20 de Janeiro de 2012

Evocação de James Callaghan – Barão Callaghan de Cardiff. A mentira política

O tema da mentira política é cada vez mais premente: a sedução pelo poder, pela sua manutenção e reforço, faz com que muitos dos seus agentes recorram frequentemente a esse expediente na esfera pública. Tratam-se de relações tão insólitas quanto perversas e contraditórias, mas cujo objectivo é dominar o sistema político com ilusões que visam criar falsas expectativas nos eleitorados, nas massas, nas multidões de pessoas que, alienadas, se deixam iludir por falsas promessas e falsos enunciados e ainda falsas soluções para os seus problemas.
O nosso tempo veio massificar a mentira, presente na linguagem e nos discursos políticos dos alegados representantes do povo. Em Portugal, o recurso à mentira política vem de trás, não é um exclusivo do actual poder em funções, só que agora a mentira é colossal na forma e no conteúdo. As TIC projectam a mentira a uma velocidade estonteante, as redes sociais podem contribuir para a ampliar (mas também para a neutralizar, desmontando essas mentiras, peça a peça).
Desse modo, vivemos hoje em plena mentira política: a mentira do défice, a mentira da inflação, a mentira da União Europeia e do castelo de cartas em que se tornou a coesão dos países membros da dita UE e, em particular, da zona EURO, a mentira da maior parte dos processos de tomada de decisão. Tudo, na prática, está envolto em simulação, dissimulação, em mistificação, enfim, a política converteu-se num processo sistemático de ilusão que visa dificultar a distrinça do real do imaginário em cada uma das sociedades, em cada um dos sectores da governação. Cada área e sub-área social, económica, financeira, ambiental está sempre envolta em dados contraditórios entre si.
Esta nova (velha) forma de fazer política tem efeitos perversos que vão para além da esfera política, interfere e penetra os comportamentos inter-pessoais, artificializa expectativas e decisões e faz com que uma sociedade inteira acredite naquilo que, de facto, não existe nem vai acontecer, só existe na lógica discursiva dos agentes políticos que recorrem a tais expedientes para manterem e, se possível, reforçarem as suas condições - objectivas e subjectivas - de poder. Sendo certo que a mentira é hoje "colossal", assim como veloz - pela rápida obsolescência das maravilhas e ilusões que propõe às populações que, ingénuas, acríticas e impreparadas não conseguem desmontar as ilusões propostas no lugar do político.
Nesta temática vem a propósito citar uma frase de um ex-PM britânico, que aqui evocamos, James Callaghan, PM do RU de 1976-79, que dizia que a mentira dá a volta ao mundo enquanto a verdade ainda está a calçar as botas.
Este caricato pensamento reconhece o quanto às vezes é sedutora a mentira. Mas, paralelamente, que tipo de sedução poderá existir quando um PM, diante de um país inteiro, tenta convencer todos os seus concidadãos que a nomeação de certas pessoas para certos lugares, não o é por amiguismo político e pagamento de favores, e apenas e tão só radica em critérios de competência, seriedade e transparência?!
Esta persistência na denegação da verdade é, obviamente, uma patologia política - que pode encobrir outras patologias.
Este tipo de persistência em julgar que o ferro é aço, a areia é petróleo e que o latão é ouro só pode redundar em mais estupidez humana, brutalizando a fantasia e a ilusão por parte de quem, como dez milhões e meio de portugueses, já não acredita naquelas mistificações que apenas regista os efeitos negativos da mentira política na vida do seu país, das suas empresas e organizações e na vida particular das pessoas - que até deixam de crer nelas próprias.
Esta difícil relação entre a verdade e a política foi sempre uma constante ao longo dos tempos. Teorizada por Platão, Maquiavel e Weber - entre outros cientistas, filósofos e pensadores - sucedeu que agora os seus efeitos fazem-se sentir com mais acutilância nas esferas social e económica, interferindo na qualidade de vida das populações. Pela natureza das tecnologias da informação que fazem os milagres da ubiquidade, o choque das populações, mais ou menos letradas, com as mentiras políticas fazem com que muitas delas, especialmente as mais letradas e dotadas de massa crítica, façam um exercício de auto-contenção na linguagem utilizada para não recorrer ao vernáculo que aquelas acções e condutas por parte dos agentes políticos suscitam.
Só pela via da LIBERDADE - potenciando a massa crítica de toda uma comunidade - se poderá atingir a VERDADE, e com ambas combater as mentiras com que diariamente o poder vigente, seja no plano micro, meso ou macro vai iludindo as respectivas populações com o fito de prolongar a sua ilusão, condição de reforço do seu próprio poder, ainda que com prejuízo objectivo do interesse nacional.
Só explorando as articulações entre aqueles dois valores absolutos: Liberdade e Verdade poderemos chegar, um dia, a um nível de aceitação democrática em que a maioria das pessoas, como sucede hoje, não seja descrente em relação à democracia que tem e aos políticos medíocres que, infelizmente, assaltaram o Portugal contemporâneo e que são, actualmente, razão de um subdesenvolvimento crónico que veio para ficar.

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GENEALOGIA DA MENTIRA EM POLÍTICA

GENEALOGIA DA MENTIRA EM POLÍTICA:
- Hoje, no debate parlamentar, mais uma vez o PM, Coelho, foi confrontado com o escândalo das nomeações que fez para a EDP (nomeação indirecta) e Águas de Portugal (nomeação directa) por mero amiguismo político e pagamento de favores.
- Contudo, "o homem dos favores e dos tachos p/ os amigos" (em que se converteu coelho) resolveu chamar idiota a dez milhões e meio de portugueses, muitos deles mais qualificados do que ele próprio, denegando indefinidamente esse facto, na esperança de ocultar as evidências flagrantes e tentar continuar a projectar uma imagem de seriedade, transparência e rigor que, manifestamente, passos colho não tem.
- Infelizmente, o recurso a estas técnicas ilusórias e de mistificação do real são cada vez mais frequentes em democracia, daí terem-se tornado num objecto de estudo c/ dignidade cultural, mas as ilusões assim como as mentiras têm a perna curta, pelo que seguramente - e por razões humanitárias - aqueles 10,5 de tugas tenderão a acreditar que Caborga era mesmo aquele tipo em quem os chineses tropeçaram no aeroporto da Portela indicado para a EDP.
- A alternativa a esta mentira é, naturalmente, criar-se outra mentira ainda mais espectacular na esperança de ser acreditada na perversão do tempo democrático em que hoje todos vivemos (ou somos obrigados a viver).
- E isto já não é só lamentável. É EXECRÁVEL.

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19 de Janeiro de 2012

Yuan pode tornar-se a segunda moeda mundial

Yuan pode tornar-se a segunda moeda mundial Controlo do Banco Central chinês permite fixar o valor do yuan perante as flutuações do mercado Getty Images É um sinal dos tempos. O yuan, a unidade monetária chinesa, está a caminho de se tornar a segunda moeda mais valiosa, atrás do dólar, e tirar o lugar ao euro que se encontra numa profunda crise com implicações no seu valor negocial. in Expresso
Um passo essencial para esta "ultrapassagem" foi dado em dezembro, quando a China e o Japão acordaram realizar negócios bilaterais diretamente na unidade monetária chinesa, sem necessidade de conversão para dólar.
Um acordo de peso, uma vez que estamos a falar da segunda (China) e da terceira (Japão) maiores economias do mundo, com transações no valor de 260 mil milhões de euros em 2011, segundo o "Deutsche Welle".
"É um importante passo politico. Reduz os riscos monetários para as empresas japonesas", afirmou Hosuk Lee-Makiyama do Centro Europeu para a Política Económica Europeia, em Bruxelas, à "Deutsche Welle".
Ou seja, se o valor das trocas entre ambos os países era significativo, o volume vai subir ainda mais, dando cada vez mais importância ao yuan.
Liberalização domina Desde 1996, quando autorizou a conversão do yuan para acordos comerciais, a China tem vindo a dar passos progressivos de tornar a sua unidade monetária mais disponível no âmbito da cada vez mais globalizada e liberalizada economia global, dando um papel ao yuan que corresponda ao atual poderio financeiro do "Império do Meio".
Ao aumentar a convertibilidade do yuan, a China está a permitir que investimentos de capital noutras unidades monetárias possam ser convertidos para yuans. Moeda que, por sua vez, pode vir a ser transacionada a taxas de mercado.
Por exemplo, os bancos nacionais de países como o Brasil e a Nigéria já têm ativos em yuans, e as bolsas de Londres e Singapura esperam poder realizar negocias na moeda chinesa quanto antes.
"A tendência é para a liberalização. Não estamos muito longe do nosso objetivo de convertibilidade", disse Zhou Xiaochuan, presidente do Banco Central da China, citado pelo "Deutsche Welle".
Definição artificial
Porém, a maioria dos analistas considera que ainda é cedo para saber se a total convertibilidade estará tão próxima quanto isso, até devido a políticas do próprio Banco Central chinês para proteger a moeda da especulação do mercado.
Por enquanto, o Banco Central chinês controla o valor do yuan, o que lhe permitie valorizar e desvalorizar a moeda como mais lhe convém, sem a expor às flutuações bolsistas e globais.
Assim sendo, apesar da China ser a segunda maior economia do mundo, o yuan ainda representa menos de 1% das transações mundiais, até porque o sistema chinês de controlo das transações ainda é um dos mais burocráticos e complicados do mundo económico.
Contudo, a mudança está inevitavelmente a caminho e a China está cada vez mais aberta às leis da economia global. Obs: A China, vivendo a teoria de um país, dois sistemas, está em franca progressão económica mediante a utilização cada vez mais generalizada da sua moeda, o YUAN. O "novel dólar" do mercado global, e cada vez será mais utilizado atendendo a que a RPC é um país onde a sua população goza de escassos direitos sociais, os chineses trabalham mais horas/semana do que no Ocidente, não têm sindicatos e/ou movimentos sociais e políticos com a força e expressão do Ocidente, de tudo resultando a produção de bens e serviços a baixo valor que entram no mercado global de forma competitiva. A China veio para ficar. Portugal, no seu processo de colonização nc hostilizou a China, a transferência da soberania de Macau para a RPC tb se fez de forma pacífica, pelo que se adivinham tempos de grandes vantagens comparativas entre estas duas nações tão assimétricas entre si no tamanho, nos recursos económicos, no poder e influência mundiais. Mas, curiosamente, têm hoje interesses comuns e complementares - seja no rectângulo, seja no espaço da lusofonia onde Portugal tem posição privilegiada por causa da história e da língua e, sobretudo, na Europa - em que Portugal pode operar como placa giratória para os interesses chineses nesse imenso mercado.

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A UGT de João Proença meteu a pata na poça...

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Algumas notas politico-sindicais de lana-caprina:
1. O Gov conseguiu, de facto, sob muita pressão e algumas promessas (porventura, pessoais e escondidas..) partir a espinha dorsal da UGT, abrindo, assim, uma crise de liderança que culminará com a antecipação da sucessão de João Proença à frente da organização sindical de pendor socialista;
2. O empresariado - que nestas coisas anda sempre na cama política com o Gov - também ajudou à festa, até porque tem interesses objectivos no acordo assinado por J.Proença;
3. João Proença - ficou isolado, alegadamente falseou declarações para se safar da tremenda pressão que está a sentir de vários lados: opinião pública, trabalhadores, dirigentes da pp/a UGT e, doravante, com uma queixa crime por parte da CGTP-In - colonizada pelo PCP e se opunha à assinatura daquele acordo que, em rigor, é mau para os trabalhadores, v.q., os lesa em todas as dimensões dos seus direitos socio-profissionais.
- Ou seja, aquilo que Coelho apresenta como uma vitória traduz-se agora na abertura de um proc. judicial contra J.Proença e que, em termos sindicais, tem como efeito colocar mais manifestantes nas ruas, mais conflitualidade social e, quiça, mais radicalismo sindical nos próximos meses em Portugal.
- Pergunto-me se não seria desejável perder mais uma semana de negociações para que algumas das condições legítimas expostas pelos trabalhadores fossem acolhidas pelo Gov e patrões, e não, como se verificou, ter-se chegado a um diktat do Gov e patronato - que agora só pode traduzir-se numa revolta social ainda maior, porque irreprimível.

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Muere Manuel Fraga, 60 años de pasión por el poder

Una biografía enciclopédica y desmesurada, en la que caben 60 años de la historia de España, un compendio que abarcaría la dictadura, la transición, la democracia y el Estado de las Autonomías, se ha cerrado con la muerte de Manuel Fraga en la tarde de ayer en Madrid a los 89 años al no recuperarse de la afección respiratoria que arrastraba desde principios de año. Tras él desaparece el último eslabón que aún unía remotamente a la derecha actual con el franquismo. Nadie que hubiese ocupado un cargo tan relevante bajo Franco -ni más ni menos que ministro de propaganda- logró salir indemne del desplome del régimen.
Fraga sobrevivió en la política 36 años más,
fue senador hasta el pasado noviembre y se ha muerto como presidente fundador del partido que gobierna en España. Su legendaria capacidad de adaptación le permitió todo eso y más, incluso convertirse en el gran adalid del autonomismo desde su retiro gallego, apenas unos años después de haber intentado frenar el desarrollo autonómico en la nueva Constitución. Tan venerado como odiado, siempre sin medias tintas, se va tras haber conseguido que ni siquiera el más feroz de sus enemigos le niegue ahora una capacidad política excepcional. Será enterrado el martes en Perbes (A Coruña), donde solía pasar sus veraneos, junto a su esposa. La capilla será instalada hoy lunes a partir de la 10.30 en su domicilio de Madrid.
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18 de Janeiro de 2012

O ultraliberalismo do nosso tempo = desemprego + pobreza

Não é já muito relevante saber se João Proença, da UGT, traiu ou não aqueles que representa comprando uma guerra no movimento sindical nacional, pois além de se representar a si próprio, quais gerontes há decadas no poder sindical (e o carvalho da silva, na CGTP-In- PCP é outro geronte ainda maior!!), é secundário ter dado aos trabalhadores aquela meia-hora simbólica, sendo tudo o resto mau para o lado de quem depende do trabalho: dias de trabalho, salários, condições de despedimento, feriados, etc.
Isto culmina numa questão sempre latente na história da evolução das sociedades e que se pode colocar assim: se não existisse o desemprego, seria o próprio regime ultra-liberal que o inventaria. Ele é-lhe indispensável e co-natural. É ele que permite à economia privada manter o seu jugo sobre a população planetária, ainda que sob a capa de contribuir para a coesão social, ou seja, a sujeição envernizada. Sempre foi assim na história da evolução social, com excepções pontuais.
Até porque não existe actualmente melhor meio de constrangimento sobre as populações e de garantia de paz social do que comprimi-la através desta grilheta que se desdobra no desemprego e nas consequências sociais e privações que ele sempre acarreta. De modo que, em Portugal, as usual, o povo é sereno...
O Gov, qualquer que ele seja, fará sempre o jogo do patronato. O Estado, é bom não esquecer é, ele próprio, o patrão de todos nós em Portugal, e se não o é directa e imediatamente, é-o mediante dispositivos indirectos que têm igualmente reflexos na vida dos agregados familiares e das pessoas individualmente. E aqui urge sublinhar que cerca de 85% do tecido empresarial é feito de PMEs ("Piquenas" e Médias Empresa), como diria esse vulto da banalidade que é manola Ferreira leite, agora defensora dessa excelsa ideia de que as pessoas com idade superior a 70 anos deverão pagar os serviços de hemodiálise. Antes tinha sido a promotora da ideia de meter a democracia na gaveta durante um semestre, passando empreender todas as reformas mediante a sua ditadura.
Confesso que ainda não percebi por que razão os media dão tempo de antena a esta idosa salazarenta e mal formada, ainda por cima completamemnte desmiolada pelo que diz, na forma e no conteúdo. É o que dá ter as costas largas em Belém... Até nisto o regime democrático tem azar.
Num país assim, com políticos falhos desta natureza, com um empresariado completamente dependente do patrimonialismo estatal e das suas graças e favores, com uma sociedade civil fraca e subsidiodependente, o resultado só pode ser um: uma pobreza crescente agravada com direitos sociais decrescentes, só estas condições podem levar a aceitar salários miseráveis e condições gerais de trabalho e de vida alinhados com a mediocridade dos políticos, empresários e sindicalistas que temos. Portanto, está tudo em linha ou alinhado pela bitola da mediocridade. No caso, quanto pior, melhor... É nesta senda que Coelho se perfila para acabar com o que restará de Portugal e dos portugueses.
Neste quadro, a imagem que o espelho devolve à sociedade só pode ser a pobreza e o desemprego estruturais. Curiosamente, para os pensadores utópicos do séc. XIX, o fim do trabalho traduzia uma imagem de felicidade, um objectivo supremo que era reivindicado. Mais recentemente, foi também graças à cibernética, então considerada uma (outra) utopia, que findaria a própria ideia do emprego.
Hoje, rebentadas todas essas utopias, entrámos numa outra ficção: a ficção governamental que temos - em boa medida - coligada com o nível do empresariado (subsidiodependente) que nos caracteriza, e que explica tão bem a natureza das relações entre o sector estatal e o sector privado, de que tivémos amostra nas nomeações para a EDP. O que deu a oportunidade a dez milhões e meio de tugas de conhecerem bem a personalidade do PM actualmente em funções em Portugal.
Seja como for, também não devemos pensar que a culpa é da cibernética ou da globalização, esse decisor oculto que está em todo o lado e tudo decide à nossa revelia, mas no mau uso que fazemos dos recursos materais e intangíveis que estão ao nosso dispor.

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15 de Janeiro de 2012

Álvaro e a internacionalização do pastel de nata. Quando a realidade transcende a ficção

Esta semana o país acordou com uma notícia do outro mundo: Álvaro, o ministro da Economia (ou das piadas..) advogou a receita para o combate ao défice e dívida externos de Portugal, indicando a abertura de empresa de bolos como escapatória para a recessão que estamos vivendo. Fê-lo numa conferência de imprensa, como se estivesse a descobrir a pólvora e revelando ao mundo a mais moderna inovação em matéria de teoria económica: a teoria da abertura ao mundo por via da agressividade comercial do pastel de nata. Por momentos, confesso, pensei logo em Paulo Futre e nas suas incursões ao oriente como forma de revolucionar o financiamento aos clubes de futebol sustentado numa revolucionária teoria publicitária e no marketing do séc. XXI. Mas regresso a Álvaro e à fórmula encontrada para recuperar a economia nacional por via do pastel de nata.
Escolheu uma empresa cujo produto está firmado no mercado nacional, e a decisão de avançar para a internacionalização caberá, em rigor, aos próprios empresários do sector que já facturam milhões por ano. Estranho é que o ministro da Economia tenha escolhido uma empresa com enormes lucros e sem nenhuma necessidade de apoio do Estado para se expandir, e não apoiar aquelas outras empresas (mais de ponta e outras do sector primário) - que até empregam mais trabalhadores e apresentam debilidades estruturai e têm maior necessidade de financiamento e de incentivos, para as orientar para os mercados internacionais.
Fica a sensação que o ministro escolheu uma bandeira nacional, como é a empresa já bicentenária dos pasteis de nata muito procuradas pelos turistas, para se promover a si, ao seu ministério e alavancar o Governo no seu conjunto, ao invés de puxar por aqueles sectores de actividade económica que mais carecem de programas de apoio e incentivos à internacionalização: agricultura, pescas, etc..
Sempre que aparece na tela, o ministro Álvaro enche o peito e parece anunciar uma nova revolução dos tempos, promete mundos e fundos mas, em rigor, aquilo que Álvaro faz é apenas fugir da insegurança gerada pela sua falta de visão do que é e pode ser a economia nacional. Tudo lhe escapa: o desemprego, as empresas a fechar portas havendo cada vez mais insolvência, o sentimento de ineficácia nas suas palavras, acções e instrumentos de actuação de política económica, e, no limite, na ideia que faz de Portugal e do que é a governação. Este ministro não passa dum teórico bem intencionado.

Admito até que Álvaro seja um homem bem intencionado que gosta de Portugal, mas não tem a mínima vocação para a governação, o essencial escapa-lhe e é decidido pelo seu mega-colega, ministro das Finanças, o empresariado acha-o ridículo e há muito que já não o leva a sério. Consequentemente, a pasta da Economia está em roda livre, sem ideia directora, sem programas de incentivos à internacionalização e com os factores de produção mais caros da Europa, tornando a produção nacional pouco competitiva nos mercados externos.

Numa palavra, o ministro Álvaro tornou-se já alvo de chacota dentro e fora do Gov, é gozado em toda a sociedade que o acha uma espécie de bobo da corte, imagem agravada com estas ideias ridículas que apenas reflectem a espuma das coisas, passando ao lado das essências que hoje definem as regras da economia mundial.

Grave não é o Álvaro ainda não ter compreendido o ridículo em que incorre quando faz aqueles anúncios urbi et orbi, grave é o ministro da Economia não compreender o sentimento de ineficácia gerador da crise mais global da instituição que o estrutura: o Estado-nacional.

Esta dupla insuficiência - política e cognitiva - que projecta mutações profundas no funcionamento e regras das instituições e, por extensão, na dinâmica das sociedades e no capricho dos mercados, faz com que o proponente de pseudo-ideias (que facilmente incorrem no ridículo, como a internacionalização do pastel de nata pela mão do Estado) traduzam não só uma incompreensão das leis da História e do seu sentido, como também uma congénita incapacidade de compreender que, certos agentes do Estado, nas actuais circunstâncias recessivas em que vivem 10 milhões de portugueses, ocupem o lugar do morto, encontrando-se agora na 1ª linha de visibilidade do Estado por via dos pasteis de Belém.

Por último, deixo uma nota final relativa aos políticos que se têm vindo a adaptar aos media, e nalguns casos revelam-se brilhantes profissionais do sistema. Sabem apresentar um subtil engagement entre grupos de pressão cujos pontos de vista pareciam irreconciliáveis.

No caso vertente, encontramos um homem de boa vontade, mas sem nenhuma ideia, autoridade, rumo e força para fixar qualquer compromisso. Embora, numa coisa estejamos, seguramente, todos de acordo: os portugueses gostam de pastéis de nata, e isso, presumo, seja uma "genial" recordação que o Álvaro sublinha aos portugueses e lega ao futuro.

Amanhã, quando Álvaro já não estiver no Governo e regressar à sua vida inicial, será certamente lembrada no Canadá (e arredores) como o português emigrado que mais fez pela vida do pastel de nata.

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Uma metáfora trágica do Portugal contemporâneo

in tsf
O comandante do navio cruzeiro Costa Concordia, Francesco Schettino, que naufragou sexta-feira à noite, perto da ilha de Giglio, em Itália, foi detido, segundo a agência italiana Ansa.
(...)
Obs: Infelizmente, é também assim que actualmente a maior parte dos países da UE se encontram, submersos e a meter água por os lados. Ou melhor, não é apenas na EDP que as autoridades portuguesas metem água, é na própria Águas de Portugal - que a água que está se soma à água que entra. Daí os pirulitos...

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12 de Janeiro de 2012

Evocação de Diogo de Couto e a Verdade

É sabido que a verdade aleija algumas pessoas, lesa outras e prejudica muitas mais. Sobretudo, se estiverem ligadas ao chamado "xistema" dele usufruindo regalias, benesses, apoios, status e múltiplos privilégios que configuram uma situação de desigualdade e injustiça relativa comparativamente a outros grupos e sectores da população.
Se evoco aqui Diogo de Couto, um estudioso de latim, retórica e filosofia, nascido em 1542, que anos depois vai para a Índia, torna-se amigo de Camões em Moçambique, é porque nunca como hoje a sua postura face à vida deve ser recuperada, até para evitar males maiores nas sociedades modernas. E a grande lição de Diogo de Couto repousa no seu particular conceito de história - que deveria conter (e contar) as "verdades" sem qualquer restrição. Couto era, pois, um defensor da objectividade absoluta, tanto quanto ela seria humanamente possível, ainda que essa frontalidade incomodasse os antepassados que estivessem envolvidos nos acontecimentos que narrava.
Foi seguindo essa convicção que Diogo de Couto, enquanto historiador, criticou os abusos, a corrupção e toda a espécie de violência praticada então pelos mais fortes, pelas autoridades pelas terras da Índia, protestando contra essas arbitrariedades abertamente. Daí a sua coragem e nobreza de carácter..
Portugal, em face do tipo de alguns governos que tem tido, da natureza de alguns agentes políticos que se têm aproveitado do Estado, daqueles agentes corruptos que pesam imenso ao erário público pago pelo contribuinte carece, como de pão para a boca, de homens como Diogo de Couto. Não para denunciar A, B, C ou D e cultivar um espírito mesquinho, persecutório e pidesco que já tivemos durante décadas em Portugal, e que de certo modo ainda nos está enraizado na alma, mas para reforçar a cultura de legalidade, transparência e de justiça social entre os portugueses cada vez menos existente nos dias que correm.
Injustiça essa visível entre nós pelo tipo de nomeações de carácter politico-partidário feita pelo actual Gov, seja para empresas públicas, seja ainda para empresas cuja maioria do capital é de natureza privada, mas em que o Estado guarda ainda um importante poder relativo que lhe permite condicionar, influenciar, vetar decisões que envolvem contratos avultados entre Estado e empresas do sector privado. Uma relação que em Portugal, consabidamente, sempre viveu em estreito conubio.
Infelizmente, o jornalismo de ideias em Portugal ainda conta com meia dúzia de Diogos de Couto entre nós, mas ainda são em reduzido número para ajudar a, por um lado, denunciar as malfeitorias que vão sendo feitas a este nosso querido Portugal em nome do suposto interesse público, por outro lado, ajudar a criar um Portugal onde se respire melhor e o país passe a ser um local melhor frequentado do que é na actualidade.
Diogo de Couto deixa-nos, portanto, um imenso legado: feito de crítica mordaz a um certo funcionalismo, à ambição desmesurada de certos players, ambição à riqueza e ao luxo - típica dos novos ricos, à opressão aos sectores mais pobres e indefesos da população e da sociedade, à falta de dignidade e de carácter de certas pessoas e à deslealdade entre elas nas suas múltiplas relações.
O exemplo de vida, coragem e nobreza de carácter representado por Diogo de Couto é demasiado relevante para ter sido em vão...

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11 de Janeiro de 2012

O sentido da História. Evocação de Edward Hallet Carr

História política, económica e social do séc. XX-XXI - aparece neste filme como um dos aspectos mais interessantes nestas mega-narrativas e interpela-nos acerca de saber qual o papel da casualidade na dinâmica histórica. Ou seja, perante a impossibilidade de se equacionar todos os aspectos na equação histórica, o historiador escolhe os que se afiguram mais interessantes, como defendeu Edward Hallet Carr, um dos experts da revolução soviética e também jornalista, historiador e brilhante teórico das RI.
O que significa que tudo aquilo que escapa à investigação mas tem efeitos significativos na dinâmica histórica, integra o acaso. E é aqui, segundo alguns historiadores, que a História converge para o domínio da Filosofia. Este filme acaba por ser um pouco de tudo, deixando, naturalmente, muitos factos relevantes de fora, até porque muitos deles ainda são do nosso desconhecimento. O que confere à História de tendência longa - (mais estrutural do que conjuntural) um certo encanto e fascínio, é que a História é, acima de tudo, futuro. E esse é indeterminável.
- A sagesse de Carr consistiu em compreender que a objectividade em história, como em qualquer ciência social, é uma utopia, daí a subjectividade da história e do historiador, já que não existem factos indepenendentes da interpretação de quem procura investigar e fazer história. Weber antes de Carr tinha concluído isso, e antes deste sociólogo já I. Kant tinha percebido a importância da intersubjectividade na produção do conhecimento humano.
- A essa luz, o passado só pode ser analisado à lupa do presente, e a história é uma ciência interpretativa, e não de relato linear de factos indiscutíveis. Foi o que, na realidade, a sucessão brutal das imagens apresentadas no video me evocaram. Daí ter recordado o legado teórico deste excepcional historiador britânico que deixou uma considerável influência na forma de entender a história do séc. XX, dos seus conflitos mundiais e da própria dinâmica das relações internacionais.
- Desse modo, o estudo da história afigura-se como o estudo das causas e dos porquês, e não tanto a questão do que aconteceu. Na prática, o homem está sujeito a leis e princípios de racionalidade, e qualquer acção da sua parte pressupõe uma causa racional. Carr preocupou-se em estudar e agrupar o estudo dessas causas em função da sua importância relativa.
- De Hegel e Marx recuperou a ideia de progresso da humanidade, feita de teses, antíteses e sínteses. Cabendo ao homem moderno ser capaz de se compreender a si mesmo e ao processo histórico que integra de forma inédita. Eis a sua singularidade. - Por último, ao revisitar todas aquelas imagens, umas por conhecimento histórico mais remoto, outras porque as estudei integradas nos acontecimentos históricos do séc. XX, que foi um século dos conflitos e de duas guerras mundiais, temos a obrigação de compreender que o historiador não se consegue colocar "fora" da história e do tempo, sendo a revolução tecnológica um acelerador desse progresso material e espiritual. Além que de que a história também deixou de ser a narrativa acerca das elites e passou a ser a história dos povos, dos movimentos operários e dos movimentos sociais, nacionais e transnacionais.
- Tudo estando em mudança constante, assim como a própria história. É isso que faz dela uma ciência dinâmica, uma ciência de futuro, em permanente evolução.
- Edward Hallet Carr sabia, para concluir, que a história não vive daquela suposta objectividade, reclamada pelas ciências exactas. E foi essa circunstância que o fez perceber que o seu domínio de investigação converge com os domínios de interesse da Sociologia, da Ciência Política, da Psicologia, da Antropologia e das demais ciências sociais em geral. Carr sabia tudo isto, fez história com base nesse relativismo do conhecimento, e também por isso foi um cientista social de excepção que influenciou a própria história das ideias, dos métodos e processos de fazer história.
Ainda que para isso tivesse que refutar a possibilidade de objectividade da história. Actualmente, ao invés do passado, os factos e os comportamentos económicos, financeiros, políticos, sociais e religiosos, com a generalização do neocapitalismo, ganharam autonomia relativamente às velhas ordens institucionais que os regulavam e orientavam. Hoje a obediência às leis da esquizofrenia do mercado subverteu tudo.

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José Adelino Maltez deixa um testemunho histórico multidimensional sobre a maçonaria

José Adelino Maltez deixa aqui contributos interessantes a vários níveis sobre a maçonaria que podem ser seminais para a própria investigação científica na área em Portugal. Uma perspectiva histórica comparada, filosófica e especulativa, a sua importância no combate à ditadura e instauração da democracia e mais tarde na origem da própria construção europeia. A visada foi, naturalmente, a srª ministra da Justiça (que é politicamente inexistente), além de intelectualmente impreparada.

Mas o que é mais curioso na dinâmica histórica, é que se não fossem as relações perigosas - e que estão devidamente identificadas e são conhecidas de todos e são objecto de averiguação pelo MP - entre intelligence e certas lojas maçons, esta questão jamais se colocaria. O que é pena, pois fica sempre a sensação de que o estudo de aspectos organizacionais com relevância histórica só é explicitado se houver um choque ou um conflito de interesses entre o domínio particular e o chamado interesse comum que deve ser assegurado pelo Estado.

Desse modo, podemos dizer que há males que vêm por bem, dando assim oportunidade aqueles que, sendo ou não membros da maçonaria, mas que estudaram este fenómeno histórico relevante para a história das relações internacionais dos últimos 300 anos, se aclare o seu valor e legado a fim de se compreender as dinâmicas das sociedades contemporâneas.

Quem sabe a própria reconstrução europeia não renasce dos esforços de boa vontade de homens que, de forma altruísta, repensem os fundamentos da Europa - que hoje estão em farrapos e, mais grave, está completamente de cócoras ao directório franco-alemão.

Em termos de referências pessoais, apreciei as que foram feitas ao historiador Oliveira Marques, que acompanhou muitos de nós no ensino Secundário e abriu horizontes de estudo para este fenómeno, a Jurgen Habermas e à "sociedade pós-secular" que aquele defende bem como aos grande construtores da Europa, de Monnet a Schuman e outros que hoje, infelizmente, não são seguidos por aquele directório.

Registei, por último, um desafio científico à criação duma teoria anti-maçónica que parece estar por escrever em Portugal. Também foi útil recordar a obra de JAM, recentemente lançada entre nós, intitulada ABECEDÁRIO SIMBIÓTICO - em relação à qual fizémos um breve enquadramento. Constatei que estes factos supervenientes obrigaram a rebobinar a história e a reapresentar a obra, o que é sempre uma boa recordação para o autor e útil para aqueles que querem compreender mais e melhor este fenómeno especulativo que tem interferido na dinâmica das sociedades.

Nuns casos, o saldo é positivo, noutros não o é. Pelo que é útil notar que, como em tudo na vida, há sempre um lado positivo e outro negativo na mesma moeda. Ou como diria um amigo, há prós e contras (nem de propósito!!) nestas sínteses que a vida tem e partilha connosco.

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10 de Janeiro de 2012

Mais recessão é a "obra-prima" da desgraça nacional. O papel da maçonaria

O Portugal profundo está a mergulhar no caos económico, que conduz à pobreza, ao desemprego galopante e à miséria, mas algumas carolas do agenda setting nacional preocupam-se em discutir a importância da maçonaria na vida pública, apesar de todos sabermos que certos membros e algumas lojas maçons apenas procuram aumentar a sua influência na sociedade, na economia e no aparelho de Estado através do cruzamento de interesses sectoriais, estabelecendo entre eles elos de condicionalidade, o que obriga à colocação estratégica de certas pessoas em pontos-chave do processo decisório. É assim a vários níveis, desde a decisão de atribuição dum projecto e seu financiamento à celeridade de concessão de licenças ou à inclusão e/ou nomeação de pessoas em serviços, departamentos - públicos e privados - para depois pagarem favores na volta do correio.
Isto é certo e sabido, e, consoante as conjunturas e a natureza e vulnerabilidade dos actores que ocupam o aparelho de Estado, esta influência perversa e degradada de certos elementos e algumas lojas da maçonaria, é maior ou menor na sociedade, na economia e no Estado. É óbvio que o lado mais sério e construtivo desta problemática, que também existe, e é bom sublinhá-lo, sob pena de sermos sectários, é que os ideais e princípios da maçonaria se mantêem válidos, especialmente na busca universal e fraterna do livre-pensamento, da tolerância, os quais devem conduzir a um desenvolvimento espiritual do homem, bem como à construção duma sociedade mais livre, solidária e justa.
Mas isso são as metas para que apontam tais valores, sabemos que, na prática, a realidade é outra, bem outra, infelizmente. E é aqui que, por causa dum punhado de malfeitores, os demais maçons ficam com o nome manchado, é aqui que se cruzam interesses obscuros entre serviços secretos e vendettas pessoais, interesses públicos com interesses privados e empresariais, lutas de poder entre o grupo empresarial A contra o grupo empresarial B, seja nos media ou noutros sectores de negócio.
É deste conluío e conivências, geradoras de coligações negativas de interesses com poderes de veto em certas decisões, que se cria o caldo facilitador da corrupção e do tráfico de influências que a boa maçonaria se deveria distanciar e marcar a sua diferença intelectual, moral e pragmática na sociedade portuguesa.
Como? Valorizando o mérito e o trabalho intelectual de cada um, e não submergindo esses valores aos tais conluíos e tráfico de influências que tem dominado a vida pública nacional desde a revolução de Abril. Ora, a revolução dos cravos não se fez para violentar os seus ideais, os seus valores e legítimos interesses e direitos sociais adquiridos.
Dito isto, que é muito pouco perante a gigantesca desgraça económica, social e financeira do país, e é bom termos a noção da proporção dos problemas e a forma como eles são colocados na esfera pública, o país real foi hoje confrontado com mais um notícia desgradável do BdP, divulgada através do seu Boletim Económico onde revê em baixa as projecções de crescimento da economia nacional, ou seja, temos pela frente mais recessão, que se traduzirá, inevitavelmente, em mais empresas insolventes, mas desemprego, menos procura interna, etc.
Este agravamento do não crescimento obrigará, seguramente, a mexidas no OGE e de mais medidas de austeridade, ou seja, maior estagnação da economia nacional e, consequentemente, mais conflitualidade social, na medida em que os problemas da economia afectam directa e imediatamente os demais subsistemas da sociedade.
Assim, presumo, não haverá exportações que nos valham e as decisões tomadas ao nível da nomeação de "amigos políticos" para o Conselho Geral de empresas ainda sob alguma influência estatal, como é o caso da EDP, acaba por seguir os piores padrões de ética política republicana a que o PM, Passos coelho, e o seu Gov, parecem ser pouco sensíveis.
Também aqui nada mudou sob os céus e este Gov deixa de ter alguma legitimidade para criticar o Gov anterior em política de nomeações de índole politico-partidária e de puro amiguismo político, ante um país a empobrecer e em chamas. O que contrasta com mais de meio milhão de euros que Eduardo Catroga irá auferir de salário na EDP em 2012.
É neste caldo de problemas estreitamente interligados, nos domínios económico, financeiro e social, que o Gov aparece sem controle dos problemas, sem uma orientação clara e desenvolvimentista que inspire a generalidade dos agentes económicos a sair desta crise estrutural que tem hipotecado Portugal e as novas gerações. Uma hipoteca que poderá ainda agravar-se mais se houver um recrudescimento das tensões internacionais e o eixo/directório franco-alemão continuar a dominar a Europa nesta fase de reconstrução do euro que comporta mais dúvidas, incertezas e riscos do que oportunidades, vantagens e certezas.
Talvez seja por estas razões que ano de 2012 seja o ano do agravamento de todas as desgraças, sejam as que são directamente induzidas do exterior, sejam as que resultam da incompetência e incapacidade (agregada aos problemas herdados) do Gov em funções que não consegue encontrar um ponto de equilíbrio entre as imposições da Troika e um estádio de crescimento verdadeiramente necessário para que a economia portuguesa comece a crescer a fim de aguentar os impactos negativos (inflação, retenção de salários aos func. públicos, aumento draconiano da carga fiscal, que é um esbulho, perda de direitos na saúde, etc) sobre as populações sobre quem se exerce tamanha usura.
Neste quadro negro feito de dificuldades reais, efectivas e imediatas sentidas pelas pessoas, pelas famílias e pelas empresas portuguesas, talvez fosse chegado o momento de os verdadeiros maçons se deixarem de discursos de autojustificação que censuram noutros patriarcas, resultado de egos verdadeiramente histriónicos e duma escola de formação verdadeiramente doentia e começassem a partilhar as suas ideias com a sociedade.
Talvez tenha chegado o momento para que a proclamada ideia de universalidade e fraternidade entre os homens, fazendo deles verdadeiros irmãos, encontre no valioso pensamento e praxis dos verdadeiros e genuinos maçons os projectos de sociedade alternativos capazes de, não implicando mais impostos às populações nem mentiras ou promessas por cumprir e também não discriminando as pessoas com base na distinção de ideologia, origem, raça, sexo, religião ou condição social - prover a uma melhor governação política, financeira, social e económica.
Ao fim e ao cabo, do que Portugal precisa é de ideias e de projectos de sociedade alternativos que possam dar corpo à Nação futura cujo desafio hoje, mais do que nunca, nos interpela a todos.
Se através da especulação conseguirmos colocar as boas questões também obteremos as boas respostas, e essas não residem, certamente, no ultraliberalismo reinante que actualmente em Portugal vende os anéis e os dedos, destruindo uma economia social existente, sem deixar ao povo português uma verdadeira escolha dos rumos que quer e pode seguir para reconstruirmos esta grande Nação - já quase milenar e que tem as fronteiras físicas mais estáveis da Europa.
Embora saibamos que hoje as fronteiras da geo-finança sejam de índole geoespacial, i.é, sejam fronteiras atmosféricas. Daqui resultando a ideia de que o modelo de globalização competitiva terá que ser regulado pelos Estados, e que estes consigam regular os mercados e a generalidade dos agentes e dos operadores económicos e financeiros que hoje actuam como verdadeiros agiotas e especuladores operando onde sabem que existe um Estado, uma economia, uma nação e um povo em default.
É, creio, na consecução deste mega-projecto que consiste o novo e Grande Arquitecto do Universo (GADU), e para esse efeito teremos que ser capazes de refundar o sistema político (incluindo aqui o sistema de partidos, naturalmente) de modo a colocá-lo ao serviço daqueles que lhe concederam a legitimidade popular para tomar as decisões em seu nome e a implementar os projectos de sociedade que foram prometidos e "politicamente contratados" com a sociedade em sede eleitoral e depois sufragado nas urnas pelos cidadãos eleitores. Desvirtual este contrato é matar a democracia representativa.
Seria ao serviço deste bem comum supremo que os bons maçons e a maçonaria mais impoluta se deveria inscrever e, sem medo e sem sofismas, contribuir verdadeiramente para esse grande debate em Portugal. Até pela grande vantagem de separar o trigo do joio que gravita nessas águas turvas em que navegam actores políticos, agentes económicos, operadores financeiros, serviços de intelligence (que de intelligence não revelam nada), académicos, académicos que viraram administradores de empresas privadas que vivem em conúbio com agentes secretos que trabalham à boa maneira dos espiões que vieram do Leste: ou seja, são agentes duplos, e, a soldo de empresas privadas, políticos no poder e doutras facilidades ora vendem serviços e informações à empresa A, ora vendem informações à empresa B, e aplicam o mesmo modus operandi para os decisores do aparelho de Estado que passaram mandar e procuram comprar informações no "mercado político" a fim de ajustar contas com os seus concorrentes políticos por questões e/ou aspectos do passado recente.

Numa palavra: a boa e verdadeira maçonaria tem aqui, como provavelmente nunca teve históricamente em Portugal, uma excepcional oportunidade para intervir.

Tem aqui uma excelente ocasião para revelar o que verdadeiramente é, e do que é capaz de fazer em contexto de recessão que actualmente todos vivemos.

Por isso, este não é o momento da diabolização da maçonaria, do seu fanatismo e superstição, mas a hora H. para estes homens que, de certo modo se consideram tão excepcionais e singulares, e à falta de melhor novidade cultivam o segredo em tudo o que pensam, dizem e fazem, demonstrarem aquilo que verdadeiramente valem e colocarem esse suposto talento ao serviço do bem comum de que falava Aristóteles.

Com sorte e alguma fé, sempre necessária à produção de conhecimento, talvez possamos ganhar todos algo com tanta sabedoria acumulada nos tempos e nos templos...

- Adenda: link picado no DN

Aqui poderá ver um contributo interessante para esta discussão em que o Grão Mestre do GOL, a dado passo, afirma:
(...) o movimento "não aceita ser envolvido em assuntos decorrentes de interesses empresariais".

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- Piadética maçónica

- Desgraça maçónica - que exige responsabilidade - civil e criminal

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O carisma em que podemos acreditar - por Joseph Nye -

- Nota prévia: vale a pena meditar neste tão simples quanto interessante artigo do autor do conceito de soft power, professor de Harvard e ex-subsecretário de Estado da defesa dos EUA. Chamo aqui a atenção para dois aspectos: a forma como Nye reactualiza aspectos do carisma - tema de que se ocupou Max Weber; e o modo como esse mecanismo assenta, em grande parte, na percepção de quem vê, ou seja nas massas de eleitores. Uma reflexão importante, mais uma de Joseph Nye que nos subtrai da espuma dos dias.
Está prevista para 2012 uma transição da liderança em duas grandes autocracias. Nenhuma das duas constitui uma surpresa. Xi Jinping deverá substituir Hu Jintao como o Presidente da China e, na Rússia, Vladimir Putin anunciou que irá recuperar a presidência que actualmente é de Dmitri Medvedev. Em relação às democracias do mundo, os resultados políticos deste ano são menos previsíveis. Nicholas Sarkozy enfrenta uma campanha de reeleição presidencial difícil em França, tal como Barack Obama nos Estados Unidos.
Nas eleições presidenciais norte-americanas de 2008, a imprensa afirmou que Obama ganhou porque tinha “carisma” – o poder especial para inspirar fascínio e lealdade. Se assim é, como é possível que apenas quatro anos mais tarde haja incerteza a respeito da sua reeleição? Poderá um(a) líder perder o seu carisma? O carisma tem origem no indivíduo, nos seus apoiantes ou na situação? As investigações académicas indicam que são os três.
O carisma revela-se surpreendentemente difícil de identificar com antecedência. Um estudo recente concluiu que “pouco” se sabe sobre quem são os líderes carismáticos. Dick Morris, um consultor político norte-americano, relata aquele na sua experiência, “o carisma é a mais ilusória das características políticas, porque não existe na realidade; apenas na nossa percepção quando um candidato é bem-sucedido graças ao seu trabalho árduo e à sua forma de lidar com os assuntos”. Da mesma forma, a imprensa de negócios tem considerado muitos CEO como “carismáticos” quando as coisas correm bem, para logo lhes retirar o rótulo quando os lucros baixam.
Os politólogos tentaram criar escalas de carisma capazes de prever votos ou índices de aprovação presidencial, mas estas não se revelaram frutíferas. De entre os presidentes dos EUA, John F. Kennedy é frequentemente descrito como carismático, mas obviamente não para todos, dado que não conseguiu conquistar a maioria dos votos populares e os seus índices de aprovação sofreram variações durante a sua presidência.
O sucessor de Kennedy, Lyndon Johnson, lamentava a sua falta de carisma. Isto era verdade no que diz respeito à sua relação com o público, mas Johnson conseguia ser magnético – e até mesmo irresistível – nos contactos pessoais. Um estudo cuidadoso de retórica presidencial concluiu que nem mesmo oradores famosos como Franklin Roosevelt e Ronald Reagan podiam contar com o carisma para cumprir os seus programas.
O carisma é mais facilmente identificado após o facto. Nesse sentido, o conceito é circular. É como o antigo conceito chinês do "mandato do céu": alegadamente os imperadores governavam porque o tinham e quando eram derrubados, era porque o tinham perdido.
Mas ninguém podia prever em que momento isso iria acontecer. Da mesma forma, o sucesso é frequentemente usado para provar – após o facto – que um líder político moderno tem carisma. É muito mais difícil usar o carisma para prever quem será um líder bem-sucedido.
Os apoiantes estão mais inclinados a conferir carisma a líderes quando sentem uma forte necessidade de mudança, muitas vezes no contexto de uma crise pessoal, organizacional ou social. Por exemplo, o público britânico não considerava Winston Churchill como um líder carismático em 1939, mas, um ano mais tarde, a sua visão, confiança e capacidade de comunicação trouxeram-lhe carisma, dada a ansiedade dos britânicos após a queda da França e a evacuação de Dunquerque. E posteriormente, em 1945, depois da atenção do público se ter desviado da vitória da guerra para a construção de um Estado-providência, Churchill perdeu as eleições. O seu carisma não conseguiu prever a derrota: quem o fez foi a mudança das necessidades dos apoiantes.
Na prática, o carisma é um sinónimo vago de "magnetismo pessoal". As pessoas variam na sua capacidade de atrair os outros e a sua atracção depende em parte dos traços inerentes, em parte das habilidades aprendidas e em parte do contexto social.
Algumas dimensões da atracção pessoal, tais como aparência e comunicação não-verbal, podem ser testadas. Vários estudos mostram que pessoas que são consideradas atraentes são tratadas de forma mais favorável do que aquelas que não são atraentes. Um estudo concluiu que um homem belo goza de uma vantagem, que vale 6-8% dos votos, sobre um rival feio. Para as mulheres, a vantagem é de cerca de dez pontos.
Os sinais não-verbais representam uma parte importante da comunicação humana e experiências simples têm mostrado que algumas pessoas conseguem ter uma comunicação não-verbal melhor do que outras. Por exemplo, um estudo da Universidade de Princeton revelou que quando foram mostradas aos indivíduos imagens de dois candidatos em eleições desconhecidas, aqueles conseguiam, sete em cada dez vezes, prever quem seriam os vencedores. Um estudo semelhante realizado em Harvard, no qual se mostravam aos indivíduos videoclipes silenciosos de 10 segundos, referentes a 58 eleições, revelou que as previsões dos telespectadores explicavam 20% da variação na votação dos dois partidos – uma variável mais poderosa do que o desempenho económico. Ironicamente, as previsões tornaram-se mais pobres quando o som foi ligado.
Nas eleições de 2008, os norte-americanos ficaram desiludidos com a guerra do governo Bush contra o Iraque e com a crise financeira que estalou dois meses antes da votação. Obama era um candidato jovem e atraente, que falou bem e projectou um sentimento de esperança para o futuro. Esta foi, claramente, uma das razões pelas quais Obama conquistou uma reputação de carisma.
Mas parte do seu carisma estava nos olhos dos seus apoiantes. As pessoas às vezes dizem a respeito de carisma: "reconhecemo-lo quando o vemos", mas também estamos a olhar para um espelho. À medida que a economia piorou, o desemprego aumentou e Obama teve de lidar com os compromissos complicados de governar, o espelho ficou embaciado.
O carisma diz-nos algo sobre um candidato, mas diz-nos ainda mais sobre nós mesmos, o estado de espírito do nosso país e os tipos de mudança que desejamos. Os tempos de crise económica dificultam a tarefa de manter o carisma. Obama enfrenta os desafios contínuos do desemprego e uma oposição republicana persistente e Sarkozy vê-se a braços com problemas semelhantes. No entanto, quando estiverem em campanha, a sua retórica será libertada da necessidade de compromisso. As eleições deste ano serão o verdadeiro teste ao seu carisma. Tradução de Teresa Bettencourt/Project Syndicate
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9 de Janeiro de 2012

Macaquinhos do chinês - por Pedro Santos Guerreiro -

in JN As nomeações para a EDP são um mimo. Catroga, Cardona, Teixeira Pinto, Rocha Vieira, Braga de Macedo... isto não é uma lista de órgãos societários, é a lista de agradecimentos de Passos Coelho. O impudor é tão óbvio nas nomeações políticas que nem se repara que até o antigo patrão de Passos, Ilídio Pinho, foi contratado.
As nomeações para a EDP são um mimo. Catroga, Cardona, Teixeira Pinto, Rocha Vieira, Braga de Macedo... isto não é uma lista de órgãos societários, é a lista de agradecimentos de Passos Coelho. O impudor é tão óbvio nas nomeações políticas que nem se repara que até o antigo patrão de Passos, Ilídio Pinho, foi contratado.
Estava a correr bem de mais... Um grande negócio para o Estado, uma privatização que reforça a EDP, a gestão reconduzida. Mas a carne é fraca. É sempre fraca. Só falta uma proposta na Assembleia Geral da EDP: mudar o nome de Conselho Geral e de Supervisão (CGS) para o de Loja do Governo.
É extraordinário como uma empresa em vias de total privatização se consome na absurda politização. E é surpreendente: a recondução de António Mexia fora uma demonstração de isenção de Passos Coelho: este Governo não gosta de Mexia nem do poder da EDP (basta ler a entrevista de hoje do secretário de Estado da Energia neste jornal) mas quando os chineses perguntaram se o queriam, Passos não se opôs - remeteu a decisão para os accionistas. Ingenuidade do primeiro-ministro? Não, ingenuidade nossa. A troca foi esta lista de famosos da política. Porquê?
Eis porquê: primeiro, os chineses concebem as estruturas de poder ancoradas no Estado, pelo que acharão normal a sofreguidão de emissários políticos; segundo, os chineses trabalham em ciclos longos, pelo que os próximos três anos de mandato são, como na anedota, um "deixa-os poisar" que deixará crer que não os novos donos não vêm controlar. Mas o mais importante é outra coisa: o CGS representa os accionistas da EDP e muitos, aflitos que estão, também querem vender aos chineses. O triângulo amoroso produziu esta aberração.
Para ser isto, o CGS da EDP devia ser extinto. Este órgão, criado para gerir o equilíbrio entre o Estado e privados, tornou-se numa loja de vendedores e vendidos. Paradoxalmente, o Conselho de Administração Executivo seria mais independente se o CGS fosse extinto e funções como as de auditoria e remunerações fossem transferidas.
António Mexia não é desta loja, ser convidado para um novo mandato é uma grande vitória sua, mas ele sai mais fraco: tem um Governo hostil, aceitou nomes na comissão executiva impostos pelos chineses e está apoiado em accionistas que estão de saída (BES, Mello, BCP).
Voltemos às nomeações. Podíamos dizer que não está em causa o mérito pessoal de cada uma destas pessoas, mas está. Porque o mérito que está a ser recompensado não é o técnico ou sentido estratégico, é o da lealdade e trabalho político. É Catroga (ainda assim, o único aceitável) ter suado por Passos como "ministro sombra", é Teixeira Pinto ter feito a proposta de revisão constitucional, é Braga de Macedo ter feito uma estratégia para a internacionalização que foi triturada por Portas.
É curioso, mas Miguel Relvas, tendo a fama de "apparatchik" que tem, está a fazer as coisas bem. Na RTP, manteve a administração de Guilherme Costa, que tem gente essencialmente próxima do PS. Já Passos reincide na fórmula tenebrosa da Caixa Geral de Depósitos, reforçando a dose: dois cavaquistas (Catroga e Rocha Vieira), dois passistas (Braga e Teixeira Pinto) e um CDS (Celeste Cardona, a mulher mais polivalente de Portugal, já foi ministra, banqueira e agora será conselheira na Energia).
Duas linhas para Ilídio Pinho: é um grande empresário, está ligado ao Oriente e não precisa deste cargo para nada. Precisam talvez as suas empresas. E é pouco recomendável ver metido nisto o accionista e membro dos órgãos da Fomentivest, onde trabalhava Passos Coelho. O próprio devia sabê-lo - e não aceitar.
Por esta lógica, ainda veremos Ângelo Correia ou José Luis Arnaut assomarem numa das próximas nomeações (a próxima é já a Portugal Telecom). O problema é que, enquanto isso, milhões de portugueses estão a perder salários, empregos, a pagar mais impostos, mais pelas rendas ou pela saúde. Estas nomeações são uma provocação social. Porque enquanto muitos tratam da sua vida, alguns tratam da sua vidinha.
As nomeações da EDP, como antes as da Caixa, são um mau sinal dentro da EDP e da Caixa, e são um mau sinal do País. Já não é descaramento, é descarrilamento. A indignação durará uns dias, depois passa, cai o pano sobre a nódoa. A nódoa fica. Quem é mesmo o macaquinho do chinês?
Obs: PSG não precisou de grande inspiração para burilar esta narrativa, a própria realidade já é ela própria uma fonte inesgotável de surpresa, tristeza, tráfico de influências, pagamento de favores, jeitos a grupos empresariais sem cuidar do verdadeiro interesse nacional. Passos foi eleito com um programa eleitoral mas adoptou outro, uma vez no poder; prometeu combater o clientelismo partidário, mas agora revela-se directa ou indidrectamente, um fautor desse mecanismo na sociedade portuguesa que só pode potenciar a promiscuidade entre poder político e negócios, clientelas partidárias e moralidade pública. Numa palavra: um malogro.

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8 de Janeiro de 2012

Alexandre Soares dos Santos é um empresário diferente

- Soares dos Santos é livre porque é rico. Sendo uma coisa e outra diz exactamente o que pensa, e di-lo duma forma clara.
- O que entronca com uma reflexão de Woody Allen que defendia que um homem só é verdadeiamente livre se for rico.
- Soares dos Santos deu uma verdadeira aula de Economia na Sic Notícias, uma aula que o inepto ministro da Economia deveria ver e ouvir. Uma entrevista que o "caça-impostos" - gasparzinho - deveria meditar.
- Contudo, a novidade introduzida por este excepcional empresário no debate público em Portugal consistiu na crítica e na obstrução ao Estado (e das disfuncionalidades, arbitrariedades e brutal carga fiscal) que representa sobre a vida das empresas e do seu património, história e identidade de três gerações.
- Alexandre Soares dos Santos revoltou-se contra a omnipresença do Estado na economia, e foi contra o carácter errático do sistema fiscal do Estado português que este empresário deu o seu "grito do Ipiranga". A esta luz, este empresário, ao conrário dos demais comportou-se duma forma original, i.é, assumiu-se como um actor social e económico de tipo novo - visto que, através da sua intervenção no espaço público, procura desafiar a ordem estabelecida e desencadear a mudança no ambiente fiscal e no tipo de intervenção do Estado na economia e na sociedade.
- Soares dos Santos quer crescer lá fora, garantindo o seu património, convicto de que Portugal não se aguenta no euro, barrando a discriccionaridade político-administrativa do Estado português perante a autonomia deste grupo (familiar) empresarial. Com esta discussão o empresário conseguiu direccionar a atenção de todos os actores politicamente relevantes para o seu protesto, reavaliando a natureza da sua liberdade individual (e empresarial) perante as dinâmicas e tensões do aparelho de Estado e do sistema partidário.
- Esta sua metanarrativa, que vai muito para além das questões específicamente empresariais ligadas ao país de origem deste grupo empresarial (de natureza familia), configura uma das maiores críticas à democracia representativa que temos, à forma de fazer política, à brutalidade e erratismo da carga fiscal, à qualidade das elites e ao conjunto dos desafios institucionais que dinamizam uma versão mais competitiva e modernizada da nossa democracia.
- Em termos de líderes políticos, Alexandre Soares dos Santos gosta de Francisco Assis (PS), do PM (PSD) e do sentido de Estado de PPortas (CDS). Entende, por outro lado, que Cavaco não tem sabido moderar os interesses dos portugueses.
- Esta abrangência politico-ideológica vai muito para além do "centrão" para cair num "grande caldeirão", arte de não se comprometer com nenhum em concreto e cobrir os três partidos do arco da governação em Portugal.
- De um grande empresário só se esperava este tipo de resposta política. Numa palavra: Soares dos Santos revelou visão e sentido estratégico para o seu grupo e coragem política para dizer tudo - e de forma clara - aquilo que pensa. Uma raridade em Portugal.

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6 de Janeiro de 2012

Quando a China governa - por Ivan Krastev -

Quando a China governa
Para um europeu, nos dias de hoje, pensar sobre o futuro é perturbador. A América está militarmente sobrecarregada, politicamente polarizada e financeiramente endividada. A União Europeia parece à beira do colapso e muitos não-europeus vêem o velho continente como uma potência aposentada, que ainda consegue impressionar o mundo com as suas boas maneiras mas não com coragem ou ambição.
Inquéritos de opinião a nível mundial, realizados nos últimos três anos, indicam consistentemente que muitos estão a virar as costas ao Ocidente e – com esperança, medo ou ambos – vêem a China a avançar para o palco central. Como diz a velha piada, os optimistas estão aprender a falar chinês; os pessimistas estão aprender a utilizar uma Kalashnikov.
Enquanto um pequeno exército de especialistas afirma que a ascensão da China ao poder não devia ser assumida e que os seus alicerces económicos, políticos e demográficos são frágeis, a sabedoria convencional afirma que o poder da China está a crescer. Muitos questionam-se como é que uma Pax Sinica [paz chinesa] mundial pode parecer: como é que a influência mundial da China se manifestaria? Como é que a hegemonia chinesa diferiria da variedade americana?
Duma maneira geral, as questões de ideologia, de economia, de história e de poder militar dominam os debates actuais na China. Mas, quando se compara o mundo americano de hoje com um possível mundo chinês de amanhã, o contraste mais marcante consiste na forma como os americanos e os chineses experimentam o mundo para além das respectivas fronteiras.
A América é uma nação de imigrantes, mas também é uma nação de pessoas que nunca emigram. Notavelmente, os americanos que vivem fora dos EUA não são chamados de emigrantes, mas sim de “expatriados”. A América deu ao mundo a ideia de ser um “caldeirão cultural” – um instrumento de cozinha alquímica onde diversos grupos étnicos e religiosos se misturam, voluntariamente, construindo uma nova identidade americana. E muito embora os críticos possam argumentar que o “caldeirão” é um mito nacional, tem tenazmente fundamentado o imaginário colectivo da América.
Desde que os primeiros europeus se estabeleceram ali, no século XVII, as pessoas de todo o mundo têm sido atraídas para o sonho americano de um futuro melhor; o encanto da América é, em parte, a sua capacidade de transformar os outros em americanos. Tal como um russo, agora professor universitário da Universidade de Oxford, disse: “Você pode tornar-se num americano, mas nunca se pode tornar num inglês”. Não surpreende, portanto, que a agenda mundial dos EUA seja transformadora; é a que dita as regras.
Os chineses, por outro lado, não tentaram mudar o mundo, mas sim adaptar-se a ele. As relações da China com os outros países são canalizadas através da sua diáspora e os chineses percepcionam o mundo através das suas experiências como imigrantes.
Hoje, vivem mais chineses fora da China do que franceses a viver em França e estes chineses que estão no exterior fazem parte do grande número de investidores na China. Na verdade, há apenas 20 anos, os chineses que viviam no estrangeiro produziam tanta riqueza como toda a população no interior da China. Primeiro, a diáspora chinesa teve sucesso, depois foi a própria China.
Chinatowns – comunidades, muitas vezes insulares, localizadas nas grandes cidades do mundo – são o cerne da diáspora chinesa. Como o cientista político Lucien Pye observou uma vez, "os chineses vêem tal diferença absoluta entre eles e os outros que, inconscientemente, acham natural referirem-se aos nativos dos países que os acolhem como “estrangeiros”.
Enquanto o “caldeirão cultural” americano transforma outras nacionalidades, as chinatowns ensinam os seus habitantes a adaptarem-se – a tirarem proveito das regras e dos negócios do país de acolhimento, ao mesmo tempo que permanecem separados. Enquanto os americanos levam a sua bandeira bem alto, os chineses trabalham arduamente para serem invisíveis. As comunidades chinesas, no mundo inteiro, conseguiram tornar-se influentes nos seus países de acolhimento, sem serem ameaçadas; conseguiram ser fechadas e não transparentes, sem provocarem a ira; conseguiram ser uma ponte de ligação com a China, sem parecerem ser uma “quinta coluna”.
Como a China é de adaptação, não de transformação, é improvável que mude o mundo de forma dramática, caso venha a assumir as suas rédeas. Mas isso não significa que a China não explorará esse mundo para fins próprios. A América, pelo menos em teoria, prefere que os outros países partilhem os seus valores e ajam como americanos. A China só pode recear um mundo onde toda a gente aja como os chineses. Deste modo, num futuro dominado pela China, os chineses não definirão as regras, mas procurarão tirar o maior proveito possível das regras que já existem.
Tradução de Deolinda Esteves/Project Syndicate
Público

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3 de Janeiro de 2012

Karunesh e Symphony of Science

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2 de Janeiro de 2012

Bons tempos na América Latina - por Jorge Castaneda -

Bons tempos na América Latina Jorge Castañeda
in Público
Para a América Latina, 2011 foi, como diria Frank Sinatra, um ano muito bom – e 2012 parece que também não será muito mau. Para uma região nem sempre habituada a que as coisas corram bem, esta é uma situação um pouco estranha.
Em 2011 foram realizadas três eleições na América Latina. Duas – na Argentina e no Peru – correram bem, a outra – na Nicarágua – foi marcada por fraudes flagrantes e por uma forte intervenção do governo a favor do actual titular do cargo. Ainda assim, duas de três não é mau numa região onde, anteriormente, caso se chegassem a realizar eleições, a regra era a existência de disputas sobre os resultados.
Em termos económicos, o elevado preço das matérias-primas fomentou um forte crescimento na América do Sul em 2011 e a pequena recuperação dos EUA beneficiou os países vizinhos. No Chile, Peru, Argentina, Uruguai, Bolívia e, em menor escala no Brasil e na Colômbia, a procura voraz chinesa e indiana de matérias-primas e alimentos aumentou as reservas estrangeiras, permitiu gastos avultados por parte do governo e sustentou elevados níveis de importações. Tudo isto conduziu a taxas de crescimento médio bem acima dos 4%.
Mas também originou novas dúvidas relativamente à dependência das exportações de mercadorias. O economista e político chileno, Carlos Ominami, no seu livro de memórias, Secretos de la Concertación [Segredos da Concertação], questiona o que aconteceria se a economia da China abrandasse ou se a "bolha" do seu sector imobiliário rebentasse. Isto parecia estar a acontecer no final do ano: os preços das mercadorias e as taxas de crescimento estavam em queda, e o ano de 2012, apesar de ainda prometer um forte desempenho económico, não coincidirá com o sucesso deste ano. A continuidade dos preços mais baixos pode virar o feitiço contra o feiticeiro.
Países atípicos foram a Venezuela, apesar dos preços elevados do petróleo, e a Bacia do Caribe: o México, a América Central e as ilhas. Estes países exportam produtos manufacturados para os EUA, de quem também dependem a nível de turismo e remessas; falta-lhes quer a geografia quer a geologia para se tornarem grandes exportadores de mercadorias (ou, tal como o México, exportam todo o seu petróleo para os EUA).
Mas mesmo os países atípicos desfrutaram de um crescimento razoável este ano. Se os EUA evitarem um novo abrandamento, poderão conseguir melhores resultados do que a América do Sul em 2012. Globalmente, à excepção de 2009, toda a região terá experimentado uma década de crescimento ininterrupto – algo que não acontecia desde a década de 1970.
O boom impulsionou a expansão da classe média da América Latina. Entre 1950 e 1980, a classe média da maioria dos países latino-americanos englobava entre um quarto e um terço da população. Então veio a crise da dívida da década de 1980, as reformas estruturais extremas e os colapsos financeiros da década de 1990 e uma nova recessão global em 2001. Estes acontecimentos traumáticos mergulharam estes países na chamada "armadilha do rendimento médio": incapazes de crescer ou de continuar a ampliar a suas classes médias.
Mas, na segunda metade da década de 2000, tudo mudou: a estabilidade macroeconómica prolongada, os governos competentes de centro-esquerda ou centro-direita, as políticas sociais sensatas e o crescimento económico global permitiram que países como o México, o Brasil, o Chile, o Uruguai e até mesmo a Argentina dessem o passo gigantesco que se seguiu. Por volta do ano de 2008, cerca de 55% das populações desses países pertenciam à classe média, quaisquer que fossem os parâmetros de definição utilizados.
O acesso ao crédito, a existência de mais empregos, as remessas, o boom das mercadorias e as transferências condicionais de fundos possibilitaram a milhões de pessoas comprar casa, carro e ter uma vida melhor. Esta classe média não se baseou nos precedentes do Atlântico Norte e a condição é precária e reversível; além disso, o seu padrão de vida é bastante inferior ao dos seus homólogos em países mais ricos. Mas não deixa de ser uma classe média.
Esses sectores de rendimento médio representam hoje uma parcela ainda maior do eleitorado, uma vez que as suas taxas de participação são mais elevadas do que as dos pobres. Os candidatos políticos vêem-se obrigados a dar-lhes atenção, fazer-lhes cedências ocasionalmente e adaptar-lhes a sua mensagem, o que conduz os líderes e os partidos a tomar posições moderadas. Não há garantias de que esta situação se mantenha, mas é uma das realizações mais impressionantes da região nos últimos anos.A América Latina terá duas eleições importantes em 2012, na Venezuela e no México e em Cuba não haverá eleições. Na Venezuela, os opositores do presidente Hugo Chávez vão unir-se por um único candidato para as eleições presidenciais de Outubro. Mas tudo depende do estado saúde de Chávez que, tal como o de Fidel Castro em Cuba, é um segredo de Estado bem guardado.
Será que o cancro de Chávez lhe permitirá candidatar-se (ele é tão formidável a fazer campanha como é desastroso na sua gestão económica), vencer e governar até 2030? Será que vai ser um substituto do seu irmão mais radical (e sucessor nomeado), Adán? Ou estará demasiado doente para participar? Nesse caso – e mais importante – será que ele, Adán, e toda a elite "bolivariana" irão aceitar uma derrota nas urnas?
Em Cuba, não haverá eleições, mas a situação poderá chegar a um ponto culminante no próximo ano. As reformas económicas de Raúl Castro, ou não foram implementadas, ou não estão a produzir os resultados esperados, a ilha continua a depender de subsídios da Venezuela, das remessas de Miami e dos turistas europeus.
Os irmãos octogenários governantes de Cuba não podem durar para sempre. Algo poderá ter de ceder na ilha, especialmente se o seu benfeitor venezuelano já não estiver no poder.
Depois há o México, que irá realizar apenas a quarta eleição democrática da sua história, num contexto generalizado de crime organizado, de violência terrível e de crescente cepticismo relativamente à guerra do Presidente Felipe Calderón contra as drogas. Com três partidos rivais, uma lei eleitoral terrível, sem segunda volta e com uma considerável dose de frustração por 12 anos de governos de centro-direita, muitas vezes ineficazes, o resultado é altamente incerto.
Dito isto, as instituições políticas do México sobreviveram a tempos difíceis, a classe média rejeita o extremismo e os EUA estão por perto. Preferíamos ver os candidatos presidenciais do México a oferecem plataformas eleitorais com ideias e propostas que respondam aos desafios que o país enfrenta, mas este défice substancial acontece hoje em dia, quase sempre, em todo o lado.
Para uma região que sofreu durante tanto tempo a frustração e o desespero dos seus fracassos, estes estão entre os melhores dos tempos. A América Latina deve dar graças e lembrar-se que nada dura para sempre.
Tradução de Teresa Bettencourt/Project Syndicate
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Obs: Uma análise tão interessante qto esperançosa acerca da evolução socioeconómica da América-latina, tão rara nas últimas décadas. Oxalá dure nos anos vindouros.

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Armadilha do crescimento em Portugal

Ontem enquanto ouvia o PR debitar sobre a recessão e a forma de sair dela, lembrei-me da forma inútil como foram empregues e monitorizados os milhões de euros em fundos comunitários na década cavaquista (1985-95). A ausência de orientação estratégica na aplicação desses fundos, que encheu o país se corrupção e de oportunismo explica, em boa medida, o carácter incipiente do nosso tecido económico e da consequente falta de produtividade e competitividade nacional.

Facto que dificulta a nossa internacionalização e a captação de mais mercados externos, porta de salvação actual para a crise estrutural da economia portuguesa.

Ao boom da classe média que, de facto, passou a ter mais poder de compra, acompanhado do aparecimento das grandes superfícies comerciais e de grandes cadeias de distribuição, de que o "Sr. Sonae" foi o mais bem sucedido entre nós nessa época de ouro, não foi acompanhado pelo fortalecimento do tecido económico nacional, agravado com a posterior crise da dívida (sobretudo a privada à banca, fomentada ao tempo de Guterres - em que a banca prometia tudo a todos). As reformas estruturais foram sendo adiadas, sobretudo a da segurança social, cujas pessoas hoje têm uma maior longevidade, secando também durante mais tempo os recursos da segurança social - para a qual contribuíram uma vida.

Entretanto, o desemprego disparou acima dos dois dígitos, novidade em Portugal desde 1974, sobreveio a crise da dívida soberana que humilhou do Estado do socratismo - que se viu forçado a pedir ajudar ao FMI por já não dispôr de liquidez para os salários dos funcionários públicos. E fê-lo tardiamente com custos acrescidos nas taxas de juro com que contraímos empréstimos nos leilões.

Muito simplesmente, os fundos comunitários serviram para algo, mas o mais crítico ficou por fazer: a qualificação dos portugueses. Resultado não crescemos. O colapso financeiro mundial, o contágio à Europa, a ameaça da implosão do euro, a fraca liderança da Europa faz com que sejamos os indigentes do Velho Continente.

Daí a desesperança (fundada) dos portugueses. Justificada no facto de sabermos que estamos a pagar impostos brutais ao mesmo tempo que cavamos a nossa própria sepultura. E isto, convenhamos, não é nada agradável.

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