29 de Julho de 2010

A Igreja dos Terceiros Dominicanos

«Egreja dos Dominicanos» (1)

Várias Ordens religiosas ao longos dos séculos desenvolveram-se em 3 ramos diferentes: um ramo masculino de frades ou monges; um feminino de monjas ou religiosas e um terceiros de leigos (masculinos e femininos ou separadamente). Cada um destes ramos tinha a sua Regra de Vida aprovada canonicamente, em geral directamente pelo Papa/cúria romana, com diferentes formas de organização e estilo de vida, mas cada um dos ramos partilhando algum tipo de afinidade/continuidade espiritual ou de missão de um mesmo fundador. Assim foi com as ordens religiosas mais conhecidas, destacando-se no campo das Ordens Terceiras as referentes aos franciscanos, dominicanos e carmelitas.

A Ordem dos Pregadores (dominicanos) foi fundada em 1206 por S. Domingos de Gusmão e teve a sua Regra (masculina) aprovada em 1216 e a sua Ordem Terceira reconhecida e organizada em 1285. Presentes os dominicanos em Portugal desde 1217, e no Porto desde 1238, desde essa altura vários leigos se organizaram em volta dos conventos e comunidades de dominicanos, partilhando e vivendo da mesma espiritualidade e contribuindo para sua missão e/ou sustento. De várias localidades no país há relatos disso mesmo (ver História de São Domingos em 2 volumes, por Fr. Luís de Sousa, Editora Lello, 1977).

Pelo século XVII os movimentos laicais na Igreja tem um novo ressurgimento, fruto da maior autonomia, desenvolvimento, poderio económico e cultural das classes mais burguesas e mercantis um pouco por toda a Europa. 

No Porto é organizada e instituída oficialmente em 1633 a Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, ainda existente nos dias de hoje. «Vendo crescer os seus sucessos», os vizinhos leigos ligados aos dominicanos   não se quiseram ficar atrás e em 1671 deram início à Ordem Terceira de São Domingos no Porto, oficializada e reconhecida em 1676 no Convento dos frades dominicanos do Porto.

E tal foi o sucesso e o número de irmãos e irmãs aderentes, que passados alguns anos  «consideraram alguns zelosos que a ordem terceira de Nossa Padre São Francisco tinha uma capela muito formosa unida ao convento, na qual se juntavam os Irmãos a ouvir as suas práticas, a frequentar os sacramentos, a fazer suas orações e tomar suas disciplinas; entraram em desejos e fazer uma semelhante capela porque até então tinham à sua conta a capela do Espírito Santo da nossa Igreja e nela exercitavam os seus espirituais exercícios  com algum detrimento dos religiosos, e para aliviá-los, aprecia conveniente fazerem nova Capela não só para os seus espirituais exercícios mas para jazigo dos Irmãos que naquela quisessem sepultar-se» (2). Resolvida a questão da localização (no adro em frente à Igreja do Convento de S. Domingos por cedência dos frades, a primeira pedra foi lançada em  18 de Dezembro de 1683 e inaugurada a 7 de Janeiro de 1685 e dedicada a Santa Catarina de Sena, também ela terceira dominicana (3).

Mas foi solução por pouco tempo, pois logo em 1712 e atendendo ao número crescente de membros, decidiram erigir nova e mais larga capela, ocupando parte mais alargada do adro e da rua defronte do convento sendo a primeira pedra lançada a 20 de Fevereiro de 1713 e inaugurada 10 anos depois, aos «onze dias do mês de Abril de 1723» (4). Para fazer face às despesas de construção e porque o altar-mor da capela primitiva não se adequava ao novo templo, foi o mesmo vendido ao «abade de Lamas na comarca da Feira», retábulo que é hoje o único vestígio conhecido da capela dos terceiros dominicanos.

Altar na igreja paroquial de Santa Maria de Lamas  (5)

Fosse pelo poderio económico dos leigos, fosse pela necessidade de os frades usarem a capela dos terceiros devido ao estado de ruína da Igreja conventual e falta de «cabedal» para a reerguer, fosse por quezílias muito humanas relativas ao poder, o certo é que desde o final dos anos 30 do século XVIII se instalou uma permanente disputa entre a Ordem Terceira e os seus vizinhos frades. A origem do conflito deve-se ao facto de os frades terem decidido em 1739 erguer uns arcos sobre o seu adro virado para o actual largo de S. Domingos fazendo ligação directa entre o seu convento e dita igreja dos terceiros, o que este levaram a mal. Todos os meios foram usados de parte a parte: tribunais civis, pedidos ao patriarca de Lisboa, ao Geral da Ordem, embaixadas em Lisboa e Roma,  e múltiplas intervenções do bispo, do rei do papa.

Em 14 de Maio de 1755 o Papa Bento XIV finalmente decreta por bula papal a extinção da Ordem Terceira de S. Domingos no Porto e a imediata criação da Arquiconfraria da Ordem da Santíssima Trindade e da Redenção dos Cativos (ainda hoje existente), para onde passariam automaticamente todos os ex-terceiros e respectivos legados e património. Precisando naquele tempo as bulas papais de «beneplácito régio», isto é de transcrição para a ordem interna, o Paço Real apenas mandou executar a primeira parte, da extinção e entrega provisória da administração dos bens aos bispo da cidade. E como nestas coisas as coincidências são isso mesmo (ou não...), a selagem e encerramento da Capela dos Terceiros pelos oficiais de justiça ocorreu precisamente no dia 1 de Novembro às 9.30 da manhã, preciso momento em que ocorreu o conhecido terramoto que também no local provocou largos estragos no convento.

Impedidos os novos confrades de constituírem oficialmente a sua nova ordem, passaram a reunir-se na Capela de Nossa Senhora da Vitória na Batalha, frente a Santo Ildefonso. Os frades dominicanos, vendo a sua boa disposição, ficaram com medo de perderem a dita capela que tanto ambicionavam, pelo que em 1778 «uzaram de hum grande sacrilegio que fizerão para com Deos e projuizo grave ao mesmo convento, tomarão por astusia de botar o fogo à sua propria egreja em hua sesta feita de tarde, tendo nesse dia o Santisimo sacramento exposto em que tam somente se queimou o tetulo da Igreja do arco do Cruzeiro para baixo até à porta cujo emsendio prencipiou por detras do altar da Snrº das Neves o qual mandarão botar por hum mosso do mesmo Convento - o qual ao depois o declarou que os frades o mandarão e por se saber o castigarão e lhe derão sumição que lá mais apareseo.» (6). Foi-lhes depois fácil solicitar e obter do rei autorização para usarem a igreja dos antigos terceiros por não terem outra....

E assim a usaram até que a 6 de Outubro de 1832 D. Pedro de Alcântara, regente em nome de D. Maria II ordenou à Comissão Administrativa dos Conventos Extintos ou Abandonados tomar posse do dito convento, apesar de este ter ainda 7 frades e 2  conversos e nunca ter sido abandonado... Mas face às  força nada se podia opor e a dita Comissão tomou posse, expulsou os frades fez o inventário e arrolamento de bens logo a 10 de Outubro e disponibilizou o espaço para serviços públicos e armazéns.

Passada a guerra e abandonado, ainda se fizeram planos para ali instalar uma nova e tão necessária Alfandega no Porto, mas a localização foi preterida para zona mais riberinha. Apenas em 1865 foram a hasta pública os bens e edifícios que restavam do Convento de S. Domingos no Porto, sendo adquiridos pelo Banco de Portugal que já ali estava instalado desde 1825 numa das lojas dos arcos virados para o largo do mesmo nome.

E a igreja? O desembargador Ferreira Borges, também presidente do Tribunal do Comércio que funcionava no antigo e vizinho convento de S. Francisco, empenhado já na construção do Palácio que veio a ser da Bolsa e por entender necessário que o mesmo ficasse em artéria desafogada e com acesso ao centro da cidade, antes que alguém reclamasse, numa noite de 1835, juntou meia dúzia de operários e de camartelo em punho demoliu a igreja (7).
Ficou a memória do executante no nome da rua que se inicia onde estava a igreja.


(1) in «Edifícios do Porto em 1833», Álbum de desenhos de Joaquim Cardoso Vitória Vilanova, Ed. Biblioteca Municipal do Porto, 1987;
(2) Fr. Simão do Sacramento OP, in A.OT (Arquivo da Ordem da Trindade) – Estatutos da Ordem 3ª, 1680, fls 22-26, transcrito por B. Xavier Countinho, «História documental da Ordem da Trindade», Vol. I, edição da Celestial Ordem da SS. da Trindade, 1972, Porto;
(3) ibidem pag.;
(4) id. pag. 72;
(5) id. pag. 81;
(6) id. pag. 250;
(7) Pedro Vitorino, in O Tripeiro, nº3 (173) 4ª série, Janeiro de 1931;

17 de Julho de 2010

Water-polo no Douro


Anos 30 do século XX (via)

9 de Julho de 2010

Exército Libertador


Pela manhã do dia 9 de Julho, pouco mais de 7 mil soldados comandados por D. Pedro de Alcantara, ex-imperador do Brasil, ex-rei de Portugal, auto-proclamado «Regente em nome de D. Maria II», sua filha, entra na cidade do Porto, perante alguma indiferença e compreensível receio da população.
No dia anterior, ao saber-se do desembarque daquelas tropas na costa junto ao Porto, as tropas reais, leais a D. Miguel I abandonaram a cidade e reorganizaram-se na margem sul do rio Douro, no que veio a demonstrar-se um grave erro táctico. Na sua saída, foram acompanhadas por inúmeros civis de todos os extractos sociais, por receio dos combates e de represálias, no caso de os liberais virem a dominar a cidade, como sucedeu. Apenas com o decorrer dos persistentes ataques das tropas miguelistas à cidade, indiferentes ao perigo para a população, esta passou a suportar com crescente ânimo e vontade as tropas liberais, durante o longo Cerco do Porto. Por esse sacrifício e apoio, D. Pedro, na sua morte desejou e ofereceu o seu coração à cidade, estando depositado na Igreja da Lapa.

Em memória daquele dia, que na história simboliza o início do fim da tirania miguelista e absolutista e a vitória definitiva do sistema político liberal, existe no Porto a  Praça do Exército Libertador, no antigo Largo do Carvalhido, assim designada por deliberação camarária de 28 de Outubro de 1835.

O mais curioso é que se se perguntar a algum portuense onde fica aquela artéria usando a sua designação oficial, certamente nenhum o saberá, a não ser que lá resida. Já se recorrer à antiga denominação de Carvalhido, será certamente bem encaminhado...
É fascinante e ao mesmo tempo sintomático, que 175 anos depois da mudança de designação, ainda persista de forma tão enraizada a antiga toponímia. Não é certamente caso único na cidade, mas talvez seja o mais antigo exemplo de que as alterações de toponímia nunca deverão ser feitas contra o que sejam realidades bem enraízadas no povo. Como era o caso.

6 de Julho de 2010

«Banhos»


Aurélio da Paz dos Reis - Banhos, Foz - 1906-1907

25 de Junho de 2010

O PORTO E O CICLISMO

A primeira corrida de bicicletas disputada em Portugal decorreu entre a Alameda de Matosinhos e o Castelo da Foz, pelo caminho de Carreiros (actual Av. Montevideu e Av. Brasil) no dia 14 de Julho de 1880. Foi organizada pelo Club Velocipedista Portuense, fundado poucos meses antes, a 9 de Março desse mesmo ano, nascido do grande entusiasmo que as bicicletas vinham provocando na cidade. Teve este clube a sua primeira sede em pavilhão anexo ao edifício da Companhia do Caminho de Ferro instalada na Rotunda da Boavista, mais tarde transferindo-se para edifício com os nº35/37 no Campo dos Mártires da Pátria na esquina com a rua da Restauração e onde durante muitos anos funcionou uma loja de bicicletas.

É muito curiosa a narrativa dessa primeira corrida, publicada no jornal O Primeiro de Janeiro no dia 20 de Julho de 1880:

«Efectuaram-se anteontem as primeiras corridas organizadas por este club, sendo a afluência de espectadores muito maior do que se esperava, e não havendo o mais leve incidente que perturbasse a festa.
No Passeio alegre, subida a Esplanada do Castelo, era tal a multidão que tornava difícil o trânsito.
Pela estrada de Carreiros até Matosinhos estendiam-se duas longas filas de povo para ver passar os contendores.
As janelas estavam adornadas com as damas da nossa melhor sociedade e a tarde apresentou-se magnifica.
O primeiro velocipedista partiu de Matosinhos ás 5 horas em ponto e o último às 5 horas e 35 minutos.
O tempo gasto em percorrer aquela distância foi: pelo «Veloz» montado por A. Vieira 13 minutos e 8 segundos, para o «Ligeiro» montado por W. Pulo, 13 m., 24 segundos; pelo «Faísca» montado por C. Tugman 14 m. e 17 segundos; pelo «Expresso» montado por J. Minchin Junior 14 m. e 14 segundos; pelo «Relampago» montado por J. Rego Junior 17 minutos; pelo «Rattazzi» montado por C. Almeida, 19 minutos e 3 segundos.
Depois da tremenda corrida, o jury reuniu-se no salão do Club Gymnastico, obsequiosamente cedido para esse fim, procedendo à distribuição dos prémios aos três primeiros que chegaram.
A distribuição dos prémios, os vencedores foram victoriados entusiasticamente pelas pessoas que enchiam o salão, e abraçados por todos os amigos.
Antes da corrida estiveram os prémios expostos na Chalet do Sr. Carneiro. Durante a diversão tocou no Passeio Alegre a Banda de Caçadores 9.
É digno de aplauso a iniciativa do Club Velocipedista Portuense para com este género de recreios. O êxito das primeiras corridas foi completo, e assim será também, segundo cremos o dos subsequentes.»

Vemos portanto que a marginal do Porto junto ao mar e ligando Matosinhos à Foz do rio é desde há mais de 100 anos utilizada para eventos desportivos e de «recreio». Dada a dimensão dos veículos de duas rodas, não é de espantar que se afirmasse que as mesmas eram «montadas», até pela similitude com os então vulgares cavalos. E daí também que as próprias bicicletas tivessem um nome….. O Chalet do Sr. Carneiro lá continua no Passeio Alegre.

Uma segunda corrida decorreu na Rotunda da Boavista, em Novembro do mesmo ano, repetindo-se nos anos seguintes, sendo que a última prova organizada pelo Clube Velocipedista Portuense ocorreu a 9 de Dezembro de 1883 nos jardins do Palácio de Cristal. Este clube foi não apenas o organizador das primeiras corridas, como foi primeiro clube desportivo dedicado ao ciclismo em Portugal e o criador do Boletim do Clube Velocipedista Portuense (1880) primeiro periódico jornalístico português.

Estando previstas para 1884 umas grandes comemorações henriquinas, em comemoração do 5º centenário do nascimento no Porto do Infante D. Henrique, parece que alguns dos sócios do club pretenderam solicitar junto do Rei o título de «Real» para o club, o que provocou divergências e a saída de alguns sócios que fundaram, em Janeiro de 1883, uma outra agremiação de entusiastas das bicicletas designando-se Velo Club do Porto, com sede no Palácio de Cristal. Veio a ser este club de grande dinamismo e relevância na cidade, ostentando desde 1884 a designação de Real, por mercê do Rei D. Carlos que se tornou o seu presidente honorário e que contava também com o Príncipe D. Afonso como seu sócio.

Também em 1 de Março de 1883 surge uma publicação jornalística de periodicidade quinzenal, O Velocipedista, sob a direcção do farmacêutico Vidal Oudinot, mais tarde professor e inspector do ensino primário. A partir de Outubro de 1894 assumiu a direcção daquela publicação o grande jornalista Alberto Bessa até ao fim da publicação em Agosto de 1895. No 1º e 2º número de O Velocipedista era o mesmo dedicada ao Club Velocipedista do Porto, passando depois a ser designado de Orgão dos Velocipedistas de Portugal (provavelmente devido á existência na cidade de novos clubes), e desde Outubro de 1884: Revista internacional de Sport – literária, noticiosa e Profissional.

Mas o entusiasmo pelas bicicletas no Porto era verdadeiramente um fenómeno de popularidade. A 4 de Julho de 1883 era inaugurado o primeiro velódromo do país, na Quinta de Salgueiros, pela Secção Velocipedista do Clube de Caçadores. Tinha o recinto o perímetro de 380 metros e largura de 80 metros.  Em Novembro desse mesmo ano é fundado um outro clube, o Sport In-Club. Seguiram-se nos anos de 1894 e 1895 o Sport Club do Porto, com sede na Rua dos Mártires da liberdade nº9, O Grupo Velocipédico do Porto, o Clube Velocipedista do Porto, a Sociedade Velocipédica e o Grupo Cyclista do Porto. Cada um destes clubes tinha dezenas de associados e alguns, como Real Velo Club e o Club Velocipedista do Porto várias centenas.

Embora tivesse sido o Clube Velocipedista  do Porto o primeiro a tentar adquirir uns terrenos com 600 m2, pertença de Cristiano Vanzeller que este possuía na rua do Príncipe da Beira, acabou por ser o Real Velo Club que viu tal propósito rapidamente concretizado, pela cedência, por parte do Rei D. Carlos, de um terreno nas traseiras do Palácio Real (actual Museu Nacional Soares dos Reis).
O Velódromo Maria Amélia tinha um perímetro de 333,33 metros (perfazendo portanto a  cada 3 volta 1km) e foi palco de dezenas de corridas até ao final da primeira década do século XX. Tinha uma tribuna para 700 pessoas, 50 camarotes para os sócios, «três corte de law-tennis» ao centro da pista, e uma chalet-buffet. Naquele mesmo local realizou-se a primeira demonstração em Portugal de uma moto, pelo entusiasta e comerciante João Garrido, no dia de 29 de Julho de 1895. O Velódromo Maria Amélia ainda existe, praticamente intacto, com apenas uma pequena parte da pista parcialmente ocupada por um edifício recente de apoio ao museu.

Aquando das Comemorações Henriquinas, duas provas ciclistas foram realizadas no mesmo dia: uma nos jardins do Palácio de Cristal, organizada pelo Real Velo Club e outra na Rotunda da Boavista pelo Clube Velocipedista do Porto, a ambas assistindo toda a Família Real, governo e demais autoridades, bem como milhares de pessoas.
Outros velódromos surgiram em 1895, como seja o da Serra do Pilar, instalado nos terrenos adjacentes ao Quartel, e um outro em terrenos privados junto às Devezas, ambos em Gaia.

Mas os relatos da época davam igualmente conta de muitas outras iniciativas em cada semana, fossem passeios (como por exemplo Viana-Porto), tentativas de fazer um Porto-Lisboa, provas na Estrada da Circunvalação e passeios ciclistas dos mais variados, chegando-se a exigir «medidas segurança para os transeuntes e ordenamento da via pública», tal o entusiasmo e número crescente de ciclistas.

Apenas a introdução dos veículos automóveis no início do século XX e a crescente adesão a novas formas desportivas, como fossem o futebol, a natação (com corridas, por exemplo entre Leixões e a Foz…) e as corridas de atletismo, levaram ao declínio da paixão portuense pela velocipedia.

Nota: embora a pesquisa já estivesse feita, este texto surge motivado pelo excelente trabalho de Ricardo Figueiredo sobre a Bicicleta. E já agora, como mote para o próximo 130º aniversário da primeira corrida velocipédica em Portugal.

21 de Junho de 2010

O feriado de S. João

Uma semana após a implantação da República, precisamente a 12 de Outubro de 1910 o governo revolucionário publicou decreto a abolir os antigos dias feriados e a fixar os novos, que foram:

31 de Janeiro -  Precursores e Mártires da República
5 de Outubro - Heróis da República
1º de Dezembro – Autonomia da Pátria Portuguesa
1º de Janeiro - Fraternidade Universal
25 de Dezembro – Família


No mesmo decreto foi indicado que os municípios podiam escolher um dia de feriado municipal.

No Porto, apesar de sugerido desde logo o 24 de Junho, não se criou consenso na vereação republicana, pelo que se entendeu que apenas se deveria fixar o feriado municipal após consulta aos portuenses.
De imediato e de forma espontânea, o Jornal de Notícias organizou um concurso popular, por votação postal, tendo sido vencedor o dia de S. João, já tradicional e popularmente festejado pelo menos desde o século XIV, sendo o resultado aceite pela Câmara. Como curiosidade, registe-se que em segundo lugar ficou o dia de Nossa Senhora da Conceição (08/12) e em terceiro o 9 de Julho, dia da entrada na cidade, em 1832, do Exército Libertador de D. Pedro.

Em Lisboa escolheram o 10 de Junho, como Dia de Camões, fruto das grandes comemorações camonianas organizadas em 1880 e que foram a primeira grande manifestação de impacto republicano.  Em 1929 passou o 10 de Junho a feriado nacional, escolhendo a cidade capital celebrar municipalmente o 13 de Maio…. em memória do Nascimento do Marquês de Pombal (e evitando uma vez mais o «religioso» Santo António). Mais tarde, e dada a celebração na mesma data das Aparições de Fátima, Salazar obriga a nova mudança, desta feita para 25 de Outubro, data comemorativa da Conquista da Cidade aos Mouros. Anos depois, finalmente, a câmara lisboeta fixou o feriado municipal alfacinha como sendo o Santo António, a 13 de Junho que já era celebrado popularmente, mas até então não reconhecido e mesmo evitado oficialmente.

A propósito e em complemento, segue-se uma Breve história dos restantes  Feriados na República (1910-2010):

Para além dos acima indicados, a 1 de Maio de 1912 é acrescentado o feriado nacional de 3 de Maio -  Descobrimento do Brasil.

A 29 de Julho de 1929 (já em tempos da Ditadura Nacional) o 1º de Dezembro passou a designar-se de «Restauração da Independência» e ao 10 de Junho para além de Camões acrescenta-se-lhe a celebração da  Festa de Portugal, e em 1944 o «Dia da Raça». Em 1978, o 10 de Junho passou a designar-se dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

A 5 de Junho de 1948 é fixado feriado nacional o dia 8 de Dezembro, como sendo da Imaculada Conceição.

A 4 de Janeiro de 1952, após regulação do acordado na Concordata com a Santa Sé, são introduzidos os feriados do Corpo de Deus (festa móvel), o 15 de Agosto (Assunção de Nossa Senhora), e o 1 de Novembro (Todos os Santos). E são extintos os feriados de 31 de Janeiro e de 3 de Maio.

A 27 de Abril de 1974 a Junta de Salvação Nacional decreta o dia 1º de Maio como feriado obrigatório sob a designação de Dia do Trabalhador. E foi introduzido o feriado do 25 de Abril como Dia da Liberdade.

O Código do Trabalho de 2003 fixa como dias feriados os seguintes:  «1 de Janeiro, de Sexta-Feira Santa, de Domingo de Páscoa, 25 de Abril, 1 de Maio, de Corpo de Deus, 10 de Junho, 15 de Agosto, 5 de Outubro, 1 de Novembro, 1, 8 e 25 de Dezembro».
Podem ainda ser observados como feriados o Carnaval e o feriado municipal.
Nota: na anterior legislação (Decreto-Lei nº 874/76, de 28 de Dezembro de 1976), o Domingo de Páscoa não era feriado, pelo que será este o de criação mais recente.

20 de Junho de 2010

Pinheiro Manso

Casa do Pinheiro Manso e o propriamente dito, na Avenida da Boavista. 
No local dessa moradia foi construído o actual edifício da cervejaria Cufra e a Rua do Pinheiro Manso (então inexistente) deve precisamente a sua designação à árvore que se vê na fotografia.
Por detrás do pinheiro (derrubado por um temporal em 1941), vê-se uma chaminé industrial e conjunto de edifícios pertencentes à fábrica de têxteis William Graham (fundada em 1889).


ADENDA: Comentário de leitor Rui Cunha, n'A Baixa do Porto:

"Este Pinheiro Manso caiu em Fevereiro de 1941 quando do conhecido “CICLONE” assim conhecido no Porto. A casa conhecia quando pertencia à família Gilbert, que tinha um maravilhoso BMW dos anos 30, antes da guerra. A Rua do Pinheiro Manso foi aberta antes de 1892, pois já vem no mapa Teles Ferreira. A casa em que nasci, o nº. 274, é a primeira à direita nesse mapa. Foi construída por um inglês que a vendeu a minha avó cerca de 1895. No momento da queda do Pinheiro Manso, cerca das 20 h. ia a passar um carro dos Bombeiros Municipais do Porto que ainda foi atingido, mas recordo terem-me dito que só houve feridos."

10 de Junho de 2010

Centro Hípico do Porto

«Fundado em 10 de Junho de 1910 na cidade do Porto, o Centro Hípico do Porto teve como primeiro presidente Delfim de Lima, ficando a vice-presidência a cargo de Felisberto de Moura Monteiro. A Direcção que inaugurou a história do clube integrava ainda Fernando de Brito (vogal), Eduardo Fontes Pereira de Melo (vogal), Alberto Martins Macedo Cardoso de Meneses (tesoureiro) e António de Freitas Torres (secretário).

O CHP ficou inicialmente instalado no Bessa (1911/1938) passando depois para a Fonte da Moura (1938/1943) e, mais tarde, para Ramalde (1943/1967).

Em 1967, o Centro Hípico passa para Leça da Palmeira (Matosinhos), numa mudança tornada possível graças ao apoio prestado pelo então presidente da Câmara de Matosinhos, Engenheiro Fernando Pinto de Oliveira, que disponibilizou os actuais terrenos. Em Assembleia Geral Extraordinária, realizada a 30 de Março de 1995, é aprovada a mudança de nome do Centro Hípico do Porto para "Centro Hípico do Porto e Matosinhos"»

in Câmara Municipal de Matosinhos.

Quanto esteve em Ramalde ocupou os terrenos onde veio a ser construído o actual Estádio do Inatel (inaugurado como «Parque Desportivo Salazar»...). Ali Norton de Matos e mais tarde Humberto Delgado foram vivamente recepcionados aquando de comícios das suas campanhas eleitorais à presidência da República.

8 de Junho de 2010

Campo de Aviação

Às primeiras exibições de aviões na zona do Castelo do Queijo em 1912, outras iniciativas foram sucedendo ao longo dos anos, nomeadamente no campo de Espinho. Em 1929 surge o primeiro núcleo associativo, o «Núcleo do Norte do Aero Clube de Portugal» que veio a dar origem ao Aero Clube do Porto.
Visando a criação de um verdadeira pista de aviação, o clube adquiriu em 21 de Março de 1934 uns terrenos na freguesia da Senhora da Hora para a construção do Campo de Aviação do Porto. No entanto, tal pretensão foi prontamente chumbada pelas autoridades logo no mês seguinte. Ainda assim, tal campo foi palco de vários festivais de aviação e era utilizado com alguma frequência até à decisão construção definitiva do Campo de Aviação do Porto junto à localidade de Pedras Rubras em 1940.



in «A Cidade dos Transportes», por Mário João Mesquita, Porto, 2008 


Imagem (2010) googple maps. 
Na parte de baixo desta imagem é possível ver a rua da Preciosa (antiga rua de Pereiró), que cruza a Estrada da Circunvalação, podendo estabelecer-se que os terrenos do antigo «Campo de Aviação» ficavam sensivelmente em cima da actual Avenida AEP/Marechal Carmona e terrenos do hipermercado Continente.

31 de Maio de 2010

Tripeiros de gemma

«Tripeiros de gemma são os portuenses, naturaes das freguesias do centro da cidade - Sé, Santo Ildefonso, Victoria, etc. -  Tripeiro de clara são os das freguesias extremas - Bonfim, Campanha, Paranhos, etc. - Os tripeiros da casca são os que nasceram dentro do districto, mas já em outros concelhos. 
Que estes, quanto a mim, já não são, em rigor, tripeiros de coisa nenhuma, pois tripeiro, tripeiro sem confeição é apenas o que nasceu dentro da cidade.
Mas há muito quem queira passar por tripeiro, sem cá ter nascido, porque dá tom a quem não tenha outro de que se valer.
São tripeiros milicianos, esses taes, podendo, aliaz, serem muito boas pessoas....

Um mesmo do centro da gemma.»

in, «O Tripeiro», 3ª Série, nº11 (131), 1 de Julho de 1926

25 de Maio de 2010

Homem do Leme



Fotografia de Dias dos Reis

Escultura de homenagem aos pescadores de autoria do escultor Américo Gomes, na Avenida de Montevideu, realizada por encomenda de Henrique Galvão, Comissário da Exposição Colonial Portuguesa, durante a qual foi exposta em modelo de gesso obtendo grande sucesso junto do público.

Após a Exposição (que decorreu entre 16 de Junho e 30 de Setembro de 1934 nos Jardins do Palácio de Cristal), foi criada uma Comissão para o Levantamento na Foz do Douro da Escultura O Homem do Leme composta por várias personalidades a fim de patrocinarem a feitura em bronze da escultura, o que ocorreu em 1937, nas oficinas de Bernardino Inácio, decidindo a Câmara Municipal do Porto a sua colocação na Avenida de Montevideu em 1938.

O molde original em gesso foi entregue ao Museu Marítimo de Ílhavo. Refira-se ainda que tal escultura dá nome e simboliza a revista dos Lions Clube de Ílhavo.

21 de Maio de 2010

Comemorações Henriquinas - 1

in Revista O Ocidente, 11 de Abril de 1894 (17º ano, XVII Volume, nº551)
Desenho de J.R. Christino da Silva  
vendo-se a foz do rio Douro a partir dos jardins do Palácio de Cristal, a Igreja de S. Pedro Gonçalves (ou do Corpo Santo) de Massarelos, o fogo de artifício na zona da Afurada e o desfile de navios.

20 de Maio de 2010

Praça D. Pedro IV



Um dos postais mais bonitos da antiga Câmara Municipal e da Praça D. Pedro IV, actual Praça da Liberdade. 
A imagem deverá ser dos finais do século XIX

Endereço

Para além de novo template (que espera-se seja do agrado geral), este blog passou a ter endereço próprio: www.portoantigo.org. 
O redireccionamento é automático, pelo que em princípio os leitores não deverão precisar de mudar nenhum dos links ou subscrições.

12 de Maio de 2010

A Imagem de Santa Catarina das Flores (actualizado)




No interior do estabelecimento «Araújo & Sobrinho», no Largo de S. Domingos, existe o nicho e a imagem conforme fotografia acima. Trata-se de uma imagem antiquíssima, que se situa ao fundo e de frente para a rua em sua honra (actualmente apenas designada de Rua das Flores) cuja construção se iniciou em 1518 por ordem do rei D. Manuel I. A rua deverá o nome ao facto de tal santa ser a padroeira dos moleiros, uma vez que nas margens do Rio da Vila, que corre por detrás da rua da Flores, existiram à época diversos moinhos movidos a água.
Sobre a Santa Catarina pode-se ler aqui breve resumo biográfico.
O nicho estava inicialmente exposto a céu aberto, mas posteriormente foi autorizada a construção e expansão do estabelecimento, fundado em 1829, acabando a imagem por ficar no seu interior, mas exactamente na mesma posição que sempre teve.


«Na parte central do Largo de S. Domingos e desde o princípio do século XVI, existia um chafariz que foi demolido em 1845 e substituído pela linda fonte construída entre 1846 e 1850 num terreno expropriado pela Câmara ao conselheiro Domingos de Faria, tendo este, na terra excedente, mandado erguer num edifício no qual a referida fonte ficou embutida.

Este prédio, mais tarde, passou à posse de Manuel Francisco Araújo (fundador em 1829, da Papelaria Araújo e Sobrinho), e, deste, a seus herdeiros, os quais, após a demolição da fonte, por volta de 1922, aproveitaram o espaço da mesma para aumentar uma montra ao acreditado e secular estabelecimento de papelaria que hoje pertence, por sucessão, aos netos e bisnetos do instituidor.

A Fonte de S. Domingos, que ostentava em ponto elevado um lindo medalhão de pedra com as armas da cidade - por sinal um bom trabalho de escultura em granito - tinha duas bicas e recebia água dos mananciais de Paranhos e Salgueiros, seguindo o encanamento daqui para a Fonte das Congostas.

Pegado à casa de Manuel Francisco de Araújo , onde hoje está uma barbearia, havia uma outra casa pertencente a Henrique de Oliveira Maia, que saía fora do alinhamento uns quatro metros aproximadamente, formando o conjunto das duas casas um pronunciado recanto - no género do que subsiste fronteiro à embocadura  da Rua das Flores - no qual habitavam inquilinos da mais ínfima espécie, que se serviam de uma escada comum voltada para o dito recanto, e comerciavam algumas tabernas frequentadas por aguadeiros e moços de fretes de origem galega.

Mesmo em frente à Papelaria Araújo e Sobrinho, junto da fonte, erguia-se um oratório dos Passos - o Passo murinho de S. Domingos, que se formou devido ao rebaixamento da rua após a construção de prédios nesse lugar.

Este Passo, que havia sido tomo reformado entre 1824 a 1825, foi demolido assim como o prédio que formava saliência, para dar mais amplitude ao local e mais perfeita correcção ao alinhamento.

No ano de 1728 e no recanto atrás citado, via-se uma imagem que representava Santa Catarina, a qual, quando se procedeu ao alinhamento do lugar, foi transferida para o cunhal da casa Araújo e Sobrinho, onde se conservou longos anos. (...).

A imagem em referência, que tem 1,19 de altura por 0,55 de frente, foi apeada do dito cunhal há mais de meio século, por motivo de obras da frontaria da casa e devidamente arrecadada num amplo e artístico nicho de pedra canelada (encimado pelo emblema comercial usado pela firma), que o pai [e avô) dos actuais e dinâmicos proprietários cuidadosamentee mandou abrir na parede de um anexo das traseiras do estabelecimento.

esta linda e pouco conhecida escultura, que conta larga existência, não obstante ter sido modelada numa fraca variedade de calcário, está relativamente conservada. apenas a coroa que lhe cinge a cabeça e o braça direito [amputado pelo antebraço] se encontram com mutilações.

Agora, aqui muito à puridade: Não teria sido esta imagem porventura, a inspiradora do nome da rua que actualmente se denomina das Flores e antes se chamou de Santa Catarina?

Se a imagem já lá se encontrava, como é de supor, antes da abertura dessa rua em 1521, então podemos afirmar ter descoberto a origem toponímica do seu primitivo onomástico, e, demais, que o actual Largo de S. Domingos, como é sabido, antes e até meados do século XIX era conhecido por Praça ou Terreiro de Santa Catarina. (...)»

Horácio Marçal, in «O Largo de S. Domingos (III-Conclusão)», O Tripeiro, nº7, Novemnro dfe 1955, V Série, Ano XI





 

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