
"A realidade é invertida no reflexo.
A verdade, torna-se ilusão.
O que vês, é uma simulação da vida e não a própria vida.
De tanto sonhar, estás entorpecido.
Este mundo é a imaginação de Deus
e não existe senão dentro d'Ele.
Porque te preocupas e te deprimes?
Porque te afogas nas águas da emoção e da melancolia?
Consola-te e reage!
Afinal, nada disto está acontecendo.
Tu não és; eu não sou."
O que se vê:
- o tanque de água (matéria primordial)
- o caranguejo que emerge (devorador do transitório, como o escaravelho entre os egípcios)
- os cães que interceptam a passagem (guardiães, qualificadores da aptidão do viajante para enfrentar o mistério), as torres no horizonte (cheias de ciladas e também de portas – meta, fronteira).
Cirlot imagina que os cães impedem a passagem da Lua para o domínio do logos (conhecimento solar) e comenta a descrição de Wirth sobre
o que não se vê na gravura:
........
“Atrás dessas torres há uma estepe e atrás um bosque (a floresta das lendas e contos folclóricos), cheio de fantasmas. Depois há uma montanha e um precipício que termina num curso de água purificadora. Essa rota parece corresponder à descrita pelos xamãs em suas viagens extáticas."
O que parece evidente é que o Arcano XVIII está mais relacionado que qualquer outro com o plano iniciático da via húmida (lunar). É por isto que Wirth o relaciona à intuição e ao imaginativo, ainda que entre suas interpretações mais recorrentes figure a sensualidade. A aproximação do Arcano XVIII com o vasto simbolismo lunar seria interminável, desde a sua relação com o ciclo fisiológico feminino até o panteão das divindades noturnas, passando por suas implicações cósmicas, mágicas e astrológicas.