrumação romântica. Eu já conhecia a Eulália, mas não assim, não em casa... Ela tem uma lucidez perturbadora, arrasta a voz como um fantasma e fala como um oráculo: uma verdadeira epifania de poesia e de graça. A sua voz sobrepõe-se ao nosso pensamento e detém-se em memórias precisas: Teixeira de Pascoaes a enrolar um cigarro, Almada Negreiros debruçado na varanda, Maria Ondina Braga a rezar.
Ontem vivi uma experiência verdadeiramente soteriológica.
Na próxima 6ª-feira (3 de Julho) são reeditadas as Histórias de poucas palavras (com prefácio de Maria João Reynaud). Eu falarei um pouco sobre o livro e sobre a autora na Biblioteca Municipal Albano Sardoeira (Amarante), pelas 19 horas.




No dia 24 de Junho fui jantar à Ribeira de Gaia. Quando cheguei, o céu estava cinzento e o ar húmido; do outro lado do rio, o Porto… uma imagem impressiva resultou numa fotografia impressionista, conseguida com o telemóvel.
Hoje reuni com o Luís Silva e com o António Jorge para trabalhar na Unidade Lectiva 1 do manual de EMRC para o Ensino Secundário do Secretariado Nacional de Educação Cristã, sobre Política, Ética e Religião. Trata-se de um óptimo trabalho do Luís Silva, amigo e companheiro desde o tempo em que estudámos Teologia na UCP, no final da década de 90. Nesta Unidade Lectiva 1, li um interessante texto de Jorge Luís Borges, 'in memoriam' JFK.



Jorge Luís Borges (1899-1986), caricatura de Luís Silva.

Esta bala é antiga.
Em 1897 disparou-a contra o presidente do Uruguai um rapaz de Montevideu, Arredondo, que passara muito tempo sem ver ninguém para que o soubessem sem cúmplices. Trinta anos antes, o mesmo projéctil matou Lincoln, por obra criminosa ou mágica de um actor que as palavras de Shakespeare tinham convertido em Marco Bruto, assassino de César. Em meados do século XVII a vingança serviu-se dela para dar morte a Gustavo Adolfo da Suécia, a meio da pública hecatombe de uma batalha. Antes, a bala foi outras coisas, porque a transmigração pitagórica não é apenas própria dos homens. Foi o cordão de seda que no Oriente recebem os vizires, foi a fuzilaria e as baionetas que destroçaram os defensores do Álamo, foi o punhal triangular que ceifou o colo de uma rainha, foi os obscuros cravos que atravessaram a carne do Redentor e o lenho da Cruz, foi veneno que o chefe cartaginês guardava num anel de ferro, foi a serena taça que Sócrates bebeu num entardecer. No dealbar do tempo foi a pedra que Caim lançou contra Abel e será muitas coisas que hoje nem sequer imaginamos e que poderão acabar com os homens e com o seu prodigioso e frágil destino.

Jorge Luís Borges, Obras Completas, II, p. 229.


Nota: O 1º Luís Silva (1973) é teólogo e o 2º Luís Silva (1968) é ilustrador.

24-06-2009

Ontem, pela primeira vez, conseguimos lançar com êxito um balão de S. João; esperámos alguns minutos, enquanto subia, até se confundir com uma estrela e desaparecer.
Hoje dediquei a manhã ao trabalho na dissertação de doutoramento. Estou a fazer uma leitura minuciosa do primeiro livro do Guilherme de Faria (Poemas, 1922), com fichas cheias de anotações sobre o 'leitmotiv', os conceitos estruturais e as especificidades de cada composição.
Recebi por correio, da parte do Adelino Pires, três primeiras edições de Teixeira de Pascoaes: Elegias (1912), Arte de ser português (1915) e Duas conferências em defesa da paz (1950). Recebi ainda duas obras concorrentes ao Prémio de Poesia Guilherme de Faria (regulamento) e um postal de Schloss Moritzburg, enviado pela Maria José e pelo Klaus.
Passei a tarde a brincar com os meus filhos; depois a Ana deu banho à Beatriz e eu tratei dos rapazes; ajudei na dinâmica do jantar e fui despedir-me do João Alfredo (que regressa ao Brasil na 6ª-feira): jantámos na Ribeira de Gaia com o José Pedro (pároco de Espinho) e com o José Alfredo (pároco de Valongo), amigos e companheiros do curso de Teologia.



Na semana passada, alguém perguntou-me como é que, com tantas coisas, eu estabelecia prioridades; disse-lhe que na minha vida as prioridades estão bem definidas; depois expliquei-lhe que dormia pouco...

23-06-2009

Lá fora já estão a assar as sardinhas (entremeada para mim, que não gosto dos tradicionais peixinhos). Tenho sido assíduo às vigilâncias de exames no CLF e ao ginásio. Reconheço a importância do conceito de perspectiva, que nos permite relativizar o modo como entendemos, assumimos e integramos a realidade. Ontem, no ginásio, escolhi o segundo tapete a contar da parede e comecei a correr (corro normalmente cinco quilómetros); um senhor magro e alto (seguramente com mais de um metro e noventa) corria no tapete ao lado do meu; enquanto corríamos, olhei para o espelho e senti-me gordo e baixo. Hoje, sensivelmente à mesma hora, escolhi o mesmo tapete; ao meu lado estava um senhor gordo e baixo (seguramente com menos de um metro e setenta); enquanto corríamos, olhei para o espelho e senti-me magro e alto. Eu peso oitenta quilos e meço um metro e oitenta, mas isso pode realmente não ser muito relevante.