Friday, October 28, 2005

A medida da inocência

Quando há um atentado terrorista e morrem pessoas, a tendência geral é para que as vítimas sejam descritas como “inocentes”. A não ser que sejam militares, caso em que são descritas assim mesmo, como “militares”, no estranho pressuposto de que um militar não poder ser inocente e a inocência é uma virtude reservada a civis. A tese subjacente, portanto, parece ser a ideia de que em cada civil há um inocente – coisa estranha se fizermos o exercício de substituir “sociedade civil” por “sociedade inocente” e vermos que não há aqui nenhum sinónimo. Ou há, mas um tanto perverso e pouco abonatório para a dita sociedade.

São vícios de linguagem, dir-me-ão, meras convenções semi-automáticas que em si mesmas não querem dizer nada. Aí franzo o sobrolho: há carradas de literatura (mesmo antes da segunda metade do século XX) que explicam como geralmente é pela linguagem que o gato vai às filhozes. Uma coisa que me incomoda no caso em concreto: falar de vítimas inocentes é pressupor a possibilidade da existência de vítimas culpadas. Donde que ao ler relatos de atentados que provocam vítimas inocentes tenha quase sempre a sensação de que o que se censura no atentado é ele ter errado o alvo e atingido inocentes em vez de culpados. Como se o problema não fosse o atentado mas a falta de pontaria. Como se o mal não estivesse no acto de matar como um absoluto em si próprio (como diziam as tábuas de Moisés, sem distinção entre inocentes e culpados) mas na relatividade do estatuto das vítimas desse acto. E claro, as perguntas para que não há respostas: o que seria uma vítima culpada? E, em havendo vítimas dessa estirpe, a que ponto isso serviria de atenuante para o acto?

Quanto a mim, se algum dia tiver o infortúnio de perecer num atentado terrorista, agradecia não ser descrito como uma vítima inocente. Carrego demasiadas culpas para que o epíteto se me ajuste. Escolham um adjectivo com menos conotações beatíficas mas que, ainda assim, vá directo a ponto. “Pató”, por exemplo. Digam que “o atentado provocou x vítimas inocentes uma vítima pató”. É mais à medida.

Eufemismo

Foi dar um mergulho ao Hades e nunca mais ninguém o viu.

Thursday, October 27, 2005

Generalização #3

A propósito: o líder de um regime teocrático, religiosamente fundamentalista e socialmente ultra-conservador é assim tão evidentemente de "esquerda"?

Generalização #2

Dizem que a "esquerda" se devia demarcar claramente do que disse o presidente do Irão ("Israel deve ser riscado do mapa") sob pena de ficar a suspeita de conivência ou, pior, "simpatia". Claro, como se fosse evidente a relação entre a "esquerda" e o chefe de uma teocracia; como se fosse evidente que o presidente iraniano fala em nome da "esquerda"; como se de cada vez que alguém diz um disparate fosse preciso a alguém "demarcar-se" para não lhe ser associado.

Generalização

Falam da "esquerda" como se por "esquerda" designassem alguma coisa de tão preciso como o Benfica, a Carris ou a Associação de Estudantes da Escola Secundária D. Pedro V.

O medo

Quando leio os contos de terror psicológico do Maupassant tenho quase a certeza que ele sabia o que era dormir em casa dos meus avós, no meio do pinhal, em noites verdadeiramente escuras e silenciosas. Para um miudo citadino, o terror absoluto.

Futebol

Onde é que estou? Na II divisão. Num dia bom, bato o pé aos grandes e arranco um empate.

Tuesday, October 25, 2005

Bear in mind



O novo filme de Werner Herzog chama-se Grizzly Man mas podia muito bem chamar-se assim, Ursos na Cabeça.

Blog lista de compras #2

E eu hoje por acaso não comprei nada, só por falta de tempo: parece que já saiu o disco dos Silver Jews. Adapto ao Berman o que se diz do Dylan uns posts abaixo.

One day they were cutting flowers for something to do
On the band of the road 'neath the cottonwoods
He turned to her to ask if she'd marry him
When a runaway truck hit him where he stood.

Blog lista de compras com caução

[insert cover here]

Hoje comprei isto, aquilo e aqueloutro porque o meu amigo fulano de tal disse que era muito bom.

Blog lista de compras

Hoje comprei isto, aquilo e aqueloutro, de preferência antes que mais alguém o tenha comprado.

Sunday, October 23, 2005

Críptica

Não tenho muita paciência para vir para aqui fazer crítica; mas a uma boa críptica, a essa, nunca direi que não.

Espanta espíritos

Muito objectivamente, os tempos estão complicados. E o pessimista que há em mim (e que fala mais por mim do que eu por ele) não vê, com a mesma objectividade, maneira de não se tornarem ainda mais complicados. Ou pior ainda: além de complicados, incertos. O que, para o comodista que há em mim (sou como o outro, contenho multitudes, somos vários aqui dentro), há muitos anos desabituado da coexistência com a incerteza (pelo menos a um certo nível, muito prático e muito quotidiano), é a maior das complicações.

Still, no meio da angustiazinha que me vai trazendo o peito crescentemente preso, pus a tocar o último disco que comprei. A banda sonora de No Direction Home, o filme que Scorsese fez sobre Bob Dylan e que, espero bem, não há-de faltar muito para estar por aí, visível. A música, diz-se acalma as feras, incluindo, acrescento eu, as feras da razão. Sei que já citei a frase aqui no blog mas já não me lembro de quem a inventou: "as long as you listen to Dylan you're safe". O disco nem tem nada de novo, só takes alternativos e versões inéditas de coisas já conhecidas. Mas até por isso a impressão de segurança foi fortíssima: voilá, aqui está algo que é o que é e sê-lo-á sempre, no matter what.

Saturday, October 22, 2005

Auto-controlo

Dei por mim a pensar que ter um blog - e um blog é hoje o supra-sumo já não da liberdade de expressão, mas da facilidade de expressão - equivale muito a um exercício de auto-controlo. Ora isso levanta-me um problema: é que o sucesso pleno desse exercício significaria... não haver blog.

Ou seja: se tenho um blog, se mantenho um blog, é porque falhei algures.

Wednesday, October 12, 2005

O retrato de Dorian Gray (no fim do livro, obviamente)


Keith Richards, by Anton Corbijn.

Tuesday, October 11, 2005

Vantagem

No cinema é diferente, claro. Vemos mas ninguém nos vê a ver. O que, no fundo, faz da dita ética só um disfarce vistoso para a culpa. Assim como a dita coisa a dois se revela a versão optimista duma coisa a um.

Keep it a secret

Num café cheio de gente, os dois cavalheiros com quem partilho a mesa põem-me nas mãos uma revista com uma fotografia de Keira Knightley a página inteira. E mais Keira Knightley nas páginas seguintes. Lindíssima, claro. Mas mesmo assim só consigo olhar rápida e furtivamente, quase com vergonha. Timidez antiga que o tempo transformou numa espécie de ética: para uma mulher bonita olha-se discretamente, como se fosse um segredo, sem assistência. Coisa a dois, sem espectáculo. Mesmo se for só uma fotografia.

É que já bem me bastam as vezes em que a ética sucumbiu à estética.

Mediocritas

- Ou está muito bom ou está uma grande merda.
- E não há meio termo?
- O meio termo é uma grande merda.

Às vezes acho-me piada

- Viste o Prós e Contras ontem?
- Não. Qual era o tema?
- As eleições.
- E quem é que estava contra as eleições?

A chacun sa cinephilie

Na primeira vez que fui a Paris com algum dinheiro - já lá tinha estado antes, mas sem nenhum dinheiro - levava uns francos de reserva para comprar três cassettes vhs: uma era o Tokyo Monogatari (Ozu), outra o Lola (Demy), e outra o Sunrise (Murnau). O Ozu e o Murnau foram fáceis, resolveram-se na Fnac ou coisa parecida. O Demy, ainda por cima prata da casa, foi estranhamente complicado. Só no aeroporto DeGaulle (ou seria Orly?, bolas para a memória), à volta, numa lojeca de mau aspecto espreitada mais por descargo de consciência - mas lá estava, capa vermelha com fotografia da Anouk Aimée em chapéu e collants.

(Enfim, história de tempos pré-Amazon, quando procurar uma coisa queria mesmo dizer que uma pessoa tinha que se mexer em vez de ficar sentado a fazer pesquisas no Google.)

Poucas vezes pus essas cassettes no videotape. Os filmes, voltei a vê-los muitas vezes em sala de cinema (como deve ser, ainda é como deve ser). Não belisca a estima que tenho pelos vhs (ou pela sua lembrança), até por isto: provam-me que cinefilia, palavra pesada por tanta razão, não rima só com necrofilia, rima também com euforia e alegria. Estas cassettes não são só cassettes: são cassetes-testemunha. Como quando um arqueólogo encontra umas pedras e sabe, porque elas lho dizem, que houve ali uma civilização.

E uma oferta recente - um DVD de The Life Aquatic (gosto mesmo daquilo, raios partam) - avivou-me a memória. All is not lost.

Um travelling assim

Monday, October 10, 2005

O sol nasce

Cinema francês (post it)

Esqueci-me do Moustache. Espero não me esquecer do Desplechin e do Guédiguian.

Sunday, October 09, 2005

Asi es la vida

O analfabeto pegou no Hamlet e indignou-se: aquela porcaria não lhe dizia nada.

Passividade

Pouca paciência para o lugar-comum dos "filmes que não comunicam com o espectador". Primeiro, um filme não é bom ou mau por causa disso; segundo, o espectador que se indigna porque o filme não "comunica" raramente se questiona se ele, espectador, foi capaz de "comunicar" com o filme. É que, certeza velha, para "comunicar" são precisos dois, e, quase tão velha, se é verdade que há maus filmes não o é menos que também há maus espectadores.

O futebol na TV

Ver a selecção portuguesa a jogar mal já é suficientemente penoso. Aturar durante 90 minutos os comentários de dois adeptos histéricos e ressabiados é muito pior.

Lixem-se

Ouvi em todos os canais que Portugal ontem jogava com um tal "Lichenstaine". Mas na grafia original está lá, bem visível, um "t" - "lichTenstein". Isto é não saber ler ou não saber falar?

Voto material

Resolvi a indecisão em cima da urna (salvo seja) e votei. O resultado, aparentemente, é o esperado. Ter voto na matéria não significa que o voto se faça matéria.

Friday, October 07, 2005

Ou assim

Gostamos de autarcas arguidos, meramente suspeitos ou liminarmente corruptos. Gostamos da vida como ela é.

Se houvesse verdadeiro humor na publicidade, os outdoors da TMN seriam assim

Gostamos do défice. Gostamos da vida como ela é.

What you're not

Reparo que tenho tendência para dizer que gosto das coisas pela negativa - dizer, como num dos posts anteriores, que gosto dos candidatos "pelas ideias que não tiveram". É efeito de estilo, é mania de me armar em espertinho? Sem benevolência, coisa que comigo não aplico, acho que é mais influência da Nico* (rima e é verdade):

I can't help it
If you might think I'm odd,
If I say I'm not loving you for what you are
But for what you're not.

*estragava-me a rima dizer que a canção é do Bob Dylan. Só num certo sentido, porque ele ofereceu-lha.

Bucareste

Dizia um conhecido meu, viajado: "Entro em Lisboa de comboio e tenho a sensação de estar a entrar na estação central de Bucareste". E isto, atenção, não era elogio nem a Lisboa nem a Bucareste.

Lx

E dito isto, concordo a cem por cento (descontando o tom catastrofista com que ele fala de tudo) com o que VPV escrevia outro dia: Lisboa está feia, suja, incaracterística, caótica. Remédios para isso, também não vejo.

EMEL

Também votava no candidato que prometesse - melhor, que garantisse - pôr decididamente a mão nas cretinices da EMEL. Sei bem a borrada que fizeram para aqui em Campo de Ourique, quando andaram a mexer nos passeios para desenharam os famosos "alvéolos". Ficou pior para os moradores de todo o tipo: os que andam a pé, porque os passeios foram reduzidos (e na minha rua, de passeios estreitinhos, até plantaram um parquímetro em tal sítio que os peões tinham que o contornar pela... faixa de rodagem, parquímetro que só foi retirado depois de um abaixo-assinado de moradores), e os que andam de carro, porque os lugares de estacionamento disponíveis foram, objectivamente, reduzidos. Ora se a ideia é moralizar o estacionamento temporário para protecção dos moradores (que no fundo é uma das teses que justificam a existência da EMEL) e são estes que saiem mais prejudicados, vou ali e já venho.

E também não me esqueço, é o meu lado ressentido, da resposta que me deram quando uma vez telefonei perguntando por uma solução para um problema bastante prático e bastante concreto relacionado com a documentação necessária para obtenção do dístico de morador: "Não sei, isso é problema seu, arranje-se". Preocupados com os moradores? Vá barda*erda.

Talvez o Carmona comprasse isso

Diz um amigo meu: "O Carrilho a dizer que tem 'um projecto para Lisboa' assusta-me tanto como imaginar o Bin Laden a dizer que tinha 'um projecto para Nova Iorque'". Diz outro amigo meu: "Talvez o Carmona pagasse bom dinheiro pelos direitos de utilização dessa piada".

PP/BE

Chamem-me esquizofrénico, incongruente, delirante; mas a dúvida é esta: PP ou BE para Lisboa? Nos dois casos, não gosto de todas as ideias dos candidatos, mas gosto de algumas. Gosto, sobretudo, das ideias que não tiveram e das ideias a que se opõem. E gosto da serenidade no-nonsense com que se apresentaram nos (poucos) momentos de campanha que acompanhei. Talvez porque quer um quer outro saibam que não vão ganhar, e tenham menos necessidade de vender banha da cobra. Ou, como se diz em linguagem de candidatos municipais, "projectos".

Factos da vida

É uma verdade tão irrefutável como qualquer "facto da vida": Straub não é cinema para cachopos.

Rotina #2

Quem me tira a rotina tira-me tudo; quem me condena à rotina, também.

(teoricamente, isto é uma citação minha)

Rotina

Sou como qualquer cão que se passeia: quero que seja sempre parecido e que seja sempre absolutamente diferente.

(teoricamente, isto é uma citação de Gertrude Stein)

Tuesday, October 04, 2005