Recebido por mail, embora não através do autor. Mas pelo que vem no final, julgo que é lícito publicar:
Caríssimos,
não tenho por principio incomodar-vos com problemas que não vos dizem respeito. No entanto as, recentes, palavras proferidas por MFL a propósito do pagamento da hemodiálise por pessoas com mais de 70 anos, “…tem sempre direito se pagar…”, levaram-me a pensar:
A senhora terá feito confusão. Deverá ter associado, livremente, a palavra EMO, tão em voga nalguns grupos de adolescentes jdados a comportamentos mais emotivos, à palavrar DIÁLISE, usada pelo saudoso Serafim Saudade, quando se refira à interacção com o seu publicozinho.
Ter-lhe-á ocorrido que a hemodiálise é uma espécie de festa alucinante onde novos e velhos se encontram para divertimento pleno. Nesse sentido compreendo-a, perfeitamente, porque é que meia dúzia de privilegiados tem direito a usufruir, à borla, de tamanha loucura?
Da sala de diálise de onde vos escrevo a diversão é tanta que parece que passou aqui o Jocker e nos gaseou com algum produto hilariante. As enfermeiras, os médicos, o pessoal auxiliar e os doentes estão em êxtase. Enfermeiras lindas, nuas, acompanham-nos nas alucinações.
Admito, consigo compreender a senhora. Que os novos se divirtam sem pagar ainda vá que não vá, agora proporcionar esta regalia, oferecida pelo SNS, a gerontes não faz qualquer sentido. Pensando bem, novos e velhos, deveríamos pagar, na íntegra, este forró. A alegria, nestas sessões, é tanta que alguns de nós chegam ao final com fortes cãibra de tanto dançar. Saímos com o pulso acelerado e atordoados. Alguns mais excessivos acabam por morrer com autenticas overdoses.
Pensei, enquanto é de graça, meter uma cunha, no centro que frequento, para incluir a minha família e amigos. Tenho que confessar que chego a casa constrangido por ver a minha mulher e filhos com a inveja estampada na cara. Já chegaram a insinuar que os produtos que nos dão no centro, administrados através de agulhas, que parecem de tricot, devem ser de qualidade extrema, é frequente regressar a casa com uma cara que pareço a Manuela Ferreira Leite, não sei se a conhecem pessoalmente, sinto-me nas nuvens quando me confundem com ela.
Duas coisas, para rematar.
Tenho que referir que para além do divertimento que nos proporcionam, dão, melhor davam, a oportunidade de nos deslocarmos para este antro de diversão de táxi, um verdadeiro luxo. Agora, com o intuito de aumentar as horas de convívio, metem-nos numas carrinhas o que permite prolongar a festa. Além das quatro horas de convívio trissemanal, proporcionam-nos mais duas horas de transporte. Uma maravilha, dezoito horas semanais de puro e alegre convívio.
Para terminar, infelizmente alguns tiveram o azar de ver esta festa acabar, foram chamados, a meio da noite, para transplante. Felizmente com a tomada de posse do ministro da saúde essa questão está a ser resolvida e o número e transplantes a diminuir abruptamente. Uma sorte.
Tendo em conta que esta festa custa, ao SNS, mensalmente 2000€ por conviva, qual será o valor, razoável, com que os maiores de 70 anos devem contribuir?
Numa altura em que as medidas tomadas pelo executivo colocam, por manifesto desconhecimento, em causa a qualidade dos serviços de hemodiálise e a recuperação dos insuficientes renais. Gostava de vos pedir ajuda na divulgação do texto, pode ser que ajude a despertar consciências.
Agradeço-vos vivamente.
João Bizarro Duarte
























