«O Demoníaco segundo Sören Kierkegaard em Monsieur Ouine de Georges Bernanos» – 9ª e última parte, por Juan Asensio

O hermetismo, esse falso segredo, só pode conduzir ao desespero e, por fim, ao suicídio, que parece ser o seu corolário infernal. Monsieur Ouine, vê-lo-emos, não se suicida nem desespera porque o seu hermetismo, pela sua lógica inflexível, pelo seu apuramento, apresenta semelhanças com a lógica inexcedível de Satanás. O suicídio do maire de Fenouille é apenas sugerido por Bernanos (I, 1527) e parece infirmar o pensamento de Kierkegaard segundo o qual aquele que fala evita o suicídio (59); maire que, apesar de não ter tido falta de interlocutores, acaba, ainda assim, por já não suportar mais aquela espécie de monstruosa natureza que lhe faz sentir o cheiro imundo do universo, certamente porque não consegue extirpar do seu espírito doente a nostalgia da pureza, pureza que a sua obsessão doentia lhe recusa. O hermetismo de Monsieur Ouine é completamente diferente, assemelha-se a uma espécie de desespero permanente, um desespero cristalizado, de que é presa cruel, e que Gabriel Marcel definiu por estas palavras: «O desesperado não contempla apenas, não tem apenas diante de si essa repetição melancólica, essa eternização de uma situação que o paralisa como um barco preso no gelo; por um paradoxo dificilmente concebível, ele antecipa essa repetição, ele vê-a no próprio instante, e tem ao mesmo tempo a amarga certeza de que essa antecipação não o livrará de continuar a viver a provação todos os dias, indefinidamente, até àquela destruição que, a falar verdade, também antecipa, mas não como um remédio: como uma suprema afronta ao desaparecido a que o seu luto garantia ainda, apesar de tudo, uma aparente sobrevivência.» (60) O suicídio pode, pois, parecer, aos olhos do infeliz, a única forma de quebrar o fechamento; Marcel fala de «encanto» maléfico, o círculo que o desespero permanente parece criar indefinidamente à sua volta; poderíamos assim dizer, com Jean-Luc Marion, que ele é «a figura terminal da lógica do mal» (61). Há outra, essa consumpção final que evocámos no nosso artigo ao examinar as relações entre as obras de Bernanos e Conrad, consumpção que é o resultado de um fechamento ou hermetismo absolutos. A este respeito, a aparente banalidade da personagem do antigo professor de línguas é como que a prova e o resultado do enclausuramento a que se entregou: deste modo, Jean-Luc Marion afirma que se não podemos, «para constatar a sua existência, encontrar alguma vez Satanás, a impossibilidade advém, sem dúvida, do fechamento inultrapassável de Satanás […]. » (62) Assim, Satanás, como Ouine, é o idiota absoluto, palavra cuja etimologia nos convida a pensar a íntima relação existente entre uma inteligência viva e a vontade de se perder (63), de mergulhar irremediavelmente no abismo desse ciclo derradeiro, esse malebolge dantesco que «o encerra numa solidão tão absoluta, numa identidade tão perfeita, numa consciência tão lúcida e numa sinceridade tão transparente consigo mesmo que se torna a negação absoluta da pessoa – o perfeito idiota (64)». O idiota absoluto é, pois, também a última fase do hermetismo que, porque se espiritualizou, isto é, aqui, radicalmente interiorizado (65), pode, em absoluto, tomar qualquer aparência exterior, mesmo a mais banal: Monsieur Ouine tem «um aspecto vulgar» (I, 1386) e é essa banalidade que em Bernanos esconde a perversão maior, mais espiritualizada, mais essencial, no sentido primeiro da palavra. (66) Uma passagem do Journal de Kierkegaard intitulada Que significa comprometer a alma? ilustra bem o destino do antigo professor de línguas: «Se conseguisses tecer à tua volta, e à volta de tudo aquilo de que gostas, uma rede tão fina que nada conseguisse penetrar nela, nem perigo, nem… – e vivesses em segurança nessa fortaleza – mas comprometesses também a tua alma… Há uma corrupção exterior que salta à vista de todos – mas há outra que corrói em segredo as forças da alma.» (67) É por ter construído essa fortaleza inexpugnável que o encerra e aprisiona que compreendemos que a palavra de Ouine não pode atravessar a orbe impenetrável; ao contrário do que diz Chrétien (68), o demoníaco não perde a palavra mas, pensamos nós, como o verdadeiro buraco negro, e procurámos mostrá-lo, deixa o universo impregnado de luz. Ouine, essa «fascinante zona de desabamento» como lhe chama Jean-François Migaud num artigo notável (69), deixa um mundo inundado da palavra, carregado dela, porque, interroga-se Chrétien, como «seria ele tão estranho ao verbo, ele que não subsiste, segundo a fé, senão pelo Verbo?» (70) E Ouine, teríamos então o direito de perguntar, como poderia ele comprometer-se a ponto de existir fora do Verbo?
«Deus está tão próximo de Belzebu como do Serafim,
A não ser que Belzebu lhe vire as costas.» (71)
Não procuraremos, como alguns fazem (72), «reabilitar» Monsieur Ouine, dar-lhe aquilo que poderíamos chamar um «fim honroso», resgatá-lo sem grande custo. Há um certo impudor, de facto, quando se trata do destino de um ser de papel, em inflectir uma agonia mais numa direcção que noutra. Principalmente, vemos nestas leituras «post-mortem» uma flagrante falta de rigor hermenêutico, uma manifesta infidelidade à complexidade do texto, à sua forma suspensiva (73): da sorte de Monsieur Ouine, dissemo-lo, o leitor nada pode conhecer, visto que o horizonte em que se fecha é o de uma palavra que se esgota, que se extingue, que se consome e sucumbe, sob o seu próprio peso, poderíamos dizê-lo, não deixando atrás de si qualquer vestígio, qualquer informação susceptíveis de nos indicar o que há nesse lugar que o seu desaparecimento cavou, aberto enquanto dura a agonia e depois fechado para sempre. Devemos, no entanto, confessar que, de uma forma um pouco inconveniente, também nós pensámos concluir este artigo adoptando a categoria kierkegaardiana da «Reparação» ao destino de Ouine, embora, evidentemente, esta noção fosse mais útil e pertinente no caso de um Cénabre (74), salvo, resgatado por Chantal (75) e Chevance. (76) Reparação, enquanto movimento de avanço, o oposto até do «recordar», que, segundo o filósofo, é «uma acção de recuo» (77) à qual poderíamos associar o peso do passado, a «obsessão com o passado» (78) que parece condenar Ouine à repetição escusada e ao repisar contínuo; reparação enquanto salto de fé, rasgo que produz, na actual manifestação de tédio, a novidade incessante da eternidade, a ampliação ontológica de um presente que seja presença pura, presença real, iminência de fé. Renunciámos, contudo, a uma interpretação que, perfeitamente autorizada pela filosofia de Kierkegaard, tivesse acrescentado uma interpretação mais ao cortejo desssas explicações que se ufanam de pronunciar-se sobre um destino que, não obstante, continua rigorosamente insuspeito para elas. E fizemo-lo para inflectir a nossa reflexão para aquilo que se mantém impensado nesta obra de Bernanos. Parece-nos assim que o comentador de Monsieur Ouine que seria mais consequente com a própria ambiguidade do texto seria aquele que, para a personagem epónima, estabelecesse um espaço inédito, fizesse da sua agonia uma leitura absolutamente paradoxal, escandalosa, portanto, no sentido primeiro do termo que designa uma pedra na qual tropeçamos, mas também o verdadeiro sal de toda a fé: por leitura paradoxal, entendemos o facto de dizer que o antigo professor de línguas é o Cristo. «O paradoxo absoluto», assim escreve Sören Kierkegaard, «seria o filho de Deus fazer-se homem, vir ao mundo, viver nele de maneira a passar despecebido de todos, sendo estritamente um indivíduo como os outros, com um ofício, uma família, etc. […] Nesse caso, Deus teria sido o supremo ironista […].» (79) O paradoxo absoluto seria que Ouine, mais que um falso Cristo ou um Cristo invertido, fosse o próprio Cristo, mas um Cristo fechado no mutismo de uma palavra perdida, o Cristo apofático (80), negativo por excelência; o paradoxo absoluto do hermetismo demoníaco seria, por conseguinte, que a própria abertura ao Bem permanecesse absolutamente incógnita, oculta, como um fechamento perfeito. É preciso, portanto, a propósito do último romance de Georges Bernanos, procurar ir mais além daquilo que foi avançado, por exemplo, por Max Milner, que escreveu: «[…] do ponto de vista filosófico ou teológico, parece-nos que [a] cena [da agonia de Monsieur Ouine] é exactamente a inversão da Paixão, na medida em que, por exemplo, na agonia de Cristo e na de qualquer cristão, […] o parecer se junta ao ser, quando, para Ouine, o ser se funde, pelo contrário, no parecer. O cristão funde-se em Deus, Monsieur Ouine incorpora o seu ser no não-ser.» (81) É preciso ir mais longe constatando, com Ernest Beaumont, que Monsieur Ouine, evidentemente, «não está menos impregnado da pessoa de Cristo» (82), ligando essa presença irrecusável à sua ausência manifesta, como que em vazio, à semelhança de um molde que nada é sem o metal que virá a revelar a sua forma oculta. A rigidez de mármore de Ouine cadáver não é, finalmente, senão a concretização puramente exterior de uma reclusão espiritual rigorosa, a tal ponto hermética que o leitor do romance de Bernanos experimenta, mais que uma polissemia muito apreciada pelos nossos contemporâneos, uma suspensão da sua apreciação, uma “enigmaticidade” absoluta quanto à sorte de Ouine. Pierre Gille procurou, a nosso ver, pensar aquilo que podia ser essa identidade rigorosa, essa coincidência absoluta entre os opostos, quando escreveu: «Talvez não soubesse existir palavra verdadeira, nessa morte da Palavra, senão a que se inscreverá, como a cinzel, sobre o corpo rígido e enfim silencioso do morto.» (83) Não podemos, pois, dizer que o drama de Ouine seja o de ele próprio ter ignorado a sua estranha forma de eleição infernal: como o olho que não consegue ver-se, só demasiado tarde Ouine consegue compreender que o seu próprio segredo é completamente inexistente, que é o próprio vazio, não a Palavra mas a sua própria extinção, a sua anulação, uma «logofagia», poderíamos nós dizer, virada contra si mesma. O ser infernal que mais próximo está de Cristo, na obra de Bernanos, é indubitavelmente Ouine, o qual, como o Fausto de Pessoa, teria podido fazer suas estas palavras: «Sou o Cristo negro, / Pregado na cruz ígnea de mim mesmo. / Sou o saber que ignora» (84), com uma ressalva, mas de monta, mas ontológica: o antigo professor de línguas vira resolutamente as costas ao Salvador.
A 1ª parte pode ser lida aqui. A 2ª parte aqui. A 3ª aqui. A 4ª aqui. A 5ª aqui. A 6ª aqui. A 7ª aqui. E a 8ª aqui.
Tradução de Carlos Sousa de Almeida
Imagem: Noronha da Costa
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(59) Gabriel MARCEL, Homo Viator [sem tradução portuguesa] (Paris, Association Présence de Gabriel Marcel, 1998), p. 54.
(60) Jean-Luc MARION, loc. cit. 1, pp. 24-5.
(61) Ibid., p. 36.
(62) Traité du désespoir, op. cit. 8, p. 131 : «Quanto mais o desespero se impregna de reflexão, menos é visível neste mundo, ou menos se encontra.»
(63) Ibid., p. 38.
(64) Como precisa Kierkegaard ao escrever: «Mas à medida que se espiritualiza, cada vez mais, por prudência demoníaca, quer ocultar-se sob o hermetismo, e, por consequência, tomar formas ordinárias, o mais insignificantes e neutras possível», Traité du désespoir, op. cit. 8, p. 155, e ainda, pp. 154-5 : «As formas mais baixas do desespero, sem interioridade real ou sem nada a dizer absolutamente, devíamos representá-las limitando-nos a descrever ou a indicar com uma palavra os sinais exteriores dos indivíduos. Mas quanto mais o desespero se espiritualiza, mais a interioridade se isola como um mundo encerrado no hermetismo, mais indiferentes se tornam as aparências sob as quais o desespero se esconde.»
(65) Como o lembra justamente Claude-Edmonde Magny, escrevendo que «Monsieur Ouine […] é sempre apresentado indirectamente e como escondido pelo próprio gesto que o mostra […], através das suas próprias conversas, que no-lo ocultam mais seguramente que o silêncio por causa da protecção perfeita que constituem a sua bonomia, a sua aparente gentileza […]», EB 5, pp. 9-23, p. 21.
(66) Journal, op. cit. 10, III A 139, p. 230.
(67) Cf. loc. cit. 1, p. 161 : «Perder a palavra é evitá-la ou recusá-la […].» Ouine, pelo contrário, não pára de falar.
(68) Jean-François MIGAUD, «La nuit du Faussaire. Réflexion sur Monsieur Ouine» in Paradoxes et permanences de la pensée bernanosienne [sem tradução portuguesa] (sob a direcção de Joël Pottier, Paris, Aux amateurs de livres, 1989, pp. 108-129), p. 115.
(69) Jean-Louis CHRÉTIEN, L’arche de la parole, op. cit. 3, p. 175.
(70) Angelus SILESIUS, L’errant chérubinique [O Peregrino Querubínico, tradução brasileira] (Lac Noir, Arfuyen, 1993) no dístico «Dieu est de tout également proche», p. 172.
(71) Por exemplo, de um Guy Daninos no seu artigo «Monsieur Ouine, le roman de l’espérance » in Paradoxes et permanences de la pensée bernanosienne (op. cit. 68), p. 101 : «É lícito supor que M. Ouine seja resgatado no fim da sua longa e dolorosa confissão, tanto mais que teve o mérito de explorar a sua alma sem a menor complacência.» William Bush, designadamente em Souffrance et expiation dans la pensée de Bernanos [sem tradução portuguesa] (Paris, Minard Lettres Modernes, «Thèmes et Mythes», n°8, 1962), p. 94 : «A fome que perturba M. Ouine na morte, reconhece-a ele como a fome que só Deus pode satisfazer, fome saciada até aí pelos segredos das jovens almas que tinha devorado? Quando cai em si, não está M. Ouine a esforçar-se por renascer?». Em L’angoisse du mystère Essai sur Bernanos et M. Ouine (Paris, Minard Lettres Modernes, «Situation», n° 11, 1966), p. 185, onde o autor escreve esta frase significativa: «Piedade, pois, para M. Ouine».
(72) A este respeito, as palavras lapidares de Jean Bollack deveriam ser meditadas com proveito: «Não há censura mais forte que a celebração, principalmente se o conteúdo dos textos for crítico», in Sens contre sens. Comment lit-on ? Entretiens avec Patrick Llored [sem tradução portuguesa](Genouilleux, La passe du vent, 2000), p. 172.
(73) Cénabre, ao qual esta observação de Kierkegaard se aplica claramente: «Não poderíamos conceber alguém, capaz de viver toda a sua vida no incessante tormento de não ter fé, e a quem seria preciso dizer, e a quem diríamos: Mas, meu caro, tu tinhas fé, e a tua inquietação não foi senão a dor da interioridade. » in Journal, op. cit. 10, VI A 107, p. 363.
(74) Do papel de Chantal, poderíamos escrever aquilo que Kierkegaard escrevia do papel da noiva em La Reprise: «Religiosamente falando, tudo se passa como se o próprio Deus se servisse dessa jovem para […] cativar [o seu noivo]. » in La Reprise (sob o pseudónimo de Constantin Constantius) (Paris, trad. e notas de Nelly Viallaneix, Flammarion, 1990, « G.F. »), p. 129. Para uma definição da reparação, cf. esta mesma introdução de Nelly Vialllaneix, p. 19 : «A reparação mais não é que esse novo nascimento, esse renascer, essa vida nova, esse recomeço. É uma categoria religiosa por excelência, uma categoria religiosa cristã.»
(75) Pierre Boutang evoca os complexos laços que, em sigilo, unem Cénabre, Chevance e Chantal ao escrever: «Nos dois pólos encontram-se o abade Cénabre e Chantal de Clergerie ; o abade Cénabre, em quem o orgulho do «mesmo», de ser criado para a salvação, faz esquecer e depois negar a possibilidade radical de se perder, e com isso toda a fé de ser criado; Chantal [...] sobrenaturalmente submetida a esse fatum e a essa graça de depender, para a sua salvação, das coisas mais pobres e mais pequenas do mundo. Entre eles diversos graus de segredo, segundo a modalidade, esquecida ou consciente da salvação, segredo do pecado para Mme. de Clergerie, segredo da angústia na agonia no abade Chevance.» in Ontologie du secret, op. cit. 29, p. 142.
(76) La Reprise, op. cit. 73, pp. 65-6.
(77) Segundo o título de um artigo de Paul Gregor in EB 5.
(78) Journal, op. cit. 10, IV A 103, pp. 278-9.
(79) Philippe LE TOUZÉ, Le mystère du réel dans les romans de Bernanos. Le style d’une vision [3.ª parte da tese] [sem tradução portuguesa] (Paris, Librairie A.-G. Nizet, 1979), p. 31 : «Em Monsieur Ouine, […] o itinerário da redenção não está ausente da estrutura, está presente em negativo».
(80) Max MILNER, Georges Bernanos, op. cit. 44, p. 598.
(81) Ernest BEAUMONT «Le sens christique de l’œuvre romanesque de Bernanos», EB 3-4, pp. 88-100, p. 97.
(82) Pierre GILLE, Bernanos et l’Angoisse (Nancy, Presses universitaires de Nancy, 1984), p. 306.
(83) Fernando PESSOA, Faust [Primeiro Fausto, Primeiro Tema, XXI] (Paris, Christian Bourgois, 1990), p. 162.